sebenta de anotações esparsas, pensamentos ociosos, reflexões cadentes, poemas difusos, introspecções de uma filosofia mais ou menos opaca dos meus dias (ou + reminiscências melómanas, translúcidas, intra e extra-sensoriais, erógenas, esquizofrénicas ou obsessivas dos meus dias)
-
cahier de notes éparses, pensées oisives, réflexions filantes, poèmes diffus, introspections d'une philosophie plus ou moins opaque de mes journées (ou + de réminiscences mélomanes, translucides, intra-sensorielles et extra-sensorielles, érogènes, schizophrènes ou obsessionnelles de mes journées)

sábado, 21 de junho de 2008

últimas aquisições

- "José Saramago: a consistência dos sonhos - Cronobiografia", de Fernando Gómez Aguilera (Ed. Caminho, Lisboa, Abril 2008), que o meu amor, conhecendo bem os meus gostos, me trouxe de Portugal, da última vez que lá esteve







- "Evita, Life & Images", uma biografia de Eva Perón assinada por Mario J. Granero (Maizal Ediciones, Buenos Aires, 2003), que um amigo me trouxe como recordação da sua visita à Argentina e à esplendorosa livraria El Ateneo, em Buenos Aires, e que já foi considerada uma das mais belas do mundo pelo diário britânico "The Guardian" (ver post de 19.06.08)








- "Plato and a Platypus Walk into a Bar... Understanding Philosophy Trough Jokes", de Thomas Cathcart e Daniel Klein (Abrams Image, New York, 2007), comprado na livraria britânica da cidade do Luxemburgo "Chapter One", em Merl









- "Le huitième prophète ou Les aventures extraordinaires d'Amros le Celte", de Franz-Olivier Giesbert (Gallimard, 2008), comprado na megastore books&more, em Gasperich








- (aquisição temporária) "La tía Julia y el escribidor", Mario Vargas Llosa (Ed. Seix Barral, Lima, 1977), que encontrei num banco de jardim no parque da cidade. E de imediato percebi que se tratava de um tesouro deixado por um bookcrosser, esses paladinos da leitura que espalham a boa palavra à mão-de-semear daquele que encontrar a obra que tiverem deixado num lugar público para que esta possa ser (re)descoberta e lida pelo seu próximo... leitor. Não sabia que o Luxemburgo fazia parte de uma crossing zone, mas recuperei o livro e quando o terminar, hei-de deixá-lo noutro ponto da cidade, para que possa cumprir a sua missão.



Bons livros e bom fds!

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Pleaaaaaaaaaaaase...


POR FAVOR, HOJE NÃO ME FALEM DE FUTEBOL!

The hangover: o fim da Era Scolari!


Erros nossos, má fortuna,
futebol fatal...


























NÃO É
O FIM, APENAS OUTRO RECOMEçO.
MUNDIAL 2010 - PENSAR NO FUTURO!





quinta-feira, 19 de junho de 2008

Fénix renascida

FÉNIX RENASCIDA


Pronto, já acabei de ler a Ler. A nova Ler. O número de Maio de 2008 (n°69), que veio pôr termo a quase dois anos de insustentável jejum. E li que me regalei. À fartazana, mesmo. De fio a pavio. E de pavio a fio. De frente para trás e de trás para a frente. E a fénix renascida que tenho hoje entre as mãos superou todas as minhas expectativas.

Não fiquei, por isso, admirado de constatar, com satisfação, quem estava à frente do projecto: Francisco José Viegas (FJV, na foto), o "Midas" da literatura portuguesa. Tudo o que toca transforma-se em ouro. Não falo dos reles réis, mas do contributo, do valor acrescentado, da mais-valia que se têm revelado ser as iniciativas e projectos de que tem sido autor e padrinho na imprensa e na televisão para promover a literatura portuguesa. É por isso gratificante vê-lo (de novo) ao leme de mais um grande projecto. Diz ele que é um regresso, após ter dirigido a revista entre 1989 e 2000. Infelizmente não conheci essa época FJV da revista.

Apesar de existir desde 1987, descobri a Ler bastante tarde, devo confessar. Em 2001, quando perdido numa livraria, reparei nela a piscar-me o olho. Assim, descaradamente, sem pudor. E eu, que sou dado a estas fraquezas, sucumbi à volúpia. Buscava há muito uma publicação que na minha língua me pudesse transmitir o mesmo prazer que me procuram as deleitosas horas perdidas em que mergulho em apneia num Magazine Littéraire ou numa Lire. E ela ali estava, diante de mim, aguardando apenas que a minha gula voraz se abatesse sobre ela. Tornei-me fã, leitor, assinante, dependente. Infelizmente, em 2001, a regularidade era de apenas quatro números anuais, ao ritmo das estações. Estoicamente, eu ficava à espera que a sazão chegasse e eu pudesse colher delicadamente, de mãos e olhos ávidos, o novo fruto. Para receber a minha dose.

Em 2005, depois dos números de Inverno e de Primavera, era anunciado que a revista se tornaria anual, devido a razões financeiras ou editoriais, ou provavelmente ambas, já não sei bem. Em 2006, saía o número seguinte, e depois disso... silêncio rádio! Até Maio de 2008, em que a revista regressou renovada e reforçada. Em boa hora!

A nova Ler aparece-nos com um design mais moderno e legível, novas rubricas, formato mais largo, papel mais fino, um estilo mais jornalístico, novas colaborações e crónicas, críticas de um maior número de obras, um estatuto editorial redefinido. Tudo para fixar as bases de um edifício há muito periclitante, como só o podia ser um projecto desta natureza num país como Portugal, onde se lê pouco, diz-se. Além do Jornal de Letras, lido por uma imensa minoria, iniciativas que apostam na literatura como as revistas Ler ou Os Meus Livros são jangadas à deriva neste país, neste mundo, que acreditam que a "civilização do livro" (como lhe chama FJV no editorial deste número) está terminada. Ora, o que se verifica hoje em dia é exactamente o contrário. Nunca os leitores foram tantos em Portugal e no mundo, há cada vez mais livros a serem editados, apesar de a literatura representar apenas um terço das publicações. Mas mais do que isso, a revolução tecnológica não decretou a morte do livro, como precocemente anunciado pelos velhos do Restelo, que sempre os há, em todas as épocas. Porque uma coisa não inviabiliza a outra. Como a televisão não substituiu o cinema nem a rádio, nunca o leitor trocará a sensação táctil das páginas de um livro por um ecrã vítreo e frio. Nem que seja pela questão prática do acto de ler, acrescento eu. "Ler um livro é ler um livro", resume FJV.

FJV fala ainda do rebuliço que está a viver o sector editorial português, as compras, as fusões, provando que se investe cada vez mais nos livros em Portugal. Bons projectos e ideias que chegam a contracorrente, a peneira do tempo e os leitores encarregar-se-ão de subscrever uns e amuarem com outros.
FJV não esquece de evocar o Acordo Ortográfico, que ainda muita tinta vai fazer correr.

