terça-feira, 12 de dezembro de 2006
Bar-Lounge "Autre Part", Differdange, 27 Janeiro 2007
- acontecimento: encontro de bloggers do luxemburgo e grande região,
- participantes: bloggers profissionais, amadores, curiosos, qualquer que seja a sua língua
- data: sábado, 27 de Janeiro de 2007
- hora: a partir das 14h30
- local: restaurante bar-lounge "Autre Part" (tel : 26 58 65-1, fax : 26 58 65-2) 8, place du marché, differdange, sul do luxemburgo
- objectivo: travar conhecimento com outros bloggers, num ambiente descontraído e simpático, falar do novo fenómeno de sociedade que é o blogging (e actividades associadas como mlogging, flogging, vlogging, i-logging), trocar opiniões sobre aspectos pertinentes deste novo modo de comunicação moderna, falar de cultura, de informação, abrir o diálogo e os horizontes
- oportunidades: projectar em grande ecrã excertos de blogs do luxemburgo e grande região, iniciar os curiosos na aventura do blogging
- inscrições e informações: Lola
segunda-feira, 11 de dezembro de 2006
quem concebeu os homens à sua imagem
e lhes deu uma cor diferente
quem dividiu as águas e apartou os oceanos ?
que ninguém una o que deus separou
as naus rebeldes da subsistência
inventaram um outro hemisfério
romperam ventos e cabos
fundearam em praias, deram baías aos santos
todos do calendário e nomes ao xadrez dos dias
quem riscou o mundo
quem recortou as terras e os mares em gomos de laranja
quem foi buscar o tempo da gaveta universal
e dividiu o dia que sempre nasce inteiro
quem empurrou o mundo para o regaço da via láctea,
quem pôs tudo isto a rodopiar
quem puxou o cordel original
do insondável pião galático
quem perdeu todos os berlindes coloridos na toalha negra imensa ?
novas naus cruzam os céus
em busca do sentido de tudo isto
para explorar as migalhas que restam do piquenique original
como se uma explicação fosse precisa
para a perfeição que não existe.
sábado, 25 de novembro de 2006
Porto sentido, sentado no Grund
Chove há quantos dias? O Outono, que eu sempre idealizara romântico e ameno, em cores de auriverde, como num filme piroso com a Winona Ryder e o Richard Gere, destila-se em cheias e aguaceiros, em rajadas e trovoadas, escorre pelas paredes do mundo e pelas sarjetas da minha rua. “Água que Deus amanda”, oiço a minha mãe explicar-me, junto ao velho fogão a lenha, nas noites de tempestade em que eu não conseguia dormir a não ser no seu colo morno, como se a benignidade da benção divina servisse apenas para fertilizar a terra e não para assustar os homens.
Um passeio no Grund ou no Cais das Barcas, debaixo da ponte vermelha ou da ponte D. Luiz, uma Guinness no Scott's, atravessando o Alzette e a Pétrusse, ou um Calém Reserva, a caminho do Taylor's, como “quem vem e atravessa o rio, junto à serra do Pilar, vê um velho casario, que se estende até ao mar”.
A luz foge à manhã, que se esvai taciturna, moribunda e inane. Aqui, nas terras vermelhas, do promontório deste burgo ou na Foz do Douro... Não suporto crepúsculos a meio da tarde. Ou que as sombras comam os dias como os que eu quisera ledos em Wroclaw e Zakopane. Quero exorcizar de mim os velhos amores que me assombram, a depressão de Inverno, que sinto chegar por uma escada oculta. Escrevo à menina. Assedia-me o travo perfumado, a lembrança da sua língua, dos meus gestos antes tímidos, da linguagem muda das nossas bocas querendo deflagrar o Outono, dos nossos corpos hesitantes, que finalmente mergulham de olhos bem abertos um no outro, num hotel sem nome, junto a um aeroporto, cais moderno das novas partidas, que nos lembra com insistência que o nosso voo também será breve e que os amantes se deverão apartar. Para mais tarde se juntar, quis acreditar.

nova babel
Fui ver o filme “Babel” de Alejandro González Iñárritu (“Amores Perros”, 1999; “21 Grams”, 2003). A torre não chegou ao céu, mas mundializou-se. Uma espingarda norte-americana, comprada por um japonês viúvo, pai de uma jovem em plena crise de adolescência, é usada por uma criança marroquina que brinca nos planaltos do Atlas para alvejar uma turista americana, que correu meio-mundo atrás do marido, depois deste fugir da morte súbita do recém-nascido de ambos, enquanto os filhos do casal são levados pela baby-sitter mexicana, ilegal há 16 anos nos Estados Unidos, para uma casamento muy tipico para além do novo muro da vergonha.
Globalizou-se também a confusão das línguas e das culturas. É o que nos querem fazer querer, desde os deturpadores de Samuel Huntington aos seguidores de Alvin Toffler. Mas entre homens de boa vontade, a língua pode ser diferente, a linguagem é perceptível, a mensagem passa. Neste filme, entre a criada mexicana e os filhos do casal americano, entre o marido da turista americana e o jovem marroquino que o acolhe na sua aldeia perdida, ou entre a surda-muda e o polícia que não precisa de gestos para entender o pedido de socorro da jovem.
(Sempre pensei que os casos em que os pais falam aos filhos em árabe, berbere, italiano ou português e estes respondem em francês ou que quando eu falava à minha namorada em algarvio e ela me respondia, por graça, em luxemburguês, isto fosse uma caracterísitica que apenas existia em França ou no Luxemburgo. Na minha ingenuidade etnocentrista, esqueci que todas as comunidades emigradas, em qualquer que seja o país onde se encontram, tendem a reproduzir os mesmos mecanismos de integração na sociedade e cultura de acolhimento. Que rima, em maior ou menor grau, com assimilação, consoante o sistema social e educativo do país onde chegaram e do envolvimento dos pais na educação (no sentido lato) dos seus filhos.
Fechar parêntesis.)
No sentido inverso, nem sempre a mesma língua é uma condição sine qua non para que os homens se percebam, levantando a desentendimentos, depressões, brigas, confusões, mortes. No filme: o marido da turista e os outros turistas americanos e europeus (ocidentais!), pai e filha no Japão, esta e os outros jovens japoneses, a polícia marroquina e os aldeões, tia e sobrinho mexicanos.
Assim sendo, devemos atribuir à torre de Babel, a origem da confusão das línguas ou aos homens de má vontade?
A morte e o seu espectro pairam durante toda a história. Não sabemos quando acontecerá, mas presentimo-lo. Acaba por abater-se sobre um inocente. Uma morte ligada à compra de uma arma. Mesmo se o realizador escolheu (propositadamente?) um cenário do outro lado do
mundo, acaba por ser um piscar de olhos ao porte de arma permissivo nos Estados Unidos, que diz respeito a muitos jovens que são vítimas do “first amendement”, estejam do lado de cá ou do lado de lá do gatilho.
A torre de Babel, esta aldeia global na qual vivemos, está longe de chegar ao céu!
Se Fernando Pessoa disse que a sua pátria era a língua portuguesa, para o realizador mexicano, a "pátria" ou mesma a "mátria" (do latim "mãe") é... a mensagem. A mensagem é mais importante que a língua. As crianças, que vejo nos infantários e escolas luxemburgueses rirem e brincarem entre si sem falarem uma mesma língua, são as que no-lo ensinam melhor.
sexta-feira, 24 de novembro de 2006

Àcerca do post de 24 de Novembro do meu caro amigo Paulo Lobo no seu blog «Voyages en suspens» (http://www.paulolobo.blogspot.com/), em que diz que hoje “somos todos canais alternativos da informação, nós os internautas, os bloguistas, os passadores de ideias, de opinião e, por vezes, de rumores”, queria reagir recordando que a mui séria agência de imprensa internacional Reuters assinou há dias (dia 11 de Novembro?) uma parceria com a plataforma norte-americana Pluck (http://www.pluck.com/), que administra milhares de diários cibernéticos pessoais (web-logs ou blogs). A Reuteres passará a propôr, a par das suas notícias em linha, informações que fazem parte do conteúdo de blogues, promovendo o que apelida de “social networking” (teia de contactos e informacão social).
Ponto positivo: as fontes de informação indepedentes diversificam-se em número e riqueza de conteúdo, ao contrário dos cada vez maiores conglomerados media, que monopolizam o sector, e que, apesar das posições firmadas que ocupam, trabalham muitas, quase sempre, sob a pressão de lobbys, influências e poderes.
Apreensão: banalizando-as, as fontes de informação perdem em fidignidade e pureza: risco de manipulação da opinião pública. O mesmo poder, afinal, que os grandes conglomerados já hoje detêm. Os profissionais da informação deixarão de ter o monopólio da mediação da informação. Única solução: formar a opinião pública para que adopte os reflexos dos profissionais da informação, ou seja: 1) duvidar, por princípio, dos media; 2) assegurar-se da credibilidade da fonte; 3) multiplicar, mais do que nunca, o cruzamento de fontes; 4) consumir informação onde seja respeitado o princípio do contaditório.
