Quando eu eu era pequenino, festejar o São Nicolau era algo novo para mim e para a minha família. Enquanto todos os meus amiguinhos luxemburgueses se alegravam no dia 6 de Dezembro com os brinquedos e chocolates que tinham recebido do santo patrono das crianças, eu voltava triste e cabisbaixo para casa, e perguntava à minha mãe porque razão o São Nicolau me tinha esquecido. Será que eu não tinha sido bem comportado?
A minha mãe explicava-me pacientemente que em Portugal é o Menino Jesus que traz os presentes, mas só depois da noite da Consoada, na manhã do dia 25. E sossegava-me: o Menino Jesus não me esqueceria, mas eu tinha que continuar a portar-me bem.
Com o tempo, os meus pais por certo não resistiram ao olhar abatido com que eu regressava a casa a cada São Nicolau porque, eu devia ter seis ou sete anos, quando comecei a receber chocolates e presentes no dia 6 de Dezembro... e novamente no dia 25. Na altura, lembro-me de ter pensado que o São Nicolau devia ter negociado com o Menino Jesus em meu favor.
Hoje, também eu sou pai e sei que vou ter que explicar ao meu filho quem é o São Nicolau e o Menino Jesus, ou talvez optar durante os primeiros anos por uma “fase de transição”, como os meus pais fizeram antes de mim.
Talvez seja esse uns dos segredos de uma integração bem sucedida: conseguir alcançar um compromisso entre as tradições das nossas origens e os costumes que adoptámos no nosso país de acolhimento.
José Luís Correia
in CONTACTO
23/12/2015
Mostrar mensagens com a etiqueta meus escritos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta meus escritos. Mostrar todas as mensagens
quinta-feira, 24 de dezembro de 2015
quarta-feira, 23 de setembro de 2015
"Estou sem paciência para o fim do Mundo" - Editorial no Jornal CONTACTO
Hoje é o 266° dia do ano. Hoje, o 266° Sumo Pontífice da Igreja Católica inicia a sua visita apostólica aos Estados Unidos, no primeiro dia de uma viagem que se prolonga até domingo e que o levará até Washington, Nova Iorque e Filadélfia. Francisco será o primeiro Papa a exprimir-se perante o congresso norte-americano. Um périplo que se segue a uma visita a Cuba, onde o Santo Padre se avistou com Fidel Castro, que passou décadas a perseguir os católicos.
Hoje, celebra-se também a mais importante festa judaica, o Yom Kipur, que significa “O Grande Perdão”. Amanhã, quinta-feira, tem lugar uma das mais significativas festas do calendário litúrgico muçulmano, o “Aïd al-Adha“, a “festa do sacrifício”. 266 dias é também o tempo da gestação humana, desde a concepção, entenda-se.
Uma coisa não tem nada a ver com outra mas, no entanto, há quem queira ver sinais nestas "confluências".
Uns vêem indícios de esperança, uma cada vez maior abertura do Vaticano ao mundo, pontes e pontos comuns entre as grandes religiões, que mostram que um aprofundar do diálogo interreligioso é possível e até salutar, como preconiza Francisco. Mas, também há, como sempre, os postilhões da “desgraça” a apregoar o fim dos tempos.
Basta percorrer a internet rapidamente para encontrar a lista de todas as catástrofes que nos esperam a partir de hoje e até domingo: a colisão de um asteróide com a Terra (o que a Nasa desmentiu em Julho), um novo colapso de Wall Street e o agravamento da crise financeira, atentados terroristas em catadupa e o caos global, guerra civil nos Estados Unidos, uma nova pandemia planetária, a Terceira Guerra Mundial, a chegada de alienígenas, mais do mesmo, etcêtera e tal.
Outra vez? Mas, esperem lá, o fim do Mundo não foi lá atrás? Não estava agendado para 1999, com o ’bug’ Y2K do milénio a anunciar a queda da estação espacial Mir em cima da Torre Eiffel? Ou estarei a confundir as coisas? A não ser que tivesse acontecido em 2012, e eu não tivesse reparado? Afinal, ainda cá estamos. Paco Rabanne enganou-se, é melhor a desenhar vestidos do que a fazer profecias (ainda bem para nós e para a moda), Nostradamus revelou-se um bom calculador de eclipses e mais nada, e o calendário maia é apenas isso, uma mera agenda hortícola e religiosa.