O que me agradou no número 69 da Ler :

- a visita às livrarias mais belas do Mundo, segundo uma eleição efectuada recentemente pelo diário britânico The Guardian, e em que a Livraria Lello (página oficial: aqui), do Porto, figura entre as três primeiras, apenas atrás da Boekhandel Selexyz Dominicanen, de Maastricht, na Holanda, e da argentina El Ateneo, em Buenos Aires.
- as crónicas de novos colaboradores como José Eduardo Águalusa, Pedro Mexia, Jorge Reis-Sá, Eduardo Pitta, Inês Pedrosa, e verificar que os bons que lá estavam ainda ficaram, como Onésimo Teotónio de Almeida
- a boa ideia de publicar os tops de venda de várias livrarias do país, sem se confinar a Lisboa e ao Porto
- a excelente entrevista a António Lobo Antunes, esse "homem-continente"
- a entrevista ao ex-banqueiro Paulo Teixeira Pinto sobre a aquisição da Guimarães Editores
- a conversa e visita ao refúgio do poeta e tradutor Pedro Tamen
- os mini-textos sobre os 50 autores mais influentes do século XX e o que aprendemos com eles
- saber do livro do Bernard Pivot e que "As Benevolentes" de Jonathan Littel, esse mastodonte incontornável escrito por um americano directamente em francês e que levei seis meses a ler (entre Setembro de 2006 e Março de 2007) foi finalmente traduzido para português
- saber que o Pedro Paixão tem um novo romance;
- cinco estrelas para as novas rubricas: Excertos de uma obra; e Ponto Final, entrevista-minuta da última página.

Satisfaz-me sobretudo ver que a Ler não se acantona no reduto intelectualóide dos livros e que compreendeu que há um mundo em volta destes, que os influencia, e vice-versa. Por isso, gostei de ver como tratam de obras que não se reduzem à literatura pura e dura e as novas colunas sobre vinhos & restaurantes e os lugares para ler.

Depois de Lobo Antunes, era impensável não falar com o outro grande vulto actual da literatura portuguesa, José Saramago, que é capa no novo número, o 70, que já saiu, mas ainda não me chegou às mãos :-( Prometeram-mo para esta semana. Fico a aguardar, roendo as unhas.

Entretanto, o blogue da Ler informa que a última novidade na blogosfera literária é a página dos Saramaguianos, portal da Fundação José Saramago que pretende ser o f'órum de encontro de todos os leitores do Nobel português.

Da meditação

"(...) As pessoas afirmam devorar jornais e colar a orelha ao rádio (por vezes, as duas ao mesmo tempo) para estar ao corrente do que se passa no mundo, mas é uma pura ilusão. A verdade é que, a partir do momento, em que essas pobres pessoas não estão activas, ocupadas, tomam consciência do vazio aterrador, horrível que há neles. Na verdade, pouco importa em que teta vão mamar, o essencial para elas é evitar encontrarem-se face a si mesmas. Meditar sobre o problema do dia, ou até sobre questões pessoais, é a última coisa que deseja fazer o indivíduo normal (...)"

Henry Miller, "Reading in the Toilet", 1952

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Do humor

"Nada é mais sério que o riso. (...) Aparentemente o riso, não só vale um bom bife, engordando apenas (momentaneamente) as bochechas, como fornece anticorpos a todas as tristezas do mundo e atesta um distanciamento salutar do 'homo hilaratus' relativamente a si mesmo, ao seu ego, à sua posição social, e até ao seu sucesso. A sociedade está assim actualmente dividida entre aqueles que se tomam demasiado a sério e que não conseguem ter uma visão humorística da sua pequena pessoa (...) e aqueles que, após Beaumarchais, se apressam a rir de tudo, por temor de não dever chorar. Encabeçando o batalhão dos discípulos de Heraclito, os políticos, que nunca se desmancham em público (...). O cómico profissional, esse, tendo em conta os seus rendimentos, já não leva as coisas à ligeira. A sua popularidade transformou-o em tribuno, em profeta. Passou do estatuto de perito em risota ao de mestre em pensar. Ele estima ser o último reduto de uma sociedade em vias de decomposição. E a esse título, estigmatiza os nossos desvios e baixezas, prega os poderosos ao pelourinho, vitupera, fulmina, denuncia as nossas incoerências e propõe - fora de brincadeiras - as suas soluções geniais. Entre um serão de gala e um repasto, carrega nos ombros o fardo da miséria humana. Porque a miníma das suas macaquices é um acto pensado e que os seus trocadilhos servem para escrever a história da nossa época, deixou de ter tempo para rir a bandeiras despregadas. (...)"

O jornalista, humorista e apresentador de rádio e televisão Philippe Bouvard,
in Le Figaro Magazine, 14.06.08
(tradução: AGW)

Don LaFontaine, a "voz" que todos conhecemos... dos "trailers"!




sábado, 14 de junho de 2008

O mestre do cavaquinho



O mestre do cavaquinho português. Um belo momento, tão somente para vos desejar um óptimo fim-de-semana!

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Fernando Pessoa, 120 years old and kicking!

Portugal comemora os 120 anos de Pessoa com polémica em pano de fundo

Portugal comemora hoje os 120 anos do nascimento do poeta Fernando Pessoa tendo como pano de fundo uma polémica por causa de um leilão de valiosos documentos e textos inéditos do escritor em poder de sua família e ao qual o Estado português se opõe.

Fernando António Nogueira Pessoa - que usou múltiplos heterónimos, como Bernardo Soares, Chevalier de Pas, Alexander Search, Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis (entre outros) para assinar suas obras - nasceu em Lisboa no dia 13 de Junho de 1888 - dia do padroeiro da capital portuguesa, Santo Antônio - e morreu, com apenas 47 anos, em 1935.

Os herdeiros de Pessoa fizeram saber recentemente que têm a intenção de leiloar a colecção de manuscritos do poeta mesmo diante da oposição de autoridades e intelectuais lusos que promovem a sua entrega à Biblioteca Nacional para que se conservem como património português.

Paulo Aragão, do gabinete jurídico da Biblioteca afirma que uma lei de 2007 obriga aqueles que pretendam vender manuscritos com valor patrimonial que primeiro o comuniquem a essa instituição.

Segundo o "Público", o Estado português está disposto a utilizar todos os meios legais para evitar a dispersão dos manuscritos de Fernando Pessoa.

Apesar disso, oficialmente, o Governo não tornou pública a sua posição e não se sabe se está disposto a participar do leilão para adquirir o legado.

O proprietário da casa de leilões que colocará à venda os manuscritos, Miguel Rosa, argumentou que muitas pinturas de Pablo Picasso não ficaram em Espanha e não encontra razões pelas quais os documentos de Pessoa não possam acabar fora de seu próprio país.

Em Portugal teme-se que parte do espólio artístico do escritor seja adquirido fora de suas fronteiras, já que, entre os documentos que se pretende vender, está incluído o denominado "Dossier Crowley".

Este - que interessa particularmente os coleccionadores britânicos - reúne a correspondência que mantiveram Pessoa e o ocultista inglês Alesteir Crowley (1875-1947) e os manuscritos de um romance do poeta sobre um suposto suicídio de Crowley.

Inspirado nesse tema e ajudado por um jornalista português, Pessoa pôs em cena uma obra de teatro que entitulou em inglês "Mouth of Hell" (Boca do Inferno), nome de uma área da costa de Cascais.

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Antologia da poesia de Pessoa para os mais novos

A antologia "Poesia de Fernando Pessoa para todos", organizada por José António Gomes com ilustrações de António Modesto, visa "aproximar mais cedo os mais novos" do poeta da "Mensagem".

Com a chancela da Porto Editora, esta antologia é editada no âmbito dos 120 anos do nascimento do escritor, reunindo cerca de 30 poemas seus.

Em declarações à Lusa, José António Gomes afirmou que esta antologia "visa aproximar mais cedo dos mais novos a poesia de Pessoa".

