Na próxima quarta-feira, dia 13 de Novembro, têm lugar as Eleições Sociais no Luxemburgo.
Mas o que são as eleições sociais?
É uma votação através da qual os trabalhadores – todos os trabalhadores, residentes ou fronteiriços, desde que trabalhem no Grão-Ducado –, podem eleger "o seu Parlamento".
Este "Parlamento dos Trabalhadores" chama-se "Chambre des Salariés" (Câmara dos Assalariados) e ao votarem os trabalhadores vão estar a eleger os seus representantes, por sector de actividade, junto desta instituição. Há muitos portugueses candidatos. Nas empresas de construção civil os delegados portugueses ultrapassam mesmo os 80 % dos candidatos.
Composto por 60 membros (à semelhança do Parlamento luxemburguês, mas a comparação acaba aqui!), a Câmara dos Assalariados tem como missão, entre outras, dar pareceres ao Governo sobre legislação laboral e social. Tradução: é um órgão de consulta do Governo e os seus pareceres não são obrigatórios.
Os trabalhadores receberam há semanas, por correio, em casa, os boletins de voto. Nestes, podem votar nas listas e nos representantes que cada sindicato apresenta no sector de actividade em que o trabalhador está empregado. O boletim de voto deve ser reenviado à comissão eleitoral e chegar antes da data do sufrágio.
Em paralelo, decorrem também as eleições para a escolha das delegações de pessoal, mas apenas nas empresas com mais de 15 trabalhadores. Há empresas com mais de 15 trabalhadores e que não possuem delegações que representam os empregados, mas legalmente qualquer trabalhador dessas empresas pode constituir uma delegação do pessoal, se a empresa possuir o número mínimo de trabalhadores.
Porque é que é tão importante participar nas eleições sociais?
Primeiro, porque é um direito que temos e que não devemos deixar extraviado por mãos alheias. Os trabalhadores de outros países não têm a possibilidade de eleger representantes dos trabalhadores para um órgão que pode intervir junto do Governo. E, já que trabalhamos num país que nos dá essa "arma", utilizemo-la então! Não nos queixemos apenas das condições de trabalho, do excesso de horas laborais, do patrão, das leis sociais! Votemos!
Às urnas, trabalhadores!
Quanto mais pesarem os representantes que elegermos, mais temos a possibilidade de fazer ouvir as nossas vozes e as nossas reivindicações laborais e sociais junto de quem decide.
Enquanto estrangeiros, mesmo residentes, não podemos votar para o Parlamento. Das 530 mil pessoas que vivem no Grão-Ducado, apenas 238 mil podiam votar nas últimas legislativas de 20 de Outubro. Ou seja, a 43 % da população ficou vedado o direito de eleger os representantes dos cidadãos no Parlamento, mesmo se as leis que este órgão de soberania aprova se aplicam a todos os cidadãos. Não somos nós cidadãos como os outros?
Talvez com o novo Governo as coisas mudem nesse plano. Ou talvez não mudem!
Utilizemos então a "arma" do voto nestas eleições sociais. Neste sufrágio somos maioritários e temos o direito de participar. Nós, os estrangeiros. Apenas um terço da massa salarial é luxemburguesa. Dos 362 mil trabalhadores que há no Grão-Ducado, 104 mil são nacionais, 87 mil são estrangeiros residentes e 160 mil são fronteiriços. Ou seja, 247 mil trabalhadores são estrangeiros, com os portugueses a representarem um quarto desse número.
É um magro consolo, bem sei, mas temos que aproveitar esta ocasião para participar na sociedade a que pertencemos, já que não o podemos fazer nas legislativas.
Dito isto, não me interpretem de forma errada: não troco um pelo outro, nem o direito de voto nas eleições sociais me demove de pensar que devemos continuar a reivindicar a participação nas legislativas, enquanto cidadãos de pleno direito deste país, que contribuem para a sua riqueza económica, cultural, social e em muitos outros aspectos da vida quotidiana, e que eleger o Parlamento não é um privilégio a que almejamos, mas um direito democrático que nos assiste.
Por último, e talvez a razão mais importante, é vital votarmos nestas eleições sociais porque o futuro que se desenha no Luxemburgo é incerto. O Grão-Ducado já não é uma "ilha" e a crise chegou mesmo a todos os sectores de actividade neste país que muitos consideravam imune às ondas de choque internacionais. Quem vai pegar no leme nesta fase de navegação à vista no mar tenebroso da crise? O tempo da bonança ainda parece longínquo.
O Governo liberal-socialista-verde que se prepara, no preciso momento em que escrevo, e que nos vai governar durante cinco anos, terá contornos mais neoliberais ou mais socialistas? Os Verdes, tradicionalmente à esquerda, vão deixar tingir-se pelos colegas de coligação? Como vai evoluir a carga horária dos trabalhadores, o pagamento das horas extraordinárias, o ordenado mínimo, a indexação dos salários, os abonos de família, os benefícios sociais?
Claro que não sabemos responder a estas questões, mas ter os representantes que elegemos na Câmara dos Assalariados a defender os nossos interesses, nos próximos cinco anos, é uma das formas de assegurarmos que, pelo menos, alguém lutará aí por esses nossos direitos.
José Luís Correia
(Editorial no Jornal CONTACTO, de 06/11/2013)
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quarta-feira, 6 de novembro de 2013
quarta-feira, 23 de outubro de 2013
Sismo político no Luxemburgo
Estaremos a viver um sismo político no Luxemburgo ou simplesmente o fim de uma era?
É o que muitos estarão neste momento a pensar, depois da revelação na segunda-feira à noite de que Xavier Bettel (DP) quer formar com os socialistas e com os Verdes um governo a três, relegando o CSV para a oposição, onde o partido cristão-social só esteve durante um interregno de cinco anos (1974-1979), nos últimos sessenta. Pior para muitos é que isto significa literalmente o "despejo" de Juncker do Governo. É como cair "o Carmo e a Trindade", qualquer que seja a correspondência luxemburguesa desta expressão.
