sebenta de anotações esparsas, pensamentos ociosos, reflexões cadentes, poemas difusos, introspecções de uma filosofia mais ou menos opaca dos meus dias (ou + reminiscências melómanas, translúcidas, intra e extra-sensoriais, erógenas, esquizofrénicas ou obsessivas dos meus dias)
-
cahier de notes éparses, pensées oisives, réflexions filantes, poèmes diffus, introspections d'une philosophie plus ou moins opaque de mes journées (ou + de réminiscences mélomanes, translucides, intra-sensorielles et extra-sensorielles, érogènes, schizophrènes ou obsessionnelles de mes journées)

Mostrar mensagens com a etiqueta Poesia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Poesia. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 15 de junho de 2017

O QUE É O AMOR, AMOR?



Perguntaste-me “O que é o Amor, amor?”.
Eu sei que sabes, mas queres que eu diga.
E como posso não responder às tuas pupilas intranquilas,
quando ficam suspensas a aguardar a resposta dos meus lábios.

Eu balbucio, gaguejo, procuro as palavras
que se atropelam, vêm em frenético galope
ao som de um tambor tonitruante e nervoso
desde os vales verdejantes
que fizeste florescer no meu coração.

O corcel da frente pára de repente,
arfa, uma, duas vezes,
o seu olhar animal detém-se no teu
e repete para si mesmo: “O que é o Amor, amor?”

Há um silêncio longo
como a pausa interminável de um respirar.

Finalmente, a brisa que sopra levemente
quebra o instante surdo.

O corcel é agora alazão rampante,
nitra como metatrone, pujança gigantesca
que se ergue e que inteiro se sente,
força tranquila, plenitude serena,
ousadia destemida porque é capaz
de tudo.

Os seus músculos de adamastor
contorcem-se, dobram-se e desdobram-se
e abrem-se em asas vigorosas e gloriosas.
O Pégaso descola rumo aos céus,
rumo às estrelas.

O salto no vazio sem temer, o voo instintivo.

Os meus dedos acariciam o teu rosto
como se quisesse aprender os seus contornos
que já conheço, o desenho do teu nariz,
a cambraia dos teus lábios,
pousas a tua face na minha mão
como se tivesses chegado a casa.

E respondo: O Amor? O Amor és tu!,
e selo o que digo com um beijo.

E é beijar-te sem querer parar, e chegar-te a mim,
e fazeres parte dos meus braços.
E é o todas as canções de amor me falarem de ti,
e é o acordar com vontade dos teus olhos e da tua voz
e dos teus dedos nos meus, e da tua boca no meu peito...
é um querer-te bem sem saber de onde vem,
é simplesmente ser, deixar o sentimento acontecer,
deixar o coração ser mais do que mero músculo,
deixá-lo ir por aí, deixá-lo correr,
deixá-lo discutir com a razão e vencer.

E se nem a geografia nos quer,
se o planeta não encolhe,
se não posso espalmar os Alpes
num só revés de mão
e secar os rios e rasgar os lagos,
e aproximar os mares,
então o universo não faz sentido...

Mas os teus braços...

Os teus braços, os teus beijos
e os teus olhos e o teu corpo
são a minha rosa dos ventos,
a minha rota da seda,
o meu mapa de novos mundos
para além de mim.

O Amor é isso tudo
e tudo o que mais que não cabe aqui
e tudo o mais que não cabe em mim.
O Amor somos nós.
E isso a mim chega-me.
E se o que sinto por ti
e tu sentes por mim não é Amor,
então deveria ser,
porque não aceito outra explicação,
nem há outra definição.

AGW, 06062017

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Ao Amor Antigo

O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede.
Nada espera, mas do destino vão nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.

Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
o antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.

Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 1 de abril de 2015

De 24 a 26 de Abril: António Carlos Cortez representa Portugal na Primavera dos Poetas do Luxemburgo

António Carlos Cortez é o representante de Portugal na 8a edição da Primavera dos Poetas, que decorre no Luxemburgo de 24 a 26 de Abril, e que tem como tema este ano a “insurreição poética”. 
António Carlos Cortez

O poeta, ensaísta e crítico de poesia é também colaborador permanente do Jornal de Letras e de revistas como a Colóquio-Letras, da Fundação Calouste Gulbenkian, e Relâmpago, da Fundação Luís Miguel Nava. Cortez nasceu e vive em Lisboa, onde é professor de Literatura Portuguesa no Colégio Moderno. É ainda consultor do Plano Nacional para a Leitura, membro do Clube Unesco para a promoção da leitura em Portugal, membro permanente do júri do Prémio de Poesia Casa de Mateus e membro da direcção do Pen Clube português.

