sebenta de anotações esparsas, pensamentos ociosos, reflexões cadentes, poemas difusos, introspecções de uma filosofia mais ou menos opaca dos meus dias (ou + reminiscências melómanas, translúcidas, intra e extra-sensoriais, erógenas, esquizofrénicas ou obsessivas dos meus dias)
-
cahier de notes éparses, pensées oisives, réflexions filantes, poèmes diffus, introspections d'une philosophie plus ou moins opaque de mes journées (ou + de réminiscences mélomanes, translucides, intra-sensorielles et extra-sensorielles, érogènes, schizophrènes ou obsessionnelles de mes journées)

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Prémio Nobel da Literatura 2008 atribuído ao escritor francês Jean-Marie Gustave Le Clézio

A Academia Sueca atribuiu hoje o Prémio Nobel da Literatura 2008 ao escritor francês Le Clézio.

Segundo a Academia Sueca, o autor francês caracteriza-se como sendo um “escritor da ruptura, aventura poética e êxtase sensual, explorador de uma humanidade mais além e na base da civilização reinante”. O que impressiona mais é a sua escrita revolucionária, indignada, revoltada contra o mundo onde impera o materialismo, e a sua acérrima defesa em prol dos mais fracos e desfavorecidos.

De ascendência britânica por parte do pai e bretão por parte da mãe, Jean-Marie Gustave Le Clézio nasceu em Nice, no sul da França, a 13 de Abril de 1940. Terá escrito, diz-se, o seu primeiro livro aos sete anos durante uma viagem até à Nigéria. Desde aí já escreveu mais meia-centena de obras e a sua literatura, dos ensaios aos romances, continuou impregnada das viagens que mapearam a sua vida e das culturas que cruzou.

Licenciado em Letras, vence aos 23 anos o Prémio Renaudot. Foi professor nas Universidades de Bristol, Londres e actualmente em Albuquerque, nos Estados Unidos, onde vive. Em França, é considerado por muitos, desde os anos 90, o "maior escritor vivo da língua francesa".

No próximo dia 10 de Dezembro receberá em Estocolmo um cheque de 10 milhões de coroas suecas (1,02 milhão de euros), valor do prémio nobel da literatura.

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

O meu cais de abrigo, longe dos barulhos do mundo




É aqui que os Cadernos do Gaspar são escritos,
é aqui que desagua a minha prosa
quando extravasa as minhas margens
é aqui que brota a minha poesia
que os meus manuscritos são reescritos
revistos, corrigidos, re-reescritos
é aqui que os meus rabiscos arabescos
rascunhos gatafunhos, esquissos ariscos
tomam forma
é aqui que me deixo inspirar por vezes,
intimidar também, pelas obras e sombras de meus mestres
pelas minhas musas, pelos meus amores e dissabores
pelas minhas aventuras, desventuras e aventuranças

Aqui
longe dos barulhos do mundo

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Referendo sobre o aborto em Portugal : um filme + um debate

Abadia de Neumünster, no Grund / 13 de Outubro
Um filme e um debate sobre o aborto em Portugal
Em Fevereiro de 2007, os portugueses eram chamados às urnas para se pronunciarem em referendo sobre a despenalização do aborto, lei que viria a entrar em vigor em Junho do ano passado.
A Abadia de Neumünster e os Amigos do 25 de Abril (A25A) regressam à temática que dividiu Portugal através da exibição do documentário "Convicções", no dia 13 de Outubro, pelas 19h, na sala A21 da abadia, no Grund.
Realizado por Julie Frères, o filme parte do quotidiano de quatro mulheres com convicções radicalmente opostas sobre a questão. A película prossegue com a campanha referendária pró e contra a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, dos bastidores à cobertura dos media, passando pelos confrontos verbais e as manifestações que saíram à rua.
"Convicções" recebeu a menção especial de melhor longa-metragem portuguesa no 5° Festival do Cinema Documental de Lisboa, "Doclisboa 2007". O filme é uma co-produção belgo-franco-portuguesa (Tribu Films, Les Films de l’Après-Midi, Filmes do Tejo), tem a duração de 55 minutos, e será exibido na versão original portuguesa, com legendas em francês.
O serão, que contará com a presença da realizadora, será seguido de um debate.

JLC, in Contacto, 24.09.09

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Hábitos imobiliários da comunidade portuguesa no Luxemburgo

No âmbito da XI Semana da Habitação, que decorre entre 3 e 6 de Outubro no centro de conferências e feiras Luxexpo, no Kirchberg, conduzi uma série de entrevistas com agentes imobiliários sobre os hábitos dos portugueses do Luxemburgo nesse sector.

Portugueses estão a renovar o caduco parque imobiliário luxemburguês

Nos últimos 20 anos, a maioria dos portugueses no Luxemburgo preferiu comprar uma casa para renovar do que adquirir um apartamento novo. Com essa prática, estão a ajudar a renovar o envelhecido parque imobiliário do país.

Quando se emigra, a primeira preocupação é o emprego, depois a melhoria das condições de vida e finalmente uma melhor habitação.

Começa-se por arrendar o que está dentro das possibilidades financeiras, até porque a emigração começa por ser considerada como temporária, embora tenha tendência, quase sempre, para se ir dilatando no tempo.

No Luxemburgo, de locatários, nos anos 60 e 70, os portugueses passaram progressivamente a proprietários, durante os anos 80 e 90.

A tendência continua. Mais quais são os hábitos de aquisição imobiliária da nossa comunidade, num momento de crise internacional no sector, mas com o Grão-Ducado entre os únicos países a registar um número de pedidos crescente de novas construções?

"Os portugueses gostam de ter uma casa. Enquanto há clientes que preferem começar por arrendar e ser proprietários muito mais tarde, o português que reside no Luxemburgo pensa logo em comprar. Nem sempre alcança logo o que deseja, mas vive e trabalha para isso", assegura Carla Pedrosa, da agência ImmoAssur. A agente imobiliária chama-lhe "ambição tipicamente portuguesa", mas segundo ela, isso também se deve ao facto de serem pessoas que emigraram. "Quando se emigra é para ter uma vida melhor. Ter casa é sinónimo de ter conseguido essa aposta", diz. "O português sempre procurou adquirir um bem imobiliário porque gosta de investir onde mora", afirma de sua experiência Cristina Veigas, da agência C&L. "E porque se apercebeu que a 'pedra' (leia-se "o bem imóvel") é um valor seguro e nunca se perde dinheiro quando se compra uma casa no Luxemburgo", acrescenta. António Fonseca, da agência AFIL, não hesita em afirmar que "o imobiliário valoriza até mais que o próprio ouro".

INVESTIR NA "PEDRA"

Segundo as duas primeiras agentes imobiliárias, a maioria dos seus clientes portugueses podem investir entre 250 a 300 mil euros quando pensa em comprar casa.

Já os clientes portugueses de Sandra Lopes, da agência Slimmo, "dispõem de um orçamento que pode ir até 400 mil euros". Também segundo Tzvetan Marinov, um búlgaro que dirige a Braun Immo, "os portugueses procuram apartamentos até aos 300 mil euros e casas até aos 400 mil". A mesma experiência tem António Fonseca. Segundo este, a maioria dos seus clientes lusos investe "cerca de 300 mil euros num apartamento, e entre 350 e 380 mil numa casa". "Mas tudo é relativo", acrescenta logo de seguida. "Já tive clientes que investiram em casas de 700 mil euros. Por exemplo, em Differdange, existe toda uma zona com casas novas que custam 500 mil euros e 80 % dos compradores eram portugueses", refere.

Cristina Veigas confirma: "Os portugueses que estão cá há mais tempo e que já possuem um bem, vão vendê-lo para comprar outro num valor que pode ir até aos 400 ou 500 mil euros".

António Fonseca lamenta, no entanto, que os portugueses não se tornem mais frequentemente proprietários de casas novas. "Ainda há quem não tenha percebido que um bem imobiliário novo sai mais barato do que um em segunda mão", critica, referindo-se às obras de renovação ou à troca de instalações caducas nas habitações mais antigas.

De facto, todos estes agentes imobiliários observam que a maioria dos portugueses prefere comprar uma casa para renovar do que um apartamento novo. Uma tendência que não é só portuguesa.

Segundo Cristina Veigas, "com um orçamento igual, de 400 mil euros, por exemplo, um português ou um jugoslavo preferem uma casa grande, mesmo velha; um luxemburguês vai preferir um bom apartamento".

Mas como confirmam todos os agentes, isso acontece porque geralmente quem compra casas grandes e velhas são casais entre os 30 e os 40 anos, com um ou dois filhos. Procuram assim habitações com três quartos ou mais, entre os 120 e os 130 m2, "porque além dos 120 m2 para um apartamento ou 140 m2 para uma casa, as pessoas não podem beneficiar das ajudas do Estado", salienta Carla Pedrosa, embora a atribuição das ajudas também dependa dos vencimentos de cada lar.

