sebenta de anotações esparsas, pensamentos ociosos, reflexões cadentes, poemas difusos, introspecções de uma filosofia mais ou menos opaca dos meus dias (ou + reminiscências melómanas, translúcidas, intra e extra-sensoriais, erógenas, esquizofrénicas ou obsessivas dos meus dias)
-
cahier de notes éparses, pensées oisives, réflexions filantes, poèmes diffus, introspections d'une philosophie plus ou moins opaque de mes journées (ou + de réminiscences mélomanes, translucides, intra-sensorielles et extra-sensorielles, érogènes, schizophrènes ou obsessionnelles de mes journées)

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sexta-feira, 11 de setembro de 2015

A minha relação platónica com a(s) Ciência(s)


Numa próxima vida serei cientista, apetece-me dizer depois de ler estes dois livros do biólogo e entomólogo Edward O. Wilson. Voltei a sentir a mesma paixão pela Ciência do que quando era criança. Não sei como me interessei pela Ciência, se foi gracas à paixão que Carl Sagan me conseguia transmitir no seu magnífico "Cosmos", se às emissões dos irmãos Bogdanov, se à série "Il était une fois...", se aos documentários televisivos que eu via, ou os livros que me ofereciam e eu devorava.

Desisti uma primeira vez de ser cientista quando percebi que a Matemática era uma das chaves obrigatórias para aceder a esse grande templo. Como na disciplina de "Rechnen" eu sempre tinha sido um aluno mediano, percebi que devia optar por outro caminho, talvez a escrita, talvez o ensino. Em caminho, fui seduzido pelo Jornalismo, ao qual também fui ter por acaso.

Matemática: bem me quer, mal me quer

Ao chegar ao liceu, no sétimo, voltei a ter esperança no meu amor renegado pela Ciência quando fui nesse ano lectivo o melhor aluno a Matemática.

O professor de Matemática - acho que se chamava qualquer coisa Cândido de Oliveira -, era um pequeno tirano, muito empertigado, seco e ríspido, ou dava ares de ser para nos intimidar. E funcionava. Todos tinhamos medo dele. Dava as aulas invariavelmente de fato e gravata, azuis como o seu Rover 213, o da bagageira alta, um modelo novo na época. Nós, os putos, para conjurar o medo, chamavamos-lhe 'Pinguim'.

Ele devia ter uns 30 anos, mas parecia mais velho, e não conseguia, ou não queria, mostrar empatia para com os alunos. Destilava a matéria a uma velocidade supersónica, as equações inundavam o quadro negro de uma ponta a outra, e antes que pudéssemos recopiar os hieróglifos, ele apagava tudo e já estava a explicar o que nem tinha começado a escrever no quadro ainda molhado. Aborrecia-se depressa com quem não entendia à primeira e chamava nomes a alguns dos alunos. Tinha sapiência, mas a pedagogia tinha ficado pelo caminho, se alguma vez a teve. A mim, o homem tratava-me bem, talvez por ser o melhor aluno. Não sei o que me aconteceu nesse ano, estávamos a ser iniciados a uma nova matéria e a mim tudo me parecia de repente óbvio e fácil, sentia-me iluminado e não entendia as dificuldades que os outros sentiam. Foi sol de pouca dura.

No oitavo ano, com 14 anos, tive uma paixoneta pela minha professora de Química, uma jovem talvez dez anos mais velha, alta, magrita, frágil, de óculos gigantes, um bocado desajeitada, mas gira, de voz doce e de cabelos à Whitney Houston, que me tresloucavam. Mostrei-me aplicado e interessado, o que me valeu boas notas na disciplina e mais uma vez pensei na Ciência como um futuro possível.

Mas no nono ano tropecei na realidade e o golpe de misericórdia foi-me desferido com a iniciação à Trigonometria. O professor era um antigo Comando, as lições pareciam operações militares, as noções eram ensinadas como se fossem ordens, os paus de giz a voar eram pelotões de fuzilamento, os testes eram teatros de guerra. Comparado com este professor, o 'Pinguim' tinha sido a Madre Teresa de Calcutá. Nesse ano, senti-me completamente perdido para a Matemática e, por conseguinte, para a Ciência.



O que me decidiu também a não seguir um curso científico não foi apenas a barreira da Matemática. Foi igualmente o estado da Ciência em Portugal no fim dos anos 1980, próximo do grau zero. Desde as aulas de Quimica, Fisica e Biologia ministradas sem paixão, em salas não adaptadas de escolas secundárias vetustas, por professores sem vocação, que preferiam estar num laboratório, entre estiletes, tubos de ensaio e amostras, do que a aturar jovens fedelhos, até ao desinteresse completo do Estado em investir neste sector.

Aconselho a este propósito um livro bastante explícito sobre este assunto, "Diálogos sobre Portugal" (1998), escrito a duas mãos por Mariana Pereira e pelo professor de Física e Biofísica Manuel Paiva (então na Faculdade de Medicina da ULB-Universidade Livre de Bruxelas, e que trabalhou com a NASA e a ESA).

Fascínio pela Ciência

Mais tarde, no primeiro ano da faculdade, a cadeira de Estatística voltou a provar-me que a Matemática não era minha amiga. Mas conservei o fascínio pelos números, as equações, a geometria, a teoria das probabilidades. Para mim, que tanto me orgulho de aprender fácil e rapidamente novas línguas, essa linguagem teimava em resistir-me, mostrava-se críptica, permanecia opaca, indecifrável. Afastei-me definitivamente da Matemática.

Mas da Ciência não. Interessei-me pela Astronomia (o céu nocturno do Verão algarvio é irresistível), pela Biologia Marinha (um dos primeiros cursos da então recém-inaugurada Universidade do Algarve), pela Física (a atracção dos corpos), pela Electrotecnia (despiste total), pela Vexologia (pus na cabeça decorar todas as bandeiras do mundo), pela Cartografia (ainda hoje tento coleccionar mapas antigos), pela História, que explorei na Universidade, e até pela Geografia, outra história de amor transviada.

Na Geografia sempre fui "aluno muito aplicado, mas de aproveitamento fraco", segundo anotação na minha caderneta do professor António Cerdeira, no oitavo ano. Para não me desanimar confiou-me que tinha sido professor 30 anos antes de um aluno "aplicado, mas de aproveitamento fraco" e que, apesar disso, tinha chegado a primeiro-ministro, o aluno Aníbal António Cavaco Silva, naquela mesma Escola Secundária Tomás Cabreira, em Faro, mas que na altura se chamava Serpa Pinto ou Escola Industrial,

Há dois anos, cruzei-me de novo com ela

Ha dois anos, cruzei-me de novo com ela, a Matemática. Tudo aconteceu quando decidi aprofundar os meus conhecimentos em Astronomia, Física, Física Quântica e Astrofísica, nas pesquisas que tenho de fazer para o romance de ficção científica que estou a escrever.

Fiquei de novo tão fascinado pelas equações dessas disciplinas e pelas ciências em geral, que fui logo a correr comprar, como um alarve, o livro "Gödel, Escher, Bach: An Eternal Golden Braid" (1979) de Douglas Hofstadter. Caí de bem alto. Massudo, compacto, denso, abordando noções e definições complexas, num discurso sábio, mas ininterrupto e nada conciso, o livro revelou-se-me impenetrável, ilegível, codificado, para alguém como eu com tão grandes lacunas a Matemática.

Edward O. Wilson é o Carl Sagan da Biologia

Voltemos a Edward O. Wilson. O primeiro livro que li dele foi "The Meaning of Human Existence" (2014). Comprei um exemplar para ter acesso à integralidade do capítulo intitulado "A Portrait of E.T.".

