sebenta de anotações esparsas, pensamentos ociosos, reflexões cadentes, poemas difusos, introspecções de uma filosofia mais ou menos opaca dos meus dias (ou + reminiscências melómanas, translúcidas, intra e extra-sensoriais, erógenas, esquizofrénicas ou obsessivas dos meus dias)
-
cahier de notes éparses, pensées oisives, réflexions filantes, poèmes diffus, introspections d'une philosophie plus ou moins opaque de mes journées (ou + de réminiscences mélomanes, translucides, intra-sensorielles et extra-sensorielles, érogènes, schizophrènes ou obsessionnelles de mes journées)

Quarta-feira, 22 de Fevereiro de 2012

NASA descobre planeta-oceano na Constelação de Ophiuchus (Serpente)


A NASA descobriu na terça-feira um novo tipo de planeta, composto em grande parte por água e com uma leve atmosfera de vapor, podendo assim ser considerado um planeta-oceano.

O exoplaneta, denominado GJ1214b, foi descoberto em 2009 pelo telescópio espacial Hubble, está situado a 40 anos luz da Terra, tem um órbita de 38 horas em volta de uma anã vermelha (Gliese-Jarheiss 1214), e desde a Terra pode ser avistado na Constelação de Ophiuchus (Serpente ou Serpentário). O planeta tem uma temperatura estimada de 232 graus Celsius, tem 2,7 vezes o tamanho do nosso planeta e sete vezes o seu peso, sendo assim considerado uma "super-Terra". É, no entanto, mais pequeno que Neptuno, por exemplo (ver imagem).

As medições e observações da passagem de Gliese J1214b diante do seu sol permitiram mostrar que a luz da estrela era filtrada através da atmosfera do planeta, composta de vapor. Na realidade, uma nuvem de gases envolve totalmente o planeta. 

Os cientistas calcularam depois a densidade do planeta a partir de sua massa e tamanho, e concluiram que este dever ter "muito mais água do que a Terra e muito menos rocha", no que pode ser considerado um planeta-oceano.

Um planeta com estas características é algo há muito imaginado pelos autores de ficção-científica mas até agora nunca avistado.

No nosso sistema solar existem apenas três tipos de planetas: 

- rochosos (telúricos): Mercúrio, Vénus, Terra e Marte
- gigantes gasosos: Júpiter e Saturno
- gigantes gelados: Urano e Netuno

Domingo, 5 de Fevereiro de 2012

Excerto da versão actualizada dos Lusíadas

I
As sarnas de barões todos inchados
Eleitos pela plebe lusitana
Que agora se encontram instalados
Fazendo o que lhes dá na real gana
Nos seus poleiros bem engalanados,
Mais do que permite a decência humana,
Olvidam-se do quanto proclamaram
Em campanhas com que nos enganaram!

II

E também as jogadas habilidosas
Daqueles tais que foram dilatando
Contas bancárias ignominiosas,
Do Minho ao Algarve tudo devastando,
Guardam para si as coisas valiosas
Desprezam quem de fome vai chorando!
Gritando levarei, se tiver arte,
Esta falta de vergonha a toda a parte!

III

Falem da crise grega todo o ano!
E das aflições que à Europa deram;
Calem-se aqueles que por engano
Votaram no refugo que elegeram!
Que a mim mete-me nojo o peito ufano
De crápulas que só enriqueceram
Com a prática de trafulhice tanta
Que andarem à solta só me espanta.

IV

E vós, ninfas do Coura onde eu nado
Por quem sempre senti carinho ardente
Não me deixeis agora abandonado
E concedei engenho à minha mente,
De modo a que possa, convosco ao lado,
Desmascarar de forma eloquente
Aqueles que já têm no seu gene
A besta horrível do poder perene!

Luiz Vaz Sem Tostões


Não sei quem é o autor, retirei da página de uma amiga no Facebook. Acho admirável que haja quem, no meio da crise e da hora trágica que o país vive, consiga encontrar verve e talento para este pequeno momento de humor

Sábado, 4 de Fevereiro de 2012

Restam-nos hoje, no silêncio hostil, 

o mar universal e a saudade


Conquistemos a distância!

Resta-nos o mar universal. Conquistemos a distância!

image by Larry Landolfi (image will be removed if author asks so)
PRECE

Senhor, a noite veio e a alma é vil. 
Tanta foi a tormenta e a vontade! 
Restam-nos hoje, no silêncio hostil, 
O mar universal e a saudade. 