Nova missão dos profissionais da informação: não apenas “servir” à notícia numa bandeja, nem servir somente à mediação e veiculação da notícia, mas à sua decorticação, dissecação, descodificação, interpretação, análise.
terça-feira, 24 de outubro de 2006
"Tenho noção do mal que fiz
e do meu pecado.
Quero dizer a quem não disse
que estou arrependido.
Tudo passou e hoje sei
que não estou queimado..."
"Bemvindo ao Passado", NBC (de "Revistados", álbum tributo aos 20 anos dos GNR)
<
"Vidas são imperfeitas quando te deitas com o teu rancor"
(idem, ibidem)
segunda-feira, 9 de outubro de 2006
Anna Politkovskaja

sexta-feira, 6 de outubro de 2006
folheando a agenda
DATAS: 9 Out; 23 Out; 6 Nov; 20 Nov; 4 Dez
Local: Auditório da SPA (Rua Duque de Loulé, nº 31)
Horário: 18h 30m
Dia 9 de Outubro 2006 – Novos autores: Escrever, Publicar e Vencer
Painel
Rui Herbon, escritor
José Luís Peixoto, escritor
Sofia Monteiro, esfera dos livros
Filipa Melo, jornalista, escritora
.
Dia 23 de Outubro – Banda Desenhada: O Mundo aos Quadradinhos
Painel
Pedro Silva, Vitamina BD, BdMania
Maria José Pereira, Edições ASA
Sara Figueiredo Costa, crítica literária e de BD
António Jorge Gonçalves, autor de BD
.
Dia 6 de Novembro – Poesia e Teatro: Filhos de um Deus Menor?
Painel
Jorge Reis-Sá, Edições Quasi
Eugénia Vasques, Professora-Coordenadora na Escola Superior de Teatro e Cinema, crítica de teatro
Vasco David, Assírio & Alvim
Pedro Mexia, crítico literário, poeta
Ernesto Melo e Castro, poeta, ensaísta
.
Dia 20 de Novembro – Fundos de Catálogo: Velhos são os Trapos
Painel
António Pinheiro, Bertrand
José Pinho, Ler Devagar
Mário Zambujal, escritor
Carlos Veiga Ferreira, Teorema
.
Dia 4 de Dezembro – Best Sellers e Qualidade: Podemos ser amigos?
Painel
Manuel Alberto Valente, Edições ASA
Margarida Rebelo Pinto, escritora
Vasco Santos, Fenda
Maria João Lopo de Carvalho, escritora
Richard Zimler, escritor
quinta-feira, 5 de outubro de 2006
A noite é bonita neste meridiano,
confunde-se com o oceano,
As pontas das estrelas queimam a lua crescente.
O céu em fogo risca a toalha dos deuses.
De oriente chegam novos reis
magos da palavra, mas nem tudo o que luz é ouro.
Ouço o ruído de lutas que começaram
ainda as águas do dilúvio não tinham secado as terras.
Hoje não secam do sangue.
E eu, entre o temor de novas invasões bárbaras
e as promessas vazias que o poente encerra,
aperto o crucifixo ouro-indigo às minhas novas vestes,
assisto mudo aos loucos que me empurram para o abismo.
A caravana impávida passa, enquanto os cães
não ladram, medram. Já cheira a deserto.
A minha boca sedenta de tangerinas,
prata, marfim, canela, chá de hortelã psicótico, açafrão.
Com as minhas malas aos pontapés,
desço pelas escadas do hotel.
Mas é com os tomates cheios de tesão
que percebo que a mocidade é refém da perfeição,
que a profundidade e a claridade do beco obscuro,
que é o idealismo dogmático acneico,
depende do amor-próprio que já houver brotado,
da tolerância e da luta que deve sempre começar cá dentro
com a minha própria djihad.
Não é erro, nem recuo. É balanço, horizonte mais abrangente,
para saltar mais adiante.
Assoma Sócrates à porta
e repete que nada sabe de nada.
Olho no meu relógio de eon as pontas do holoceno piscarem.
A brisa matutina retarda as suas asas.
A madrugada cinzenta e brumosa ainda vai demorar.
Rentrée parlamentar: Educação e política social são a preocupação dos socialistas do LSAP
| Alex Bodry, presidente do partido socialista luxemburguês, e Ben Fayot, presidente do grupo parlamentar do LSAP Foto: Guy Wolff |
O presidente do grupo parlamentar do Partido Operário Socialista Luxemburguês (LSAP), Ben Fayot, aproveitou a oportunidade para relembrar os desafios que se apresentam aos membros do Governo e da Câmara dos Deputados (Parlamento) na rentrée parlamentar, marcada para 11 de Outubro próximo.
No encontro, que decorreu em 26 de Setembro, Fayot começou por recordar o repto que o presidente de partido, Alex Bodry, lançara a algumas semanas: o LSAP tem como objectivo desafiar o Executivo a dar provas de que tem uma vontade real de efectuar as reformas que se impõem no país. Reformar aS leiS da nacionalidade, escola e imigração.
Para os socialistas, os projectos-lei mais importantes terão que ser entregues à Câmara dos Deputados o mais tardar até ao final do ano. É o caso dos diplomas sobre a reforma da lei da nacionalidade (que permitirá o acesso à dupla nacionalidade, ver artigo anexo), a reforma da lei de 1912 sobre a escola, a revisão da lei da imigração de 1972 e a lei sobre a formação contínua.
Neste âmbito, Fayot apelou o Executivo a "preparar de forma organizada e conscienciosa" os textos legislativos, de modo a permitir a aprovação mais rapidamente, dentro dos prazos exigidos no Parlamento. O presidente do grupo parlamentar socialista voltou a reiterar o apoio do partido ao projecto-lei sobre a reforma da nacionalidade, tal como esboçado pelo ministro da Justiça, Luc Frieden. Único senão: segundo Fayot, o LSAP gostaria que o Governo também pensasse em promover as vantagens do multilinguismo.
E exemplificou: "Um cidadão chinês que além da sua língua apenas falasse o Luxemburguês, teria dificuldades em viver no nosso país". Uma lei da imigração adaptada às novas realidades sociais e migratórias é uma das etapas no caminho para um Estado moderno, considerou aquele responsável. Em matéria de política educativa, Fayot defendeu a actual ministra da Educação, Mady Delvaux-Stehres, do LSAP, e lembrou que esta herdou muitos problemas da sua antecessora liberal, Anne Brasseur (DP).
O LSAP exige que, neste campo, o grande objectivo continue a ser a igualdade de oportunidades para todos os alunos, independentemente da sua origem nacional ou social. A luta contra o insucesso escolar é outra das prioridades. Fayot exortou ainda o ministro das Obras Públicas, Claude Wiseler, a realizar as construções de escolas previstas no plano director sectorial.
MAIS POLÍTICA SOCIAL
A transposição das medidas da Tripartida é igualmente prioritária aos olhos dos socialistas e um dos cavalos de batalha nas sessões parlamentares que se aproximam. O LSAP anuncia, desde já, que recusará que as decisões tomadas em matéria de política das pensões e reformas seja posta em causa nas discussões sobre o Orçamento de Estado.
Os socialistas também esperam avanços do Governo, em conjunto com os parceiros sociais, na questão do crédito fiscal, bem como na luta contra o desemprego. ...E EUROPEIA Trabalhar por forma a vencer os atrasos de que o país padece na transposição das directivas europeias será outra das preocupações dos socialistas. Fayot solicitou ainda que os deputados se interessem mais pela política europeia. Para o LSAP, os parlamentares deveriam contribuir para converter a política comunitária em tema de discussão no seio da sociedade civil. Sobretudo depois do resultado do referendo sobre a Constituição Europeia, os responsáveis do LSAP consideram que a população espera um maior empenho do Parlamento luxemburguês nas questões comunitárias.
José Luís Correia,
in CONTACTO, 04/10/2006
sábado, 30 de setembro de 2006
les damnés
os poetas malditos acreditam que só a tragédia é a verdadeira musa, que só o inferno conduz ao exorcismo das palavras-vómito, que só a catarse transmuta a alma sangrenta na magia das letras, dando finalmente corpo e sentido ao desequilíbrio dos sentidos.
já experimentei deitar a felicidade exacerbada no papel, em estado de êxtase quase eufóricó-orgásmico. Mas depois de deixar secar a tinta e ver a folha amarelar no outono dos dias, concluo tristemente que tudo o que a pena pingou foi torpe simualcro de literatura
quinta-feira, 14 de setembro de 2006
A minha amante. Desejei-a tanto. Ao fim de muitos dias, ela cedeu. Finalmente. Trouxe-a até este quarto. Veio, dócil, pela minha mão.
A luz que penetrava pela janela recortava-lhe a silhueta perfeita. Deixou cair o vestido, pudicamente, pelo corpo abaixo. Revelou-me os seios redondos, belos, os ombros nus, o delta do sexo aparado, os pêlos, os poros, as rugas, as linhas da pele, as nódoas negras, as cicatrizes, as feridas das balas, o local e a história dos vestígios de fracturas, toda a geografia do seu corpo exposto.