Carla Pedrosa traça o retrato do cliente-tipo através de um exemplo. "Vamos imaginar que um cônjuge ganha 1.800 euros, o outro 1.500, e têm dois filhos, pelos quais recebem 500 euros de abono de família, o que dá 3.800 euros. Têm um carro a pagar: 400 euros/mês. Sobram 3.400. Para um banco, um casal precisa de, no mínimo, 40 % do que ganha para viver, ou seja, este casal não pode pagar mais do que 1.300 euros/mês. Por esse valor, os empréstimos por 25 anos não vão muito além dos 250 mil euros."

"Claro que há casais que estão acima dessa média", ressalva a agente da ImmoAssur, "mas a maioria encontra-se nesse patamar, outras estão abaixo, porque basta a esposa trabalhar 'a negro' e não poder apresentar as fichas de salário exigidas pelos bancos para o empréstimo não ser aceite".

"Embora existam bancos que aceitem o dinheiro ganho 'a negro' para acordar o empréstimo. Ora, como ter a certeza que o cliente tem ou não esses vencimentos e se são regulares? Foi esse tipo de práticas que também 'dopou' o imobiliário na última década", denuncia um outro agente imobiliário que pediu para não ser identificado.

Portugueses preferem comprar uma casa para renovar do que um apartamento novo

Cristina Veigas faz a mesma análise: "Alguns portugueses não podem dar mais do que 280 mil euros por uma casa. A esse preço só se encontram apartamentos com mais de 10 anos, com um ou dois quartos, ou casas velhas. É complicado encontrar no mercado um bem em bom estado e pronto a ser habitado nessa fasquia de valores. Felizmente, os nossos compatriotas não têm duas mãos esquerdas e conseguem revalorizar depressa esse bem. O importante para o cliente português é ter a sua casinha e depois o resto vai-se fazendo. Essa mão-de-obra por conta própria ou com a ajuda de familiares é hoje um bem precioso."

"Quando os clientes são jovens ou pessoas que não sabem ou não têm a possibilidade de fazer obras por si próprios, aconselhamo-los a optarem por um apartamento onde possam residir durante cinco anos e só depois pensarem numa residência maior", diz a responsável da C&L.

Para Sandra Lopes, "os jovens também já compram casas ou apartamentos para renovar, como a primeira geração fez". Carla Pedrosa regozija-se com o facto de os jovens portugueses já terem "a mentalidade de querer comprar assim que conseguem trabalho".

Cristina Veigas e Tzvetan Marinov analisam outra tendência: os portugueses recém-chegados compram uma habitação, mesmo pequena, assim que podem, mais depressa do que o fizeram os seus compatriotas nos anos 70.

O mesmo observa António Fonseca: "Os portugueses que estão cá há pouco tempo, quer dizer, há menos de 10 anos, perceberam mais depressa do que os imigrantes mais antigos que deviam investir no imobiliário".

CASAS DE SONHO OU DESEJOS IRREALISTAS ?

"Quando o cliente chega, traz na ideia a casa dos seus sonhos: uma vivenda com jardim, garagem, vários quartos", conta Cristina Veigas.

"Vocês vêm de uma país com muito sol, estão habituados a viver muito no exterior e uma casa com jardim para os portugueses é uma das exigências", garante o agente búlgaro.

António Fonseca considera que muitos clientes são irrealistas "porque não têm ideia do que vão pagar nem conhecem os preços do mercado".

"Preços irrealistas, todos procuram, não são só os portugueses", tempera Tzvetan Marinov.

"Não é que as pessoas sejam irrealistas", diz por seu lado Carla Pedrosa, "nem é porque não queiram comprar um bem por 400 mil euros, mas muitas vezes o banco não lhes vai emprestar porque não têm essa possibilidade financeira".

Todos os agentes imobiliários asseguram que grande parte do seu trabalho passa primeiro por dar ao cliente conhecimento da realidade do mercado.

"Até o cliente entender que o que deseja não corresponde às suas posses, visitamos com ele várias casas para perceber o estado do mercado. O cliente depois revê as suas prioridades", revela Carla Pedrosa. "As pessoas não têm muitas vezes posses financeiras porque quando vêm comprar casa, esquecem-se que têm outros empréstimos a decorrer", alerta Cristina Veigas. Carla Pedrosa não hesita em qualificar esses empréstimos, como, por exemplo, o que se contrai para comprar automóvel, de "permanentes", já que "as pessoas mudam de carro, em média, de quatro em quatro anos. E isso tem de ser contabilizado quando se pensa na compra de uma casa".
"A nossa função é aconselhá-lo para o bem imobiliário mais indicado, que mais se aproxime do que procura e que possa pagar", admite igualmente António Fonseca.

Cristina Veigas lamenta que "nem sempre a situação financeira do cliente coincide com as suas exigências e há que sacrificar alguns dos critérios. Cabe-nos a nós fazer-lhes compreender que a sua casa de sonhos não é a casa a que podem aspirar financeiramente. Pelo menos, naquele momento. A opção acaba por ser um apartamento sem jardim, sem garagem ou uma casa velha".

DO VELHO SE FAZ NOVO

Segundo dados do Observatório da Habitação do Luxemburgo, mais de 70 % das casas e apartamentos que se venderam entre 2006 e 2007 no país tinham mais de 10 anos, ou seja, apenas um terço eram habitações consideradas recentes. Um estudo feito em 2003 pelo Centro Universitário para o Observatório Social Urbano de Esch, e que se apoiava em dados do Statec, revelava que 48 % do imobiliário nacional era anterior a 1960 e 37 % anterior aos anos 90, representando assim 85 % do parque imobiliário luxemburguês. Apenas 14,5 % eram construções feitas após 1991. Ainda segundo dados de 2003 do Ministério do Interior (Programa Director do Ordenamento do Território, parte A), 75 % do imobiliário está nas mãos de proprietários, dos quais dois terços por herança e um terço por aquisição.

"A construção de habitações tem vindo a aumentar, há hoje muito mais casas e apartamentos novos no mercado do que há 10 anos, mas nós não temos trabalhado praticamente com habitações novas, porque não é o que a maioria dos nossos clientes procura", atesta Carla Pedrosa.

Segundo António Fonseca "os jugoslavos têm hábitos de compra imobiliários semelhantes aos portugueses, gostam de comprar grandes casas porque têm famílias grandes, e renovam-nas com a ajuda de família e amigos, como nós!".

À saída de uma das agências, um cliente que havia escutado a nossa entrevista aproximou-se de nós.

"Sabe, quando eu cheguei ao Luxemburgo em 1970, as casas eram todas cinzentas, mesmo as que não estavam sujas com o fumo das fábricas. Quando os portugueses começaram a comprar casas, pintaram-nas de todas as cores. Fomos nós que demos cor a este país, escreva aí, não se esqueça, hein...", insiste.

"Blague" à parte, o facto persiste. Devido à escassez de recursos financeiros para investirem em imobiliário recente, à facilidade em fazerem renovações, ao "know-how" que possuem, os portugueses (e os jugoslavos também) têm vindo a renovar parcialmente, nas últimas duas décadas, o caduco parque imobiliário luxemburguês. Fenómeno para o qual, infelizmente, ainda não foram apurados dados suficientes pelos organismos competentes.

Segundo agentes imobiliários: "Preços do imobiliário não estão a baixar, mas a reajustar-se"

Na última década registou-se um prodigioso aumento do preços das casas e apartamentos no Luxemburgo. Com a crise internacional no sector, o Luxemburgo resiste estoicamente, embora os preços tendam agora a recuar ou a estagnar.

"Em 10 anos, os preços duplicaram, triplicaram até!", lança Tzvetan Marinov, da agência Immo Braun.

A subida dos preços ficou a dever-se, segundo Cristina Veigas, da imobiliária C&L, à procura sempre crescente, mas também devido aos preços que iam sendo praticados por comparação. "O raciocínio era: se o meu vizinho vendeu a casa por 600 mil, então a minha, que é melhor, vale 700. Mas os preços dos bens anunciados na imprensa não correspondem ao preço a que finalmente serão vendidos, que desce sempre 20 ou 30 %", explica.

Carla Pedrosa, da ImmoAssur, também denuncia: "As pessoas vêem os anúncios e imaginam que aqueles são preços reais. Os anúncios indicam o preço que o proprietário quer, mas esse valor quase sempre é revisto em baixa aquando da venda."

Para Sandra Lopes, da agência Slimmo, "é difícil fazer perceber a um proprietário que o preço que pretende para a sua casa está além do valor real".

Alguns dos agentes confiam já ter recusado ocupar-se da venda de uma casa por considerarem que o preço pedido era demasiado elevado para o valor real.

"Sou pelo ajustamento dos preços. Quem vende tenta tirar o melhor partido, quem compra quer fazer o melhor negócio e eu sou a intermediária. Se sei que o bem está sobreavaliado, recuso-o, porque não me interessa coleccionar bens", garante a responsável pela C&L. Também a dirigente da ImmoAssur confia recusar vender um bem quando considera que não está ao preço do mercado, "porque sei que não vou conseguir vendê-lo". "Quando são 30 ou 40 mil euros a mais, ainda aceito, mas por vezes, o proprietário quer valores muito acima do valor real", afirma.

