Quem tem medo do fim do mundo?
Desmistificando o fim do Mundo
Faltam dois dias para o fim do Mundo. Temem alguns. Riem-se outros.
Muitas profecias e teorias escatológicas (sobre o fim) parecem anunciar
que o fim do Mundo tem data marcada para 21 de Dezembro de 2012. Mas de
onde aparece esta data? É a data em que termina um dos calendários da
civilização maia que, pródigos em calendários e profecias, anunciam para
esse dia uma grande mudança na Terra.
O último dia da
contagem longa dos maias é conhecida há meio-século, mas só depois de um
auto-proclamado especialista dos maias, Frank Waters, em 1975, e de um
pensador
new-age , José Argüelles, em 1987, terem interpretado
de forma apocalíptica os hieróglifos desse calendário e da profecia a
ele associada, é que a teoria se espalhou. E quanto mais nos
aproximávamos de 2012, mais uma nova agenda se desenhava. Como se de
repente o dia 21 de Dezembro de 2012 reunisse consenso entre os
predicadores do apocalipse. Tudo resultou numa confusa sopa que mistura
predições de seitas, do web-bot, do I-Ching, de Nostradamus, da Sibila
de Cumas, da Bíblia, com teorias científicas mal-entendidas que evocam
alinhamentos planetários que vão alterar o eixo da Terra, ou uma
super-erupção solar que deflagrará sobre o planeta. Já para não falar em
impactos de asteróides ou no desembarque de homenzinhos verdes.
Entre curiosidade e cepticismo, o CONTACTO quis dissecar e decorticar
este fenómeno de fim dos tempos, para desmistificar as profecias e
outras teorias pseudo-científicas que por aí assolam.
O fim do Mundo... outra vez?
Esperem lá aí! Não escapamos já várias vezes ao fim do Mundo?
O fim do Mundo
estava previsto acontecer durante a Guerra Fria, mas o Inverno Nuclear
que nos atormentou durante quase 50 anos não chegou a acontecer,
felizmente. O Mundo
não acabou com o buraco
na camada de ozono nos anos 80, nem com as terríveis profecias de
Nostradamus que apontavam 1999 como um ano de assombroso terror. Afinal o
medico francês mostrava apenas que sabia calcular a data de um eclipse.
Nem o apocalipse informático aconteceu com o bug do ano 2000, que
ameaçava mergulhar o planeta no caos. As predições de fim do Mundo
regressam em cada época. E este princípio de século e de milénio não fogem à regra.
O que diz a profecia maia?
A
civilização maia, que prosperou desde o México ao Honduras, passando
pelo Belize, Guatemala e El Salvador, entre aproximadamente 600 antes
a.C. e o séc. IX d.C., tinha uma intensa actividade comercial, religiosa
e cultural, além de conhecimentos profundos em metalurgia, agricultura,
arquitectura, matemática e astronomia. O calendário maia anual é ainda
hoje mais preciso que o nosso. De quatro em quatro anos, repomos um dia
em Fevereiro, acerto que o calendário maia não necessitava.
Sobre o famoso calendário maia, que efectivamente termina a 21 de
Dezembro de 2012, trata-se de hieróglifos de baixo relevo esculpidos na
pedra, encontrado em 1950 no México (Tortuguero) e que marca o fim de um
ciclo de 5.125 anos, período de uma " contagem longa", que era um dos
muitos calendários que os maias possuíam e que iam desde calendários
astrais, agrícolas, religiosos até às famosas pirâmides encontradas na
América Central, que revelaram ser calendários em três dimensões.
Segundo a contagem longa maia, vivemos actualmente o 5° ciclo do Sol
(ou 5° Sol) e a Humanidade foi já devastada quatro vezes: por jaguares
(figura totémica dos olmecas, precursores dos maias), pelo fogo e pela
água, entre outros cataclismos, segundo os especialistas dos maias. Mas
estes não se entendem sobre a ordem das extinções. Uns advogam que o
5°Ciclo terminará pela água, devido a sismos, outros dizem que será
pelos jaguares. Depende das traduções e das interpretações.
Segundo alguns dos tradutores, a profecia
maia anunciaria que a 21 de Dezembro de 2012 o Sol vai ficar alinhado
com o “mar negro do universo” (centro galáctico?), o que marca o fim do
5° ciclo. Mas esse alinhamento, no dia do Solstício de Inverno (a noite
mais longa do ano), acontece anualmente, explicam os cientistas. Visto
da Terra, o Sol cruza o plano galáctico (equador galáctico) duas vezes
por ano, aquando dos solstícios. Mas ao nível da galáxia, os astrónomos
afirmam que o sistema solar está acima (a norte) do plano galáctico e
que não vai descer a sul desse equador em anos próximos (ver também "Os
alinhamentos planetários não são raros", na pág. 5).
