quinta-feira, 26 de janeiro de 2012
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
Pessoa: As ideias, as sensações, a sociedade e arte
(...) As sociedades são conduzidas por agitadores de sentimentos, não por agitadores de ideias. Nenhum filósofo fez caminho senão porque serviu, em todo ou em parte, uma religião, uma política ou outro qualquer modo social do sentimento.Se a obra de investigação, em matéria social, é portanto socialmente inútil, salvo como arte e no que contiver de arte, mais vale empregar o que em nós haja de esforço em fazer arte, do que em fazer meia arte. (...)"
Fernando Pessoa,
(Notas Autobiográficas e de Autognose)
sexta-feira, 6 de janeiro de 2012
E se o Luxemburgo desaparecesse?
No romance "2129-Chasse à l'homme de l'art" (Éditions de l'officine), Enrico Lunghi imagina, no séc. XXII, um Grão-Ducado desmembrado, fazendo parte da província SarreLorLux.
Na capital grã-ducal, a Gëlle Fra foi substituída por uma estátua de Juncker, e apenas os funcionários públicos ainda falam luxemburguês. O centro da capital tornou-se uma kasbah multirracial, onde se fala mandarim, hindi e ... português. No Kirchberg, Pedro, um milionário ermita português, transformou o Mudam em palácio privado, de onde observa e manda na cidade, como se fosse o seu feudo reservado.
José Luís Correia
(in Point24-edição portuguesa, de 06/01/2012)
terça-feira, 3 de janeiro de 2012
A década de euro, e agora ?
Há exactamente 10 anos guardei os francos luxemburgueses, franceses, belgas, os marcos, as pesetas e os escudos numa gaveta, saí eufórico e fui atestar o meu carro com euros pela primeira vez. O gasóleo custava então 0,7 euros. Dez anos volvidos, vale a pena eu continuar a ser um euro-optimista?
Quando hoje criticamos o euro pela subida dos preços, um aumento atestado por todos os estudos feitos sobre o assunto, esquecemos o positivo que a moeda única trouxe.
Nunca mais tivemos que transportar meia-dúzia de porta-moedas com diferentes divisas ao viajar pela Europa, nem nunca mais fomos « roubados » no câmbio. Câmbio, aí está uma palavra que não digo há muito. Fazer parte da união económica e monetária protegeu-nos também da onda de choque da crise financeira de 2008, que chegou até nós, sim, mas muito mais tarde e já menos devastadora. Pertencermos ao euro permitiu também manter as taxas de juro baixas até 2010 e 2011, em certos países da zona euro, e isto apesar da crise.
Não esqueçamos também o prestígio que a nossa moeda comum adquiriu nos mercados internacionais, graças ao seu equilíbrio e ao peso político da Europa. Hoje o euro está ligado a 42 países do mundo : os 17 países da zona euro ; os seis estados europeus não-comunitários que adoptaram o euro como moeda principal ou segunda moeda nacional ; e 19 países africanos (entre eles, Cabo Verde) e do Pacífico, que ligaram a sua moeda ao euro. O sucesso do euro fez até com que seis países do Golfo Pérsico se pusessem a pensar em criar uma moeda comum, que os libertasse do « dólar ».
Mas, passada a década de e(o)uro dos anos dois mil, a nossa moeda enfrenta agora, no início dos anos dez, uma grande crise, a « Grande Recessão », como lhe chamam já alguns economistas. A forma como vai ser resolvida esta crise, nos próximos meses e anos, vai reforçar ou fragilizar irremediavelmente a UE. O presidente do Eurogrupo, Jean-Claude Juncker, bem o clama : « A crise não é do euro, é de países como Portugal e Grécia », e é para esse problema que é preciso encontrar uma solução.
Há os que são apologistas da « solução islandesa ». A Islândia, que viveu a falência do Estado em 2008, conseguiu reerguer-se, após três anos de rigor. Num momento em que a UE enfrenta 2012 ainda em recessão, a pequena ilha aponta para um crescimento económico de 3%. Qual é o milagre de Reykjavik ? O Estado islandês decidiu não salvar os bancos em crise, exactamente o contrário do que fez a UE. Melhor, o Estado islandês decidiu não salvar os accionistas, mas proteger os clientes. Mas fazer isso a nível europeu teria um efeito de contágio entre bancos, o que só contribuiria para alastrar ainda mais a crise.
Para escapar à crise da zona euro, há países que já equacionaram abandonar o euro e voltar às suas antigas moedas fortes nacionais, para se protegerem das turbulências dentro da eurozona . Outros falam em expulsar do grupo os maus alunos, como Atenas e Lisboa, e os que se seguirem. É a proposta Merkozy. Economistas como Barry Eichengreen (“The Breakup of the Euro Area », 2007), da Universidade de Berkeley, ou Michel Dévoluy (« L’euro est-il un échec ? », 2011), da Universidade de Estrasburgo, imaginaram o que poderia suceder se isso viesse a acontecer e ambos afirmam que a saída forçada do euro teria consequências nefastas para um estado-membro, mas também para a UE.
Quer seja a Grécia, Portugal ou outro país, regressar, neste contexto de crise, à moeda nacional significaria forçosamente desvalorizar a divisa, e viver-se-ia uma corrida desenfreada aos bancos por parte dos clientes, que não quereriam perder poder de compra. O que poderia conduzir à fragilização ou mesmo à falência de alguns bancos. Acrescente-se a isso uma forte inflação, fuga dos investidores, aumento das taxas de juro. Se a dívida fosse reestruturada (como fez a Argentina em 2002), por forma a que 1 euro passasse a valer, por exemplo, 20 escudos, em vez de 200 (fosse isso sequer possível !), a medida poderia parecer benéfica para o país, num primeiro tempo, porque diminuiria artificialmente a dívida, mas custar-lhe-ia a credibilidade junto dos mercados financeiros, e a economia sofreria uma forte travagem. O regresso à divisa nacional custaria também extremamente caro em: fabrico da nova moeda fiduciária, a sua colocação em circulação, reconversão de todo o sistema monetário e financeiro, a redefinição de uma política monetária nacional. Recordemos o tempo e o dinheiro que custou a introdução do euro. A conversão de todos os preços e salários, só por si, poderia levar a tensões sociais ainda mais graves do que as que o país enfrenta hoje. E o élan nacional pretendido não aconteceria.
Nas relações exteriores, entre o estado « expulso » da zona euro e os que o teriam deixado à sua sorte, poderiam mesmo nascer tensões e novos nacionalismos, desaparecidos desde o séc. XIX e XX. O país expulso poderia mostrar-se cada vez mais reticente também em aceitar o controlo da UE e , in fine, poderia até decidir sair da UE. É verdade que hoje há estados-membros dentro da UE e fora do euro, mas são-no por opção e sem contenciosos pelo meio. A saída forçada ou voluntária do euro seria profundamente negativa para a imagem da moeda única e da UE. A força e o prestígio da UE e da sua divisa vêm-lhe sobretudo da imagem de equilíbrio económico, geopolítico e de ajuda mútua que os seus estados-membros devem uns aos outros.
Para Dévoluy pode vir a ser decidida uma divisão da Eurozona em dois grupos. Por um lado, estados que optassem por uma governância económica comum e mais federalismo. Por outro, estados que regressassem às suas moedas nacionais. Mas esta Europa a duas velocidades, decidida em época de crise, poderia ser vista como a tentativa de salvar os bons alunos e de ostracizar os maus, o que descredibilizaria a UE.
Dévoluy considera que uma das soluções à crise do euro é mais federalismo, mas isso implica um novo paradigma político para a UE, mais do que propriamente económico. Dévoluy preconiza a troca da doutrina néoliberal da UE por uma « ordoliberal » , i.e., uma doutrina económica baseada na estabilidade dos preços e na « virtude orçamental ». Ou seja, liberal, mas com ordem, com regras, que evitem as derivas dos mercados. Foi esta « terceira via », situada a meio caminho entre o socialismo e o capitalismo, que permitiu “o milagre económico alemão » após a Segunda Guerra Mundial.
Mas a actual posição do Reino Unido, que bloqueou a possibilidade de uma maior governância económica comum, parece ter deixado o euro num impasse.
Tanto Eichengreen como Dévoluy alertam: é preciso salvar o euro, porque o seu fim provocaria a maior de todas as crises, e até conduzir ao fim da UE.
José Luís Correia
in CONTACTO, 04/01/2012
Quando hoje criticamos o euro pela subida dos preços, um aumento atestado por todos os estudos feitos sobre o assunto, esquecemos o positivo que a moeda única trouxe.
Nunca mais tivemos que transportar meia-dúzia de porta-moedas com diferentes divisas ao viajar pela Europa, nem nunca mais fomos « roubados » no câmbio. Câmbio, aí está uma palavra que não digo há muito. Fazer parte da união económica e monetária protegeu-nos também da onda de choque da crise financeira de 2008, que chegou até nós, sim, mas muito mais tarde e já menos devastadora. Pertencermos ao euro permitiu também manter as taxas de juro baixas até 2010 e 2011, em certos países da zona euro, e isto apesar da crise.
