sebenta de anotações esparsas, pensamentos ociosos, reflexões cadentes, poemas difusos, introspecções de uma filosofia mais ou menos opaca dos meus dias (ou + reminiscências melómanas, translúcidas, intra e extra-sensoriais, erógenas, esquizofrénicas ou obsessivas dos meus dias)
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cahier de notes éparses, pensées oisives, réflexions filantes, poèmes diffus, introspections d'une philosophie plus ou moins opaque de mes journées (ou + de réminiscences mélomanes, translucides, intra-sensorielles et extra-sensorielles, érogènes, schizophrènes ou obsessionnelles de mes journées)

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Tudo o que sempre quis saber sobre o 21 de Dezembro de 2012 e nunca ousou perguntar

  Quem tem medo do fim do mundo?
 Desmistificando o fim do Mundo


Faltam dois dias para o fim do Mundo. Temem alguns. Riem-se outros. Muitas profecias e teorias escatológicas (sobre o fim) parecem anunciar que o fim do Mundo tem data marcada para 21 de Dezembro de 2012. Mas de onde aparece esta data? É a data em que termina um dos calendários da civilização maia que, pródigos em calendários e profecias, anunciam para esse dia uma grande mudança na Terra.

O último dia da contagem longa dos maias é conhecida há meio-século, mas só depois de um auto-proclamado especialista dos maias, Frank Waters, em 1975, e de um pensador new-age , José Argüelles, em 1987, terem interpretado de forma apocalíptica os hieróglifos desse calendário e da profecia a ele associada, é que a teoria se espalhou. E quanto mais nos aproximávamos de 2012, mais uma nova agenda se desenhava. Como se de repente o dia 21 de Dezembro de 2012 reunisse consenso entre os predicadores do apocalipse. Tudo resultou numa confusa sopa que mistura predições de seitas, do web-bot, do I-Ching, de Nostradamus, da Sibila de Cumas, da Bíblia, com teorias científicas mal-entendidas que evocam alinhamentos planetários que vão alterar o eixo da Terra, ou uma super-erupção solar que deflagrará sobre o planeta. Já para não falar em impactos de asteróides ou no desembarque de homenzinhos verdes.

Entre curiosidade e cepticismo, o CONTACTO quis dissecar e decorticar este fenómeno de fim dos tempos, para desmistificar as profecias e outras teorias pseudo-científicas que por aí assolam.

O fim do Mundo... outra vez?


Esperem lá aí! Não escapamos já várias vezes ao fim do Mundo?

O fim do Mundo estava previsto acontecer durante a Guerra Fria, mas o Inverno Nuclear que nos atormentou durante quase 50 anos não chegou a acontecer, felizmente. O Mundo não acabou com o buraco na camada de ozono nos anos 80, nem com as terríveis profecias de Nostradamus que apontavam 1999 como um ano de assombroso terror. Afinal o medico francês mostrava apenas que sabia calcular a data de um eclipse. Nem o apocalipse informático aconteceu com o bug do ano 2000, que ameaçava mergulhar o planeta no caos. As predições de fim do Mundo regressam em cada época. E este princípio de século e de milénio não fogem à regra.



O que diz a profecia maia?


A civilização maia, que prosperou desde o México ao Honduras, passando pelo Belize, Guatemala e El Salvador, entre aproximadamente 600 antes a.C. e o séc. IX d.C., tinha uma intensa actividade comercial, religiosa e cultural, além de conhecimentos profundos em metalurgia, agricultura, arquitectura, matemática e astronomia. O calendário maia anual é ainda hoje mais preciso que o nosso. De quatro em quatro anos, repomos um dia em Fevereiro, acerto que o calendário maia não necessitava.

Sobre o famoso calendário maia, que efectivamente termina a 21 de Dezembro de 2012, trata-se de hieróglifos de baixo relevo esculpidos na pedra, encontrado em 1950 no México (Tortuguero) e que marca o fim de um ciclo de 5.125 anos, período de uma " contagem longa", que era um dos muitos calendários que os maias possuíam e que iam desde calendários astrais, agrícolas, religiosos até às famosas pirâmides encontradas na América Central, que revelaram ser calendários em três dimensões.

Segundo a contagem longa maia, vivemos actualmente o 5° ciclo do Sol (ou 5° Sol) e a Humanidade foi já devastada quatro vezes: por jaguares (figura totémica dos olmecas, precursores dos maias), pelo fogo e pela água, entre outros cataclismos, segundo os especialistas dos maias. Mas estes não se entendem sobre a ordem das extinções. Uns advogam que o 5°Ciclo terminará pela água, devido a sismos, outros dizem que será pelos jaguares. Depende das traduções e das interpretações.

Segundo alguns dos tradutores, a profecia maia anunciaria que a 21 de Dezembro de 2012 o Sol vai ficar alinhado com o “mar negro do universo” (centro galáctico?), o que marca o fim do 5° ciclo. Mas esse alinhamento, no dia do Solstício de Inverno (a noite mais longa do ano), acontece anualmente, explicam os cientistas. Visto da Terra, o Sol cruza o plano galáctico (equador galáctico) duas vezes por ano, aquando dos solstícios. Mas ao nível da galáxia, os astrónomos afirmam que o sistema solar está acima (a norte) do plano galáctico e que não vai descer a sul desse equador em anos próximos (ver também "Os alinhamentos planetários não são raros", na pág. 5).

Alguns especialistas dos maias afirmam que a profecia afirma ainda que a 21 de Dezembro de 2012 a precessão dos equinócios da Terra terminará uma volta completa de 26 mil anos sobre os seus pólos, base do seu calendário em cinco ciclos longos de 5.125 anos cada um. O alinhamento do Sol, da Terra e do núcleo galáctico no momento em que uma precessão terrestre termina, seria chamado pelos maias “a grande sincronização”. Os astrónomos e astrofísicos de hoje dizem, no entanto, que as precessões são movimentos contínuos (não é possível datar o princípio ou o fim) e não trazem consequências desastrosas para o planeta.

Nada na estela onde figura o calendário e a profecia maia, quebrada e portanto incompleta, indica o fim dos tempos, o que acaba é a contagem longa do 5° Ciclo. Como nos nossos calendários o ano acaba a 31 de Dezembro e outro começa no dia 1 de Janeiro. A profecia pode ser lida também no Códex de Dresden, um dos quatro únicos manuscritos maias conservados até hoje (milhares foram destruídos pelos padres espanhóis). A única coisa evocada é o regresso de uma divinidade maia à Terra, anúncio que se assemelha a muitas outras religiões que acreditam no regresso do seu deus, ou de um seu representante, no fim dos tempos. O resto são interpretações dos pseudo-especialistas dos maias, que falam em perturbações do campo magnético terrestre e de uma intensa actividade do sol, apenas para sustentar as suas teorias escatológicas (ver também texto "O Império do Sol").

Muitos acontecimentos históricos teriam sido anunciados pelas profecias maias, como a ascensão de Napoleão ou a morte de Lincoln. Mas como a maioria das profecias foram só estudadas no princípio do séc. XX, é fácil predizer acontecimentos depois de estes terem ocorrido. Verdade histórica é que quando os espanhóis entraram em contacto com os Aztecas, estes acolheram-nos como deuses. Herdeiros da cultura maia, os aztecas recordavam-se de uma profecia da antiga civilização que anunciava o regresso dos deuses para 1519 (ano em que os espanhóis chegaram): "Os deuses brancos e barbudos vão regressar (...), montados em grandes animais" (os cavalos foram reintroduzidos no continente americano pelos espanhóis, de onde tinham desaparecido há 8 mil anos).

No entanto, é preciso acrescentar que, potencialmente, para os maias, o mundo podia acabar em cada 52 anos, porque acreditavam que a Humanidade atravessava ciclos de periclitação em quase todos os meios séculos. Mas acreditavam também que cada novo ciclo era uma oportunidade de renovação para a Humanidade.

Últimos argumentos e que os predicadores de 2012 nunca revelam porque não lhes são convenientes, é que existem hieróglifos maias que falam em datas posteriores a 2012, como "Lamat 1 Mol", o dia 21 de Outubro de 4772. Além disso, os maias dispunham de calendários ainda mais longos do que este, como o "pictun", que conta 7.885 anos, ou o "alautun", que dura 63 milhões de anos. 


Profecias bíblicas


A Bíblia é um dos mais livros referidos quando se evoca o fim dos tempos. Os predicadores apocalípticos em todas as épocas leram as Sagradas Escrituras à sua maneira para corroborar as suas predições.


Referências apocalípticas podem ser encontradas no Antigo Testamento: Deuterónimo (24:12), Isaías (13:13), Ezequiel (38:19) e Daniel. Nestes livros, escritos pelos hebraicos, a destruição do Mundo refere-se frequentemente à destruição de Israel.

No Novo Testamento, o último livro, A Revelação de S. João, é quase todo dedicado ao Dia do Juízo Final, quando Deus julgar cada homem, e não o dia em que acaba o Mundo.