Alguns especialistas dos maias afirmam que a profecia
afirma ainda que a 21 de Dezembro de 2012 a precessão dos equinócios da
Terra terminará uma volta completa de 26 mil anos sobre os seus pólos,
base do seu calendário em cinco ciclos longos de 5.125 anos cada um. O
alinhamento do Sol, da Terra e do núcleo galáctico no momento em que uma
precessão terrestre termina, seria chamado pelos maias “a grande
sincronização”. Os astrónomos e astrofísicos de hoje dizem, no entanto,
que as precessões são movimentos contínuos (não é possível datar o
princípio ou o fim) e não trazem consequências desastrosas para o
planeta.
Nada na estela onde figura o calendário e a profecia
maia, quebrada e portanto incompleta, indica o fim dos tempos, o que
acaba é a contagem longa do 5° Ciclo. Como nos nossos calendários o ano
acaba a 31 de Dezembro e outro começa no dia 1 de Janeiro. A profecia
pode ser lida também no Códex de Dresden, um dos quatro únicos
manuscritos maias conservados até hoje (milhares foram destruídos pelos
padres espanhóis). A única coisa evocada é o regresso de uma divinidade
maia à Terra, anúncio que se assemelha a muitas outras religiões que
acreditam no regresso do seu deus, ou de um seu representante, no fim
dos tempos. O resto são interpretações dos pseudo-especialistas dos
maias, que falam em perturbações do campo magnético terrestre e de uma
intensa actividade do sol, apenas para sustentar as suas teorias
escatológicas (ver também texto "O Império do Sol").
Muitos acontecimentos históricos teriam sido anunciados pelas profecias
maias, como a ascensão de Napoleão ou a morte de Lincoln. Mas como a
maioria das profecias foram só estudadas no princípio do séc. XX, é
fácil predizer acontecimentos depois de estes terem ocorrido. Verdade
histórica é que quando os espanhóis entraram em contacto com os Aztecas,
estes acolheram-nos como deuses. Herdeiros da cultura maia, os aztecas
recordavam-se de uma profecia da antiga
civilização que anunciava o regresso dos deuses para 1519 (ano em que os
espanhóis chegaram): "Os deuses brancos e barbudos vão regressar (...),
montados em grandes animais" (os cavalos foram reintroduzidos no
continente americano pelos espanhóis, de onde tinham desaparecido há 8
mil anos).
No entanto, é preciso acrescentar que,
potencialmente, para os maias, o mundo podia acabar em cada 52 anos,
porque acreditavam que a Humanidade atravessava ciclos de periclitação
em quase todos os meios séculos. Mas acreditavam também que cada novo
ciclo era uma oportunidade de renovação para a Humanidade.
Últimos argumentos e que os predicadores de 2012 nunca revelam porque
não lhes são convenientes, é que existem hieróglifos maias que falam em
datas posteriores a 2012, como "Lamat 1 Mol", o dia 21 de Outubro de
4772. Além disso, os maias dispunham de calendários ainda mais longos do
que este, como o "pictun", que conta 7.885 anos, ou o "alautun", que
dura 63 milhões de anos.
Profecias bíblicas
A Bíblia é um
dos mais livros referidos quando se evoca o fim dos tempos. Os
predicadores apocalípticos em todas as épocas leram as Sagradas
Escrituras à sua maneira para corroborar as suas predições.
Referências apocalípticas podem ser encontradas no Antigo Testamento:
Deuterónimo (24:12), Isaías (13:13), Ezequiel (38:19) e Daniel. Nestes
livros, escritos pelos hebraicos, a destruição do Mundo refere-se
frequentemente à destruição de Israel.
No Novo Testamento, o
último livro, A Revelação de S. João, é quase todo dedicado ao Dia do
Juízo Final, quando Deus julgar cada homem, e não o dia em que acaba o
Mundo.
O Livro da Revelação, escrito por S.
João, em Patmos (ilha grega do mar Egeu), no I século da nossa era, tem
descrições aterradoras. Um texto que recorre a imagens e símbolos que
seriam entendidos pelos leitores daquele tempo. Mas cada época tem uma
forma diferente de ler esse livro. Por isso, quase todas as épocas dele
se apoderaram e quiseram-no ver como evocando o seu próprio fim. Tantas
vezes o foi, que o título original do livro, "Apocalipse", que significa
"Revelação" (descobrir, revelar, desvelar) em grego antigo, passou a
ser sinónimo de fim do Mundo.