Para Carla Pedrosa, alguns bancos tornaram-se "cúmplices" da especulação imobiliária. "Não controlavam, concediam facilmente empréstimos e deixavam o cliente comprar um bem acima do seu valor real". Embora existam", ressalva, "instituições, como os bancos portugueses, em geral, ou a BHW, que enviam sempre um arquitecto antes de concederem um empréstimo".

Cristina Veigas também denuncia a espiral: "O cliente chegava a um banco, pedia um crédito para um bem cujo preço era a estimativa de uma agência. Ora, uma agência não é como um perito e nem sempre faz avaliações correctas dos imóveis. Muitos bancos fiavam-se na palavra do cliente e não pediam a um perito para proceder à avaliação do bem. O bem era adquirido por um preço mais alto do que o valor real e agora, com esta crise, o preço foi reajustado, em detrimento do cliente".

BASTA DE ESPECULAÇÃO !

"Desde 2006, os preços tendem a estagnar, mas é um simples reajustamento", analisa Tzvetan Marinov, estimando que "uma casa pode perder neste momento até 20 % do valor dado pelo comprador, se foi adquirido há poucos anos". Para corrigir logo de seguida: "Mas investir no 'tijolo' é sempre uma boa aposta".

"É uma rectificação. Os preços subiram muito e agora podem até descer", concorda Carla Pedrosa.

Segundo Cristina Veigas, "os preços das casas não vão baixar, vão reajustar-se". "Isso de se dizer que os preços estagnaram é relativo, porque em 2006 o preço do metro quadrado em Esch era de 3.100 euros e agora passou para 4 mil", analisa António Fonseca, da AFIL, para quem esta é uma "situação provisória".

Tzvetan Marinov também acredita que este é um processo cíclico e "não vai durar".

Carla Pedrosa explica porquê: "Apesar de a possibilidade de comprar ser menor porque as pessoas têm menos meios financeiros e porque os bancos já não facilitam tanto, a vontade das pessoas de se tornarem proprietárias não diminuiu".

Segundo estes agentes imobiliários, a estagnação dos preços do imobiliário pode durar um ou dois anos, mas está intrinsecamente ligada ao que acontecerá a nível internacional no sector.

"É altura para comprar... ou para vender o mais depressa possível, antes que os preços baixem ainda mais. Porque não se sabe quanto tempo vai durar a crise e se os preços não baixarão ainda mais", aconselha Carla Pedrosa.

Sandra Lopes faz a leitura do ano em curso: "Tanto a oferta como a procura eram poucas nos primeiros seis meses do ano, mas o mês de Setembro arrancou bem, há muitos bens a vender".

"As vendas vão continuar porque as pessoas estão cansadas de pagar rendas altas", conclui a agente.

"Como as vendas estagnaram, hoje há mais bens à venda. O lado positivo é que hoje o cliente tem muita escolha, o que não acontecia há cinco anos, e pode negociar um preço. A procura é muita, sempre foi, mas a diferença é que hoje a oferta também é muito maior do que há cinco anos", conclui, por seu lado, Cristina Veigas.

Longe da capital luxemburguesa ou mesmo além-fronteiras:
Casas baratas procuram-se!

"Quem casa, quer casa" e procura cada vez mais adquirir um bem imobiliário a preço modesto. Mas esses oásis ainda existem?

Unanimemente, os agentes imobiliários apontam o Sul ou o Norte como as regiões mais baratas. "Tudo o que seja longe da capital e dos centros urbanos", decretam. Os clientes seguem a rota dos preços onde as habitações são mais em conta. O êxodo já começou.

"Há muitos clientes que vivem numa casa arrendada na capital ou nos arredores da cidade do Luxemburgo e querem comprar em Esch ou Dudelange, porque dizem querer zonas com acesso fácil à auto-estrada. As pessoas geralmente gostam de ficar na comuna onde vivem, que já conhecem, só mudam se encontram algo que realmente lhes agrada. Mas o fluxo contrário, do Sul para a capital, não se verifica. As pessoas da capital escolhem Esch porque é mais barato, mas acham que Differdange é muito distante. Já as pessoas de Esch mudam-se facilmente para Differdange, porque aí os preços são geralmente mais baratos", diz Carla Pedrosa, da ImmoAssur.

Cristina Veigas, da C&L, concorda: "Differdange está a evoluir bastante. A procura para comprar casas aí tem aumentado muito. Há muito gente a vir da capital para o Sul. O contrário não acontece, os preços na capital são inacessíveis."

"Por enquanto, Differdange é mais barata a nível do imobiliário e os preços não deverão aumentar para já, porque além de a zona estar em franca expansão, a oferta lá também é maior do que procura", explica António Fonseca, da AFIL.

"Já em Esch", continua o agente imobiliário, "os preços estão a estabilizar no centro da cidade, enquanto nos arredores tendem a subir".

A responsável da C&L considera esse aumento de preços especulativo e atribui-o "à publicidade feita em torno do novo bairro de Belval". "A região menos procurada é a zona fronteiriça: Rodange, Pétange e Lamedelaine. Mas é onde existem casas a preços baixos porque são raras as pessoas que escolhem ir viver para essas localidades. Muitos consideram que fica longe da capital", diz Cristina Veigas.

"SALTAR" A FRONTEIRA

E depois há os que decidem comprar casa do outro lado da fronteira, onde o sonho está ao alcance das suas posses.

"Nos últimos dois anos, tem havido uma grande procura de casas no estrangeiro por casais portugueses e não só, sobretudo na fronteira belga e francesa. Escolhem essas regiões porque vão ter mensalidades mais pequenas nos empréstimos que contraem, pensam que é mais barato", assinala Cristina Veigas. "Mas a desvantagem", enumera, "é ter de fazer mais quilómetros para ir trabalhar e ter de escolarizar os filhos em França, já que no Luxemburgo muitos municípios pedem taxas de inscrição para alunos não residentes no território da autarquia. E não terão direito às ajudas do Estado que teriam no Luxemburgo".

"É verdade que em França, a 10 ou 15km de Esch, é possível encontrar uma vivenda com jardim pelo preço de um apartamento no Luxemburgo. São sobretudo casais jovens que se mudam para lá", nota Carla Pedrosa, acrescentando também que essas pessoas "se esquecem que vão ter de integrar as crianças numa escola francesa".

E embora defenda que "no Luxemburgo o imobiliário se valorizará sempre mais", Carla Pedrosa compreende que "muitos vão para França por necessidade, para pagar menos por mês, e que de outra forma não poderiam sonhar em ter uma casa. Há muitos prós e contras a considerar", conclui.

José Luís Correia (in Contacto, 01.10.08)

Fonte da imagem : Observatoire de l'Habitat

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Coffee-Lounge, best cappuccino in town

Coffee-Lounge, o melhor cappuccino do país

Nove e pico, a manhã está fria, como sempre. Um tecto cinzento de nuvens luxemburguês tapa o sol. Como sempre. Apetece mesmo um cafezinho. Entramos num simpático café há muito recomendado por hordas histéricas de conhecidos e amigos, o "Coffee Lounge". Na verdade, temos encontro com o Peter Runge, o proprietário do pequeno café situado no n°28, rue de la Poste, na capital. Este alemão radicado há meia dúzia de anos no Grão-Ducado havia-nos explicado que vir antes das 9h era má ideia para a reportagem do CONTACTO, porque é rush hour, hora de ponta, e não tem como largar o balcão com a multidão de adictos da cafeína que tomam literalmente de assalto o estabelecimento, assim que abre, às 6h30, e até à hora de entrada em muitas firmas.

Logo à entrada compreendemos que Peter não tem mãos a medir, prova de que o local é procurado mesmo nas horas mais calmas do dia. "Caffè Latte to go" (para levar), "Um grande cappuccino para o primeiro andar", "Um espresso e um Latte Machiatto para o segundo", as encomendas não param. O ritmo é frenético. Não fosse a simpatia contagiante de Peter e dos seus empregados, bem dispostos e sorridentes enquanto servem os clientes e nos pedem para escolher o que queremos tomar, teríamos desistido da reportagem. Mas queremos perceber porque tanta gente acorre diariamente para beber os cafés ali preparados.

O Coffee Lounge abriu há três anos e meio e hoje é um dos cafés mais frequentados do centro da capital. A localização, entre a place Aldringen e a place d'Armes, ajuda. Mas há mais. Há o serviço sempre esmerado e simpático. Há o local em si, um prédio com três pisos, estreito como um gaveto, mas decorado com charme e inteligência, com muitos espelhos e luz, mesas em madeira, assentos apoltronados. Dá vontade de ficar ali o dia todo, a bebericar café com leite, provando o bolo de cenoura caseiro e folheando a imprensa.