Cortez publicou sete recolhas de poesia: “Ritos de Passagem” (1999), “Um Barco no Rio” (2002), “A Sombra no Limite” (2004), “À Flor da Pele” (2008), “Depois de Dezembro” (2010), que venceu o Prémio da Sociedade Portuguesa de Autores/RTP, “Linha de Fogo” (2012) e “O Nome Negro” (2013). Alguns dos seus textos e poemas foram traduzidos para italiano, francês, alemão, inglês e castelhano, tendo participado ainda na colecção “Poesia e Crítica Portugesa e Brasileira Contemporâneas”, em 2014.

Actualmente, está a preparar uma antologia de poemas seus para o Brasil, “O Tempo Exacto” (Ed. Jaguatirica, Rio de Janeiro) e a trabalhar na obra “Palavra de Poesia”, um volume de textos críticos que escreveu nos últimos 15 anos sobre poetas portugueses e brasileiros, depois de já ter publicado um primeiro volume, “Nos Passos da Poesia – A Pedagogia do Texto Lírico”, em 2005.

António Carlos Cortez é investigador no Centro de Literaturas de Expressão Portuguesa na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (CLEPUL) e no Instituto de Estudos do Modernismo da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Representou Portugal nas duas primeiras edições dos Encontros de Escritores de Língua Portuguesa em Natal (Brasil), em 2010 e 2011.

Em 2012, ministrou um curso sobre Poesia Portuguesa Contemporânea na Universidade Federal Fluminense, sob a coordenação da professora Ida Alves e do poeta Nuno Júdice. Neste momento, Cortez prepara um doutoramento em Literatura Portuguesa Contemporânea sobre a poesia de Gastão Cruz.

15 PAÍSES, 15 POETAS 


Além do poeta português, participam na Primavera dos Poetas quinze autores vindos de outros tantos países: Charles Ducal (Bélgica), Haydar Ergülen (Turquia), Ales Debeljak (Eslovénia), Edith Azam (França), David Castillo (Espanha/Catalunha), Julia Copus (Reino Unido), Milo de Angelis (Itália), Gaia Grandin (Suíça), Judith Herzberg (Holanda), Janos Lackfi (Hungria), Sophie Reyer (Áustria), Arvis Viguls (letónia) e Ilona Witkowska (Polónia).

O Luxemburgo vai estar representado pelo poeta Tom Nisse, que vive em Bruxelas. No primeiro dia do evento (uma sexta-feira), os poetas vão visitar vários liceus para apresentarem o seu trabalho aos alunos. Este ano, associaram-se à Primavera dos Poetas o Lycée des Garçons e o Liceu Aline Mayrisch, na capital, os liceus Hubert Clément e Técnico, de Esch-sur-Alzette, o Liceu Atert, de Rédange, e a Escola Europeia.

Como já é tradição, a abertura oficial acontece na Kulturfabrik, em Esch-sur-Alzette, pelas 19h.

TRÊS DIAS DEDICADOS À POESIA 

A Grande Noite da Poesia acontece a 25 de Abril, no segundo dia do evento, na Abadia Neimënster, no Grund, a partir das 19h30, novamente na presença de todos os autores.

Nessa noite vão estar também presentes os laureados do 4° Concurso dos Jovens Poetas, os três finalistas de cada uma das duas categorias em competição (menores e maiores de 15 anos). Dezenas de jovens do Grão-Ducado participaram, por iniciativa dos professores ou a título individual, e os nomes dos vencedores serão anunciados a 21 de Abril.

A noite fecha com uma “jam session”, poesia à mistura com música. A fechar o evento, dia 26 de Abril (um domingo), a “Primavera” viaja até à galeria Simoncini, na capital, para um ’brunch’ poético, entre as 11h e as 13h.

A Primavera dos Poetas conta com o apoio do Ministério da Cultura e da Educação do Luxemburgo e das Embaixadas dos países participantes (no caso português, o Instituto Camões). A entrada é livre nas três sessões. Mais informações no portal do evento (www.prinpolux.luwww.prinpolux.lu).

José Luís Correia
in CONTACTO, 01/04/2015

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

tu és a minha nascente e a minha foz, venho de ti e para ti desaguo

"Tu 

és a minha nascente

e a minha foz, 

venho de ti 

e para ti 

desaguo."



JLC19092012

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Ce jeudi, je lis mes poèmes ici


Hoje em Bonnevoie

"Os jogos da vida" é o tema do próximo sarau "Mil Folhas"


O próximo sarau literário "Millefeuilles" ("Mil Folhas") tem lugar esta, quinta-feira, no Club Sénior de Bonnevoie, na cidade do Luxemburgo (n°26, rue du Dernier Sol), às 20h,

Leitura pública por amadores de textos de prosa ou poesia, em qualquer língua (uma versão em francês ou inglês dos textos deve ser fornecida pela organização ou pelo autor), música, dança e convívio entre pessoas de várias nacionalidades, é o que o evento propõe. O tema de amanhã é "Os jogos da vida".

