sebenta de anotações esparsas, pensamentos ociosos, reflexões cadentes, poemas difusos, introspecções de uma filosofia mais ou menos opaca dos meus dias (ou + reminiscências melómanas, translúcidas, intra e extra-sensoriais, erógenas, esquizofrénicas ou obsessivas dos meus dias)
-
cahier de notes éparses, pensées oisives, réflexions filantes, poèmes diffus, introspections d'une philosophie plus ou moins opaque de mes journées (ou + de réminiscences mélomanes, translucides, intra-sensorielles et extra-sensorielles, érogènes, schizophrènes ou obsessionnelles de mes journées)

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quarta-feira, 21 de outubro de 2015

"Regresso ao Futuro 2": Marty McFly chega hoje a 2015

Foto: Universal Pictures / Amblin Entertainment
Hoje, dia 21 de Outubro, é o dia em que Marty McFly viaja até ao ano de 2015, segundo o famoso filme "Regresso ao Futuro 2". Os fãs do filme a nível mundial andam a antecipar esta data há meses nas redes sociais e na internet. Hoje, há mesmo eventos organizados nos quatros cantos do mundo para celebrar este dia e a chegada de Marty ao futuro. O Luxemburgo não escapa a esta "pseudo-efeméride".

O filme de 1989 realizado por Robert Zemeckis é a sequela do grande sucesso de bilheteira do mesmo nome de 1985.

No primeiro filme, Marty viaja até 1955 para visitar os pais a bordo de um DeLorean transformado em máquina do tempo pelo cientiosta Emmett Brown. Marty acaba por perturbar o encontro da mãe com o pai, e põe em risco a sua própria existência, num paradoxo temporal que é o pano de fundo do filme. Pelo caminho, inventa o skate, o rock'n'roll, inspira "Rock Around the Clock" a Bill Halley, e vive uma série de outras peripécias.


No segundo episódio, Michael J. Fox (Marty McFly) e Christophe Lloyd (Doc Emmet Brown) viajam de 1985 até 2015 no mesmo DeLorean, que foi agora transformado em carro voador, cujo combustível é lixo reciclado.

Os dois chegam ao "futuro" precisamente hoje, quarta-feira, 21 de Outubro de 2015, às 16h29, hora da costa oeste dos Estados Unidos, já que o local onde aterram, Hill Valley situa-se, segundo o filme, na Califórnia. Na realidade é uma cidade fictícia.

Ou seja, Marty McFly deverá chegar a 2015 quando forem 1h30 da manhã desta quinta-feira no Luxemburgo.

O skate voador, a Pepsi Perfect e os atacadores automáticos 

No segundo opus de Zemeckis, em 2015 Marty McFly anda de skate voador, passa em frente a um cinema onde estão a exibir o filme "Tubarão 19", utiliza um casaco que se auto-seca depois da chuva, calça ténis Nike com atacadores automáticos, bebe Pepsi Perfect, come pizza de um micro-ondas futurista e vê toda uma série de inovações que não existem em 1985.

Se Steven Spielberg não tenciona relançar a saga "Tubarão" ("Skark", 1975), os fãs de "Regresso ao Futuro" têm nos últimos anos instado algumas marcas, como a Nike e a Pepsi, a transpôr para a realidade as ideias futuristas de Zemeckis.

Foto: Pepsi
A Pepsi aderiu ao movimento e lançou esta semana uma edição limitada da Pepsi Perfect, com uma garrafa que imita o design daquela que aparecia no filme de 1989. A comercialização da bebida está apenas garantida nos EUA.
  
A Nike fabricou em 2012 um modelo de ténis igual ao do filme. O modelo tem as mesmas cores e luzinhas que o par que Marty McFly calça, era para ser utilizado apenas numa campanha de publicidade, mas acabou por ser comercializado em edição limitada... sem os atacadores automáticos. No início de 2015, a Nike prometeu aos clientes lançar ainda este ano o modelo com atacadores automáticos. Aguardemos...