A arte do cappuccino
E depois há, claro, o cappuccino. Foi a sua fama que aqui nos trouxe. Enquanto conversa connosco, Peter prepara-nos um. Numa chávena pré-aquecida deita-se um espresso dopio (duplo), leite quente, com uma capa de espuma de leite. O acabamento é feito com perícia: uma flor desenhada na espuma quando o leite lhe é adicionado. "Tem que ser à primeira, se estivermos com muitas tentativas, o café fica frio e o cliente queixa-se", explica-nos o proprietário. A arte do cappuccino, revela-nos, foi-lhe transmitida por um torrefactor de Florença, que ainda hoje lhe fornece o café que ali comercializa.
Ao provarmos, compreendemos a insistência de tanta gente para que aqui viéssemos. Está delicioso! Um grande, genuíno e generoso cappuccino à italiana, com uma compacta camada de espuma de leite e um café bem encorpado.
"No cappuccino, o importante é dominar os três 'M': Máquina, Mistura e Mão", desvenda Peter. "É preciso conhecer a máquina e saber manipulá-la para tirar o melhor café. Depois, é preciso saber que quantidades de café e espuma de leite misturar. A mão que prepara tem de saber fazer o resto, a espessura da espuma, por exemplo", mostra-nos.
A dose de espresso que o cappuccino leva também tem o seu segredo. "As pessoas pensam que espresso quer dizer 'feito à pressa', mas a verdade é que significa feito 'espressamente' [expressamente] para uma pessoa ou ocasião, ao contrário do café, que antigamente era feito em grande quantidades", explica. E mais não quer dizer, ou não fosse o segredo a alma do negócio. Mas deixa escapar que usa sempre água filtrada para o café, nunca demasiada mineralizada, e leite fresco, gordo, sem ser reaquecido. "Tudo isso influencia o sabor", frisa. Depois há as preferências: cappuccino polvilhado com pó de cacau, chocolate ou xarope de caramelo, piccolo cappuccino, marocchino e por aí fora, num cardápio que parece nunca mais acabar de variedades de café misturado com tudo o que se possa imaginar de saboroso. Como o "white moccha" (leite quente, espresso, com chocolate branco no fundo do copo) ou o "monte bianco" (leite quente, espresso, pó de cacau, servido num cálice), verdadeiros "pecados" que tivemos também a oportunidade de descobrir.
"Fazem o melhor mocchaccino da cidade", diz-nos uma cliente americana habituée. "As saladas e sopas também são deliciosas", afiança-nos. Sim, porque a outra altura de grande afluência do Coffee Lounge é à hora de almoço, com um prato do dia diferente todos os dias, sendo o mais apreciado o risotto com scampis e espinafres (às quartas-feiras).
É a essa hora que se pode igualmente saborear o outro grande "achado" da casa para atrair clientes: o bagel, especialidade famosa na América do Norte e no Reino Unido. Trata-se de um pão anelado, ainda algo cru e elástico por dentro, com uma crosta estaladiça e salpicado com sementes de sésamo. O Coffee Lounge tem uma dúzia de variedades, do bagel indiano (com frango grelhado, caril e ananás) ao bagel vegetariano (com legumes grelhados, creme de queijo e tomate).
O Coffee Lounge, aberto de segunda a sábado, das 6h30 às 18h30, propõe ainda bolos caseiros, queques, muffins suculentos, além de pequenos-almoços irlandeses.

José Luís Correia
, in Contacto, 01.10.09

No Coffee Lounge pode beber-se um grande, genuíno e generoso cappuccino à italiana, com uma compacta camada de espuma de leite e um café bem encorpado
Fotos: JLC

Chegou o iPhone3G


À venda na Vox Mobile desde sexta-feira
Chegou o iPhone3G
O iPhone3G é um telemóvel de terceira geração que integra um GPS, entre outras funções e aplicações inovadoras na telefonia móvelEsperado há muito pelos adictos das novas tecnologias e disponível desde Julho em mais de 20 países (incluindo Portugal), a chegada do iPhone3G ao Grão-Ducado foi finalmente anunciada com grande pompa na quinta-feira pela Vox Mobile, que procedeu ao lançamento oficial na sexta-feira à noite.
O iPhone3G é um telemóvel de terceira geração (3G) inteligente (smartphone), segunda versão do iPhone da Apple, que integra um GPS (global positioning system), entre outras funções e aplicações inovadoras na telefonia móvel.
A loja Vox, situada no centro da capital luxemburguesa, esteve assim excepcionalmente aberta até às 21h na sexta-feira, tendo a venda começado apenas após as 18h. O stock nessa noite era de 150 iPhones3G e os vendedores podiam disponibilizar apenas um aparelho por cliente.
A Apple vai entretanto disponibilizar mais alguns milhares de aparelhos para o Grão-Ducado, mas a oferta continuará a ser limitada nas próximas semanas no Luxemburgo.
A operadora luxemburguesa Vox, filial da Mobistar e ligada ao grupo Orange, vende o iPhone3G a preços que variam entre os 124 e 314 euros, dependendo de se se trata do modelo de 8 ou 16 gigas (GB), e da assinatura a 35 ou 50 euros/mês (por 24 meses) pela qual o cliente opta.
Este novo iPhone pesa 133 gramas, tem 11,5 cm de altura, 6,2 de largura e 12,3 mm de profundidade.
Algumas das suas funções e aplicações: conexões mais rápidas e em alto débito à internet, com o navegador Safari; organização de chamadas em conferência; ecrã 3,5 polegadas multitouch; PDA; autonomia de leitura áudio de 24h e de leitura vídeo de 7h; entrada USB e ligação possível a computadores Mac ou PC; entrada para todo o tipo de auscultadores; os SMS apresentam-se como uma discussão em linha (ex.: msn), o que permite retomar uma conversa onde ficou "pendurada"; menor tempo de salvaguarda para iTunes; push-mails; instalação mais rápida de aplicações externas; descarregamentos mais rápidos; procura mais rápida de contactos; reconhecimento dos formatos pdf, jpeg, Word, Excel e Powerpoint; entre outras.
Os detractores do iPhone3G acusam-no, no entanto, de bloquear os softwares livres, exigindo a Apple uma taxa para o desbloqueamento, além de não ser compatível com formatos como o Ogg Vorbis e Theora. Não nos foi possível confirmar até agora estes dados, mas vale a pena fazer a pergunta aquando da eventual aquisição do aparelho.
O iPhone3G está disponível nas lojas Vox, nos balcões da Easyphone, na capital e em Strassen, bem como em estabelecimentos como a Apple Premium Resellers Lineheart, na capital, e a Computer Home, na Belle Etoile, em Strassen.

JLC, in Contacto, 01.10.09

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Palin vs Clinton



Tina Fey as Sarah Palin in the last "Saturday Night Live". Boy, that's was funny...

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

O homem-bolha

"(...) O homem cria bolhas para viver (...), refugiado de tudo, escondido de si. Bolhas de lã, bolhas de lona, bolhas de cabedal, bolhas de seda e polyester, de cimento e tijolo, de ferro e aço, de vidro e plástico, bolhas de ar, invisíveis, bolhas imaginárias e intocáveis, bolhas que não existem, virtuais, paranóicas e esquizofrénicas... O homem vive num tubo de ensaio a ensaiar-se a si próprio."

Alex Weytjens
do texto "Conversas (interiores) de café",
23.12.2005
(in Os Cadernos do Gaspar, vol. I)

sábado, 20 de setembro de 2008

When i'm coming to town












Pois é, quando chego ao Luxemburgo, é sempre assim. Obrigado aos papparazzis do site www.goodidea.lu :-)))

Rodange: flash to my past 1973-1984

Regresso ao passado, algo perturbador. A minha aldeia natal, entalada entre três fronteiras, transfigura-se.
A antiga escola primária Ecole des Garçons mudou de nome, chama-se "Neiwiss" agora. A escola está a ser renovada, os arredores estão em obras, toda a localidade está a mudar.
Construiram um centro desportivo no largo onde montavam a quermesse, onde eu pescava patinhos de plástico e onde eu aprendi a andar de bicicleta. O forte e o comboio em madeira do parque infantil onde eu brincava foram arrasados, substituidos por balancés e escorregas ergonómicos de cores ultra-berrantes e modernas, onde náo vi nenhuma criança. A mini-cascata que para mim parecia imensa foi abaixo e no lugar está um parque de estacionamento. Já ninguém se detém diante da velha locomotiva mineira, vestígio do património siderúrgico local, antes admirada, hoje grafitada impunemente.
A casa da minha infância foi demolida. Era um velho hotel, com salão de baile e tudo, no canto da rue de la Gendarmerie com a route de Longwy (n°67), que teve os seus tempos auréos no princípio do século passado. O que poderia ter sido considerado património municipal não foi recuperado. No local está a nascer uma residência com vários apartamentos. Uma residência igual a que foi construída no terreno baldio em frente, onde jogava à bola, à barra, às escondidas, ao apanha com os meus primeiros amigos, o Mário, o Narciso, o Tó-Luís, o Miguel, o Rui, a Chantal, o Jerôme...

sábado, 13 de setembro de 2008

"E pur si muove"

"Velhos do Restelo com os seus maus augúrios obscurantistas virão sempre tentar deter o progresso. 'E no entanto, ela move-se...'. Galileu não falava apenas da Terra, mas da Humanidade. E apesar de haver saltos para trás, estamos aqui para nos compreendermos, para entedermos este calhau e o universo que o rodeia. E se no final nada tiver sentido, isso terá dado sentido às nossas vidas. Foi o que pensou por certo Galileu e todos os Galileus do nosso tempo. Felizmente que os há ou ainda estaríamos a riscar paredes toscas com sangue de boi."