Não esqueçamos também o prestígio que a nossa moeda comum adquiriu nos mercados internacionais, graças ao seu equilíbrio e ao peso político da Europa. Hoje o euro está ligado a 42 países do mundo : os 17 países da zona euro ; os seis estados europeus não-comunitários que adoptaram o euro como moeda principal ou segunda moeda nacional ; e 19 países africanos (entre eles, Cabo Verde) e do Pacífico, que ligaram a sua moeda ao euro. O sucesso do euro fez até com que seis países do Golfo Pérsico se pusessem a pensar em criar uma moeda comum, que os libertasse do « dólar ».
Mas, passada a década de e(o)uro dos anos dois mil, a nossa moeda enfrenta agora, no início dos anos dez, uma grande crise, a « Grande Recessão », como lhe chamam já alguns economistas. A forma como vai ser resolvida esta crise, nos próximos meses e anos, vai reforçar ou fragilizar irremediavelmente a UE. O presidente do Eurogrupo, Jean-Claude Juncker, bem o clama : « A crise não é do euro, é de países como Portugal e Grécia », e é para esse problema que é preciso encontrar uma solução.
Há os que são apologistas da « solução islandesa ». A Islândia, que viveu a falência do Estado em 2008, conseguiu reerguer-se, após três anos de rigor. Num momento em que a UE enfrenta 2012 ainda em recessão, a pequena ilha aponta para um crescimento económico de 3%. Qual é o milagre de Reykjavik ? O Estado islandês decidiu não salvar os bancos em crise, exactamente o contrário do que fez a UE. Melhor, o Estado islandês decidiu não salvar os accionistas, mas proteger os clientes. Mas fazer isso a nível europeu teria um efeito de contágio entre bancos, o que só contribuiria para alastrar ainda mais a crise.
Para escapar à crise da zona euro, há países que já equacionaram abandonar o euro e voltar às suas antigas moedas fortes nacionais, para se protegerem das turbulências dentro da eurozona . Outros falam em expulsar do grupo os maus alunos, como Atenas e Lisboa, e os que se seguirem. É a proposta Merkozy. Economistas como Barry Eichengreen (“The Breakup of the Euro Area », 2007), da Universidade de Berkeley, ou Michel Dévoluy (« L’euro est-il un échec ? », 2011), da Universidade de Estrasburgo, imaginaram o que poderia suceder se isso viesse a acontecer e ambos afirmam que a saída forçada do euro teria consequências nefastas para um estado-membro, mas também para a UE.
| Foto:Anouk Antony/LW |
Quer seja a Grécia, Portugal ou outro país, regressar, neste contexto de crise, à moeda nacional significaria forçosamente desvalorizar a divisa, e viver-se-ia uma corrida desenfreada aos bancos por parte dos clientes, que não quereriam perder poder de compra. O que poderia conduzir à fragilização ou mesmo à falência de alguns bancos. Acrescente-se a isso uma forte inflação, fuga dos investidores, aumento das taxas de juro. Se a dívida fosse reestruturada (como fez a Argentina em 2002), por forma a que 1 euro passasse a valer, por exemplo, 20 escudos, em vez de 200 (fosse isso sequer possível !), a medida poderia parecer benéfica para o país, num primeiro tempo, porque diminuiria artificialmente a dívida, mas custar-lhe-ia a credibilidade junto dos mercados financeiros, e a economia sofreria uma forte travagem. O regresso à divisa nacional custaria também extremamente caro em: fabrico da nova moeda fiduciária, a sua colocação em circulação, reconversão de todo o sistema monetário e financeiro, a redefinição de uma política monetária nacional. Recordemos o tempo e o dinheiro que custou a introdução do euro. A conversão de todos os preços e salários, só por si, poderia levar a tensões sociais ainda mais graves do que as que o país enfrenta hoje. E o élan nacional pretendido não aconteceria.
Nas relações exteriores, entre o estado « expulso » da zona euro e os que o teriam deixado à sua sorte, poderiam mesmo nascer tensões e novos nacionalismos, desaparecidos desde o séc. XIX e XX. O país expulso poderia mostrar-se cada vez mais reticente também em aceitar o controlo da UE e , in fine, poderia até decidir sair da UE. É verdade que hoje há estados-membros dentro da UE e fora do euro, mas são-no por opção e sem contenciosos pelo meio. A saída forçada ou voluntária do euro seria profundamente negativa para a imagem da moeda única e da UE. A força e o prestígio da UE e da sua divisa vêm-lhe sobretudo da imagem de equilíbrio económico, geopolítico e de ajuda mútua que os seus estados-membros devem uns aos outros.
Para Dévoluy pode vir a ser decidida uma divisão da Eurozona em dois grupos. Por um lado, estados que optassem por uma governância económica comum e mais federalismo. Por outro, estados que regressassem às suas moedas nacionais. Mas esta Europa a duas velocidades, decidida em época de crise, poderia ser vista como a tentativa de salvar os bons alunos e de ostracizar os maus, o que descredibilizaria a UE.
Dévoluy considera que uma das soluções à crise do euro é mais federalismo, mas isso implica um novo paradigma político para a UE, mais do que propriamente económico. Dévoluy preconiza a troca da doutrina néoliberal da UE por uma « ordoliberal » , i.e., uma doutrina económica baseada na estabilidade dos preços e na « virtude orçamental ». Ou seja, liberal, mas com ordem, com regras, que evitem as derivas dos mercados. Foi esta « terceira via », situada a meio caminho entre o socialismo e o capitalismo, que permitiu “o milagre económico alemão » após a Segunda Guerra Mundial.
Mas a actual posição do Reino Unido, que bloqueou a possibilidade de uma maior governância económica comum, parece ter deixado o euro num impasse.
Tanto Eichengreen como Dévoluy alertam: é preciso salvar o euro, porque o seu fim provocaria a maior de todas as crises, e até conduzir ao fim da UE.
José Luís Correia
in CONTACTO, 04/01/2012
segunda-feira, 2 de janeiro de 2012
sexta-feira, 30 de dezembro de 2011
quinta-feira, 29 de dezembro de 2011
Duas actrizes que sigo com muito interesse
Emma Stone, 23 anos, vista em "Easy A" (2010) e "Friends with Benefits" (2011)
Jayma Mays , 32 anos, vista em "Heroes" (2006-2010) e "Glee" (2009-)
Jayma Mays , 32 anos, vista em "Heroes" (2006-2010) e "Glee" (2009-)
sábado, 24 de dezembro de 2011
Natal 1979, Luxemburgo
Um manto alvo cobre generosamente Rodange, e os moradores desbastaram a neve do chão criando grandes montes sujos de branco e negro entre o passeio e a estrada. Avisto a escola ao longe, mas estou feliz por estar de férias, e imagino que aqueles montes são os Himalaias gélidos e eu um intrépido explorador. Subo ao tecto do mundo e avisto o fundo da rua, onde moro, e calculo que a jornada vai demorar pelos menos mais algumas semanas. Escorrego numa ravina traiçoeira abaixo e a luta pela sobrevivência começa. Chego a casa sujo e molhado, com o nariz empendernido e vermelho, com medo da tareia que adivinho. Mas assim que entro em casa paira um agradável odor a filhozes, a leite quente com noz moscada.
Quando era criança, a época natalícia em minha casa começava muitas semanas antes da data festiva. A minha mãe cozinhava dias inteiros para fazer filhoses e outros doces. Fazia travessas e travessas. Dava para partilhar com os vizinhos, com os primos e cheguei até a levar para a escola, num dia em que tivemos que apresentar as tradições natalícias dos países de onde éramos originários. Os meus colegas de turma luxemburgueses faziam caretas ao pronunciarem a palavra “fi-lô-séch”, mas só à primeira, porque depois de provarem a pronúncia vinha-lhes com mais naturalidade.
Mais tarde, descobri que essas nuvens retorcidas, estaladiças e generosamente polvilhadas de açúcar em pó, que no Alentejo de onde a minha mãe é originária, se chamam filhoses, têm noutras terras portuguesas o nome de coscorõese, e podem ter as mais variadas formas e ingredientes.
Eu gostava de ver a minha mãe a cozinhar longas horas. Em casa, durante semanas pairavam aromas adocicados, que tornavam o Inverno luxemburguês lá fora menos frio.
Na noite da consoada, a casa enchia-se de família e amigos, risos e conversas soltas. Havia lombo assado e batatas no forno, sonhos, coscorões, Dom Rodrigos e pastéis de batata doce algarvios, e o meu pai servia o seu melhor Medronho, trazido secretamente no Verão anterior, escondido no fundo falso de uma mala de cartão para escapar aos agentes das alfândegas.
in "Diário Incidental"
Weimeriskirch, 24.12.2011
(foto: JLC)
Quando era criança, a época natalícia em minha casa começava muitas semanas antes da data festiva. A minha mãe cozinhava dias inteiros para fazer filhoses e outros doces. Fazia travessas e travessas. Dava para partilhar com os vizinhos, com os primos e cheguei até a levar para a escola, num dia em que tivemos que apresentar as tradições natalícias dos países de onde éramos originários. Os meus colegas de turma luxemburgueses faziam caretas ao pronunciarem a palavra “fi-lô-séch”, mas só à primeira, porque depois de provarem a pronúncia vinha-lhes com mais naturalidade.