O sarau é organizado nas segundas quintas-feiras do mês pela Casa das Associações, a Confederação da Comunidade Portuguesa no Luxemburgo (CCPL), o Instituto Cultural Luxemburguês-Peruano e o African Women Movement. Iniciado em 2010, o sarau já contou com intervenções em francês, português, luxemburguês, alemão, creolo cabo-verdiano, senegalês, espanhol, catalão, inglês e albanês, entre outras.

Para participar no próximo sarau literário, basta enviar o texto que pretende apresentar por e-mail ( soireeslitteraires@gmail.com ). Mais informações pelo tel. 26 68 31 09 ou 29 00 75.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Perfeitos imperfeitos


PERFEITOS IMPERFEITOS


Capítulo I - Iniciação 

Uma rosa serôdia num terminal de aeroporto,
os aviões aterrando e nós descolando.

O teu vestido azul com um facho na noite,
um beijo roubado e as luzes intermitentes
da auto-estrada no teu rosto constante.

O teu perfume por mim acima
as minhas mãos em desassossego
mas sem medo procurando as tuas.

Os barulhos da cidade finalmente ao longe
absorvidos pela tranquilidade da serra,
a terra prometida, a noite desejada porque a desejámos.


Sintra à beira serra, à beira beijo,
Baía de Cascais, devaneio à beira Tejo.
Cheguei ao meu porto de abrigo e tu ao teu ancoradouro amigo.

E desde o Monte da Lua e do promontório do esteiro
lançámos sonhos ao céu e ao mar com espuma de infinito.


O nosso amor consumado num acto de fé.


Capítulo II - Benção 


Meu amor, venho de longe só para te dizer
que o vento mudou
e que tens de esquecer.

O futuro não pode ser refém
da perfeição, da ilusão
nem do que já passou.

Serás a minha odalisca arisca
e eu o teu beduino de olhos em amêndoa.
Se quiseres.

Serás a minha princesa mourisca
de olhos tristes e coração de leoa.
Se me quiseres.

Não tenho tesouros nem palácios de marfim
mas quero-te no meu harém de ninguém
de púrpura e carmim.

Vem, deixa-me beijar a tua cicatriz
e lamber as tuas feridas
diz-me que desfiz
os teus pesadelos e as promessas traídas
e todo o desengano insano.

Que nada agora te acanhe
minha rosa champanhe
minha Coco Chanel, minha Maria Rapaz
minha Mónica fogosa e audaz
minha poesia, minha prosa,
minha literatura
minha alma velha, minha centelha
meu relâmpago, meu trovão 
minha pimenta, meu açafrão
meu gengibre e meu anis
minha flor dos Cárpatos
minha princesa etérea, minha alma pura,
não me digas que estamos a ser insensatos,
não sejas perfeita, sê feliz!


III - Oração

Sejamos perfeitos imperfeitos,
sem condicionais. E desejemos mais,
desejemos tudo, só tudo pode ser o desejo.
E para além de todos os tempos verbais
sejamos mais que perfeitos!



Capítulo IV - Consagração

És raio de sol
que atravessou o meu caminho,
luz que iluminou a minha vida.
Detive-me e disfrutei
do teu calor no meu rosto e no meu peito.

És clarão na noite escura, na minha noite,
como a gota de chuva se enche de amor
antes de se lançar dos céus para dar vida a um torrão de terra.

És a fragrância fresca nas minhas manhãs, legado delicado
e diafano, como um sopro de vida a acordar-me.
Como pode um raio de luz ter-se extraviado
e agora encontrar-me?

Como pode o teu abraço ser o meu arpejo,
como pode o teu olhar entender-me assim,
como podem os teus lábios terem o desenho do meu beijo
como posso ter tanta sede de ti?

Deus, como tenho sede.

E tu, que devias ser água, és oceano.
Devias ser luz, mas és sol.
Devias ser calor, mas és fogo.
Devias ser sexo, mas és amor.
Devias ser gozo, mas és êxtase.
Devias ser grito, mas és libertação.
Devias ser mito, mas és fé.
Devias ser salto, mas és voo.
Devias ser tontura, mas és queda.
Devias ser vertigem, mas és viagem.
Devias ser o universo todo. E somos.

Como podem os nossos sonhos e as nossas almas
ter-se misturado no infinito
há tantos séculos atrás e os nossos corpos
somente agora no tempo finito deste delito?