Um dos símbolos mais
controversos, por exemplo, é o do número 666, atribuído ao Anticristo.
Segundo muitos investigadores bíblicos, este número referir-se-ia a
Nero, porque seria o valor do seu nome, em hebraico, língua na qual as
letras têm um valor numérico. Nero foi um dos imperadores mais ferozes
contra os cristãos e era contemporâneo de João de Patmos.
As
descrições da Revelação de S. João podem ser interpretadas para encaixar
em muitas épocas e acontecimentos, não só na nossa e nunca a data de
2012 é avançada nesse texto.
O código secreto da Bíblia

Michael Drosnin (antigo repórter do Washington Post e do Wall Street
Journal) deve ser um dos únicos jornalistas no mundo a ter trocado o
escrever o que aconteceu (notícia) pelo que vai acontecer (previsão).
Seguindo os estudos do rabino Michael B. Weissmandl (1903-1956), Drosnin
garante que existe um código para ler mensagens secretas na Bíblia. Uma
das passagens anuncia a aniquilação da Humanidade por um cometa nos
anos hebraicos de 5770 ou de 5772 (2010 ou 2012, no calendário cristão)
(ver calendários nesta página).
O curioso é que no seu
primeiro livro (1997), Michael Drosnin anuncia que uma guerra atómica
devastaria a Terra em 2000 ou 2006. Vai mais longe, referindo que
verificou todos os anos do século XXI e que só estes dois correspondem à
referência "guerra mundial".
No segundo livro (2002)
"actualiza" as profecias e diz que afinal o código também revela as
palavras “terrorismo” e "11 de Setembro", mas reitera que o fim do Mundo
será em 2006. Mas contradiz-se em relação ao primeiro livro: agora o
fim do Mundo pode ser provocado por um cometa ou "quando a Síria e o
Irão atacarem Israel", e aventa datas como 2010, 2012, 2014, 2113 e 2126
como possíveis datas para o fim, o que lhe dá bastante margem para
corrigir enganos em futuras edições. Drosnin mostra-se sobretudo
especialista para encontrar no código acontecimentos que já ocorreram.
Uma universidade americana aplicou o código ao “Moby Dick” de Herman
Melville, e com o mesmo método encontrou nesse romance mensagens que
podem também ser interpretadas como evocando o fim do mundo ou
acontecimentos mundiais. Drosnin refuta o estudo, mas a verdade é que
até num livro de receitas de Filipa Vá Com Deus, este código revelaria
igualmente resultados apocalípticos.
As Centúrias de Nostradamus
Já muito (tudo?) se disse sobre as profecias de Nostradamus
(1503-1566), existem centenas de obras que dissecam cada linha do
manuscrito, cada especialista sobre Michel de Notre-Dame tem as suas
próprias interpretações sobre o que o médico francês profetizou. Cada
vez que se fala em fim do Mundo, Nostradamus
é citado como fonte, seja para o fim anunciado em 1789, 1999 ou 2012.
As centúrias e quadras foram redigidas de forma tão críptica que são
sujeitas a todo o tipo de interpretações.
Nas suas profecias, Nostradamus
nunca fala em fim do mundo, fala sim de tribulações em várias épocas e
dá muito poucas datas. Calcula o eclipse de Agosto de 1999, o que foi
simples de prever para este médico que também percebia de astronomia. No
seu livro, muitas passagens falam de guerras e tempos conturbados na
Terra. Não datadas, essas evocações podem ser aplicadas a muitos
momentos da nossa história, passada ou futura (como qualquer boa
profecia). Estudiosos da sua obra, consideram sobretudo que o autor
evocava acontecimentos do passado e como sabia que a História tende a
repetir-se, sabia que não lograva falhar muito. Tinha fama de astrólogo e
redigir estas profecias serviu sobretudo como publicidade à sua "arte".
Uma das únicas vezes em que fala de um perigo que pode vir de fora da
Terra, evoca uma estrela semelhante ao sol que brilhará 7 dias no céu e
apavorará as gentes. O astrónomo pode estar a referir-se à passagem de
um cometa, algo que pode ser calculado dezenas ou centenas de anos
antes. Alguns tradutores de Nostradamus
apontam a data do fim do Mundo para 3797, outros para 5994.