Mais tarde, descobri que essas nuvens retorcidas, estaladiças e generosamente polvilhadas de açúcar em pó, que no Alentejo de onde a minha mãe é originária, se chamam filhoses, têm noutras terras portuguesas o nome de coscorõese, e podem ter as mais variadas formas e ingredientes.
Eu gostava de ver a minha mãe a cozinhar longas horas. Em casa, durante semanas pairavam aromas adocicados, que tornavam o Inverno luxemburguês lá fora menos frio.
Na noite da consoada, a casa enchia-se de família e amigos, risos e conversas soltas. Havia lombo assado e batatas no forno, sonhos, coscorões, Dom Rodrigos e pastéis de batata doce algarvios, e o meu pai servia o seu melhor Medronho, trazido secretamente no Verão anterior, escondido no fundo falso de uma mala de cartão para escapar aos agentes das alfândegas.
in "Diário Incidental"
Weimeriskirch, 24.12.2011
(foto: JLC)
Rótulo :
caderno de iti,
diário incidental,
GASPAR
sexta-feira, 23 de dezembro de 2011
Le Monde designa artista chinês Ai Weiwei como personalidade de 2011
O jornal francês Le Monde elegeu hoje o artista dissidente chinês Ai
Weiwei a personalidade de 2011, num ano em que os protagonistas foram
“as revoltas”.
O Le Monde destacou que mais do que ser uma “estrela da arte contemporânea, como Damien Hirst, Jeff Koons ou Maurizio Cattelan”, o artista chinês converteu-se no “arauto de uma nova dissidência que se expressa, sobretudo, através da Internet”.
“Como os anónimos de Tunis e do Cairo, os ‘indignados’ de Madrid ou Wall Street, Ai Weiwei representa, à sua maneira, lúdica e rebelde, o impulso que leva um homem sem qualidade a converter-se no sujeito da sua própria história”, resumiu o jornal.
O artista chinês realizou este ano uma exposição na Modern Tate de Londres e em abril foi detido quando se preparava para deixar a China, tendo ficado preso durante três meses, o que desencadeou uma onda de indignação e de solidariedade por todo o mundo.
Depois de libertado, foi acusado de fraude fiscal e
intimado pelo fisco chinês a pagar 1,7 milhões de euros, mas conseguiu
recorrer pagando cerca de metade do valor através de milhares de
doações. O artista tem afirmado que o imposto foi uma forma de o
silenciar.
Em outubro, Ai Weiwei, 54 anos, foi eleito a personalidade do ano mais influente do mundo da arte pela revista britânica Art Review.
Em 2010, o Le Monde elegeu o australiano Julian Assange, fundador do portal Wikileaks, como figura do ano. Um ano antes, em 2009, foi o ex-presidente do Brasil Luiz Inácio Lula da Silva quem inaugurou a distinção anual do diário francês.
O Le Monde destacou que mais do que ser uma “estrela da arte contemporânea, como Damien Hirst, Jeff Koons ou Maurizio Cattelan”, o artista chinês converteu-se no “arauto de uma nova dissidência que se expressa, sobretudo, através da Internet”.
“Como os anónimos de Tunis e do Cairo, os ‘indignados’ de Madrid ou Wall Street, Ai Weiwei representa, à sua maneira, lúdica e rebelde, o impulso que leva um homem sem qualidade a converter-se no sujeito da sua própria história”, resumiu o jornal.
O artista chinês realizou este ano uma exposição na Modern Tate de Londres e em abril foi detido quando se preparava para deixar a China, tendo ficado preso durante três meses, o que desencadeou uma onda de indignação e de solidariedade por todo o mundo.
Em outubro, Ai Weiwei, 54 anos, foi eleito a personalidade do ano mais influente do mundo da arte pela revista britânica Art Review.
Em 2010, o Le Monde elegeu o australiano Julian Assange, fundador do portal Wikileaks, como figura do ano. Um ano antes, em 2009, foi o ex-presidente do Brasil Luiz Inácio Lula da Silva quem inaugurou a distinção anual do diário francês.
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
Aníbal Coimbra, um campeão do mundo ignorado na Gala da Sportpress
Aníbal Coimbra coloca bem alto as cores da bandeira luxemburguesa e do seu clube, o Hamm, cada vez que compete no estrangeiro, que arrecada uma medalha, que bate um record, que brilha nos rankings internacionais. O nome é português, mas o hino que soa nos pódios dos quatro cantos do Mundo é luxemburguês.
O tondelense venceu já 14 títulos de campeão do Luxemburgo. 14! Seguiram-se os de campeão da Grande Região, e de campeão da Europa em 2007 e 2010. Em Novembro conseguiu, entre a elite mundial da modalidade, o título de campeão do Mundo.
No entanto, os seus feitos continuam a ser ignorados pelos responsáveis que dizem representar e dignificar o mundo do desporto no Luxemburgo.
O exemplo mais gritante foi a gala promovida pelos jornalistas da imprensa desportiva luxemburguesa "Sportpress", que teve lugar a 8 de Dezembro, em Mondorf (ver edição do CONTACTO de 14/12/2011), na qual estes distinguem anualmente os "melhores desportistas do ano no Luxemburgo". Em anos anteriores, ignoraram o palmarés nacional e europeu de Aníbal Coimbra. Este ano, o título de campeão mundial parece também não ter pesado!?...
Sem desprimor para os galardoados deste ano da Sportpress – entre os quais Andy Schleck (2° na Volta à França em Bicicleta em 2011), a tenista Mandy Minella (n°110 mundial) e a Selecção Luxemburguesa de Futebol (n°127 mundial) –, penso que não deviam ter esquecido Aníbal Coimbra. Afinal trata-se de um campeão mundial. A não ser que os prémios sejam apenas para "os melhores luxemburgueses do ano". Nuance difícil de entender para quem tanto prestígio traz ao Grão-Ducado. Ou foi esquecimento? O que é pior?
Talvez para reparar a injustiça, a Federação Luxemburguesa de Powerlifting resolveu homenagear o atleta português, uma semana depois da gala da Sportpress. Mas o ministro dos Desportos não se deslocou, como o fizera para a Sportpress, enviou um representante. Na gala da Sportpress estiveram presentes 700 convidados. Na discreta cerimónia de Aníbal, cerca de 30.
Em Novembro, a CCPL não esqueceu Aníbal Coimbra e distinguiu-o com um merecido Prémio Personalidade. Da comunidade, o atleta já tem o reconhecimento. Falta agora recebê-la das instâncias nacionais do Luxemburgo.
José Luís Correia
Foto: Á. Cruz
in CONTACTO, 21/12/2011
quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
Descobertos os dois mais pequenos planetas fora do Sistema Solar, em Kepler 20
Astrónomos descobriram os dois mais pequenos planetas fora do Sistema
Solar, com dimensões semelhantes às da Terra e a orbitar uma estrela
parecida com o Sol, revela esta semana a revista científica Nature, citada
pelas agências internacionais.
O método de precisão usado permitiu à sonda norte-americana Kepler, da NASA, detectar os pequenos exoplanetas [planetas fora do sistema solar], que orbitam uma estrela baptizada Kepler 20.
O diâmetro de um dos pequenos planetas ultrapassa pouco mais (três por cento) o da Terra e o do outro é ligeiramente mais pequeno (três por cento) que o do ‘planeta azul’.
Bem mais próximos da sua estrela do que a Terra do Sol, os dois novos exoplanetas percorrem a sua órbita em menos de uma semana ou um mês. São rochosos como a Terra, mas as suas temperaturas à superfície são demasiado elevadas para permitir vida como a conhecemos.
O sistema extra-solar da estrela Kepler 20, situado a mil anos-luz da Terra, inclui mais três planetas, maiores, com tamanho similar ao de Neptuno.
Mais de 500 exoplanetas descobertos e confirmados desde 1995, mas a vida é apenas possível em... 3
De acordo com os astrónomos, actualmente apenas três exoplanetas se encontram na “zona habitável” (goldilock zone), onde a água pode ser detectada em estado líquido e, desta forma, a vida, como a conhecemos, ser possível: Kepler 22, a cerca de 600 anos-luz da Terra, e Gliese 581d e HD 85512b, a dezenas de anos-luz da Terra.
Lançada em Março de 2009, a sonda Kepler tem por missão observar mais de cem mil estrelas semelhantes ao Sol, visando a detecção de "exoplanetas-irmãos" da Terra susceptíveis de acolher vida.
A sonda já descobriu 28 exoplanetas e recenseou 3.326 “planetas candidatos”, que continuam por confirmar por outros métodos.
Fontes: NASA e LUSA
O método de precisão usado permitiu à sonda norte-americana Kepler, da NASA, detectar os pequenos exoplanetas [planetas fora do sistema solar], que orbitam uma estrela baptizada Kepler 20.
O diâmetro de um dos pequenos planetas ultrapassa pouco mais (três por cento) o da Terra e o do outro é ligeiramente mais pequeno (três por cento) que o do ‘planeta azul’.