Eu procurava tudo o que pudesse sobre exobiologia, conjecturas sobre as possibilidades de vida no Sistema Solar e nos cerca de dois mil exoplanetas descobertos até hoje, as últimas notícias sobre os insectos extremófilos que existem nos fundos dos oceanos da Terra, etc. No seu livro, Wilson conjectura sobre as possíveis formas da vida alienígena, desde as mais simples e microbiológicas até a eventuais formas mais complexas ou mesmo inteligentes, responde a algumas das minhas dúvidas e fez até nascer outras, nas quais eu até nem tinha pensado.

No segundo, "Cartas a um Jovem Cientista" (2013, para a edição original em inglês), Wilson conta como despertou para a biologia, para a entomologia, e fala do seu amor pelas formigas. De repente, pareceu-me estar a mergulhar, de novo, com o mesmo fascínio dos meus tempos de juventude, no universo da trilogia "Les fourmis" (1991-96), de Bernard Werber.

Porque razão é que os livros de Wilson me levaram a pensar e a escrever aqui sobre as minhas relações complicadas com as ciências? Porque Wilson é o Sagan da Biologia. Fala com tal amor da sua disciplina, explica com palavras simples os fenómenos mais complexos, que nos seduz, embarca na sua paixão, no seu mundo.

Porque me fascina tanto a Ciência? Porque é, afinal, o caminho infinito para a compreensão do mundo e do universo.

Mas esta minha relação com a Ciência tem sido assim, um bem me quer, mal me quer, um amor renegado a que sempre regresso. Mas no final de cada nova incursão, sou sempre obrigado a admitir que no meu percurso académico, profissional e de vida não adquiri as ferramentas necessárias para poder dominar muitas das disciplinas que me fascinam. E o meu amor pela Ciência fica-se assim, na sua forma platónica, muito perto da estéril.

José Luís Correia
11/09/2015

sábado, 11 de maio de 2013

Edição portuguesa da revista Granta nas bancas a 24 de Maio

O primeiro número da edição portuguesa da revista literária Granta, que irá publicar inéditos de Fernando Pessoa, é colocado à venda no dia 24 de Maio, revelou a editora Tinta da China, que a publica.

No dia 25 realiza-se um debate sobre a revista, às 17h, na praça Laranja da Feira do Livro de Lisboa, no parque Eduardo VII, entre Carlos Vaz Marques, director da Granta portuguesa, e John Freeman, director da Granta internacional e ex-presidente da associação britânica de Críticos Literários.

Segundo Carlos Vaz Marques, a revista tem o interesse de publicar um inédito de um autor desaparecido por cada número, mas a própria revista vai encomendar textos originais a autores de língua portuguesa.

A publicação de cinco sonetos de Fernando Pessoa, apresentados pelos investigadores pessoanos Jerónimo Pizarro e Carlos Pitella-Leite, insere-se no primeiro objectivo da revista, que “é o de publicar bons textos literários inéditos”, diz Vaz Marques.

Referindo-se à publicação dos sonetos de Pessoa, Vaz Marques afirmou tratar-se de “uma revelação absoluta” que “já justificaria, por si só, este primeiro número da edição portuguesa da Granta”.

Um outro objectivo desta nova publicação, que vai ter periodicidade semestral, “é o de publicar em português os textos de grandes escritores, escritos para a Granta de língua inglesa, e nunca editados em Portugal”.

“O baú da Granta é imenso e de grande qualidade, com autores tão importantes como Salman Rushdie ou Martin Amis, Saul Bellow ou Ryszard Kapuscinski”, acrescentou o director.

Vaz Marques falou ainda num terceiro objectivo, “mais ambicioso”, que é o de “dar a conhecer e de conseguir abrir portas noutros países a alguns dos autores que vão publicar na edição portuguesa”.

“Sendo a Granta, cada vez mais, uma família literária global, com edições em diversas línguas, temos esta ambição”, lança.

A Granta Portuguesa vai incluir, “em todos os números, um portfolio fotográfico, que, nesta primeira edição, vai ter a assinatura do fotógrafo Daniel Blaufuks”.

A Granta portuguesa, publicada pela editora Tinta da China, vai “seguir o modelo original da Granta, que já deu provas de grande qualidade”, disse Vaz Marques, que sublinhou que “será, acima de tudo, uma revista virada para a criação literária, na qual se tentará juntar nomes consagrados e novos talentos”.

À nova revista, Carlos Vaz Marques quer “chamar autores de todo o espaço de língua portuguesa”. 

Questionado sobre qual a ortografia escolhida, seguindo ou não o Acordo, Vaz Marques afirmou: “A Granta não vai ater-se a pequenas polémicas de circunstância. Será publicada na forma ortográfica escolhida por cada um dos autores que escrever para ela”. A Granta não deverá ter uma edição online.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Já chegou a nova revista LER. O meu mês já pode começar :-)



O que gosto na LER é que é uma revista literária que não se restringe aos sacro-santos estilos e formatos literários pelos quais juram os (supostos) intelectuais dos nossos dias, e ousa sem pejo abordar assuntos menos mainstream como a ficção-científica ou a banda desenhada. 


SF - É assim, como prazer jubilatório, que me deparei com duas páginas dedicadas a um clássico da ficção-científica britânica, "Quatermass and The Pit", da autoria de Nigel Kneale, artigo no qual Rogério Casanova aproveita para evocar mestres da SF (Science Fiction ou FC, Ficção Científica) como HG Wells, Lovecraft e Jack Handey e até fala em Eric van Daniken e da sua célebre Teoria dos Antigos Astronautas. E a meio da revista, como quem não quer a coisa, fala em Edgar Rice Burroughs (o criador de Tarzan), a propósito do seu "John Carter" (Crónicas Marcianas), que acaba se sair no cinema. Muito bom mesmo. 


Um catalão, um italiano, uma brasileira, dois portugueses e um inédito de Vitorino Nemésio 

Depois, prazer imenso ao ler a entrevista de Carlos Vaz Marques a Enrique Vilas-Matas, em que o catalâo volta a repetir que recusaria o Nobel da Literatura se este lhe fosse atribuído. E responde com humor ao Questionário de Proust, que o entrevistador resolve de imprevisto lançar como desafio ao escritor.


Venho à tona de água e volto a mergulhar no prazer.


Nove páginas sobre o mais português e o mais pessoano dos italianos, Antonio Tabucchi, que nos deixou há pouco tempo.


Página panorâmica sobre a autora brasileira Clarice Lispector (1920-1977) por ocasião da publicação em Portugal de "Lustre" e "Água Viva".

E porque a literatura também é sublimada através da sétima arte, a LER apresenta a mais recente obra do cineasta mais idoso do Mundo ainda em actividade, Manoel de Oliveira (103 anos!), "O Gebo e A Sombra", adaptação do livro homónimo de Raúl Brandão (1923). E, de passagem, publica um texto inédito de Vitorino Nemésio sobre Brandão.


BD lusa: De 1872 aos nossos dias


A LER aproveitou esta edição para transfigurar a sua capa (imagem em cima) num dos expoentes emergentes da Nona Arte, o português João Lemos, que a Marvel já adoptou.


A revista dedica ao todo 11 páginas à BD portuguesa + 1 sobre a saída recente em Portugal de "Persépolis", da iraniana Marjane Satrapi. 