O Bandarra e outros presumíveis profetas
O Bandarra- Portugal viu o seu oráculo em Gonçalo Anes Bandarra
(1500-1556), que anunciou nas suas trovas, simbólicas e crípticas,
acontecimentos que podem ser interpretados das mais variadas formas.
Segundo os investigadores da personagem e da sua obra, o sapateiro de
Trancoso tinha um bom conhecimento da Bíblia, que interpretava à sua
maneira, anunciando (o que desejava para) o futuro de Portugal. Quando
se deu a Restauração, em 1640, e o trono voltou a ser português, houve
quem visse em D. João IV o "Encoberto" evocado nas trovas do poeta e
sapateiro.
Quanto ao fim do Mundo, o Bandarra
teria anunciado que o Mundo acabaria no ano dos três noves (1999 ?),
que nesse tempo "as estradas se vestiriam de luto" (asfalto?) e que "uma
besta sem cabeça atravessaria as planícies" (comboio?). mas estas são
predições que não constam nas suas trovas e podem lhe ter sido
atribuídas durante o séc. XIX ou XX. É que apesar de proibidas pela
Inquisição, as trovas foram publicadas ao longo dos séculos, sempre
acrescentadas de novas profecias, que iam sendo supostamente descobertas
em Trancoso e convenientemente encaixando nos acontecimentos de cada
época.
A Sibila de Cumas - Oráculo (séc. VI a. C.)
muito apreciado por gregos e romanos, disse que o mundo duraria 9 ciclos
de 800 anos, o que dá ao planeta a idade final de 7.200 anos. Pergunta
elementar: em que data fixar o princípio do Mundo? Nunca falou em datas e
muito menos em 2012. Falou na vinda de uma criança que iria lançar uma
Idade de Ouro, o que os cristãos interpretaram como a vinda de Cristo.
Acrescentou que nessa era a décima geração seria sujeita a grandes
tribulações. Mas quantos anos constituiam uma geração para a pítia?
Merlim
- O bispo Godofredo de Monmouth (1100-1155) coligiu as profecias de
Merlim, explica o editor da presumível primeira edição do texto em 1603
(!). Merlim teria predito a criação dos Estados Unidos, Napoleão, a II
Guerra Mundial e a utilização pelos homens de uma "pedra porta-voz"
(telefone, telemóvel?). Também teria anunciado que “um dia, os planetas
sairão das suas trajectórias”, e por isso é citado pelos predicadores de
hoje, quando alertam para o "alinhamento planetário" (ver pág.5). Um
texto do séc. XII sobre uma personagem mítica do séc. VI, editada no
séc. XVII pode ter sofrido adaptações e acrescentos ao longo dos séculos
aos escritos originais, se estes alguma vez existiram.
João de Jerusalém
- João de Vézelay (séc. XI), escreveu sobre "o ano mil que virá depois
do ano mil ". "Em todas as cidades haverá torres de Babel"
(arranha-céus?), "as cidades serão como formigueiros" (sobrepopulação?),
"o sol queimará a pele, o ar já não será o véu que protege do fogo,
será como uma cortina esburacada e a luz queimará os olhos e a pele "
(camada de ozono?), haverá "crianças famintas, com olhos cheios de
moscas " (fome em África?), " todas as coisas serão vendidas, as
árvores, a água e até o homem, já nada será gratuito" (neoliberalismo?),
"os homens saberão criar miragens, outros pensarão que essas imagens
são a verdade, perder-se-ão em labirintos que não existem, mas serão
tratados como carneiros" (TV, imagens virtuais, jogos vídeo?), voltarão
"as invasões de bárbaros barbudos (...) que se lançarão orgulhosos sobre
as torres" (11 de Setembro?).
As "visões" de João podem
deixar-nos perplexos. Por isso deixamos uma explicação contemporânea
entre parênteses, mas como uma interrogação. Porque são interpretações
nossas, com olhos do séc. XXI. Porque uma das características de quem
interpreta profecias, é que as interpreta à luz do seu tempo.
A
origem do texto é controversa e aparece do nada em 1994. Segundo o
tradutor russo, o texto terá sido encontrado nos arquivos do KGB, que os
teria recuperado aos nazis, que os teriam roubado de uma biblioteca
hebraica de Varsóvia. O manuscrito seria datado do séc. XV e mencionaria
João de Jerusalém como um dos fundadores dos templários. O que faz,
desde logo, duvidar da sua autenticidade é que nenhum dos nove
fundadores dos Templários se chamava João. Acresce que não há registo
histórico da existência do autor nem foi encontrado mais nenhuma versão
deste texto. Passamos a ver o texto com outros olhos se considerarmos
que pode ser um falso criado nos anos 1990.