Bem mais próximos da sua estrela do que a Terra do Sol, os dois novos exoplanetas percorrem a sua órbita em menos de uma semana ou um mês. São rochosos como a Terra, mas as suas temperaturas à superfície são demasiado elevadas para permitir vida como a conhecemos.
O sistema extra-solar da estrela Kepler 20, situado a mil anos-luz da Terra, inclui mais três planetas, maiores, com tamanho similar ao de Neptuno.
Mais de 500 exoplanetas descobertos e confirmados desde 1995, mas a vida é apenas possível em... 3
De acordo com os astrónomos, actualmente apenas três exoplanetas se encontram na “zona habitável” (goldilock zone), onde a água pode ser detectada em estado líquido e, desta forma, a vida, como a conhecemos, ser possível: Kepler 22, a cerca de 600 anos-luz da Terra, e Gliese 581d e HD 85512b, a dezenas de anos-luz da Terra.
Lançada em Março de 2009, a sonda Kepler tem por missão observar mais de cem mil estrelas semelhantes ao Sol, visando a detecção de "exoplanetas-irmãos" da Terra susceptíveis de acolher vida.
A sonda já descobriu 28 exoplanetas e recenseou 3.326 “planetas candidatos”, que continuam por confirmar por outros métodos.
Fontes: NASA e LUSA
sábado, 17 de dezembro de 2011
sexta-feira, 16 de dezembro de 2011
As últimas revelações sobre as Pirâmides do Egipto - um filme de Patrice Pooyard
Este filme de 2011, de uma equipa francesa, narrado em inglês, fala das novas revelações matemáticas descobertas nas Grande Piramide de Khéops (construida há + de 4 mil anos) e de uma possível mensagem que esta pode incluir. Além de Pi e do número de ouro, a pirâmide integraria o valor da velocidade da luz, o valor do metro (invenção do séc. XVIII) entre outras revelações ... A ver, e depois cada um tira as suas conclusões.
Um filme de Patrice Pooyard, baseado num livro de Jacques Grimault.
sábado, 10 de dezembro de 2011
Elisabeth Cardoso fala com vinte personalidades francesas sobre a morte
Em "Espérance de Vie" (Esperança de Vida), editado em Novembro pelas "Presses du Châtelet", Elisabeth Cardoso conversou com 20 individualidades francesas sobre a morte: Raymond Aubrac, Etienne-Emile Baulieu, Philippe Bouvard, Christian Cabrol, Gisèle Casadesus, Thérèse Clerc, François de Closets, Alain Decaux, Danièle Delorme, Jacques Duquesne, Josy Eisenberg, Albert Jacquard, Bernard Joinet, Amadou-Mahtar M'Bow, René de Obaldia, Monique Pelletier, Rémy Robinet-Duffo, Claude Sarraute, Frédérick Tristan e Michel Wagner. O mais "jovem" tem 78 anos, a mais idosa, 98. Todos já ultrapassaram a "esperança média de vida".
Elisabeth Cardoso Jordão nasceu em Esch/Alzette há 38 anos, de pais alentejanos. Fez os estudos universitários em França, depois ingressou na carreira diplomática luxemburguesa, primeiro na Direcção da Cooperação ao Desenvolvimento (responsável por Cabo Verde e pelas relações multilaterais) e depois como n°2 da Embaixada do Luxemburgo em Paris. Desde Setembro, trabalha na OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económicos), em Paris, como "policy analyst".
Quando lhe perguntamos porque razão optou por escrever um livro sobre a morte, algo tão longe do seu universo profissional, e logo no seu livro de estreia, responde: "É a primeira pergunta que todos me fazem, como se fosse uma coisa estranha falar da morte. Ninguém pode dizer que nunca pensa nela, sem que isso queira dizer que está obcecado pelo tema. Quis fazer um livro com questões simples, mas que fale do medo da morte e do sentido da vida. Quando ouço falar em 'esperança média de vida', pergunto-me como se sentirão as pessoas que atingiram essa idade, e que, estatisticamente, deveriam estar a morrer? Como conseguem viver com a ideia que chegaram ao fim da vida, que vai acabar? Têm medo? E se têm, como fazem? Partiu daí a ideia do livro", conta.
O painel de entrevistados surgiu naturalmente. "O conceito era entrevistar pessoas de horizontes diversos que atingiram ou ultrapassaram a idade da esperança média de vida. Eu vivo em França e pareceu-me mais prático entrevistar personalidades francesas. A ideia inicial era misturar anónimos e famosos, mas por razões comerciais o editor achou que o livro devia conter só famosos. No final, consegui mesmo assim introduzir uma ou outra pessoa que não é conhecida do grande público."
Elisabeth diz ter escrito a uma centena de personalidades e estas 20 foram as que lhe responderam. São actores, políticos, intelectuais, artistas, jornalistas, cientistas. Alguns são ateus, outros agnósticos, há católicos praticantes e não praticantes, judeus (entre eles, um rabino) e muçulmanos. "Eu queria saber se com a idade a vida assume um certo sentido, e perguntar quais são as lições que as pessoas tiraram da vida, o que as fez feliz. Era essencial ter o maior número possível de pontos de vista: homens, mulheres, ateus e crentes, de religiões diferentes e das profissões mais diversas."
E a autora, pensa frequentemente na morte?, queremos saber. "Regularmente pergunto-me a mim mesma: estás a agir e a viver de maneira a não te arrependeres de nada quando morreres, ou quando as pessoas de quem gostas morrerem? Hoje, tenho menos medo da minha morte do que da dos meus próximos. Mas penso que quando chegar o momento de morrer, vou estar aterrorizada. O Albert Jacquard [ um dos entrevistados no livro, n.d.R. ] fala do 'prazer da lucidez'. Não gosto nada da ideia de ter que morrer, mas também não quero mentir-me a mim mesma. Sei que não vou escapar, então prefiro enfrentar a ideia e preparar-me para as coisas que posso prever (enterro, doação de órgãos, etc.), para depois já não precisar de pensar nelas. Falo sobre a minha morte com facilidade se penso nela, ou se me vejo confrontada com a morte dos outros. Mas, por vezes, o mais difícil não é falar, é encontrar uma pessoa que esteja à vontade para ouvir, dialogar. Até posso rir da morte. Mas francamente, a maior parte do tempo, penso e faço mil outras coisas. Vivo, simplesmente."
Este livro não foi, diz Elisabeth, uma busca existencial, mas admite que as suas próprias convicções saíram reforçadas. "A expressão 'busca existencial' tem uma conotação quase filosófica e um pouco grandíloqua. O meu objectivo não era encontrar respostas. Era mais curiosidade por ver como pensam os outros. Nesse sentido, foi um exercício muito interessante. Eu tenho a minha própria visão e as minhas convicções sobre a morte em geral, e a minha em particular. As respostas dos entrevistados, de uma certa maneira, fortaleceram nas minhas convicções. E talvez esteja um pouco mais serena por ver que se pode ser muito velho sem se estar desesperado, e que não vale a pena passar muito tempo a angustiar-se porque isso não muda nada."
Das entrevistas percebeu ainda que se a morte ainda é um tabu, também o é porque há medo e sofrimento ligados a esta.
"Ninguém sabe muito bem o que dizer a um adulto que tem medo ou que sofre além de 'deixa lá, isso vai arranjar-se', ou 'é a vida!'. Como não sabemos como reagir, sentimo-nos desconfortáveis e preferimos fugir à conversa, virar as costas, não pensar mais nisso. E isso, é tabu. É humano. Penso que confessar que se tem medo não é uma fraqueza, pelo contrário. E acho que aqueles que têm medo devem poder encontrar um ouvido que os ouça."
Stéphane Hessel, que assina o prefácio do livro de Elisabeth, conclui que a diversidade destas entrevistas mostra que "a morte não é uma, mas múltipla". "E o que pode a morte trazer-nos?", questiona Hessel. E responde, citando Goethe: "Mehr Licht!" (Mais luz!).
No Luxemburgo, o livro faz parte do catálogo da Livraria Ernster.
José Luís Correia
in CONTACTO, 07/11/2011
sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
Paulo Lobo lança hoje livro sobre arquitectura luxembuirguesa
O fotógrafo português residente no Luxemburgo Paulo Lobo lança hoje um novo livro, intitulado "12 bâtiments remarquables au Luxembourg" (12 edifícios de excepção no Luxemburgo).
Com o prefácio do historiador Robert Philippart, o livro apresenta uma selecção de 12 edifícios de excepção, castelos, cidades burguesas, fábricas e outros edifícios emblemáticos do Grão-Ducado do Luxemburgo. Um olhar fotográfico original, atento tanto às formas como aos materiais presentes na história. Um livro agradável que vai deliciar todos os amantes da história e da arquitectura.
Os 12 edifícios são o castelo de Vianden, o Liceu Clássico de Echternach, o castelo de Bourglinster, o castelo de Beggen, a Gare da cidade do Luxemburgo, a Villa Pauly, a Villa Louvigny, o castelo de Ansembourg, o castelo de Hollenfels, os "Rackés Millen", o moinho de Asselborn e a abadia de Saint-Maurice.
