sebenta de anotações esparsas, pensamentos ociosos, reflexões cadentes, poemas difusos, introspecções de uma filosofia mais ou menos opaca dos meus dias (ou + reminiscências melómanas, translúcidas, intra e extra-sensoriais, erógenas, esquizofrénicas ou obsessivas dos meus dias)
-
cahier de notes éparses, pensées oisives, réflexions filantes, poèmes diffus, introspections d'une philosophie plus ou moins opaque de mes journées (ou + de réminiscences mélomanes, translucides, intra-sensorielles et extra-sensorielles, érogènes, schizophrènes ou obsessionnelles de mes journées)

Mostrar mensagens com a etiqueta artes. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta artes. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Entrevista: "O que existe hoje na Rússia são novas formas de feudalismo e de fascismo"

Por José Luís Correia - Maxim Kantor é um artista plástico e dissidente russo. Pintor, escultor, escritor, dramaturgo, filósofo, pensador, mostra-se bastante crítico do “putinismo”, que acusa de favorecer o feudalismo e o fascismo no país. Em França lançou este ano oromance “Feu Rouge” (“Red Light”, em inglês). No Luxemburgo, a sua mostra de pintura “Le nouveau bestiaire” esteve recentemente exposta na Abadia de Neumünster, no Grund.

Maxim Kantor Foto: Alain PIron


(...)
Leia o artigo, na íntegra, na edição do jornal Contacto desta quarta-feira.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Le Monde designa artista chinês Ai Weiwei como personalidade de 2011

O jornal francês Le Monde elegeu hoje o artista dissidente chinês Ai Weiwei a personalidade de 2011, num ano em que os protagonistas foram “as revoltas”.

O Le Monde destacou que mais do que ser uma “estrela da arte contemporânea, como Damien Hirst, Jeff Koons ou Maurizio Cattelan”, o artista chinês converteu-se no “arauto de uma nova dissidência que se expressa, sobretudo, através da Internet”.

“Como os anónimos de Tunis e do Cairo, os ‘indignados’ de Madrid ou Wall Street, Ai Weiwei representa, à sua maneira, lúdica e rebelde, o impulso que leva um homem sem qualidade a converter-se no sujeito da sua própria história”, resumiu o jornal.

O artista chinês realizou este ano uma exposição na Modern Tate de Londres e em abril foi detido quando se preparava para deixar a China, tendo ficado preso durante três meses, o que desencadeou uma onda de indignação e de solidariedade por todo o mundo.

Depois de libertado, foi acusado de fraude fiscal e intimado pelo fisco chinês a pagar 1,7 milhões de euros, mas conseguiu recorrer pagando cerca de metade do valor através de milhares de doações. O artista tem afirmado que o imposto foi uma forma de o silenciar.

Em outubro, Ai Weiwei, 54 anos, foi eleito a personalidade do ano mais influente do mundo da arte pela revista britânica Art Review.

Em 2010, o Le Monde elegeu o australiano Julian Assange, fundador do portal Wikileaks, como figura do ano. Um ano antes, em 2009, foi o ex-presidente do Brasil Luiz Inácio Lula da Silva quem inaugurou a distinção anual do diário francês.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Deolinda ou "quando o fado é cantado a rir"

Ana Bacalhau entra em palco com o seu vestido rosa choque, com folhos e rendilhados, cabelo apanhado, brincos grandes, ar gingão, sorriso aberto e generoso. Os que que só conhecem as canções de as ouvir passar na rádio confundem Ana Bacalhau com Deolinda, mas o projecto é um quarteto composto pelos seus primos – os irmãos Pedro Silva Martins (viola) e Luís José Martins (viola) –, e o seu marido, Zé Pedro Leitão (contrabaixo).

Para o concerto de estreia no Luxemburgo, a 26 de Outubro, no Centro Opderschmelz, em Dudelange, os Deolinda fizeram viajar o público durante mais de hora e meia pelos seus dois álbuns, com momentos que alternaram entre o espírito mais tradicional do fado e as canções mais marialvas e boémias. Desde "Fado Toninho", dedicado aos machões, a "Mal por Mal", "Canção ao Lado", "Ai Rapaz", e o obrigatório "Fon-Fon-Fon", o público acompanhava os Deolinda com palmas, reconhecendo os sucessos cheios de humor que fizeram a fama da banda.

Ana Bacalhau bamboleia, dança, mete-se com o público, canta com gestos largos de varina e palavras debitadas à pressa, conta histórias de amores, desamores, namoricos e mexericos. Intercala canções dos dois álbuns e o público rende-se a "Um Contra o Outro", sorri com "Não Tenho Mais Razões", diverte-se com o "Fado Notário". Ana Bacalhau consegue mesmo pôr a sala toda a cantar "o maior mastro do mundo é português", na marcha popular "A Problemática Colocação De Um Mastro", no que foi um dos momentos mais hilariantes da noite.