Comentário que deixei a 13.09.08, 7h58, no site do Público a propósito dos comentários iluminados de certos fanáticos que gritam histéricos que não se deve tocar no universo nem "chatear" Deus, reagindo assim à colocação em funcionamento do acelerador de partículas sub-atómicas (LHC) na quarta-feira em Genebra.

A maior máquina do mundo criada pelo Homem foi construída a 100 metros de profundidade no subsolo entre a fronteira suíça e francesa, envolve o trabalho de 6 mil cientistas de todo o mundo e visa recriar as condições do universo um bilionésimo de segundo após o Big Bang. É também o lugar mais frio do sistema solar e do universo conhecido, onde a temperatura atinge os 271,25 graus negativos, perto do zero absoluto. Nesses tubos com 60km de circunferência as partículas de hadrões (partículas sub-atómicas regidas por uma interacção forte) foram lançadas a uma velocidade muito próxima da velocidade da luz (299 792 458 metros por segundo) para se tentar entender como nasceu o universo e a primeira pulsão de matéria.
Os detractores do projecto avisam que se os cientistas perderem o controlo sobre o LHC, este pode explodor e criar um buraco negro que aspirará primeiro o planeta Terra e depois todo o sistema solar, incluindo o sol.

O LHC foi construído a 100 metros de profundidade no subsolo entre a fronteira suíça e francesa e começou a funcionar no dia 10.09.2008

Hannah - Belle ou la nouvelle libertine


O Gaspar que há em mim descobriu hoje uma série inglesa deliciosa: Secret Diary of a Call Girl.

Hannah (a actriz e cantora Billie Piper) veste todos os dias, várias vezes por dia, a pele de Belle. "Prostituta, escort lady, pêga, puta, dama de companhia, call girl, é apenas uma questão de semântica", como ela própria se apresenta.

Hannah não se droga, não foi violada quando era criança, não provém de uma família destroçada. "Sou preguiçosa, gosto de ser a minha própria patroa...ah, e gosto de sexo!", afirma peremptória, alegre e assumidamente. Belle não tem tabus no sexo, está sempre pronta a concretizar as fantasias mais dementes e loucas dos seus clientes. Estes revelam-se, no entanto, mais humanos que tarados sexuais. Demasiado frequentemente ao gosto de Hannah, que prefere ser amante profissional do que confidente. E é aqui que Belle quase deixa cair a máscara ao afirmar: "Prefiro os clientes com quem sou uma pessoa completamente diferente de mim, quanto mais diferente melhor". Por detrás daquele desembaraço libertino todo de Belle, - que destoa do flegma britânico de alguns dos seus clientes e essas cenas têm muita piada - há afinal a miúda - Hannah - que tem medo que os pais e o melhor amigo descubram a profissão que exerce.

A vida deverá levá-la a compreender que a separação dessas gémeas siamesas não é assim tão fácil (nem salutar) e que ela é as duas na mesma pessoa e que é isso que deve assumir. Belle tem um corpo esculpido para o pecado, Belle tem olhar de criança. Hannah e Belle. Aliás, penso que a escolha dos dois nomes da personagem principal pelos argumentistas da série não foram inocentes, já que se conjugam na perfeição para dar origem a uma terceira, evolução/fusão das duas primeiras: Annabelle.

Só vi dois episódios, mas é isto que adivinho sejam as cenas dos próximos capítulos... Juro que não li o livro em que a série se inspira (teria gostado, por certo!), escrito ao que sei por uma anónima cujo pseudónimo era "Belle de Jour" e retraçaria a sua própria experiência de vida. Em Portugal saiu um livro semelhante há um par de anos que obteve muito sucesso. Bom, mas não é por adivinhar o que se segue que vou deixar de ver a série. É a única novidade neste segmento após Sex in the City e Nip/Tuck. Isto agora só torna a coisa ainda mais interessante. "A beleza não está no destino, mas no caminho", não é o que preconiza o velho adágio filosófico? Será que Confúcio estaria a pensar nas séries ligeiramente picantes do princípio do século XXI quando aventou esta máxima? Gosto de pensar que na sua extrema e omniconsciente clarividência que sim ;-)

Hanna ou Belle... ou prefere two in one, Annabelle?

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Da Arquitectura III : Luxembourg - Biennale di Architettura di Venezia

Luxemburgo promove debate sobre arquitectura europeia e mundial

O Luxemburgo está representado na XI Bienal Internacional de Arquitectura de Veneza, que abre hoje e decorre até 23 de Novembro, com a mostra "Pontos de vista. 4 perguntas. 44 respostas". A exposição propõe uma plataforma de debate crítico em torno da arquitectura europeia e mundial. Doze 12 referências do mundo da arquitectura europeia respondem a quatro perguntas sobre como vêem arquitectura actualmente. Dizem os organizadores - a Fundação Luxemburguesa da Arquitectura e o Ministério da Cultura - que com as respostas pretendem "repensar a estratégia urbanística e arquitectónica do Grão-Ducado", por forma a "criar a identidade e a cultura arquitectónica de uma sociedade em vias de globalização". I surely hope so!

No pavilhão quer-se ainda da obra "LX Architecture - Contemporary Architecture from the Heart of Europe", que sem ser exaustiva apresenta 75 obras do país e é já considerada uma referência a nível nacional (32 pág., 400 fotos, disponível em inglês, francês, alemão e chinês).


"L'onde" no Fort Lambert restaurado (parc de la ville), cidade do Luxemburgo (Foto: JLC)

"Stroossefestival Stroossen" - 12 e 13 de Setembro

Zap Mama e Claudine Muno
no festival de rua de Strassen

Zap Mama, Claudine Muno & The Lunaboots e Nouvelle Vague são três dos grupos cabeças-de-cartaz do "Festival de Rua de Strassen" que a zona central daquela localidade recebe na sexta e no sábado.

Além da "world music" da belgo-zairense Zap Mama (antes uma banda, hoje apenas constituído pela cantora Marie Daulne) e da pop acidulada dos luxemburgueses Claudine Muno & The Lunaboots, no total são 40 grupos de música e companhias de artistas, saltimbancos, malabaristas, acrobatas e funâmbulos que vão invadir as ruas de Strassen com concertos, animações, teatro e artes circenses.

Lançado em 2002 e organizado de dois em dois anos, o Festival de Rua de Strassen, ou "Stroossefestival Stroossen", regressa para uma quarta edição, num evento que é já passagem obrigatória para moradores da localidade e zonas circundantes. A festa começa sexta-feira, dia 12, a partir das 19h, e prolonga-se pela noite dentro, na zona junto ao edifício da comuna e na mega-tenda "Blues", montada para a ocasião no parque Barblé contíguo ao recinto.

Do cartaz musical fazem ainda parte bandas como Nouvelle Vague (new wave/França), KMG's (acid-jazz/Bruxelas), Trio Philip Catherine (jazz/Bélgica), entre outros. À semelhança do ano passado, a banda soul luxemburguesa FunkyP estará presente na tenda "Blues". É aí que, ao fim da noite, amantes e DJs de música electrónica encontrarão asilo.

Os que preferirem um programa alternativo devem dirigir-se na sexta, pelas 19h, ao Centro Cultural Paul Barblé, onde os organizadores propõem o espectáculo musical patético-cómico intitulado "Furioso", que nos traz de França a troupe "Framboise frivole". No dia seguinte, à mesma hora, o grupo de teatro "De Spiegel" exibe o musical infantil "Tuishi Pamoja", que conta a história de uma amizade entre uma girafa e uma zebra. Mais informações e pormenores em www.strassen.lu, na internet.

JLC, in Contacto, 10.09.08

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Da Arquitectura II

ArQuiTeCtura
...
"(...) não é inspiração mas transpiração."

arquitecto Eduardo Souto Moura, in "Expresso", 06.09.08

Dancing House in Prag....wishing the same architectural boldness for Luxembourg!


Pudessem os arquitectos deste calhau alcantilado ser assim tão inspirados e arrojados. Debalde vou esperando.

Du caractère

"Il faut avoir beaucoup de caractèrepour ne jamais le montrer."