Mas a chama, que a vida em nós criou, 
Se ainda há vida ainda não é finda. 
O frio morto em cinzas a ocultou: 
A mão do vento pode erguê-la ainda.

Dá o sopro, a aragem — ou desgraça ou ânsia —  
Com que a chama do esforço se remoça, 
E outra vez conquistaremos a Distância — 
Do mar ou outra, mas que seja nossa!

Fernando Pessoa
("Mensagem", 1934)

Quarta-feira, 1 de Fevereiro de 2012

Dois terços das estrelas têm Super-Terras ou Estrelas com planetas são a regra e não a excepção

Uma equipa internacional, que inclui três astrónomos do Observatório Europeu do Sul (ESO), utilizou a técnica de microlente gravitacional para determinar quão comuns são os planetas na Via Láctea. Após uma busca que durou seis anos e onde observaram milhões de estrelas, a equipa concluiu que os planetas em torno de estrelas são a regra e não a excepção. 

Durante os últimos 16 anos, os astrónomos detectaram mais de 700 exoplanetas(*1) (planetas fora do sistema solar) e começaram a estudar os espectros e as atmosferas desses mundos. Embora o estudo das propriedades dos exoplanetas individuais seja extremamente importante, uma questão básica permanece: quão comuns são os planetas na Via Láctea?

A maioria dos exoplanetas conhecidos foram encontrados ou pelo efeito gravitacional que exercem sobre a sua estrela ou por passagem em frente da estrela diminuindo-lhe ligeiramente o brilho. Ambas as técnicas são muito mais sensíveis a planetas que ou são de grande massa ou se encontram próximo das suas estrelas. Por consequência, muitos planetas terão escapado a estes métodos de detecção.

Uma equipa internacional de astrónomos procurou exoplanetas utilizando um método totalmente diferente - as microlentes gravitacionais - o qual permite detectar planetas num grande intervalo de massas e também os que se encontram muito mais afastados das suas estrelas.

Arnaud Cassan (Institut d’Astrophysique de Paris), autor principal do artigo na Nature explica: “Durante seis anos procurámos evidências de exoplanetas a partir de observações de microlentes. Curiosamente, os dados mostram que os planetas são mais comuns na nossa galáxia do que as estrelas. Descobrimos também que os planetas mais leves, tais como as Super-Terras ou Neptunos frios, são mais comuns do que os planetas mais pesados.”

Os astrónomos utilizaram observações, fornecidas pelas equipas PLANET e OGLE (*2) ,  nas quais os exoplanetas são detectados pelo modo como o campo gravitacional das suas estrelas, combinado com o de possíveis planetas, actua como uma lente, ampliando a luz de uma estrela de campo de fundo. Se a estrela que actua como uma lente tem um planeta em órbita, esse planeta pode contribuir de forma detectável ao efeito de brilho provocado na estrela de fundo.

Jean-Philippe Beaulieu (Institut d’Astrophysique de Paris), líder da rede PLANET acrescenta: ”A rede PLANET foi fundada para seguir os efeitos de microlente que se mostravam promissores, com uma rede de telescópios em todo o mundo, situados no hemisfério sul, desde a Austrália e África do Sul até ao Chile. Os telescópios do ESO contribuíram de forma significativa para estes rastreios.”

As microlentes gravitacionais  são uma ferramenta poderosa, com o potencial de conseguirem detectar exoplanetas que não poderiam ser descobertos de outro modo. No entanto, é necessário o alinhamento, bastante raro, entre a estrela de fundo e a estrela que actua como lente para que possamos observar este evento. E para descobrir um planeta é preciso ainda que a órbita do planeta se encontre igualmente alinhada com a das estrelas, o que é ainda mais raro.