O Livro da Revelação, escrito por S. João, em Patmos (ilha grega do mar Egeu), no I século da nossa era, tem descrições aterradoras. Um texto que recorre a imagens e símbolos que seriam entendidos pelos leitores daquele tempo. Mas cada época tem uma forma diferente de ler esse livro. Por isso, quase todas as épocas dele se apoderaram e quiseram-no ver como evocando o seu próprio fim. Tantas vezes o foi, que o título original do livro, "Apocalipse", que significa "Revelação" (descobrir, revelar, desvelar) em grego antigo, passou a ser sinónimo de fim do Mundo.

Um dos símbolos mais controversos, por exemplo, é o do número 666, atribuído ao Anticristo. Segundo muitos investigadores bíblicos, este número referir-se-ia a Nero, porque seria o valor do seu nome, em hebraico, língua na qual as letras têm um valor numérico. Nero foi um dos imperadores mais ferozes contra os cristãos e era contemporâneo de João de Patmos.

As descrições da Revelação de S. João podem ser interpretadas para encaixar em muitas épocas e acontecimentos, não só na nossa e nunca a data de 2012 é avançada nesse texto.

O código secreto da Bíblia

Michael Drosnin (antigo repórter do Washington Post e do Wall Street Journal) deve ser um dos únicos jornalistas no mundo a ter trocado o escrever o que aconteceu (notícia) pelo que vai acontecer (previsão). Seguindo os estudos do rabino Michael B. Weissmandl (1903-1956), Drosnin garante que existe um código para ler mensagens secretas na Bíblia. Uma das passagens anuncia a aniquilação da Humanidade por um cometa nos anos hebraicos de 5770 ou de 5772 (2010 ou 2012, no calendário cristão) (ver calendários nesta página).

O curioso é que no seu primeiro livro (1997), Michael Drosnin anuncia que uma guerra atómica devastaria a Terra em 2000 ou 2006. Vai mais longe, referindo que verificou todos os anos do século XXI e que só estes dois correspondem à referência "guerra mundial".

No segundo livro (2002) "actualiza" as profecias e diz que afinal o código também revela as palavras “terrorismo” e "11 de Setembro", mas reitera que o fim do Mundo será em 2006. Mas contradiz-se em relação ao primeiro livro: agora o fim do Mundo pode ser provocado por um cometa ou "quando a Síria e o Irão atacarem Israel", e aventa datas como 2010, 2012, 2014, 2113 e 2126 como possíveis datas para o fim, o que lhe dá bastante margem para corrigir enganos em futuras edições. Drosnin mostra-se sobretudo especialista para encontrar no código acontecimentos que já ocorreram.

Uma universidade americana aplicou o código ao “Moby Dick” de Herman Melville, e com o mesmo método encontrou nesse romance mensagens que podem também ser interpretadas como evocando o fim do mundo ou acontecimentos mundiais. Drosnin refuta o estudo, mas a verdade é que até num livro de receitas de Filipa Vá Com Deus, este código revelaria igualmente resultados apocalípticos.


As Centúrias de Nostradamus


Já muito (tudo?) se disse sobre as profecias de Nostradamus (1503-1566), existem centenas de obras que dissecam cada linha do manuscrito, cada especialista sobre Michel de Notre-Dame tem as suas próprias interpretações sobre o que o médico francês profetizou. Cada vez que se fala em fim do Mundo, Nostradamus é citado como fonte, seja para o fim anunciado em 1789, 1999 ou 2012. As centúrias e quadras foram redigidas de forma tão críptica que são sujeitas a todo o tipo de interpretações.

Nas suas profecias, Nostradamus nunca fala em fim do mundo, fala sim de tribulações em várias épocas e dá muito poucas datas. Calcula o eclipse de Agosto de 1999, o que foi simples de prever para este médico que também percebia de astronomia. No seu livro, muitas passagens falam de guerras e tempos conturbados na Terra. Não datadas, essas evocações podem ser aplicadas a muitos momentos da nossa história, passada ou futura (como qualquer boa profecia). Estudiosos da sua obra, consideram sobretudo que o autor evocava acontecimentos do passado e como sabia que a História tende a repetir-se, sabia que não lograva falhar muito. Tinha fama de astrólogo e redigir estas profecias serviu sobretudo como publicidade à sua "arte". Uma das únicas vezes em que fala de um perigo que pode vir de fora da Terra, evoca uma estrela semelhante ao sol que brilhará 7 dias no céu e apavorará as gentes. O astrónomo pode estar a referir-se à passagem de um cometa, algo que pode ser calculado dezenas ou centenas de anos antes. Alguns tradutores de Nostradamus apontam a data do fim do Mundo para 3797, outros para 5994.


O Bandarra e outros presumíveis profetas


O Bandarra- Portugal viu o seu oráculo em Gonçalo Anes Bandarra (1500-1556), que anunciou nas suas trovas, simbólicas e crípticas, acontecimentos que podem ser interpretados das mais variadas formas. Segundo os investigadores da personagem e da sua obra, o sapateiro de Trancoso tinha um bom conhecimento da Bíblia, que interpretava à sua maneira, anunciando (o que desejava para) o futuro de Portugal. Quando se deu a Restauração, em 1640, e o trono voltou a ser português, houve quem visse em D. João IV o "Encoberto" evocado nas trovas do poeta e sapateiro.

Quanto ao fim do Mundo, o Bandarra teria anunciado que o Mundo acabaria no ano dos três noves (1999 ?), que nesse tempo "as estradas se vestiriam de luto" (asfalto?) e que "uma besta sem cabeça atravessaria as planícies" (comboio?). mas estas são predições que não constam nas suas trovas e podem lhe ter sido atribuídas durante o séc. XIX ou XX. É que apesar de proibidas pela Inquisição, as trovas foram publicadas ao longo dos séculos, sempre acrescentadas de novas profecias, que iam sendo supostamente descobertas em Trancoso e convenientemente encaixando nos acontecimentos de cada época.

A Sibila de Cumas - Oráculo (séc. VI a. C.) muito apreciado por gregos e romanos, disse que o mundo duraria 9 ciclos de 800 anos, o que dá ao planeta a idade final de 7.200 anos. Pergunta elementar: em que data fixar o princípio do Mundo? Nunca falou em datas e muito menos em 2012. Falou na vinda de uma criança que iria lançar uma Idade de Ouro, o que os cristãos interpretaram como a vinda de Cristo. Acrescentou que nessa era a décima geração seria sujeita a grandes tribulações. Mas quantos anos constituiam uma geração para a pítia?

Merlim - O bispo Godofredo de Monmouth (1100-1155) coligiu as profecias de Merlim, explica o editor da presumível primeira edição do texto em 1603 (!). Merlim teria predito a criação dos Estados Unidos, Napoleão, a II Guerra Mundial e a utilização pelos homens de uma "pedra porta-voz" (telefone, telemóvel?). Também teria anunciado que “um dia, os planetas sairão das suas trajectórias”, e por isso é citado pelos predicadores de hoje, quando alertam para o "alinhamento planetário" (ver pág.5). Um texto do séc. XII sobre uma personagem mítica do séc. VI, editada no séc. XVII pode ter sofrido adaptações e acrescentos ao longo dos séculos aos escritos originais, se estes alguma vez existiram.

João de Jerusalém - João de Vézelay (séc. XI), escreveu sobre "o ano mil que virá depois do ano mil ". "Em todas as cidades haverá torres de Babel" (arranha-céus?), "as cidades serão como formigueiros" (sobrepopulação?), "o sol queimará a pele, o ar já não será o véu que protege do fogo, será como uma cortina esburacada e a luz queimará os olhos e a pele " (camada de ozono?), haverá "crianças famintas, com olhos cheios de moscas " (fome em África?), " todas as coisas serão vendidas, as árvores, a água e até o homem, já nada será gratuito" (neoliberalismo?), "os homens saberão criar miragens, outros pensarão que essas imagens são a verdade, perder-se-ão em labirintos que não existem, mas serão tratados como carneiros" (TV, imagens virtuais, jogos vídeo?), voltarão "as invasões de bárbaros barbudos (...) que se lançarão orgulhosos sobre as torres" (11 de Setembro?).

As "visões" de João podem deixar-nos perplexos. Por isso deixamos uma explicação contemporânea entre parênteses, mas como uma interrogação. Porque são interpretações nossas, com olhos do séc. XXI. Porque uma das características de quem interpreta profecias, é que as interpreta à luz do seu tempo.

A origem do texto é controversa e aparece do nada em 1994. Segundo o tradutor russo, o texto terá sido encontrado nos arquivos do KGB, que os teria recuperado aos nazis, que os teriam roubado de uma biblioteca hebraica de Varsóvia. O manuscrito seria datado do séc. XV e mencionaria João de Jerusalém como um dos fundadores dos templários. O que faz, desde logo, duvidar da sua autenticidade é que nenhum dos nove fundadores dos Templários se chamava João. Acresce que não há registo histórico da existência do autor nem foi encontrado mais nenhuma versão deste texto. Passamos a ver o texto com outros olhos se considerarmos que pode ser um falso criado nos anos 1990.