O Grão-Ducado está repleto de edifícios históricos que carregam consigo o testemunho de uma época, de um génio construtivo e de um estilo de vida que se perde no tempo. O livro "12 bâtiments remarquables au Luxembourg" é um reflexo de 12 manifestações vivas do património arquitectónico que se oferecem a uma revisita original, com um olhar fotográfico e contemplativo.
Os leitores são convidados a uma verdadeira passeata através de imagens reais em torno desses edifícios emblemáticos. Do majestático castelo de Vianden até aos recônditos da Villa Pauly, passando pela trepidação diária da estação central da capital, estes edifícios, públicos ou privados, industriais ou sagrados, fazem indubitavelmente parte da memória colectiva do país. Construídos para durar, foram postos à prova durante séculos e transmitidos de geração em geração, com maior ou menor respeito, maior ou menor integridade.
Hoje, os edifícios antigos são um legado de valor inestimável. A sua salvaguarda é certamente um investimento para o futuro, mas não basta preservar estas construções em termos materiais: é necessário também saber ver e ouvi-las. Este livro é tanto uma homenagem aos construtores do passado, como uma redescoberta poética de edifícios carregados de significado e vida.
Paulo Lobo nasceu em Portugal em 1964 mas vive no Luxemburgo desde os seis anos. Fascinado desde sempre pela fotografia, Lobo desenvolveu o seu olhar fotográfico principalmente como um autodidacta. Conta já com uma série de exposições individuais e colectivas. Desde 2007 trabalha como repórter e fotógrafo para a empresa LuxEdit.
"12 bâtiments remarquables au Luxembourg" está escrito em francês, alemão e inglês e encontra-se disponível a partir desta sexta-feira em qualquer livraria do Luxemburgo.
Henrique de Burgo
in CONTACTO
07/11/2011
quinta-feira, 8 de dezembro de 2011
Quo Vadis Europa?
Sopram ventos perigosos sobre a Europa. Parafraseando Nixon: "Isto vai piorar, antes de melhorar". Não é muito inteligente, mas ele acertou. Falava em 1969 e referia-se à guerra do Vietname, e efectivamente esta só viria a terminar seis anos depois, no que foi o maior desaire militar da história dos EUA.
Esperemos que o sonho europeu – esta União Europeia, que germinou na vontade e no espírito de grandes homens como Robert Schuman, Jean Monet, Paul Henri Spaak, que anos mais tarde outros da mesma estirpe, a exemplo de Jean-Claude Juncker, aceitaram como testemunho e ousaram levar ainda mais longe, essa União que actualmente reúne numa só comunidade mais de 500 milhões de europeus, facto por si já histórico e exemplar, porque conseguido por mútuo acordo entre 27 estados independentes –, não se transforme no maior desaire do velho continente.
A coisa vai por maus caminhos se deixarmos cegamente o casal Merkel-Sarkozy, que muitos já apelidam de "Merkozy", conduzir a Europa como pretendem. Os dois sonham-se nos novos Mitterand e Kohl, os pilares do novo eixo Paris-Berlim, e querem ditar à UE o caminho a seguir. Argumentando ser esta a resposta para fazer face à crise da dívida, em que estão mergulhados muitos países europeus e que ameaça outros, esse monstro "Merkozy" anunciou na segunda-feira que quer ver aprovado até Março um novo tratado europeu que risque do mapa o Tratado de Lisboa e inclua sanções automáticas para os países cujo défice ultrapasse 3 % do PIB. Um tratado a assinar a 27, com todos os estados-membros da União. Ou mesmo a 17, com os países da zona euro. O que é preciso é arranjar à pressa um tratado que reuna "os bons alunos" de um lado e "arrume" os maus do outro. Na sexta-feira, Merkozy apresenta o projecto aos 27 estados-membros, em Bruxelas. O Tratado Merkozy prevê também uma nova governância para a zona euro, no que é uma forma não-dissimulada de eliminar do tabuleiro político europeu um dos únicos governantes a ousar fazer-lhe frente: Jean-Claude Juncker, actual presidente do Eurogrupo.
Muito cedo nesta crise do euro, em Dezembro de 2010, Juncker preconizou outra solução: a criação de títulos de dívida soberana europeus, os chamados "eurobonds". A ideia foi recusada em uníssono por Berlim e Paris, mas elogiada pelo Prémio Nobel da Economia, Paul Krugman. E há cada vez mais adeptos da ideia de Juncker. Uma das últimas é a deputada Ana Drago (Bloco de Esquerda).
Mas outras sombras pairam.
Também na segunda-feira, a agência de notação financeira Standard and Poor’s ameaçou poder vir a baixar o rating da Alemanha, França, Holanda, Áustria, Finlândia e Luxemburgo, seis dos países considerados exemplares da zona euro.
Até quando as instâncias internacionais vão deixar as agências de rating ditar os altos e baixos da economia? Até porque essas agências estão elas próprias submetidas a interesses económicos (dos accionistas e não só) que querem ver a balança pesar de um lado ou do outro.
E depois há jogadas mais sub-reptícias ainda neste tabuleiro. Atente-se no novo presidente do Banco Central Europeu, Mario Draghi, no novo primeiro-ministro italiano Mario Monti, e no novo primeiro-ministro grego, Lucas Papademos. Draghi foi vice-presidente do banco americano Goldman Sachs Europa, Monti foi conselheiro da mesma empresa e tinha como missão defender os interesses do grupo no seio da UE, e Papademos foi governador do Banco Central grego, e ajudou a Goldman Sachs a "maquilhar" as contas da Grécia. Agora aparece como "salvador" dos helénicos? São peões estrategicamente posicionados, mas com que propósito? Até porque nenhum deles foi eleito, recorde-se, mas nomeados pelos respectivos governos ou instâncias europeias.
O que é a Goldman Sachs? Apenas um dos bancos mais poderosos do mundo e que, num momento em que podia tê-lo feito (como o Governo americano chegou a pedir), não ajudou a Lehman Brothers a safar-se da falência, o que arrastou a economia mundial para a crise financeira de 2008 e levou à consequente crise do euro. É caso para perguntar: Quem beneficia com a crise?
Se não atentarmos agora, se não opinarmos, se não nos interessarmos, se não barafustarmos, se não nos opusermos, se não utilizarmos o privilégio que nos oferece esta tribuna que é a imprensa, mas também os movimentos civis que se têm alastrado, para nos indignarmos, para clamarmos o que acreditamos ser a Europa e o que queremos que esta se torne – dentro de algumas semanas será tarde demais e daqui a alguns anos olharemos para o início desta década como o princípio do fim. Mas já será tarde demais e a Europa um sonho que se esfumou nos ditames da alta finança internacional.
José Luís Correia
(in CONTACTO, 07/11/2011)
sábado, 3 de dezembro de 2011
NASA encontra mais um planeta potencialmente habitável fora do sistema solar
A NASA confirmou esta semana a existência de um planeta na zona orbital habitável (the goldilock zone) do sistema planetário Kepler 22, a 600 anos-luz da Terra, no qual poderá haver condições para a formação de água em estado líquido.
Com esta descoberta, sobe para três o número de planetas fora do Sistema Solar em zona orbital habitável. Segundo as agências internacionais de notícias, é a primeira vez que a agência espacial norte-americana confirma a existência de um planeta numa zona orbital habitável fora do Sistema Solar.
A zona orbital habitável é a região perto de uma estrela que tem as temperaturas adequadas para que exista água líquida, principal componente da vida no ‘planeta azul’.
O novo planeta, Kepler 22-b, detetado pela sonda com o mesmo nome, é maior do que a Terra, mas desconhece-se ainda a sua composição. Para os cientistas, no entanto, está cada vez mais próxima a descoberta de um planeta parecido com a Terra.
O Kepler 22-b orbita em 290 dias uma estrela semelhante ao Sol, ainda que mais pequena e fria. Lançada em março de 2009, a sonda Kepler tem por missão procurar planetas-irmãos da Terra suscetíveis de ter vida, observando mais de cem mil estrelas parecidas com o Sol. Durante dois anos foram identificados 2.326 candidatos a planetas, dos quais 207 com um tamanho aproximado da Terra e 680 com dimensões maiores.
Em maio, o Centro francês de Investigação Científica anunciou que um dos planetas que orbita a estrela-anã Gliese 581 poderá revelar-se ‘habitável’, com um clima propício à presença de água líquida e de vida. Já em agosto, astrónomos suíços confirmaram a existência de um outro exoplaneta (planeta fora do Sistema Solar) em zona orbital habitável, o HD 85512b.
Fontes: LUSA e NASA
Com esta descoberta, sobe para três o número de planetas fora do Sistema Solar em zona orbital habitável. Segundo as agências internacionais de notícias, é a primeira vez que a agência espacial norte-americana confirma a existência de um planeta numa zona orbital habitável fora do Sistema Solar.
A zona orbital habitável é a região perto de uma estrela que tem as temperaturas adequadas para que exista água líquida, principal componente da vida no ‘planeta azul’.
O novo planeta, Kepler 22-b, detetado pela sonda com o mesmo nome, é maior do que a Terra, mas desconhece-se ainda a sua composição. Para os cientistas, no entanto, está cada vez mais próxima a descoberta de um planeta parecido com a Terra.