Canções como "Não Sei Falar De Amor", "Há Dias Que Não São Dias" e "Clandestino" revelam o lado mais intimista da banda. E é curiosamente na letra de "Passou Por Mim E Sorriu", uma das canções mais belas do segundo álbum, que os Deolinda revelam a sua essência: para eles "o fado é cantado a rir", como se face ao destino ou às fatalidades da vida, devêssemos apenas... gingar.

O público não os deixa ir sem um "encore", e eles fecham com o divertido "Movimento Perpétuo Associativo", canção que critica a tendência dos portugueses em serem grandiloquentes em palavras e parcos em acções. Na internet, circula aliás uma petição para que a canção substitua "A Portuguesa" como hino nacional. "Porque o tempo dos 'heróis do mar' já lá vai, porque na nação reina o conformismo e não é possível fingir que está tudo bem, acenar a bandeirinha e o cravo, enquanto no dia-a-dia nada fazemos para que as coisas melhorem", lê-se na petição.
Uma iniciativa que também revela que o grande sucesso dos Deolinda reside no facto de cantarem a realidade de forma autocrítica e caricatural, na melhor tradição portuguesa.

No final, os Deolinda prestaram-se com agrado a uma sessão de autógrafos e conversa com os muitos fãs que os tinham vindo ver. Mercê de uma agenda muito carregada, foi a caminho da Holanda que responderam, via e-mail, às perguntas do nosso jornal.CONTACTO: Como surgiu o convite para vir ao Luxemburgo?
Deolinda: A oportunidade de tocar pela primeira vez no Luxemburgo surgiu através da nossa agência para o Benelux, a World Connection.

C.: Como viveram a vossa estreia no Grão-Ducado?
D.: Com uma enorme expectativa em ver como iria o público reagir. Ficámos muito felizes por ver que a comunidade portuguesa lá estava em peso e por sentir o seu apoio durante e após o concerto (já que costumamos sempre fazer uma pequena sessão de autógrafos após os concertos). Pudemos falar melhor com as pessoas e saber o que tinham achado e sentimos que tínhamos agradado ao público que nos foi ver.

C.: A banda é um projecto em família. Mas, afinal... quem é o pai da Deolinda? E como nasceu?
D.: Provavelmente, o tocarmos juntos era uma ideia que tínhamos desde que começámos a trabalhar a música de uma forma mais profissional. Todos tínhamos outros projectos e só em 2005 é que decidimos finalmente juntar-nos, uma tarde, para experimentar umas músicas que o Pedro havia escrito. Assim foi o início de uma banda, que depois se viria a chamar Deolinda.

C.: Como estão a viver este sucesso repentino, que "deflagrou" assim que lançaram o primeiro tema, "Fon-Fon-Fon", em 2008? Quando é que sentiram que tinham um sucesso entre mãos?
D.: Penso que a primeira vez que percebemos que havia muita gente a conhecer as nossas músicas foi no Festival Sudoeste de 2008. Esse concerto ficará nas nossas memórias como um dos melhores concertos das nossas vidas e aquele em que vimos pela primeira vez as pessoas a cantar em coro canção atrás de canção. No entanto, podemos dizer que sentimos que este sucesso não foi tão repentino quanto isso, na medida em que tivemos de trabalhar muito para que as coisas nos acontecessem. E ainda há muita coisa para fazer e muito caminho a trilhar.

C.: Quando lançaram o projecto Deolinda, que revisita e reinventa o fado e a música portuguesa em geral, a adesão do público foi imediata. Mas houve resistência por parte da indústria discográfica em apostar num novo estilo musical ou mesmo por parte das rádios em passarem as vossas canções?
D.: Da nossa experiência com as outras bandas que tivemos, aquilo que é mais importante é defendermos o nosso projecto e teimarmos naquilo que achamos ser o melhor para o mesmo. Obviamente, no início, tivemos de lutar bastante para convencer algumas pessoas de que tínhamos um projecto válido e com pernas para andar. Mas com bastante trabalho e determinação fomos mostrando que este era um projecto que acreditava em si e que chamava a si muita gente. Nós gostamos de desafios e somos bastante persistentes, por isso, quando nos dizem "Não", não descansamos até ouvirmos um "Sim", ou até provarmos que aquele "Não" estava completamente errado.