("Le huitième prophète", p. 141, Franz-Olivier Giesbert)

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Reading Monte-Cristo

Estou, de momento, a ler "O Conde de Monte-Cristo", numa velha edição da colecção Europa-América comprada num alfarrabista de Estói este Verão.
Já não me lembrava do cheiro característico destes livros e de como se despedaçam nas nossas mãos se os abrimos demais. Nem de tudo tenho saudades...

Mas é bom voltar a mergulhar nesta colecção das minhas primeiras leituras, em que descobri maravilhado a(s) literatura(s). Nos anos 80, eu não tinha dinheiro para primeiras edições e livros de capa dura, não havia de toda a maneira muitas outras colecções de bolso e foi a maneira mais barata de correr alguns clássicos. Ainda tenho nesta colecção Os Maias (já todos desfiados) que comprei quando andava no liceu. Os meus primeiros livros do Pessoa, Alexandre Herculano, Nietzsche, Kafka, Edgar Allan Poe e Charles Dickens, estes dois últimos num precioso volume de Contos Vitorianos que a EA decidiu em boa hora publicar. E até a República e o Crítias de Platão, quando andava na minha fase "Atlântida". E claro Alexandre Dumas. Foi com ele que fui Mosqueteiro e Tulipa Negra, antes de ser, ...muitos anos mais tarde... Indiana Jones.

Volto agora a deixar deliciar-me pelo seu universo, pela sua maneira de contar, de dizer as coisas. Ao lado, tenho uma versão francesa, que vou esporadicamente folheando para apreciar o trabalho do tradutor dos anos 70...

Já há tanto tempo que andava a protelar esta leitura. O Conde de Monte-Cristo é daqueles livros que havia posto há muito anos de lado e dissera de mim para mim: "É para ler mais tarde", mas acabei por nunca ter tempo para ele, como para muitos outros, aliás. Mas a este...vou fazer-lhe justiça.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Visita guiada ao Museu Nacional de História Militar, em Diekirch + Influências portuguesas no Luxemburgo durante a Segunda Guerra Mundial

"Não glorificamos a guerra, cultivamos o dever de memória"

Visitei um dos espaços museológicos ainda desconhecidos por muitos no Luxemburgo: o Museu Nacional de História Militar, em Diekirch.

O lugar é já muito frequentado por luxemburgueses mas igualmente por estrangeiros (cerca de 30 mil visitantes anuais). Estes últimos fogem, no entanto, às características habituais do turista que o país costuma acolher. Vindos sobretudo da Bélgica, Holanda, Alemanha, e um terço de mais longe ainda, dos Estados Unidos, são soldados veteranos, muitos já octogenários, que num périplo peregrino até ao Grão-Ducado com filhos, netos e até bisnetos, encetam um regresso ao passado comovente e por vezes doloroso. Voltam com o desejo de pisar o solo do país que libertaram entre 1944 e 1945 do jugo nazi, querem ver se reconhecem sítios e lugares, se se cruzam com rostos familiares, ao mesmo tempo que recordam onde caíram irmãos de armas.

Fundado em 1982 por um grupo de amadores, o Museu Militar de Diekirch especializou-se na memória da Batalha das Ardenas (de 16 de Dezembro de 1944 a 25 de Janeiro de 1945), dos aliados libertadores e dos luxemburgueses que a seu lado combateram. E por extensão, com o passar dos anos, a instituição passou a ser a referência em termos de história militar nacional, ou não fosse a cidade ainda hoje dotada de uma guarnição e de uma escola militar no Herrenberg vizinho. A visita a este museu faz aliás parte da formação de base dos recrutas.

Roland Gaul, curador e fundador do museu, começa por esclarecer: "Nas visitas guiadas, sobretudo quando se trata de turmas de jovens, a primeira mensagem que lhes é transmitida é que este não é um lugar para glorificar a guerra, mas para cultivar o dever de memória. Recordamos e contamos às novas gerações o que aconteceu para que a História não se repita". Na visita guiada, somos conduzidos por Roland Gaul e por Daniel Jordão, um jovem luso-descendente, membro e colaborador científico benévolo da instituição (ver artigo infra).

A guerra em tamanho real

Ao entrarmos, algo que logo nos interpela são os "dioramas" – quadros fidedignos de momentos quotidianos da Batalha das Ardenas, com manequins vestidos a rigor, material, máquinas, veículos e armas da época em tamanho real.

Um dos quadros onde os visitantes mais se detêm é o que recria o Dia de Acção de Graças festejado pelas tropas norte-americanas no Luxemburgo no Inverno de 1944 e em que se pode ver um peru recheado a ser assado num fogão improvisado e os soldados a confraternizarem com a população local.

Mais à frente, o maior diorama do museu reconstitui a difícil travessia do rio Sûre para a libertação definitiva de Diekirch, em Janeiro de 1945, operação conduzida num dos Invernos mais rigorosos de que há memória, com temperaturas que chegaram aos 23 graus negativos. Uma recriação apenas possível graças ao generoso donativo, em 1987, de 200 mil dólares por parte de um milionário americano, Harry Gray, ele próprio mobilizado nas Ardenas em 1945 [n.d.R.: Gray foi um dos administradores da "United Technologies Corporation", conglomerado que constrói elevadores (OTIS) mas também helicópteros e motores de avião (para a Boeing e para o exército americano, por exemplo)].

"Os quadros foram conseguidos através de um minucioso trabalho de reconstituição a partir de fotos, documentos e entrevistas com particulares e soldados veteranos", explica-nos Roland Gaul. O responsável faz questão de frisar que estas são sempre "representações ponderadas", ou seja, quer se trate de representar soldados alemães, aliados ou a população civil, "a preocupação é sempre de o fazer com a máxima objectividade possível".

Numa das salas foi recriado um campo de prisioneiros soviético onde as tropas vermelhas haviam detido luxemburgueses que envergavam uniformes nazis, mas que haviam sido alistados à força. "Infelizmente os luxemburgueses eram incapazes de se fazer entender pelos soldados russos e ficaram presos até ao fim da guerra", conta.

"Os visitantes gostam sobretudo de ficar a conhecer as histórias humanas, de saber o que pensava o soldado anónimo, como vivia o dia-a-dia na frente de combate, o que comia, como fazia para sobreviver perante as condições rudes e os ataques inimigos. Interessam-se curiosamente também pelo conteúdo das rações. Por exemplo, gostam de ver exemplares das chicletes, das barras de chocolate e das garrafas de Coca-Cola que faziam parte de algumas das rações dos soldados americanos, produtos que estes partilhavam com os autóctones, que não conheciam ainda alguns desses alimentos", revela.

Reduto da História Militar Nacional

O museu reparte-se sobre quatro andares, num total de 3.200 m2, e tem 28 mil artigos catalogados, distribuídos por diversas exposições temáticas. Patente está, por exemplo, uma colecção de todos os uniformes usados até hoje pelas tropas grã-ducais, desde a Primeira Guerra Mundial até às recentes missões humanitárias e de paz. "O próprio grão-duque Jean, o antigo soberano, doou já uniformes seus ao museu", frisa orgulhoso Roland Gaul. Muito do vasto espólio militar exposto foi aliás doado pelo Exército luxemburguês.

O numeroso material bélico distribui-se não só pelas exposições temáticas mas igualmente num dos primeiros hangares em que o visitante penetra e que mais parece de um armazém militar, o que, desde logo, impressiona. São peças de artilharia ligeira e pesada usadas na Segunda Guerra Mundial, blindados alemães, tanques, jeeps americanos, pára-quedas, um exemplar da máquina "Enigma" (utilizada pelos Alemães para enviar mensagens codificadas durante a guerra), material médico e de transmissão, velhas metralhadoras, bazucas, espingardas, revólveres, munições, obuses, granadas, entre outros.

Estes dois últimos items são aliás dos mais doados pela população civil (depois de o Exército intervir para proceder à sua desactivação, como foi o caso nos últimos dias com bombas da Segunda Guerra Mundial encontradas na estrada CR342, em Hosingen, e no campo de futebol Op Flohr, em Grevenmacher), que ainda hoje, mais de 60 anos depois do fim da guerra, os vão encontrando semi-soterrados em caminhos florestais ou de cada vez que alguém escava fundações para construir uma casa. Segundo o curador, há quase todas as semanas doações de bens familiares da época da guerra, como capacetes, botas militares, fotos, correspondência, etc.

O museu dispõe de 15 mil documentos, entre livros e fotos, que estarão brevemente disponíveis ao público na futura biblioteca e no centro de documentação, as duas novas secções em preparação.

Dado o excesso de material que lhes é trazido, é de bom grado que o responsável direcciona os doadores para os outros três museus que tratam igualmente da Segunda Guerra Mundial, cada um com a sua especificidade: o Museu da Resistência, em Esch/Alzette, o da Deportação, em Hollerich, e Museu o da Segunda Guerra Mundial, propriamente dita, em Ettelbruck.