Depois dos fins dos mundos falhados de 1999, 2000 e 2012 pensei que os paladinos da escatologia apocalíptica tivessem, eles, os dias contados. Afinal, nada há de mais resiliente do que uma ferverosa fobia do fim do mundo.
Acrescente-se a estas coincidências mais uma, a “tétrade lunar” – termo astronómico que de repente comecei a ouvir na boca de pessoas que nem sabem descrever o que é um ecplise, mas que juram a pés juntos que esse é um sinal do Armagedão. Eu cá, que até gosto de astronomia, tive que procurar o significado.
A “tétrade lunar” descreve um fenómeno raro, mas não único (a última ocorreu em 2003-2004), quando quatro ecplises lunares totais acontecem consecutivamente num relativo curto espaço de tempo. Ora, depois dos eclipses lunares de 15 de Abril e 8 de Outubro de 2014, seguidos do de 4 de Abril de 2015, o quarto, em menos de 18 meses, acontece neste próximo domingo, 27 de Setembro. Como nestes eclipses o nosso planeta se interpõe entre o Sol e a Lua, a Terra projecta a sua sombra sobre o nosso satélite, eclipsando-o e dando-lhe uma cor alaranjada, o que popularizou designações como “lua vermelha” ou “lua de sangue”.
Os arautos do apocalipse, dos mitos e dos medos, pegaram nestas coincidências, rebuscaram a Bíblia, do livro da Revelação aos textos apócrifos, retiraram excertos do seu contexto e deturparam-nos para que se ajustassem, bem ou mal, aos seus presságios funestos. Tudo bem misturado num caldeirão grosseiro, com uma pitada de superstição, uma mão cheia de crendice, temperar com mau augúrio a gosto, alguns gramas de pavor néscio e a receita sibilina está no ponto. Aquecer q.b. em lume obscurantista, servir ao povão na internet ou na tv em formato de pseudo-documentário: pânico assegurado!
Estes Bandarras-aprendizes, que poluem a internet, o pequeno ecrã e a minha caixa de e-mail como pítias pífias patéticas, devem ter muito tempo e paciência para este tipo de hobby, ou estão desempregados, ociosos e desesperados para querer arrastar o resto da Humanidade na sua paranóia depressiva. Eu estou sem paciência para o fim do mundo.
Quanto à chegada dos extraterrestres, que sempre são anunciados nos períodos escatológicos (coitados, eles sabem lá!), devem ter decidido a tempo não desembarcar neste pardieiro. Até consigo imaginar: E.T. phone home –“Está lá? Estes terráqueos são perigosos! Desembarque desconselhado. Estes gajos não se entendem nem entres eles, continuam à paulada desde o tempo das cavernas, não se aceitam entre si, deixam morrer crianças, famílias inteiras nas praias, no mar e no deserto, sem estender a mão. Como é que vão acolher seres de outro planeta? Eles pensam que isto é tudo deles. É melhor adiar o nosso projecto de abrir ali uma feitoria.”
Se por ventura existem, os ETs devem é ter medo de nós, esta região do universo é tóxica para qualquer tipo de vida inteligente. Não são os deuses que devem estar loucos. Nós, humanos, é que damos sinais de loucura e de suicídio colectivos todos os dias. Luz precisa-se!
José Luís Correia,
in CONTACTO, 23/'09/2015
Hoje, celebra-se também a mais importante festa judaica, o Yom Kipur, que significa “O Grande Perdão”. Amanhã, quinta-feira, tem lugar uma das mais significativas festas do calendário litúrgico muçulmano, o “Aïd al-Adha“, a “festa do sacrifício”. 266 dias é também o tempo da gestação humana, desde a concepção, entenda-se.