C.: O segundo álbum "Dois Selos e Um Carimbo" deixa-nos a impressão de um trabalho mais intimista e introspectivo. Foi a Deolinda que amadureceu ou a Deolinda é uma romântica que se ignora?
D.: Este segundo álbum continua algumas das soluções do "Canção ao Lado", mas, no entanto, também se impõe procurar novos caminhos, novos arranjos para um "ensemble" de duas guitarras, um contrabaixo e voz. Gostamos de experimentar e foi isso que tentámos fazer. O resultado final foi um trabalho mais maduro, mais complexo, mas que sela definitivamente aquilo ao que vimos: na soma dos dois álbuns se encontra a essência da Deolinda.

C.: A digressão que passou pelo Luxemburgo vai levar-vos ainda até onde?
D.: Esta digressão, para além do Luxemburgo, tem-nos levado à Bélgica, à Holanda e ir-nos-á levar ainda à Suécia, Áustria e França.

C.: Um álbum de dois em dois anos, a Deolinda é uma rapariga com genica! Mas é um ritmo para manter, quer dizer, vamos ter direito a novo álbum em 2012? E para quando um regresso ao Luxemburgo?

D.:
Ainda não estamos a pensar gravar novo álbum, o "dois selos e um carimbo" é ainda muito recente e tem muitos palcos a pisar. No entanto, o Pedro tem trazido canções novas e entre um "soundcheck" e outro, lá vamos trabalhando novo material. Quando sentirmos que as canções já nos estão a pedir para serem gravadas, voltaremos ao estúdio.

Quanto ao regresso ao Luxemburgo, pensamos voltar para o ano, se cá nos quiserem, claro está!

Texto:José Luís Correia/JNL
Fotos: Laurent Blum
in CONTACTO, 03.11.2010

terça-feira, 11 de novembro de 2008

CSS, Rockhal, November 16th


Concerto dos CSS-Cansei de ser Sexy, rock alternativo vindo do Brasil, 16 de Novembro, às 20h30, na Rockhal, em Belval.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

8 de Novembro: visita guiada ao Kirchberg


Visita guiada urbanística e arquitectural ao Kirchberg

A Fundação da Arquitectura convida os amadores desta arte a uma visita guiada ao bairro do Kirchberg no próximo dia 8 de Novembro (sábado), às 14h. O itinerário, que dura cerca de duas horas e meia, leva o passageiro a descobrir a evolução urbanística do bairro que nasceu há cerca de 40 anos e os sucessivos complexos arquitecturais que aí se foram instalando.

Inscrições através do e-mail info@kirchbergonline.lu ou pelo tel. 26 43 45 10. A viagem em autocarro parte às 14h da sede da Fundação da Arquitectura, no n°1, rue de l'Aciérie, em Hollerich.

JLC, in Contacto, 05.11.08
Foto: JLC

Electronic Night at the D:qliq - November 8 - Sug(r)cane : 10 years full of joy


Performance de música electrónica de Sug(r)cane (aka Victor "Cut" Ferreira), 8 de Novembro, às 20h, no bar D:qliq (17, rue du St-Esprit), na cidade do Luxemburgo.

O músico português radicado no Luxemburgo Victor Ferreira (autor da banda desenhada "Rabbit Smith & Birdie Brown", publicada no jornal CONTACTO) festeja 10 anos no mundo da música electrónica.


terça-feira, 22 de julho de 2008

26.07.08, 20h00 - Trifolion Echternach: O Fado sensual de Telmo Pires

Telmo Pires, o fadista dos pés descalços

O jovem fadista Telmo Pires actua no Centro Cultural Trifolion de Echternach no sábado, 26 de Julho, às 20h.
O artista costuma apresentar-se de pés descalços no palco, e quem o viu associa-o à postura do toureiro na arena, numa atitude assumidamente sensual e erótica. As suas actuações caracterizam-se por serem verdadeiras performances físicas.
O artista nasceu em Lisboa, e cresceu entre Berlim e Paris, mas foi na Alemanha que começou a carreira artística. Hoje, aos 36 anos, faz parte da nova geração de fadistas portugueses que cantam a canção nacional com paixão e sensualidade, rompendo com o lugar comum do fado triste e melancólico.
As vivências urbanas que foi recolhendo entre Lisboa, Paris e Berlim, as raízes lusitanas que sempre cultivou e as influências dos músicos berlinenses que cruzou produzem um fado único, um "fado ibérico", um "fado-mundo", mesclado de elementos da esfera do jazz, do blues, do tango e do flamenco.
Telmo Pires gravou em 2004 um primeiro trabalho discográfico intitulado "Passos" e, dois anos depois, "Atravez do fado" [SIC], álbum que apresentará no Luxemburgo.