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Segundo Daniel Jordão, colaborador do Museu Militar
"Estamos a repensar o museu"

Daniel Jordão é um dos colaboradores do Museu Nacional de História Militar de Diekirch (ver artigo principal) e está, em conjunto com o curador Roland Gaul e a restante equipa de voluntários, a repensar a forma de dispor todo o espólio recorrendo a formas mais modernas, suportes audiovisuais, apresentações mais interactivas. "Há demasiado material exposto, é preciso fazer escolhas criteriosas para as visitas não se tornarem fastidiosas", explica.

Informático de profissão, o jovem luso-descendente de 28 anos interessou-se pela Segunda Guerra Mundial durante uma viagem à Normandia, quando viu nomes luxemburgueses inscritos nas placas comemorativas que celebravam o Dia do Desembarque (Dia D: 6 de Junho de 1944).

"Afinal havia luxemburgueses no Desembarque?". Daniel quis saber mais e percebeu que esse aspecto era um dos menos documentados na história luxemburguesa. Contactou o Museu de Diekirch e disponibilizou-se para dar o seu contributo benévolo. Confia que o que o motiva é tentar entender como jovens, como ele, fizeram na altura para "fazer face à situação e resistir ao invasor". Nos seus tempos livres, à noite ou ao fim-de-semana, lê tudo o que pode sobre o assunto. Para o museu, entrevista veteranos, filma testemunhos, recolhe arquivos privados. Além disso, efectua pesquisas precisamente sobre os antigos combatentes luxemburgueses que lutaram ao lado dos aliados, em uniforme francês ou inglês, que pertenciam à Resistência ou que participaram no Desembarque.

"Conhecer o passado, os horrores da guerra, para saber dar valor à actual paz em que vivemos", conclui Daniel, recordando palavras do pai. Este esteve quase três anos em Moçambique, durante a guerra colonial portuguesa, integrado na Segunda Companhia de Fuzileiros. Palavras que até podem nem ter sido ditas assim a Daniel, mas que já transportavam uma mensagem importante: a do dever de memória.

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Portugal e o Luxemburgo na Segunda Guerra Mundial

Influências portuguesas

A história do Luxemburgo durante a Segunda Guerra Mundial também se cruz a com destinos portugueses, em pelo menos duas ocasiões: a fuga da Grã-Duquesa Charlotte para o exílio, em 1940, e a promessa feita a Nossa Senhora de Fátima, em 1945, por um grupo de moradores de Wiltz.

Bastante conhecidos são os laços de sangue que unem as casas reais luxemburguesa e portuguesa. O grão-duque Henri é bisneto da sexta filha de D. Miguel I de Portugal, Mariana de Bragança, nascida na Áustria (em 1861) após o pai ter sido exilado pelo irmão D. Pedro I (em 1834). Mariana viria a casar com o grão-duque Guillaume IV do Luxemburgo em 1893, do qual teve duas filhas, ambas grã-duquesas: Adelaïde, soberana de 1912 a 1919, e Charlotte, que reinou de 1919 a 1964.

As famílias permanecem aliás bastante próximas. Ainda em Agosto, os duques de Bragança gozaram uma semana de férias com os primos do Grão-Ducado, na casa de férias que a família grã-ducal tem na Côte d'Azur.

A Grã-Duquesa Charlotte e o cônsul Sousa Mendes

Menos conhecido é o facto de a Grã-Duquesa Charlotte, ao escapar do Luxemburgo em 1940 para não ser capturada pelo ocupante alemão, se ter dirigido ao Consulado de Portugal em Bordéus, na esperança de obter um visto para Lisboa, considerada a única porta de saída na Europa em guerra. O visto foi-lhe emitido pelo cônsul português em posto, Aristides de Sousa Mendes.

Com o visto, a grã-duquesa, o príncipe Jean (futuro grão-duque) e alguns membros do Governo luxemburguês conseguiram chegar à capital portuguesa e dali exilar-se em Londres.

Porque escolheu a grã-duquesa o Consulado português? Teria ouvido o rumor de que aquela chancelaria estava a passar vistos de forma indiscriminada, sem olhar a quem, de maneira a salvar o maior número possível de fugitivos do jugo nazi?

Salazar, preocupado em manter a neutralidade portuguesa, havia dado a Sousa Mendes ordens claras: "não passar vistos a apátridas, judeus (...) e estrangeiros com nacionalidade indefinida". O diplomata teria decidido desde 1939 contrariar a ordem. "Se há que desobedecer, prefiro que seja a uma ordem dos homens do que a uma ordem de Deus", dissera. Atitude que lhe valeu a ira de Salazar e a posterior demissão do posto. O "cônsul injustiçado", como ficou conhecido, é hoje considerado pelo Estado de Israel como um dos "Justos", por ter salvo igualmente a vida de muitos judeus que fugiam aos nazis.

Terá Sousa Mendes chegado a saber que estava a salvar uma descendente da coroa portuguesa, ter-lhe-á a grã-duquesa dito que era neta de D. Miguel ou essa conversa nunca aconteceu? Mais... terão o grão-duque Jean e o Governo luxemburguês pensado nessa "dívida" a Portugal quando decidiram em 1970 assinar um contrato com o Governo português que abria as portas do Grão-Ducado à imigração lusa?

A Promessa

A 13 de Janeiro de 1945, numa das derradeiras operações da Ofensiva das Ardenas (ver artigo principal), Wiltz ocupada pelos nazis viu-se cercada no meio dos combates. Dez pessoas refugiam-se na cave do Presbitério e prometem erigir no sítio "op Bässent" um santuário em honra de Nossa Senhora de Fátima, se escaparem ilesos. As tropas alemães retiram-se sete dias mais tarde, derrotadas pelos aliados.

Em 13 Setembro de 1947, a imagem de Nossa Senhora de Fátima, em visita ao Grão-Ducado, passa por Wiltz. Uma primeira missa é celebrada no alto do monte, na presença de sete mil pessoas: luxemburgueses, franceses e belgas. Nesse dia é colocada a primeira pedra do futuro santuário. Segundo noticiava o Luxemburger Wort da altura, o bispo do Luxemburgo, Joseph Philippe, teria agradecido a vinda da santa ao país, como se fosse o retribuir da visita que a Grã-Duquesa Charlotte fizera a Portugal em 1940, na sua fuga a caminho de Londres. O santuário viria a ser terminado em 1952 e consagrado a 13 de Julho desse ano pelo bispo Léon Lommel.

Mas é só nos anos 60, quando os primeiros imigrantes portugueses chegam ao país, que descobrem a existência do santuário. A primeira peregrinação acontece em 1968. Quatro anos depois, o arcebispo Jean Hengen oferece à paróquia de Niederwiltz uma imagem de Nossa Senhora, o que veio reforçar a devoção dos peregrinos. Desde daí, anualmente, no Dia da Ascensão, Wiltz enche-se de milhares de portugueses vindos dos quatros cantos do Luxemburgo e dos países vizinhos.

José Luís Correia, in Contacto, 03.09.08

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Carta do meu sobrinho ao senhor Vladimir

Carta do meu sobrinho ao senhor Vladimir

Nestas últimas semanas, o meu sobrinho tem- -me feito bastantes perguntas sobre a guerra de que ouve falar na televisão, referindo-se à escalada militar que se tem vivido no Cáucaso.

Comecei por lhe mostrar, num mapa, onde se situavam a Geórgia, a Ossétia do Sul, a Abcásia e a Rússia. Tentei depois explicar-lhe, em termos simples, o que estava em questão. A influência que a Rússia, saudosista da potência da era soviética, não quer perder naquela região, por onde passam oleodutos e gasodutos, pormenores que não o são. O direito de cada povo que se sente nação, como parece ser o caso dos ossetas e dos abecases, de aspirar à independência. A integridade territorial de um país como a Geórgia que não pode ser violada. A diplomacia inteligente a que a UE e os Estados Unidos terão de fazer apelo se se pretendem moderadores numa crise política que pode conduzir, no melhor dos casos, a uma Segunda Guerra Fria, e, no pior dos cenários, a um conflito armado de grande escala, que pode inclusive estender-se ao resto da Europa.

Guerras houve que começaram por menos. Enfim, não é fácil explicar a uma criança uma crise internacional da qual nem os analistas políticos entendem bem todos os contornos e muito menos podem prever o que dali pode advir?

No fim da minha explicação, o meu sobrinho fitava-me com grande olhos e acenou positivamente com a cabeça como se tivesse entendido tudo. Confesso que pensei que o tivesse apenas feito para eu ficar por ali com a minha complicada lição de política internacional. "Coisas de gente grande...", deve ter pensado. Imaginei que para ele a questão estivesse terminada e tivesse voltado às suas ocupações de criança.

Mas não. Dias mais tarde, entregou-me um envelope fechado, pedindo-me para o meter no correio. No lugar do remetente, podia ler-se: "Para o senhor Vladimir Putin, chefe da Rússia". Intrigado, não resisti a abrir a carta, que passo a transcrever:

"Senhor Vladimir,

Eu sempre gostei muito da Rússia porque quero ser cosmonauta pois um dia li num livro que o primeiro homem que foi ao espaço era russo e eu também quero fazer como ele quando for grande.