"O próprio Pessoa escreveu alguns poemas às suas sobrinhas, um destinatário infantil, mas há outros poemas seus, simples e compreensíveis pelos mais novos, com uma estrutura lírico-dramático", explicou José António Gomes.

O investigador salientou as ilustrações e o design de António Modesto, "marcados por um estilo que lembra aqui e ali as vanguardas históricas do princípio do século XX, o período de actividade de Pessoa".

"Há referências a Amadeo de Souza-Cardoso e ao cubismo", acrescentou.

A antologia inclui, entre outros, "Poema pial", "Ó sino da minha aldeia", "A fada das crianças" e "Liberdade", num total de 27 poemas, na sua maioria de autoria de Fernando Pessoa, mas incluindo dois heterónimos.

De Ricardo Reis escolheu a ode "Para ser grande sê inteiro" e de Álvaro de Campos "Todas as cartas de amor são ridículas".

Segundo José António Gomes, professor na Escola Superior de Educação do Porto, "Fernando Pessoa é dos poetas mais conhecidos e lidos", mas pode-se ainda "aproximá-lo dos mais novos, logo na escola primária e no 2º ciclo".

Ilustrador e o antologista estão hoje na Feira do Livro de Lisboa.

O livro integra a colecção "Oficina dos Sonhos", um projecto da Porto Editora que visa "reunir clássicos da literatura infantil e juvenil, obras contemporâneas de grandes autores e ilustradores portugueses ou estrangeiros, e álbuns para os mais pequenos", segundo fonte daquela editora.

Parabéns, Fernando! (13 de Junho de 1888)

13 de Junho. Dia de Santo António. Celebram-se hoje os Antónios, como o Fernando António de Nogueira Pessoa, e os 120 anos sobre o nascimento de um dos expoentes máximos da literatura portuguesa.
Eis o meu modesto contributo neste blog com a publicação de um dos meus poemas preferidos que ele escreveu em 1928 e que vem assinado Álvaro de Campos.


TABACARIA


Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

Álvaro de Campos, 15-1-1928

Desenho de Júlio Pomar para a estação de metro lisboeta Alto dos Moinhos. Calha bem, porque foi inaugurada ontem uma exposição sobre a obra gráfica de Mestre Júlio Pomar no Instituto Camões da cidade do Luxemburgo e que estará patente até 10 de Julho. Ainda não tive oportunidade de visitar e ver se esta gravura faz parte das obras que viajaram até ao Grão-Ducado.

dois poemas meus traduzidos em ... haikus

carré d'eau

un carré d'eau
sur une
planète morte,
la vie imitée



kin

un oiseau brûle
j'ai beau fuire la flamme
mon coeur t'appartient

terça-feira, 10 de junho de 2008

Os espanhóis apoiam Portugal! LOL



Lindo! Fossemos nós capazes de tamanha auto-derisão e sentido de humor e talvez fóssemos um povo menos sorumbático e fatídico... E é espantoso como os media portugueses se apoderaram do caso como se de algo de muito sério se tratasse. O que só dá mais piada ainda à coisa.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Missão 180 grad.lu

Action Solidarité Tiers-Monde, Caritas e Greenpeace lançam Missão "180 grad.lu"
Projecto luxemburguês contra aquecimento global procura voluntários para missões de estudo

"Ser actor da mudança climática" é o que propõe a 20 voluntários o projecto "180 graus – viragem climática" (180grad.lu), lançado por três organizações luxemburguesas: a Action Solidarité Tiers-Monde (ASTM), a Caritas e a Greenpeace.

A iniciativa quer levar uma equipa de 20 voluntários em viagens de estudo ao Bangladesh e à Gronelândia para que estes fiquem a conhecer, no terreno, alguns dos impactos ecológicos, económicos e humanos do aquecimento climático. No regresso, a missão da equipa será testemunhar a experiência vivida, informar e sensibilizar a opinião pública sobre a temática. "Apesar da problemática do aquecimento climático ser discutida cada vez mais pelas esferas políticas, não tem havido um verdadeiro debate entre os cidadãos", lamentam as associações.

"As decisões políticas dos próximos 50 anos passam por escolhas e mudanças profundas nesta matéria e vão afectar o quotidiano de cada um de nós. É urgente envolver todos os habitantes do país e do mundo nesta discussão", argumentam. "O desaparecimento gradual das calotas glaciares, a subida do nível das águas dos mares, o cada vez maior número de fenómenos meteorológicos extremos mostram que a mudança climática é um facto científico inegável", pode ler-se ainda no site do projecto. Apesar de ser difícil prever o impacto dos gases com efeito de estufa sobre a Terra, estes permanecerão durante vários séculos na atmosfera. Permitir que se dê uma volta de 180 graus à situação actual é o objectivo final do projecto. Os interessados em participar no projecto devem residir no Luxemburgo, serem maiores de idade e não serem especialistas em matéria de aquecimento climático. Antes da primeira viagem de estudo, que deverá ocorrer em Setembro à Gronelândia (seis dias), seguirão uma formação específica e de frequência obrigatória para aprofundarem os seus conhecimentos sobre o assunto. A segunda missão está prevista para Fevereiro de 2009 ao Bangladesh (10 dias). Participar, informar, testemunhar e propor são os quatro objectivos que a organização estabelece à equipa.

As inscrições estão abertas até 15 de Junho no site www.180grad.lu ou via postal para a seguinte morada: TNS ILReS, Mission d'Etudes 180°, 46, rue du Cimetière, L-1338 Luxembourg. O instituto TNS ILReS garante a objectividade na selecção dos voluntários por forma a que estes constituam uma amostragem representativa da população do país. A evolução do projecto pode ser acompanhada no site acima referido, onde podem ser encontradas igualmente informações e documentação referentes à temática.

A iniciativa conta, entre outros parceiros, com o grupo saint-paul (editor do CONTACTO).

José Luís Correia
(in Contacto, 28.05.08)

Foi a minha mãe que pediu... e a uma mãe nada se recusa!

Dia 22 de Junho

Excursão ao Europa Park

No domingo, 22 de Junho, a Radio Amizade (www.radioamizade.lu) organiza uma excursão em autocarro para o parque de atracções Europa Park (em Rust, na Alemanha). O autocarro sai da gare da cidade do Luxemburgo às 5h00 da manhã, e da gare de Esch/Alzette às 5h30. O regresso está previsto no mesmo dia, ao serão.

Para mais informações e/ou reservas, os eventuais interessados, podem contactar as responsáveis pelos tel. (00352) 621 489 995 (Rosa Barbosa) e/ou (00352) 691 740 168 (Joana Correia).

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Here comes the rain again...


"Some people feel the rain before it falls, others just get wet!" - Henry Miller

Letras luxemburguesas: Nico Helminger distinguido com Prémio Batty Weber 2008

Nico Helminger é o vencedor do Prémio Batty Weber 2008, distinção da literatura luxemburguesa, atribuido pelo Centre national de littérature de Mersch, que recompensa os autores nacionais pelo conjunto da sua obra.

Helminger escreve peças de teatro para adultos e crianças, poesia, prosa, ensaios, novelas radiofónicas e libretos de opereta. O escritor nasceu em 1953 em Differdange, estudou Linguística Germânica e Dramaturgia em Sarrbrücken, Viena e Berlim. Viveu em Paris entre 1973 e 1999, ano em que regressou definitivamente ao país. Escreve em luxemburguês e alemão. É irmão de Guy Helminger, também escritor conhecido da literatura grã-ducal.