José Luís Correia, in Contacto, 16.07.08

sábado, 19 de julho de 2008

As primeiras compras feitas no Festival da BD de Contern

















Sábado:
Pequeno-almoço na pastelaria Fournée Dorée, em Esch, a tempo de recuperar numa costureira um casaco ao qual tinha mandado refazer as mangas.
Comprar uns ténis novos na Asport onde estão a fazer super-promoções. Almoço: uma mettwurst e uma cerveja; sobremesa: gelado e crepe com chocolate. O dia está parvo, ora chove, ora rompe o sol. Welcome to Luxembourg!
Uma voltinha ao Festival de BD de Contern, hesitei nos pósteres, nas figurinas do Charlie Brown (4 euros cada uma!), decidi-me por duas BD e a Jess por outras duas.
Jantar: no Restaurante Algarve com dois casais amigos.
Night: Festival Blues&Jazz no Grund.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

XV Festival BD de Contern: 19 e 20 Julho

19 e 20 de Julho: 15° Festival de BD em Contern

E se bonecos evadidos de mundos fantásticos ou heróis multicolores de capa ao vento de repente invadissem a sua rua? Pode parecer ficção, mas é o que os habitantes de Contern vivem anualmente, em Julho. E não parecem traumatizados. Antes pelo contrário. O Festival de Banda Desenhada (BD), que acontece pela décima-quinta vez, a 19 e 20 de Julho, rejuvenesce a pacata localidade durante dois dias por ano. Para alegria de grandes e pequenos, dos 7 aos 77 anos, que acorrem ao evento.

Contern (situada a poucos quilómetros a leste da capital) transforma-se em aldeia da nona arte. Durante todo o fim-de-semana, a aldeia é fechada ao trânsito e os visitantes são convidados a deambular a pé entre centena e meia de expositores, cruzando-se com bonecos e heróis de BD, folheando as suas obras preferidas, descobrindo colecções raras, cavaqueando com autores tão conhecidos como Bédu, Daniel Hulet ou Raoul Cauvin, mas também com os luxemburgueses Lucien Czuga, Roger Leiner, Fern Weirich e até o promissor e jovem ND (Andy Genen), de 26 anos. As sessões de autógrafos decorrem no hall desportivo da localidade.

Horários: sábado e domingo, das 10 às 19h. Entrada: 3 euros/adultos; livre para crianças até aos 12 anos. Acesso ao local: em autocarro gratuito desde a gare de Sandweiler. Estacionamento gratuito possível numa pradaria à entrada da aldeia.

JLC, in Contacto, 16.07.08

quinta-feira, 10 de julho de 2008

12 de Julho: Grund / Abadia de Neumünster acolhe Teresa Salgueiro e septeto brasileiro de João Cristal


12 de Julho / Abadia de Neumünster

Teresa Salgueiro
e Septeto João Cristal no Grund

Uma das vozes mais bonitas e inconfundíveis da música portuguesa, Teresa Salgueiro, vocalista dos Madredeus, vai estar sábado, 12 de Julho, às 21h, no adro da Abadia de Neumünster, no Grund, cidade do Luxemburgo, para um concerto intitulado "Você e Eu", acompanhada pelo septeto brasileiro de João Cristal.

Os Madredeus não se resumem a Teresa Salgueiro , mas a banda portuguesa mais famosa do Mundo não teria conseguido com certeza tanta notoriedade sem a espantosa voz de soprano da sua intérprete, e se num dia de 1986 Pedro Ayres Magalhães (que matutava num projecto musicalmente bastante distinto dos Heróis do Mar), Rodrigo Leão e Gabriel Gomes (igualmente fundadores dos Madredeus) não se tivessem cruzado com a jovem Teresa , então com 16 anos e que foi sempre, segundo Pedro Ayres, "a principal inspiração da banda". Após 20 anos no seio dos Madredeus e aproveitando um ano sabático, Teresa Salgueiro lança os seus dois primeiros álbuns a solo, "Você e Eu" (Fevereiro/2007) e "La Serena" (Outubro/2007).

Em "Você e Eu", Teresa aventura-se no chorinho, no samba e na bossa nova. É esse trabalho que vem apresentar ao Luxemburgo, acompanhada pelo septeto de João Cristal, quase dois anos depois e no mesmo local onde actuou com os Madredeus (em 19 de Julho de 2006).

Organizado pela Abadia de Neumünster, o evento conta com o apoio da União-Centro Cooperativo, Associação de Apoio aos Trabalhadores Imigrantes (ASTI) e Instituto Camões.