No domingo, o CSV vencia as eleições e muitos ficavam tranquilos, seguros de que Juncker iria prolongar o seu "reinado" de 18 anos. Aqueles para quem CSV e Juncker são sinónimos de estabilidade. Outros mostravam preocupação e desânimo, os que pensam que esse mesmo binómio significa imobilismo e conservadorismo. Visto que o DP tinha crescido, mas que o CSV tinha vencido, para uma maioria de luxemburgueses a questão era apenas saber quem Juncker escolheria para parceiro de coligação.
A mais urbana e democrática das opções era Bettel deixar Juncker vir bater-lhe à porta para negociar. Eufórico com a vitória do seu partido, Bettel decretou logo no domingo à noite que "o futuro Governo não se faria sem o DP".
Juncker fez questão de pôr Xavier no seu lugar, recordando que apesar de os cristãos-sociais terem perdido milhares de votos e três assentos parlamentares, o CSV era o vencedor da noite e continuava a ser a maior força política do país. Juncker reclamou até o papel de formador do governo. Ou seja: o DP podia até festejar, mas cabia ao CSV decidir.
Mas estas equações todas não contavam com a ambição desmedida de Bettel, que surpreendou tudo e todos ao tomar a dianteira de uma coligação pouco provável. A não ser que o jovem estratega liberal já estivesse a preparar esta jogada há muito. Só assim se percebe melhor o ataque cerrado e virulento que DP e Verdes infligiram a Juncker em Julho, no caso que o responsabilizou pelos disfuncionamentos dos serviços secretos. A estocada final veio com a "traição" dos socialistas, parceiros de coligação do CSV, que, no derradeiro momento, alinharam com a oposição e fizeram cair o Governo. Será que os três partidos se concertaram para, qualquer que fosse o resultado das eleições em Outubro, se aliarem, como única forma de retirarem o CSV do poder?
Um governo CSV-DP seria o mais lógico, porque juntaria dois partidos de direita. Mas outras ambições estão aqui em jogo. Bettel sabe que nunca estaria em posição de força num Governo com os cristãos-sociais. E governar na sombra de Juncker, não, obrigado! Choque de carismas?
Com o LSAP e os Verdes, o DP negoceia como líder e pode reivindicar as pastas que quer e até a chefia do Governo. Apesar de o DP ter o mesmo número de assentos parlamentares que o LSAP (13), os socialistas não estão em posição de força, porque tiveram menos votos que os liberais. Quanto aos Verdes, "servem" ao DP e ao LSAP para conseguir a maioria.
Esta coligação pouco provável adivinha-se turbulenta pelas divergências ideológicas dos três partidos. É como misturar água com azeite. Ou será que basta ter um inimigo comum a abater para de repente encontrar amigos na ala oposta? Será que a vontade de destronar Juncker e o CSV são mais fortes do que as diferenças que separam os três partidos?
Parece que a aritmética oportunista prevalece sobre a política e a democracia. Tudo isto cria uma situação que é inédita no Luxemburgo e, no mínimo, peculiar: o partido com mais votos pode ir parar à oposição.
Será que Bettel já esqueceu o que disse no domingo, após saber o resultados dos votos: "Se o Governo se fizer sem o DP, isso seria desrespeitar os resultados das urnas, e para quê fazer então eleições?". Não é o que a coligação a três está a fazer com os eleitores do CSV, que foi o partido mais votado?
E o que dizer das consequências internacionais do afastamento de Juncker do Governo? Por essa Europa fora muito são os responsáveis políticos, chefes de Estado, economistas e cidadãos que depositam no veterano dos chefes de governo europeus uma confiança e fé só comparável à que dedicam aos pais fundadores da UE. Como será lá fora a imagem do Grão-Ducado governado pela "coligação gambiana" (alcunha que deriva das cores do três partidos que evocam a bandeira da Gâmbia: azul, vermelho e verde)?
José Luís Correia
(Editorial, in Jornal CONTACTO, de 23/10/2013)
É o que muitos estarão neste momento a pensar, depois da revelação na segunda-feira à noite de que Xavier Bettel (DP) quer formar com os socialistas e com os Verdes um governo a três, relegando o CSV para a oposição, onde o partido cristão-social só esteve durante um interregno de cinco anos (1974-1979), nos últimos sessenta. Pior para muitos é que isto significa literalmente o "despejo" de Juncker do Governo. É como cair "o Carmo e a Trindade", qualquer que seja a correspondência luxemburguesa desta expressão.
No domingo, o CSV vencia as eleições e muitos ficavam tranquilos, seguros de que Juncker iria prolongar o seu "reinado" de 18 anos. Aqueles para quem CSV e Juncker são sinónimos de estabilidade. Outros mostravam preocupação e desânimo, os que pensam que esse mesmo binómio significa imobilismo e conservadorismo. Visto que o DP tinha crescido, mas que o CSV tinha vencido, para uma maioria de luxemburgueses a questão era apenas saber quem Juncker escolheria para parceiro de coligação.
A mais urbana e democrática das opções era Bettel deixar Juncker vir bater-lhe à porta para negociar. Eufórico com a vitória do seu partido, Bettel decretou logo no domingo à noite que "o futuro Governo não se faria sem o DP".
Juncker fez questão de pôr Xavier no seu lugar, recordando que apesar de os cristãos-sociais terem perdido milhares de votos e três assentos parlamentares, o CSV era o vencedor da noite e continuava a ser a maior força política do país. Juncker reclamou até o papel de formador do governo. Ou seja: o DP podia até festejar, mas cabia ao CSV decidir.