Foto: Nike

Quanto a uma das invenções mais fantásticas do filme, o skate voador, a realidade é que em 2011, uma equipa de investigadores franceses da Universidade Paris-Diderot apresentou um "hoverboard" chamado "Magsurf". O "skate" contém elementos supra-conductores, arrefecidos com azoto, que lhe permitem levitar a alguns centímetros do solo, mas apenas sobre uma plataforma com imans e numa distância de cinco metros. Este ano, em Junho, a empresa japonesa Lexus publicou um vídeo onde demonstrava ter construído um engenho semelhante, com base na mesma tecnologia.

Ainda não é bem o skate que se vê no filme "Regresso ao futuro 2", mas é o primeiro passo para construir um "brinquedo" que pode um dia tornar-se um meio de transporte tão real e prático como o Segway.

Foto: Lexus


O filme mostra toda uma série de outras previsões e inovações tecnológicas que ainda não existem, mas seriam bem práticas nos dias de hoje. Pode revisionar o filme, recordar bons momentos e ver tudo o que filme acertou ou falhou para 2015.

Luxemburgo também festeja chegada de Marty McFly ao futuro 

Hoje, são vários os cafés no Luxemburgo que organizam uma festa especial dedicada à chegada de Marty McFly ao "futuro".

Em Hollerich, o "Decibel Bar" anuncia que vai ter uma máquina do tempo à disposição dos clientes. A noite será animada por DJ Andrew Martin. O Rocas Bar, na rue des Capucins, na capital, também festeja a efeméride com uma noite onde só vão passar músicas do filme e dos anos 1980. Os bares Marx, White House, Hitch e Epic também organizam hoje noites especiais "Regresso ao Futuro 2".

Por seu lado, o cinema Utopolis propõe esta noite, a partir das 19h, uma maratona "Regresso ao Futuro", durante a qual os três filmes da saga vão ser exibidos.

José Luís Correia
in www.contacto.lu, 21/10/2015

terça-feira, 4 de novembro de 2008

What the hell means "Quantum of Solace"?


"Quantum of Solace" significa:
- quantum: em Física, a mais pequena medida indivisível; em latim, "quanto? que quantidade?";
- solace (reconforto, consolação)

Sugestões de tradução: a menor parte possível de reconforto; que reconforto?; magro reconforto; pequeno reconforto; a mínima parte de calor humano; magra consolação.

Conclusão: Fiquei a perceber o mesmo!

domingo, 19 de outubro de 2008

Diractors: mais espectadores que em 2007

Festival de cinema luxemburguês

Diractors: mais espectadores
que em 2007

A segunda edição do Festival do Filme "Diractors" que o Luxemburgo organiza desde 2007 para homenagear actores-realizadores fechou domingo com "balanço bastante positivo", anunciava satisfeita a organização. Contribuíram, por certo, para este "segundo acto" bem sucedido as novidades que marcaram o certame.

Primeira boa notícia: o público acorreu em maior número do que em 2007 e isto apesar de a edição inaugural ter contado com uma estrela de fama mundial, Sophie Marceau.

À semelhança do ano passado, as "cartes blanches" (debates com actores e realizadores) e todos os outros encontros em que era possível aos espectadores conversarem com as estrelas, foram os que registaram mais afluência. Foi o caso da exibição de "Märzmelodie", película do alemão Martin Walz, que assinalou a abertura oficial do certame, mas também de "Das Herz ist ein dunkler Wald", de Nicolette Krebitz. O cinema germanófono havia sido o grande esquecido da edição inaugural e a organização quis assim "corrigir o tiro" este ano, preocupado em seduzir o público luxemburguês.

Emmanuelle Béart, sex symbol da sétima arte francesa, veio apresentar quinta-feira à noite o filme "Vinyan", fazendo-se acompanhar do realizador belga Fabrice du Welz. Segundo o que a própria actriz confiou, foi a ocasião para revisitar o Luxemburgo, lugar onde chegou a passar, por diversas ocasiões, férias em criança.