Capítulo V - Sacramento

És manhãs de amor e tardes de calor,
horas de desatino, lençóis em desalinho,
noites estreladas, e todas as minhas madrugadas.

És os meus dias e as minhas horas
os meus minutos e os meus segundos
e toda a mecânica do meu coração.

As minhas mãos nos teus seios cheios
o teu rosto em mim
os teus cabelos na cascata da minha boca
quando me olhas assim
as tuas coxas e as tuas pernas cerceando-me sem dano
as tuas costas arqueadas numa alegre semifusa
as tuas gotas de suor num arco-íris profano
e nesse instante supremo quero lá saber da hipotenusa
e até a gramática fica à míngua
quando a duna da tua barriga toca na minha língua
é só o teu esforço no meu
o teu cansaço no meu
e tudo o mais que faço
é no teu regaço, arregaço, amasso, desfaço, trespasso, refaço.

Descanso.
Descansa.

E és finalmente todo o teu corpo a desaguar no meu
como se a tua foz fosse a minha garganta
e o meu peito a tua esperança.

Desagua nos meus braços
e dança na minha boca
segura-te aos meus flancos
escorre pelas minhas margens
como a força das marés.

Que a lua grave
desta atracção nada sabe
nem o teorema de Newton
compreende esta lei.

Um rio não se engana a caminho do mar,
então porque hás-de tu?



Capítulo VI - Comunhão

Acto de fé, auto-de-fé
combustão espontânea dos corpos
e das nossas bocas em rota de colisão
tsunami dos nossos sentidos
e dos nossos sexos comungando a ânsia.

Seja feita à nossa vontade!

E dizendo isto ergueu a taça enrugada aos céus
e disse:  "Esta é a minha vida,
que hei-de derramar em ti e por ti
para salvação do nosso pecado".

E a penitente obediente ajoelhou-se
e aceitou a vida na sua boca e no seu peito.

Depois, pegando novamente no seu cálice,
levantou-o ao alto e fazendo isto disse:
"Este é o meu corpo, que repouso em ti
e no teu coração, para glória do nosso Amor".

E a penitente finalmente sorriu
e beberam os dois do veneno antigo.

Seja feita à nossa vontade!



Capítulo VII - Apocalipse


Einstein tinha razão:
o tempo dilata quando estou longe de ti.



JLC28082012

Comunhão

Acto de fé, auto-de-fé
combustão espontânea dos corpos
e das nossas bocas em rota de colisão
tsunami dos nossos sentidos
e dos nossos sexos comungando a ânsia.

Seja feita à nossa vontade!

E dizendo isto ergueu a taça enrugada aos céus e disse:
"Esta é a minha vida, que hei-de derramar em ti e por ti
para salvação do nosso pecado".

E a penitente obediente ajoelhou-se
e aceitou a vida na sua boca e no seu peito.

Depois, pegando novamente no seu cálice, levantou-o ao alto
e fazendo isto disse: "Este é o meu corpo, que repouso em ti
e no teu coração, para glória do nosso Amor".

E a penitente finalmente sorriu e beberam os dois do veneno antigo.

Seja feita à nossa vontade!

JLC13082012


sexta-feira, 24 de agosto de 2012

POEMA DOS HERÓIS


Poema dos Heróis

Eu era um índio,
vestia uma velha serrapilheira
na qual a minha mãe tinha cortado franjas
e colado fitas coloridas,
calçava as pantufas da minha tia
a fazer de mocassins 
e elas punham-me riscas de batom no rosto
a imitar pinturas de guerra
para eu lutar contra o Batman e o Zorro.

Também eu queria resgatar a fada e a princesa
mas elas não queriam.
O Batman e o Zorro ganhavam sempre.
Pum, pum, pum e eu tinha que morrer
mesmo se não me apetecesse.
Como pode o vilão ser tão bem mandado?

Eu preferia fumar o cachimbo da paz,
escolher penas de águia para enfeitar o cabelo
e partilhar o lanche com a minha squaw
debaixo da carteira da professora imitando o tipi.

Mas a Anita soltava um gritinho
e fugia esconder-se atrás do Osvaldo ou do Bruno.
Como pode uma princesa preferir um herói
vestido de morcego ou de raposa ?

No ano seguinte fiz uma birra
e quis um coldre, um colete,
uma estrela, um chapéu de cobói
e uma pistola que dava estalidos e tudo.

Mas a princesa veio de Pocahontas
e as setas do Gerónimo
vieram colar-se à testa do xerife mau.