Uma coisa não tem nada a ver com outra mas, no entanto, há quem queira ver sinais nestas "confluências".
Uns vêem indícios de esperança, uma cada vez maior abertura do Vaticano ao mundo, pontes e pontos comuns entre as grandes religiões, que mostram que um aprofundar do diálogo interreligioso é possível e até salutar, como preconiza Francisco. Mas, também há, como sempre, os postilhões da “desgraça” a apregoar o fim dos tempos.
Basta percorrer a internet rapidamente para encontrar a lista de todas as catástrofes que nos esperam a partir de hoje e até domingo: a colisão de um asteróide com a Terra (o que a Nasa desmentiu em Julho), um novo colapso de Wall Street e o agravamento da crise financeira, atentados terroristas em catadupa e o caos global, guerra civil nos Estados Unidos, uma nova pandemia planetária, a Terceira Guerra Mundial, a chegada de alienígenas, mais do mesmo, etcêtera e tal.
Outra vez? Mas, esperem lá, o fim do Mundo não foi lá atrás? Não estava agendado para 1999, com o ’bug’ Y2K do milénio a anunciar a queda da estação espacial Mir em cima da Torre Eiffel? Ou estarei a confundir as coisas? A não ser que tivesse acontecido em 2012, e eu não tivesse reparado? Afinal, ainda cá estamos. Paco Rabanne enganou-se, é melhor a desenhar vestidos do que a fazer profecias (ainda bem para nós e para a moda), Nostradamus revelou-se um bom calculador de eclipses e mais nada, e o calendário maia é apenas isso, uma mera agenda hortícola e religiosa.
Depois dos fins dos mundos falhados de 1999, 2000 e 2012 pensei que os paladinos da escatologia apocalíptica tivessem, eles, os dias contados. Afinal, nada há de mais resiliente do que uma ferverosa fobia do fim do mundo.
Acrescente-se a estas coincidências mais uma, a “tétrade lunar” – termo astronómico que de repente comecei a ouvir na boca de pessoas que nem sabem descrever o que é um ecplise, mas que juram a pés juntos que esse é um sinal do Armagedão. Eu cá, que até gosto de astronomia, tive que procurar o significado.
A “tétrade lunar” descreve um fenómeno raro, mas não único (a última ocorreu em 2003-2004), quando quatro ecplises lunares totais acontecem consecutivamente num relativo curto espaço de tempo. Ora, depois dos eclipses lunares de 15 de Abril e 8 de Outubro de 2014, seguidos do de 4 de Abril de 2015, o quarto, em menos de 18 meses, acontece neste próximo domingo, 27 de Setembro. Como nestes eclipses o nosso planeta se interpõe entre o Sol e a Lua, a Terra projecta a sua sombra sobre o nosso satélite, eclipsando-o e dando-lhe uma cor alaranjada, o que popularizou designações como “lua vermelha” ou “lua de sangue”.
Os arautos do apocalipse, dos mitos e dos medos, pegaram nestas coincidências, rebuscaram a Bíblia, do livro da Revelação aos textos apócrifos, retiraram excertos do seu contexto e deturparam-nos para que se ajustassem, bem ou mal, aos seus presságios funestos. Tudo bem misturado num caldeirão grosseiro, com uma pitada de superstição, uma mão cheia de crendice, temperar com mau augúrio a gosto, alguns gramas de pavor néscio e a receita sibilina está no ponto. Aquecer q.b. em lume obscurantista, servir ao povão na internet ou na tv em formato de pseudo-documentário: pânico assegurado!
Estes Bandarras-aprendizes, que poluem a internet, o pequeno ecrã e a minha caixa de e-mail como pítias pífias patéticas, devem ter muito tempo e paciência para este tipo de hobby, ou estão desempregados, ociosos e desesperados para querer arrastar o resto da Humanidade na sua paranóia depressiva. Eu estou sem paciência para o fim do mundo.