Mas estas equações todas não contavam com a ambição desmedida de Bettel, que surpreendou tudo e todos ao tomar a dianteira de uma coligação pouco provável. A não ser que o jovem estratega liberal já estivesse a preparar esta jogada há muito. Só assim se percebe melhor o ataque cerrado e virulento que DP e Verdes infligiram a Juncker em Julho, no caso que o responsabilizou pelos disfuncionamentos dos serviços secretos. A estocada final veio com a "traição" dos socialistas, parceiros de coligação do CSV, que, no derradeiro momento, alinharam com a oposição e fizeram cair o Governo. Será que os três partidos se concertaram para, qualquer que fosse o resultado das eleições em Outubro, se aliarem, como única forma de retirarem o CSV do poder?
Um governo CSV-DP seria o mais lógico, porque juntaria dois partidos de direita. Mas outras ambições estão aqui em jogo. Bettel sabe que nunca estaria em posição de força num Governo com os cristãos-sociais. E governar na sombra de Juncker, não, obrigado! Choque de carismas?
Com o LSAP e os Verdes, o DP negoceia como líder e pode reivindicar as pastas que quer e até a chefia do Governo. Apesar de o DP ter o mesmo número de assentos parlamentares que o LSAP (13), os socialistas não estão em posição de força, porque tiveram menos votos que os liberais. Quanto aos Verdes, "servem" ao DP e ao LSAP para conseguir a maioria.
Esta coligação pouco provável adivinha-se turbulenta pelas divergências ideológicas dos três partidos. É como misturar água com azeite. Ou será que basta ter um inimigo comum a abater para de repente encontrar amigos na ala oposta? Será que a vontade de destronar Juncker e o CSV são mais fortes do que as diferenças que separam os três partidos?
Parece que a aritmética oportunista prevalece sobre a política e a democracia. Tudo isto cria uma situação que é inédita no Luxemburgo e, no mínimo, peculiar: o partido com mais votos pode ir parar à oposição.
Será que Bettel já esqueceu o que disse no domingo, após saber o resultados dos votos: "Se o Governo se fizer sem o DP, isso seria desrespeitar os resultados das urnas, e para quê fazer então eleições?". Não é o que a coligação a três está a fazer com os eleitores do CSV, que foi o partido mais votado?
E o que dizer das consequências internacionais do afastamento de Juncker do Governo? Por essa Europa fora muito são os responsáveis políticos, chefes de Estado, economistas e cidadãos que depositam no veterano dos chefes de governo europeus uma confiança e fé só comparável à que dedicam aos pais fundadores da UE. Como será lá fora a imagem do Grão-Ducado governado pela "coligação gambiana" (alcunha que deriva das cores do três partidos que evocam a bandeira da Gâmbia: azul, vermelho e verde)?
José Luís Correia
(Editorial, in Jornal CONTACTO, de 23/10/2013)
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sábado, 14 de setembro de 2013
Tecidos de mil cores e padrões quatro vezes por ano no Kirchberg
| Foto: José Luís Correia |
Numa área de 5 mil metros quadrados, a Luxexpo acolhe cerca de uma centena de expositores e stands de vendedores vindos da Holanda, Alemanha, Bélgica e França, que oferecem uma grande variedade de tecidos aos melhores preços.
"Cashemira a 40 euros o metro, 'Madame'", anuncia um vendedor, alemão, a adivinhar pela pronúncia. "No comércio custa mais de 100", avisa. A cliente, belga, deixa-se tentar.
O passeio pelo mercado é um mergulho num universo de mil cores e padrões garridos, são sedas, cetins, tafetás, organzas, tules, brocados, e até ganga a metro.
Aproximamo-nos das bancas e deixamo-nos envolver pelo bom cheiro a lã virgem, a linho, algodão, malha. Há stands onde essa experiência é mais "perigosa": mulheres de todas as idades acotovelam-se e perdem a paciência porque já esperam há demasiado tempo pela sua vez. "A bicha é aqui!", zanga-se uma cliente, em luxemburguês. Os vendedores não têm mãos a medir.
"É espantoso", confia-nos um vendedor holandês, da empresa TST. "Faço 440 km para vir a este mercado, mas vale a pena. Nunca pensei que logo depois das férias vendéssemos tanto. O dia está a correr muito bem."
"Antes, o mercado vinha só três vezes ao Luxemburgo, mas os clientes são tantos que já temos uma quarta data", diz satisfeito. E logo a atenção lhe é exigida por uma cliente portuguesa que pergunta pela origem de um tecido. "É pura lã virgem, da Itália, da melhor qualidade, 24 euros o metro." A cliente manda cortar um metro e meio e confia-nos que é costureira na reforma.
"Nesta feira, a qualidade dos tecidos é muito boa e os preços baixos, em relação aos praticados no comércio. "O 'polar' está a 3,95 euros o metro, já viu, são preços muito bons", diz por seu lado uma cliente francesa.
| Foto: José Luís Correia |
Há tecidos de todos os tipos e para tudo o que se quiser, para interiores, decoração, vestuário, desde cortinados, colchas, toalhas, pijamas, lençóis, saias, blusas, casacos, fatos, calças, vestidos de cocktail e de noiva e até pele para fazer malas de mão.
Há pessoas a comprar para costurar em casa e há costureiras a comprar para as encomendas das clientes.
Há igualmente stands com tudo o necessário para a costura: botões, fitas, fechos "éclair", elásticos, linhas, agulhas, tesouras, fitas, máquinas de costura, acessórios.
Este mercado, que faz a ronda pelos Países Baixos (Maastricht, Gouda, Eindhoven, Roterdão, etc.) França (Mulhouse, Reims, Nancy), Bélgica (Mons, Namur, Louvain, Antuérpia, Gand, Brugges) e Luxemburgo, é uma organização da holandesa "Stoffen Spektakel".
O Mercado dos Tecidos regressa ao Luxemburgo a 16 de Novembro. A entrada é gratuita. O estacionamento no recinto da Luxexpo custa 3 euros. No P&R ao lado é gratuito.