JLC05052012

quarta-feira, 18 de julho de 2012

l'ennuie

le désir de vie m'ennuie,
l'ivresse des moments m'étouffe,
je ne suis ni le bateau ni le rivage
mais la rivière et je mes sens couler malgré moi
vers un immense destin certain qui m'engloutira
et je ne serais plus rivière ni fleuve ni rien
je hais la destinée, la mer, les nuages, la terre,
ce cycle inévitable, je fais du surplace
et n'arrive pas à m'arracher de mon lit,
à m'évaporer vers d'autres cieux,
à me laisser emporter par d'autres vents,
à me laisser dégouliner dans d'autres gueules,
à me laisser boire par d'autres gorges
je voudrais me tranformer en veines
et en sang et marcher et courir et m'enfuir

JLC

A banda original sonora da minha vida

A banda original sonora da minha vida está riscada
passo como um fantasma por ela
como se apenas a assombrasse
como se apenas tivesse dela
o ténue e translúcido retrato
que deixam os dedos suados
numa vidraça entre dois mundos indistintos.

Turista de universos paralelos
passageiro da vida
como se observasse tudo de outro lugar.

Devolveram-me o rascunho.
Desenha outro!, ordenaram-me.
Mas eu fiz birra, disse que já não queria, era o que faltava!
Desatei aos pontapés com a vida
e com um revés de mão violento
varri do estirador a minha dor
e todos os meus papéis certinhos
misturei o passado ao futuro
porque já não tenho, não estou nem sou presente.

Tinha saudades do que podia ser
procurava incansavelmente o círculo que não existe.
Tudo é apenas alucinação, vertigem
e eu caí na espiral, na miragem.

Preciso escapar de mim mesmo
para sair ileso daqui.
A vida é um caminho
que não vai dar a lugar nenhum

(...)

JLC

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Poema: "Os meus pais"