A LER passa em revista rápida os nomes dos percursores da banda desenhada em Portugal como Rafael Bordalo Pinheiro (primeira BD, em 1872), Stuart Carvalhais (1887-1961), Carlos Botelho (1899-1982), Eduardo Teixeira Coelho (1919-2005), José Garcês (n. 1928), José Ruy (n. 1930) e revistas como Mosquito (dos anos 1930 aos anos 80) e Visão (anos 70), para chegar aos jovens talentos que começam a fazer-se notar hoje a nível nacional e internacional. 


Como os que começaram já a trabalhar para gigantes como a Marvel. João Lemos assinou recentemente um número de Wolwerine (imagem da esquerda) e participou com Ricardo Tércio e Nuno Plati num volume colectivo com argumento de C.B. Cebulski; ou a Dark Horse, para a qual Filipe Melo editou, em co-autoria com Juan Cavia, "As Incríveis Aventuras de Dog Mendoza & Pizza Boy". 


Entre muitos outros, como: Diniz Conefrey, José Carlos Fernandes (A Pior Banda do Mundo; Aaron Slobodj), Miguel Rocha, Filipe Abranches (Lanza en Astillero; Diário de K.), Nuno Saraiva, António Jorge Gonçalves, Eliseu Gouveia, Miguel Montenegro, Ana Freitas, Mário Freitas, Filipe Teixeira, Filipe Andrade, Rui Lacas (Merci Patron!), André Lemos (Mediaeval Spectres Soaked in Syrup), David Soares (Mucha) & com Pedro Nora (M. Burroughs), Paulo Monteiro (O Amor Infinito Que Te Tenho e Outras Histórias), Bruno Borges, Miguel Carneiro, Susa Monteiro (Adeus Tristeza), Osvaldo Medina (A Fórmula da Felicidade), Pepedelrey (A Tua Carne é Má), Joana Figueiredo, Carlos Pinheiro, Marcos Farrajota, Pedro Serpa ou José Feitor. 


Nomes a ter em atenção no futuro da literatura portuguesa quer venha aos quadradinhos, em pranchas, storyboards, romances gráficos ou comics.


Porque a BD é um fascínio para quem é fã, a LER não resistiu a partilhar connosco a génese e o making of da capa deste mês da revista, concebida por João Lemos (o tal da Marvel).



Ainda não li tudo, mas o mês ainda nem vai a meio...

terça-feira, 8 de maio de 2012

"História do Luxemburgo" lançado na Livraria Ler Devagar, em Lisboa, no dia 23 de Maio

O livro "História do Luxemburgo", do historiador luxemburguês Gilbert Trausch é oficialmente lançado em Lisboa a 23 de Maio, às 18h, na livraria "Ler Devagar" (rua Rodrigues Faria, n° 103, Ed. G-0.3).

O evento vai contar com a presença do embaixador do Luxemburgo em Portugal, Paul Schmit, que vai fazer uma apresentação, em português e em francês, sobre a história do Luxemburgo.

A versão portuguesa da obra de Gilbert Trausch, "História do Luxemburgo", agora publicada em edição portuguesa, resulta de um projecto do Ministério da Cultura luxemburguês, com a colaboração do Forum Portugal-Luxemburgo e o apoio da Embaixada do Luxemburgo em Portugal.

Trata-se de uma obra importante para o desenvolvimento das relações bilaterais entre os dois países, nomeadamente por razão da importante comunidade lusófona residente no Luxemburgo, que conta actualmente mais de 100 mil portugueses.

Apesar do seu tamanho – 2.586 km2 e 500 mil habitantes – o Grão-Ducado do Luxemburgo é um verdadeiro Estado, com uma história particularmente rica. Situado no coração da Europa, entre a França, a Bélgica e a Alemanha, o Luxemburgo participou nos grandes desenvolvimentos Europeus. O passado movimentado do Grão-Ducado é um verdadeiro resumo da história europeia. Na Idade Média, os seus principes usaram a coroa do Sacro Império Germânico e nos tempos modernos a sua fortaleza foi de uma importância fundamental na luta entre as grandes potências. Antes de se tornar independente, no Século XIX, o Luxemburgo viveu sucessivamente sob soberania bourgonha, espanhola, francesa, austriaca e holandesa. No Século XX, este país próspero e dinâmico desempenhou um papel decisivo na unificação da Europa.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Li Hamlet... e sobrevivi!

"Hamlet" (ou "The Tragical History of Hamlet, Prince of Denmark)", de William Shakespeare (1603) 

Diziam-me que não iria sobreviver, que iria ficar desgastado de Shakespeare para sempre, que iria deixar a leitura pelo meio... ou que iria adorar. Pois foi quem apostou na última hipótese que ganhou.

Uma peça muito longa, deveras (192 páginas!), mas excelente, uma obra prima mesmo. Sei bem que sou apenas um dos milhares que já leu a peça e achou isto, mas pronto, desta vez sou eu a dizê-lo ;-)

Dizer que as peças de Shakespeare são lições de vida é quase uma Lapalissade. Mas adorei sobretudo a forma como Shakespeare até se dá ao luxo de dar lições de poesia e de teatro, enquanto conta a história e enquanto vai abatendo (quase) todos os seus personagens.

Foi também muito giro chegar àquelas partes em que se percebe o contexto textual das expressões universalmente conhecidas como "Ser ou não Ser" ou "Há qualquer coisa de podre no Reino da Dinamarca", "Há mais coisas no céu e na terra, Horácio, do que pode supôr a tua vã imaginação", etc. Aconselho a leitura e aconselho a paciência ao desbravarem as páginas mais densas.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Li e gostei

"Memóras Póstumas de Brás Cubas", de Machado de Assis (1881)

O livro começa com o narrador, Brás Cubas, a falar do seu funeral. Dali faz o leitor viajar para trás no tempo até à sua morte, ao delírio dos seus últimos momentos, o instante em que adoeceu e por aí fora...

Quando o leitor acha que percebeu como a história se vai construir, o narrador faz uma finta ao leitor e começa a contar a história da sua vida desde o princípio.

Nascido em 1805, a vida de Brás atravessa as primeiras seis décadas do séx. XIX, desde a infância de menino rico, passando pela adolescência quando se dá a independência do Brasil. É nessa idade que se apaixona pela primeira vez por Marcela, uma "rapariga" que não tratava a moral por tu. O "Amor" durou "quinze meses e onze contos de réis", a expensas da família. Para o fazer esquecer Marcela, o pai manda-o para Lisboa. Em seis dias e ainda antes de desembarcar na capital portuguesa, os desgostos de amor estavam ultrapassados. Em Coimbra aprende a arte da boémia, da serenata e do "romantismo prático". Licencia-se em Direito mesmo não entendendo nada do assunto, por isso acha-se um génio.

Regressa ao Rio de Janeiro e namora com uma linda moça, mas que era "coxa", deficiência que o seu coração não consegue esquecer e por isso não se apaixona... O pai tem outros planos, quer casá-lo com Virgília, filha de um político, matrimónio que vai catapultá-lo para o Parlamento e assegurar-lhe o futuro.

Primeiro reticente, Brás começa a interessar-se por Virgília, mas esta prefere casar-se com Lobo Neves, que fará dela baronesa ou mesmo marquesa. Mais tarde e já casada, Virgília acabará por ceder aos avanços de Brás, tornar-se-á sua amante durante largos anos será o verdadeiro e grande amor da sua vida, confia no seu leito de morte.

Um dos encontros mais cómicos e irónicos é quando se cruza com Quincas Borba, um filósofo meio doido, que até inventa uma nova corrente filosófica.

Pela sua vida ainda passa a bonita Nhã-Loló, de 19 anos, mas que morre de febre amarela e Brás torna-se então um irredutível solteirão.