"Não chores, não sou uma vítima!", confessou-me. Falou-me dos seus 250 assassinatos. Por encomenda, por dívida, por crime político, por droga, por diversão, por bebedeira (estrabismo etílico), por engano... Por enforcamento, afogamento, evenenamento, esfaqueamento, com beretta, revólver, à queima-roupa, com silenciador, carabina, espingarda, com objectiva, punhal, corda de pesca, electrocução, explosão, carro armadilhado...
Deu uns passos na minha direcção. Baixou os olhos, acendeu um cigarro, suspendeu-o aos lábios finos e prometeu-me, em voz serena, como se fosse um acto de contrição: "Amo-te! Se te matar, hás-de ser o meu último!"
O copo de uísque permanecia intocado na cómoda velha do quarto 381 quando a pequena morte inundou as veias de todo o meu sangue.
quarta-feira, 30 de agosto de 2006
regresso à rotina
Regresso à rotina
A "Schueberfouer", mercado medieval primeiro, depois feira, tornou-se com a tradição acrescentada dos séculos um dos encontros anuais obrigatórios dos habitantes deste pequeno país. Anunciava as víndimas, marcava o fim do Verão. Do ténue Verão luxemburguês, entenda-se. Sempre demasiado efémero, fugaz, sobretudo para nós, os austrais, quer tenhamos chegado com uma nova cor na pele ou aguentado estoicamente nestas latitudes um mês sem Verão.
Como apenas o estio é desculpa para o ócio, aqui no burgo, entre a meteorologia incerta e o calendário inane, houve quem encontrasse pano para mangas, mesmo num país desertado por parte da população. Provando que hoje em dia isso de rentrée política é coisa ultrapassada, porque afinal o mundo não pára para férias, os partidos ADR e DP, da Oposição, exigiram ao Governo, em Agosto, um debate alargado e profundo sobre a viabilidade do sistema de pensões. O tema é aliás uma preocupação constante. Compreende-se, num país cuja população envelhece rapidamente, com o mito do fim do Estado Providência sempre a espreitar. O propagandeado "Estado Mínimo", que o neoliberalismo radical apregoa, em que a instituição máxima do poder deveria apenas assegurar o "serviço mínimo" da justiça e pouco mais, aparece a muitos como a solução milagrosa para os rombos constantes que as caixas da Segurança Social acusam.
É uma ameaça que não paira (por enquanto) sobre o Grão-Ducado, graças sobretudo à imigração, que tem vindo a colmatar o débil crescimento da demografia dos nacionais. Os números são eloquentes: o número de reformas passou de 80 mil, em 1990, para 120 mil, em 2005, segundo o Statec. O que, numa população com 460 mil habitantes, significa que existem três assalariados para cada reformado. No mesmo período, o número de estrangeiros passou de 113 para 177 mil, enquanto os nacionais aumentaram apenas de seis mil indíviduos (de 271 para 277 mil).
Apesar de este reforço demográfico se ficar a dever em grande parte à imigração comunitária, uma sondagem veio revelar no princípio deste mês que os luxemburgueses (depois dos alemães) são dos que mais se opõem ao futuro alargamento da UE. A posição oficial do Governo luxemburguês e do primeiro-ministro Jean-Claude Juncker sempre foi, em contrapartida, a favor de um cada vez maior alargamento da União. Apesar deste aparente desfasamento entre as duas partes, 65% da população luxemburguesa – ou seja, exactamente a mesma percentagem que se pronuncia contra o alargamento –, diz confiar nas decisões do Governo!
Poderia ser antagónico. Mas atentemos no facto de o Grão-Ducado ser um dos doze países do mundo onde as pessoas são mais felizes, pelo menos a acreditar no estudo recentemente publicado pelo psicólogo social britânico Adrian White, da Universidade de Leicester. A capital luxemburguesa é mesmo uma das três mais prósperas do globo, revela, por seu lado, um inquérito do banco UBS. A única conclusão possível é ter a lição de Voltaire sofrido uma adaptação local: tudo está bem no melhor dos mundos... enquanto o nosso jardim continuar arrumadinho e cultivado.
Com a grande feira no Glacis, a vida volta verdadeiramente à capital e ao país, as crianças sabem que o regresso às aulas é para breve e espera-se com mais ou menos ansiedade e interesse a rentrée política. Mesmo quando as novidades não parecem abundar... a não ser que seja apenas uma ilusão de óptica.
O Conselho de Governo reuniu na sexta-feira. Decidiu, entre outros pontos, a participação luxemburguesa na Força Interina das Nações Unidas no Líbano (o envio de três homens!) e a criação, para 2007, de um novo liceu em Dommeldange. Abordaram-se ainda questões como a do desemprego endémico, que voltou a aumentar, depois de tímidas descidas no primeiro semestre do ano; bem como a lei da violência doméstica – apesar de ter sido votada há três anos, os números de mulheres e crianças espancadas continuam a rondar os mesmos valores de então. Os membros do Governo voltaram de férias mas, como ainda vinham de sandálias , limitaram-se a tratar do expediente. Mostraram que fizeram os deveres, mais nada.
Assuntos como a dupla nacionalidade, que deveria ter sido apresentada ainda antes do Verão, ficam relegados para a rentrée parlamentar, no Outono. Nenhum elemento do Executivo achou por bem fazer uma referência à sugestão no mínimo curiosa (para não dizer duvidosa) do círculo de reflexão Joseph Bech (próximo do CSV e do Governo!), que considerou oportuno propor, em pleno Agosto, na ausência da maioria dos estrangeiros (mas é apenas um detalhe!), que a cidadania europeia funcionasse como alternativa à dupla nacionalidade. Como se uma pudesse substituir a outra. Como se a cidadania europeia fosse um facto político consumado e a UE um Estado próprio. Uma proposta infeliz e anacrónica que, espera-se, não atrase (ainda mais!) os futuros debates.
Quando a feira desce à cidade, até os portugueses voltam da sua migração estival para Sul. Repousados, bronzeados, sorridentes, com maresias e saudades no olhar. Trocam a praia pela roda gigante e operam com esta transmutação do lazer o regresso à rotina. Devagarinho! Seria desejável que no acto guardassem o sebastianismo tipicamente luso no bolso, aproveitassem para alargar o seu horizonte, inquirissem sobre o que se passou nesta sua outra "terrinha" durante as semanas em que estiveram fora e participassem mais nas discussões de política e sociedade que se aproximam e que também lhes dizem respeito.
(José Luís Correia, in Contacto, 30.08.06)
quinta-feira, 24 de agosto de 2006
- "La mémoire et le feu - Portugal: l'envers du décor de l'Euroland", Jorge Valadas. Ensaio político que se resume a apedrejar os recentes governos, da esquerda à direita, dos comunistas aos bloquistas. Ninguém escapa. Não ousa porém tocar na efígie do "el-comadante" Álvaro Cunhal. A leitura que faz da actual política e das politiquices portuguesas é, diga-se em abono da verdade, inteligente e certeira. Mas o discurso sobre a "utopia portuguesa", com que se seduz o leitor na introdução e na contracapa, e que eu debalde esperei, não acontece. Li gato por lebre.
- "Planisfério Pessoal", de Gonçalo Cadilhe. A volta ao Mundo por terra e por mar do antigo jornalista da Grande Reportagem, publicada no Expresso, entre Dezembro de 2002 e Julho de 2004.
- "O cartógrafo do Infante", de Frank G. Slaughter. Romance com um bom enredo e que prende o leitor desde as primeiras páginas e que aproveita os vazios da História para romancear alguns mitos dos Descobrimentos Portugueses. Aventura, sexo, amor, traição, histórias e História. Boy meets girl, boy gets in trouble, girl saves boy. Em paralelo, o cartógrafo veneziano André Bianco, com ligações à família dos Médicis, feito escravo por corsários árabes, navega enquanto tal até aos mares da China e Cipango (Japão), cem anos antes de qualquer europeu lá chegar (os primeiros, os portugueses, chegariam em 1540!), e entra depois ao serviço do Infante D. Henrique, ao mesmo tempo que se apaixona, numa enseada de Sagres, por Leonor Perestrelo, filha do futuro governador da Madeira. Toda e qualquer semelhança com Cristovão Colombo é, evidentemente, pura coincidência.
- "Minto até ao dizer que minto", de José Luis Peixoto. Episódio "blasé" sobre a passagem amorfa das deambulações vagas e desilusórias pós-adolescentes à vida adulta nesta primeira década do século.
- "Um homem sem pátria" de Kurt Vonnegut. O autor de origem alemã, naturalizado norte-americano, que se celebrizou com "Matadouro 5" (sobre o Holocausto), escreve aqui artigos corrosivos (já o foi mais!) e com bastante humor (já também foi melhor!). Entre memórias da sua infância (nos anos 30) e críticas à actual administração Bush, é o regresso de um autor que está a gastar os últimos cartuchos para mostrar que a sua verve ainda vive.
- "A Máquina do Arcanjo", Frederico Lourenço. É o último capítulo de um tríptico, mas pode ser lido separadamente. O amor e o sexo gays no Portugal dos anos 80. Pequenos toques de humor deliciosos.
- "Sete Noites" de Alina Reyes. Pequena história sem muito enredo, escrita noite após noite, na primeira pessoa, com sensualidade tântrica e erotismo feminino.