Embora encontrar um planeta por meio de microlente esteja longe de ser uma tarefa fácil, nos seis anos de procura utilizando dados de microlente para a análise, três exoplanetas foram efectivamente detectados nas buscas PLANET e OGLE: uma Super-Terra (planeta com uma massa entre duas a dez vezes a da Terra) e planetas com massas comparáveis à de Neptuno e de Júpiter. Em termos de microlente este é um resultado excepcional. Ao detectar três planetas, ou os astrónomos tiveram imensa sorte e acertaram no jackpot apesar da baixa probabilidade, ou os planetas são tão abundantes na Via Láctea que este resultado era praticamente inevitável

Os astrónomos combinaram seguidamente a informação sobre os três exoplanetas detectados com sete anteriores detecções e com um enorme número de não-detecções durante os seis anos do trabalho. A conclusão foi que uma em cada seis estrelas estudadas possui um planeta com massa semelhante à de Júpiter, metade têm planetas com a massa de Neptuno e dois terços têm Super-Terras. O rastreio era muito sensível a planetas situados entre 75 milhões de quilómetros e 1.5 mil milhões de quilómetros de distância às suas estrelas (no Sistema Solar estes valores correspondem a todos os planetas entre Vénus e Saturno) e com massas que vão desde cinco massas terrestres até dez massas de Júpiter.

A combinação destes resultados sugere que o número médio de planetas em torno de uma estrela seja maior que um. Ou seja, os planetas serão a regra e não a excepção.

“Anteriormente pensava-se que a Terra seria única na nossa Galáxia. Mas agora parece que literalmente milhares de milhões de planetas com massas semelhantes à da Terra orbitam estrelas da Via Láctea,” conclui Daniel Kubas, co-autor do artigo científico.

Comunicado de imprensa da ESO

Este trabalho foi apresentado no artigo científico, “One or more bound planets per Milky Way star from microlensing observations”, por A. Cassan et al., no número de 12 de Janeiro de 2012 da revista Nature.

[*1] A missão Kepler está a descobrir um número enorme de candidatos a exoplanetas, os quais não se encontram incluídos neste  número.
[*2] Sigla do inglês “Probing Lensing Anomalies NETwork”. Mais de metade dos dados do rastreio PLANET utilizados neste estudo foram obtidos com o telescópio dinamarquês de 1.54 metros instalado no Observatório de La Silla do ESO./ OGLE: Sigla do inglês “Optical Gravitational Lensing Experiment”.

Foto: ESO

Quinta-feira, 26 de Janeiro de 2012

3 meses

In Memoriam Jorge
Jorge, il restera de toi, mon ami
tout ce que tu nous as donné,
ta joie, ton rire, ta vie,
ton cœur et ton amitié.

Oú tes pas t’on guidé ta vie durant

il restera de toi les traces de ton courage
et de ta générosité, comme des fleurs qui jamais ne fanerons,
comme le soleil qui renait à chaque nouveau jour sur la plage.

Rien de ce que tu as vécu n’a été vain

et tout l’ amour que tu as semé,
et toutes les passions que tu partageais
- Ines, ta famille, tes amis, U2, la vie et le vin -

Germeront et fleurirons en nous et en d’autres vies.

Et l’absence cruelle qui tu laisse
n’est rien à côté de tout ce que tu nous a appris.

Et avec cette amitié que tu nous as offert

nous aussi nous tendrons les bras aux mendiants du bonheur
pour partager avec eux les secrets de ton cœur.


José Luís Correia

Quarta-feira, 25 de Janeiro de 2012

Pessoa: As ideias, as sensações, a sociedade e arte

(...) As sociedades são conduzidas por agitadores de sentimentos, não por agitadores de ideias. Nenhum filósofo fez caminho senão porque serviu, em todo ou em parte, uma religião, uma política ou outro qualquer modo social do sentimento.

Se a obra de investigação, em matéria social, é portanto socialmente inútil, salvo como arte e no que contiver de arte, mais vale empregar o que em nós haja de esforço em fazer arte, do que em fazer meia arte.  (...)"
 
Fernando Pessoa, 
(Notas Autobiográficas e de Autognose)

Sexta-feira, 6 de Janeiro de 2012

E se o Luxemburgo desaparecesse?

Nos seus novos romances, dois autores luxemburgueses imaginam o desaparecimento do Grão-Ducado nas tribulações económicas mundiais que vão assolar o mundo nos próximos anos e décadas.Em "La Troisième Crise" (Ed. Phi), de Jean-Louis Schlesser, a acção decorre no Verão de 2012 e activistas luxemburgueses fazem explodir uma bomba nos Jogos Olímpicos de Londres.

Tudo porque as instituições europeias desertaram o Luxemburgo, o que provocou a eclosão da bolha imobiliária e o aumento do desemprego para mais de 25 % no país. A única salvação do Grão-Ducado, acreditam estes activistas, é o Luxemburgo tornar-se a capital de um novo território, a Grande Região, numa espécie de "Império Europeu do Meio", que é um velho sonho medieval de uma grande Borgonha unida.