Texto e fotos: José Luís Correia
(Mais fotos em www.wort.lu/pt), site onde este artigo foi originalmente publicado)
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sábado, 29 de junho de 2013
Bailado de Moa Nunes dá corpo e movimento às palavras
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| Foto: Gerry Huberty/Luxemburger Wort |
O bailado, que estreou ontem na Abadia de Neumünster, no Grund, contou com sala cheia. Esta noite há novo espectáculo e ainda há bilhetes.
O bailado é composto por duas dezenas de quadros, cada um transmitindo uma emoção, uma história, uma palavra, num todo plasmado na dança.
São sete os bailarinos em palco, seis mulheres e um homem. São ninfas, são "Petrussides", do rio que ali corre ao lado (Pétrusse)? Não! Os sete são um todo, como vogais e consoantes dos verbos que dançam. Os movimentos são palavras, são ondas, círculos, os olhares seduzem-se, as mãos tocam-se. É dança. É poesia.
Há momentos envolventes, sossegados, cativantes, outros alegres, barulhentos, saltitantes. As palavras em palco não são apenas as do título. O bailado também fala, sobe o tom, acalma-se, fica poético, vira, joga, sobressalta, os bailarinos gritam, ora acabam a discutir, ora a brincar uns com os outros. O espectador deixa-se levar, as canções tranquilas deixam-no introspecto, outras sacodem-no, o mundo gira ao ritmo dos gestos e dos passos dos bailarinos.
As palavras estão também presentes no lindíssimo poema "Self Love Poem", de Charlie Chaplin, dito por Christel Schockmel, entre dois quadros e que fala de autenticidade, respeito, maturidade, auto-confiança, simplicidade, valores pelos quais Moa se quis reger neste bailado.
Num momento o público tem de se conter para não dançar ao som da percussão afro-brasileira de Nyllo Canela e Xuxa Badou. Os bailarinos, esses, parecem possessos. Há também uma dança melancólica com dois véus vermelhos suspensos (do céu?). Ela dança com as nuvens? Num outro quadro, o bailarino dança sozinho em palco com cadeiras (acessório emprestado ao cabaret?), mas o grupo acompanha-o em diferido, em imagens filmadas como pano de fundo.
Todas estas novas linguagens e plasticidades da dança não são para despistar ou confundir o espectador, são para inovar, transmitir novas emoções, outras direcções e inspirações, dar corpo a novas palavras. As palavras estão também presentes nas canções escolhidas para acompanhar os bailarinos. Não são muito habituais para um bailado, onde a música instrumental é a banda sonora mais corrente, mas são prodigiosas, pela sua força e beleza. Com a plástica desenhada pela dança ficam ainda mais sublimadas e emocionam até o espectador mais desatento.
Os géneros fazem-nos viajar da música clássica ao pop, passando pelo jazz, a bossa nova, a música popular brasileira, o samba e até o forró. O leque é impressionante pela sua diversidade e vai desde Keith Jarret ("Köln January 24, 1974") a Elis Regina ("O que tinha de ser", de Tom Jobim), Caetano Veloso ("Sozinho"), Maria Bethânia ("Poema dos Olhos da Amada", lido por Jeanne Moreau, canção de Vinicius de Morais), Mónica Salmaso ("Mortal Loucura", de José Miguel Wisnik/Gregório de Matos Guerra), Tom Zé ("Xiquexique"), Jacques Brel ("Voir un ami pleurer") e I Muvrini, cantando em córsega ("L’emigrante"), até músicas de uma tradição mais clássica como as do anglo-germânico Max Richter ("Sarajevo"), do jovem polaco Abel Korzeniowski ("Stillness of the Mind"), do sino-americano Yo-Yo Ma ("Suite for solo cello"), do italiano Ludovico Einaudi ("Due Tramonti") ou do francês René Aubry ("Steppe").
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| Foto: Gerry Huberty/Luxemburger Wort |
"A palavra é uma ferramenta poderosa"
Este é o terceiro bailado que Moa Nunes compõe e apresenta no Luxemburgo, depois de "Meus Caminhos", em 2010, e "Um Olhar a Dois", em 2011.
"No primeiro [bailado] falei da minha vida, no segundo do Amor, neste é sobre a linguagem que é uma das ferramentas mais poderosas que temos. Mas não é só sobre as palavras, é sobre a palavra do corpo, do olhar, da poesia, a palavra que utilizamos diariamente, a palavra de conforto e de alegria, a palavra da brincadeira", explica Moa.
Sobre a mistura de géneros, musicalidades e plasticidades do bailado, Moa não admite logo, mas adora quebrar os códigos da dança contemporânea.
"Eu trabalho a música contemporânea com o moderno, o neoclássico, o jazz. Não me prendo numa só modalidade, porque venho dessa tradição, na linha de escolas como Martha Graham e Lehman" (n.d.R. escolas de dança americanas muito conceituadas).
"Trabalho para um público europeu e por isso quis incluir todos estes géneros musicais. Quero que entendam a minha história". "Num dos quadros, eu quis mostrar trabalhadores que saem da roça. Vêm sujos e preparam-se para tomar banho. Mas aí pintou a música e o brasileiro é assim mesmo, tem que dançar", explica Moa Nunes, evocando um dos quadros mais divertidos do bailado.
"É talvez difícil que o público entenda cada quadro exactamente, mas a mensagem, a energia, a poesia e a emoção que eu queria transmitir, acho que consegui passar".
Moa Nunes e os sete bailarinos
Quisemos também falar com alguns dos bailarinos, que têm as mais diversas origens e nacionalidades: há uma portuguesa, uma brasileira, três belgas, uma luxemburguesa e um italiano.
A brasileira Grazi Furtado, que já trabalhou com Moa Nunes noutros bailados, explica onde nasce a energia que o grupo demonstra em palco. "É muito importante passar a emoção que temos em palco para o público. Essa emoção vem do Moa, mas como grupo essa energia vem de todos, e acabamos por conseguir transformá-la em algo muito belo e passer isso para o público através da dança".