No fim da vida, tendo falhado no amor, na politica, em sociedade e em quase tudo, tenta uma última tentativa de imortalidade ao envidar todos os esforços para criar o "emplastro Brás Cubas", meio compressa meio cataplasmo que visa curar todas as doenças. E é em plena "criação" deste remédio que a pneumonia o "apanha" e a morte lhe bate à porta aos 64 anos.

E assim passa uma vida... com tantas oportunidades desperdiçadas, mas uma vida mesmo assim bem vivida, "à sua maneira".

Contada na primeira pessoa, a delícia da história é o seu tom cáustico, irónico do narrador ao falar das suas próprias aventuras e desventuras. Do autor fica-nos o maravilhamento pela inovação no estilo, estilo acima de tudo livre, muitas vezes mesmo audaz, e muito moderna quebra na narração linear. Machado de Assis confessa ter-se deixado influenciar por autores como Shakespeare ou Xavier de Maistre.


Contando a história da vida de Brás Cubas, Machado de Assis aproveita para descrever a sociedade brasileira, as diferentes classes sociais, a escravatura, o século XIX brasileiro, pelo que esta tragi-comédia é considerada por muitos críticos como sendo a primeira obra "realista" da literatura do pais. No entanto, certos excertos, discursos do narrador e diálogos fazem pensar no Modernismo, que chegaria apenas após o virar do século, pelo que esta pode ser considerada uma obra visionária.

O paralelo com "Os Maias" de Eça de Queirós, obra sua contemporânea (escrita oito anos depois) é óbvia para o leitor português, mesmo se a obra brasileira é mais rica em humor. Mas também há por lá um Vilaça e até um "Dâmaso". Mas a delícia na leitura foi a mesma, mesmo se li as duas obras a 22 anos de distância uma da outra.





sexta-feira, 6 de abril de 2012

Presentely reading

"The Ends of The Earth - An Anthology of the Finest Writing on The Arctic and The Antarctic", by Elizabeth Kolbert and Francis Spufford (Bloomsbury, 2007).

terça-feira, 20 de março de 2012

Especular na bolsa, tão verdade há 150 anos como hoje

"Para as especulações na Bolsa, Fevereiro é um dos meses mais perigosos. Os outros são Julho, Janeiro, Setembro, Abril, Novembro, Maio, Março, Junho, Dezembro, Agosto e Outubro."

Mark Twain (1835-1910)

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quinta-feira, 15 de março de 2012

Harold Bloom arrasa "Caim" de José Saramago

Um dos mais prestigiados críticos literários da actualidade, Harold Bloom assina um artigo na edição de 23 de Fevereiro da The New York Review of Books dedicado a José Saramago.

Intitulado “O grande comediante revisita a Bíblia”, o artigo do conhecido crítico literário norte-americano, que também é professor de Humanidades na Universidade de Yale, e de Inglês na Universidade de Nova Iorque, debruça-se sobre a edição americana de "Caim" (editado em Portugal em 2009; editado nos EUA em Outubro de 2011), a última obra que Saramago publicou em vida (morreu em Junho de 2010).

Bloom fala como conheceu Saramago, no dia em que o crítico literário se deslocou a Portugal para ser distinguido pela Universidade de Coimbra, e como os dois travaram um "conhecimento caloroso", mas também fala de um "desacordo exegético" que os opôs devido a "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" (1991). Bloom, que apelida Saramago de "estalinista irredutível", considera que nesse seu livro o português nem se dá conta que retrata "um Deus que tem muitas afinidades com o tirano georgiano".

Para Bloom, “Caim” é um epílogo deliberado e burlesco ao “Evangelho”. Mas "falta-lhe mais humor" nesta obra, escrita quase duas décadas depois do "Evangelho".

"Como admirador de há décadas de Saramago, não quero depreciar esta ficção final. Prefiro considerá-la como algo que me ajuda a apreciar as suas concretizações ascéticas. O que corre mal em 'Caim' é que o autor é demasiado tendencioso e nos quer convencer, impôr um desígnio. A necessidade que [Saramago] tinha de lutar contra o fascismo e a Igreja sempre ameaçaram distraí-lo da sua verdadeira genialidade de contador de histórias cómicas. O Evangelho é assustadoramente cómico, Caim apenas faz sorrir."

Bloom faz uma justaposição entre o final de "Caim" e o de um outro livro do escritor, "O Ano da Morte de Ricardo Reis" (1984). “Os mundos de Pessoa e Reis são tão diferentes como o são os de Caim e de Deus”, resume Bloom. E depois compara com o final de “O Evangelho Segundo Jesus Cristo".

"A dignidade ascética e o pathos trágico que podemos encontrar [no Evangelho] são qualidades que estão ausentes em Caim, do príncipio até ao fim do livro”, lamenta.

Para Bloom, o leitor que quiser encontrar o Saramago genial vai ter que procurá-lo em "História do Cerco de Lisboa" (1989) ou em "Jangada de Pedra" (1986), não no seu livro final. "'Caim' foi um erro, mas que não deve macular o nosso sentimento de uma partida gloriosa [de Saramago]", conclui.

Saramago, Calvino, Garcia Márquez e Twain  

Bloom considera que Saramago era acima de tudo um "romancista cómico" e que era "admirável" nâo só essa sua "tenacidade cómica", como "a forma como este queria fazer funcionar os seus textos de forma nitzschiana".

Bloom compara Saramago a Italo Calvino, Gabriel Garcia Márquez e Mark Twain. "Twain teria gostado de Saramago, ambos eram anticlericais (...) e sabiam retratar a ferocidade fundamental da natureza humana e da sociedade".

"Cain", traduzido por Margaret Jull Costa, saiu nos Estados Unidos com a chancela da Houghton Mifflin Hartcourt (159 páginas) e custa 24 dólares.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Contra o "imperialismo" do romance

Capa do livro "Comme un roman", de Daniel Pennac
"Fazer do romance o alfa e o ómega da criação literária é um tique, é mesmo um grande toc [traumatismo obsessivo compulsivo, n.d.T.], que nos separa de um imenso património literário. Não é uma crítica que faço ao romance, mas à nossa consciência literária desde o princípio do século XX. Estamos obnubilados pela ideia que literatura é a mesma coisa que romance", denuncia o crítico literário francês Gérard Génette.

O teórico da literatura evoca a aversão que Paul Valéry tinha pelo romance e como Albert Thibaudet criticou o "imperialismo" do romance em meados do século passado. E, como se restassem dúvidas, Génette recorda que muitos autores e não de somenos importânica - Homero, Virgílio, Shakespeare ou Racine - não eram romancistas, mas poetas ou dramaturgos.

"Aux Confins de la Littérature", 
in Télérama (22/02/2012)

sexta-feira, 2 de março de 2012

Ler

Lire LER (2 Março 2012) Foto: JL
Foire du Livre de Bruxelles Foto: JLC

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Leituras


Quando me aborreço de um, viajo para outro. Sou um leitor infiel, uma vadia literária. Mas assumo.

"Portugal a pé", de Nuno Ferreira: Incursão no país profundo ou Também isto é Portugal no século XXI

Acabo de ler o "Portugal a pé" (Ed. Vertimag, Novembro 2011) do jornalista Nuno Ferreira (ex-Expresso e ex-Público) e adorei.

Gosto de livros de viagens em geral, de Gonçalo Cadilhe (deu duas vezes a volta ao Mundo) a Miguel Sousa Tavares (viagens pelo deserto), passando por Bruce Chatwin e Paul Theroux (que adora viagens em comboio). Nuno Ferreira passará a ser o novo autor com quem deverei contar na minha prateleira das viagens.