Os meus pais 



Ele falava francês há bem mais tempo do que ela,
mas foi ela que me ensinou o pouco que conhecia
antes de eu ir pra escola, um dia. 
Mas uma coisa os dois fizeram questão, 
que eu e o meu irmão 
soubéssemos, bem antes dos dez, 
a falar e a escrever, pelo menos, português. 
Ela não me falou dos livros que leu
porque nunca tinha lido nenhum. 
Cresci numa casa onde os primeiros livros foram os meus.
Ela dizia-me: « Sou uma ‘Alfabeta’, 
mas tu, tens de comer o Nestum, 
aprender a ler e a escrever, 
é isso que tens de fazer, 
para arranjares mais tarde um bom emprego ». 
Ele? Ele sabia ler bem, mas nem em segredo
me falou do que tinha lido
e do que recitava de ouvido.
Ela gostava de me ver a mexer nos legos,
nos carrinhos e nos livros, 
mas se eu saísse, sem pedir, para jogar à bola com os colegas
levava logo com castigos. 
Ela quis mostrar-me como se cozinhava, costurava, faxinava
e lavava a loiça, o que até é uma coisa bem prática, 
mas só obrigado eu participava. 
Ele era bom na matemática
mas eu não percebia nada. 
Ele quis transmitir-me o nome das ferramentas de carpinteiro, 
que era o ofício que tinha aprendido, 
mas eu não me interessava pela arte de marceneiro
e ele ficava triste e aborrecido. 
Para ser totalmente sincero, houve uma coisa que ele me ensinou: 
a História de Portugal e isso ficou. 
Explicavam-me muitas vezes que não havia dinheiro
para comprar todos os brinquedos que eu queria,
eu parava o berreiro 
e fazia que percebia. 
Ela dizia-me para eu parar de ser chato,
para comer a sopa toda do prato
porque havia meninos pobres que queriam e não tinham.
Ele? Ele não dizia nada, dava-me um tabefe e tefe-tefe 
eu metia a mistela à boca, mesmo já fria, 
continha as lágrimas e planeava uma táctica 
para ser presidente um dia 
e plantar espinafres em toda a África. 
Ela contou-me como se tinham conhecido em Paris, 
como se tinham casado, 
mas não como se tinham amado. 
Disse-me que uma vez se tinha apaixonado, 
mas não me disse se tinha sido por ele. 
Não li nada sobre Sócrates, Platão ou Filosofia 
antes de chegar aos bancos da escola. 
Eles não me falaram de Napoleão, de Rousseau,
nem de Voltaire ou Waterloo, 
excepto do dos Abba, que era uma canção muito boa. 
Não me falaram de Camilo, de Eça, de Antero ou de Pessoa
mas ele conhecia algumas rimas do Aleixo 
e d’« Este livro que vos deixo ». 
Disse-me também que se lembrou da Cartilha de João de Deus
enquanto atravessava a pé os Pirinéus. 
Sem saber que não era o mesmo João, ela contava-me mais, 
que tinha sido um santo, que nasceu na terra dela e criou os hospitais. 
Eu perguntava mais, mas ele lembrava-se pouco de Maio de 68, 
só que os jovens bloquearam as ruas todas uma noite 
e não o deixaram ir trabalhar. 
Não me disseram que era importante votar, 
mas eu fui, e eles acharam bem.
E começaram a votar também. 
Conheciam muitas histórias que falavam da PIDE e da ditadura
mas nada sobre como fugir aos impostos. 
No tempo deles não havia Coca-Cola, só bebiam Pirolito e Sumol. 
Lembravam-se da censura,
de passar fome, do trabalho de sol a sol, 
ela, sob a chuva, nas herdades,
ele, no mar, debaixo de tempestades. 
Ele não foi à tropa, mas ela foi madrinha de guerra. 
Ele dizia-se comunista mesmo quando já não estava na berra, 
mas não sabia quem fora Lenine nem o tsar. 
Ela? Ela não falava de política, só não gostava do Salazar. 
Nunca foram ao Louvre, mas viam muitos filmes franceses, 
dos que nunca tinham passado nem em Montemor nem em Faro.
Diziam que o de Gaulle era um bom presidente. E os gauleses ?
Deviam ser apenas cigarros! Aí, ela interrompia, e dizia-me que a droga
era perigosa, e ele acrescentava « E o tabaco muito caro ». 
Ele contou-me do mundo antes da televisão: 
quando era jovem era, às vezes, folgazão, 
ao fim-de-semana ia ao baile 
ou ao cinema nas salas da sociedade. 
Ele gostava de ver cobóis, ela os filmes do Calvário e da Madalena, 
não tinham discos nem cassetes, mas conheciam a cantilena 
dos ranchos, das modas, do ié-ié e até dos Beatles. 
Não me disseram como fazer com as raparigas: 
ele disse-me apenas para ter cuidado com o dinheiro
e ela para não as fazer sofrer e não ser um pantomineiro. 
Levei uns açoites, umas estaladas
e umas valentes bofetadas, 
mas sei que fui amado, com certeza, muito. 
Ela dizia-o com beijos, abraços e mimos. 
Ele? Ele não o mostrava, não sabia como mostrar. 
Não havia nada que eu devesse ter feito, 
excepto, talvez, a Universidade. 
Ela queria que eu fosse bancário ou professor, 
ele apenas que eu ganhasse o meu dinheiro. 
Não havia nada que eu não devesse ter sido, 
excepto, talvez, jornalista ou escritor. 
Não me disseram nada sobre os novos ricos
nem sobre os esquerdistas, os anárquicos,
os socialistas, os nacionalistas. Não eram dessa rês. 
Eu não era filho da esquerda nem da direita,
era filho dos meus pais, do meu país e de 1973. 
Falávamos pouco sobre religião, mas muito sobre fé
que, disse-me ela, é sempre uma opção,
mas logo a seguir obrigou-me a fazer a Primeira Comunhão. 
Não me falaram dos árabes nem de Maomé, 
não me falaram dos chineses (ainda não havia chineses!), 
mas dos belgas, dos alemães e dos luxemburgueses. 
« Nós somos católicos », incutiram-me, 
mas não souberam explicar-me 
o que nos diferenciava dos judeus, 
e disseram-me que todos, até os negros e os ciganos,
                                                              são filhos de deus.
Deram-me um certo modelo moral, 
uma certa força vital 
– ou melhor –, a força vital certa, 
um certo sentido da vida, uma educação normal, 
uma mente aberta. 
Os meus pais. 



JLC 20052012
(inspirado livremente da canção « France Culture », de Arnaud Fleurent-Didier, do álbum « La reproduction », 2010)

domingo, 28 de fevereiro de 2010

geografia físico-química

CORPO CADENTE

Daqui desta nascente
que é o princípio e o fim de tudo
o alfa e o ómega dos meus sorrisos e do meu sopro
ponto cardeal que me guia e desnorteia
rosa-dos-ventos dos meus sentidos
rosa que desabrocha quando a beijo com a boca
onde sorvo o orvalho doce da manhã que nasce

Vejo matas mansas, dunas erguidas, colinas oprimidas, vulcões em convulsão
e rios desenfreados procurando o mar na minha mão
avisto terras prometidas e rotas de sedas e especiarias
equadores e hemisférios e os paralelos do teu corpo
latitudes latentes que aguardam os meus gestos

E as estrelas eclipsando velhos mundos mortos
a via láctea deleitando-se na almofada branca
as clepsidras segurando o tempo infinito
e tu nos meus braços, encorajando o meu rosto.