A "carta branca" com o realizador luxemburguês Luc Feit, sexta-feira à tarde, mercê do convite que este dirigira aos seus colegas Pol Cruchten e Achim von Borries, transformou-se numa cativante discussão e troca de experiências entre profissionais, a que o público assistiu interessado.

O documentário autobiográfico "Elle s’appelle Sabine", que Sandrine Bonnaire realizou sobre a sua irmã autista e os périplos que isso lhe fez viver, foi um dos filmes que mais atraiu o público. Na "carte blanche" que se seguiu ao filme, sábado à tarde, numerosos foram os espectadores que não quiseram deixar de partilhar emoção e compaixão com a realizadora.

Momento inesquecível foi ainda a participação da actriz Amy Redford, que esteve a falar em directo via satélite desde Nova Iorque com os espectadores presentes no Ciné Utopia, em Limperstberg, após a exibição do filme "The Guitar".

A Cinemateca viu-se este ano integrada ao programa. O histórico ciné-teatro recebeu a visita dos compositores de música para filmes Gabriel Thibeaudeau (Quebeque) e Jean-Marie Sénia (França), além do Octuor de France, que interpretou obras de Max Linder, do tempo do cinema burlesco e mudo.

Graças ao sucesso granjeado nesta segunda edição e a uma maior afluência do público, o único festival de cinema luxemburguês confirma que está para durar. A organização aproveitou aliás para marcar as datas da próxima edição: de 14 a 18 de Outubro de 2009. A notar, desde já, na agenda.

JLC (in Contacto, 22.10.08)

sábado, 11 de outubro de 2008

Festival DirActors, de 15 a 19 de Outubro

O festival dos actores-realizadores

"Este é um festival aberto a todos, os bilhetes e os passes estão à venda para o grande público, não estão reservados a elites ou a um público restrito". Esta a principal mensagem que fazem questão de transmitir os organizadores do Festival de Cinema "DirActors", que decorre de 15 a 19 de Outubro nos cinemas Utopolis, Utopia e Cinemateca da cidade do Luxemburgo.

Emmanuelle Béart e Sandrine Bonnaire são duas das famosas estrelas de cinema presentes na segunda edição deste festival sobre actores-realizadores.

Este ano, o evento muda ligeiramente de nome – na primeira edição era "dirActor's cut" e agora apenas "diractors"–, por ter havido mal-entendidos sobre a sua finalidade. O título inicial pretendia-se um trocadilho com a expressão "director's cut", ou seja, a versão revista e aumentada que um realizador faz de um filme, enquanto este festival pretende homenagear os actores que resolveram um dia passar para trás da câmara, à semelhança do que fizeram Charlie Chaplin ou mais recentemente Sean Penn e Clint Eastwood.

Os encontros com as estrelas são possíveis aquando das primeiras projecções dos filmes e nas sessões "Cartes Blanches". Emmanuelle Béart está presente dia 16, às 19h, no Utopolis, para a projecção de "Vinyan", filme de Fabrice Du Welz. A primeira "carta branca" conta com Sandrine Bonnaire, sábado, dia 18, às 14h30, no Utopia, para a exibição de "Elle s'appelle Sabine", filme autobiográfico sobre a sua irmã autista. A segunda "carta branca" é dedicada a quatro filmes luxemburgueses, três de Luc Feit – "Ferkel", "Dessous" e "W"–, e "Nuit Amère", de Pol Cruchten (dia17, 15h45, Utopia).

Além destes, estarão ainda presentes nomes como Martin Walz, Achim Von Borries, Nicolette Krebitz, Martin Provost, Safy Nebbou, Marion Laine, Maud Linder, Laetitia Colombani, Dominque Abel e Fiona Gordon, entre outros.