"Portugal a pé" conta a sua aventura pela província profunda, de Sagres a Cevide, a aldeia mais a Norte de Portugal, calcorreando o Barrocal algarvio, subindo pela raia alentejana, deambulando pelas Beiras, vencendo a neve na Serra da Estrela, puxando até Trás-os-Montes, desbravando o Minho. Um incursão no país real, como agora se diz. Entre Fevereiro de 2008 e Novembro de 2010.
Primeiro há a coragem de um homem em enfrentar a estrada, a geografia, a natureza e os elementos. Depois, a vontade de um jornalista de escrever sobre o que também é Portugal neste princípio de século XXI. 

Uma das primeiras pedradas no charco que o autor dá, e bem, é desmistificar a tal hospitalidade que dizem que é "natural" nos portugueses. Afinal, como eu próprio já o vivi, os portugueses tanto sabem ser acolhedores e hospitaleiros como provincialmente carrancudos e desconfiados.  Esta é uma característica que o autor vai, infelizmente, encontrar em todos os cantos do país. Passou por ladrão, pedinte, drogado, vagabundo e até contrabandista.
Gostei deste mapa do país, longe das grandes urbes, porque há mais Portugal do que o do Terreiro do Paço, há um Portugal a agonizar longe da capital, mas também a encontrar soluções geniais para (sobre)viver, com bibliotecas ambulantes, ecomuseus, turismo rural e televisões regionais.  

Neste retrato fiel de Portugal no princípio do século, numa mesma aldeia coexistem os cibercafés e as carroças de burros. Num momento, o jornalista escreve no seu laptop num castro recuado no Minho, no outro conversa com velhos que só já têm como ocupação ver passar a vida inexorável, sentados na soleira da porta de casa, encostados ao balcão em pedra de uma taberna, disfrutando de um bagaço, de um café e de um cigarro, ou maldizendo a vida porque têm de tratar da horta sozinhos, porque os filhos emigraram todos para Lisboa ou para França. 
Nuno Ferreira cruza-se com ciganos, dos que pedem dinheiro, mas também dos que o convidam para dormir a sesta junto ao acampamento, dos que têm uma carroça, mas também dos que vão de automóvel à cidade, cruza-se com gente tacanha, provinciana, que corre a esconder-se em casa quando o viajante forasteiro assoma à entrada da aldeia, mas também conhece pessoas afáveis que o convidam naturalmente a partilhar uma sopa, um borrego ou uma lampreia em convívio fraternal, em espírito familiar até. Tudo isso também é Portugal hoje.
Gostei de como o autor conta as situações que viveu, da radiografia às gentes, dos bons momentos e das situações extremas, como aquela em que se perdeu no Marão, ficou pendurado numa falésia e teve de ser resgatado pelos bombeiros de Baião. E de como um dos jovens soldados da paz arriscou a própria vida para o salvar. 
Este é o Portugal que existe, que vive, que sofre, que vibra, que é abnegado e não resignado...
Nuno Ferreira fala-nos in loco das mazelas da desertificação do país rural, das vivendas de emigrantes - amarelas, roxas, com torreões germânicos e telhados suíços, fechadas o ano inteiro - que descaracterizam as aldeias típicas, do envelhecimento demográfico da província, entregue a si mesma, esquecida pelo poder central, de horizontes inteiros desolados que hoje são apenas cinza, dizimados pelos incêndios do Verão português. 
Com este testemunho de Nuno Ferreira, essas realidades, que todos conhecemos mas das quais não temos verdadeiramente a noção (não, não temos, acreditem!), deixam de ser apenas uma estatística e uma banal reportagem de 2 minutos no final de um telejornal, que esquecemos coniventes entre o jantar e a telenovela.
Mas o autor também nos recorda e nos faz (re)descobrir as belezas esquecidas e escondidas do nosso país, as praias fluviais naturais, as cascatas majestosas, a pureza de muitos rios portugueses, a magnificência dos montes, das matas e das florestas nacionais, das praias algarvias (ainda) não devastadas ou dos montados alentejanos sumptuosos no seu sossego.
Gostaria que o autor tivesse falado mais de coisas pessoais, ou melhor, de como viveu certas coisas interiormente. Diz às tantas que leva livros na mochila, eu gostaria que tivesse falado mais dessas leituras e das suas viagens interiores. Gostaria que todo o livro fosse mais pessoal, à semelhança do "capítulo-confissão", em que se entrega ao leitor, admitindo que voltou a cair no alcoolismo nesta sua viagem por Portugal. Um país onde alcoolismo rima com hospitalidade. "Vai mais uma Aldeia Velha? Um café com cheirinho?", todos conhecemos esta "hospitalidade" de café. Como recusar um último bagaço, um "medronho amigo" a quem nos recebeu calorosamente? Foi um dos capitulos que mais gostei. Acho que é preciso muita coragem para se ser sincero com quem nos lê.
O autor confia neste seu diário de viagem que é muitas vezes interpelado com a pergunta de porque está a fazer esta jornada a pé, se é promessa, se é peregrinação a Fátima, perguntam se não tem carro, "atão, mas nem uma bicicleta tem?...". 
Eu acredito que esta viagem ao país verdadeiro só podia mesmo ser a pé, o que lhe permitiu ter o tempo e o vagar de parar e conversar, observar, ver acontecer, viver e conviver, e partilhar o pulsar de cada povoação. Parabéns ao Nuno Ferreira por este trabalho que ainda ninguém tinha feito, uma incursão feita na primeira pessoa no país profundo. Um livro pioneiro.
Nuno Ferreira prepara-se para regressar à estrada e fazer "Os Açores a pé". Eu aguardo pacientemente pelo seu segundo livro desta colecção, que poderá vir a ser um tríptico e que passará a ser obrigatório em cada biblioteca portuguesa.
José Luís Correia

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Quando a ficção científica também é filosofia

Duas obras marcaram-me neste últimos dias: "Replay" e "The Man from Earth".

A primeira obra é um livro de Ken Grimwood (1987) e aborda a reincarnação de uma forma nova e original. Em vez de a alma "saltar" de corpo em corpo, ao longo das gerações e das eras, o personagem principal de Grimwood, Jeff Winston, um rádio-jornalista de 43 anos, morre em 1988 e volta a acordar em 1963 no seu próprio corpo, de 18 anos. Vinte e cinco anos depois, game over e replay. Over and over again...

Se a reincarnação serve para que a alma melhore e se aperfeiçoe em cada "descida" à Terra, acreditam os budistas, a personagem de Grimwood vai servir-se dos seus primeiros replays para não casar com a mesma miúda, fazer vida de hippie e sexo desregrado nos anos 60, sair da Universidade sem diploma, apostar nas corridas de cavalos das quais já conhece os resultados e com isso fazer fortuna, jogar na bolsa apostando providencialmente em pequenas empresas dos anos 70 como a Apple, arrecadar milhões e construir um império na boa tradição americana do self made man.

Ao longo dos replays, Jeff repara que apesar de ter escolhido de cada vez vias diferentes para chegar a 1988, isso não lhe traz a felicidade e a serenidade a que almeja.

O final é inesperado, até para mim que estou habituado a devorar tudo o que são livros, filmes e histórias sobre universos paralelos, realidades alternativas e viagens no tempo.

Atenção, spoiler: Depois de muitos replays, Jeff nota que acorda cada vez mais tarde ao regressar ao passado: em 1963, depois em 1965, depois nos anos 70 e no final, apenas a alguns momentos de voltar a morrer. A evidência impõe-se: chegará um momento em que deixará de haver replays e morrerá "de vez". No momento em que espera esse derradeiro replay... o tal ataque de coração, que já o fulminara centenas de vezes antes, simplesmente não acontece. E a vida continua, como se nada fosse...

