sebenta de anotações esparsas, pensamentos ociosos, reflexões cadentes, poemas difusos, introspecções de uma filosofia mais ou menos opaca dos meus dias (ou + reminiscências melómanas, translúcidas, intra e extra-sensoriais, erógenas, esquizofrénicas ou obsessivas dos meus dias)
-
cahier de notes éparses, pensées oisives, réflexions filantes, poèmes diffus, introspections d'une philosophie plus ou moins opaque de mes journées (ou + de réminiscences mélomanes, translucides, intra-sensorielles et extra-sensorielles, érogènes, schizophrènes ou obsessionnelles de mes journées)

Mostrar mensagens com a etiqueta europa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta europa. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Comentário a propósito do atentado contra o jornal Charlie Hebdo

Foto: Domingos Oliveira
E agora, fazemos o quê? 

É a pergunta que todos se colocam em França, o que fazer com a união e a mobilização que se criou em torno dos atentados de Paris? As marchas que juntaram quase 4 milhões de pessoas domingo em toda a França apregoaram uma união que, infelizmente, é apenas uma ilusão política e mediática.

Primeiro internacionalmente. Para muitos, a França conseguiu o "tour de force" de juntar numa só manifestação muitos dirigentes do mundo que nada têm em comum, um G50 improvisado. Teria piada, se não fosse grave. Que nível de hipocrisia se atinge quando Benjamin Netanyahu se expõe de braço dado com o presidente do Mali, quando Israel nem tem relações diplomáticas com esse país africano, ou a desfilar ao lado do presidente da autoridade palestiniana, Mahmoud Abbas? Ou o presidente húngaro Viktor Orban, num cortejo pela liberdade de imprensa, ele que tanto a jugula no seu próprio país? Ou que dizer da presença de príncipes árabes, que são próximos, para não dizer cúmplices e financiadores de alguns grupos jihadistas? Obama, que todos criticaram por não ter estado em Paris, é bem capaz de agradecer um dia quem o aconselhou a não participar neste grupo que encabeçava a marcha republicana.

Depois, a desunião é também óbvia internamente, em França. Nos últimos dias multiplicaram-se ataques a lugares de culto judaicos e muçulmanos. Para evitar a habitual amálgama que se fazem neste tipo de ocasiões, relembremos mais uma vez que os muçulmanos não são todos jihadistas e muito menos terroristas.

E que dizer aos jovens muçulmanos que não se solidarizaram com as vítimas assassinadas no jornal Charlie Hebdo porque consideram que há coisas com as quais não se deve brincar? A estes respondo, parafraseando o humorista francês Pierre Desproges: “Pode rir-se de tudo, mas não com toda a gente”.

Ou poderia dizer-lhes que não se trata de uma guerra santa, nem de um choque de religiões ou de civilizações, nem tão pouco de visões do Mundo diferentes. Os jihadistas são, na sua maioria, manipulados por gente sem lei nem grei que invoca Allah e Maomé (em vão) para que os jovens convertidos lutem até à morte pela sua egoista e obscura causa, espalhando o medo, o caos e um clima de terror. O que ganham com isso? Ora aí está a pergunta que ninguém faz e que tem que ser respondida. Talvez a resposta esteja por detrás de quem os financia.

Apesar da farsa que foi o grupo que encabeçava o desfile, a França soube impôr o seu ideal e fez ouvir o seu clamor. Apesar de ferida e de luto – a nação que tantos já vaticinaram ao sucídio por ser um país dividido em comunidades que vivem em paralelo ignorando-se -, teve um sobressalto, lembrou-se que é tricolor e até multicolor. Aos que a quiseram fazer ajoelhar-se, uniu-se e resistiu, ficou de pé, fincou o pé e disse: Não temos medo!

A França ficou ferida, mas também histérica. O Governo francês promete aprovar rapidamente leis mais repressivas (para quem?), e dar mais meios e poder de acção aos serviços de segurança, que até andavam a seguir os irmãos Kouachi, mas deixaram de os considerar perigosos, alegando tratar-se apenas de fumadores de haxixe e de fazerem tráfico de roupa de contrafacção (!). Os franceses nem querem ouvir falar em algo como o “Patriot Act”, lei que surgiu das cinzas do 11 de Setembro, deu plenos poderes aos serviços de segurança americanos e nos mudou a vida a todos. Gritámos pela liberdade de expressão e vão cortar-nos na liberdade de acção? Há já até quem tenha sugerido suspender os Acordos de Schengen.

Se é verdade que os suspeitos de terrorismo têm que ser melhor vigiados, bem como a “livre circulação” para regiões jihadistas, além dos chefes e lugares de culto coniventes com os extremistas, é necessário também fazer mais prevenção. Como, onde? Nas escolas, por exemplo. Um jovem que se sente à margem da sociedade vai procurar outros valores em que se apoiar. É nessa fase, quando está frágil e é manipulável, que é preciso agir e tentar resgatá-lo. É nessa fase que corre o maior perigo de se marginalizar ainda mais, cair na criminalidade ou pior. Foi o que aconteceu com o jihadista português de Meispelt?

O Luxemburgo não está ao abrigo de um ataque terrorista, apesar de o Governo se mostrar tranquilizador.

O terrorismo também se combate a montante da violência, não apenas a jusante.