- "Em Paris" de Ramalho Ortigão. Relatos das impressões e dos encontros do dia-a-dia do literato português na capital francesa em 1868. As comparações do mundo parisiense com uma sociedade portuguesa burra, casmurra, analfabeta, analfabruta e empertigada são inevitáveis e de uma aflitiva actualidade.Ramalho, o irmão-gémeo de Eça.
- "Quatro Gigantes" de Ramalho Ortigão. Textos do autor sobre Camões, Garrett, Camilo Castelo Branco e Eça de Queiroz. O título, pobre de conteúdo, duvido que pertença ao autor e seja antes uma escolha publicitária e infeliz da editora. Isso nota-se aliás pelos textos escolhidos. Enquanto os ensaios sobre Camões e Camilo se revelam bastante interessantes e completos, nota-se que a parca página e meia sobre Garrett não passa de um texto recuperado de uma petição da altura para tresladar o corpo de Garrett para o Panteão Nacional; os textos sobre Eça fazem parte da correspondência privada do autor e que, não obstante o seu interesse inequívoco sobre a vida e obra de Eça, não são biográficos nem completos nem a tal pretendiam.
- "Profecias do Bandarra", de Gonçalo Anes Bandarra. As trovas do Sapateiro de Trancoso. Boa introdução que situa o autor no seu contexto social e histórico.
- "Future Perfect", Ed. Jim Heimann. Cartazes, desenhos, ilustrações de cores berrantes, artigos e capas de revista de ficção científica sobre o que os nossos contemporâneos dos anos 1940-1960 imaginaram sobre um futuro que nunca chegou a acontecer: comboios para a lua, túneis subterrâneos sob o Atlântico, aviões de passageiros de quatro andares, submarinos privados, etc.
BDs e novelas gráficas
- "Cité de Verre", com textos de Paul Auster, ilustrações de Paul Karasik e David Mazzucchelli. Excelente enredo e desenhos. Adinha-se a dificuldade que os desenhadores tiveram para imaginar as partes mais elípticas e opacas da história. Sairam-se com nota 10.
- "Catálogo de Sonhos", de José Carlos Fernandes (JCF)
- "O Depósito dos Refugos Postais", de JCF
- "Pessoas que usam bonés-com-hélice", de JCF
- "A última obra-prima de Aaron Slobodj", de JCF. Todas as histórias de JCF se desenrolam num mundo paralelo onde os habitantes até se parecem connosco mas o mundo evoluiu prolongando um não-sei-quê négligé e blasé dos anos 40 e 50, como se tivesse sido preservada a nossa ingenuidade pré-Segunda Guerra Mundial. De episódio para episódio, descobrimos uma nova personagem, uma nova cidade, um novo promenor, uma nova história. Histórias deliciosas, humanas, trágicas, delirantes, loucas, tresloucadas, mas tão verdadeiras...mesmo quando são (apenas?) pura ficção e poesia gráfica.
em leitura
- "Contos Satíricos", contos do Oeste de Mark Twain
- "Pobre e Mal Agradecido", ensaios políticos de Rui Tavares
- "Os Livros da Minha Vida", Henry Miller
- "Ninfomaníacas e Outras", Irwing Wallace
- "Os Cento e Vinte Dias de Sodoma", Marquês de Sade
- "Todos os Dias", Jorge Reis-Sá
leitura incidental
- "A noite abre os meus olhos", colectânea poética de José Tolentino Mendonça
- "O Teu Rosto", António Ramos Rosa (foto infra)
- "Mundos Paralelos", teses recentes da Física explicada em miúdos por Michio Kaku
quinta-feira, 20 de julho de 2006
Madredeus na Abadia de Neumünster: 20 anos a cantar a alma portuguesa
| É a quarta vez que os Madredeus actuam no Luxemburgo Fotos: Guy Wolff |
Cantam Lisboa, a alma e a poesia portuguesa. Uma guitarra portuguesa alada (José Peixoto), uma viola clássica sublimada (Pedro Ayres Magalhães), um baixo providencial (Fernando Júdice) e teclas inspiradas (Carlos Maria Trindade) enquadram a composição para uma voz única e inconfundível, a de Teresa Salgueiro.
Um domingo ao entardecer, num cenário idílico. Os Madredeus são o grupo português mais internacional de sempre e a prová-lo, mais uma vez, foi o público – 1.200 pessoas das mais diferentes nacionalidades e origens – que assistiu no domingo ao concerto no adro da Abadia de Neumünster, no Grund, no âmbito do Festival OMNI 2006, promovido pelo Centro Cultural de Encontro (CCRN).
É a quarta vez que os Madredeus passam pelo país, do qual guardam a boa recordação do concerto em Wiltz, em 2000, e do primeiro, em 1992, "porque era uma das duas primeiras actuações que faziamos fora de Portugal", conta-nos Pedro Ayres Magalhães, mentor do grupo.
"Do palco, não fazemos distinções entre o público. É normal em Paris ou no Luxemburgo haver mais portugueses do que noutras cidades, mas os portugueses até costumam ser a minoria. A obra do grupo – temos cerca de 120 canções –, continua a ser pouco conhecida, mesmo se o nome é famoso!", lamenta Pedro Ayres, mentor e membro-fundador do grupo.
Lisboa e Teresa
Os Madredeus são uma fantasia musical erudita de raiz genuinamente portuguesa, segundo uma definição de Pedro Ayres. Move o grupo o culto da composição em português. A grande fonte de inspiração é Lisboa. Mas também a própria Teresa Salgueiro.
"Fazemos música para guitarra, para a voz da Teresa e para ser cantada em português", explica o guitarrista. Virtuoso, para quem o soube apreciar no domingo, e que continua a ser, 20 anos depois da criação do grupo, o principal letrista e compositor das canções.
Em 20 anos mudaram muito? "Não mudámos, evoluímos!", corrige. E acrescenta: "Cultivámos um estilo, apurámos, sofisticámos um tipo de encenação, a solenidade nos concertos, a importância da voz, da poesia e da guitarra clássica".
| "Madredeus é uma orquestra de bolso", diz Pedro Ayres Magalhães |
Esta "orquestra de bolso", como Pedro Ayres lhe costuma chamar, "já atingiu tudo ou quase tudo o que havia para atingir".
"Em termos de popularidade e de reconhecimento internacional conseguimos o que nenhum outro grupo português conseguiu. Fizemos música para cinema (n.d.R.: Wim Wenders e Maria de Medeiros, por exemplo), tocámos com orquestras, em catedrais, em salas das mais prestigiadas do mundo. Em Portugal, somos um dos grupos cujos concertos mais bilhetes vendem e mesmo a nível europeu, somos os únicos no nosso género a tocar em 36 países há 20 anos."
Actualmente, todos os elementos do grupo evoluem noutros projectos colectivos ou a solo. O único a dedicar-se totalmemte aos Madredeus é Pedro Ayres, que foi também quem teve a ideia de criar o grupo em 1986. E lembra a génese, para juntar ao mito do grupo: "Quando eu andava em concerto pelo país (n.d.R.: leia-se, no tempo dos Heróis do Mar), via os teatros fechados e fiquei com vontade de criar um grupo com guitarras acústicas que pudesse tocar nesses sitíos." O resto já faz parte da história oficial. Foi assim que nasceu a ideia. Vinte anos depois está mais do que nunca viva e recomenda-se.
Depois de mais de 120 cidades do mundo, foi a vez do Luxemburgo ficar a conhecer o concerto onde divulgam as músicas dos dois últimos álbuns: "Faluas do Tejo", de 2005 e "Um Amor Infinito", de 2004. Isto porque não há temas novos nem estão a preparar nenhum álbum para celebrar os 20 anos de carreira.
Num incontornável "bis" no final da noite, regressaram ao palco para oferecer ao público temas de álbuns anteriores como "No céu da Mouraria" e "Haja o que houver".
José Luís Correia,
in CONTACTO, 19/07/2006
quinta-feira, 6 de julho de 2006
Tous les matins, douce décevance, j'aspire aux confessions de ton âme, aux céléstes pourpris de ton coeur, mais tu n'a pas écris, mon bel enfant. N'importe, j'attendrais jusq'au petit matin tes lettres d'amour.
"We followed the snake, the endless snake, trough the desert of our commun faith. My pretty child, my lovely child, the blue bus is calling us, where is he taking us?..." (Jim Morrison, The Doors, "The End")
quarta-feira, 5 de julho de 2006
La promesse m'avait parue absurde, enfantine, obsolète, chimère d'un passé utopique effacé. Il y a des choses importantes que l'on oubli sans trop sans rendre compte, tant le quai de la gare nous semble froid et nous glace les muscles jusq'au os.La nuit paraissait infranchissable, mais j'ai suivi, comme les rois d'antan, les étoiles de l'enfant, mais sans trop y croire.Mais soudain, une pluie d'étoiles s'est deversée sur la voie lactée. La nuit devint pâle d'abord, translucide ensuite. J'ai cru y perdre mes sens. La rosée sucrée s'est posée sur mes lêvres et l'aube inattendue arriva enfin. La lumière finit par m'éclabousser et une merveilleuse et belle journée, comme un nouvel amour, s'est levée.