Anunciado na semana passada, a entrega do prémio terá lugar em Setembro no Centro Nacional de Literatura de Mersch.

Instituído em 1987, este galardão é atribuído de três em três para distinguir um autor luxemburguês e para honrar a memória de Batty Weber (1860-1940), célebre romancista e folhetinista luxemburguês, pela sua contribuição nas letras e na cultura nacionais. Em 2005, o laureado com este prémio foi o escritor Guy Rewenig.

JLC (in Contacto, 04.06.08)
(Foto extraída do site da autarquia de Differdange)

Portugal no Euro2008: Tudo por Todos!

Euro2008: Futebol cardíaco

Futebol cardíaco

"Em Portugal há uma palavra mágica: Futebol!" Foi com este chavão emblemático que Carlos Cruz começou o seu discurso de apresentação da candidatura de Portugal ao Euro2004, do qual acabamos por ganhar a organização, perante a incredulidade da candidatura espanhola. E apesar de, no final da competição, Portugal "se ter visto grego", os portugueses viveram o Euro2004 como uma festa. Celebrávamos o quê? Uma organização bem sucedida ao mais alto nível de uma das competições desportivas mais importantes da Europa e o desempenho exemplar da Selecção que conseguia sagrar-se vice-campeã europeia.

Como bem o resumira o ex-apresentador de televisão: para os portugueses, o futebol é uma questão de coração.

Um professor de alemão contou-me que assistia certo dia a um jogo de futebol em Portugal. A dado momento, perante o barulho que faziam as claques, não se conteve, levantou-se e gritou-lhes, inadvertidamente, em alemão: "Ruhe!" ("Silêncio!"). Mas, em vez de o insultarem, aconteceu exactamente o contrário. O público juntou-se a ele, começando a repetir foneticamente e em uníssono o seu grito, mas... contra o árbitro: "Rua! O árbitro, para a rua! Rua!" E, apesar de nada até ali, nem ninguém, ter posto em causa o trabalho do homem de negro, criou-se a maior confusão, que obrigou inclusive à interrupção da partida.

É assim o futebol, algo irracional, porque mexe connosco, com as nossas tripas, com o nosso coração.

O Euro2008 começa dentro de três dias, edição organizada pela Áustria e pela Suíça. Portugal é uma das primeiras equipas a jogar. Contra a Turquia, no sábado à noite. À sua chegada a Neuchâtel no domingo, os jogadores da Selecção foram acolhidos em apoteose pela comunidade lusa ali radicada.

Os portugueses do Luxemburgo vivem com o mesmo entusiasmo cada jogo da Selecção. As bandeiras verde-rubras já começaram a ser hasteadas e colocadas às janelas, como aconteceu aquando dos últimos campeonatos do Mundo e da Europa de Futebol em que o nosso país participou.

As bandeiras são durante estas competições o símbolo do nosso orgulho nacional, de nação que vibra com o futebol. As quinas evocam o Coluna, o Eusébio, o Futre, o Figo, o Pauleta, o Cristiano Ronaldo e tantos outros. E como fizemos nossas as suas vitórias e as glórias que alcançaram.

Quando joga o nosso clube, tudo pára. Mas quando a Selecção entra em campo, ter a bandeira nas mãos é como se fosse o coração.

E é assim que espero que seja entendido pelos nossos concidadãos luxemburgueses. Não como uma afronta nacionalista desembainhada para esquartejar a integração, mas como uma partilha da nossa emoção à flor da pele pelo desporto-rei quando joga a nossa Selecção. E tão somente quando joga a nossa Selecção!

Que os portugueses, em apenas quatro décadas de imigração em solo luxemburguês, souberam ser protagonistas de uma integração exemplar, fazendo simultaneamente a distinção inteligente entre esta e a assimilação, i.e., integraram-se sem esquecer as suas raízes, o que nem sempre foi conseguido por outros conterrâneos nossos noutras terras. E não são efusões futebolísticas bianuais ou quadrienais que vão pôr em causa este dado adquirido.

Senão, vejamos o caso daquele meu amigo que se naturalizou luxemburguês há mais de dez anos: hasteia orgulhoso a bandeira com o leão vermelho em cada 23 de Junho. Não pelo 10 de Junho! Porque se sente mais luxemburguês do que português, disse-me um dia. O que é legítimo e é uma outra razão do coração.

Mas cada vez que a Selecção portuguesa joga no Mundial ou no Europeu, desfralda as quinas sem pejo. Fiz-lhe notar o pormenor. Respondeu-me, com toda a naturalidade do mundo: "Fussball ass fussball, männi! Ó pá, futebol é futebol!". E, com isto, tudo resumiu.

José Luís Correia (in Contacto, 04.06.08)

terça-feira, 3 de junho de 2008

PORTUGAL: a Glória está na acção!



É um clip já com alguns aninhos, mas não encontrei mais nenhum à altura deste. Mas é normal, a voz do saudoso Ruy de Carvalho era a melhor mensageira para transportar toda a glória da nossa egrégia Selecção. A poucos dias do Euro2008, vale a pena recordar...para não esquecermos que a glória não está na espera: está na acção!

sábado, 31 de maio de 2008

Kin

"Kin hnè ouie dn
àlj anf m àavm
Rudv héaj vj jjàf kilth
J'zjao lbef gokb"



"Nos montes de Kin
vi uma ave queimar as asas
quisera eu outro destino
mas já prendeste meu coração"


in "Os Poemas Galácticos de Kila Dah" de Jah-lil baar
Tradução: JLC/A.Weytjens (2002/2003)

Quadrado de Água

"Sou apenas um quadrado
de água num planeta morto
sonhando apenas um dia
ser engolido para ser vida."


in "Os Poemas Galácticos de Kila Dah" de Jah-lil baar
Tradução: JLC/A.Weytjens (2002/2003)

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Pensamento do dia (parafraseando Fernando Pessoa)

"Tudo vale a pena,
quando a idade não é pequena!"




Ou seja, quanto mais velho és, mais aprecias certas coisas, melhor escolhes o que preferes e te concentras naquilo que realmente vale a pena
;-)
Ideograma chinês da sabedoria

quinta-feira, 29 de maio de 2008

O ódio de Norbert Jacques pelo Luxemburgo ou Os Ignorados pelo Burgo


"Tenho por vezes a impressão que o ódio que sinto é tão forte que poderia abafar este maldito pequeno país [o Luxemburgo ] entre as minhas mãos"

Citação de Norbert Jacques (1880-1954) sobre o Luxemburgo. Ignorado no Grão-Ducado, para vingar teve que emigrar para a Alemanha, onde mais tarde se tornou defensor da causa nazi. Jornalista e escritor luxemburguês que escreveu, entre outras, a obra "Dr. Mabuse, der Spieler" (1921), que Fritz Lang viria a adaptar para o cinema. Durante muito tempo, nem foi sequer tido em conta como contribuidor para as letras luxemburguesas.


Relembro aqui o caso de dois outros emigrantes luxemburgueses que só lá fora tiveram sucesso: Edward Steichen e Hugo Gernsback. Ambos granjearam fama e sucesso na terra do Tio Sam.

O primeiro tornou-se um fotógrafo famoso das estrelas de Hollywood de então, como Greta Garbo e outras, tendo sido publicado em revistas das celebridades. Foi o grande conceptor da mega-exposição sobre a humanidade "The Family of Man", que viria a doar ao Luxemburgo nos anos 60 (e que o Luxemburgo começou por recusar!) e que está em exposição permanente no Castelo de Clervaux.