A Mãe Shipton
- A Mãe Shipton (1488-1561) teria predito que "quando as pinturas dos
quadros fossem vivas, que os barcos navegassem debaixo do mar, que os
homens voassem mais depressa que os pássaros e as mulheres vestissem
calças, metade da Humanidade terminaria num banho de sangue". A Mãe
Shipton teria sido inventada pelo escritor Richard Head em 1684. Ao
longo dos tempos, muitos outros autores publicaram profecias em nome da
Mãe Shipton, que teria anunciado, num livro de 1862, o fim do mundo para
1881.
S. Malaquias - No séc. XVI, são publicadas as
profecias de São Malaquias (séc. XII) sobre os 111 papas que sucederiam a
Celestino II (1444). O último papa, apelidado de Pedro O Romano,
viveria o fim dos tempos. Na cronologia oficial do Vaticano, Celestino
II é o 165° papa e Bento XVI o 265°. Para alguns polemistas da questão,
Bento XVI seria o penúltimo papa evocado por Malaquias. Porque contam os
anti-papas. Sem esses faltariam ainda 10 papas para a conta dar certo.
Ou seja, como sempre, tudo é uma questão de interpretação. Desde
Malaquias, há registo de seis anti-papas, cinco dos quais, eleitos em
Pisa e Avinhão, foram sumos pontífices em paralelo com os quatro papas
reconhecidos por Roma (Grande Cisma do Ocidente, 1378 e 1415).
Os Sioux e os Hopi
- No fim do século XIX, Black Elk (na foto), da tribo Sioux, viu a
destruição do seu povo, e logo de seguida a de toda a civilização.
Relato recuperado ou não pelos Hopi, uma das mais antigas tribos dos
EUA, estes contam desde a mesma época que vivemos no 4° Mundo e que
estamos a entrar no 5°. "Nesse tempo, a Terra estará cercada
por uma imensa teia de aranha", teriam anunciado, imagem verdadeiramente
terrível para uma pessoa do séc. XIX, para quem era impossível imaginar
a internet. Quando isso acontecer, dizem "o nivel dos mares e a
actividade do sol vão aumentar, os deuses vão voltar das estrelas e o 4°
Mundo vai acabar". Estudiosos dos Hopi dizem que, na realidade, estas
histórias começaram a circular nos anos 1940. Essa teia referir-se-ia
aos fios de telefone e aos cabos da alta tensão. Foi também nessa década
que teriam sido avistados os primeiros discos voadores, daí a
referência aos deuses que regressam.
Fins do Mundo adiados
Um recente estudo inglês recenseava 186 profecias sobre o fim do mundo
falhadas desde o tempo do Império romano. Um estudo francês do mesmo
tipo falava em 250.
365: S. Hilário anuncia a chegada do Anticristo e o fim do Mundo.
999:
Histeria colectiva na Europa dos que seguem o calendário cristão e
pensam que com o ano 1000 chegará o fim dos tempos. Nesse ano,
coincidência ou medo milenarista, a Hungria, a Polónia e a Rússia
convertem-se ao Cristianismo. Diz-se que na sua missa especial em Roma, a
31 de Dezembro de 999, o papa Silvestre II suspirou de alívio quando
nada ocorreu após as 12 badaladas da meia-noite. No dia seguinte, mandou
tocar todos os sinos de todas as igrejas da cidade para saudar o novo
milénio.
1186: Perante o alinhamento dos planetas
então conhecidos na Constelação da Libra, João de Toledo anuncia o fim
do mundo para Setembro.
1492: Na Rússia, o ano 7000
do calendário bizantino (1492 no calendário cristão) é esperado com
angústia, pois S. Abraão de Smolensko previu que o Mundo não passaria do
7° milénio.
1524: O alinhamento de certos planetas
com o Sol iria provocar cheias, erupções vulcânicas e o fim do Mundo,
segundo Johannes Stöffler.
1540: Lutero, que
acreditava que a idade do Mundo era de 5500 anos, escrevia “estou
convicto que o dia do Juizo Final está para breve”.
1666: O fim era esperado por ser o “Ano da Besta”. O mundo não acabou, mas um incêndio de enormes proporções devastou Londres.
1914:
Fundados oficialmente em 1870 nos EUA, desde a sua criação que os
Testemunhas de Jeová anunciam o fim dos tempos para "breve". Anunciaram o
apocalipse para 1914, recuaram-no para 1925 e depois para 1975, ano em
que deixaram de dar datas.