O Kepler 22-b orbita em 290 dias uma estrela semelhante ao Sol, ainda que mais pequena e fria. Lançada em março de 2009, a sonda Kepler tem por missão procurar planetas-irmãos da Terra suscetíveis de ter vida, observando mais de cem mil estrelas parecidas com o Sol. Durante dois anos foram identificados 2.326 candidatos a planetas, dos quais 207 com um tamanho aproximado da Terra e 680 com dimensões maiores.
Em maio, o Centro francês de Investigação Científica anunciou que um dos planetas que orbita a estrela-anã Gliese 581 poderá revelar-se ‘habitável’, com um clima propício à presença de água líquida e de vida. Já em agosto, astrónomos suíços confirmaram a existência de um outro exoplaneta (planeta fora do Sistema Solar) em zona orbital habitável, o HD 85512b.
Fontes: LUSA e NASA
terça-feira, 15 de novembro de 2011
Quando a ficção científica também é filosofia
Duas obras marcaram-me neste últimos dias: "Replay" e "The Man from Earth".
A primeira obra é um livro de Ken Grimwood (1987) e aborda a reincarnação de uma forma nova e original. Em vez de a alma "saltar" de corpo em corpo, ao longo das gerações e das eras, o personagem principal de Grimwood, Jeff Winston, um rádio-jornalista de 43 anos, morre em 1988 e volta a acordar em 1963 no seu próprio corpo, de 18 anos. Vinte e cinco anos depois, game over e replay. Over and over again...
Se a reincarnação serve para que a alma melhore e se aperfeiçoe em cada "descida" à Terra, acreditam os budistas, a personagem de Grimwood vai servir-se dos seus primeiros replays para não casar com a mesma miúda, fazer vida de hippie e sexo desregrado nos anos 60, sair da Universidade sem diploma, apostar nas corridas de cavalos das quais já conhece os resultados e com isso fazer fortuna, jogar na bolsa apostando providencialmente em pequenas empresas dos anos 70 como a Apple, arrecadar milhões e construir um império na boa tradição americana do self made man.
Ao longo dos replays, Jeff repara que apesar de ter escolhido de cada vez vias diferentes para chegar a 1988, isso não lhe traz a felicidade e a serenidade a que almeja.
O final é inesperado, até para mim que estou habituado a devorar tudo o que são livros, filmes e histórias sobre universos paralelos, realidades alternativas e viagens no tempo.
Atenção, spoiler: Depois de muitos replays, Jeff nota que acorda cada vez mais tarde ao regressar ao passado: em 1963, depois em 1965, depois nos anos 70 e no final, apenas a alguns momentos de voltar a morrer. A evidência impõe-se: chegará um momento em que deixará de haver replays e morrerá "de vez". No momento em que espera esse derradeiro replay... o tal ataque de coração, que já o fulminara centenas de vezes antes, simplesmente não acontece. E a vida continua, como se nada fosse...
Mas é só com toda a experiência das suas mil vidas diferentes que o jornalista vai perceber o que deve fazer para procurar a felicidade. E que nunca é tarde demais.
A Warner Bros comprou os direitos da obra de Grimwood, mas nunca chegou a realizar o filme. Sobretudo depois de em 1993 a comédia "Groundhog Day", com Bill Murray e Andie MacDowell, ter estreado. O autor tentou processar os produtores de "Groundhog Day", mas em vão. Grimwood morreu em 2003 de... um ataque de coração. Os fãs continuam à espera de um filme. Diz-se que Ben Affleck estaria a tratar da produção.
A segunda história chama-se "The man from Earth" e é um filme realizado por Jerome Bixby.
1998. Um professor de história, John Oldman prepara-se para mudar-se para outra cidade. Os amigos, quase todos também professores na Universidade, não entendem bem porquê, até porque o brilhante professor, apesar de ainda nos seus 30 e tais, chegou recentemente a chefe do seu departamento na faculdade.
John hesita, mas acaba por explicar aos amigos a razão da sua partida. E o que começa como uma brincadeira vai depressa tornar-se um momento alucinante para os que o pensavam conhecer.
John começa por contar que teve a oportunidade de viajar com Cristóvão Colombo, mas nessa época ele ainda acreditava que a Terra era plana e temia mesmo cair de uma das suas bordas.
Os amigos brincam com ele e riem-se da partida que este está a querer pregar-lhes. John confia que pensa ter mais de 11 mil anos - perdeu as contas, diz. Lembra-se de ter nascido ainda na Idade da Pedra, a sua "primeira vida" viveu-a com uma tribo das cavernas. E enquanto os outros iam envelhecendo e falecendo à sua volta, ele nunca morria.
A tribo começou por escolhê-lo como feiticeiro e chamane, mas temendo o que não compreendiam, expulsaram-no do grupo. Foi nómada, viajou a pé pelas florestas da Europa, trocou dezenas de vezes de tribo, seguindo em direcção aos territórios mais ricos em caça. John diz lembrar-se que o tempo aqueceu há cerca de 8 mil anos, viu as águas separar a França da costa britânica. Participou na construção das primeiras cidades, durante dois mil anos foi sumério, cidadão em Ur, conheceu o rei sumério Hamurabi pessoalmente. Viajou para o leste e foi discípulo de Buda, foi etrusco, assistiu à ascensão e à queda do império romano, foi amigo de Van Gogh...
O sorriso divertido dos amigos vai desaparecendo à medida que estes - eminentes professores de Biologia, Arqueologia, Psicologia, Antropologia - lhe fazem perguntas e as respostas parecem verosímeis.
Mas a revelação mais perturbante de todas está ainda para vir, quando John aproxima os ensinamentos de Buda dos que Jesus Cristo tentou transmitir.
Dois dos seus amigos ficam irritados com ele, os outros sentem-se perdidos, num misto de fascinação, curiosidade e incredulidade.
Preocupados com ele, três dos seus amigos já não o querem deixar partir, acham que ele precisa de ajuda psiquiátrica.
E é aí, que John diz que foi tudo uma brincadeira. A não ser que seja apenas para se ver livre dos seus amigos...
Gostei desta história porque explora a viagem no tempo, mesmo se neste caso é a eternidade que está em questão; a vivência de vidas diferentes, sem recorrer a reincarnação. Mas também aqui, as mil vidas de John Oldman (trocadilho) serviram para este ir aprendendo com a Humanidade. E por isso apreciei como, durante o decorrer da história, a serenidade de John nunca descai, como se fora realmente dotado de uma sabedoria não só antiga como sem idade. Ou como eu gosto de imaginar que fosse.
Outros dos aspectos desta história que apreceei é o facto de John dizer que os factos históricos que ficaram para a posteridade nos livros, nos manuais oficiais, nem sempre aconteceram como nos são elatados e como os estudamos. Ou foram deturpados voluntariamente ou o tempo foi limando, escolhendo, pormenores que não o são e que nunca o foram.
Um filme que pede um livro
O meu primeiro reflexo foi pensar: "isto dava uma peça de teatro hilariante". Depois procurei o livro e descobri que além de ser um recôndito filme que só saiu em DVD, o argumento não existe em versão impressa.
A obra estreou directamente em filme em 2007, mas passou completamente despercebida. Primeiro porque nem sequer saiu nas salas de cinema, saiu directamente em DVD. E só chegou à Europa este ano.
As grandes produtoras habituadas aos blockbusters não acreditaram no filme talvez pelo seu lado despojado em termos de cenários, porque não tem absolutamente nenhuma cena de acção, porque conta apenas com oito personagens, que se envolvem num diálogo surrealista. Demasiado surrealista para o grande público?
É, no entanto, esta história merece ser contada.
A primeira obra é um livro de Ken Grimwood (1987) e aborda a reincarnação de uma forma nova e original. Em vez de a alma "saltar" de corpo em corpo, ao longo das gerações e das eras, o personagem principal de Grimwood, Jeff Winston, um rádio-jornalista de 43 anos, morre em 1988 e volta a acordar em 1963 no seu próprio corpo, de 18 anos. Vinte e cinco anos depois, game over e replay. Over and over again...
Se a reincarnação serve para que a alma melhore e se aperfeiçoe em cada "descida" à Terra, acreditam os budistas, a personagem de Grimwood vai servir-se dos seus primeiros replays para não casar com a mesma miúda, fazer vida de hippie e sexo desregrado nos anos 60, sair da Universidade sem diploma, apostar nas corridas de cavalos das quais já conhece os resultados e com isso fazer fortuna, jogar na bolsa apostando providencialmente em pequenas empresas dos anos 70 como a Apple, arrecadar milhões e construir um império na boa tradição americana do self made man.
Ao longo dos replays, Jeff repara que apesar de ter escolhido de cada vez vias diferentes para chegar a 1988, isso não lhe traz a felicidade e a serenidade a que almeja.
O final é inesperado, até para mim que estou habituado a devorar tudo o que são livros, filmes e histórias sobre universos paralelos, realidades alternativas e viagens no tempo.