O realizador português Manoel de Oliveira chegou a ser ventilado como convidado deste ano, mas "não virá por estar presentemente no México", lamentou Suzel Pietri, da organização (n.d.R.: o realizador participa no Congresso da Cultura Ibero-Americana, onde foi homenageado na semana passada).

São 13 os filmes em exibição e em absoluta ante-estreia no Luxemburgo, entre outros: "Appaloosa", de Ed Harris, com Viggo Mortensen e Renée Zellweger; "Coluche", de Antoine de Caunes; "Mes Stars et Moi", de Laetitia Colombani, com Catherine Deneuve, Kad Merad, Emmanuelle Béart e Maria de Medeiros; "Then she found me", de Helen Hunt, com Colin Firth, Bette Milder e Matthew Broderick; e "The Visitor", de Tom McCarthy. Os filmes são exibidos no horário normal das sessões de cinema. A programação, assim como datas e horários detalhados podem ser consultados no site do evento em www.diractors.org ou pelo tel. 42 95 11-500.

Bilhetes: 5 euros; tarifa reduzida, 4 euros. Passes para 5 sessões, 20 euros; tarifa reduzida, 15 euros.

José Luís Correia, in Contacto, 08.10.2008

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Erotic Tales, se(x)nsualidade no Cine Utopia, até 28 de Agosto

Um pouco de se(x)nsualidade


Desde 1 de Agosto e até dia 28, o alternativo Cinema Utopia, em Limpertsberg, está a revelar-se ainda mais ousado com a exibição de 30 filmes eróticos de meia hora cada. Os filmes são apresentados em séries de quatro (as exibições duram cerca de duas horas) e passam alternadamente até final deste mês.
Os filmes pertencem a uma série iniciada pela produtora alemã Renate Ziegler que desafiou realizadores de renome a dirigirem e conceberem curtas-metragens eróticas, filmadas em 35 mm. Encontramos no rol de nomes conhecidos realizadores como Susan Seidelman, que conhecemos do filme "Desperately Seeking Susan", de 1985, com Rosanna Arquette, no que era a primeira aparição como actriz de Madonna no cinema. O Utopia traz-nos um filme de Seidelman de 1995, "The Dutch Master", com a famosa e sensual actriz Mira Sorvino (também vista em "Mighty Aphrodite", de Woody Allen, e "Summer of Sam", de Spike Lee).
Podem ainda ser vistas películas sulfurosas de Bob Rafelson, Hal Hartley, Ken Russell, Cinizia Th. Torrini, Jos Stelling, Paul Cox, entre outros.
Os horários e lista dos filmes exibidos em cada semana são consultáveis em www.utopolis.lu, na internet.

JLC, in Contacto, 20.08.08

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Cannes: Aos 100 anos, Manoel de Oliveira recebe Palma de Ouro. FINALMENTE !!!

O realizador português Manoel de Oliveira recebeu hoje (finalmente) a Palma de Ouro no 61° Festival Internacional de Cinema de Cannes, numa homenagem que lhe foi dedicada pela integridade da sua obra e por ser, com 100 anos de idade (que completa no próximo dia 12 de Dezembro), o realizador mais velho do Mundo ainda em actividade.

Manoel de Oliveira recebeu o prémio esta tarde das mãos do actor francês Michel Piccoli, numa cerimónia que contou com a presença do actor e realizador norte-americano Clint Eastwood, o presidente da Cinemateca Portuguesa, João Bénard da Costa, bem como dos membros do júri do Festival de Cannes deste ano, entre os quais se encontravam o actor e realizador norte-americano Sean Penn (presidente do júri desta edição), a autora de banda desenhada e realizadora iraniana Marjane Satrapi, e a actriz Natalie Portman. O presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso, também esteve presente.

Durante a cerimónia, a organização do festival fez questão de exibir o filme "Um dia na vida de Manoel de Oliveira", assinada pelo presidente do festival, Gilles Jacob, e a curta-metragem documental "Douro faina fluvial", o primeiro filme realizado por Manoel de Oliveira, em 1931.