Todo o céu se abre num estrondoso vacarme
e o mar desencadeado quer levar-me
sem que eu peça

Para onde tudo acaba e sempre recomeça.

José Luís Correia

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Viviane: "Cavalo à Solta" ( + 1 de Ary dos Santos)



Viviane também foi convidada para participar em Rua da Saudade com uma brilhante interpretação de "Cavalo à Solta". Uma das melhores vozes deste álbum-homenagem a Ary dos Santos e uma das canções mais belas que o grande poeta nos deixou.

Minha laranja amarga e doce
meu poema
feito de gomos de saudade
minha pena
pesada e leve
secreta e pura
minha passagem para o breve, breve
instante da loucura

Minha ousadia
meu galope
minha rédea
meu potro doido
minha chama
minha réstia
de luz intensa
de voz aberta
minha denúncia do que pensa
do que sente a gente certa

Em ti respiro
em ti eu provo
por ti consigo
esta força que de novo
em ti persigo
em ti percorro
cavalo à solta
pela margem do teu corpo

Minha alegria
minha amargura
minha coragem de correr contra a ternura.

Por isso digo
canção castigo
amêndoa travo corpo alma amante amigo
por isso canto
por isso digo
alpendre casa cama arca do meu trigo

Meu desafio
minha aventura
minha coragem de correr contra a ternura

sábado, 24 de outubro de 2009

Um dos poemas preferidos do meu conterrâneo António Ramos Rosa

"Não posso adiar o coração"

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração.


António Ramos Rosa,
(in Obra Poética, vol. 1, 1974)


E a forma fabulosa como o projecto Linha da Frente musicou em 2002 o poema ainda o sublimou mais:

sexta-feira, 12 de junho de 2009

horas mândrias

horas mândrias

férias, D-7
mais um dossier, mais um mail, mais um frete
mil papéis, mil babéis,
na minha secretária se amontoam,
me atordoam

Nestas horas vespertinas
seduzem-me as nuvens anilinas
lambo a vidraça do meu
aquário côncavo, anatemático,
observo o mundo a acontecer lá fora, sorumbático
resta-me apenas riscar o muro do meu escritório
frustrante, castrante, exíguo consistório

Eu quero é sábados
feriados

eu quero é férias
um exílio, nem que seja nas sortérias
quero um fim-de-semana de nove dias
sem correrias nem atrofias
o que eu quero são dez anos sabáticos

estáticos, socráticos
numa ilha perdida, cândida
da nova zelândia

Weytjens 13.06.09

quarta-feira, 29 de abril de 2009

QUERO

quero desfazer os teus cabelos de ouro e âmbar
por sobre os teus tímidos seios de renda e cetim
forrar o teu peito sedento dos meus beijos molhados
explorar com os meus dedos o teu corpo de baunilha e jasmim

quero que te deites nas minhas mãos
e lamber o sal do teu corpo até à última gota de suor
devorar a tua língua e os teus lábios de menina
mergulhar os teus olhos de desejo no meu ventre em fogo
descobrir no eixo dos teus quadris
a nascente da tua vontade
onde tudo nasce e sempre recomeça
e desaguar nesse rio louco até ao teu coração

quero penetrar-te docemente como um pôr-do-sol
que fende o mar em fogo e se deixa fecundar pela luz
como labaredas a derramarem-se por todo um oceano
quero morder os teus ombros alvos de tanto te querer
em mim.
quero que as tuas unhas desenhem a minha pele porque sou teu
quero pegar em ti e elevar-te até ao mais alto altar do meu ser
e no momento final
deixar-te dançar nos meus braços e no meu colo
e oferecer-te a minha alma nua como a nenhuma outra mulher.

JLC210209

sábado, 22 de novembro de 2008

As primeiras neves e o bailado cadente


Cairam as primeiras neves do Inverno. Hoje quando acordei, da janela do meu quarto via todo o Bambësch, o Limpertsberg e a encosta de Eich polvilhados de branco. Senti um sabor doce de Natal antes da época, um gosto a vinho quente com canela no céu da boca, os sinos de Weimerskirch badalavam Kirchberg acima e as luzes dos candeeiros públicos apagavam-se para deixar a manhã nascer branca e serena.

Gosto de sentir a neve a estalar debaixo dos meus pés, do frio a cocegar o nariz, do cheiro do cachecol novo, de ouvir o riso das crianças quando escorregam com os trenós, fazem batalhas de bolas de neve ou correm a moldar no barro branco bonecos de neve com narizes de cenoura.

Mas prefiro ainda quando estou do lado de cá da vidraça, de observar o lento bailado cadente dos flocos dançando, das minhas mãos buscando o reconforto em volta da chávena de leite com chocolate fumante, dos biscoitos de anis, das tuas madeixas loiras no meu peito, do teu sono de anjo sobre o meu corpo no sofá vermelho de todos os nossos pecados.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Tempête

Tempête

Un crépuscule de juillet. Il pleut comme à la fin du monde.