Mas hoje tou zangado com a Rússia porque não percebo porque o senhor quer fazer guerra com os seus vizinhos e até com nós os europeios
. [dixit]

O meu tio disse que podia haver guerra fria e guerra quente. Eu só percebi que nem uma nem outra são coisas boas porque podem matar muitas pessoas de verdade, pois não é como na playstation em que temos muitas vidas.

Mas compreendi bem que todos querem o petróleo porque é com isso que se faz a gasolina para os carros. Só não entendo porque todas as pessoas se queixam que a gasolina está cara, mas todos continuam a comprar carros a gasolina? Tenho que perguntar ao meu tio...

O senhor não acha que o petróleo chega para toda a gente? O meu pai e a minha mãe dizem-me sempre que é preciso saber partilhar. Um dia, um menino da minha escola esqueceu-se da lancheira e a professora Alice pediu-nos para partilharmos com ele. Se cada um de nós lhe desse um bocadinho da nossa merenda, disse ela, não nos fazia diferença e ele também podia lanchar nesse dia. Eu dei-lhe algumas das minhas bolachas e apesar de nesse dia ter comido menos, sentia-me mais contente.

Por isso não percebo como o senhor, que mora num país tão grande, mais grande que o Luxemburgo e até que a América (eu fui ver ao mapa!), não quer partilhar o petróleo que vem do mar. A professora Alice explicou-nos que a paz no Mundo só será possível quando toda a gente entender que as coisas que a Natureza nos dá, não pertencem a um só país mas a toda a Humanidade. Ou o senhor não gosta da paz?

Eu quero a paz, porque assim posso ser amigo de todos e já não há brigas no recreio e um dia mais tarde todos os cientistas do mundo podem juntar-se e fazer naves mais super-tecnológicas para podermos todos viajar no espaço e descobrir novos mundos a quem podemos ensinar a paz".

Mais palavras para quê? As crianças têm o dom natural de simplificar o que os adultos teimam em codificar e complicar. Reflexão feita..., e porque não? Colei um selo, corrigi a morada e enfiei a carta num marco de correio.

JLC, in Contacto, 03.09.08

terça-feira, 2 de setembro de 2008

The future of civilization



Theoretical physicist Michio Kaku speculates on the future of civilization. This was downloaded at itunes as a free Discovery channel video pocasts. He talks about the inevitability of a type 1 culture, language, political system and why is our generation the most important to walk the face of earth. I think this clip forms part of the movie "2057".

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Tempête

Tempête

Un crépuscule de juillet. Il pleut comme à la fin du monde.

J’expérimente les eaux et le froid sur mon corps.

De petites mers se déversent en de grandes gorgées dans le caniveau,

le vent fuit les impasses, le tonnerre traverse le ciel hanté et moi ma vie.

Si tu étais ici maintenant, me sentirais-je plus heureux ?

Si tu m’enlaçais en cette heure, aurais-je encore peur ?

Le ciel impénétrable oublie le monde trempé…

Et toi, où es-tu ? Enroulée dans ton gilet en laine, lisant mon livre, à la lumière de l’abat-jour ? As-tu déjà écouté l’eau ?

L’océan s’ouvre à l’envers et chaque goutte cherche le sol comme le salut,

têtes penchées les arbres nettoient lourdement leur visage sur l’asphalte,

des silhouettes dans la pénombre passent comme des fantômes à mes pieds.

Sans défense sous la pluie, le vent cherche mon échine,

la voûte céleste se déchire

sur mes tempes, chaque goutte qui m’atteint à quelle vitesse tombe-t-elle,

à quelle vitesse explose-t-elle sur ma peau ?

La douleur, après le cri. Le nef céleste se tord en convulsion,

une clarté fugace rompt l’arc. Ce n’est pas Dieu agacé,

ne sont pas les nuages qui se déchargent, ce n’est pas le cycle se perpétuant.

C’est le ciel voulant se voir, comme Narcisse, au miroir.

Moi aussi, j’ai découvert le chemin me menant vers toi.

Je ne me suis tout simplement pas encore décidé à le prendre.


JLC/07.2003

Jihad

Jihad

Les pointes des étoiles brûlent la lune rouge qui croît
Le ciel en feu griffe le visage bleu
d'Orient arrivent de nouveaux rois mages du mot,
mais tout ce qui brille n'est pas d'or.
J'entends le vacarme des batailles qui ont commencé
quand les eaux du déluge n'avaient même pas encore séché
les terres. Aujourd'hui, c'est le sang qui ne séche plus.

Et moi, apeuré par les nouvelles invasions barbares
et les promesses vides que le crépuscule renferme
je me cache derrière la croix d'or indigo, j'assiste aux fous sans dire mot
et ils me poussent vers l'abîme.
La caravane impassible passe, pendant que les chiens n'aboient pas,
se préparent. Je sens l'odeur du désert.
Je suis assoiffée de mandarines d'argent, d'ivoire,
de cannelle, de menthe psychotique et de safran.

Avec mes bagages je dégringole
les escaliers de l'hotel
mes burnes bourrés à rabord.
Je comprends enfin que l'enfant est otage de la perfection,
que la sérénité et la clareté de l'impasse sombre,
que sont l'idéalisme dogmatique et acnéique,
dépendent uniquement de l'égotisme, de la tolérance
et de la lutte qui doit toujours commencer du dedans
avec ma propre jihad.

Ce n'est ni une faute, ni un recul.
C'est prendre de l'élan, un horizon plus grand,
pour sauter plus loin.

Socrates pointe son nez à ma porte
et répète qu'il ne sait rien sur rien.
Je regarde ma montre de éon
les flèches de l'Halocène clignotent
la brise du matin retarde ses ailes.
La nuit grise et brumeuse va encore s'attarder.

AGW aka JLC 140807

Bullet proof

Bullet proof

Quand je ferme les yeux

la douleur disparaît

le bruit s’éteint

le monde se tait

j’oublis le corps immonde


je ne vois plus le cratère noir et nauséabond que la balle à laissé sur ma poitrine

le trou putride sur ma nuque par ou on m’a arraché le cœur

les images sordides ne me tourmentent plus le cerveau en décomposition

les vils instants ne grouillent plus sur mes paupières comme des insectes dégueulasses

l’abject venin ne m’immobilise plus le sang souillé dans mes artères


je m’étends sur le drap blanc sur la table de la cuisine

à sang froid, je rebrousse ma peau, je tire les veines,

j’extrait tout le poison qui reste dans les blessures encore ouvertes

dans la bassine le sang averse et haineux dégouline en pus perfide


je secoue l’enveloppe maculée

je l’expose à la lumière du jour

je prends une aguille d’argent

et je recous les trous béants

le corps purifié et prêt

pour d’autres


et si je fermais les yeux à cette vitesse

maintenant sur l’autoroute ?

ni même mil hordes d’anges en furie

accrochés à mes bras

ne me sauverait de moi-même !


AGW aka JLC 140807

échafaud II

échafaud II

quand l’épée te traverse aussi soudainement, tu la sens toujours?

quand la dague s’est plantée tellement profondément que tu ne sais plus si c’est de la douleur , ressens-tu toujours le coup porté?

quand le sang te coule encore chaud des mains, le reconnais-tu comme tien?

quand tu n’entends plus le vaccarme du coup de feu e que tu constates le trou noir sur ta poitrine fumante, est-ce le moment opportun pour savoir que tu dois mourir?

quand le brûlis dévaste une nouvelle fois la terre est qu’elle n’est plus combustible, que reste-t-il à brûler?

quand tu perds pied e que tu sais que la mer va te remplir la gueule et les narines et les orbites des yeux, es-tu encore en vie pour penser à tout celá?

quand le désert te brûle les poumons avec sa poussière, as-tu encore soif?

quand tu passes en vol plané par le dixième étage en fonçant droit sur le sol, sens-tu encore tes veines qui pulsent à l’envers?

quand tu te désintègres en un seul souffle d’explosion, que deviens-tu?

quand le soleil se noircit e il ne fait plus jour ni nuit, où es-tu?

quand tous te disent que tu es un monstre, dois-tu continuer à vivre?

Docilement, tu t’agenouilles devant tes bourreaux,

les yeux bien ouverts tu aperçois la vérité dans les leurs,

tu couches ta tête sur le bout de poutre

tu remets ta nuque à la justice

la foule en délire se taît haletante

le ciel respire une, deux fois,

pendant quelques brefs instants tu as la sensation que tu arrives a entendre le soleil qui brûle.

Soudain, tu n’entends ni ne sens plus rien.

La main de l’ange est-elle intervenue pour toi, stoppant net le dernier instant?

Tu peux lever les yeux?

Si ton sang ne coule pas autour de toi, est-ce bon signe?

S’il n’y a plus de foule, ni de lame, ni de ciel,

et que le soleil est noir e qu’il ne fait plus jour ni nuit, où es-tu?



AGW aka JLC 170807