O segundo é considerado o pai da ficção-científica moderna, e que a baptizou, inclusive, inventando o termo "ficção-científica". Ainda estudante, inventou uma pilha que ninguém quis comercializar no Luxemburgo. Emigrou para os EUA, onde lançou a sua pilha e uma revista sobre electricidade, máquinas eléctricas e historias e contos sobre como essas invenções poderiam um dia mudar o nosso futuro. Depressa a revista evoluiu de "Modern Electrics" para a "Amazing Stories" e lançou autores como Robert Heinlein, Isaac Asimov, Arthur C. Clarke e outros não menos famosos. Os Prémios Hugo, que anualmente distinguem na Califórnia os melhores filmes e livros de ficção-científica, são uma homenagem à sua memória.
Só em 2004, é que Hugo Gernsback teve direito a uma rua em seu nome
no Luxemburgo (atrás do complexo cinematográfico Utopolis), mas permanece um ilustre desconhecido para 95% dos luxemburgueses.


MANIFESTO
Para que não voltem a acontecer episódios destes que em nada engrandecem a história e a memória luxemburguesas, está mais do que na altura de alguns autóctones perderem as palas que os tornam ceguetas em relação às potencialidades do país e sobretudo da matéria humana que o país hoje dispõe. Está, na altura, de deixarem de "pensar pequenino". É necessário, para isso, que deixem de querer continuar a ser o que são ("Mir wëlle bleiwen wéi mir sinn", lema nacional adoptado por oposição ao ocupante nazi, mas que hoje, retirado do contexto histórico é redutor e tem vindo a significar vontade doentia de status quo da sociedade e lançado como oposição/diferenciação em relação aos estrangeiros) para ambicionarem ser melhor do que são ("Mir wëlle besser ginn!"). Yes, we can!

Proposta minha, sei lá. É alarve?

Movimento Ecológico estabelece tabela: quais os 10 carros menos poluentes?

Movimento Ecológico estabelece tabela

Quais os 10 carros menos poluentes?

Os automobilistas que querem saber se o seu estimado automóvel é ecológico ou nem por isso e os futuros detentores de um quatro-rodas que pretendam adquirir um "carrito" que seja o mais amigo possível do ambiente dispõem agora de um portal na internet que poderá tornar-se numa ajuda preciosa nessa missão.

O Movimento Ecológico e o Oeko-Zenter (Centro Ecológico), lançaram em finais de Janeiro, em colaboração com o Ministério do Ambiente, o site "Oeko Top Ten" ("Top 10 Ecológico"), que faz uma listagem dos dez modelos menos poluentes de cada categoria: citadinos, pequenos polivalentes, compactos, familiares, grandes cilindradas, monoespaços até cinco lugares e monoespaços com seis lugares e mais. No portal www.oeko-topten.lu , o internauta é convidado a comparar 74 marcas de automóveis entre si, segundo os diferentes modelos, categorias e cilindradas, de modo a verificar quais os menos poluentes.

Nas tabelas comparativas, o usuário pode ainda ver quais os níveis de poluição sonora de cada automóvel, quais beneficiam de uma ajuda financeira do Estado por serem considerados automóveis pouco poluentes, o consumo de cada modelo, a taxa automóvel que se aplica a cada modelo, preços, etc. Saliente-se que o site dispõe igualmente de rubricas dedicadas aos electrodomésticos e aos televisores, comparando-os também entre si, relativamente ao consumo de electricidade, eficácia energética, preços recomendados, entres outras informações práticas.

JLC (in Contacto, 20.02.2008)

quarta-feira, 28 de maio de 2008

o hábito não faz a monja

Estrangeiros residentes já são mais de 200 mil no Luxemburgo

2007-2008/ Segundo os últimos números do Statec
Luxemburgo: 3 mil novos portugueses num só ano

Segundo os últimos números do Instituto luxemburguês de estatísticas, Statec, divulgados em 22 de Maio, o número de portugueses que residem oficialmente no Grão-Ducado subiu de 73.700 para 76.600 pessoas, entre 2006 e 2007.
Apesar de oficiosamente se calcular que esse número ultrapasse já os 80 mil, o crescimento oficial registado foi de cerca de três mil portugueses.
Se analisados os números do Statec nos últimos 30 anos referentes à imigração portuguesa no Luxemburgo, o número de pessoas com nacionalidade lusa aumentou cerca de duas vezes e meia entre 1981 e 2008, destacando-se uma verdadeira "explosão" exponencial nos últimos anos.
Enquanto a população portuguesa no Luxemburgo cresceu em cerca de 10 mil indivíduos entre 1981 e 1991, duplicou esse crescimento nos dez anos seguintes (1991-2001) e precisou de apenas quatro anos (entre 2002 e 2006) para que voltasse a aumentar para mais 10 mil pessoas, com especial destaque para o ano de 2004, em que num só ano se registaram mais 3.500 indivíduos.

PORTUGUESES NO LUXEMBURGO

1981: 29.300
1991: 39.100 (+ 9.800)
2001: 58.700 (+ 19.700)
2002: 59.800 (+ 1.100)
2003: 61.400 (+ 1.600)
2004: 64.900 (+ 3.500)
2005: 67.800 (+ 2.900)
2006: 70.800 (+ 3.000)
2007: 73.700 (+ 2.900)
2008: 76.600 (+ 2.900)
(* segundo o Statec)

Habitantes do Luxemburgo são quase 500 mil
O peso da imigração no país: estrangeiros residentes ultrapassam pela primeira vez a fasquia dos 200 mil


Segundo o Repertório Geral das Pessoas Físicas, o saldo migratório no Luxemburgo em Janeiro de 2008 era positivo, com + 6.001 pessoas, ou seja, 16.675 chegadas e 10.674 partidas.
A 1 de Janeiro de 2008, o número de estrangeiros residentes ultrapassou pela primeira vez a fasquia das 200 mil pessoas, registando o Grão-Ducado actualmente 205.900 cidadãos não luxemburgueses no seu território.
Entre os estrangeiros residentes, foi a comunidade portuguesa a que maior aumento demográfico verificou (ver texto acima).

Os italianos residentes (cerca de 19 mil) têm vindo a estagnar desde 1991 e os belgas mantêm o mesmo número que em 2005 e 2006 (cerca de 16.500). Entre 2007 e 2008, os franceses residentes passaram de 25.200 para 26.600 (+ 1.400) e os alemães de 11.300 para 11.600 (+ 300).

"A população autóctone estagnou e sem as naturalizações o seu número teria mesmo diminuído", garante Statec

O Statec recorda que em 30 anos, a população total residente no Grão-Ducado aumentou em mais de 120 mil habitantes: o país contava 364 mil habitantes em 1981; 384 mil, em 1991; e 439 mil, em 2001. Segundo os últimos dados divulgados na quinta-feira passada pelo Statec, a população total do Luxemburgo era em 1 de Janeiro de 2008 era de 484 mil habitantes. Um ano antes, a população total residente contava 476 mil pessoas.

Comparativamente aos países vizinhos, este crescimento demográfico pode ser considerado excepcional, sublinha o Statec, destacando o papel preponderante da imigração na demografia.
"A população autóctone viu os seus efectivos estagnar e sem as naturalizações o seu número teria mesmo diminuído", frisam os responsáveis daquele organismo. Efectivamente, o número destes nem chegou a subir uma dezena de milhar nas três últimas décadas: os cidadãos nacionais eram 268.800 em 1981, e são actualmente cerca de 277.900.
A média anual do saldo migratório no Luxemburgo na década de 1990-2000 era superior a 10 ‰ (dez por mil), enquanto no resto da União Europeia dos 15 esse número se ficava pelos 2,3 ‰.