Os bilhetes custam 28 euros, 12 em tarifa reduzida para jovens com menos de 26 anos. Mais informações e reservas pelo tel. 47 08 95-1 (LuxembourgTicket), tel. 26 20 52-1 (Abadia) ou no site www.luxembourgticket.lu , pela internet.

sábado, 21 de junho de 2008

últimas aquisições

- "José Saramago: a consistência dos sonhos - Cronobiografia", de Fernando Gómez Aguilera (Ed. Caminho, Lisboa, Abril 2008), que o meu amor, conhecendo bem os meus gostos, me trouxe de Portugal, da última vez que lá esteve







- "Evita, Life & Images", uma biografia de Eva Perón assinada por Mario J. Granero (Maizal Ediciones, Buenos Aires, 2003), que um amigo me trouxe como recordação da sua visita à Argentina e à esplendorosa livraria El Ateneo, em Buenos Aires, e que já foi considerada uma das mais belas do mundo pelo diário britânico "The Guardian" (ver post de 19.06.08)








- "Plato and a Platypus Walk into a Bar... Understanding Philosophy Trough Jokes", de Thomas Cathcart e Daniel Klein (Abrams Image, New York, 2007), comprado na livraria britânica da cidade do Luxemburgo "Chapter One", em Merl









- "Le huitième prophète ou Les aventures extraordinaires d'Amros le Celte", de Franz-Olivier Giesbert (Gallimard, 2008), comprado na megastore books&more, em Gasperich








- (aquisição temporária) "La tía Julia y el escribidor", Mario Vargas Llosa (Ed. Seix Barral, Lima, 1977), que encontrei num banco de jardim no parque da cidade. E de imediato percebi que se tratava de um tesouro deixado por um bookcrosser, esses paladinos da leitura que espalham a boa palavra à mão-de-semear daquele que encontrar a obra que tiverem deixado num lugar público para que esta possa ser (re)descoberta e lida pelo seu próximo... leitor. Não sabia que o Luxemburgo fazia parte de uma crossing zone, mas recuperei o livro e quando o terminar, hei-de deixá-lo noutro ponto da cidade, para que possa cumprir a sua missão.



Bons livros e bom fds!

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Fénix renascida

FÉNIX RENASCIDA


Pronto, já acabei de ler a Ler. A nova Ler. O número de Maio de 2008 (n°69), que veio pôr termo a quase dois anos de insustentável jejum. E li que me regalei. À fartazana, mesmo. De fio a pavio. E de pavio a fio. De frente para trás e de trás para a frente. E a fénix renascida que tenho hoje entre as mãos superou todas as minhas expectativas.

Não fiquei, por isso, admirado de constatar, com satisfação, quem estava à frente do projecto: Francisco José Viegas (FJV, na foto), o "Midas" da literatura portuguesa. Tudo o que toca transforma-se em ouro. Não falo dos reles réis, mas do contributo, do valor acrescentado, da mais-valia que se têm revelado ser as iniciativas e projectos de que tem sido autor e padrinho na imprensa e na televisão para promover a literatura portuguesa. É por isso gratificante vê-lo (de novo) ao leme de mais um grande projecto. Diz ele que é um regresso, após ter dirigido a revista entre 1989 e 2000. Infelizmente não conheci essa época FJV da revista.

Apesar de existir desde 1987, descobri a Ler bastante tarde, devo confessar. Em 2001, quando perdido numa livraria, reparei nela a piscar-me o olho. Assim, descaradamente, sem pudor. E eu, que sou dado a estas fraquezas, sucumbi à volúpia. Buscava há muito uma publicação que na minha língua me pudesse transmitir o mesmo prazer que me procuram as deleitosas horas perdidas em que mergulho em apneia num Magazine Littéraire ou numa Lire. E ela ali estava, diante de mim, aguardando apenas que a minha gula voraz se abatesse sobre ela. Tornei-me fã, leitor, assinante, dependente. Infelizmente, em 2001, a regularidade era de apenas quatro números anuais, ao ritmo das estações. Estoicamente, eu ficava à espera que a sazão chegasse e eu pudesse colher delicadamente, de mãos e olhos ávidos, o novo fruto. Para receber a minha dose.

Em 2005, depois dos números de Inverno e de Primavera, era anunciado que a revista se tornaria anual, devido a razões financeiras ou editoriais, ou provavelmente ambas, já não sei bem. Em 2006, saía o número seguinte, e depois disso... silêncio rádio! Até Maio de 2008, em que a revista regressou renovada e reforçada. Em boa hora!