Os domingos à tarde,
que costumávamos passar a fazer amor
misturando os nossos corpos insuspeitos e cadentes
deitando a nossa alma insustentável
no cobertor infinito das nossas promessas à flor da pele
maltratando as horas ciumentas e vis
que nos fitavam de soslaio do canto escuro do quarto da mansarda
e nós alheios a esses mecanismos
que teimam em dividir o dia mesmo se ele sempre nasce inteiro,
são indolentes sem ti
são cascas de noz vazias
que estalam na cova da minha mão
e me devolvem o eco fragmentado
dos teus passos no soalho velho do meu passado.
A sós, entregue à turba cruel
das minhas vozes que se amotinam,
deixo-as morderem-me os dedos, roerem a mordaça,
comerem o pano, cravarem-me os dentes nas jugulares
e destilarem-me veneno nas artérias.
Num gesto violento
faço um garrote à minha alma
aperto-o bem
dedilho a veia sediciosa
espeto a seringa
como uma lança de guerra
e injecto afecto no objecto cardíaco.
Sei que para salvar-te basta abraçar-te.
Mas quem me resgata a mim?
Não descures o fogo, amor
que é a verdadeira razão do mundo
e o eixo incandescente desta esfera
e a dorsal atlântica dos meus paralelos.
É o fogo, amor
que atrai os dois pólos opostos
e os sustenta em frágil equilíbrio
e toda a terra em volta.
É o fogo, amor
que mantém este continente
e evita a deriva,
apesar dos tsunamis na minha boca
e dos sismos que me atravessam como cicatrizes.
Mas nem a insistência dos ventos
nem a memória das marés
nem o sopro das águas
hão-de extinguir as chamas
que lavram esta queimada
e preparam a terra prometida.
A floresta virgem foi lá atrás no meu passado.
É o fogo, amor
e precisa arder
como o sol teimoso
agrarrado a este braço de galáxia.
Sou fogo, amor
e preciso arder
e das tuas águas
que lavem as minhas feridas abertas
e dêem de beber ao meu chão em pousio.
E as águas hão-de ser sangue
e penetrar as camadas profundas do meu corpo
e os aluviões da minha alma.
E a alma é fogo, amor
que na rota das tuas mãos
na nebulosa da tua nuca
e na travessia do teu peito
sofre de combustão espontânea
deflagra e perpetua o ciclo.
2
dança da chuva, céu que não responde por despeito, nuvem arrogante que esqueceu a memória da água, gotas como gumes gelados que se suicidam sobre a minha pele, infiltram os meus porosmeu sangue transvasado, minhas células explodindo como supernovas no vazio sideral do meu corpo, universo do meu verso único em mim, árido e estéril como um deserto de sal, almejo
3
adornos incontornáveis a que tento escapar, tento fugir ao pântano que teima em me atrair, as sombras que me assombram, os teus dedos acalentam-me, cobres-me com o teu corpo, sossegas a minha intranquilidade, terias feito bem ao bernardo
sim, quero acreditar nos dados, no tapete verde, nos números, sai o 9, volto a jogar, o 1 gira até esbarrar contra a tabela, ganhei? tens a certeza? pensas que jogo todos os dias? apenas na tua roleta russa, meu amor!
Fórum "Luxemburgo, terra de acolhimento": Mais apoio aos alunos e um diálogo sistemático entre pais e professores
| Marion Bur (La Voix du Luxembourg), Pierre Lorang (Luxemburger Wort), Luís Barreira (Rádio Latina) e José Luís Correia (CONTACTO) moderaram o debate Foto: Guy Jallay |
Uma maior participação e incentivo dos pais na carreira escolar do aluno, professores mais sensibilizados para ajudar as crianças em dificuldade e um maior diálogo entre os corpos docentes e os encarregados de educação foram alguns dos principais pontos discutidos num debate livre e aberto promovido pelo CONTACTO, Rádio Latina, "Wort" e "Voix du Luxembourg", que decorreu no edifício-sede do grupo, em Gasperich, em 29 de Junho último.
Neste primeiro fórum "Luxemburgo, terra de acolhimento" sobre a temática dos alunos portugueses que frequentam o sistema de ensino luxemburguês, foram também vários os intervenientes a sublinhar a importância de adaptar melhor a escola luxemburguesa à chegada constante de alunos estrangeiros (e não apenas portugueses!), de forma a não os canalizar inevitavelmente para o insucesso escolar.
Para isso, o Luxemburgo deve definitivamente assumir-se como país de acolhimento, opinaram os participantes, e não apenas com uma terra de imigração e de passagem. Alertou-se ainda para que os pais tomem também consciência de que, ao emigrarem, se torna necessário acompanhar com maior atenção o percurso escolar dos seus filhos.
Para estes, a mudança é vivida, frequentemente, de forma perturbadora. Dependendo da idade, a maior ou menor dificuldade de adaptação ao novo país passa sobretudo pelo sucesso escolar, que continua a ser a melhor garantia de integração, de realização pessoal e de bases sólidas para o futuro.
A questão das línguas na escola luxemburguesa, as turmas de acolhimento, a escola de tronco comum, as aulas integradas de Português, as barreiras culturais e sócio-políticas, foram igualmente abordados. Um suplemento detalhado sobre este debate será publicado brevemente no CONTACTO.
Marcaram presença neste fórum mais de duas dezenas de convidados, entre representantes das autoridades portuguesas no Luxemburgo e do Ministério da Educação luxemburguês, Coordenação do Serviço de Ensino do Português, Centro de Psicologia e de Orientação Escolar (CPOS), associações de pais de alunos portugueses, associações federativas que trabalham com o movimento associativo português (CLAE, ASTI, CASA, APL, etc.), sindicatos, além de outras entidades e colectividades.
Os próximos fóruns "Luxemburgo, terra de acolhimento", previstos para Setembro e Novembro próximos, abordarão a integração sócio-política da comunidade portuguesa e a problemática do movimento associativo português.
in CONTACTO, 05/07/2006
quinta-feira, 29 de junho de 2006
Comentário: Troca de galhardetes
Só se vêem bandeiras suspensas nas janelas e varandas do Luxemburgo quando acontecem eventos futebolísticos de dimensão internacional: o Euro, há dois anos, ou agora, o Mundial. Porque o futebol é assim mesmo, mexe connosco, faz-nos vibrar, ou não fosse o desporto-rei por excelência. Isso é sinal de não-integração ou de segregacionismo para com o país em que vivo? O fenómeno existe apenas em torno do futebol, senhora!
Não vejo bandeiras nacionais a serem hasteadas noutras ocasiões! Nem durante os muito populares Jogos Olímpicos. E muito menos no dia nacional de uma qualquer comunidade radicada no Grão-Ducado. O que tenho visto muitas vezes é portugueses hasteando bandeiras luxemburguesas a 23 de Junho. Porque as pessoas gostam de estandartes.
Há depois que distinguir entre patriotismo (que se define como amor à pátria), nacionalismo (que é uma preferência, por vezes exclusiva, por tudo o que diz respeito à nação de que se faz parte) e... futebol! E isto, é apenas futebol, senhora!
Em Portugal, por esta altura, vêem-se bandeiras brasileiras, ucranianas, angolanas e francesas, sem que tal choque ninguém. Muito pelo contrário, isso só traz mais cor e alegria à festa do futebol que galvaniza os povos à escala mundial como nenhum outro evento. Em Colónia, Frankfurt, Gelsenkirchen e Nuremberga, onde a selecção portuguesa jogou, havia adeptos japoneses e alemães a envergarem a camisola das quinas sem pejo.
Porque isto é apenas futebol, senhora! O que se suspende nas janelas é paixão pelo futebol, não é chauvinismo recalcado nem gritos de Ipiranga. São bandeiras, senhora!
No fórum aberto pelo site Bomdia.lu em torno desta questão, um dos testemunhos põe o dedo na ferida: "Parece que as bandeiras, as buzinas dos automóveis e os gritos de vitória portugueses incomodam quem tão generosamente permitiu que as nossas mães fizessem limpeza e os nossos pais trabalhassem nas obras nos últimos 30 anos."
O Mundial e o fenómeno das bandeiras teve pelo menos esse mérito: dar visibilidade às comunidades que contribuem esforçadamente para a riqueza económica deste país. Mas assim que ousam mostrar a sua diferença, há quem se julgue no direito de proclamar que devem ser calados e ostracizados. Quem quer segregar quem, afinal, senhora?
José Luís Correia,
in CONTACTO, 28/06/2006
quinta-feira, 15 de junho de 2006
Portugueses têm os níveis de formação mais baixos do Luxemburgo - estudo
| Cerca de 62% dos trabalhadores portugueses possuem apenas o ensino primário, vendo-se assim relegados para profissões onde são exigidas menos qualificações Foto: Anouk Antony |
A comunidade portuguesa representa mais de um terço (quase 40%) da população activa estrangeira residente no Grão-Ducado, mas a maioria dos trabalhadores portugueses continua a ter uma formação baixa. Em 2004, 62% tinham frequentado o ensino primário e apenas 3% eram detentores de um diploma pós-secundário.