No romance "2129-Chasse à l'homme de l'art" (Éditions de l'officine), Enrico Lunghi imagina, no séc. XXII, um Grão-Ducado desmembrado, fazendo parte da província SarreLorLux.

Na capital grã-ducal, a Gëlle Fra foi substituída por uma estátua de Juncker, e apenas os funcionários públicos ainda falam luxemburguês. O centro da capital tornou-se uma kasbah multirracial, onde se fala mandarim, hindi e ... português. No Kirchberg, Pedro, um milionário ermita português, transformou o Mudam em palácio privado, de onde observa e manda na cidade, como se fosse o seu feudo reservado.


José Luís Correia
(in Point24-edição portuguesa, de 06/01/2012)

Terça-feira, 3 de Janeiro de 2012

A década de euro, e agora ?

Há exactamente 10 anos guardei os francos luxemburgueses, franceses, belgas, os marcos, as pesetas e os escudos numa gaveta, saí eufórico e fui atestar o meu carro com euros pela primeira vez. O gasóleo custava então 0,7 euros. Dez anos volvidos, vale a pena eu continuar a ser um euro-optimista?

Quando hoje criticamos o euro pela subida dos preços, um aumento atestado por todos os estudos feitos sobre o assunto, esquecemos o positivo que a moeda única trouxe.

Nunca mais tivemos que transportar meia-dúzia de porta-moedas com diferentes divisas ao viajar pela Europa, nem nunca mais fomos « roubados »  no câmbio. Câmbio, aí está uma palavra que não digo há muito. Fazer parte da união económica e monetária protegeu-nos também da onda de choque da crise financeira de 2008, que chegou até nós, sim, mas muito mais tarde e já menos devastadora. Pertencermos ao euro permitiu também manter as taxas de juro baixas até 2010 e 2011, em certos países da zona euro, e isto apesar da crise.

Não esqueçamos também o prestígio que a nossa moeda comum adquiriu nos mercados internacionais, graças ao seu equilíbrio e ao peso político da Europa. Hoje o euro está ligado a 42 países do mundo : os 17 países da zona euro ;  os seis estados europeus não-comunitários que adoptaram o euro como moeda principal ou segunda moeda nacional ; e 19 países africanos (entre eles, Cabo Verde) e do Pacífico, que ligaram a sua moeda ao euro. O sucesso do euro fez até com que seis países do Golfo Pérsico se pusessem a pensar em criar uma moeda comum, que os libertasse do « dólar ».

Mas, passada a década de e(o)uro dos anos dois mil, a nossa moeda enfrenta agora, no início dos anos dez, uma grande crise, a « Grande Recessão », como lhe chamam já alguns economistas. A forma como vai ser resolvida esta crise, nos próximos meses e anos, vai reforçar ou fragilizar irremediavelmente a UE. O presidente do Eurogrupo, Jean-Claude Juncker, bem o clama : « A crise não é do euro, é de países como Portugal e Grécia », e é para esse problema que é preciso encontrar uma solução. 

Há os que são apologistas da « solução islandesa ». A Islândia, que viveu a falência do Estado em 2008, conseguiu reerguer-se, após três anos de rigor. Num momento em que a UE enfrenta 2012 ainda em recessão, a pequena ilha aponta para um crescimento económico de 3%. Qual é o milagre de Reykjavik ? O Estado islandês decidiu não salvar os bancos em crise, exactamente o contrário do que fez a UE. Melhor, o Estado islandês decidiu não salvar os accionistas, mas proteger os clientes. Mas fazer isso a nível europeu teria um efeito de contágio entre bancos, o que só contribuiria para alastrar ainda mais a crise.