1919: O meteórologo
Alberto Porta diz que um alinhamento de seis planetas vai provocar uma
tempestade magnética que destruirá a Terra e o Sol.
1988: É esperado um grande cataclismo na costa oeste dos EUA.
1994/97: Suicídios colectivos na Ordem do Templo Solar na Suíça, França e Canadá, na data em que acreditavam ser o do Juízo Final.
1997:
Suicídio colectivo na seita Heaven’s Gate à passagem do cometa
Hale-Bopp, atrás do qual seguiria uma nave extraterrestre, na qual,
acreditavam, as suas almas embarcariam.
1997 e 2003:
Datas anunciadas para o fim do mundo pela seita japonesa Aum (autora dos
ataques terroristas com gás Sarin no metro de Tóquio em 1995).
1999:
Data anunciada por Nostradamus, e que muitos acreditavam marcar o fim
do Mundo. O estilista Paco Rabanne, seguidor desta teoria, teve uma
visão em que a estação espacial russa MIR caía sobre Paris.
2008:
Quando o acelerador de partículas Largo Colisionador de Hadrões do CERN
foi accionado na Suíça, muitos temiam que o planeta fosse aspirado por
um micro buraco negro.
Todas as épocas foram fertéis em
vaticinar os seus fins do Mundo, como bem o descreve Hillel Schwartz no
seu “Century’s End” (1990), em que regista todas as previsões de fim do
mundo e medos dos fins de século desde 990 até ao ano 2000.
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Asteróides, uma ameaça real
A possibilidade que um cometa (proveniente para além da órbita de
Neptuno e, geralmente, com cauda) ou que um asteróide (proveniente da
cintura de asteróides, sem cauda) colida com a Terra é real. Já
aconteceu no passado e pode voltar a ocorrer.
Há 65 milhões de
anos, um cometa que tinha 18 km de diâmetro atingiu o Golfo do México
numa explosão mais de mil milhões de vezes superior à bomba de
Hiroshima, o que terá provocado tsunamis e terramotos nunca antes vistos
à escala global, levantou nuvens de poeira e fumo que cobriram a luz do
sol durante centenas de anos, o que arrefeceu o globo (Inverno nuclear)
e terá conduzido à extinção de 50 % das espécies, entre eles os
dinossauros.
Em 1908, um asteróide com cerca de 50 metros de
diâmetro explodiu na Sibéria (Tunguska), com a potência de várias
centenas de bombas de Hiroshima, ficou registado como um sismo de nível 4
na Escala de Richter, destruiu a floresta num raio de 20 km e provocou
danos até uma centena de quilómetros de distância.
A ficção
científica e Hollywood imaginaram muitas vezes este possível fim do
mundo, mas só em 1994 quando o cometa Shoemaker-Levy 9 colidiu com
Jupiter é que a comunidade científica ficou alertada, percebendo que
esta era uma ameaça real.
Uma estrela cadente nada mais é que
um pequeno asteróide que se desintegra ao entrar na atmosfera terrestre,
formando meteoritos, que podem ter desde alguns centímetros até vários
metros e se diferenciam das pedras terrestres porque são magnéticos.
Anualmente, caem 50 mil meteoritos na Terra, o que representa 30 mil
toneladas de pedras vindas do espaço.
Um asteróide é
potencialmente perigoso para a Terra quando tem mais de 150 metros de
diâmetro. Há já oito anos que os astrónomos observam incansavelmente os
céus à procura de possíveis objectos massivos que cruzem a órbita da
Terra (geocruzadores) e já identificaram cerca de oito mil asteróides ou
cometas deste tipo. Mas nenhum destes geocruzadores tem "encontro
marcado " com a Terra este ano ou numa data próxima.
Conscientes da ameaça, americanos e europeus trabalham actualmente na detecção (Spaceguard Survey, Programa Neo, http://neo.jpl.nasa.gov/
) e recenseamento destes corpos, mas estudam também como desviá-los da
Terra. Os cientistas avisam, no entanto, que se um corpo celeste
verdadeiramente ameaçador for descoberto em rota de colisão com o nosso
planeta, tudo dependerá se for detectado a tempo e se não for demasiado
voluminoso para poder ser desviado.
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O império do Sol

A fonte de toda a vida na Terra pode também ser o seu maior perigo. Os
teóricos do apocalipse prevêem para 21 de Dezembro uma erupção solar que
deflagrará sobre a Terra, o que se não a reduzir a cinzas, provocará o
caos.