A nova Ler aparece-nos com um design mais moderno e legível, novas rubricas, formato mais largo, papel mais fino, um estilo mais jornalístico, novas colaborações e crónicas, críticas de um maior número de obras, um estatuto editorial redefinido. Tudo para fixar as bases de um edifício há muito periclitante, como só o podia ser um projecto desta natureza num país como Portugal, onde se lê pouco, diz-se. Além do Jornal de Letras, lido por uma imensa minoria, iniciativas que apostam na literatura como as revistas Ler ou Os Meus Livros são jangadas à deriva neste país, neste mundo, que acreditam que a "civilização do livro" (como lhe chama FJV no editorial deste número) está terminada. Ora, o que se verifica hoje em dia é exactamente o contrário. Nunca os leitores foram tantos em Portugal e no mundo, há cada vez mais livros a serem editados, apesar de a literatura representar apenas um terço das publicações. Mas mais do que isso, a revolução tecnológica não decretou a morte do livro, como precocemente anunciado pelos velhos do Restelo, que sempre os há, em todas as épocas. Porque uma coisa não inviabiliza a outra. Como a televisão não substituiu o cinema nem a rádio, nunca o leitor trocará a sensação táctil das páginas de um livro por um ecrã vítreo e frio. Nem que seja pela questão prática do acto de ler, acrescento eu. "Ler um livro é ler um livro", resume FJV.

FJV fala ainda do rebuliço que está a viver o sector editorial português, as compras, as fusões, provando que se investe cada vez mais nos livros em Portugal. Bons projectos e ideias que chegam a contracorrente, a peneira do tempo e os leitores encarregar-se-ão de subscrever uns e amuarem com outros.
FJV não esquece de evocar o Acordo Ortográfico, que ainda muita tinta vai fazer correr.

O que me agradou no número 69 da Ler :

- a visita às livrarias mais belas do Mundo, segundo uma eleição efectuada recentemente pelo diário britânico The Guardian, e em que a Livraria Lello (página oficial: aqui), do Porto, figura entre as três primeiras, apenas atrás da Boekhandel Selexyz Dominicanen, de Maastricht, na Holanda, e da argentina El Ateneo, em Buenos Aires.
- as crónicas de novos colaboradores como José Eduardo Águalusa, Pedro Mexia, Jorge Reis-Sá, Eduardo Pitta, Inês Pedrosa, e verificar que os bons que lá estavam ainda ficaram, como Onésimo Teotónio de Almeida
- a boa ideia de publicar os tops de venda de várias livrarias do país, sem se confinar a Lisboa e ao Porto
- a excelente entrevista a António Lobo Antunes, esse "homem-continente"
- a entrevista ao ex-banqueiro Paulo Teixeira Pinto sobre a aquisição da Guimarães Editores
- a conversa e visita ao refúgio do poeta e tradutor Pedro Tamen
- os mini-textos sobre os 50 autores mais influentes do século XX e o que aprendemos com eles
- saber do livro do Bernard Pivot e que "As Benevolentes" de Jonathan Littel, esse mastodonte incontornável escrito por um americano directamente em francês e que levei seis meses a ler (entre Setembro de 2006 e Março de 2007) foi finalmente traduzido para português
- saber que o Pedro Paixão tem um novo romance;
- cinco estrelas para as novas rubricas: Excertos de uma obra; e Ponto Final, entrevista-minuta da última página.

Satisfaz-me sobretudo ver que a Ler não se acantona no reduto intelectualóide dos livros e que compreendeu que há um mundo em volta destes, que os influencia, e vice-versa. Por isso, gostei de ver como tratam de obras que não se reduzem à literatura pura e dura e as novas colunas sobre vinhos & restaurantes e os lugares para ler.

Depois de Lobo Antunes, era impensável não falar com o outro grande vulto actual da literatura portuguesa, José Saramago, que é capa no novo número, o 70, que já saiu, mas ainda não me chegou às mãos :-( Prometeram-mo para esta semana. Fico a aguardar, roendo as unhas.

Entretanto, o blogue da Ler informa que a última novidade na blogosfera literária é a página dos Saramaguianos, portal da Fundação José Saramago que pretende ser o f'órum de encontro de todos os leitores do Nobel português.

sábado, 14 de junho de 2008

O mestre do cavaquinho



O mestre do cavaquinho português. Um belo momento, tão somente para vos desejar um óptimo fim-de-semana!

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Fernando Pessoa, 120 years old and kicking!

Portugal comemora os 120 anos de Pessoa com polémica em pano de fundo

Portugal comemora hoje os 120 anos do nascimento do poeta Fernando Pessoa tendo como pano de fundo uma polémica por causa de um leilão de valiosos documentos e textos inéditos do escritor em poder de sua família e ao qual o Estado português se opõe.

Fernando António Nogueira Pessoa - que usou múltiplos heterónimos, como Bernardo Soares, Chevalier de Pas, Alexander Search, Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis (entre outros) para assinar suas obras - nasceu em Lisboa no dia 13 de Junho de 1888 - dia do padroeiro da capital portuguesa, Santo Antônio - e morreu, com apenas 47 anos, em 1935.