A Mãe Shipton - A Mãe Shipton (1488-1561) teria predito que "quando as pinturas dos quadros fossem vivas, que os barcos navegassem debaixo do mar, que os homens voassem mais depressa que os pássaros e as mulheres vestissem calças, metade da Humanidade terminaria num banho de sangue". A Mãe Shipton teria sido inventada pelo escritor Richard Head em 1684. Ao longo dos tempos, muitos outros autores publicaram profecias em nome da Mãe Shipton, que teria anunciado, num livro de 1862, o fim do mundo para 1881.

S. Malaquias - No séc. XVI, são publicadas as profecias de São Malaquias (séc. XII) sobre os 111 papas que sucederiam a Celestino II (1444). O último papa, apelidado de Pedro O Romano, viveria o fim dos tempos. Na cronologia oficial do Vaticano, Celestino II é o 165° papa e Bento XVI o 265°. Para alguns polemistas da questão, Bento XVI seria o penúltimo papa evocado por Malaquias. Porque contam os anti-papas. Sem esses faltariam ainda 10 papas para a conta dar certo. Ou seja, como sempre, tudo é uma questão de interpretação. Desde Malaquias, há registo de seis anti-papas, cinco dos quais, eleitos em Pisa e Avinhão, foram sumos pontífices em paralelo com os quatro papas reconhecidos por Roma (Grande Cisma do Ocidente, 1378 e 1415).

Os Sioux e os Hopi - No fim do século XIX, Black Elk (na foto), da tribo Sioux, viu a destruição do seu povo, e logo de seguida a de toda a civilização. Relato recuperado ou não pelos Hopi, uma das mais antigas tribos dos EUA, estes contam desde a mesma época que vivemos no 4° Mundo e que estamos a entrar no 5°. "Nesse tempo, a Terra estará cercada por uma imensa teia de aranha", teriam anunciado, imagem verdadeiramente terrível para uma pessoa do séc. XIX, para quem era impossível imaginar a internet. Quando isso acontecer, dizem "o nivel dos mares e a actividade do sol vão aumentar, os deuses vão voltar das estrelas e o 4° Mundo vai acabar". Estudiosos dos Hopi dizem que, na realidade, estas histórias começaram a circular nos anos 1940. Essa teia referir-se-ia aos fios de telefone e aos cabos da alta tensão. Foi também nessa década que teriam sido avistados os primeiros discos voadores, daí a referência aos deuses que regressam.


Fins do Mundo adiados


Um recente estudo inglês recenseava 186 profecias sobre o fim do mundo falhadas desde o tempo do Império romano. Um estudo francês do mesmo tipo falava em 250.

365: S. Hilário anuncia a chegada do Anticristo e o fim do Mundo.

999: Histeria colectiva na Europa dos que seguem o calendário cristão e pensam que com o ano 1000 chegará o fim dos tempos. Nesse ano, coincidência ou medo milenarista, a Hungria, a Polónia e a Rússia convertem-se ao Cristianismo. Diz-se que na sua missa especial em Roma, a 31 de Dezembro de 999, o papa Silvestre II suspirou de alívio quando nada ocorreu após as 12 badaladas da meia-noite. No dia seguinte, mandou tocar todos os sinos de todas as igrejas da cidade para saudar o novo milénio.

1186: Perante o alinhamento dos planetas então conhecidos na Constelação da Libra, João de Toledo anuncia o fim do mundo para Setembro.

1492: Na Rússia, o ano 7000 do calendário bizantino (1492 no calendário cristão) é esperado com angústia, pois S. Abraão de Smolensko previu que o Mundo não passaria do 7° milénio.

1524: O alinhamento de certos planetas com o Sol iria provocar cheias, erupções vulcânicas e o fim do Mundo, segundo Johannes Stöffler.

1540: Lutero, que acreditava que a idade do Mundo era de 5500 anos, escrevia “estou convicto que o dia do Juizo Final está para breve”.

1666: O fim era esperado por ser o “Ano da Besta”. O mundo não acabou, mas um incêndio de enormes proporções devastou Londres.

1914: Fundados oficialmente em 1870 nos EUA, desde a sua criação que os Testemunhas de Jeová anunciam o fim dos tempos para "breve". Anunciaram o apocalipse para 1914, recuaram-no para 1925 e depois para 1975, ano em que deixaram de dar datas.

1919: O meteórologo Alberto Porta diz que um alinhamento de seis planetas vai provocar uma tempestade magnética que destruirá a Terra e o Sol.

1988: É esperado um grande cataclismo na costa oeste dos EUA.

1994/97: Suicídios colectivos na Ordem do Templo Solar na Suíça, França e Canadá, na data em que acreditavam ser o do Juízo Final.

1997: Suicídio colectivo na seita Heaven’s Gate à passagem do cometa Hale-Bopp, atrás do qual seguiria uma nave extraterrestre, na qual, acreditavam, as suas almas embarcariam.

1997 e 2003: Datas anunciadas para o fim do mundo pela seita japonesa Aum (autora dos ataques terroristas com gás Sarin no metro de Tóquio em 1995).

1999: Data anunciada por Nostradamus, e que muitos acreditavam marcar o fim do Mundo. O estilista Paco Rabanne, seguidor desta teoria, teve uma visão em que a estação espacial russa MIR caía sobre Paris.

2008: Quando o acelerador de partículas Largo Colisionador de Hadrões do CERN foi accionado na Suíça, muitos temiam que o planeta fosse aspirado por um micro buraco negro.

Todas as épocas foram fertéis em vaticinar os seus fins do Mundo, como bem o descreve Hillel Schwartz no seu “Century’s End” (1990), em que regista todas as previsões de fim do mundo e medos dos fins de século desde 990 até ao ano 2000.





Asteróides, uma ameaça real


A possibilidade que um cometa (proveniente para além da órbita de Neptuno e, geralmente, com cauda) ou que um asteróide (proveniente da cintura de asteróides, sem cauda) colida com a Terra é real. Já aconteceu no passado e pode voltar a ocorrer.

Há 65 milhões de anos, um cometa que tinha 18 km de diâmetro atingiu o Golfo do México numa explosão mais de mil milhões de vezes superior à bomba de Hiroshima, o que terá provocado tsunamis e terramotos nunca antes vistos à escala global, levantou nuvens de poeira e fumo que cobriram a luz do sol durante centenas de anos, o que arrefeceu o globo (Inverno nuclear) e terá conduzido à extinção de 50 % das espécies, entre eles os dinossauros.

Em 1908, um asteróide com cerca de 50 metros de diâmetro explodiu na Sibéria (Tunguska), com a potência de várias centenas de bombas de Hiroshima, ficou registado como um sismo de nível 4 na Escala de Richter, destruiu a floresta num raio de 20 km e provocou danos até uma centena de quilómetros de distância.

A ficção científica e Hollywood imaginaram muitas vezes este possível fim do mundo, mas só em 1994 quando o cometa Shoemaker-Levy 9 colidiu com Jupiter é que a comunidade científica ficou alertada, percebendo que esta era uma ameaça real.

Uma estrela cadente nada mais é que um pequeno asteróide que se desintegra ao entrar na atmosfera terrestre, formando meteoritos, que podem ter desde alguns centímetros até vários metros e se diferenciam das pedras terrestres porque são magnéticos. Anualmente, caem 50 mil meteoritos na Terra, o que representa 30 mil toneladas de pedras vindas do espaço.

Um asteróide é potencialmente perigoso para a Terra quando tem mais de 150 metros de diâmetro. Há já oito anos que os astrónomos observam incansavelmente os céus à procura de possíveis objectos massivos que cruzem a órbita da Terra (geocruzadores) e já identificaram cerca de oito mil asteróides ou cometas deste tipo. Mas nenhum destes geocruzadores tem "encontro marcado " com a Terra este ano ou numa data próxima.

Conscientes da ameaça, americanos e europeus trabalham actualmente na detecção (Spaceguard Survey, Programa Neo, http://neo.jpl.nasa.gov/ ) e recenseamento destes corpos, mas estudam também como desviá-los da Terra. Os cientistas avisam, no entanto, que se um corpo celeste verdadeiramente ameaçador for descoberto em rota de colisão com o nosso planeta, tudo dependerá se for detectado a tempo e se não for demasiado voluminoso para poder ser desviado.



O império do Sol


A fonte de toda a vida na Terra pode também ser o seu maior perigo. Os teóricos do apocalipse prevêem para 21 de Dezembro uma erupção solar que deflagrará sobre a Terra, o que se não a reduzir a cinzas, provocará o caos.

O Sol entra em intensa actividade de 11 em 11 anos, momento em que regista mais erupções solares, três a quatro erupções diárias, cada uma equivalentes à explosão de 10 milhões de bombas de hidrogénio. O Sol só vai entrar numa nova fase intensa em 2013, informa a NASA, mas esta será uma actividade intensa média e não uma das mais fortes.