Atenção, spoiler: Depois de muitos replays, Jeff nota que acorda cada vez mais tarde ao regressar ao passado: em 1963, depois em 1965, depois nos anos 70 e no final, apenas a alguns momentos de voltar a morrer. A evidência impõe-se: chegará um momento em que deixará de haver replays e morrerá "de vez". No momento em que espera esse derradeiro replay... o tal ataque de coração, que já o fulminara centenas de vezes antes, simplesmente não acontece. E a vida continua, como se nada fosse...
Mas é só com toda a experiência das suas mil vidas diferentes que o jornalista vai perceber o que deve fazer para procurar a felicidade. E que nunca é tarde demais.
A Warner Bros comprou os direitos da obra de Grimwood, mas nunca chegou a realizar o filme. Sobretudo depois de em 1993 a comédia "Groundhog Day", com Bill Murray e Andie MacDowell, ter estreado. O autor tentou processar os produtores de "Groundhog Day", mas em vão. Grimwood morreu em 2003 de... um ataque de coração. Os fãs continuam à espera de um filme. Diz-se que Ben Affleck estaria a tratar da produção.
A segunda história chama-se "The man from Earth" e é um filme realizado por Jerome Bixby.
1998. Um professor de história, John Oldman prepara-se para mudar-se para outra cidade. Os amigos, quase todos também professores na Universidade, não entendem bem porquê, até porque o brilhante professor, apesar de ainda nos seus 30 e tais, chegou recentemente a chefe do seu departamento na faculdade.
John hesita, mas acaba por explicar aos amigos a razão da sua partida. E o que começa como uma brincadeira vai depressa tornar-se um momento alucinante para os que o pensavam conhecer.
John começa por contar que teve a oportunidade de viajar com Cristóvão Colombo, mas nessa época ele ainda acreditava que a Terra era plana e temia mesmo cair de uma das suas bordas.
Os amigos brincam com ele e riem-se da partida que este está a querer pregar-lhes. John confia que pensa ter mais de 11 mil anos - perdeu as contas, diz. Lembra-se de ter nascido ainda na Idade da Pedra, a sua "primeira vida" viveu-a com uma tribo das cavernas. E enquanto os outros iam envelhecendo e falecendo à sua volta, ele nunca morria.
A tribo começou por escolhê-lo como feiticeiro e chamane, mas temendo o que não compreendiam, expulsaram-no do grupo. Foi nómada, viajou a pé pelas florestas da Europa, trocou dezenas de vezes de tribo, seguindo em direcção aos territórios mais ricos em caça. John diz lembrar-se que o tempo aqueceu há cerca de 8 mil anos, viu as águas separar a França da costa britânica. Participou na construção das primeiras cidades, durante dois mil anos foi sumério, cidadão em Ur, conheceu o rei sumério Hamurabi pessoalmente. Viajou para o leste e foi discípulo de Buda, foi etrusco, assistiu à ascensão e à queda do império romano, foi amigo de Van Gogh...
O sorriso divertido dos amigos vai desaparecendo à medida que estes - eminentes professores de Biologia, Arqueologia, Psicologia, Antropologia - lhe fazem perguntas e as respostas parecem verosímeis.
Mas a revelação mais perturbante de todas está ainda para vir, quando John aproxima os ensinamentos de Buda dos que Jesus Cristo tentou transmitir.
Dois dos seus amigos ficam irritados com ele, os outros sentem-se perdidos, num misto de fascinação, curiosidade e incredulidade.
Preocupados com ele, três dos seus amigos já não o querem deixar partir, acham que ele precisa de ajuda psiquiátrica.
E é aí, que John diz que foi tudo uma brincadeira. A não ser que seja apenas para se ver livre dos seus amigos...
Gostei desta história porque explora a viagem no tempo, mesmo se neste caso é a eternidade que está em questão; a vivência de vidas diferentes, sem recorrer a reincarnação. Mas também aqui, as mil vidas de John Oldman (trocadilho) serviram para este ir aprendendo com a Humanidade. E por isso apreciei como, durante o decorrer da história, a serenidade de John nunca descai, como se fora realmente dotado de uma sabedoria não só antiga como sem idade. Ou como eu gosto de imaginar que fosse.
Outros dos aspectos desta história que apreceei é o facto de John dizer que os factos históricos que ficaram para a posteridade nos livros, nos manuais oficiais, nem sempre aconteceram como nos são elatados e como os estudamos. Ou foram deturpados voluntariamente ou o tempo foi limando, escolhendo, pormenores que não o são e que nunca o foram.
Um filme que pede um livro
O meu primeiro reflexo foi pensar: "isto dava uma peça de teatro hilariante". Depois procurei o livro e descobri que além de ser um recôndito filme que só saiu em DVD, o argumento não existe em versão impressa.A obra estreou directamente em filme em 2007, mas passou completamente despercebida. Primeiro porque nem sequer saiu nas salas de cinema, saiu directamente em DVD. E só chegou à Europa este ano.
As grandes produtoras habituadas aos blockbusters não acreditaram no filme talvez pelo seu lado despojado em termos de cenários, porque não tem absolutamente nenhuma cena de acção, porque conta apenas com oito personagens, que se envolvem num diálogo surrealista. Demasiado surrealista para o grande público?
É, no entanto, esta história merece ser contada.
Rótulo :
ficção científica,
filosofia,
literatura,
livros e leituras
domingo, 13 de novembro de 2011
Passei ontem o serão com a Carmen...
...e com uma centena de cantores, dançarinos e músicos, que fazem parte da Ópera Nacional Búlgara de Ruse e que vieram actuar no Kinneksbond, em Mamer.
"Carmen" tinha desta segunda vez que a vi (a primeira foi na televisão, há alguns anos) a encenação da belga Dominique Serron, 136 anos depois da sua estreia, em 1875, na Ópera Cómica de Paris, e contou com adaptações cénicas contemporâneas que se enquadraram bem.
A cigana Carmen e o brigadeiro D. José aparecem fiéis a si mesmos, com vestes e modos da Sevilha do séc. XIX, mas Micaela (ex-namorada de José) e o toureiro Don Escamillo aparecem com roupas contemporâneas, fato cinza e óculos escuros para ele, saia travada e tailleur para ela. Como se fossem personagens extemporâneas, nos dois sentidos da palavras, fora do tempo e inoportunos.
Um dos momentos altos da ópera é, claro, a canção "L'Amour est enfant de Bohème" que a sulfurosa Carmen canta na taberna. Entra o toureiro Don Escamillo, que protagoniza outro momento alto com a canção "Toreador".
Segue-se a sedução de José, que se deixa levar pela endiabrada e irresistível cigana. "Si je t'aime, prends garde à toi...", avisou ela. José deserta do exército e segue o grupo de ciganos, para poder estar com a sua amada, como ela exigiu.
No terceiro acto, Carmen cansou-se do amor de José. Entretanto, quando cantou na taberna, a bela chamou a atenção de El Toreador.
Nas montanhas onde estão acampados, Carmen e duas ciganas lêem o futuro nas cartas. As amigas vêm amores, casamentos, jóias e glórias. Carmen apenas morte e mais morte... Lá fora, José monta a guarda e dispara sobre um intruso, mas não lhe acerta. É Don Escamillo que lhe confessa vir à procura de Carmen, por quem se apaixonou.
"Bem sei que ela estava há pouco tempo com um brigadeiro, mas os amores de Carmen não duram seis meses...", lança o toureiro. José sente-se insultado e os dois homens lutam. Escamillo leva a melhor sobre José, mas assegura-lhe: "Mato toiros, não homens". Mas o toureiro escorrega e quando José se prepara para lhe desferir o golpe fatal, Carmen trava-o no seu gesto.
Escamillo convida a cigana para vir assistir a uma das suas touradas. José, desfeito, avisa: "Carmen, cuidado contigo, porque estou farto de sofrer...". Entra Micaela que vem dizer a José que a sua mãe está muito doente e leva-o consigo. José não quer deixar Carmen com o novo amante, mas não tem escolha.
O último acto acontece junto à praça de touros de Sevilha. Escamillo e Carmen cantam apaixonadamente um dueto de amor e a multidão aplaude fascinada. Duas ciganas vêm avisar Carmen que tenha cuidado, José foi visto a rondar por aí. Enquanto Escamillo entra na arena, Carmen é interceptada por José. Este pede-lhe uma nova oportunidade, Carmen recusa, José ameaça-a e esta retorque: "Não cederei. Bem sei que me vais matar, mas nasci livre, morrerei livre...". E num gesto de desdém lança-lhe o anel que este lhe ofereceu. Louco, José esfaqueia Carmen, no mesmo momento que dentro da arena o público sauda ruidosamente mais um triunfo de Escamillo. Carmen morre nos braços de José. Cai o pano.
Refira-se as belas vozes e excelentes interpretações da mezzosoprano americana Carla Dirlikov (Carmen), do tenor italiano Francesco Medda (José), da soprano búlgara Mariana Panova (Micaela) e do baixo italiano Sergio Foresti (Escamillo).
Num cantor de ópera interessa não só a potência vocal, como o talento de interpretar bem como a forma de "dizer" as suas falas, o que nem sempre é evidente para um espectador de ópera leigo como eu. Mas sobretudo Dirlikov e Medda eram exímios em todos estes aspectos, o que ajudou a contar a história e a intensificar as passagens dramáticas.