A portuguesa Guida Maurício mora em Bruxelas e foi aí que Grazi lhe apresentou o coreógrafo. Guida concorda, "a dança é uma linguagem universal, as músicas falam muito e transmitem muito do que ele quis fazer passar".
"Conheço bem o Moa, a sua maneira de fazer, de pensar, de exprimir as coisas pela dança e isso ajudou-me a transmitir ao público o que ele queria. Dançar música contemporânea sobre canções brasileiras é muito envolvente e enérgico", diz por seu lado a belga Cathy Crols, que trabalhou com o coreógrafo em todos os seus bailados e o conhece desde quando este era seu professor de dança.
Também Govanni Zazzera, italiano residente no Luxemburgo e único homem do grupo de bailarinos, trabalhou com Moa em todos os seus espectáculos. "Somos todos de origens diferentes mas, na dança, não é preciso compreender as palavras, isso exprime-se pelos gestos, pelos movimentos e até pelo olhar. O que eu gosto no facto de trabalhar com Moa, é que ele se adapta aos bailarinos e procura as nossas qualidades e competências para saber como nos encaixar no que quer fazer. Dançar ao som de música brasileira é um mimo, pode ser muito enérgico e cativante, e depois muito poético e suave".
Christelle Renard também é belga, gere a companhia de dança Zoïa, e é a primeira vez que trabalha com Moa. "Este espectáculo fala da dificuldade de nos exprimirmos e isso é comum a todos nós. Por isso, penso que o público gostou e entendeu a mensagem".
"O Moa sabe muito bem dirigir os bailarinos, os movimentos são dele, a composição é dele, ele explica-nos exactamente o que espera de nós e o que o público tem de reconhecer na nossa dança, mas deixa que a nossa personalidade sobressaia também. Esta mistura entre música brasileira e dança contemporânea, com influências jazz, é mesmo muito gira. Muitas vezes, a dança contemporânea fica no cliché, é demasiado conceptual, por vezes já nem sequer há dança. Este tipo de bailado e o estilo do Moa Nunes podem reconciliar o público e a dança contemporânea".
Uma das bailarinas mais novas, Noelle Gerin, é luxemburguesa, mas também já trabalha há três anos com o coreógrafo. "Todos os espectáculos são muito pessoais, descobrimos mais sobre o Moa através de cada novo bailado. Nós, depois, é que tentamos contar ao público o que ele nos transmite".
"Uma das suas grandes qualidades é que vê a nossa personalidade e utiliza isso no espectáculo para nos valorizar. Ele não olha apenas o bailarino, mas interessa-se pela pessoa que somos. Faz-nos escutar a música, muitas vezes brasileira, depois faz a tradução da canção e explica-nos o que quer transmitir através da dança que compôs para essa música. Pode ser melancolia ou alegria, mas pede-nos acima de tudo para sermos sinceros na dança. Adoro trabalhar com ele". Esta paixão no olhar e nas palavras, quando falam de Moa, sentimo-la em cada bailarino com quem falámos.
E o público de ontem à noite, a julgar pela efusiva e barulhenta standing ovation no final, também. O próximo bailado deste coreógrafo brasileiro que mora no Luxemburgo desde 1997 (com um intervalo entre 2002 e 2009) chama-se "L’Autre Côté", revelou-nos ainda Moa Nunes, e deverá estrear em Outubro ou Novembro de 2014. Para o espectáculo de logo à noite ainda há bilhetes.
Mais informações pelo tel. 691 204 999. Bilhetes : 29 euros (palavras.tickets@hotmail.com) ou no site do CCRN-Abbaye de Neumünster (www.ccrn.lu).
José Luís Correia
(Mais fotos em www.wort.lu/pt, site onde este artigo foi originalmente publicado)
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quarta-feira, 5 de junho de 2013
(in)Tolerante
Vivemos tempos de tolerância, vivemos tempos de intolerância. Humanidade esquizofrénica. Parece que cada vez que damos um passo no sentido de nos sentirmos cada vez mais como uma só raça, a humana, mais certas franjas desse corpo se arrepiam e se retraem sobre si mesmas.
Vem isto a propósito de vários momentos que me marcaram nos últimos dias e semanas.
Primeiro, o julgamento de um grupo de jovens cabo-verdianos na semana passada, acusados de atacarem e roubarem um passageiro num comboio em 2011, na linha Luxemburgo-Rodange. Ao juiz, a vítima disse que os jovens tinham intenções de o assaltar assim que entraram na carruagem. Os jovens testemunharam que o homem os expulsou da carruagem de primeira classe e que isso desencadeou os insultos e a agressão. Quem provocou quem e porquê? E isso justifica uma tal violência?
Enquanto isto decorria, a primeira-ministra do Ontario, Kathleen Wynne, assinalava os 60 anos da imigração portuguesa no Canadá, considerando "vital" o reconhecimento dos imigrantes "que adicionaram a sua distinção ao nosso tecido multicultural”. A ministra recomendava ainda que a comunidade portuguesa do Ontário perpetuasse a sua identidade e costumes.
"A nossa província é a soma total das suas diversas comunidades, os canadianos portugueses podem ter um grande orgulho em saber que ajudaram a moldar a nossa identidade colectiva e única”, disse a ministra canadiana.
A palavra-chave aqui é reconhecimento e não identidade.
Estivesse o Canadá ainda ligado à França e talvez o discurso fosse outro. Sem se aperceberam da sua arrogância, os franceses continuam a vangloriar-se de ser uma "excepção cultural" e a elogiar a assimilação cultural dos filhos dos imigrantes, considerando exemplar só esse tipo de integração. Por isso a segunda e terceira geração de portugueses em França é culturalmente invisível.
O país da igualdade e da fraternidade parece cada vez menos igualitário e fraterno. A violência dos protestos da extrema-direita e dos anti-casamento gay na semana passada em Paris, nos Champs-de-Mars (campos de Marte, Deus da Guerra! – por vezes, a História escolhe bem os seus teatros), provocaram-me arrepios. Seja-se a favor ou contra a lei do casamento para todos, isso justifica uma tal violência?