José Luís Correia
in CONTACTO, 14/01/2015

quarta-feira, 7 de março de 2012

O eixo da Terra está a mudar

O eixo da Terra está a mudar

Li algures na imprensa portuguesa que, muito embora os portugueses não apreciem o epiteto de "país periférico" que Bruxelas dá a Portugal, o facto é que é isso mesmo que o nosso rectângulo é, "que fazer", resignava-se o jornalista? E acrescentava que isso explica a condição de "subúrbio" a que o nosso rectângulo está votado. Ou seja, a culpa da crise que nos caiu em cima não é nossa, é do lugar que herdámos da geografia (!?).

Como se o centro de decisões e de negócios nunca pudesse ter sido Lisboa e - inverta-se os papéis -, a Alemanha o "hinterland" europeu ou o "arrière-pays" continental. Estas duas palavras não têm infelizmente uma boa tradução em português, pois o seu equivalente  "o interior" ("país real" é uma invenção da TV-reality show dos anos 90!), não comporta o significado de "afastado", "esquecido, lá para trás", que os termos alemão e francês abrangem. Felizmente, a História não dá razão aos epitetos que nos cognominam e a geografia não é uma fatalidade. Lisboa já foi dona de metade do Mundo e o seu "handicap" de hoje - a periferia -, foi na Era dos Descobrimentos a sua mais-valia. E exemplos como este abundam através dos tempos. Babilónia ou a Pérsia foram já as regiões mais civilizadas do mundo, depois em declínio e esquecidas durante milénios, foram novamente trazidas para o tabuleiro mundial graças ao petróleo. Como é que Alexandre Magno conseguiu fazer da sua encravada Macedónia o centro de um império que se estendeu através de um quarto do globo até às portas da Índia? Como é que uma cidade como Roma construiu um império que ia da África do Norte ao Médio Oriente e da Alemanha à Escócia? Também a América Central e do Sul viram proliferar as civilizações mais avançadas do seu tempo quando a Europa atravessava "os séculos escuros".

Lisboa já foi o rosto com que a Europa fitou o mundo, recorda-nos o nosso oráculo nacional Fernando Pessoa, na sua "Mensagem". Será que percebemos bem a mensagem? E se o "recado" de Pessoa fosse "Mens Ag(itat Mol)em", ou seja, que o espírito comanda o corpo, expressão repescada à "Eneida" de Virgílio. Mas se a mente comanda a matéria, Deus quer, o Homem sonha e a obra nasce, então a inteligência não se deixa ditar desditas pela geografia. Até porque a geografia "acabou" e o homem hoje sabe ser ubíquo.

É armado desta sabedoria, sem ligar a fatalismos bacocos e desculpando-se com a "soi-disant" geografia, que o Dubai, por exemplo, sabendo próximo o fim do reino do ouro negro, está a fazer nascer hoje a megalópole de amanhã, das areias inóspitas do deserto e bairros inteiros em cima de ilhas artificiais. Do mesmo modo, o Luxemburgo, este improvável país que se quis independente sem que ninguém no século XIX acreditasse na sua perenidade, nem mesmo os luxemburgueses, soube antecipar o fim da siderurgia e lançar desde os anos 60 os pilares de outras economias (os serviços, a praça financeira, as telecomunicações, a logística) que asseguraram o futuro. E o Ducado agrícola das hortas de subsistência de há dois séculos soube atravessar as convulsões hegemónicas e geo-económicas do século XX, e tornar-se um país política e economicamente estável, um burgo centripeta, que atrai populações e empresas dos quatro cantos da Europa e do Mundo.

Saber governar é saber prever. Qualidade que têm tido alguns (friso alguns) governantes luxemburgueses (até agora !) e que tem faltado singularmente à maioria dos políticos portugueses.

Onde está o futuro de Portugal ? Quanto a mim, acredito que a língua é nossa melhor embaixadora, que os caminhos que abrimos pelos mares e nos levaram ao achamento do Brasil, a África e até Timor, são a rota instintiva a seguir para nos projectarmos no futuro e num planeta cujo eixo está a mudar. O eixo da Terra está a mudar, mas não é o fim do Mundo.

Há muito que se previa que o centro económico do planeta iria mudar-se do Atlântico para o Pacífico. Mas era uma leitura enviesada. A China é hoje a potência mundial óbvia, mas a América do Sul (e não apenas o Brasil), a Índia e África prefilam-se. O eixo não está a girar do Atlântico para o Pacífico, antes está a mudar de hemisfério, do Norte para o Sul.
  
Quando entendermos isso, saberemos como sair da actual crise e criar uma nova era de prosperidade. Não só Portugal, mas a Europa. Portugal tem que, hoje mais do que nunca, fortalecer os laços que teceu graças às suas Descobertas. Talvez assim Portugal se cumpra, como sonhou Pessoa. Quanto à Europa, não se pode fechar em fortaleza, tem que abrir-se ao Mundo, ou está destinada a que esses povos um dia lhe virem as costas. E se num futuro não tão longíquo a Europa demograficamente exangue precisar dos africanos? Ou se os europeus quiserem emigrar para a África vizinha, esse gigantesco território riquíssimo, que há-de tornar no continente emergente, e os africanos não quiserem lá os "refugiados" do velho continente ? A Europa não pode declinar em subúrbio flatulento da nova geografia mundial. Porque a geografia não é uma fatalidade, mas uma oportunidade.

O eixo da Terra está inelutavelmente a mudar mas, e nós, saberemos acompanhar o movimento da tectónica económica ?

José Luís Correia
(in CONTACTO, 07.03.2012)