Os herdeiros de Pessoa fizeram saber recentemente que têm a intenção de leiloar a colecção de manuscritos do poeta mesmo diante da oposição de autoridades e intelectuais lusos que promovem a sua entrega à Biblioteca Nacional para que se conservem como património português.

Paulo Aragão, do gabinete jurídico da Biblioteca afirma que uma lei de 2007 obriga aqueles que pretendam vender manuscritos com valor patrimonial que primeiro o comuniquem a essa instituição.

Segundo o "Público", o Estado português está disposto a utilizar todos os meios legais para evitar a dispersão dos manuscritos de Fernando Pessoa.

Apesar disso, oficialmente, o Governo não tornou pública a sua posição e não se sabe se está disposto a participar do leilão para adquirir o legado.

O proprietário da casa de leilões que colocará à venda os manuscritos, Miguel Rosa, argumentou que muitas pinturas de Pablo Picasso não ficaram em Espanha e não encontra razões pelas quais os documentos de Pessoa não possam acabar fora de seu próprio país.

Em Portugal teme-se que parte do espólio artístico do escritor seja adquirido fora de suas fronteiras, já que, entre os documentos que se pretende vender, está incluído o denominado "Dossier Crowley".

Este - que interessa particularmente os coleccionadores britânicos - reúne a correspondência que mantiveram Pessoa e o ocultista inglês Alesteir Crowley (1875-1947) e os manuscritos de um romance do poeta sobre um suposto suicídio de Crowley.

Inspirado nesse tema e ajudado por um jornalista português, Pessoa pôs em cena uma obra de teatro que entitulou em inglês "Mouth of Hell" (Boca do Inferno), nome de uma área da costa de Cascais.

----------------------------------------------------

Antologia da poesia de Pessoa para os mais novos

A antologia "Poesia de Fernando Pessoa para todos", organizada por José António Gomes com ilustrações de António Modesto, visa "aproximar mais cedo os mais novos" do poeta da "Mensagem".

Com a chancela da Porto Editora, esta antologia é editada no âmbito dos 120 anos do nascimento do escritor, reunindo cerca de 30 poemas seus.

Em declarações à Lusa, José António Gomes afirmou que esta antologia "visa aproximar mais cedo dos mais novos a poesia de Pessoa".

"O próprio Pessoa escreveu alguns poemas às suas sobrinhas, um destinatário infantil, mas há outros poemas seus, simples e compreensíveis pelos mais novos, com uma estrutura lírico-dramático", explicou José António Gomes.

O investigador salientou as ilustrações e o design de António Modesto, "marcados por um estilo que lembra aqui e ali as vanguardas históricas do princípio do século XX, o período de actividade de Pessoa".

"Há referências a Amadeo de Souza-Cardoso e ao cubismo", acrescentou.

A antologia inclui, entre outros, "Poema pial", "Ó sino da minha aldeia", "A fada das crianças" e "Liberdade", num total de 27 poemas, na sua maioria de autoria de Fernando Pessoa, mas incluindo dois heterónimos.

De Ricardo Reis escolheu a ode "Para ser grande sê inteiro" e de Álvaro de Campos "Todas as cartas de amor são ridículas".

Segundo José António Gomes, professor na Escola Superior de Educação do Porto, "Fernando Pessoa é dos poetas mais conhecidos e lidos", mas pode-se ainda "aproximá-lo dos mais novos, logo na escola primária e no 2º ciclo".

Ilustrador e o antologista estão hoje na Feira do Livro de Lisboa.

O livro integra a colecção "Oficina dos Sonhos", um projecto da Porto Editora que visa "reunir clássicos da literatura infantil e juvenil, obras contemporâneas de grandes autores e ilustradores portugueses ou estrangeiros, e álbuns para os mais pequenos", segundo fonte daquela editora.

Parabéns, Fernando! (13 de Junho de 1888)

13 de Junho. Dia de Santo António. Celebram-se hoje os Antónios, como o Fernando António de Nogueira Pessoa, e os 120 anos sobre o nascimento de um dos expoentes máximos da literatura portuguesa.
Eis o meu modesto contributo neste blog com a publicação de um dos meus poemas preferidos que ele escreveu em 1928 e que vem assinado Álvaro de Campos.


TABACARIA


Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

Álvaro de Campos, 15-1-1928

Desenho de Júlio Pomar para a estação de metro lisboeta Alto dos Moinhos. Calha bem, porque foi inaugurada ontem uma exposição sobre a obra gráfica de Mestre Júlio Pomar no Instituto Camões da cidade do Luxemburgo e que estará patente até 10 de Julho. Ainda não tive oportunidade de visitar e ver se esta gravura faz parte das obras que viajaram até ao Grão-Ducado.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Letras luxemburguesas: Nico Helminger distinguido com Prémio Batty Weber 2008

Nico Helminger é o vencedor do Prémio Batty Weber 2008, distinção da literatura luxemburguesa, atribuido pelo Centre national de littérature de Mersch, que recompensa os autores nacionais pelo conjunto da sua obra.