Gostei dos elementos contemporâneos: ver turistas, com guias debaixo do braço, a disparar flashes à queima roupa às sevilhanas, transportou-me até uma viagem que fiz à capital andaluza nos anos 90. Aquilo é mesmo assim, há ali um décalage entre um certo autismo e obsessão por fazer fotos por parte dos turistas, mais preocupados em guardar momentos do que em vivê-los, que a encenadora soube bem reproduzir.
As cenas de multidão e de grupo, em que todos os actores cantam, foram sobretudo bem dirigidos e resultaram de forma excepcional.
Gostei também da personagem do guia (David Macalusa), que aqui tem também o papel de narrador esporádico porque assim sempre (romanticamente) me imaginei: contador de histórias para o povo pelos pueblos por onde passaria por esse Mundo fora, vestido como um Davy Crockett explorador, recolhendo mais histórias e experiências, para vivê-las e depois deitá-las no papel.
O mito do "Walden" de Thoreau - do homem que deixa a civilização para melhor se encontrar - ecoou em mim desde cedo, muito antes de o ter estudado na universidade. Talvez porque fui sobreprotegido, talvez porque as cartas ditaram a minha morte prematura mais do que uma vez, talvez porque tive duas mães superprotectoras, talvez para escapar a essa redoma de vidro que foi a minha infância, já pequeno escapava para o sótão e imaginava que este era uma floresta virgem e eu um explorador. De mochila à tira-colo, lápis no cinto a fingir facas, a chapka russa do meu pai a fazer de conta que era um chapéu em pele de castor, eu redescobria os cantos escuros da mansarda. E, para espantar os meus medos e os vultos fantasmagóricos das sombras que assomavam, entoava a canção "Maybe" (de Thom Pace), genérico da série "The Life and Times of Grizzly Adams", que diz exactamente isso que eu sentia:
"Deep inside the forest, is a door into another land (...), Maybe there's a world where we don't have to run (...) Take me home...". Mas esse lar não era a casa materna, era tudo o resto, a vida selvagem, a natureza, o mundo, e mais tarde ainda o espaço sideral e o universo...
Aquela personagem de "Carmen" fez-me viajar até à minha infância e a Grizzly Adams. A ópera de Bizet nada tem a ver com uma série hippie dos anos 70... a não ser talvez a exploração do tema da vontade extrema, epidérmica quase, da liberdade, de uma liberdade sem barreiras, sem fronteiras, do maravilhamento de descobrir novos horizontes, novas terras, povos, costumes e pessoas, ao mesmo tempo que alargamos os nossos próprios limites internos.
Gostei. Gostei e cantei. Gostei e viajei.
"Carmen" tinha desta segunda vez que a vi (a primeira foi na televisão, há alguns anos) a encenação da belga Dominique Serron, 136 anos depois da sua estreia, em 1875, na Ópera Cómica de Paris, e contou com adaptações cénicas contemporâneas que se enquadraram bem.
A cigana Carmen e o brigadeiro D. José aparecem fiéis a si mesmos, com vestes e modos da Sevilha do séc. XIX, mas Micaela (ex-namorada de José) e o toureiro Don Escamillo aparecem com roupas contemporâneas, fato cinza e óculos escuros para ele, saia travada e tailleur para ela. Como se fossem personagens extemporâneas, nos dois sentidos da palavras, fora do tempo e inoportunos.
Um dos momentos altos da ópera é, claro, a canção "L'Amour est enfant de Bohème" que a sulfurosa Carmen canta na taberna. Entra o toureiro Don Escamillo, que protagoniza outro momento alto com a canção "Toreador".
Segue-se a sedução de José, que se deixa levar pela endiabrada e irresistível cigana. "Si je t'aime, prends garde à toi...", avisou ela. José deserta do exército e segue o grupo de ciganos, para poder estar com a sua amada, como ela exigiu.
No terceiro acto, Carmen cansou-se do amor de José. Entretanto, quando cantou na taberna, a bela chamou a atenção de El Toreador.
Nas montanhas onde estão acampados, Carmen e duas ciganas lêem o futuro nas cartas. As amigas vêm amores, casamentos, jóias e glórias. Carmen apenas morte e mais morte... Lá fora, José monta a guarda e dispara sobre um intruso, mas não lhe acerta. É Don Escamillo que lhe confessa vir à procura de Carmen, por quem se apaixonou.
"Bem sei que ela estava há pouco tempo com um brigadeiro, mas os amores de Carmen não duram seis meses...", lança o toureiro. José sente-se insultado e os dois homens lutam. Escamillo leva a melhor sobre José, mas assegura-lhe: "Mato toiros, não homens". Mas o toureiro escorrega e quando José se prepara para lhe desferir o golpe fatal, Carmen trava-o no seu gesto.
Escamillo convida a cigana para vir assistir a uma das suas touradas. José, desfeito, avisa: "Carmen, cuidado contigo, porque estou farto de sofrer...". Entra Micaela que vem dizer a José que a sua mãe está muito doente e leva-o consigo. José não quer deixar Carmen com o novo amante, mas não tem escolha.
O último acto acontece junto à praça de touros de Sevilha. Escamillo e Carmen cantam apaixonadamente um dueto de amor e a multidão aplaude fascinada. Duas ciganas vêm avisar Carmen que tenha cuidado, José foi visto a rondar por aí. Enquanto Escamillo entra na arena, Carmen é interceptada por José. Este pede-lhe uma nova oportunidade, Carmen recusa, José ameaça-a e esta retorque: "Não cederei. Bem sei que me vais matar, mas nasci livre, morrerei livre...". E num gesto de desdém lança-lhe o anel que este lhe ofereceu. Louco, José esfaqueia Carmen, no mesmo momento que dentro da arena o público sauda ruidosamente mais um triunfo de Escamillo. Carmen morre nos braços de José. Cai o pano.
Refira-se as belas vozes e excelentes interpretações da mezzosoprano americana Carla Dirlikov (Carmen), do tenor italiano Francesco Medda (José), da soprano búlgara Mariana Panova (Micaela) e do baixo italiano Sergio Foresti (Escamillo).
Num cantor de ópera interessa não só a potência vocal, como o talento de interpretar bem como a forma de "dizer" as suas falas, o que nem sempre é evidente para um espectador de ópera leigo como eu. Mas sobretudo Dirlikov e Medda eram exímios em todos estes aspectos, o que ajudou a contar a história e a intensificar as passagens dramáticas.
Gostei dos elementos contemporâneos: ver turistas, com guias debaixo do braço, a disparar flashes à queima roupa às sevilhanas, transportou-me até uma viagem que fiz à capital andaluza nos anos 90. Aquilo é mesmo assim, há ali um décalage entre um certo autismo e obsessão por fazer fotos por parte dos turistas, mais preocupados em guardar momentos do que em vivê-los, que a encenadora soube bem reproduzir.
As cenas de multidão e de grupo, em que todos os actores cantam, foram sobretudo bem dirigidos e resultaram de forma excepcional.
Gostei também da personagem do guia (David Macalusa), que aqui tem também o papel de narrador esporádico porque assim sempre (romanticamente) me imaginei: contador de histórias para o povo pelos pueblos por onde passaria por esse Mundo fora, vestido como um Davy Crockett explorador, recolhendo mais histórias e experiências, para vivê-las e depois deitá-las no papel.
O mito do "Walden" de Thoreau - do homem que deixa a civilização para melhor se encontrar - ecoou em mim desde cedo, muito antes de o ter estudado na universidade. Talvez porque fui sobreprotegido, talvez porque as cartas ditaram a minha morte prematura mais do que uma vez, talvez porque tive duas mães superprotectoras, talvez para escapar a essa redoma de vidro que foi a minha infância, já pequeno escapava para o sótão e imaginava que este era uma floresta virgem e eu um explorador. De mochila à tira-colo, lápis no cinto a fingir facas, a chapka russa do meu pai a fazer de conta que era um chapéu em pele de castor, eu redescobria os cantos escuros da mansarda. E, para espantar os meus medos e os vultos fantasmagóricos das sombras que assomavam, entoava a canção "Maybe" (de Thom Pace), genérico da série "The Life and Times of Grizzly Adams", que diz exactamente isso que eu sentia:
"Deep inside the forest, is a door into another land (...), Maybe there's a world where we don't have to run (...) Take me home...". Mas esse lar não era a casa materna, era tudo o resto, a vida selvagem, a natureza, o mundo, e mais tarde ainda o espaço sideral e o universo...
Aquela personagem de "Carmen" fez-me viajar até à minha infância e a Grizzly Adams. A ópera de Bizet nada tem a ver com uma série hippie dos anos 70... a não ser talvez a exploração do tema da vontade extrema, epidérmica quase, da liberdade, de uma liberdade sem barreiras, sem fronteiras, do maravilhamento de descobrir novos horizontes, novas terras, povos, costumes e pessoas, ao mesmo tempo que alargamos os nossos próprios limites internos.
Gostei. Gostei e cantei. Gostei e viajei.
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