Sopram ventos xenófobos não só contrários aos estrangeiros mas a tudo o que é diferente, os extremismos e as intolerâncias exacerbam-se e muitos grupos e populações retraem-se, bacocos e primários, sobre si ou, pior, degeneram na violência.
Na Suécia, a morte "acidental" há duas semanas de um português pela polícia – que recebeu os agentes com um machado, quando estes bateram à porta de sua casa, onde o imigrante se tinha fechado com a companheira – provocou a fúria dos jovens do bairro, onde moram muitos estrangeiros, que atacaram a polícia e incendiaram carros. Em resposta, grupos de extrema-direita manifestaram-se contra os manifestantes e tiveram confrontos também com a polícia. A vaga de violência provocou um debate no país sobre a integração dos imigrantes, que representam 15 % da população (muito longe dos 46 % do Luxemburgo).
Não é o primeiro incidente deste tipo na habitualmente tranquila Suécia. Distúrbios semelhantes ocorreram em 2010 e 2008 naquele país, após o encerramento de um centro cultural islâmico. A reacção do Reino Unido e dos EUA aos distúrbios na Suécia foi desaconselharem os seus cidadãos a viajar para as zonas de conflito. Como se as ruas de Londres não tivessem sido dois dias antes palco de um degolamento em plena luz do dia de um soldado britânico por dois nigerianos jihadistas.
E que dizer dos EUA, onde menores desatam semana sim, semana não, aos tiros nas escolas, e o terrorismo "doméstico" faz mais de 9 mil mortos por ano, só com armas de fogo? Para fazer baixar estas estatísticas, Obama tentou fazer passar uma lei que obrigasse os vendedores de armas a verificar os antecedentes criminais dos compradores. Por escassos seis votos, a lei foi rejeitada no Senado, no que foi considerado por Obama como "um dia de vergonha para Washington".
Nem um Prémio Nobel da Paz consegue salvar uma nação-suicida. O poderoso lóbi norte-americano das armas argumentou que a lei "feria" a segunda emenda da constituição, que autoriza qualquer cidadão a ter uma arma, mas esquecem-se que data de uma remota época em que pistoleiros faziam a lei em povoações sem policiamento. Salve-se então a segunda emenda, mesmo que isso mate crianças inocentes e o país.
O nosso pacato e pequeno Grão-Ducado tem muitos defeitos e também destas intolerâncias internas. Mas gosto de pensar que são erupções cutâneas isoladas, de elementos enfermos da sociedade, e que nunca se converterão em movimentos de massa como em França ou na Suécia.
Ou será que essa violência está apenas latente, por eclodir? Ele há indícios que nos preocupam. Por enquanto, a paz social e a tolerância vão sendo alimentadas pela prosperidade e estabilidade do país. Mas se um dia esse frágil equilíbrio for rompido, a nossa sociedade continuará tão tolerante como diz ser?
José Luís Correia
in Jornal Contacto, 05/06/2013
Vem isto a propósito de vários momentos que me marcaram nos últimos dias e semanas.
Primeiro, o julgamento de um grupo de jovens cabo-verdianos na semana passada, acusados de atacarem e roubarem um passageiro num comboio em 2011, na linha Luxemburgo-Rodange. Ao juiz, a vítima disse que os jovens tinham intenções de o assaltar assim que entraram na carruagem. Os jovens testemunharam que o homem os expulsou da carruagem de primeira classe e que isso desencadeou os insultos e a agressão. Quem provocou quem e porquê? E isso justifica uma tal violência?
Enquanto isto decorria, a primeira-ministra do Ontario, Kathleen Wynne, assinalava os 60 anos da imigração portuguesa no Canadá, considerando "vital" o reconhecimento dos imigrantes "que adicionaram a sua distinção ao nosso tecido multicultural”. A ministra recomendava ainda que a comunidade portuguesa do Ontário perpetuasse a sua identidade e costumes.
"A nossa província é a soma total das suas diversas comunidades, os canadianos portugueses podem ter um grande orgulho em saber que ajudaram a moldar a nossa identidade colectiva e única”, disse a ministra canadiana.
A palavra-chave aqui é reconhecimento e não identidade.
Estivesse o Canadá ainda ligado à França e talvez o discurso fosse outro. Sem se aperceberam da sua arrogância, os franceses continuam a vangloriar-se de ser uma "excepção cultural" e a elogiar a assimilação cultural dos filhos dos imigrantes, considerando exemplar só esse tipo de integração. Por isso a segunda e terceira geração de portugueses em França é culturalmente invisível.
O país da igualdade e da fraternidade parece cada vez menos igualitário e fraterno. A violência dos protestos da extrema-direita e dos anti-casamento gay na semana passada em Paris, nos Champs-de-Mars (campos de Marte, Deus da Guerra! – por vezes, a História escolhe bem os seus teatros), provocaram-me arrepios. Seja-se a favor ou contra a lei do casamento para todos, isso justifica uma tal violência?
Sopram ventos xenófobos não só contrários aos estrangeiros mas a tudo o que é diferente, os extremismos e as intolerâncias exacerbam-se e muitos grupos e populações retraem-se, bacocos e primários, sobre si ou, pior, degeneram na violência.
Na Suécia, a morte "acidental" há duas semanas de um português pela polícia – que recebeu os agentes com um machado, quando estes bateram à porta de sua casa, onde o imigrante se tinha fechado com a companheira – provocou a fúria dos jovens do bairro, onde moram muitos estrangeiros, que atacaram a polícia e incendiaram carros. Em resposta, grupos de extrema-direita manifestaram-se contra os manifestantes e tiveram confrontos também com a polícia. A vaga de violência provocou um debate no país sobre a integração dos imigrantes, que representam 15 % da população (muito longe dos 46 % do Luxemburgo).