Estes dados são avançados no estudo "Formação e nacionalidade no seio da população activa" que o Instead - Centro de Estudos de Populações, Pobreza e de Políticas Sócio-Económicas (CEPS), sediado em Differdange, publicou no seu site , na semana passada.
A análise pode ser considerada negra e nada animadora para a comunidade portuguesa mas, lendo o documento do CEPS, pode verificar-se que a situação melhorou desde 1989. Nesse ano, 89% dos portugueses residentes no país possuíam apenas o ensino primário; em 2004, esse número reduziu-se em 27% em relação há 15 anos. Há dois anos, existiam mais 10% de portugueses com o ensino secundário inferior do que em 1989. E eram mesmo mais 14% a sair do liceu com o ensino secundário superior do que 15 anos antes. Dos 0,1% detentores de um diploma do ensino superior em 1989 passou-se para 2,7% em 2004.
Apesar destes progressos, os trabalhadores portugueses residentes continuam a ter os níveis de formação mais baixos do país.
Formação difere segundo a nacionalidade
O estudo demonstra que os níveis de formação da população activa no Luxemburgo diferem e muito segundo a nacionalidade e origem dos trabalhadores. Para o constatar, basta comparar os diferentes grupos populacionais.
Em 2004, os trabalhadores imigrantes representavam 44% da população activa. Os trabalhadores alemães, franceses e belgas residentes representavam no seu conjunto 30% da mão de obra residente estrangeira.
Cerca de 22% dos trabalhadores residentes tinham a escola primária, 11% os estudos secundários inferiores, 39% o nível secundário superior e 29% tinham alcançado o ensino superior. Os trabalhadores com melhores qualificações eram incontestavelmente os imigrantes oriundos da França, Bélgica e Alemanha, bem como os estrangeiros da União Europeia (UE), exceptuando italianos e portugueses.
Cerca de 60% dos imigrantes dos países vizinhos do Luxemburgo e da União Europeia (na sua maioria holandeses e britânicos) possuíam formação académica. Pelo contrário, apenas 27% dos trabalhadores luxemburgueses, 19% dos italianos e 21% dos estrangeiros extra-comunitários possuíam um diploma universitário.
A evolução desde 1989
Nos últimos 15 anos, os níveis globais de formação da população activa subiram, mas em proporções diferentes por nacionalidade. Entre 1989 e 2004, os trabalhadores apenas com o ensino primário baixaram de 36 para 22%; os que tinham frequentado o ensino secundário inferior aumentaram de 7 para 11%; os que tinham um nível secundário superior baixaram de 46 para 39%; e os activos com formação universitária passaram de 11 para 29%.
Os activos luxemburgueses seguiram a tendência global da população activa, aumentando em 15% o número dos que têm um diploma pós-secundário e baixando em 18% os que apenas têm o ensino primário. Desde 1989, alemães, belgas e franceses elevaram o seu nível de estudos, sobretudo no ensino superior (de 21 para 62%). Já eram os mais qualificados em 1989 e o fenómeno acentuou-se nos últimos 15 anos. Entende-se assim que continuem ainda hoje a ser a reserva privilegiada de mão de obra qualificada para o Luxemburgo, pode ler-se no estudo do CEPS. E nisto diferem, em substância, da imigração italiana e portuguesa, conclui ainda o estudo.
José Luís Correia
in CONTACTO, 14/06/2006
sábado, 3 de junho de 2006
Juncker distinguido com Prémio Carlos Magno
| Juncker dedicou o prémio ao povo luxemburguês Foto: Marc Wilwert |
O prestigiado Prémio Carlos Magno ("Karlspreis"), anualmente atribuído pela cidade de Aachen (Aix-la-Chapelle, em francês) a personalidades e instituições que se empenham na unificação da Europa, foi este ano atribuído ao primeiro-ministro luxemburguês, Jean-Claude Juncker, por este ser "um europeísta convicto e um motor da integração europeia", segundo disse Jürgen Linden, burgomestre daquela cidade alemã.
A cerimónia decorreu a 25 de Maio na Câmara Municipal de Aachen, na presença de 800 convidados, entre os quais os membros do Governo luxemburguês, o casal grão-ducal e muitos outros grandes vultos do mundo político europeu. Alguns desses são antigos laureados com o galardão, como o antigo chanceler alemão Helmut Kohl, o ex-presidente francês Valérie Giscard d'Estaing, a ex-presidente do Parlamento Europeu Simone Veil, e o político polaco Bronislaw Geremek.
"Continuarei a lutar pela Constituição europeia"
No seu discurso, Juncker dedicou o prémio à população do seu país e disse que os europeus devem estar orgulhosos do que realizaram em comum nos últimos 50 anos.
Apelando a uma solidariedade entre os povos e declarando-se contra uma União Europeia que fosse apenas uma "zona económica de livre câmbio", o chefe de governo luxemburguês disse ser necessário "envolver os trabalhadores na [construção europeia], dando-lhes direitos mínimos europeus. (...). Temos que aprender com os sucessos europeus do passado e não deixar este prédio desmoronar-se (...) Enquanto não houver uma declaração de óbito, continuarei a lutar prela Constituição Europeia", afirmou convicto. O Grão-Ducado é o recipiendário deste prémio pela terceira vez.
O primeiro galardoado com esta distinção foi o ministro dos Negócios Estrangeiros Joseph Bech, em 1966. Vinte anos depois, em 1986, foi o próprio povo luxemburguês a ser distinguido pelo seu empenho na causa europeia. O Prémio Carlos Magno foi criado em 1950 e é considerado uma das maiores distinções europeias. Em 2005 premiou o presidente da Itália, Carlo Azeglio Ciampi. O prémio já foi atribuído a personalidades como Jean Monnet (1953), Winston Churchill (1955), Robert Schumann (1958), Rei Carlos de Espanha (1982), Henry Kissinger (1987), François Mitterand (1988), Jacques Delors (1992), Tony Blair (1999) e Bill Clinton (2000).
José Luís Correia
in CONTACTO, 31/05/2006
sexta-feira, 2 de junho de 2006
Raquel Barreira, definitivamente jazzy
| Já cantou rock, depois fado. Hoje, a sua música não tem fronteiras nem complexos Foto: Francisco S. |
Além de Georges Urwald (piano) e Al Lenners (percussão) – com quem compôs o álbum que mais se parece consigo –, faziam parte da lista de convidados especiais Marc Demuth (contrabaixo), Lisa Berg (violoncelo), Maurizio Spiridigliozzi (acordeão), Gast Gnad (trombone), Ernie Hammes (trompete), Nadine Kauffmann (saxofone), Vania Lecuit (violino) e Joachim Kruithof (alto).
A noite era de estreias e prometia. Raquel cantou pela primeira vez em francês, "Mémoires", um original escrito por si, à semelhança de quase todos os temas dos seus álbuns. Este aguarda ser incluído no próximo álbum. Como aliás outros novos temas já compostos por si, Urwald e Lenners, mas que o trio ainda não está a apresentar ao vivo, confiou a cantora ao nosso jornal.
Outra novidade: Raquel fez-se acompanhar na lindíssima canção "À luz do dia" por um grupo coral adolescente. Um excelente proposta que, infelizmente nesse dia, não surtiu o efeito desejado. Mas uma ideia, quiçá a reservar para um próximo trabalho.
Do italiano ao inglês, do swing ao fado, passando pelo tango e a valsa, Raquel provou ser uma artista multifacetada que já viajou muito pela música, conseguindo seduzir públicos muito diferentes.
Os espectadores não-portugueses eram aliás numerosos, como sempre nos seus concertos, e foram, mais uma vez, contagiados pelo entusiasmo da cantora que já os conquistou. A prová-lo, consulte-se no site www.raquelbarreira.net a sua agenda de concertos previstos até ao Verão. A próxima actuação é já na sexta-feira, 2 de Junho, às 17h, na Abadia de Neumünster, no Grund.
No concerto em Esch, Raquel mostrou ainda que não é o xaile que faz a fadista. É a voz. Com a sua, sentida e depurada, e o piano sensível de Urwald, o fado "Ó gente da minha terra" (um dos mais famosos fados cantados por Amália) adquiriu um encanto dramático muito belo, personalizando naquele instante a saudade, mesmo para quem não falava a língua de Camões. Porque há coisas que não se explicam.
José Luís Correia
in CONTACTO, 31/05/2006
quinta-feira, 1 de junho de 2006
Cow Parade Lisboa 2006: As vacas saíram à rua num dia assim
| Fotos: José Luís Correia |
Os lisboetas interrogam-se sobre as vacas bizarras à solta, desde 13 de Maio, pelas ruas, avenidas, praças e pracetas da capital portuguesa. Mas estas não mugem, nem tugem. Nem incomodam ninguém. Muito pelo contrário, divertem os passantes, atraem as crianças e interpelam até o turista menos incauto. Impassíveis e serenas, apesar das suas vestimentas e aparatos coloridos e excêntricos, pastam nas pedras da calçada das sete colinas como se de uma deliciosa e verdejante pradaria se tratasse, alheias aos olhares curiosos, ao vai-vém dos transeuntes e até ao chinfrim poluente dos automóveis.