Quanto à chegada dos extraterrestres, que sempre são anunciados nos períodos escatológicos (coitados, eles sabem lá!), devem ter decidido a tempo não desembarcar neste pardieiro. Até consigo imaginar: E.T. phone home –“Está lá? Estes terráqueos são perigosos! Desembarque desconselhado. Estes gajos não se entendem nem entres eles, continuam à paulada desde o tempo das cavernas, não se aceitam entre si, deixam morrer crianças, famílias inteiras nas praias, no mar e no deserto, sem estender a mão. Como é que vão acolher seres de outro planeta? Eles pensam que isto é tudo deles. É melhor adiar o nosso projecto de abrir ali uma feitoria.”
Se por ventura existem, os ETs devem é ter medo de nós, esta região do universo é tóxica para qualquer tipo de vida inteligente. Não são os deuses que devem estar loucos. Nós, humanos, é que damos sinais de loucura e de suicídio colectivos todos os dias. Luz precisa-se!
José Luís Correia,
in CONTACTO, 23/'09/2015
Rótulo :
contacto,
editoriais,
fim do mundo,
meus escritos,
na imprensa
quinta-feira, 13 de setembro de 2012
Ce jeudi, je lis mes poèmes ici
Hoje em Bonnevoie
"Os jogos da vida" é o tema do próximo sarau "Mil Folhas"
O próximo sarau literário "Millefeuilles" ("Mil Folhas") tem lugar esta, quinta-feira, no Club Sénior de Bonnevoie, na cidade do Luxemburgo (n°26, rue du Dernier Sol), às 20h,
Leitura pública por amadores de textos de prosa ou poesia, em qualquer língua (uma versão em francês ou inglês dos textos deve ser fornecida pela organização ou pelo autor), música, dança e convívio entre pessoas de várias nacionalidades, é o que o evento propõe. O tema de amanhã é "Os jogos da vida".
O sarau é organizado nas segundas quintas-feiras do mês pela Casa das Associações, a Confederação da Comunidade Portuguesa no Luxemburgo (CCPL), o Instituto Cultural Luxemburguês-Peruano e o African Women Movement. Iniciado em 2010, o sarau já contou com intervenções em francês, português, luxemburguês, alemão, creolo cabo-verdiano, senegalês, espanhol, catalão, inglês e albanês, entre outras.
Para participar no próximo sarau literário, basta enviar o texto que pretende apresentar por e-mail ( soireeslitteraires@gmail.com ). Mais informações pelo tel. 26 68 31 09 ou 29 00 75.
Rótulo :
meus escritos,
Poesia
terça-feira, 28 de agosto de 2012
Perfeitos imperfeitos
PERFEITOS IMPERFEITOS
Capítulo I - Iniciação
os aviões aterrando e nós descolando.
O teu vestido azul com um facho na noite,
um beijo roubado e as luzes intermitentes
da auto-estrada no teu rosto constante.
O teu perfume por mim acima
as minhas mãos em desassossego
mas sem medo procurando as tuas.
Os barulhos da cidade finalmente ao longe
absorvidos pela tranquilidade da serra,
a terra prometida, a noite desejada porque a desejámos.
Sintra à beira serra, à beira beijo,
Baía de Cascais, devaneio à beira Tejo.
Cheguei ao meu porto de abrigo e tu ao teu ancoradouro amigo.
E desde o Monte da Lua e do promontório do esteiro
lançámos sonhos ao céu e ao mar com espuma de infinito.
O nosso amor consumado num acto de fé.
Capítulo II - Benção
Meu amor, venho de longe só para te dizer
que o vento mudoue que tens de esquecer.
O futuro não pode ser refém
da perfeição, da ilusão
nem do que já passou.
Serás a minha odalisca arisca
e eu o teu beduino de olhos em amêndoa.
Se quiseres.
Serás a minha princesa mourisca
de olhos tristes e coração de leoa.
Se me quiseres.
Não tenho tesouros nem palácios de marfim
mas quero-te no meu harém de ninguém
de púrpura e carmim.
Vem, deixa-me beijar a tua cicatriz
e lamber as tuas feridas
diz-me que desfiz
os teus pesadelos e as promessas traídas
e todo o desengano insano.