Perturbações provocadas por erupções solares já foram registadas na História recente. Uma das mais fortes deu-se em 1859, quando uma ejecção de matéria coronal solar danificou os telégrafos eléctricos do mundo. Entre 1920 e 1960 há vários registos de tempestades solares que afectaram os sinais rádio no planeta. Em 1989, uma tempestade solar avariou uma central hidroeléctrica no Canadá, em 2003 fortes ventos solares provocaram uma avaria eléctrica na Suécia e obrigaram a navegação aérea internacional a alterar as rotas. Uma das últimas erupções solares deu-se em Outubro deste ano e não afectou a Terra. Uma erupção solar tão forte como a de 1859 só acontece, segundo os cientistas, duas vezes em cada milénio. Seria necessário uma erupção solar colossal para que a ejecção de matéria coronal da nossa estrela em direcção à Terra danificasse os circuitos electrónicos dos satélites (construídos para resistir às radiações solares), quebrasse a rede de telecomunicações e os sistemas da navegação aérea. A acontecer, o pior mesmo é que perturbaria o campo magnético terrestre (magnetosfera), que nos protege das partículas carregadas (radiações) que chegam do Sol. Quando estas partículas são desviadas pela magnetosfera, criam as auroras boreais. Mas se devido a um actividade solar fora do normal contornassem a magnetosfera, as radiações perturbariam centrais e redes eléctricas. Ou seja, o mundo mergulharia num "black out" electrónico e eléctrico, dois dos sistemas em que assenta a nossa vida moderna. Por quanto tempo voltaríamos a viver como no século XIX não se sabe, poderia levar anos, ou mesmo uma ou duas décadas, até restabelecermos esses sistemas a nível mundial.

Os cientistas não conseguem prever as erupções solares, apenas observá-las, após o que os ventos solares demoram entre 24 a 48 horas a chegar à Terra, o que é muito pouco tempo para poder fazer algo.

Alarmismos à parte, nada indica que a fase actual de actividade do Sol é perigosa para a Terra.

Os astrofísicos dizem que conhecem bem as fases da vida de uma estrela e que quando o nosso Sol se transformar em gigante vermelha, dentro de 5,5 mil milhões de anos, este vai dilatar até engolir a Terra. Mas nessa altura, já nos teremos mudado há bastante tempo para outro planeta.

O que são Nibiru e Némesis?


Alguns predicadores escatológicos afirmam que a Terra colide na sexta-feira com o planeta Nibiru (também chamado planeta X ou 10° planeta).

Mas que planeta é este? Para os sumérios (habitaram o sul do Iraque no 4° milénio a.C e são considerados os inventores da escrita), quando a Terra (Tiamat) nasceu situava-se entre Marte e Júpiter, mas a colisão com o planeta Nibiru propulsou o nosso para a terceira órbita solar, onde se encontra hoje. A Terra ficou com metade do tamanho original, foi assim que foi criada a Lua e a cintura de asteróides que hoje existe entre Marte e Júpiter.

Segundo o mito, Nibiru tem uma órbita em volta do Sol de 3.600 anos e cada vez que Nibiru passa perto de nós, os elementos ficam desencadeados e provocam catástrofes cíclicas (terramotos, cheias, etc.). Os sumérios contam que várias civilizações antes da sua desapareceram devido à passagem desse planeta "vadio". O dilúvio bíblico, por exemplo, recupera o relato de um dilúvio retratado na "Epopeia de Gilgamesh", manuscrito sumério anterior ao livro hebreu da Génese, que conta a origem de Sumer, civilização que brotou das cinzas desse mundo antediluviano. Foi esse relato (e derivantes) que deu origem à lenda da Atlântida, contada por Platão (séc. V a.C.) nos livros "Timeu" e "Crítias".

Não existe nenhuma prova cientifica que um planeta assim exista. Os charlatães do apocalipse anunciaram-na para 2003 e depois adiaram-na convenientemente para 2012.

Um décimo planeta, Sedna, foi descoberto em 2003, para além de Plutão. E logo de seguida foram descobertos mais três – Éris, Makemake e Haumea –, o que levou os astrónomos a redefinirem em 2006 os planetas e os planetas-anãos. Sedna é actualmente o planeta com a órbita mais longa à volta do Sol (12 mil anos) e Éris é o planeta mais distante do Sol, mas com uma órbita mais pequena que Sedna (570 anos).

Na ressaca da teoria apresentada em 1980 que afirmava que um fenómeno exterior à Terra (cometa, asteróide) tinha extinguido os dinossauros, uma outra foi avançada pelo físico americano Richard A. Muller (Berkley) em 1984. O nosso Sol faria parte de um sistema solar binário, como aliás é o caso para a maioria das estrelas da nossa galáxia. Esta companheira, a que Muller deu o nome de Némesis (a deusa grega da vingança), seria uma anã vermelha ou castanha, pouco brilhante, e teria uma órbita de 26 milhões de anos (à distância de 1,5 anos-luz). Muller argumentava que isso explicaria as extinções cataclísmicas e cíclicas de algumas das espécies da Terra. A irmã do Sol nunca foi avistada até hoje e a estrela mais próxima é Próxima do Centauro, a 4,2 anos-luz.


  Você disse E.T.?


Desde os anos 1940 que se fala em discos voadores e quase sempre a sua chegada está associada ao fim da Humanidade, medo quiçá importado do romance "A Guerra dos Mundos" (1898) de H.G. Wells. Antes disso, os extraterrestres (E.T.) que se encontravam na literatura eram pacíficos. Voltaire imaginou Micromégas (1752), vindo de Sirius, e Cyrano de Bergerac evocava os Selenitas em "Impérios da Lua" (1650). Ambos os autores se inspiravam livremente em Luciano de Samósata (120-180), um dos primeiros a escrever sobre ETs.

Há mais de meio século que milhares de pessoas dizem avistar ovnis (Objectos Voadores Não Identificados), desde a notícia que uma nave ET se teria despenhado em Roswell (Novo México) em 1947. Nos anos 80 apareceram os que afirmam ser abduzidos por ETs.

O autor do vídeo difundido nas televisões do mundo inteiro em 1995, em que se via a autópsia de um alienígena, admitiu em 2006 que este era falso.

Em 1977, o Instituto SETI (Search for Extra-Terrestrial Intelligence) pensou ter detectado um sinal extraterrestre (sinal "wow"), mas não conseguiu voltar a ouvir o sinal nem a provar a sua origem.

Apesar da ausência de provas, cada vez mais gente diz acreditar em seres de outros mundos e avistar ovnis. Muitas vezes esses avistamentos não passam de miragens ou de fenómenos ópticos mal interpretados como, por exemplo, a entrada na atmosfera de restos de satélites ou de metoritos. O SETI prescruta os céus desde 1960 e (excepto o incidente de 1977) nunca detectou nenhum sinal extraterrestre.

Nos anos 1970, um histérico Sheldan Nidle anunciava para 1996 uma invasão extraterrestre, segundo uma mensagem por ele interceptada. Depois de 1996, Nidle explicou que a Federação Galáctica interveio por nós e não permitiu o ataque.

De incrédulos, os cientistas passaram a aceitar a possibilidade de vida extraterrestre quando o primeiro exoplaneta (que se situa fora do sistema solar) foi descoberto em 1990. Entretanto, já foram detectados mais de 850 exoplanetas, mas foi até hoje impossível determinar se alguns desses abrigam vida, bacteriológica ou inteligente.

Perante a eventualidade de um possível "primeiro contacto", o Vaticano assumiu em 2008 que se existirem "outros seres no Universo", estes devem ser considerados "nossos irmãos"      (José Gabriel Funes, astrónomo-chefe do Observatório do Vaticano).

Mas o "primeiro contacto" ainda não aconteceu e sem sabermos se existem, não podemos imaginar se são perigosos ou amistosos. O físico Stephen Hawking considera que a Humanidade não sobreviveria a um primeiro contacto com uma civilização extraterrestre.




Todos os textos são da autoria de
José Luís Correia
e foram publicados no jornal CONTACTO, 19/12/2012
Luxemburgo 
Pesquisa e redacção: JLC
Fotos: Shutterstock/Arquivo Luxemburger Wort

(as fontes bibliográficas podem ser fornecidas, sob pedido)





































Forçar o I-Ching a falar


Outra fonte que anunciaria o fim do mundo para 2012 é o mais antigo livro escrito na China, o I-Ching (literalmente "Clássica das Mutações"), utilizado desde o terceiro milénio antes de Cristo, para fazer adivinhações. Faz-se uma pergunta (ao Universo/ao oráculo) e atira-se três moedas. Se caírem duas moedas com cara, faz-se um traço descontínuo, se caírem duas com coroa, desenha-se um traço contínuo, até formar seis linhas (hexagrama). Cada um dos 64 hexagramas possíveis dá uma resposta à pergunta que foi feita. Os psicólogos explicam que cada pessoa verá na previsão algo que aproximará da resposta que pretende. É o que chamam "o sistema de validação subjectiva", ou seja, cada um verá aquilo que quer ver.