Helminger escreve peças de teatro para adultos e crianças, poesia, prosa, ensaios, novelas radiofónicas e libretos de opereta. O escritor nasceu em 1953 em Differdange, estudou Linguística Germânica e Dramaturgia em Sarrbrücken, Viena e Berlim. Viveu em Paris entre 1973 e 1999, ano em que regressou definitivamente ao país. Escreve em luxemburguês e alemão. É irmão de Guy Helminger, também escritor conhecido da literatura grã-ducal.

Anunciado na semana passada, a entrega do prémio terá lugar em Setembro no Centro Nacional de Literatura de Mersch.

Instituído em 1987, este galardão é atribuído de três em três para distinguir um autor luxemburguês e para honrar a memória de Batty Weber (1860-1940), célebre romancista e folhetinista luxemburguês, pela sua contribuição nas letras e na cultura nacionais. Em 2005, o laureado com este prémio foi o escritor Guy Rewenig.

JLC (in Contacto, 04.06.08)
(Foto extraída do site da autarquia de Differdange)

quinta-feira, 29 de maio de 2008

O ódio de Norbert Jacques pelo Luxemburgo ou Os Ignorados pelo Burgo


"Tenho por vezes a impressão que o ódio que sinto é tão forte que poderia abafar este maldito pequeno país [o Luxemburgo ] entre as minhas mãos"

Citação de Norbert Jacques (1880-1954) sobre o Luxemburgo. Ignorado no Grão-Ducado, para vingar teve que emigrar para a Alemanha, onde mais tarde se tornou defensor da causa nazi. Jornalista e escritor luxemburguês que escreveu, entre outras, a obra "Dr. Mabuse, der Spieler" (1921), que Fritz Lang viria a adaptar para o cinema. Durante muito tempo, nem foi sequer tido em conta como contribuidor para as letras luxemburguesas.


Relembro aqui o caso de dois outros emigrantes luxemburgueses que só lá fora tiveram sucesso: Edward Steichen e Hugo Gernsback. Ambos granjearam fama e sucesso na terra do Tio Sam.

O primeiro tornou-se um fotógrafo famoso das estrelas de Hollywood de então, como Greta Garbo e outras, tendo sido publicado em revistas das celebridades. Foi o grande conceptor da mega-exposição sobre a humanidade "The Family of Man", que viria a doar ao Luxemburgo nos anos 60 (e que o Luxemburgo começou por recusar!) e que está em exposição permanente no Castelo de Clervaux.

O segundo é considerado o pai da ficção-científica moderna, e que a baptizou, inclusive, inventando o termo "ficção-científica". Ainda estudante, inventou uma pilha que ninguém quis comercializar no Luxemburgo. Emigrou para os EUA, onde lançou a sua pilha e uma revista sobre electricidade, máquinas eléctricas e historias e contos sobre como essas invenções poderiam um dia mudar o nosso futuro. Depressa a revista evoluiu de "Modern Electrics" para a "Amazing Stories" e lançou autores como Robert Heinlein, Isaac Asimov, Arthur C. Clarke e outros não menos famosos. Os Prémios Hugo, que anualmente distinguem na Califórnia os melhores filmes e livros de ficção-científica, são uma homenagem à sua memória.
Só em 2004, é que Hugo Gernsback teve direito a uma rua em seu nome
no Luxemburgo (atrás do complexo cinematográfico Utopolis), mas permanece um ilustre desconhecido para 95% dos luxemburgueses.


MANIFESTO
Para que não voltem a acontecer episódios destes que em nada engrandecem a história e a memória luxemburguesas, está mais do que na altura de alguns autóctones perderem as palas que os tornam ceguetas em relação às potencialidades do país e sobretudo da matéria humana que o país hoje dispõe. Está, na altura, de deixarem de "pensar pequenino". É necessário, para isso, que deixem de querer continuar a ser o que são ("Mir wëlle bleiwen wéi mir sinn", lema nacional adoptado por oposição ao ocupante nazi, mas que hoje, retirado do contexto histórico é redutor e tem vindo a significar vontade doentia de status quo da sociedade e lançado como oposição/diferenciação em relação aos estrangeiros) para ambicionarem ser melhor do que são ("Mir wëlle besser ginn!"). Yes, we can!

Proposta minha, sei lá. É alarve?