O Sol entra em intensa actividade de 11 em 11 anos,
momento em que regista mais erupções solares, três a quatro erupções
diárias, cada uma equivalentes à explosão de 10 milhões de bombas de
hidrogénio. O Sol só vai entrar numa nova fase intensa em 2013, informa a
NASA, mas esta será uma actividade intensa média e não uma das mais
fortes.
Perturbações provocadas por erupções solares já foram
registadas na História recente. Uma das mais fortes deu-se em 1859,
quando uma ejecção de matéria coronal solar danificou os telégrafos
eléctricos do mundo. Entre 1920 e 1960 há vários registos de tempestades
solares que afectaram os sinais rádio no planeta. Em 1989, uma
tempestade solar avariou uma central hidroeléctrica no Canadá, em 2003
fortes ventos solares provocaram uma avaria eléctrica na Suécia e
obrigaram a navegação aérea internacional a alterar as rotas. Uma das
últimas erupções solares deu-se em Outubro deste ano e não afectou a
Terra. Uma erupção solar tão forte como a de 1859 só acontece, segundo
os cientistas, duas vezes em cada milénio. Seria necessário uma erupção
solar colossal para que a ejecção de matéria coronal da nossa estrela em
direcção à Terra danificasse os circuitos electrónicos dos satélites
(construídos para resistir às radiações solares), quebrasse a rede de
telecomunicações e os sistemas da navegação aérea. A acontecer, o pior
mesmo é que perturbaria o campo magnético terrestre (magnetosfera), que
nos protege das partículas carregadas (radiações) que chegam do Sol.
Quando estas partículas são desviadas pela magnetosfera, criam as
auroras boreais. Mas se devido a um actividade solar fora do normal
contornassem a magnetosfera, as radiações perturbariam centrais e redes
eléctricas. Ou seja, o mundo mergulharia num "black out" electrónico e
eléctrico, dois dos sistemas em que assenta a nossa vida moderna. Por
quanto tempo voltaríamos a viver como no século XIX não se sabe, poderia
levar anos, ou mesmo uma ou duas décadas, até restabelecermos esses
sistemas a nível mundial.
Os cientistas não conseguem prever
as erupções solares, apenas observá-las, após o que os ventos solares
demoram entre 24 a 48 horas a chegar à Terra, o que é muito pouco tempo
para poder fazer algo.
Alarmismos à parte, nada indica que a fase actual de actividade do Sol é perigosa para a Terra.
Os astrofísicos dizem que conhecem bem as fases da vida de uma estrela e
que quando o nosso Sol se transformar em gigante vermelha, dentro de
5,5 mil milhões de anos, este vai dilatar até engolir a Terra. Mas nessa
altura, já nos teremos mudado há bastante tempo para outro planeta.
O que são Nibiru e Némesis?
Alguns predicadores escatológicos afirmam que a Terra colide na
sexta-feira com o planeta Nibiru (também chamado planeta X ou 10°
planeta).
Mas que planeta é este? Para os sumérios (habitaram o
sul do Iraque no 4° milénio a.C e são considerados os inventores da
escrita), quando a Terra (Tiamat) nasceu situava-se entre Marte e
Júpiter, mas a colisão com o planeta Nibiru propulsou o nosso para a
terceira órbita solar, onde se encontra hoje. A Terra ficou com metade
do tamanho original, foi assim que foi criada a Lua e a cintura de
asteróides que hoje existe entre Marte e Júpiter.
Segundo o
mito, Nibiru tem uma órbita em volta do Sol de 3.600 anos e cada vez que
Nibiru passa perto de nós, os elementos ficam desencadeados e provocam
catástrofes cíclicas (terramotos, cheias, etc.). Os sumérios contam que
várias civilizações antes da sua desapareceram devido à passagem desse
planeta "vadio". O dilúvio bíblico, por exemplo, recupera o relato de um
dilúvio retratado na "Epopeia de Gilgamesh", manuscrito sumério
anterior ao livro hebreu da Génese, que conta a origem de Sumer,
civilização que brotou das cinzas desse mundo antediluviano. Foi esse
relato (e derivantes) que deu origem à lenda da Atlântida, contada por
Platão (séc. V a.C.) nos livros "Timeu" e "Crítias".
Não
existe nenhuma prova cientifica que um planeta assim exista. Os
charlatães do apocalipse anunciaram-na para 2003 e depois adiaram-na
convenientemente para 2012.