Nada no I-Ching aponta para 2012. Foi um matemático new age , Terence McKenna (1946-2000), que juntou as seis linhas e os 64 hexagramas num gráfico informático para representar a cronologia da Humanidade desde o terceiro milénio a.C. até aos dias de hoje. Segundo McKenna, o gráfico, que mostra os períodos altos (progressos e descobertas) e baixos (guerras e crises) da Humanidade, termina em 21 de Dezembro de 2012. Cálculo absconso e teoria desconhecida para os praticantes do I-Ching.
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Prognósticos do web-bot


Há quem acredite que o web-bot, programa informático criado em 1997 para indicar flutuações bolsistas, tenha previsto o fim do mundo para 2012.

Se para prognosticar as tendências da bolsa a ferramenta já é falível, pois analisa simplesmente os temas, produtos e negócios mais pesquisados na internet, quando se trata de datar o fim do mundo é-o ainda mais, pois que outro assunto tem sido mais propalado na internet este ano do que o apocalipse?

Querem números? Googlando (em francês) a data do 21 de Dezembro de 2012 há cerca de um ano, o CONTACTO obteve quase 7 milhões de referências, mas há dias encontrou quase 80 milhões de resultados (10 vezes mais), 60 milhões se for em português, e 3 mil milhões de referências (!!!) em inglês.

O web-bot teria previsto o 11 de Setembro e o furacão Katrina, mas essas previsões vieram na realidade depois desses catástrofes. Quando questionado sobre a III Guerra Mundial há uns anos, o web-bot tê-la-ia anunciado para 2011. Prova que os softwares também erram.
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Apocalipse, o regresso


Anote na sua agenda o próximo fim do Mundo: 13 de Abril de 2036. É o dia em que o asteróide Apophis passa perto da Terra. Os astrónomos acreditam que há 1 hipótese sobre 250 mil (o que é incrivelmente baixo à escala do cosmos) de este colidir com a Terra.

Outra data é a de 2126, quando o cometa Swift-Tuttle, que passou perto do nosso planeta em 1992, regressa e se arrisca dessa vez a colidir connosco.

Porque não se fala nestas datas? Porque as seitas apocalípticas e os pseudo-científicos (ainda) andam entretidos com o 21 de Dezembro de 2012. Depois de sexta-feira, vão logo acaparar-se dos novos medos, das novas datas, dos novos fins.

O relógio dos 10 mil anos


Em 1986, o engenheiro americano Daniel Hillis teve a ideia de construir um relógio de dois metros de altura que funcionasse durante 10 mil anos. O relógio "Clock of the Long Now" começou a funcionar a 31 de Dezembro de 1999. Nesse momento, o relógio, que afixava o número 01999 passou a mostrar 02000. Montado com materiais resistentes à corrosão e situado dentro da caverna de uma montanha no Nevada (Ely), seria curioso perguntar o que pensarão os homens do futuro se encontrarem ainda intacto e a funcionar esse relógio dentro de 100 séculos. Pensarão, por ventura, que o mundo vai acabar quando o ponteiro parar nos 10 mil anos. Não é o que estamos a fazer com o calendário maia?


Para acabar com o fim do Mundo


Uma coisa é certa, o 21 de Dezembro marcará o fim… do Outono. Como acontece todos os anos.

As as profecias e teorias que anunciam o apocalipse para 21 de Dezembro de 2012 são contadas de forma a coincidir com a data, para sustentar os argumentos de quem as propala.

Com que objectivo? Vender livros, vender esperança, vender ilusões, como alertava já em 2011 a Missão Interministerial Francesa de Vigilância e Luta Contra as Derivas Sectárias (Miviludes), denunciando os "charlatães do apocalipse ".

Há quem viva com o fim como princípio, porque o fim pode representar um novo princípio. É nisso que se apoiam as seitas, aproveitando a credulidade de muitas pessoas.

Para cada época há duas coisas óbvias: se o Mundo teve um princípio, terá um fim. Alguns vivem na angústia desse fim e na ilusão de se poderem preparar para esse momento. Em cada geração, sempre houve quem vivesse com o sentimento íntimo de que “isto já não é o que era", "isto está mesmo mal", "o Mundo já não dura muito tempo". Além disso, todas as predições do fim são interpretadas com as angústias e a realidade de cada época. Quando deixam de encontrar respostas na religião e na espirtualidade, as pessoas procuram respostas e sinais do fim dos tempos em tudo, nas profecias, nas estrelas, nas catástrofes naturais, nas guerras, nas crises, nas pandemias que, dizem, têm aumentado de frequência, o que é um sinal explícito do final dos tempos. Facto é que catástrofes, conflitos e pandemias sempre existiram. Mas nunca foram tão mediatizados como hoje. Como as previsões do fim do Mundo, aliás.  


Todos os textos são da autoria de
José Luís Correia
e foram publicados no jornal CONTACTO, 19/12/2012
Luxemburgo 
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terça-feira, 11 de dezembro de 2012

"Funds People Portugal" cita a Alfi (do Luxemburgo), que tenta dourar a pílula dos hedge funds

Um artigo publicado há dias pela revista portuguesa "Funds People" evoca o Luxemburgo e tenta "dourar a pílula" da indústria dos hedge funds.

Estes "famosos" fundos de investimento alternativos são os que muitos analistas financeiros acusam de ter fomentado uma "economia de casino", o que teria empurrado o Mundo para a actual crise económica. "Em contextos de crise económico-financeira, a procura de culpados constitui uma tradição (....)".

É assim que começa o artigo intitulado "A realidade oculta por detrás dos falsos mitos sobre hedge funds", e que procura desmistificar a falta de regulação nestes fundos, o perfil de alto risco dos mesmos, a sua responsabilidade na crise, ou o facto de não beneficiarem a economia.

Numa conferência recentemente promovida pela Alfi, a associação da industria de gestão luxemburguesa, no Kirchberg, Dominic Tonner, responsável de comunicação da AIMA, a associação global da indústria de gestão alternativa, recusa aceitar que os hedge funds sejam qualificados de "produtos com pouca segurança e regulação". Pelo contrário, diz Tonner, estes fundos são produtos seguros porque estes são aprovados pelos reguladores nacionais e "estiveram sempre sujeitos a restrições, determinadas por leis sobre o abuso de mercados". "A indústria de hedge funds não está disposta a assumir o papel de bode expiatório porque considera que a percepção que existe em torno do negócio está forjada de mitos", disse Tonner na conferência, e que a revista cita.

A "Funds People" é uma revista mensal para os profissionais do investimento colectivo em Espanha, Andorra e Portugal, dirigida a gestores de fundos de investimento e pensões, investidores e banca privada.

JLC

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Há qualquer coisa de podre no reino do Luxemburgo


A"telenovela" Bommelëeer dos atentados bombistas que assolaram o Luxemburgo entre 1984 e 1986 continua o seu longo desfio de episódios uns mais inacreditáveis do que outros. Ganha agora um enredo digno de um filme de James Bond, mas sem que nada fique ainda resolvido ou claro.

Esta telenovela luxemburguesa dura há mais tempo que a soporífera soap opera "The Bold and The Beautiful", cujo 6.460° episódio já só é seguido por quem ainda se admira que Ridge Forrester se apaixona pela 17a vez por Brooke, que já foi casada com o irmão, teve dois filhos do pai, que antes de casar com Brooke foi namorado da mãe, mas depois há sempre um episódio em que Brooke acaba por voltar para Ridge.

O mesmo se passa com a "telenovela" luxemburguesa, em que até as peripécias mais incríveis já não surpreendem. A última em data envolve a Coroa e o Grão-Duque Henri, que teriam "contactos permanentes" com os serviços secretos britânicos. É o que se fica a perceber de uma conversa entre Marco Mille, antigo responsável dos serviços secretos luxemburgueses (SREL), e o primeiro-ministro, e sobre o alegado envolvimento de um irmão do soberano nos atentados. O que não espantaria, já que o grão-duque Jean fez parte das Irish Guards, com as quais desembarcou na Normandia no Dia D, em 1944, e os princípes da Casa Grã-Ducal têm feito o seu serviço militar passando sempre pela reputada Academia Militar inglesa de Sandhurst.

A conversa entre Mille e Juncker data de 2008, mas o primeiro-ministro só soube um ano depois que esta fora gravada, supostamente pelo ex-espião, graças a um relógio-gravador. Mille negou, mas foi afastado do SREL, que chefiou entre 2003 e 2010. Há semanas, o Parlamento pediu a Juncker para ouvir a gravação, mas este excusou-se dizendo que a tinha extraviado. A coisa teria ficado por aqui, senão houvesse uma "Garganta Funda" que não tivesse tido o cuidado de não a extraviar e de a entregar ao jornal Lëtzebuerger Land, que publicou a transcrição da conversa na íntegra, na sua edição de sexta-feira.

Indignaram-se os deputados e a opinião pública, e fica a pairar sobre o até agora imaculado Juncker a suspeita de querer dissimular provas. Este reagiu dizendo que a gravação era "inaceitável", pois a conversa com Mille não envolvia questões sobre a segurança do Estado. Mas não desmentiu o seu conteúdo. Por seu lado, a Casa Grã-Ducal negou segunda-feira que houvesse qualquer ligação ente a Coroa e os serviços secretos britânicos. Entretanto, a Procuradoria Geral abriu um processo para apurar em que circunstâncias a gravação foi feita. A suspeita recai agora sobre um funcionário da Casa Grã-Ducal que teria o objectivo de prejudicar a Coroa. Ontem, à hora do fecho deste jornal, esperava-se que a Câmara dos Deputados pedisse um inquérito parlamentar a este caso.