Não é o primeiro incidente deste tipo na habitualmente tranquila Suécia. Distúrbios semelhantes ocorreram em 2010 e 2008 naquele país, após o encerramento de um centro cultural islâmico. A reacção do Reino Unido e dos EUA aos distúrbios na Suécia foi desaconselharem os seus cidadãos a viajar para as zonas de conflito. Como se as ruas de Londres não tivessem sido dois dias antes palco de um degolamento em plena luz do dia de um soldado britânico por dois nigerianos jihadistas.
E que dizer dos EUA, onde menores desatam semana sim, semana não, aos tiros nas escolas, e o terrorismo "doméstico" faz mais de 9 mil mortos por ano, só com armas de fogo? Para fazer baixar estas estatísticas, Obama tentou fazer passar uma lei que obrigasse os vendedores de armas a verificar os antecedentes criminais dos compradores. Por escassos seis votos, a lei foi rejeitada no Senado, no que foi considerado por Obama como "um dia de vergonha para Washington".
Nem um Prémio Nobel da Paz consegue salvar uma nação-suicida. O poderoso lóbi norte-americano das armas argumentou que a lei "feria" a segunda emenda da constituição, que autoriza qualquer cidadão a ter uma arma, mas esquecem-se que data de uma remota época em que pistoleiros faziam a lei em povoações sem policiamento. Salve-se então a segunda emenda, mesmo que isso mate crianças inocentes e o país.
O nosso pacato e pequeno Grão-Ducado tem muitos defeitos e também destas intolerâncias internas. Mas gosto de pensar que são erupções cutâneas isoladas, de elementos enfermos da sociedade, e que nunca se converterão em movimentos de massa como em França ou na Suécia.
Ou será que essa violência está apenas latente, por eclodir? Ele há indícios que nos preocupam. Por enquanto, a paz social e a tolerância vão sendo alimentadas pela prosperidade e estabilidade do país. Mas se um dia esse frágil equilíbrio for rompido, a nossa sociedade continuará tão tolerante como diz ser?
José Luís Correia
in Jornal Contacto, 05/06/2013
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terça-feira, 4 de junho de 2013
Novo bailado de brasileiro Moa Nunes na Abadia de Neumünster, sexta e sábado
A nova coreografia do brasileiro Moa Nunes sobe ao palco da sala Robert Krieps da Abadia de Neumünster (no Grund), na capital, esta sexta-feira e sábado (28 e 29 de Junho), pelas 20h.
Intitulado "Palavras e Palavras", este espectáculo "nasceu do desejo de explorar a linguagem e a necessidade humana de ser ouvido", segundo Moa Nunes.
"As palavras são geralmente consideradas como aquelas que são faladas ou escritas", diz o coreógrafo. Mas para Moa Nunes, coreógrafo brasileiro residente no Luxemburgo há 16 anos, as palavras são muito mais do que isso. "As palavras são preciosas: podem curar, podem magoar, podem ser verdadeiras e dóceis, podem mentir, podem ser destrutivas e traiçoeiras, podem ser vazias, mas também inspiradoras. Elas criam mundos e mudam a realidade", diz Moa Nunes.
Nesta obra, o coreógrafo brasileiro vai além das palavras e permite que a linguagem do corpo fale. Depois das obras "Um olhar a dois" e "Meus caminhos", Moa explora neste novo opus o poder das mesmas e como são utilizadas para construir ideias, emoções e memórias, e para contar uma história.
As reservas para ver este espectáculo devem ser feitas pelo tel. 691 204 999.
Mais informações sobre os projectos de Moa Nunes na internet (www.moadance.com).
JLC
Este artigo foi igualmente publicada no site www.wort.lu/pt
Intitulado "Palavras e Palavras", este espectáculo "nasceu do desejo de explorar a linguagem e a necessidade humana de ser ouvido", segundo Moa Nunes.
"As palavras são geralmente consideradas como aquelas que são faladas ou escritas", diz o coreógrafo. Mas para Moa Nunes, coreógrafo brasileiro residente no Luxemburgo há 16 anos, as palavras são muito mais do que isso. "As palavras são preciosas: podem curar, podem magoar, podem ser verdadeiras e dóceis, podem mentir, podem ser destrutivas e traiçoeiras, podem ser vazias, mas também inspiradoras. Elas criam mundos e mudam a realidade", diz Moa Nunes.
Nesta obra, o coreógrafo brasileiro vai além das palavras e permite que a linguagem do corpo fale. Depois das obras "Um olhar a dois" e "Meus caminhos", Moa explora neste novo opus o poder das mesmas e como são utilizadas para construir ideias, emoções e memórias, e para contar uma história.
As reservas para ver este espectáculo devem ser feitas pelo tel. 691 204 999.
Mais informações sobre os projectos de Moa Nunes na internet (www.moadance.com).
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quarta-feira, 7 de março de 2012
O eixo da Terra está a mudar
O eixo da
Terra está a mudar
Como se o
centro de decisões e de negócios nunca pudesse ter sido Lisboa e - inverta-se os papéis -, a Alemanha o "hinterland"
europeu ou o "arrière-pays" continental. Estas duas palavras não têm
infelizmente uma boa tradução em português, pois o seu equivalente "o interior" ("país
real" é uma invenção da TV-reality show dos anos 90!), não
comporta o significado de "afastado", "esquecido, lá para trás", que os termos alemão e francês abrangem. Felizmente, a
História não dá razão aos epitetos que nos cognominam e a geografia não é uma
fatalidade. Lisboa já
foi dona de metade do Mundo e o seu "handicap" de hoje - a
periferia -, foi na Era dos Descobrimentos a sua mais-valia. E exemplos como
este abundam através dos tempos. Babilónia ou a Pérsia foram já as regiões
mais civilizadas do mundo, depois em declínio e esquecidas durante milénios, foram
novamente trazidas para o tabuleiro mundial graças ao petróleo. Como é que
Alexandre Magno conseguiu fazer da sua encravada Macedónia o centro de um império
que se estendeu através de um quarto do globo até às portas da Índia?