Que nada agora te acanhe
minha rosa champanhe
minha Coco Chanel, minha Maria Rapaz
minha Mónica fogosa e audaz
minha poesia, minha prosa,
minha literatura
minha alma velha, minha centelha
meu relâmpago, meu trovão
minha pimenta, meu açafrão
meu gengibre e meu anis
minha flor dos Cárpatos
minha princesa etérea, minha alma pura,
não me digas que estamos a ser insensatos,
não sejas perfeita, sê feliz!
III - Oração
Sejamos perfeitos imperfeitos,
sem condicionais. E desejemos mais,
desejemos tudo, só tudo pode ser o desejo.
E para além de todos os tempos verbais
sejamos mais que perfeitos!
Capítulo IV - Consagração
És raio de sol
que atravessou o meu caminho,
luz que iluminou a minha vida.
Detive-me e disfrutei
do teu calor no meu rosto e no meu peito.
És clarão na noite escura, na minha noite,
como a gota de chuva se enche de amor
antes de se lançar dos céus para dar vida a um torrão de terra.
És a fragrância fresca nas minhas manhãs, legado delicado
e diafano, como um sopro de vida a acordar-me.
Como pode um raio de luz ter-se extraviado
e agora encontrar-me?
Como pode o teu abraço ser o meu arpejo,
como pode o teu olhar entender-me assim,
como podem os teus lábios terem o desenho do meu beijo
como posso ter tanta sede de ti?
Deus, como tenho sede.
E tu, que devias ser água, és oceano.
Devias ser luz, mas és sol.
Devias ser calor, mas és fogo.
Devias ser sexo, mas és amor.
Devias ser gozo, mas és êxtase.
Devias ser grito, mas és libertação.
Devias ser mito, mas és fé.
Devias ser salto, mas és voo.
Devias ser tontura, mas és queda.
Devias ser vertigem, mas és viagem.
Devias ser o universo todo. E somos.
Como podem os nossos sonhos e as nossas almas
ter-se misturado no infinito
há tantos séculos atrás e os nossos corpos
somente agora no tempo finito deste delito?
Capítulo V - Sacramento
És manhãs de amor e tardes de calor,
horas de desatino, lençóis em desalinho,
noites estreladas, e todas as minhas madrugadas.
És os meus dias e as minhas horas
os meus minutos e os meus segundos
e toda a mecânica do meu coração.
As minhas mãos nos teus seios cheios
o teu rosto em mim
os teus cabelos na cascata da minha boca
quando me olhas assim
as tuas coxas e as tuas pernas cerceando-me sem dano
as tuas costas arqueadas numa alegre semifusa
as tuas gotas de suor num arco-íris profano
e nesse instante supremo quero lá saber da hipotenusa
e até a gramática fica à míngua
quando a duna da tua barriga toca na minha língua
é só o teu esforço no meu
o teu cansaço no meu
e tudo o mais que faço
é no teu regaço, arregaço, amasso, desfaço, trespasso, refaço.
Descanso.
Descansa.
E és finalmente todo o teu corpo a desaguar no meu
como se a tua foz fosse a minha garganta
e o meu peito a tua esperança.
Desagua nos meus braços
e dança na minha boca
segura-te aos meus flancos
escorre pelas minhas margens
como a força das marés.
Que a lua grave
desta atracção nada sabe
nem o teorema de Newton
compreende esta lei.
Um rio não se engana a caminho do mar,
então porque hás-de tu?
Capítulo VI - Comunhão
Acto de fé, auto-de-fé
combustão espontânea dos corpos
e das nossas bocas em rota de colisão
tsunami dos nossos sentidos
e dos nossos sexos comungando a ânsia.
Seja feita à nossa vontade!
E dizendo isto ergueu a taça enrugada aos céus
e disse: "Esta é a minha vida,
que hei-de derramar em ti e por ti
para salvação do nosso pecado".
E a penitente obediente ajoelhou-se
e aceitou a vida na sua boca e no seu peito.