Mas é só com toda a experiência das suas mil vidas diferentes que o jornalista vai perceber o que deve fazer para procurar a felicidade. E que nunca é tarde demais.

A Warner Bros comprou os direitos da obra de Grimwood, mas nunca chegou a realizar o filme. Sobretudo depois de em 1993 a comédia "Groundhog Day", com Bill Murray e Andie MacDowell, ter estreado. O autor tentou processar os produtores de "Groundhog Day", mas em vão. Grimwood morreu em 2003 de... um ataque de coração. Os fãs continuam à espera de um filme. Diz-se que Ben Affleck estaria a tratar da produção.



A segunda história chama-se "The man from Earth" e é um filme realizado por Jerome Bixby.

1998. Um professor de história, John Oldman prepara-se para mudar-se para outra cidade. Os amigos, quase todos também professores na Universidade, não entendem bem porquê, até porque o brilhante professor, apesar de ainda nos seus 30 e tais, chegou recentemente a chefe do seu departamento na faculdade.

John hesita, mas acaba por explicar aos amigos a razão da sua partida. E o que começa como uma brincadeira vai depressa tornar-se um momento alucinante para os que o pensavam conhecer.

John começa por contar que teve a oportunidade de viajar com Cristóvão Colombo, mas nessa época ele ainda acreditava que a Terra era plana e temia mesmo cair de uma das suas bordas.

Os amigos brincam com ele e riem-se da partida que este está a querer pregar-lhes. John confia que pensa ter mais de 11 mil anos - perdeu as contas, diz. Lembra-se de ter nascido ainda na Idade da Pedra, a sua "primeira vida" viveu-a com uma tribo das cavernas. E enquanto os outros iam envelhecendo e falecendo à sua volta, ele nunca morria.

A tribo começou por escolhê-lo como feiticeiro e chamane, mas temendo o que não compreendiam, expulsaram-no do grupo. Foi nómada, viajou a pé pelas florestas da Europa, trocou dezenas de vezes de tribo, seguindo em direcção aos territórios mais ricos em caça. John diz lembrar-se que o tempo aqueceu há cerca de 8 mil anos, viu as águas separar a França da costa britânica. Participou na construção das primeiras cidades, durante dois mil anos foi sumério, cidadão em Ur, conheceu o rei sumério Hamurabi pessoalmente. Viajou para o leste e foi discípulo de Buda, foi etrusco, assistiu à ascensão e à queda do império romano, foi amigo de Van Gogh...

O sorriso divertido dos amigos vai desaparecendo à medida que estes - eminentes professores de Biologia, Arqueologia, Psicologia, Antropologia - lhe fazem perguntas e as respostas parecem verosímeis.

Mas a revelação mais perturbante de todas está ainda para vir, quando John aproxima os ensinamentos de Buda dos que Jesus Cristo tentou transmitir.

Dois dos seus amigos ficam irritados com ele, os outros sentem-se perdidos, num misto de fascinação, curiosidade e incredulidade.

Preocupados com ele, três dos seus amigos já não o querem deixar partir, acham que ele precisa de ajuda psiquiátrica.

E é aí, que John diz que foi tudo uma brincadeira. A não ser que seja apenas para se ver livre dos seus amigos...


Gostei desta história porque explora a viagem no tempo, mesmo se neste caso é a eternidade que está em questão; a vivência de vidas diferentes, sem recorrer a reincarnação. Mas também aqui, as mil vidas de John Oldman (trocadilho) serviram para este ir aprendendo com a Humanidade. E por isso apreciei como, durante o decorrer da história, a serenidade de John nunca descai, como se fora realmente dotado de uma sabedoria não só antiga como sem idade. Ou como eu gosto de imaginar que fosse.

Outros dos aspectos desta história que apreceei é o facto de John dizer que os factos históricos que ficaram para a posteridade nos livros, nos manuais oficiais, nem sempre aconteceram como nos são elatados e como os estudamos. Ou foram deturpados voluntariamente ou o tempo foi limando, escolhendo, pormenores que não o são e que nunca o foram.

Um filme que pede um livro

O meu primeiro reflexo foi pensar: "isto dava uma peça de teatro hilariante". Depois procurei o livro e descobri que além de ser um recôndito filme que só saiu em DVD, o argumento não existe em versão impressa.

A obra estreou directamente em filme em 2007, mas passou completamente despercebida. Primeiro porque nem sequer saiu nas salas de cinema, saiu directamente em DVD. E só chegou à Europa este ano.

As grandes produtoras habituadas aos blockbusters não acreditaram no filme talvez pelo seu lado despojado em termos de cenários, porque não tem absolutamente nenhuma cena de acção, porque conta apenas com oito personagens, que se envolvem num diálogo surrealista. Demasiado surrealista para o grande público?

É, no entanto, esta história merece ser contada.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

A rentrée literária em Portugal

Portugal tem muitos e bons livros que vão marcar a rentrée literária.

Uma das novidades é “Apocalypse Baby”, da polémica escritora francesa Virginie Despentes. A obra venceu o prémio Renaudot 2010, que em Portugal a editora Sextante publica. Trata-se de um road story de uma investigadora privada contratada para encontrar a filha desaparecida de uma família rica.

“Fall River e outros contos dispersos”, de John Cheever é outra das novidades que a Sextante lança, mas em Outubro. Cheever (1912-1982) é considerado um dos maiores escritores norte-americanos do século XX. O livro reúne contos dispersos dos anos 1930 e 1940.

No mesmo mês, a Porto Editora publica “O Quarto de Jack”, de Emma Donoghue, finalista do Man Booker Prize 2010. Trata-se de uma espécie de conto de fadas negro, narrado por um menino de cinco anos, cuja visão do mundo está limitada às paredes do quarto onde vive fechado com a mãe, o que desencadeará um olhar muito diferente sobre o universo exterior. A Porto Ed. reedita ainda “As Rosas de Atacama” de Luis Sepúlveda. O novo romance do chileno está previsto para Fevereiro do próximo ano.

Em Novembro, a Sextante publica “A Filha do Coveiro”, um dos grandes romances de Joyce Carol Oates, a “Harpa de Ervas”, de Truman Capote, “El Cuaderno de Maya”, o mais recente romance de Isabel Allende, e “Rixa de Gatos”, com que o escritor catalão Eduardo Mendoza venceu o Prémio Planeta 2010. Esta última história desenrola-se antes da Guerra Civil espanhola (1936-1939). A Sextante lança ainda “Macedo – Uma biografia da Infâmia” de António Mega Ferreira, a biografia de José Agostinho Macedo, um ser detestável que viveu na transição do século XVIII com o XIX.

Para Novembro, a Porto Editora coloca nos escaparates o romance “O Horizonte”, de Patrick Modiano, considerado um dos maiores escritores franceses da actualidade (nasceu em 1945). O livro conta a história de um aspirante a escritor em Berlim.

Nesta rentrée literária, a Babel propõe os contos policiais “Os Crimes dos Viúvos Negros”, de Isaac Asimov. O autor, mais conhecido por ser um dos vultos maiores da ficção-científica do séc. XX, conta aqui como um grupo de cavalheiros se dedica a investigar mistérios sem se levantarem da poltrona do seu clube de gentlemen.