Este mal-estar não se sente só no crescente desfazmento entre povo e Coroa, ou em processos judiciais sem fim à vista, como o do Bommelëeer (não prescreve porque é terrorismo), que lançam o descrédito sobre a Polícia (antigos agentes são arguidos no caso) e a Justiça luxemburguesas, deixando a impressão que há intocáveis na sociedade, o que é inédito no Luxemburgo. Mas este sentimento de que há algo podre no reino começa a alastrar a outros sectores.

As empresas mais insuspeitas, exemplares em termos de modelo social luxemburguês, caem agora na tentação do dumping social. Como a Luxair, que denunciou o contrato colectivo. Ou a sua filial Cargolux, que anda de mão (qatari) em mão (chinesa), como quem pergunta "Quem quer casar com a Car(g)o(lux)chinha?". Isto para evitar a falência e despedir 1.500 trabalhadores. Ou ainda a Arcelor, n°1 mundial do aço, que enquanto se chamava Arbed (1911-2002) escreveu a gloriosa história da siderurgia luxemburguesa, pôs o país no mapa e se confundiu até com a própria identidade nacional, mas depois de se "indianizar" em Mittal (2006), só fala em despedimentos, redução de custos e maximização de lucros. E outras que tais que pretendem seguir o mesmo caminho. O Luxemburgo já não é definitivamente o que era.

E aos que ao longo desta crónica se perguntaram "Então, e sobre o fim do mundo, ele não diz nada?", respondo: Só se for sobre o fim do mundo em cuecas, que é onde isto tudo vai parar se assim continuarmos a viver numa sociedade cruelmente deficitária em valores não cotáveis na bolsa: a ética e a moral.


José Luís Correia 
(in jornal CONTACTO, 05/12/2012)

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Portugal sagt "Ich bin ein Berliner"


 versão portuguesa

 
deutsche fassung

 

english version

Vídeo sobre Portugal proposto por Marcelo Rebelo de Sousa foi recusado na Alemanha 

O filme sobre Portugal que as autoridades alemãs recusaram apresentar em Berlim vai ser exibido na segunda-feira nos painéis do Turismo de Lisboa, acompanhando a visita da chanceler alemã, Angela Merkel, à capital portuguesa, disse hoje o autor. O filme, intitulado "Eu sou um berlinense" ("Ich bin ein Berliner") pretendia apresentar aos alemães alguns dados sobre a realidade portuguesa das últimas quatro décadas, num resumo de quase cinco minutos. Os autores tinham comprado espaço em locais na Alemanha para a exibição do filme durante este fim de semana, antes da visita de Merkel a Portugal, mas a sua difusão não foi autorizada porque as autoridades alemãs consideraram que a mensagem "era politizada". O 'bloguer' Rodrigo Moita de Deus, autor do filme, afirmou que a intenção não é ofender os alemães, mas fazê-los compreender um pouco mais a realidade em que vivem os portugueses. "Como está no filme, trabalhamos mais horas, pagamos mais impostos, temos menos férias", disse, considerando que a recusa do filme "é uma situação insólita, até porque os princípios e os valores da União Europeia falam de solidariedade". Os autores vão ainda insistir para que a mensagem chegue aos destinatários, encontrando outras formas de exibição na Alemanha, nomeadamente através das redes sociais. Para já, "Eu sou um berlinense" vai ser exibido na segunda-feira em Lisboa, nos painéis do Turismo da cidade, enquanto Angela Merkel a visita. Rodrigo Moita de Deus manifestou também o seu protesto numa carta ao embaixador alemão em Portugal, na qual salienta que "todos os dados referidos no filme são factos históricos facilmente comprováveis e dados estatísticos de fontes oficiais". A realização de um filme que informasse os alemães sobre Portugal e os Portugueses foi sugerida há duas semanas por Marcelo Rebelo de Sousa, na sua crónica na TVI. A ideia era projectar o vídeo numa das principais praças de Berlim. Esta recusa levou já os colaboradores de Marcelo Rebelo de Sousa a enviarem um protesto para a embaixada da Alemanha em Portugal. O vídeo de 5 minutos pretendia mostrar a realidade portuguesa ao povo alemão, os sacrifícios que o país está a fazer e as conquistas que o país fez nas últimas décadas.

Lusa

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Quantum leap

Que fique registado para o futuro: Assim que ouvi falar de informática quântica, soube instintivamente que era a resposta para a viagem intergalática à escala humana.

Se eu estiver errado, paciência. Mas se estiver certo, estamos apenas a algumas décadas de viajarmos mais rapidamente que a luz.

A teoria quântica da acção-fantasma das partículas elementares é o nos conduzirá às viagens inter-galáxias (graças à energia quântica) como inter-dimensões (graças ao imbricamento quântico)..

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Um planeta iluminado por 4 sóis


Uma equipa internacional de astrónomos amadores (Planet Hunters) e profissionais (Universidade de Yale) anunciou hoje a descoberta de um planeta num sistema binário duplo (ou quaternário).

Quem desse planeta pudesse observar os céus, veria quatro sóis. Apesar de popularizado em muitas obras de ficção científica, é a primeira vez que um sistema estelar deste tipo é observado.

O planeta, baptizado PH1 (Planet Hunters 1), é seis vezes maior do que a Terra e fica situado a mais de cinco mil anos-luz da Terra. O PH1 orbita em torno de dois sóis, em volta dos quais também evoluem duas estrelas. Até hoje, os astrónomos descobriram apenas 6 planetas que orbitam em sistemas binários e nunca em sistemas binários duplos.

Este sistema estelar binário duplo foi descoberto por dois astrónomos amadores dos EUA, Kian Jek e Robert Gagliano, através do programa Planet Hunters. Este programa reagrupa num site os astrónomos amadores, incentivando-os a descobrirem e identificarem exoplanetas (planetas fora do nosso sistema solar), utilizando os dados recolhidos pelo telescópio espacial Kepler.

Astrónomos profissionais norte-americanos e britânicos efectuaram depois observações e medidas com os telescópios Keck situados no monte Mauna Kea, no Havai. "Os planetas binários representam o que há de mais extremo na formação planetária", diz Meg Schwamb, um investigador da Universidade de Yale, no Estado do Connecticut, principal autor da pesquisa, apresentada hoje na conferência anual da Divisão de Planetologia da Sociedade Americana de Astronomia, reunida em Reno, no Nevada (EUA). "A descoberta de tais sistemas satelitários força-nos a repensar como estes planetas se podem formar e evoluir em tais ambientes", frisou.

Lusa/AFP/Yale

Um mergulho no vazio dos 39 mil metros



O pára-quedista austríaco Felix Baumgartner tornou-se no domingo, 14 de Outubro de 2012, o primeiro homem a saltar em queda livre dos 39 mil metros de altitude, ultrapassando a barreira do som. Durante o salto, o austríaco, de 43 anos, atingiu a velocidade máxima de 1341,9 km/h, ultrapassando 1,24 vezes a barreira do som. Com este salto supersónico , bateu também o recorde do salto mais alto de sempre, pulverizando o recorde estabelecido em 1960 por Joseph Kittinger, que tinha saltado dos 31 mil metros. Kittinger foi, 52 anos depois e hoje com 83 anos, o contacto rádio na Terra durante o salto de Felix. O austríaco saltou de uma cápsula levada por um balão à estratosfera, numa subida que levou 2h30min. Depois, abriu a escotilha e saltou. Um mergulho no vazio que demorou cerca de 10 minutos, dos quais 4m20s em queda livre, sobre Roswell e o deserto do Novo México, nos EUA. O austríaco abriu finalmente o seu pára-quedas a 1.500 metros do solo. Ileso e já em terra firme, Felix afirmou querer “inspirar a próxima geração” com este feito. Mais de oito milhões de pessoas viram o salto pelo Youtube, onde a proeza foi transmitida em directo na página da Red Bull, que patrocinou o projecto.    

domingo, 30 de setembro de 2012

sábado, 29 de setembro de 2012

A irrequieta e irresoluta actividade de ler



Adoro ler, ando sempre com livros, revistas e jornais debaixo do braço ou dentro da mochila ou da bolsa. Leio em qualquer parte, na praia, numa esplanada de café, à beira-mar, à beira-rio, à beira-lago, num banco sossegado na orla de uma floresta...

Mas, bom, quando é aqui por casa, prefiro ler deitado no confortável sofá da sala de estar. O problema é que, assim refastelado, não posso tirar notas. Então mudo-me para a escrivaninha, no escritório, afasto o laptop, as facturas, as lapiseiras desarrumadas, os papéis caóticos, e instalo-me. Quando sentado no escritório passo pelos artigos e nada digno de registo aparece para eu guardar na minha sebenta.