Depois, pegando novamente no seu cálice,
levantou-o ao alto e fazendo isto disse:
"Este é o meu corpo, que repouso em ti
e no teu coração, para glória do nosso Amor".
E a penitente finalmente sorriu
e beberam os dois do veneno antigo.
Seja feita à nossa vontade!
Capítulo VII - Apocalipse
Einstein tinha razão:
o tempo dilata quando estou longe de ti.
JLC28082012
Rótulo :
meus escritos,
Poesia
sexta-feira, 24 de agosto de 2012
POEMA DOS HERÓIS
Poema dos Heróis
Eu era um índio,
vestia uma velha serrapilheira
na qual a minha mãe tinha cortado
franjas
e colado fitas coloridas,
e colado fitas coloridas,
calçava as pantufas da minha tia
a fazer de mocassins
e elas punham-me riscas de batom no rosto
e elas punham-me riscas de batom no rosto
a imitar pinturas de guerra
para eu lutar contra o Batman e o
Zorro.
Também eu queria resgatar a fada e a princesa
mas elas não queriam.
O Batman e o Zorro ganhavam sempre.
Pum, pum, pum e eu tinha que morrer
mesmo se não me apetecesse.
Como pode o vilão ser tão bem
mandado?
Eu preferia fumar o cachimbo da paz,
escolher penas de águia para enfeitar
o cabelo
e partilhar o lanche com a minha
squaw
debaixo da carteira da professora
imitando o tipi.
Mas a Anita soltava um gritinho
e fugia esconder-se atrás do Osvaldo
ou do Bruno.
Como pode uma princesa preferir um
herói
vestido de morcego ou de raposa ?
No ano seguinte fiz uma birra
e quis um coldre, um colete,
uma estrela, um chapéu de cobói
e uma pistola que dava estalidos e
tudo.
Mas a princesa veio de Pocahontas
e
as setas do Gerónimo
vieram colar-se à testa do xerife
mau.
JLC05052012
Rótulo :
meus escritos,
Poesia
sábado, 5 de maio de 2012
Poema do Herói
Herói
Eu era um índio
vestia uma velha serrapilheira
na qual a minha mãe tinha cortado franjas
e colado fitas coloridas
calçava as pantufas da minha tia a fazer de mocassins
e elas punham-me riscas de baton no rosto
a imitar pinturas de guerra
para eu lutar contra o Batman e o Zorro.
Também eu queria resgatar a fada e a princesa
mas elas não queriam.
O Batman e o Zorro ganhavam
sempre.
Pum, pum, pum e eu tinha que morrer
mesmo se não me apetecesse.
Pum, pum, pum e eu tinha que morrer
mesmo se não me apetecesse.
Como pode o vilão ser tão bem
mandado?
Eu preferia
fumar o cachimbo da paz,
escolher penas de águia para enfeitar o cabelo
e partilhar o lanche com a minha
squaw
debaixo da carteira da
professora imitando o tipi.
Mas a Anita soltava um
gritinho
e fugia esconder-se atrás do
Osvaldo ou do Bruno.
Como pode uma princesa preferir um herói
vestido de morcego ou de raposa ?
No ano seguinte fiz uma birra
e quis um coldre, um colete,
uma estrela, um chapéu de cobói
e uma pistola que dava estalidos e tudo.
Mas a princesa veio de Pocahontas
e as setas do Gerónimo
vieram colar-se à testa do xerife mau.
JLC05052012
Rótulo :
meus escritos
sábado, 29 de agosto de 2009
Ode à Humanidade
"(...) Eu canto a Humanidade, esse valor que se espalha pelo Universo, como um raio de sol irradiando uma pétala, como uma gota de água simplificando o deserto, como uma nova essência que tudo transforma à sua passagem, e nunca nada jamais será igual. Um outro valor mais alto se ergue do pó! E se somos realmente apenas pó das estrelas, se algures alguém nos observasse do longíquo espaço, veria que já cintilamos. (...)"
José Luís Correia, in "Ode à Humanidade", 2002
Rótulo :
meus escritos
Subscrever:
Mensagens (Atom)