A Babel põe ainda nos escaparates uma biografia de Camilo Castelo Branco. Com selo da Verbo, “15 Dias de Febre”, de Maria do Carmo Castelo Branco, é uma inovadora "autopsicografia" (termo inventado pelo escritor austríaco Hermann Broch, 1886-1951) de Camilo Castelo Branco. A autora põe Camilo a falar da sua vida antes e depois da sua morte, a conversar com os seus críticos, e a falar de literatura e até das novas tecnologias.

Com a chancela da Ulisseia, a Babel lança o romance “Uma Espécie de Sono” de Henry Roth, considerado pela crítica como o pai da narrativa norte-americana do século XX. Esta é uma obra semi-biográfica que acompanha a vida no gueto judaico de Nova Iorque através de um personagem que se vai integrando na sociedade mas que, simultaneamente, perde a individualidade e a voz. Trata-se de uma espécie de "Ulisses" (James Joyce) da literatura norte-americana.

Outra história judaica é a contada por Isaac Bashevis Singer, Nobel da Literatura 1978, em “Satã em Goray”, inédito em Portugal. Trata-se de um romance histórico cuja acção decorre numa aldeia judaica perto da cidade de Lublin (Polónia), entre o século XVII e os anos 1930.

“Uma Parte do Todo”, do australiano Steve Toltz, finalista do Booker Prize 2008, é outra das apostas da Ulisseia e conta uma saga familiar nesse país-continente que é a Austrália.

“O Gene da Dúvida”, de Nicos Panyotopoulos, sai em Outubro, e conta como num futuro próximo um cientista isola o gene do génio e como as editoras começam a exigir que os seus autores façam o teste para verificar se são ou não génios.

No mesmo mês, sai ainda “A Última Criança”, de John Hart, thriller vencedor do Edgar Award para melhor policial literário e do Silver Dagger (prémio homólogo britânico), e “Tudo o que Poderíamos Ter Sido Tu e Eu Se Não Fôssemos Tu e Eu”, de Alberto Espinosa, apelidado pela crítica como “o Murakami espanhol”.

valter hugo mãe lança quinto romance sobre a vontade de ser pai

A Editora Objectiva lança este mês o o quinto romance do escritor e poeta valter hugo mãe (na foto ao lado, foto de Nelson d'Aires), “O Filho de Mil Homens”, a história de Crisóstomo, um homem infeliz de não ser ainda pai aos 40 anos, tristeza que o autor confiou partilhar com a sua personagem.

Ainda este mês, a Objectiva aposta na mais recente romance do “enfant terrible” da literatura francesa, Michel Houellebecq. “O Mapa e o Território”, que arrebatou o prestigiado prémio Goncourt 2010. O livro satiriza o mundo da arte parisiense e descreve com frieza clínica a miséria afectiva e sexual do homem moderno, em solidão absoluta.

Também galardoado – desta vez com o prémio francês "Fémina Étranger 2010" e o prémio de Livro Europeu do Ano 2010 – foi o romance da jovem autora prodígio finlandesa Sofi Oksanen, “Purga”, outro das obras que sai pela Objectiva. Uma história de amor na Estónia de 1992, depois de o país ter sido libertado da União Soviética. Oksanen, de 32 anos, venceu em 2008, ano de publicação do seu romance na Finlândia, os três maiores prémios literários do país.

A editora publica também não-ficção, como “O Crepúsculo de Um Ídolo”, do filósofo francês Michel Onfray. Neste, Onfray põe em causa Freud, argumentando que o “pai” da Psicanálise transformou os seus próprios instintos e necessidades fisiológicas numa doutrina com pretensões de universalidade.

O destaque das novidades de ficção na Dom Quixote vai para “Némesis”, o mais recente romance do norte-americano Philip Roth, autor vencedor do Booker 2011 e eterno candidato ao Nobel, que será publicado em Novembro. “Némesis” é a história de Buck Cantor, o monitor de um recinto de jogos, lançador do dardo e halterofilista de 23 anos, que trava uma guerra pessoal contra a epidemia de poliomielite que atinge alguns dos jovens a seu cargo. Ao contá-la, Roth conduz os leitores “pelo itinerário meticuloso das emoções que semelhante epidemia pode gerar: o medo, o pânico, a revolta, a incredulidade, o sofrimento e a dor”, indica a editora.

Outros títulos da rentrée da Dom Quixote são, em Outubro, “O Filho do Desconhecido”, de Allan Hollinghurst, nomeado para o Booker Prize 2011, e este mês, “A Grande Casa”, de Nicole Krauss, e “A Bofetada”, de Christos Tsiolkas, romance vencedor do Commonwealth Prize e nomeado para o Man Booker Prize que está a ser adaptado para uma série de televisão e cuja história parte precisamente da bofetada que um homem dá a uma criança de três anos durante um encontro de amigos – um acto isolado que irá repercutir-se nas vidas das oito pessoas que dele foram testemunhas.

Na Teorema, sai em Novembro “Alvo Nocturno”, do argentino Ricardo Piglia, que foi considerado um dos melhores livros de 2010 em Espanha.

Na Objectiva sai em Outubro “Rixa de Gatos”, mais um título do catalão Eduardo Mendoza, Prémio Planeta 2010, cuja obra completa está a ser publicada em Portugal pela Sextante.

“A Viagem de Autocarro”, de Josep Pla – escritor primordial da cultura catalã - é o novo título da colecção de literatura de viagens dirigida pelo jornalista Carlos Vaz Marques (colaborador da revista "Ler"). Segundo o jornalista, este livro “pode ser considerado o paradigma daquilo com que Pla nos faz sorrir a cada passo: ao longo de 100 km de poesia e humor, ele conduz-nos através de uma deliciosa espontaneidade, mas que não exclui as reflexões mais profundas”.

A editora Ahab propõe, este mês, o livro de contos “Uma Vasta e Deserta Paisagem”, de Kjell Askildsen, uma obra distinguida com o Prémio da Crítica Norueguesa, que apresenta aos leitores, com ironia e humor negro, personagens solitárias que se movem num mundo de sentimentos emudecidos e tensões latentes.

Seguem-se, em Outubro, “Postais de Inverno”, de Ann Beattie, e “A Visita do Médico Real”, de Per Olov Enquist, considerado um dos melhores autores suecos contemporâneos. Trata-se de um romance que lhe valeu três prémios: o August Prize, o Independent Foreign Prize e o Prix du Meilleur Livre Étranger, este último em França.

Com a chancela da Eucleia chega este mês às livrarias o romance “Não Humano”, do japonês Osamu Dazai, um best-seller no Japão, com mais de 10 milhões de exemplares vendidos.

Em Outubro, esta nova editora publicará “Necrópole”, um romance do colombiano Santiago Gamboa que foi prémio internacional La Otra Orilla, “A Arte de Chorar em Coro”, do dinamarquês Erling Jepsen, um romance já adaptado ao cinema, e “Quanto mais depressa ando, mais pequena sou”, da norueguesa Kjersti Annesdatter Skomvsvold, um romance que lhe valeu o prémio Tarjei Vesaas para primeira obra.

O Clube do Autor publica “A Livraria”, o segundo romance da escritora britânica Penelope Fitzgerald, finalista do Booker Prize, que conta a história de Florence Green, uma viúva que em 1959 investe uma pequena herança que recebeu para abrir uma livraria numa casa com fama de ser assombrada na vila costeira de Hardborough e aí desencadeia “um terramoto” ao colocar à venda o romance “Lolita”, de Vladimir Nabokov.

A Gradiva publica, do italiano Umberto Eco, o ensaio “Construir o Inimigo”, bem como uma nova versão do romance “O Nome da Rosa”, obra que o celebrizou internacionalmente, e ainda “O Haiku das Palavras Perdidas”, de Andrés Pascual, e “Nagasaqui”, de Eric Faye.