Passados uns minutos, doem-me as costas da posição desconfortável ou da cadeira desengonçada, reconsidero, pego nas revistas e nos jornais e volto à sala. Escolho uma posição cómoda mas, após folhear novamente as mesmas páginas, encontro logo ali um pensamento interessante, uma frase bem torneada, uma expressão bem formulada, quero apontar e o caderno de notas ficou no escritório.

Volto ao escritório, aponto a frase, trago o bloco-notas comigo para a sala, mas assim deitado não dá mesmo jeito nenhum para tirar apontamentos, e as canetas entram em greve assim que as ponho a fazer o pino.

Regresso ao escritório mais uma meia-dúzia de vezes, aproveito a desculpa para voltar a encher a minha chávena de café, para ir à casa-de-banho, para ver se lá fora já chove, se o Outono começou mesmo, e nisto faço umas incontáveis idas e voltas entre a sala e o escritório.

Quem disse que ler era uma actividade tranquila?

Bom, às tantas, fico franca e fisicamente cansado, já não me doem só as costas, doem-me também as pernas, e o excesso de reabastecimento em cafeína está a pôr-me demasiado nervoso para ficar simplesmente tranquilo e a ler.

Vou voltar a fazer como fazia antes: vou dobrar os cantos das páginas das revistas e dos jornais que me chamaram a atenção, para apontar para mais tarde... o que nunca acontece, porque entretanto a vida continua.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Opinião: Filhos, enteados e súbditos

O ministro da Justiça, François Biltgen, veio anunciar há semanas que quando o grão-duque herdeiro Guillaume casasse com a condessa Stéphanie de Lannoy, esta passaria automaticamente a ser luxemburguesa. Para isso, seria promulgada ainda em Outubro uma lei "especial" que permitiria aplicar essa... excepção.

Além de o anúncio ter indignado uma parte dos luxemburgueses (que nunca viram a condessa expressar o mínimo interesse pelo país e muito menos pela língua) e muitos residentes estrangeiros – já que estes, para terem a nacionalidade luxemburguesa, têm que residir no país há sete anos e passar um teste de língua luxemburguesa –, Biltgen vai obrigar o Parlamento a queimar etapas. Senão vejamos: o Parlamento reabre a 9 de Outubro e tem que votar uma lei que deve entrar em vigor... 11 dias depois!

Mais do que um precedente histórico, que abre uma excepção discriminatória, é um atentado à democracia. Que tempo há para o debate e a promulgação da lei? Ou isso é obsoleto neste caso porque se trata de questões de sangue azul?

É caso para perguntar: afinal que interesses há por detrás desta vontade de naturalizar à pressa a jovem condessa? Nada contra a futura grã-duquesa, à qual desejo muitas felicidades no seu matrimónio. Mas não é caso para perguntar como se vão sentir as milhares de pessoas que trabalham há décadas no Luxemburgo e que não podem pedir a nacionalidade? É que a lei só permite às pessoas que tenham chegado antes de 1984 pedir a nacionalidade sem falar luxemburguês. Ou às que aqui residem há sete anos, caso falem luxemburguês. Alguém que tenha aqui chegado, suponhamos, em 1985, e que ainda não fale a língua, não pode pedir a nacionalidade.

O ministro d(est)a (in)Justiça veio dizer a semana passada, pouco tempo depois do anúncio sobre a condessa, que quer lançar um debate público para rever alguns critérios da lei sobre a nacionalidade.

Que critérios? É que se não for para tornar mais fáceis os testes de língua e diminuir os anos de residência exigidos, não vejo que outros critérios podem ser revistos. É preciso ser belga? Ou ter sangue azul? Ainda há príncipes disponíveis na Casa Grã-Ducal para casar?

É que não vejo bem como se pode pedir a uma população trabalhadora que aceite estes critérios da lei e ao mesmo tempo uma excepção desta natureza e que, ainda por cima, pague os 350 mil euros com que o Estado luxemburguês (ou seja, o dinheiro dos nossos impostos!) se comprometeu em contribuir para as despesas do casamento.

Biltgen apresentou também o balanço sobre a lei da nacionalidade, volvidos quatro anos sobre a sua modificação em 23 de Outubro de 2008. Uma das alterações tornou possível que um cidadão se naturalizasse luxemburguês sem perder a sua nacionalidade de origem (dupla nacionalidade).

Com a entrada em vigor desta nova lei, a 1 de Janeiro de 2009, o número de naturalizações aumentou muito. Entre Janeiro de 2009 e 31 de Dezembro de 2011, deram entrada mais de 13 mil pedidos: mais de cinco mil em 2009; 3.745 em 2010; 4.007 em 2011. Nos cinco primeiros meses deste ano já deram entrada mais 2.246 pedidos. Em termos de comparação, houve quatro mil pedidos de naturalizações entre 1950 e 2008! Os portugueses são os que mais pedem a dupla nacionalidade, representando cerca de um terço dos pedidos (31,3 %); 23,2% provêm de cidadãos dos países limítrofes (França, Alemanha, Bélgica), 17,1 % de cidadãos da ex-Jugoslávia e 12,5 % de italianos.

Estes dois mil novos pedidos de naturalização vão ser submetidos a que critérios? Sabendo que a lei que abre a excepção à condessa deve ser votada em Outubro e só depois disso será discutida a lei da nacionalidade, espero, pelo menos, ver depois uma certa abertura por parte do Parlamento e do Governo aos novos pedidos de nacionalidade.

Porque nós, que trabalhamos neste e para este país, que pagamos impostos e contribuímos para pagar casamentos reais, também já mostrámos abertura com esta excepção. A não ser que tenhamos apenas o direito de ficar calados. Já não basta 46 % da população – os estrangeiros – não poderem votar nas legislativas? Quo vadis, Democracia?



José Luís Correia 
in CONTACTO, 26/09/2012

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

tu és a minha nascente e a minha foz, venho de ti e para ti desaguo

"Tu 

és a minha nascente

e a minha foz, 

venho de ti 

e para ti 

desaguo."



JLC19092012

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Ce jeudi, je lis mes poèmes ici


Hoje em Bonnevoie

"Os jogos da vida" é o tema do próximo sarau "Mil Folhas"


O próximo sarau literário "Millefeuilles" ("Mil Folhas") tem lugar esta, quinta-feira, no Club Sénior de Bonnevoie, na cidade do Luxemburgo (n°26, rue du Dernier Sol), às 20h,

Leitura pública por amadores de textos de prosa ou poesia, em qualquer língua (uma versão em francês ou inglês dos textos deve ser fornecida pela organização ou pelo autor), música, dança e convívio entre pessoas de várias nacionalidades, é o que o evento propõe. O tema de amanhã é "Os jogos da vida".

O sarau é organizado nas segundas quintas-feiras do mês pela Casa das Associações, a Confederação da Comunidade Portuguesa no Luxemburgo (CCPL), o Instituto Cultural Luxemburguês-Peruano e o African Women Movement. Iniciado em 2010, o sarau já contou com intervenções em francês, português, luxemburguês, alemão, creolo cabo-verdiano, senegalês, espanhol, catalão, inglês e albanês, entre outras.

Para participar no próximo sarau literário, basta enviar o texto que pretende apresentar por e-mail ( soireeslitteraires@gmail.com ). Mais informações pelo tel. 26 68 31 09 ou 29 00 75.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Regresso à vida doméstica


Começa Setembro, de volta à labuta, regresso ao trabalho, ao business as usual , foram-se as férias grandes e o descanso sano da silly season . No Luxemburgo, a tradição medieva da feira estabelecida por João O Cego prolonga por mais alguns dias a ligeireza e a ludicidade estival.

Inspirados por esse aspecto lúdico ou não tanto, e apesar de o Parlamento luxemburguês só regressar ao trabalho na segunda terça-feira de Outubro, alguns apressam a rentrée política.

Como Robert Kieffer, o presidente da Caixa de Pensões luxemburguesa, que ataca o Governo por este ser demasiado generoso, e propõe o aumento das quotizações sociais e mais cortes nos reembolsos médicos. Para isso, aproveita a deixa do jornal económico alemão Handelsblatt, que acusa o Luxemburgo de poder vir a ser "a próxima Grécia", já que o país terá uma dívida "implícita" de 1.100 % do PIB. Sim, leram bem, mil e cem por cento! Kieffer e o jornal alemão apostrofam assim o modelo social luxemburguês e acusam os residentes grão-ducais de "viverem há demasiado tempo na abundância”.

A preocupação legítima (quero acreditar) de Kieffer é salvar a caixa de pensões da bancarrota. Mas em vez de optar por cortar, podia propor outras soluções. Se é verdade que o número de trabalhadores fronteiriços já não chega para assegurar a viabilidade da caixa de pensões, então certas franjas da sociedade não deviam ter erupções cutâneas nacionalistas à chegada de mais mão-de-obra estrangeira, vinda de Portugal ou de outros países.