José Luís Correia (in Contacto, 28.05.08)

(Foto: JLC/Junho de 2006, Dois a três mil portugueses costumavam juntar-se junto à Gare da cidade do Luxemburgo para celebrar as vitórias de Portugal no Mundial de 2006. O mesmo "ameaça" repetir-se a partir de 7 de Junho :-)

terça-feira, 27 de maio de 2008

Jardim das Borboletas em Grevenmacher

Em Grevenmacher, existe um lugar muito especial

Já alguma vez visitou
o país das borboletas?

As andorinhas chegam com a Primavera, mas no Luxemburgo são as borboletas que fazem sensação. E que melhor lugar para observar as suas asas coloridas e brilhantes, os seus voos majestosos e encantadores do que o Jardim das Borboletas, em Grevenmacher, que reabriu ao público a 21 de Março.

Quando entram no Jardim das Borboletas, o que cativa desde logo os visitantes são as 250 plantas e as dezenas de espécies de "lepidópteros" (nome científico deste insecto) que voam em liberdade pela estufa, alimentando-se alegremente do néctar das flores.

Baseando-se na ideia que o inglês Robert Goodey tivera no séc. XIX quando criou uma estufa onde deixava em liberdade diferentes espécies de mariposas (o outro nome pelo qual é conhecida a borboleta) para o belo prazer de nobres e burgueses da época, um projecto semelhante nasceu em Grevenmacher há 19 anos. Desde então é a mesma equipa que ainda hoje cuida da manutenção ecológica da fauna e da flora daquele espaço protegido. O clima húmido e quente da estufa do Jardim das Borboletas é o habitat ideal para muitos parasitas. Estes não podem ser eliminados com produtos químicos, sob risco de prejudicar as borboletas. Assim, a equipa resolveu recorrer a predadores naturais que eliminam esses organismos nefastos eficazmente, embora mais demoradamente do que um produto industrial.

O local dispõe igualmente de uma loja de recordações em torno de todo o maravilhoso mundo das borboletas. O Jardim das Borboletas fica situado na route de Trèves, em Grevenmacher e está aberto ao público diariamente, das 9h30 às 17h (até 15 de Outubro). Pode contactar o Jardim das Borboletas pelo e-mail bmstm@pt.lu ou em www.papillons.lu , na internet.

José Luís Correia (in Contacto, 02.04.2008)

Entrevista com Helena Noguerra e Paulo Correia

Helena Noguerra e Paulo Correia no Luxemburgo
para participar em peça adaptada do filme "Faces" de John Cassavetes

Helena Noguerra e Paulo Correia. Ela é irmã de Lio, canta, escreve e experimenta agora as lides do palco. Ele é actor e encenador de teatro. Ambos fazem parte do elenco da peça "Faces" que esteve em representação de 17 a 22 de Maios no Grande Teatro do Luxemburgo, numa encenação de Daniel Benoin, a partir do filme homónimo de 1968 de John Cassavetes. "Faces" é a uma tragi-comédia sobre um casal à beira da ruptura. Cansados da rotina do casamento, ambos vão procurar junto de dois profissionais do sexo o carinho que já não lhes é dado pelo parceiro. Helena e Paulo desempenham precisamente dois dos principais papéis da peça: Jeannie e Chet, a prostituta e o "gigolo".

Paulo confia que aceitou o convite porque gostou do elenco e porque além de adorar Cassavetes, achou interessante a ideia de o teatro "recuperar ideias do cinema, assim como a sétima arte o fez no seu início". Mas também porque era natural participar numa co-produção entre os Teatros da Cidade do Luxemburgo, a Primavera das Artes de Monte Carlo e o Teatro Nacional de Nice, cidade francesa onde vive e trabalha.

Helena, rosto conhecido da cena musical francesa desde 1989

- data do seu primeiro single "Lunettes Noires", banda sonora da famosa emissão "Lunettes noires pour nuits blanches" que Thierry Ardisson apresentou entre 1988 e 1990 -,

confia que, por sua parte, queria viver experiências novas, tentar fazer teatro e trocar Paris por Nice (onde a peça estreou em Setembro de 2007).

Apesar de ter já participado em alguns filmes, confessa-se novata nestas artes do palco e diz que não foi fácil desligar-se da forte impressão que lhe tinha deixado Gena Rowlands, a actriz que originalmente interpretava o papel no filme de Cassavetes e literalmente "habitava" a personagem.

Ambos confiam-se seduzidos pelos personagens que encarnam. Os dois prostitutos revelam-se pessoas bastante ternurentas e ironicamente mais tementes a Deus do que os outros personagens. "A peça fala de pessoas que vendem ou compram sexo, mas que procuram, na verdade, amor ou apenas carinho", analisa Helena. "Cassavetes tenta explorar todas as formas de amor, e até a fé como expressão de amor sublime". "Eu, gosto da história porque não é maniqueísta. Nenhum dos personagens é simplesmente bom ou mau", diz, por seu lado, o actor.

Confiam que "a peça é bastante física!". É que a encenação de Benoin coloca os espectadores, sentados numa vintena de sofás no meio do palco, no espaço em que os actores contracenam. Estes têm que utilizar quase todo o espaço, falar mais alto, correr. "Quando o actor está no meio do público, está em constante estado de tensão. Em palco, no fim de uma cena podemos ir para os bastidores e respirar. Ali não. Quando a acção se desloca para outro lado da sala, nós ficamos no meio do público e devemos continuar a nossa interpretação", explica Paulo.

Helena que além de cantora, também escreve (peças e romances) diz que "ser actriz é ter férias de si mesmo, é ser outro. Escrever é suportar-se!". Paulo concorda. "Os ensaios são difíceis, mas quando as deixas estão sabidas, ser actor é fácil, mais do que, por exemplo, encenador, que é alguém que tem de ocupar-se de quase tudo numa peça", diz o actor da sua experiência como encenador.

Das várias actividades que fazem o que peferem?, interpelamo-los.

"Utilizo suportes diferentes, mas é sempre para fazer a mesma coisa, contar histórias, seja quando canto, quando escrevo canções ou romances, ou como actriz, quando sou o vector de outra pessoa para contar uma história. Não tenho a impressão de ser padeira um dia e no outro astronauta. Sinto-me mais 'legítima' na música onde comecei, mas gosto de tudo o que faço e não gosto de hierarquizar", diz Helena.

Paulo, que começou como encenador, também gosta de mudar: ser actor um dia, no outro encenador. "É a liberdade de quem gosta do que faz e faz o que gosta!", concluem em uníssono.

Paulo já traduziu e encenou peças portuguesas, como "Às vezes neva em Abril"de João Santos Lopes, "que chegou a ser representada no Luxemburgo", diz. O actor conhece aliás o Grão-Ducado por ter por aqui passado integrando o elenco da peça "Festen", de Thomas Vinterberg, em 2003. Actualmente, está a traduzir uma outra peça de João Santos Lopes: é a história de dois casais com a questão da sida em pano de fundo.

O seu projecto imediato (estreia a 29 de Maio, em Nice) é "Stop the tempo", da autora romena, Gianina Carbunaru, e a que o actor quer imprimir "uma encenação cinematrogáfica de filme B", diz. A peça deve estrear em Janeiro de 2009 no Teatro des Capucins no Luxemburgo, que participa na produção. A actriz Valérie Bodson, conhecida dos palcos luxemburgueses, participa na aventura (bem como em "Faces").