Para escapar à crise da zona euro, há países que já equacionaram abandonar o euro e voltar às suas antigas moedas fortes nacionais, para se protegerem das turbulências dentro da eurozona . Outros falam em expulsar do grupo os maus alunos, como Atenas e Lisboa, e os que se seguirem. É a proposta Merkozy. Economistas como Barry Eichengreen (“The Breakup of the Euro Area », 2007), da Universidade de Berkeley, ou Michel Dévoluy (« L’euro est-il un échec ? », 2011), da Universidade de Estrasburgo, imaginaram o que poderia suceder se isso viesse a acontecer e ambos afirmam que a saída forçada do euro teria consequências nefastas para um estado-membro, mas também para a UE.
Foto:Anouk Antony/LW

Quer seja a Grécia, Portugal ou outro país, regressar, neste contexto de crise, à moeda nacional significaria forçosamente desvalorizar a divisa, e viver-se-ia uma corrida desenfreada aos bancos por parte dos clientes,  que não quereriam perder poder de compra. O que poderia conduzir à fragilização ou mesmo à falência de alguns bancos. Acrescente-se a isso uma forte inflação, fuga dos investidores, aumento das taxas de juro. Se a dívida fosse reestruturada (como fez a Argentina em 2002), por forma a que 1 euro passasse a valer, por exemplo, 20 escudos, em vez de 200 (fosse isso sequer possível !), a medida poderia parecer benéfica para o país, num primeiro tempo, porque diminuiria artificialmente a dívida, mas custar-lhe-ia a credibilidade junto dos mercados financeiros, e a economia sofreria uma forte travagem.  O regresso à divisa nacional custaria também extremamente caro em: fabrico da nova moeda fiduciária, a sua colocação em circulação, reconversão de todo o sistema monetário e financeiro, a redefinição de uma política monetária nacional. Recordemos o tempo e o dinheiro que custou a introdução do euro. A conversão de todos os preços e salários, só por si, poderia levar a tensões sociais ainda mais graves do que as que o país enfrenta hoje. E o élan nacional pretendido não aconteceria.

Nas relações exteriores, entre o estado « expulso » da zona euro e os que o teriam deixado à sua sorte, poderiam mesmo nascer tensões e novos nacionalismos, desaparecidos desde o séc. XIX e XX. O país expulso poderia mostrar-se cada vez mais reticente também em aceitar o controlo da UE e , in fine,  poderia até decidir sair da UE. É verdade que hoje há estados-membros dentro da UE e fora do euro, mas são-no por opção e sem contenciosos pelo meio. A saída forçada ou voluntária do euro seria profundamente negativa para a imagem da moeda única e da UE. A força e o prestígio da UE e da sua divisa vêm-lhe sobretudo da imagem de equilíbrio económico, geopolítico e de ajuda mútua que os seus estados-membros devem uns aos outros.

Para Dévoluy pode vir a ser decidida uma divisão da Eurozona em dois grupos. Por um lado, estados que optassem por uma governância económica comum e mais federalismo. Por outro, estados que regressassem às suas moedas nacionais. Mas esta Europa a duas velocidades, decidida em época de crise, poderia ser vista como a tentativa de salvar os bons alunos e de ostracizar os maus, o que descredibilizaria a UE.
Dévoluy considera que uma das soluções à crise do euro é mais federalismo, mas isso implica um novo paradigma político para a UE, mais do que propriamente económico. Dévoluy preconiza a troca da doutrina néoliberal da UE por uma « ordoliberal » , i.e., uma doutrina económica baseada na estabilidade dos preços e na « virtude orçamental ». Ou seja, liberal, mas com ordem, com regras, que evitem as derivas dos mercados. Foi esta « terceira via », situada a meio caminho entre o socialismo e o capitalismo, que permitiu “o milagre económico alemão » após a Segunda Guerra Mundial.

Mas a actual posição do Reino Unido, que bloqueou a possibilidade de uma maior governância económica comum, parece ter deixado o euro num impasse.

Tanto Eichengreen como Dévoluy alertam: é preciso salvar o euro, porque o seu fim provocaria a maior de todas as crises, e até conduzir ao fim da UE.

José Luís Correia
in CONTACTO, 04/01/2012

Quinta-feira, 29 de Dezembro de 2011

Duas actrizes que sigo com muito interesse

Emma Stone, 23 anos, vista em "Easy A" (2010) e "Friends with Benefits" (2011)

Jayma Mays , 32 anos, vista em "Heroes" (2006-2010) e "Glee" (2009-)

Sábado, 24 de Dezembro de 2011

Natal 1979, Luxemburgo

Um manto alvo cobre generosamente Rodange, e os moradores desbastaram a neve do chão criando grandes montes sujos de branco e negro entre o passeio e a estrada. Avisto a escola ao longe, mas estou feliz por estar de férias, e imagino que aqueles montes são os Himalaias gélidos e eu um intrépido explorador. Subo ao tecto do mundo e avisto o fundo da rua, onde moro, e calculo que a jornada vai demorar pelos menos mais algumas semanas. Escorrego numa ravina traiçoeira abaixo e a luta pela sobrevivência começa. Chego a casa sujo e molhado, com o nariz empendernido e vermelho, com medo da tareia que adivinho. Mas assim que entro em casa paira um agradável odor a filhozes, a leite quente com noz moscada.