Na Casa das Letras é editado em Novembro o primeiro de três volumes do mais recente romance de Haruki Murakami, “1Q84”, ficando os outros dois para 2012.

A Quetzal propõe “Ravelstein”, de Saul Bellow, e “O Segundo Avião”, ensaio de Martin Amis – dois autores cuja obra completa está a publicar, e em Outubro, “A Curva do Rio”, o romance de estreia do Nobel da Literatura 2001, V.S. Naipaul, com que inicia também a edição da obra do autor.

Oficina do Livro reedita "Os Cinco"

A famosa série “Os Cinco” (The Famous Five, no original), da escritora inglesa Enid Blyton, regressa este mês numa nova reedição da Oficina do Livro. "Os Cinco na Ilha do Tesouro” (1942) e “Nova Aventura dos Cinco” (1943) são os dois primeiros títulos, numa colecção que inclui 21 volumes.

Esta nova edição portuguesa inclui uma nota da neta de Enid Blyton, Sophie Smallwood.

Estima-se que mais de 600 milhões de exemplares dos quase 800 livros da escritora inglesa tenham sido vendidos em todo o mundo, e traduzidos para 40 línguas. Blyton é também a autora de “Os Sete”, “As Gémeas” e do Noddy. A autora morreu em 1968, aos 71 anos. Em Fevereiro deste ano foi descoberto um texto inédito, alegadamente da sua autoria, intitulado "Mr Tumpy's Caravan", datado de 1938.

LUSA (com algumas adaptações do autor do blogue)

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Os escritores portugueses contemporâneos e a difícil relação com "o enredo" e "a narração"

"(...) No palco de Ernestina ou de La Coca [de J. Rentes de Carvalho], encontramos um enredo, essa entidade que é o lince da Malcata da nossa ficção.

A narração e o enredo são raros em Portugal, porque implicam a colocação das personagens num espaço concreto, num cenário social, cultural e político. Ou seja, um enredo implica um certo retrato da realidade. E esse é precisamenteo problema: a ficção portuguesa tem alergia à realidade portuguesa. É como se os portugueses fossem indignos de aparecer na prosa supina dos nossos oráculos literários. Lemos romances portugueses, mas não vemos lá dentro os portugueses, não sentimos lá dentro o cheiro e o pó do Portugal de hoje ou dos Portugais do passado. Onde estão os frescos sobre a Lisboa dos anos 2000? Onde estão os romances sobre os subúrbios?(...)"

Henrique Raposo
(artigo "J. Rentes de Carvalho, o inesperado biógrafo de Portugal", in revista "LER" n°104, Julho/Agosto de 2011)
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sábado, 26 de fevereiro de 2011

Frédéric Werst versus Fernando Pessoa

Dans "Ward, Ier-IIe siècles", Frédéric Werst est comme "Hérodote pour l'exhaustivité de la compilation historique, J.R.R. Tolkien pour la faramineuse invention d'un monde, Fernando Pessoa pour le regard poétique sur la langue et ses usages.

in "L'Express"
http://www.lexpress.fr/culture/livre/ward-ier-iie-siecle_958420.html



sábado, 22 de maio de 2010

As palavras são... sensualidades incorporadas

Gosto de dizer. Direi melhor: gosto de palavrar. As palavras são para mim corpos tocáveis, sereias visíveis, sensualidades incorporadas. Talvez porque a sensualidade real não tem para mim interesse de nenhuma espécie - nem sequer mental ou de sonho -, transmudou-se-me o desejo para aquilo que em mim cria ritmos verbais, ou os escuta de outros. Estremeço se dizem bem. Tal página de Fialho, tal página de Chateaubriand, fazem formigar toda a minha vida em todas as veias, fazem-me raivar tremulamente quieto de um prazer inatingível que estou tendo. Tal página, até, de Vieira, na sua fria perfeição de engenharia sintáctica, me faz tremer como um ramo ao vento, num delírio passivo de coisa movida.

Como todos os grandes apaixonados, gosto da delícia da perda de mim, em que o gozo da entrega se sofre inteiramente. E, assim, muitas vezes, escrevo sem querer pensar, num devaneio externo, deixando que as palavras me façam festas, criança menina ao colo delas. São frases sem sentido, decorrendo mórbidas, numa fluidez de água sentida, esquecer-se de ribeiro em que as ondas se misturam e indefinem, tornando-se sempre outras, sucedendo a si mesmas. Assim as ideias, as imagens, trémulas de expressão, passam por mim em cortejos sonoros de sedas esbatidas, onde um luar de ideia bruxuleia, malhado e confuso.

Não choro por nada que a vida traga ou leve. Há porém páginas de prosa que me têm feito chorar. Lembro-me, como do que estou vendo, da noite em que, ainda criança, li pela primeira vez numa selecta o passo célebre de Vieira sobre o rei Salomão. «Fabricou Salomão um palácio...» E fui lendo, até ao fim, trémulo, confuso: depois rompi em lágrimas, felizes, como nenhuma felicidade real me fará chorar, como nenhuma tristeza da vida me fará imitar. Aquele movimento hierático da nossa clara língua majestosa, aquele exprimir das ideias nas palavras inevitáveis, correr de água porque há declive, aquele assombro vocálico em que os sons são cores ideais - tudo isso me toldou de instinto como uma grande emoção política. E, disse, chorei: hoje, relembrando, ainda choro. Não é - não - a saudade da infância de que não tenho saudades: é a saudade da emoção daquele momento, a mágoa de não poder já ler pela primeira vez aquela grande certeza sinfónica.

Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico.Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio, com ódio verdadeiro, com o único ódio que sinto, não quem escreve mal português, não quem não sabe sintaxe, não quem escreve em ortografia simplificada, mas a página mal escrita, como pessoa própria, a sintaxe errada, como gente em que se bata, a ortografia sem ípsilon, como o escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.

Sim, porque a ortografia também é gente. A palavra é completa vista e ouvida. E a gala da transliteração greco-romana veste-ma do seu vero manto régio, pelo qual é senhora e rainha.

"Livro do Desassossego", por Bernardo Soares
(aka Fernando Pessoa, escrito entre 1920-1931, publicado pela primeira vez em 1982 na Ed. Ática)

Desenho de João Abel Manta (com a devida vénia)

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Fim-de-semana à porta, leituras em perspectiva :-)


- 2012: A Profecia Maia, de Alberto Beuttenmüller
- Que Cavalos São Aqueles Que Fazem Sombra No Mar?, de António Lobo Antunes
- N'espèrez pas vous dé barrasser des livres, de Jean-Claude Carrière & Umberto Eco
- Survivre aux crises, de Jacques Attali
- Le renard était déjà le chasseur, de Herta Müller

e mais dois que ando a terminar há meses:

- L'Ombre du Soleil, de A.S. Byatt
- Facts are subversive, de Timothy Garton Ash

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Programa para o fim-de-semana

1- Montar a árvore de Natal :-) , sem esquecer de colocar os nossos dois sapatinhos debaixo (pois, é que não temos lareira!)

2- Receber amigos e família, no sábado :-))

3- Pôr as leituras em dia: o Le Monde, edição de fim-de-semana passado, que ando a arrastar na pasta há dias, porque quero mesmo ler uns artigos que apontei como interessantes (um sobre novas tendências políticas e outro sobre as relações do Google com a imprensa). E encetar as novas "Ler" e "Lire" :-)))

4- Namorar :-)))))))))))))))

É isto que eu chamo um fim-de-semana. Fazer o que nos dá prazer ;-)