Como é que uma cidade como Roma construiu um império que ia da África do
Norte ao Médio Oriente e da Alemanha à Escócia? Também a América Central e do Sul
viram proliferar as civilizações mais avançadas do seu tempo quando a Europa
atravessava "os séculos escuros".
Lisboa já
foi o rosto com que a Europa fitou o mundo, recorda-nos o nosso oráculo
nacional Fernando Pessoa, na sua "Mensagem". Será que percebemos
bem a mensagem? E se o
"recado" de Pessoa fosse "Mens Ag(itat Mol)em", ou seja,
que o espírito comanda o corpo, expressão repescada à "Eneida"
de Virgílio. Mas se a mente
comanda a matéria, Deus quer, o Homem sonha e a obra nasce, então a
inteligência não se deixa ditar desditas pela geografia. Até porque a geografia
"acabou" e o homem hoje sabe ser ubíquo.
É
armado desta
sabedoria, sem ligar a fatalismos bacocos e desculpando-se com a
"soi-disant" geografia, que o Dubai, por exemplo, sabendo próximo o fim
do reino do ouro
negro, está a fazer nascer hoje a megalópole de amanhã, das areias
inóspitas do
deserto e bairros inteiros em cima de ilhas artificiais. Do mesmo
modo, o Luxemburgo, este improvável país que se quis independente sem
que
ninguém no século XIX acreditasse na sua perenidade, nem mesmo os
luxemburgueses, soube antecipar o fim da siderurgia e lançar desde os
anos 60
os pilares de outras economias (os serviços, a praça financeira, as
telecomunicações,
a logística) que asseguraram o futuro. E o Ducado agrícola das hortas de
subsistência de há dois séculos soube atravessar as convulsões
hegemónicas e geo-económicas do século XX,
e tornar-se um país política e economicamente estável, um burgo
centripeta, que
atrai populações e empresas dos quatro cantos da Europa e do Mundo.
Saber
governar é saber prever. Qualidade que têm tido alguns (friso alguns) governantes luxemburgueses (até agora !) e
que tem faltado singularmente à maioria dos políticos portugueses.
Onde está o
futuro de Portugal ? Quanto a mim, acredito que a língua é nossa melhor
embaixadora, que os caminhos que abrimos pelos mares e nos levaram ao achamento
do Brasil, a África e até Timor, são a rota instintiva a seguir para nos
projectarmos no futuro e num planeta cujo eixo está a mudar. O eixo da Terra está a mudar, mas não é o fim do Mundo.
Há muito que se previa que o centro económico do
planeta iria mudar-se do Atlântico para o Pacífico. Mas era uma leitura
enviesada. A China é hoje a potência mundial óbvia, mas a América do Sul (e não
apenas o Brasil), a Índia e África prefilam-se. O eixo não está a girar do
Atlântico para o Pacífico, antes está a mudar de hemisfério, do Norte para o
Sul.
Quando entendermos isso, saberemos como sair da actual
crise e criar uma nova era de prosperidade. Não só Portugal, mas a Europa. Portugal tem que, hoje mais do que
nunca, fortalecer os laços que teceu graças às suas Descobertas. Talvez assim Portugal
se cumpra, como sonhou Pessoa. Quanto à Europa, não se pode fechar em
fortaleza, tem que abrir-se ao Mundo, ou está destinada a que esses povos um
dia lhe virem as costas. E se num futuro não tão longíquo a Europa
demograficamente exangue precisar dos africanos? Ou se os europeus quiserem
emigrar para a África vizinha, esse gigantesco território riquíssimo, que há-de
tornar no continente emergente, e os africanos não quiserem lá os "refugiados"
do velho continente ? A Europa não pode declinar em
subúrbio flatulento da nova geografia mundial. Porque a geografia não é uma fatalidade, mas uma oportunidade.
O eixo da Terra está inelutavelmente
a mudar mas, e nós, saberemos acompanhar o movimento da tectónica económica ?
(in CONTACTO, 07.03.2012)
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terça-feira, 25 de outubro de 2011
Para que servem os jornalistas? - O escritor madrileno Benjamín Prado responde
O escritor madrileno Benjamín Prado defendeu hoje a profissão de jornalista, destacando que “o jornalismo é a última possibilidade que temos de saber a verdade”, noticiou a agência EFE.Prado, que deu a primeira conferência da nova edição do ciclo Segundas-feiras Literárias, promovido pela Obra Social da Caixa de Ávila, afirmou que “o jornalismo tem inimigos que proveem da política, da economia e da tecnologia, mas também é atacado a partir do seu próprio seio”.
Por tudo isso, aos jornalistas que, como a protagonista da sua última novela “Operación Gladio”, dão “literalmente a vida por uma notícia, havíamos de lhes erguer monumentos, como àqueles professores, que com o atual sistema educativo conseguem que (as pessoas) continuem a ler”, comentou o escritor.
Na conferência de hoje, intitulada “Se não querem que o contes é porque é uma boa estória”, centrou-se precisamente nas duas últimas novelas que escreveu, “Mala gente que camina” (2006), que fala sobre o roubo de crianças por parte da ditadura aos republicanos, e “Operación Gladio” (2011), é um livro de espionagem, em que se abordam alguns dos casos mais obscuros da Transição espanhola.
Sobre este último trabalho, Benjamín Prado manifestou que partilha a ideia de que a Transição “é um momento admirável da história espanhola, embora não perfeito, já que também houve vencidos e em certa medida se tratou de uma transação e vale a pena contá-la”.
Nestas últimas obras e numa anterior “No sólo el fuego” (1999), Prado pôs em prática a ideia de que a “literatura tem uma importância civil, porque os escritores, ao terem o privilégio de serem ouvidos, devem preencher alguns buracos na parede da História”.
A conluir, afirmou: “O que escapa aos historiadores, como Pauil Preston, é o que nós, novelistas, podemos contar, a história emocional dos países”.
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