Um décimo planeta, Sedna, foi
descoberto em 2003, para além de Plutão. E logo de seguida foram
descobertos mais três – Éris, Makemake e Haumea –, o que levou os
astrónomos a redefinirem em 2006 os planetas e os planetas-anãos. Sedna é
actualmente o planeta com a órbita mais longa à volta do Sol (12 mil
anos) e Éris é o planeta mais distante do Sol, mas com uma órbita mais
pequena que Sedna (570 anos).
Na ressaca da teoria apresentada
em 1980 que afirmava que um fenómeno exterior à Terra (cometa,
asteróide) tinha extinguido os dinossauros, uma outra foi avançada pelo
físico americano Richard A. Muller (Berkley) em 1984. O nosso Sol faria
parte de um sistema solar binário, como aliás é o caso para a maioria
das estrelas da nossa galáxia. Esta companheira, a que Muller deu o nome
de Némesis (a deusa grega da vingança), seria uma anã vermelha ou
castanha, pouco brilhante, e teria uma órbita de 26 milhões de anos (à
distância de 1,5 anos-luz). Muller argumentava que isso explicaria as
extinções cataclísmicas e cíclicas de algumas das espécies da Terra. A
irmã do Sol nunca foi avistada até hoje e a estrela mais próxima é
Próxima do Centauro, a 4,2 anos-luz.

Você disse E.T.?
Desde os anos 1940 que se fala em discos voadores e quase sempre a sua
chegada está associada ao fim da Humanidade, medo quiçá importado do
romance "A Guerra dos Mundos" (1898) de H.G. Wells. Antes disso, os
extraterrestres (E.T.) que se encontravam na literatura eram pacíficos.
Voltaire imaginou Micromégas (1752), vindo de Sirius, e Cyrano de
Bergerac evocava os Selenitas em "Impérios da Lua" (1650). Ambos os
autores se inspiravam livremente em Luciano de Samósata (120-180), um
dos primeiros a escrever sobre ETs.
Há mais de meio
século que milhares de pessoas dizem avistar ovnis (Objectos Voadores
Não Identificados), desde a notícia que uma nave ET se teria despenhado
em Roswell (Novo México) em 1947. Nos anos 80 apareceram os que afirmam
ser abduzidos por ETs.
O autor do vídeo difundido nas
televisões do mundo inteiro em 1995, em que se via a autópsia de um
alienígena, admitiu em 2006 que este era falso.
Em 1977, o
Instituto SETI (Search for Extra-Terrestrial Intelligence) pensou ter
detectado um sinal extraterrestre (sinal "wow"), mas não conseguiu
voltar a ouvir o sinal nem a provar a sua origem.
Apesar da
ausência de provas, cada vez mais gente diz acreditar em seres de outros
mundos e avistar ovnis. Muitas vezes esses avistamentos não passam de
miragens ou de fenómenos ópticos mal interpretados como, por exemplo, a
entrada na atmosfera de restos de satélites ou de metoritos. O SETI
prescruta os céus desde 1960 e (excepto o incidente de 1977) nunca
detectou nenhum sinal extraterrestre.
Nos anos 1970, um
histérico Sheldan Nidle anunciava para 1996 uma invasão extraterrestre,
segundo uma mensagem por ele interceptada. Depois de 1996, Nidle
explicou que a Federação Galáctica interveio por nós e não permitiu o
ataque.
De incrédulos, os cientistas passaram a aceitar a
possibilidade de vida extraterrestre quando o primeiro exoplaneta (que
se situa fora do sistema solar) foi descoberto em 1990. Entretanto, já
foram detectados mais de 850 exoplanetas, mas foi até hoje impossível
determinar se alguns desses abrigam vida, bacteriológica ou inteligente.
Perante a eventualidade de um possível "primeiro contacto", o
Vaticano assumiu em 2008 que se existirem "outros seres no Universo",
estes devem ser considerados "nossos irmãos" (José Gabriel Funes,
astrónomo-chefe do Observatório do Vaticano).
Mas o "primeiro
contacto" ainda não aconteceu e sem sabermos se existem, não podemos
imaginar se são perigosos ou amistosos. O físico Stephen Hawking
considera que a Humanidade não sobreviveria a um primeiro contacto com
uma civilização extraterrestre.
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Todos os textos são da autoria de
José Luís Correia
e foram publicados no jornal CONTACTO, 19/12/2012
Luxemburgo
Pesquisa e redacção: JLC
Fotos: Shutterstock/Arquivo Luxemburger Wort
(as fontes bibliográficas podem ser fornecidas, sob pedido) |
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