Sob a denominação de "Cow Parade - Lisboa 2006", a manada insólita coloca Portugal no mapa das já célebres manifestações de arte pública com vacas que estiveram patentes em cidades como Chicago, Nova Iorque (EUA), Praga (República Checa), Barcelona (Espanha), Bruxelas (Bélgica), Estocolmo (Suécia), Tóquio (Japão) e São Paulo (Brasil), entre muitas outras.
A ideia nasceu em Zurique em 1998 e estendeu-se praticamente às cidades dos quatro cantos do planeta. Aqui no Luxemburgo,m recorde-se, adoptou o nome de "Art on Cows" (Arte nas Vacas) e coloriu a capital luxemburguesa no Verão de 2000.
A par de Lisboa, onde o evento decorre até Setembro, este ano a exposição acontece igualmente nas cidades europeias de Paris (França) e Edimburgo (Escócia). Do outro lado do Atlântico, em Boston, Denver (EUA) e Belo Horizonte (Brasil). Tendo passado por mais de 25 cidades em todo o mundo, a “Cow Parade” pintou já mais de quatro mil vacas.
As 101 esculturas bovinas em fibra de vidro e tamanho real foram decoradas e pintadas por artistas locais. Quase sempre com cores berrantes ou psicadélicas, às florzinhas, às listas, às riscas, às pintas, malhadas (tresmalhadas?), aos quadradinhos... de chocolate, com chapéus, luvas de boxe e até camisa com mangas-balão. O bovino que arbora esta renascentista vestimenta responde pelo nome de “Vacamões” e protege com “mão de vaca” o épico poema, pomposamente semi-deitado à entrada da rua do Carmo.
Não confundir com a “Cow-mões”, que conversa, em amena cavaqueira mas surda aos humanos ouvidos, com o seu colega Chiado, no largo do mesmo nome, lugar de artistas, escritores e poetas. Os outros utentes da via pública, engraxadores e cauteleiros que tais, que se acautelem eles também, pois as vacas apoderaram-se igualmente das esplanadas e parques da "cidade branca".
Mesmo os taxistas lisboetas acusam a concorrência nas bandeiradas da “Vaca Táxi”, colocada junto à Praça do Saldanha. Passeando por Lisboa, podem descobrir-se outras vacas fabulosas.
Há as tipicamente portugueses, como a “Vacabarcelos” (Amoreiras), a “Vaca Calçada Portuguesa” (Praça do Município) ou a “Portucow” (Rossio), que veste o lombo com as quinas. As “tecnológicas”, como a “Cowpyright” (Campo Pequeno) e a “CowPuter” (Gare do Oriente). E as francamente extravagantes, como a “Vaca Ilha da Madeira” (Centro Comercial do Colombo), a “Blue Cow” (Estação de Entrecampos), a “Vaca Alada” (Parque das Nações) ou a “Cândida Charneca”, junto ao Marquês de Pombal, que se improvisa do alto palanque em pastor providencial de gado grosso.
Após a exposição, em Setembro, as vacas serão vendidas em leilão público a 30 desse mês, revertendo o valor, distribuído através do Mecenato.net, para a Associação de Cegos e Amblíopes de Portugal (ACAPO), a Assistência Médica Internacional (AMI), a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), o "Chapitô", Cruz Vermelha Portuguesa, Espaço T, Escuteiros de Portugal, Liga dos Bombeiros Portugueses e projectos da SIC Esperança.
José Luís Correia, em Lisboa
in CONTACTO, 31/05/2006
sábado, 22 de abril de 2006
Job coaching: Arranja-me um emprego!
| Cerca de 50 funcionários do sindicato vão passar a ajudar membros e não-membros no desemprego a encontrar um posto de trabalho Foto: Guy Jallay |
O sindicato luxemburguês LCGB sempre ajudou pontualmente membros e não membros a encontrarem um emprego, explicou ao CONTACTO Joé Spier, porta-voz da central sindical.
"Foi o que aconteceu o ano passado com 331 pessoas que por intermédio do LCGB encontraram um posto de trabalho no sector privado", recorda o mesmo responsável. "Preocupados com a grave situação do desemprego no Luxemburgo e dado o sucesso dessas acções esporádicas, resolvemos sistematizar o serviço", explica.
Este serviço, que o LCGB resolveu denominar de "job coaching", lançado oficialmente a 12 de Abril, visa estruturar melhor esse apoio. "Foram nomeados cerca de 50 funcionários do nosso sindicato, que conhecem bem pessoas de contacto nas empresas e têm relações no mundo do trabalho, para ajudarem as pessoas desempregadas, o que facilitará a sua missão", diz Spier. Cada um desses funcionários deverá trabalhar no máximo com três desempregados, de modo a conseguir levar a bem a sua tarefa.
Para o presidente do sindicato, Robert Weber, "não vale a pena criticar a Administração do Emprego (ADEM) e o Ministério do Trabalho. É preciso agir. Os últimos tempos mostraram-nos como é difícil negociar um plano social e como é fácil despedir gente". Weber faz notar que 62,3% das pessoas inscritas na ADEM já perderam o emprego pelo menos três vezes.
O Grão-Ducado conta actualmente cerca de 300 mil assalariados, dos quais 123 mil atravessam diariamente uma das três fronteiras, lembrou. Weber recordou que existem pouco mais de 24 mil empresas no país, das quais 2.500 empregam mais de uma centena de trabalhadores. Ainda segundo Weber, em 2001, 582 dessas empresas contactaram a ADEM à procura de trabalhadores para contratar. No ano passado, o número subiu para 667.
José Luís Correia
in CONTACTO, 19/04/2006
quarta-feira, 12 de abril de 2006
Estudantes portugueses usam mais a internet que os do Luxemburgo - Eurostat
Cerca de 63% dos portugueses entre os 16 e os 74 anos nunca acedeu à internet, revelam dados divulgados dia 6 de Abril pelo Departamento de Estatísticas das Comunidades Europeias, o Eurostat, sediado no Kirchberg.
No lado oposto da tabela está o Luxemburgo, onde 63% dos inquiridos se conectam à rede, pelo menos, uma vez por semana. São assim quase dois terços os portugueses que nunca utilizaram a internet em casa, no emprego ou noutro local. No Luxemburgo, a percentagem de inquiridos que disse nunca ter usado a internet é de apenas 29%. Um número muito abaixo da média dos 22 países da União Europeia (UE) considerados nos dados do Eurostat, já que são 43% em média que nunca navegaram na rede mundial.
Acedem à Internet pelo menos uma vez por semana 28% dos portugueses entre os 16 e os 74 anos (31% dos homens e 25% das mulheres), o que comparado com o Luxemburgo, onde a percentagem é de 63% (76% dos homens e 51% das mulheres), posiciona os dois países nesta matéria em lados opostos da tabela. A média comunitária que usa com frequência semanal a net é de 43% (49% dos homens e 38% das mulheres).
O Luxemburgo é no entanto comparável a Portugal no que diz respeito ao uso da internet pelos estudantes. Em ambos os países, apenas 4% dos estudantes com mais de 16 anos nunca navegaram na internet (7% de média na UE). Portugal consegue apenas estar acima da média da UE (79-81%) e ultrapassa mesmo o Luxemburgo (87%) na percentagem de estudantes maiores de 16 anos que utilizam a internet pelo menos uma vez por semana (88%).
Os assalariados são os que mais usam a internet no Luxemburgo, depois dos estudantes: 73% acedem à rede global uma vez por semana, havendo, no entanto, 20% que confiam nunca tê-la usado. Em Portugal, o número de assalariados a ligar-se à net é de apenas 34%, e os que nunca usaram a ferramenta cibernáutica atingem mesmo os 68%.
Quanto aos trabalhadores independentes, são 66% no Grão-Ducado a usar a internet pelo menos uma vez por semana, enquanto em Portugal esse número é de apenas 23%. Também os desempregados portugueses são mais numerosos – 70% – a nunca terem utilizado a rede das redes (48% na UE), quando no Luxemburgo a percentagem também é elevada, mas se fica pelos 45%.
A percentagem de mulheres portugueses que nunca usaram a internet atinge os 66% e baixa para 59% entre os homens. No Luxemburgo, apenas 17% dos homens nunca usaram a "grande teia global" e 40% das mulheres. Aliás, em todos os países considerados nestas estatísticas, a percentagem de homens que todas as semanas acedem à internet é maior do que a das mulheres (excepto na Finlândia e Hungria, onde se igualam), e é também maior a percentagem de mulheres que nunca navegou na internet.
José Luís Correia
in CONTACTO, 12/04/2006
quarta-feira, 29 de março de 2006
Prevenção contra a Sida: "É difícil sensibilizar os portugueses"
| Robert Hemmer, médico e presidente do Comité de Vigilância da Sida e chefe do Departamento de Doenças Infecto-Contagiosas do Centro Hospitalar do Luxemburgo Foto: Marc Wilwert |
O Dr. Robert Hemmer, presidente do Comité de Vigilância da Sida e chefe do Departamento de Doenças Infecto-Contagiosas do Centro Hospitalar do Luxemburgo, vem mais uma vez confirmar que é difícil sensibilizar a comunidade portuguesa para o problema da sida, numa altura em que o flagelo volta a bater recordes de novos infectados no Grão-Ducado (ver artigo principal). Hemmer lamenta que a gravidade do problema "não esteja a ser entendida pela comunidade portuguesa", considerando-a uma das "populações-alvo" do Plano Nacional de Luta contra a Sida.