Quando era criança, a época natalícia em minha casa começava muitas semanas antes da data festiva. A minha mãe cozinhava dias inteiros para fazer filhoses e outros doces. Fazia travessas e travessas. Dava para partilhar com os vizinhos, com os primos e cheguei até a levar para a escola, num dia em que tivemos que apresentar as tradições natalícias dos países de onde éramos originários. Os meus colegas de turma luxemburgueses faziam caretas ao pronunciarem a palavra “fi-lô-séch”, mas só à primeira, porque depois de provarem a pronúncia vinha-lhes com mais naturalidade.

Mais tarde, descobri que essas nuvens retorcidas, estaladiças e generosamente polvilhadas de açúcar em pó, que no Alentejo de onde a minha mãe é originária, se chamam filhoses, têm noutras terras portuguesas o nome de coscorõese, e podem ter as mais variadas formas e ingredientes.

Eu gostava de ver a minha mãe a cozinhar longas horas. Em casa, durante semanas pairavam aromas adocicados, que tornavam o Inverno luxemburguês lá fora menos frio.

Na noite da consoada, a casa enchia-se de família e amigos, risos e conversas soltas. Havia lombo assado e batatas no forno, sonhos, coscorões, Dom Rodrigos e pastéis de batata doce algarvios, e o meu pai servia o seu melhor Medronho, trazido secretamente no Verão anterior, escondido no fundo falso de uma mala de cartão para escapar aos agentes das alfândegas.

in "Diário Incidental"
Weimeriskirch, 24.12.2011
(foto: JLC)

Ho, ho, ho... Feliz Natal a todos! E Paz na Terra aos Homens e às Mulheres de boa vontade!


Sexta-feira, 23 de Dezembro de 2011

Le Monde designa artista chinês Ai Weiwei como personalidade de 2011

O jornal francês Le Monde elegeu hoje o artista dissidente chinês Ai Weiwei a personalidade de 2011, num ano em que os protagonistas foram “as revoltas”.

O Le Monde destacou que mais do que ser uma “estrela da arte contemporânea, como Damien Hirst, Jeff Koons ou Maurizio Cattelan”, o artista chinês converteu-se no “arauto de uma nova dissidência que se expressa, sobretudo, através da Internet”.

“Como os anónimos de Tunis e do Cairo, os ‘indignados’ de Madrid ou Wall Street, Ai Weiwei representa, à sua maneira, lúdica e rebelde, o impulso que leva um homem sem qualidade a converter-se no sujeito da sua própria história”, resumiu o jornal.

O artista chinês realizou este ano uma exposição na Modern Tate de Londres e em abril foi detido quando se preparava para deixar a China, tendo ficado preso durante três meses, o que desencadeou uma onda de indignação e de solidariedade por todo o mundo.

Depois de libertado, foi acusado de fraude fiscal e intimado pelo fisco chinês a pagar 1,7 milhões de euros, mas conseguiu recorrer pagando cerca de metade do valor através de milhares de doações. O artista tem afirmado que o imposto foi uma forma de o silenciar.

Em outubro, Ai Weiwei, 54 anos, foi eleito a personalidade do ano mais influente do mundo da arte pela revista britânica Art Review.

Em 2010, o Le Monde elegeu o australiano Julian Assange, fundador do portal Wikileaks, como figura do ano. Um ano antes, em 2009, foi o ex-presidente do Brasil Luiz Inácio Lula da Silva quem inaugurou a distinção anual do diário francês.

Quinta-feira, 22 de Dezembro de 2011

Aníbal Coimbra, um campeão do mundo ignorado na Gala da Sportpress


Aníbal Coimbra coloca bem alto as cores da bandeira luxemburguesa e do seu clube, o Hamm, cada vez que compete no estrangeiro, que arrecada uma medalha, que bate um record, que brilha nos rankings internacionais. O nome é português, mas o hino que soa nos pódios dos quatro cantos do Mundo é luxemburguês.