J’expérimente les eaux et le froid sur mon corps.

De petites mers se déversent en de grandes gorgées dans le caniveau,

le vent fuit les impasses, le tonnerre traverse le ciel hanté et moi ma vie.

Si tu étais ici maintenant, me sentirais-je plus heureux ?

Si tu m’enlaçais en cette heure, aurais-je encore peur ?

Le ciel impénétrable oublie le monde trempé…

Et toi, où es-tu ? Enroulée dans ton gilet en laine, lisant mon livre, à la lumière de l’abat-jour ? As-tu déjà écouté l’eau ?

L’océan s’ouvre à l’envers et chaque goutte cherche le sol comme le salut,

têtes penchées les arbres nettoient lourdement leur visage sur l’asphalte,

des silhouettes dans la pénombre passent comme des fantômes à mes pieds.

Sans défense sous la pluie, le vent cherche mon échine,

la voûte céleste se déchire

sur mes tempes, chaque goutte qui m’atteint à quelle vitesse tombe-t-elle,

à quelle vitesse explose-t-elle sur ma peau ?

La douleur, après le cri. Le nef céleste se tord en convulsion,

une clarté fugace rompt l’arc. Ce n’est pas Dieu agacé,

ne sont pas les nuages qui se déchargent, ce n’est pas le cycle se perpétuant.

C’est le ciel voulant se voir, comme Narcisse, au miroir.

Moi aussi, j’ai découvert le chemin me menant vers toi.

Je ne me suis tout simplement pas encore décidé à le prendre.


JLC/07.2003

Jihad

Jihad

Les pointes des étoiles brûlent la lune rouge qui croît
Le ciel en feu griffe le visage bleu
d'Orient arrivent de nouveaux rois mages du mot,
mais tout ce qui brille n'est pas d'or.
J'entends le vacarme des batailles qui ont commencé
quand les eaux du déluge n'avaient même pas encore séché
les terres. Aujourd'hui, c'est le sang qui ne séche plus.

Et moi, apeuré par les nouvelles invasions barbares
et les promesses vides que le crépuscule renferme
je me cache derrière la croix d'or indigo, j'assiste aux fous sans dire mot
et ils me poussent vers l'abîme.
La caravane impassible passe, pendant que les chiens n'aboient pas,
se préparent. Je sens l'odeur du désert.
Je suis assoiffée de mandarines d'argent, d'ivoire,
de cannelle, de menthe psychotique et de safran.

Avec mes bagages je dégringole
les escaliers de l'hotel
mes burnes bourrés à rabord.
Je comprends enfin que l'enfant est otage de la perfection,
que la sérénité et la clareté de l'impasse sombre,
que sont l'idéalisme dogmatique et acnéique,
dépendent uniquement de l'égotisme, de la tolérance
et de la lutte qui doit toujours commencer du dedans
avec ma propre jihad.

Ce n'est ni une faute, ni un recul.
C'est prendre de l'élan, un horizon plus grand,
pour sauter plus loin.

Socrates pointe son nez à ma porte
et répète qu'il ne sait rien sur rien.
Je regarde ma montre de éon
les flèches de l'Halocène clignotent
la brise du matin retarde ses ailes.
La nuit grise et brumeuse va encore s'attarder.

AGW aka JLC 140807

Bullet proof

Bullet proof

Quand je ferme les yeux

la douleur disparaît

le bruit s’éteint

le monde se tait

j’oublis le corps immonde


je ne vois plus le cratère noir et nauséabond que la balle à laissé sur ma poitrine

le trou putride sur ma nuque par ou on m’a arraché le cœur

les images sordides ne me tourmentent plus le cerveau en décomposition

les vils instants ne grouillent plus sur mes paupières comme des insectes dégueulasses

l’abject venin ne m’immobilise plus le sang souillé dans mes artères


je m’étends sur le drap blanc sur la table de la cuisine

à sang froid, je rebrousse ma peau, je tire les veines,

j’extrait tout le poison qui reste dans les blessures encore ouvertes

dans la bassine le sang averse et haineux dégouline en pus perfide


je secoue l’enveloppe maculée

je l’expose à la lumière du jour

je prends une aguille d’argent

et je recous les trous béants

le corps purifié et prêt

pour d’autres


et si je fermais les yeux à cette vitesse

maintenant sur l’autoroute ?

ni même mil hordes d’anges en furie

accrochés à mes bras

ne me sauverait de moi-même !


AGW aka JLC 140807