Sobre o que o plano prevê exactamente no que diz respeito à comunidade portuguesa, Hemmer explica que os pormenores só serão conhecidos depois do projecto aprovado pelo Conselho de Governo, adiantando, ainda assim que, "como é difícil sensibilizar os portugueses, queremos actuar no terreno onde a comunidade estiver, seja em manifestações culturais ou noutros locais". Insistindo na ideia de não estigmatizar a comunidade portuguesa, o médico revela-nos com alguma relutância que o número de portugueses infectados foi de cerca de 15 em 2005, acrescentando logo em seguida que "existe mais ou menos o mesmo número de luxemburgueses infectados". Instado a pronunciar-se sobre a ideia generalizada na comunidade portuguesa de que a maioria dos novos infectados portugueses são recém-chegados de Portugal, Hemmer desmente categoricamente, explicando que nos casos que foram detectados pelo seu serviço "eram tanto portugueses de cá como recém-chegados ao Grão-Ducado".
Uma das mensagens que Hemmer insiste em fazer passar é que a sida diz respeito a pessoas de todas as idades, sexo e origens, ninguém estando ao abrigo da doença se mantiver atitudes de risco com os seus parceiros sexuais ou na partilha de seringas contaminadas. E volta a recomendar o uso do preservativo como forma mais eficaz de protecção durante as relações sexuais (ocasionais ou frequentes) em que não se conhece o parceiro sexual.
José Luís Correia
in CONTACTO, 29/03/2006
quinta-feira, 23 de março de 2006
Debate "cidadania vs nacionalidade" Ser cidadão de razão ou coração?
| Para o filósoofo Hubert Hausemer, ser cidadão significa votar de forma interessada Foto: Tessy Hansen |
É em torno destas questões que a associação de cidadania "La vie nouvelle", que se define como "pluralista, laica e independente" (composta por 17 membros de sete nacionalidades diferentes), lança o debate em antecipação da lei da dupla-nacionalidade que deverá ser votada ainda este ano na Câmara dos Deputados. Em cena estão personagens-tipo que vão deixando pistas de reflexão no ar sobre a temática.
"A nacionalidade é uma questão de coração e o coração não se pode dividir em dois", diz a personagem que interpreta uma portuguesa. A personagem francesa reivindica querer votar no Luxemburgo e em França.
O luxemburguês-tipo (típico) responde-lhe que se assim tivesse sido permitido durante o referendo sobre a Constituição Europeia o voto dela teria sido expresso com um "sim" no Luxemburgo e um "não" em França.
"O que é, no mínimo, um caso de esquizofrenia", denuncia. O público ri e a mensagem passa. Os resultados de um questionário a 120 visitantes do Festival das Migrações mostra que 47% dos inquiridos considera que para se ser cidadão basta residir há um certo tempo no Grão-Ducado. Mas são 15% a opinar que para se ser cidadão é preciso ter a nacionalidade.
A diferença entre as duas opiniões é grande e revela que cada um de nós tem uma noção diferente dos dois conceitos. Para alguns ser cidadão é aceder a direitos e deveres cívicos mas não aos que possuem os nacionais. Por exemplo, segundo a actual legislação em vigor no Luxemburgo, o cidadão residente não-luxemburguês tem direito de voto nas eleições municipais depois de cinco anos a residir no país, mas não pode votar nas legislativas. É uma questão de vontade política.
Para o filósofo Hubert Hausemer o problema põe-se exactamente nesses termos: pode considerar-se nacionalidade e cidadania conceitos iguais ou diferentes, dependendo do ponto de vista que se quer tomar. Pode-se, por exemplo, ter nacionalidade portuguesa, mas ser cidadão do Luxemburgo, como aliás, já acontece. Mas para Hausemer a cidadania não é apenas um direito de voto, mas uma "democracia participativa", ou seja, "o mais importante é participar de maneira interessada" e tomar "decisões responsáveis".
Do público, o sindicalista Eduardo Dias intervem para se exprimir pela dupla-nacionalidade e contra o direito de voto duplo. Dias considera necessário provar ligações concretas com o país de adopção para se aceder à nacionalidade, argumentando que esta deveria ser um direito para os filhos de estrangeiros que nasceram em solo luxemburguês quando atingem a sua maioridade.
José Luís Correia e Liliana Miranda
in CONTACTO, 22/03/2006
quarta-feira, 22 de março de 2006
Ministra da Educação reafirma: "É importante conhecer as quatro línguas escolares"
| A ministra da Educação admite que a escola luxemburguesa é muito selectiva e quer mudar o estado das coisas Foto: Guy Jallay |
As exigências línguísticas da escola luxemburguesa fazem com que esta seja "efectivamente muito selectiva", admitiu a ministra. "O sistema de avaliação tem que ser mudado," considerou. Delvaux-Stehres adiantou que pensa introduzir brevemente um novo sistema de avaliação dividido em três partes: escrita, oral e compreensão. A ministra pretende também que o Ensino Precoce deixe de ter apenas função de "infantário" e passe a incluir uma componente mais estimulante para as crianças, como, por exemplo, um "despertar para as línguas".
Segundo a titular da pasta da Educação, "o mais importante é os alunos conhecerem as quatro línguas escolares do país: alemão, francês, inglês e luxemburguês. Já o grau de conhecimento de cada língua pode variar consoante a orientação profissional que o aluno pretender seguir". A ministra relembrou que os alunos luxemburgueses também enfrentam dificuldades com o francês. A introdução de ciclos no ensino levaria à seguinte divisão no sistema escolar: Pré-Escolar, um ciclo; Primária, três ciclos de dois anos cada; Secundário, dois ciclos ("7éme"/"8éme" e "9éme"/"10éme").
A ministra diz que desta forma se pode avaliar o aluno por ciclos e não por ano lectivo, podendo cada criança completar o ciclo de acordo com o seu ritmo. Segundo a responsável pela pasta da Educação, estes esforços de mudança visam combater "o drama dos alunos que saem sem formação profissional e sem diploma da escola".
AS PROPOSTAS DO CLAE
Para o presidente do CLAE, o catalão Antoni Monserrat, apesar de 39,4% do tempo escolar ser dedicado ao estudo das línguas no Primário e 34,4% no Secundário – média muito superior à europeia –, milhares de alunos continuam a matricular-se em escolas belgas e francesas por o seu nível de alemão não corresponder às exigências da escola luxemburguesa, caso decidam seguir determinadas áreas do ensino clássico. Exemplo: as enfermeiras.
Depois de formadas, são cerca de mil a regressarem anualmente ao Luxemburgo, encontrando aqui emprego apesar de não falarem luxemburguês nem alemão. Maria-Luisa Caldognetto, da Comissão Escolar do CLAE, lembrou à ministra e ao público as propostas daquele Comité para o Ensino: é preciso deixar de falar em trilinguismo e preferir o termo pluringuismo, considerando as línguas da imigração uma mais-valia para o país e não um problema; a escola deve ser acessível a todos; aprendizagem da língua materna no Secundário; escolarização precoce e pré-escolar em luxemburguês; reformar os métodos de alfabetização em alemão, adaptando-os a todos, ou alfabetização em luxemburguês; estabelecer níveis de conhecimento; e formação de professores adaptada a estes objectivos, entre outros.
Para que todos os alunos sejam tratados de forma igual no ensino luxemburguês, Monserrat lembrou ainda que o CLAE reivindica uma "via escolar única" e não duas vias, como existem actualmente (clássico e técnico).
José Luís Correia e Liliana Miranda
in CONTACTO, 22/03/2006
quarta-feira, 15 de março de 2006
No Palácio Grão-Ducal
| A entrega do cheque fez-se na presença de colaboradores da obra e de representantes da Fundação Foto: Corte Grã-Ducal |
Por ocasião de uma recepção que se realizou recentemente no palácio grão-ducal, Jean-Jacques Kasel, marechal da Corte e presidente da Fundação, Paul Meyers, vice-presidente, e Aline Schleder-Leuck, membro do conselho de administração, agradeceram em nome da fundação ao fotógrafo português. Os lucros das vendas deste livro editado em 2004 e que vendeu já mais de milhar e meio de exemplares, revertem a favor desta fundação, cujo objectivo é ajudar as pessoas mais necessitadas da nossa sociedade.
"A Família Grã-ducal" reúne cerca de 400 retratos da autoria do emigrante minhoto, encomendados e aprovados pelo Grão-Duque Henri e a Grã-Duquesa Maria Teresa, que revelam aspectos inéditos da intimidade da família real. Colaboraram ainda nesta obra José Luís Correia (aka Alexandre Weytjens, para a tradução), Robert Theisen (redacção), Lucien Hilger (organização) e Manuel Schortgen (edição).
in CONTACTO
15/03/2006