O Luxemburgo, com uma população cada vez mais envelhecida, precisa dessa mão-de-obra para assegurar o mesmo nível das suas pensões no futuro. O primeiro-ministro luxemburguês Jean-Claude Juncker bem avisou há 10 anos quando disse que o país precisava de 750 mil habitantes em 2050 para assegurar o sistema de pensões. Já não estamos muito longe disso: acrescente-se aos 510 mil habitantes os 150 mil fronteiriços e, se a população continuar a crescer ao ritmo dos últimos anos – uma média de 10 mil pessoas por ano –, estaremos nos 750 mil antes de 2025, o que nos deixa alguma margem para preparar o futuro. E o que é governar senão prever sabiamente?

Só que em 2002 as mentes pequeninas insurgiram-se com a proposta de Juncker. Mas ou é isso ou é cortar nas pensões, e muito brevemente. E quem quer isso? Agora o que é necessário fazer é agir de forma coerente e não negar evidências, acolhendo essa mão-de-obra condignamente, já que precisamos dela.

Era o que devia ser explicado, por exemplo, aos peticionários contra a instalação de um centro de requerentes de asilo em Junglinster. Se os habitantes da comuna – vamos apenas pegar nos que têm mais de 45 anos, e já são muitos –, considerarem que são os primeiros, caso fiquem no Luxemburgo, que vão pagar a reforma dos segundos, talvez alguns moradores até oferecessem o terreno para construir o tal centro. Não?

Quanto ao tal jornal alemão, o primeiro objectivo é obviamente desviar os ódios europeus da Alemanha, que até agora se soube manter ao abrigo da crise e lida com altivez com os PIGS (Portugal, Itália, Grécia e Espanha), os que chafurdaram na crise. Depois, e com uma cajadada só mata mais um coelho (não o português, que esse se mostra obediente com a cenoura raquítica que obteve do "tutor alemão", como lhe chamou António José Seguro!), atacando Juncker na sua política doméstica para o pôr em questão na sua liderança no Eurogrupo. É que os políticos alemães andam há demasiado tempo a tentar deglutir (engolir) que um líder de um pequeno país dite a política monetária da zona euro, à revelia dos ditames do gigante germânico. Mas falta-lhes o que Juncker tem de sobra: uma verdadeira visão e dimensão europeias.

Na esteira do Verão luxemburguês a já longa "telenovela" que envolve o ministro do Trabalho teve um novo desenvolvimento. Depois de ter sido já acusado de ingerência junto de agentes da autoridade, primeiro para defender o filho e depois a mulher, Nicolas Schmit hesitou muito entre ficar no executivo ou pelo lugar de embaixador em Paris. E ninguém sequer lhe propôs o lugar de Yves Mersch à frente do Banco Central do Luxemburgo?! Então, talvez embaixador? Decisões, decisões… Afinal, na segunda-feira foi anunciado que o executivo escolheu Paul Duhr para Paris. O que faz com que Schmit tenha mesmo que continuar a lidar com mais uma polémica: a troca de director na ADEM. Polémica porque a ex-directora Mariette Scholtus entende recorrer da decisão junto do tribunal administrativo. Será que Scholtus vai utilizar como argumento para se agarrar ao lugar que quando entrou em funções no ano 2000 o desemprego estava nos 2,5 % e agora está nos 6 %? E que muitos "placeurs" (não todos!) pouco mudaram na sua eficiência, altivez e imobilismo (ou será mesmo ausência?) perante os desempregados? Enfim, estes episódios da "telenovela Schmit" mancham aquele que podia ser considerado como uma das mentes mais brilhantes do partido socialista, e mesmo do Governo. Ele que podia ser o Juncker do LSAP é actualmente o membro do executivo menos popular junto do eleitorado.

Mas como em todos os reinos deste globo, polvilhe-se q.b. a parte podre do bolo com cerejas e glamour e o povo com o barulho do circo esquece até o pão. E o que há de melhor para dourar o baço brasão da monarquia grã-ducal e o ilustre lustro que o país perdeu nos últimos anos do que um casamento principesco à la Lady Di, que todos aguardam gulosamente a 20 de Outubro? Guillaume é o nosso William, aspira o povo febrilmente.

São estas as aventuras que nos aguardam na rentrée . Esperam-se ansiosamente mais cenas dos próximos capítulos.

José Luís Correia
(In CONTACTO, 05/09/2012)

sábado, 1 de setembro de 2012

Slavoj Žižek: Don't Act. Just Think.



Slavoj Žižek is a Slovenian philosopher and cultural critic. He is a professor at the European Graduate School, International Director of the Birkbeck Institute for the Humanities, Birkbeck College, University of London, and a senior researcher at the Institute of Sociology, University of Ljubljana, Slovenia. His books include Living in the End Times, First as Tragedy, Then as Farce, In Defense of Lost Causes, four volumes of the Essential Žižek, and many more.


Transcript

Slavoj ZizekCapitalism is . . . and this, almost I’m tempted to say is what is great about it, although I’m very critical of it . . . Capitalism is more an ethical/religious category for me.  It’s not true when people attack capitalists as egotists.  “They don't care.”  No!  An ideal capitalist is someone who is ready, again, to stake his life, to risk everything just so that production grows, profit grows, capital circulates.  His personal or her happiness is totally subordinated to this.  This is what I think Walter Benjamin, the great Frankfurt School companion, thinker, had in mind when he said capitalism is a form of religion.  You cannot explain, account for, a figure of a passionate capitalist, obsessed with expanded circulation, with rise of his company, in terms of personal happiness.
I am, of course, fundamentally anti-capitalist.  But let’s not have any illusions here.  No.  What shocks me is that most of the critics of today’s capitalism feel even embarrassed, that's my experience, when you confront them with a simple question, “Okay, we heard your story . . . protest horrible, big banks depriving us of billions, hundreds, thousands of billions of common people's money. . . . Okay, but what do you really want?  What should replace the system?”  And then you get one big confusion. You get either a general moralistic answer, like “People shouldn't serve money.  Money should serve people.”  Well, frankly, Hitler would have agreed with it, especially because he would say, “When people serve money, money’s controlled by Jews,” and so on, no?  So either this or some kind of a vague connection, social democracy, or a simple moralistic critique, and so on and so on.  So, you know, it’s easy to be just formally anti-capitalist, but what does it really mean?  It’s totally open. 

This is why, as I always repeat, with all my sympathy for Occupy Wall Street movement, it’s result was . . . I call it a Bartleby lesson.  Bartleby, of course, Herman Melville’sBartleby, you know, who always answered his favorite “I would prefer not to” . . . The message of Occupy Wall Street is, I would prefer not to play the existing game.  There is something fundamentally wrong with the system and the existing forms of institutionalized democracy are not strong enough to deal with problems.  Beyond this, they don't have an answer and neither do I.  For me, Occupy Wall Street is just a signal.  It’s like clearing the table.  Time to start thinking.
The other thing, you know, it’s a little bit boring to listen to this mantra of “Capitalism is in its last stage.”  When this mantra started, if you read early critics of capitalism, I’m not kidding, a couple of decades before French Revolution, in late eighteenth century.  No, the miracle of capitalism is that it’s rotting in decay, but the more it’s rotting, the more it thrives.  So, let’s confront that serious problem here. 
Also, let’s not remember--and I’m saying this as some kind of a communist--that the twentieth century alternatives to capitalism and market miserably failed. . . . Like, okay, in Soviet Union they did try to get rid of the predominance of money market economy.  The price they paid was a return to violent direct master and servant, direct domination, like you no longer will even formally flee.  You had to obey orders, a new authoritarian society. . . . And this is a serious problem: how to abolish market without regressing again into relations of servitude and domination.
My advice would be--because I don't have simple answers--two things: (a) precisely to start thinking.  Don't get caught into this pseudo-activist pressure.  Do something. Let’s do it, and so on.  So, no, the time is to think.  I even provoked some of the leftist friends when I told them that if the famous Marxist formula was, “Philosophers have only interpreted the world; the time is to change it” . . . thesis 11 . . . , that maybe today we should say, “In the twentieth century, we maybe tried to change the world too quickly.  The time is to interpret it again, to start thinking.” 
Second thing, I’m not saying people are suffering, enduring horrible things, that we should just sit and think, but we should be very careful what we do.  Here, let me give you a surprising example.  I think that, okay, it’s so fashionable today to be disappointed at President Obama, of course, but sometimes I’m a little bit shocked by this disappointment because what did the people expect, that he will introduce socialism in United States or what?  But for example, the ongoing universal health care debate is an important one.  This is a great thing.  Why?  Because, on the one hand, this debate which taxes the very roots of ordinary American ideology, you know, freedom of choice, states wants to take freedom from us and so on.  I think this freedom of choice that Republicans attacking Obama are using, its pure ideology.  But at the same time, universal health care is not some crazy, radically leftist notion.  It’s something that exists all around and functions basically relatively well--Canada, most of Western European countries. 
So the beauty is to select a topic which touches the fundamentals of our ideology, but at the same time, we cannot be accused of promoting an impossible agenda--like abolish all private property or what.  No, it’s something that can be done and is done relatively successfully and so on.  So that would be my idea, to carefully select issues like this where we do stir up public debate but we cannot be accused of being utopians in the bad sense of the term.