O tondelense venceu já 14 títulos de campeão do Luxemburgo. 14! Seguiram-se os de campeão da Grande Região, e de campeão da Europa em 2007 e 2010. Em Novembro conseguiu, entre a elite mundial da modalidade, o título de campeão do Mundo.

No entanto, os seus feitos continuam a ser ignorados pelos responsáveis que dizem representar e dignificar o mundo do desporto no Luxemburgo.

O exemplo mais gritante foi a gala promovida pelos jornalistas da imprensa desportiva luxemburguesa "Sportpress", que teve lugar a 8 de Dezembro, em Mondorf (ver edição do CONTACTO de 14/12/2011), na qual estes distinguem anualmente os "melhores desportistas do ano no Luxemburgo". Em anos anteriores, ignoraram o palmarés nacional e europeu de Aníbal Coimbra. Este ano, o título de campeão mundial parece também não ter pesado!?...

Sem desprimor para os galardoados deste ano da Sportpress – entre os quais Andy Schleck (2° na Volta à França em Bicicleta em 2011), a tenista Mandy Minella (n°110 mundial) e a Selecção Luxemburguesa de Futebol (n°127 mundial) –, penso que não deviam ter esquecido Aníbal Coimbra. Afinal trata-se de um campeão mundial. A não ser que os prémios sejam apenas para "os melhores luxemburgueses do ano". Nuance difícil de entender para quem tanto prestígio traz ao Grão-Ducado. Ou foi esquecimento? O que é pior?

Talvez para reparar a injustiça, a Federação Luxemburguesa de Powerlifting resolveu homenagear o atleta português, uma semana depois da gala da Sportpress. Mas o ministro dos Desportos não se deslocou, como o fizera para a Sportpress, enviou um representante. Na gala da Sportpress estiveram presentes 700 convidados. Na discreta cerimónia de Aníbal, cerca de 30.

Em Novembro, a CCPL não esqueceu Aníbal Coimbra e distinguiu-o com um merecido Prémio Personalidade. Da comunidade, o atleta já tem o reconhecimento. Falta agora recebê-la das instâncias nacionais do Luxemburgo.  

José Luís Correia 
Foto: Á. Cruz
in CONTACTO, 21/12/2011

Quarta-feira, 21 de Dezembro de 2011

Descobertos os dois mais pequenos planetas fora do Sistema Solar, em Kepler 20

Astrónomos descobriram os dois mais pequenos planetas fora do Sistema Solar, com dimensões semelhantes às da Terra e a orbitar uma estrela parecida com o Sol, revela esta semana a revista científica Nature, citada pelas agências internacionais.

O método de precisão usado permitiu à sonda norte-americana Kepler, da NASA, detectar os pequenos exoplanetas [planetas fora do sistema solar], que orbitam uma estrela baptizada Kepler 20.

O diâmetro de um dos pequenos planetas ultrapassa pouco mais (três por cento) o da Terra e o do outro é ligeiramente mais pequeno (três por cento) que o do ‘planeta azul’.

Bem mais próximos da sua estrela do que a Terra do Sol, os dois novos exoplanetas percorrem a sua órbita em menos de uma semana ou um mês. São rochosos como a Terra, mas as suas temperaturas à superfície são demasiado elevadas para permitir vida como a conhecemos.

O sistema extra-solar da estrela Kepler 20, situado a mil anos-luz da Terra, inclui mais três planetas, maiores, com tamanho similar ao de Neptuno.

Mais de 500 exoplanetas descobertos e confirmados desde 1995, mas a vida é apenas possível em... 3

De acordo com os astrónomos, actualmente apenas três exoplanetas se encontram na “zona habitável” (goldilock zone), onde a água pode ser detectada em estado líquido e, desta forma, a vida, como a conhecemos, ser possível: Kepler 22, a cerca de 600 anos-luz da Terra, e Gliese 581d e HD 85512b, a dezenas de anos-luz da Terra.

Lançada em Março de 2009, a sonda Kepler tem por missão observar mais de cem mil estrelas semelhantes ao Sol, visando a detecção de "exoplanetas-irmãos" da Terra susceptíveis de acolher vida.

A sonda já descobriu 28 exoplanetas e recenseou 3.326 “planetas candidatos”, que continuam por confirmar por outros métodos.

Fontes: NASA e LUSA