Helena também já trabalhou com artistas portugueses. "A aventura com Rodrigo Leão (no álbum "Cinema", de 2004, canta dois temas) foi um acaso", relembra. O Rodrigo precisava de uma voz francesa. Ligou para o seu editor francês que achou boa ideia sugerir várias vozes, entre as quais a minha", conta. Rodrigo terá sucumbido ao charme da sua voz e fez a escolha. Quando a cantora chegou a Lisboa e se dirigiu ao compositor em português, ele ficou surpreendido e chegou a dizer-lhe: "Mas eu pedi uma francesa e mandam-me uma portuguesa?!" Finalmente foi muito positiva a participação sensual e acidulada da voz de Helena no álbum de Rodrigo Leão.

Para breve, a cantora tem dois concertos agendados para a digressão do álbum "Fraise Vanille" (2007), e está a adaptar a sua primeira peça para o cinema. Entretanto, Canal+ propos-lhe passar atrás da câmara para realizar um filme pornográfico (uma média metragem). E Paulo Correia, que não conhecia antes de "Faces", deverá ser um dos convidados para uma duas suas curtas-metragens, a que gosta de chamar "os meus pequenos filmes pop".

Contracenam ainda em "Faces", Valérie Kaprisky, François Marthouret, Valérie Bodson e Catherine Marques, entre outros.

Por esta ocasião, a Cinemateca do Luxemburgo está a propor até Julho uma retrospectiva da obra completa de John Cassavetes.

Os dois artistas confiam ter Lisboa no coração

Quando perguntamos a este filhos de emigrantes portugueses o que lhes vem directamente à ideia quando lhes falamos de Portugal, Helena Noguerra responde instintivamente "Carne de porco à alentejana!" e Paulo Correia grita "Sporting!".

Os pais de Helena são da Beira Alta: a mãe, Lena (hoje já falecida), era de Mangualde e o pai, Alberto, de Arganil. A mãe estava grávida de Helena quando fugiram os três – com a pequena Wanda (Lio, que tinha na altura seis anos) para Bruxelas, onde Helena nasceu em 1968. Emigraram não só porque o pai de Helena era opositor ao regime de Salazar, mas porque a mãe deixara o pai de Wanda, Fernando, e o divórcio era interdito durante a ditadura (segundo a biografia de Lio no seu site internet).

Paulo Correia nasceu no bairro de Benfica em 1970, mas é sportinguista como o avô. Viveu em Lisboa até aos sete anos, após o que seguiu os pais quando estes emigraram para França.

Paulo, que ainda hoje guarda "orgulhosamente", diz-nos, a nacionalidade e o passaporte portugueses, mantém contacto com a cultura portuguesa através do teatro e de amigos como João Santos Lopes, de quem já traduziu e adaptou várias peças para francês.

Tanto Helena como Paulo adoram Lisboa, sobretudo deambular pelas ruas dos bairros típicos. Hoje assumem plenamente as suas raízes. Mas nem sempre foi assim.

"Comecei por negar as minhas raízes durante muito porque em miúdo queria ser como os meus colegas na escola. Havia muitas ideias preconcebidas em relação aos portugueses e durante muitos anos eu nem quis comer bacalhau, recusava falar português e tudo o que era português, nem queria ouvir falar em coisas como a Linda de Suza", conta.

Foi graças ao filme de Wim Wenders "Lisbon Story" (1994) que Paulo ficou com vontade de redescobrir a sua Lisboa natal. "Foi um processo edipiano", analisa, "primeiro tive que romper com a cultura e o Portugal dos meus pais, para depois poder redescobrir por mim próprio as minhas raízes culturais".

Helena teve um percurso idêntico, confessa, como aliás muitos filhos de emigrantes portugueses. Mas à nossa frente, é com saudade que ambos recordam as intermináveis viagens de carro para Portugal, com os pais, quando chegavam as férias de Verão.

Helena fala português como se de um código secreto se tratasse, revela. "Falo português com o meu pai e a minha irmã quando não queremos que outras pessoas percebam. Falo com a família quando vou a Portugal, mas em França, quando me falam em português, respondo instintivamente em francês", diz. "Até aos 30 anos, conhecia apenas o Portugal dos meus pais e não me interessava muito. Um dia, fui a Lisboa para a rodagem de um filme e redescobri a cidade e Portugal", recorda.

Explica-nos ainda que a adopção do nome artístico Noguerra, em detrimento do Nogueira baptismal, não foi por ter vergonha de ser portuguesa, mas porque é mais simples de pronunciar para os franceses, que constantemente lhe deturpavam o apelido. Mas também porque gostou da ideia que veiculava: "não à guerra - no guerra" (dixit).

A pergunta espinhosa: Helena e a sua irmã, Lio

Quando lhe falamos da irmã, Lio – de seu verdadeiro nome Wanda de Vasconcelos, estrela pop dos anos 80 e actualmente um dos membros do júri do programa "La Nouvelle Star", no canal M6 –, Helena diz que, durante as entrevistas, as perguntas recorrentes sobre a irmã já não a chateiam. Mas quando nos preparamos para o fazer, começa por dizer que "não se chateia… quando a previnem!". Confessa que já ultrapassou a questão da celebridade da irmã num dos romances que escreveu e que lhe serviu de catarse.

Apesar de no início da sua carreira ter dificuldades em separar a sua imagem da da irmã, após seis álbuns, seis filmes, dois romances, passagens pela televisão (como apresentadora da M6, na emissão "Plus vite que la musique", no fim dos anos 90) e pelo teatro, ao longo de quase 20 anos de carreira ("Lunettes Noires" data de 1989), Helena Noguerra soube conquistar o seu lugar ao sol no mundo do espectáculo e afirmar o seu talento e a sua personalidade muito próprios.

Um dos sonhos que ainda alimenta é ver o seu nome em grande no cartaz luminoso do Olympia de Paris e aí apresentar um dos seus álbuns.

José Luís Correia (in Contacto, 21.05.08)

UE: Luxemburgueses são os que mais andam a pé, portugueses no fim do pelotão

UE: Luxemburgueses são os que mais andam a pé, portugueses no fim do pelotão

É comum vermos no Luxemburgo pessoas, na maioria das vezes luxemburgueses, a usufruírem aos domingos dos inúmeros trilhos pedestres e veredas florestais que abundam num país que deixa de repente de parecer tão pequeno.

Um estudo da Agência Europeia do Ambiente vem agora quantificar esses passeios e posicionar os habitantes do Luxemburgo como aqueles que mais andam a em toda a União Europeia (UE): cerca de 457 km por pessoa e por ano. A média europeia fica-se pelos 382 km/ano.

Portugal é, em contrapartida, o país da Europa onde menos se anda a , percorrendo cada português, em média, por ano, 342 km, segundo o mesmo estudo, citado a 5 de Março pela organização ambientalista portuguesa Quercus.

"Portugal apresenta o quinto pior resultado da Europa dos 27 no que diz respeito ao aumento das emissões de gases com efeito de estufa (GEE) associadas ao sector do transporte, com um aumento de 96 % (entre 1990 e 2005), só ultrapassado por países como a República Checa, Chipre, Irlanda e Luxemburgo", adianta a Quercus, citando o relatório.