Facto menos conhecido é que Manoel de Oliveira começou na sétima arte como actor, ainda nos tempos do cinema mudo, o que lhe valeria aos 25 anos contracenar com Beatriz Costa, Vasco Santana e António Silva na famosa película "A Canção de Lisboa". A última vez que aceitou ser actor foi para ser dirigido por Wim Wenders no filme "Lisbon Story" (1994).

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Jen...Tudo o que quero pelo Natal, és tu!



"All I want for Christmas is you", do filme "Love Actually"

A magia do Natal



Canção "What's this" do filme "The Nightmare before Christmas" de Tim Burton.

domingo, 22 de abril de 2007

"Jeux Interdits" avec Brigitte Fossey et Georges Poujouley (1952)

Duas crianças, os olhos sinceros, os corpos entregues, comoventes, mas ausentes.
"Dá-me a mão..."
Um passeio, pela primeira vez, até à orla do bosque. O coração despido. Um beijo na face, um pouco a medo.
Fazer como os grandes.
"Essa coisa do amor é complicada. Dar um beijo é sempre assim?"
"Assim como? Molhado?...Sim!"
Voltaram à aldeia, tinham crescido pra aí meio-centímetro. Já são grandes agora. Aos oito anos, é importante.

sábado, 25 de novembro de 2006


nova babel


Fui ver o filme “Babel” de Alejandro González Iñárritu (“Amores Perros”, 1999; “21 Grams”, 2003). A torre não chegou ao céu, mas mundializou-se. Uma espingarda norte-americana, comprada por um japonês viúvo, pai de uma jovem em plena crise de adolescência, é usada por uma criança marroquina que brinca nos planaltos do Atlas para alvejar uma turista americana, que correu meio-mundo atrás do marido, depois deste fugir da morte súbita do recém-nascido de ambos, enquanto os filhos do casal são levados pela baby-sitter mexicana, ilegal há 16 anos nos Estados Unidos, para uma casamento muy tipico para além do novo muro da vergonha.

Globalizou-se também a confusão das línguas e das culturas. É o que nos querem fazer querer, desde os deturpadores de Samuel Huntington aos seguidores de Alvin Toffler. Mas entre homens de boa vontade, a língua pode ser diferente, a linguagem é perceptível, a mensagem passa. Neste filme, entre a criada mexicana e os filhos do casal americano, entre o marido da turista americana e o jovem marroquino que o acolhe na sua aldeia perdida, ou entre a surda-muda e o polícia que não precisa de gestos para entender o pedido de socorro da jovem.

(Sempre pensei que os casos em que os pais falam aos filhos em árabe, berbere, italiano ou português e estes respondem em francês ou que quando eu falava à minha namorada em algarvio e ela me respondia, por graça, em luxemburguês, isto fosse uma caracterísitica que apenas existia em França ou no Luxemburgo. Na minha ingenuidade etnocentrista, esqueci que todas as comunidades emigradas, em qualquer que seja o país onde se encontram, tendem a reproduzir os mesmos mecanismos de integração na sociedade e cultura de acolhimento. Que rima, em maior ou menor grau, com assimilação, consoante o sistema social e educativo do país onde chegaram e do envolvimento dos pais na educação (no sentido lato) dos seus filhos.
Fechar parêntesis.)

No sentido inverso, nem sempre a mesma língua é uma condição sine qua non para que os homens se percebam, levantando a desentendimentos, depressões, brigas, confusões, mortes. No filme: o marido da turista e os outros turistas americanos e europeus (ocidentais!), pai e filha no Japão, esta e os outros jovens japoneses, a polícia marroquina e os aldeões, tia e sobrinho mexicanos.

Assim sendo, devemos atribuir à torre de Babel, a origem da confusão das línguas ou aos homens de má vontade?

A morte e o seu espectro pairam durante toda a história. Não sabemos quando acontecerá, mas presentimo-lo. Acaba por abater-se sobre um inocente. Uma morte ligada à compra de uma arma. Mesmo se o realizador escolheu (propositadamente?) um cenário do outro lado do mundo, acaba por ser um piscar de olhos ao porte de arma permissivo nos Estados Unidos, que diz respeito a muitos jovens que são vítimas do “first amendement”, estejam do lado de cá ou do lado de lá do gatilho.

A torre de Babel, esta aldeia global na qual vivemos, está longe de chegar ao céu!
Se Fernando Pessoa disse que a sua pátria era a língua portuguesa, para o realizador mexicano, a "pátria" ou mesma a "mátria" (do latim "mãe") é... a mensagem. A mensagem é mais importante que a língua. As crianças, que vejo nos infantários e escolas luxemburgueses rirem e brincarem entre si sem falarem uma mesma língua, são as que no-lo ensinam melhor.

sábado, 29 de outubro de 2005

Pequeno-almoço com... António-Pedro Vasconcelos: "Jaime" é o meu filme mais redondo, mais equilibrado"

António-Pedro Vasconcelos falou com José Luís Correia, 
em entrevista ao nosso jornal Foto: M. Dias

CONTACTO: Ficou surpreendido e contente por ver na ante-estreia do "Jaime" aqui no Luxemburgo uma sala do Cinema Utopolis completamente cheia? 

António-Pedro Vasconcelos: Fiquei contente, claro. Afinal nós fazemos os filmes para termos estes momentos. Não há nenhum autor que não tenha uma grande ansiedade quando faz um filme ou escreve um livro ao esperar o momento em que o público vai dar o veredicto. Apesar de haver muitos portugueses na sala, constatei que um filme não é necessariamente feito exclusivamente para um público nacional. Já tive essa experiência em Espanha, no Festival de San Sebastian, onde houve uma recepção ao filme idêntica, calorosa e entusiástica. Fazemos filmes sobre aquilo que conhecemos e portanto são filmes que têm a ver com a nossa cultura e que estão enraizados numa determinada realidade, mas podem ser feitos susceptíveis de serem apreciados por toda a gente pelo mundo inteiro, na medida em que falam de sentimentos e transmitem emoções partilhadas por culturas diferentes e pessoas diferentes. É isso que nos gratifica das dificuldades que nós tivemos.

CONTACTO.: Depois de oito anos afastado do cinema como é que resolveu lançar-se neste projecto? 

A.P.V.: Estive afastado durante cerca de quatro anos porque decidi aceitar responsabilidades políticas quer a nível nacional, quer a nível europeu com o Comissário Deus Pinheiro, porque me pareceu que havia qualquer coisa a fazer para tentar dar a volta às dificuldades que um cineasta que tenta fazer cinema encontra num país pequeno como Portugal e mesmo na Europa. Por isso achei que era um desafio quando me propuseram responsabilizar-me pelo audiovisual em Portugal e representar o nosso país nas instâncias europeias, e fazer com o prof. Deus Pinheiro uma reflexão sobre o futuro do audiovisual na Europa. Quando percebi que quer a nível português, quer a nível europeu não há vontade política para mudar as coisas, voltei. Voltei e tentei recomeçar a minha actividade. Tentei fazer vários filmes mas tive imensas dificuldades, sistematicamente os meus projectos foram recusados. O próprio "Jaime" foi "chumbado" por uma Comissão, presidida pelo Dr. Prado Coelho, que achou que o filme não tinha interesse nenhum. E estive assim durante 4 anos sem conseguir montar um único projecto.

CONTACTO: Este filme aborda o problema da exploração do trabalho infantil. Porquê a escolha deste tema? 