"Quanto ao uso da bicicleta, Portugal ocupa o terceiro pior lugar com uma média baixíssima de apenas 29 km por pessoa / ano (cerca de 1 % da população), ao passo que nos países que apresentam melhores resultados neste indicador, os seus cidadãos usam a bicicleta para percorrer, em média, 936 km na Dinamarca ou 848 km na Holanda. A média comunitária é de 188 km por pessoa/ano", refere ainda organização ambientalista portuguesa.

Paradoxalmente, o Luxemburgo é, com 654 automóveis por cada mil habitantes, o país mais motorizado da UE.

Talvez o grande número de automóveis ou a falta de verdadeiras pistas cicláveis nos centros da maioria das cidades (a capital só há pouco tempo se dotou de algumas pistas) explique que os luxemburgueses sejam também os europeus que menos usam a bicicleta (apenas 0,6 %).

"Nós vamos passear, os outros têm de estudar..."

Os resultados estatísticos que apontam os habitantes do Luxemburgo como os europeus que mais andam a (ver artigo principal) surpreendem menos quando se sabe que os amantes da caminhada dispõem no Luxemburgo de 5.000 km e mais de 500 trilhos e caminhos balizados, fazendo do pequeno Grão-Ducado um dos países com uma das redes de passeios mais densas de toda a Europa.

A par dos 171 circuitos auto-pedestres que o Gabinete Nacional do Turismo (ONT) propõe, há também os trilhos das Pousadas de Juventude, os roteiros CFL (dos Caminhos de Ferro Luxemburgueses), os passeios transfronteiriços, sem esquecer os itinerários temáticos. Só na cidade do Luxemburgo, existem três: Wenzel, City Safari e o recém-inaugurado "Mil anos de História das Mulheres no Luxemburgo" (ver também artigo na pág. 4).

O Ministério do Turismo apresenta no seu site internet (em www.mdt.public.lu/action/infrastructure/sentiers/index.html#1 ) todo o arsenal de guias e brochuras com informações práticas sobre esses 5 mil km de caminhos.

Mas a caminhada no seio da Natureza abundante e verdejante é no Luxemburgo sobretudo um traço cultural, algo que se inculca desde cedo nas crianças como uma prática que não só faz bem à saúde como desperta nos mais novos o primeiro reflexo ecológico. É sobretudo nas escolas primárias luxemburguesas que os professores habituam os alunos desde tenra idade a passeios frequentes pelas matas e florestas que o Estado soube tão inteligentemente preservar até hoje. Tão frequentemente que inspirou a estes a conhecida cantilena infantil luxemburguesa "Mir gi spazéieren, déi aner musse léieren..." ("Nós vamos passear, os outros têm de estudar!"), que alegremente entoam quando o docente tem a boa ideia de trocar a tradicional aula por uma caminhada ("e Spazéiergang").


José Luís Correia (In Contacto, 12.03.08)

sábado, 24 de maio de 2008

Eurovision 2008: the 12 points from the luxemburgish jury go to...



Good Evening Belgrade, Luxembourg calling: The 12 points of the luxemburgish jury go to Sébastien Chabal, ...huh, sorry...we ment... Sébastien Tellier. France, who uses to be so irritating with the franco-french culture, dared this year to send a contestant singing in english. He's song 'Divine' is simply divine, too cool, full of selfderision, good rythm and good vibes.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Debate sobre o futuro do jornalismo no Luxemburgo

Recordo o debate de hoje, às 18h30, no CCRN-Abadia de Neumünster (sala A11), no Grund, cidade do Luxemburgo, subordinada à temática: "Quelles perspectives pour la presse écrite au Luxembourg?"

Com:
- Léon Zeches, director-geral do grupo editorial saint-paul luxembourg e chefe de Redacção do "Luxemburger Wort"
- Alvin Sold, director-geral do grupo editorial Editpress e chefe de Redacção do "Tageblatt"
- Claude Karger, chefe de Redacção do "Lëtzebuerger Journal"
- Aly Ruckert, chefe de Redacção do "Zeitung vum Lëtzebuerger Vollek"

Moderado por: Marco Goetz, jornalista da RTL.
Org.: por ocasião dos 60° aniversário do Lëtzebuerger Journal"

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Hoje, recepção extraordinária de livros de poesia

Tornei-me Leitor + da jovem Cosmorama Edições, da Maia, e que me merece um carinho especial porque aposta nos poetas jovens ou ainda desconhecidos do grande público. Hoje chegaram os livros a que tenho direito como membro aderente :-)))))))))))))))))))))))))))))))))))))))))

-"Horizonte e ocidente" do grande António Ramos Rosa (n. Faro, 1924)
- "Cabeças", de Pedro Marqués de Armas, um poeta cubano (n. Havana, 1965) residente em Barcelona
- "Sobre as imagens" e "O Bosque Cintilante", de Amadeu Baptista (n. Porto, 1953) (foto em baixo)
- "A Vocação dos Homens Silenciosos", de Sandra Costa (n. São Mamede de Coronado, Trofa, 1971)
- "Ao fundo do silêncio" de Rui Amaral Mendes (n. Vila Nova de Gaia, 1975)
- "Escrito em osso", de Caudio Daniel (n. São Paulo, Brasil, 1962)
- "Sobre fio de lume", de Luís Soares Barbosa
- "Zerbino", de José Rui Teixeira (n. Porto, 1974)
- "Saudade Minha-Poesias Escolhidas", de Guilherme de Faria (n. Guimarães, 1907-1929) (foto em cima)
- Colector Cosmorama "Poetas e Poéticas" n°7, sobre Guilherme de Faria e Jorge Melícias

- e o "pornografia erudita", do valter hugo mãe, que ele próprio fez a gentileza de me oferecer quando cá esteve em Abril


Amei também as capas dos livros, sóbrios e com escolha de fotografias de jovens talentos ainda ignotos, o que prova não só o bom gosto dos editores, como a aposta nas novas gerações de artistas além da fronteira da poesia (se bem que essa geografia exista ou seja mesmo desejável).

Esta foto (ao lado) é uma das minhas capas preferidas, assinada pela talentosa fotógrafa arménia Lilya Corneli (n. 1978, Yerevan, Arménia).

Depois há as da portuense Inês d'Orey (n. 1977, Porto). Aproveito para informar, à passagem, que a artista inaugura daqui a dois dias (24 Maio, às 16h) uma exposição colectiva, com Nelson d'Aires e Virgílio Ferreira (o jovem fotógrafo e não o seu homónimo o escritor, que faleceu em 1996!) na Fábrica Social/Fundação Escultor José Rodrigues, Rua da Fábrica Social, no Porto. Se morasse mais perto, passava por lá...

Há ainda fotos de Antoine Pimentel (o ex-baterista dos Belle Chase Hotel, reconvertido na fotografia?) e de Cristiana Pimenta.

Não há dúvida, vou passar um excelente resto de dia e de semana. Vou folhear, deleitar-me, ler, descobrir, perder-me...

Ah, que prazer ter um livro para ler... sorry, Nandinho!

A televisão e nós, os telespectadores, no divã!

"A promessa dos géneros televisuais: ou como vemos nós a televisão?"
é o tema de uma conferência que tem lugar hoje, pelas 18h30, na Universidade do Luxemburgo, Campus de Limpertsberg (sala 1.03, Departamento das Ciências), na cidade do Luxemburgo.
Conferencista: François Jost, professor na Universidade da Nova Sorbonne Paris III, dirige o Centro de Estudos sobre a Imagem e o Som Mediáticos (CEISME) e ensina a análise da televisão e a semiologia audiovisual.