A.P.V.: Foi o produtor luxemburguês Jani Thilges, que eu já conhecia há muito tempo, e que conhece muito bem Portugal por já lá ter produzido outros filmes, que me propôs produzir um filme. Eu tinha vários projectos e ele escolheu este por lhe parecer o mais interessante. Escolhi este tema porque achei que o cinema português e europeu falavam muito pouco desta realidade e que era preciso chamar a atenção para isso. A partir daí construí-se uma história...

CONTACTO: Este é mais um da série de filmes feitos em colaboração com o Luxemburgo. O que pensa que esta troca traz tanto a um país como ao outro? 

A.P.V.: É sempre bom juntar mais do que um país, porque multiplicam-se os financiamentos, e um dos problemas que enfrentamos sempre é o dos financiamentos. Por outro lado, dá mais garantias que os filmes sejam estreados e vistos em mais do que um país. Esta co-produção também permitiu que este filme beneficiasse de técnicos muito competentes, nomeadamente no som e na decoração, que eram luxemburgueses, e de um belga na montagem. Foi um encontro feliz que nasceu do facto do Jani Thiltges conhecer muito bem o Luís Galvão Teles, que é um realizador radicado aqui no Luxemburgo, e como eu também conhecia o Luís, foi por essa via que a colaboração se fez. Eles criaram aliás uma sociedade em Lisboa [n.d.e.: trata-se da Fado Filmes] e têm a intenção de continuar a produzir com Portugal. Esta colaboração é muito boa para o cinema português, já que o Luxemburgo está no centro da Europa e irradia pelas suas raízes francófonas para todo o mercado da cultura francesa, o que é excelente para Portugal cujo grande problema histórico é o isolamento geográfico e cultural. Eu sou um cosmopolita e sempre defendi que as culturas têm condições para se universalizar ou então morrem e transformam-se em folclore.

CONTACTO: Como explica o sucesso de «Jaime»? 

A.P.V.: É sempre difícil, mesmo ao próprio autor, explicar um sucesso assim. Mas espero que o sucesso do «Jaime» se deva não tanto ao tema mas à maneira como é tratado, ou seja, ao meu carinho pelos personagens e a melhor maneira de tratar bem os personagens é tratar bem os actores. E penso que o facto dos actores parecerem pessoas, que é uma coisa que nem sempre acontece no cinema português, darem corpo aos personagens, transportarem emoções, sentimentos e viverem conflitos com os quais as pessoas se identificam facilmente, é o que explica o sucesso do filme. Eu gostaria de pensar que não é porque se fala do trabalho infantil ou porque trata de crianças. Os meus filmes de uma maneira geral, com altos e baixos, têm tido um sucesso idêntico – estou–me a lembrar, por exemplo, d' «O Lugar do Morto», que na altura fez até mais espectadores do que o «Jaime». Penso que é o facto de eu fazer personagens de carne e osso e tornar credíveis as situações, e espero não perder a mão nos meus próximos filmes.

CONTACTO: Como é que foi filmar com crianças? 

A.P.V.: Tornou-se fácil porque quer um, quer outro eram muito dotados. O mais difícil eram quando estavam juntos. Eu tenho filhos e sei como é, quando os miúdos estão juntos é sempre mais complicado... Foi fácil sobretudo porque perceberam ambos relativamente depressa o que era ser actor e representar.

CONTACTO: A crítica diz que este filme anuncia uma fase mais madura da sua carreira. Concorda ou pensa que este filme vem numa continuidade lógica e natural do seu trabalho? 

A.P.V.: Vem numa continuidade lógica, mas é lógico que o trabalho amadureça e portanto acho que é um filme mais amadurecido e talvez o meu filme mais bem construído ao nível da história do argumento, que é uma preocupação muito grande que eu tenho. Há outros filmes em que há momentos que eu gosto mais, mas este é talvez o meu filme mais equilibrado, mais redondo, e nesse sentido tem muito a ver com o que eu fiz antes, portanto é um amadurecimento óbvio.

José Luís Correia
in jornal CONTACTO 29/10/2000