sebenta de anotações esparsas, pensamentos ociosos, reflexões cadentes, poemas difusos, introspecções de uma filosofia mais ou menos opaca dos meus dias (ou + reminiscências melómanas, translúcidas, intra e extra-sensoriais, erógenas, esquizofrénicas ou obsessivas dos meus dias)
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cahier de notes éparses, pensées oisives, réflexions filantes, poèmes diffus, introspections d'une philosophie plus ou moins opaque de mes journées (ou + de réminiscences mélomanes, translucides, intra-sensorielles et extra-sensorielles, érogènes, schizophrènes ou obsessionnelles de mes journées)

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Há qualquer coisa de podre no reino do Luxemburgo


A"telenovela" Bommelëeer dos atentados bombistas que assolaram o Luxemburgo entre 1984 e 1986 continua o seu longo desfio de episódios uns mais inacreditáveis do que outros. Ganha agora um enredo digno de um filme de James Bond, mas sem que nada fique ainda resolvido ou claro.

Esta telenovela luxemburguesa dura há mais tempo que a soporífera soap opera "The Bold and The Beautiful", cujo 6.460° episódio já só é seguido por quem ainda se admira que Ridge Forrester se apaixona pela 17a vez por Brooke, que já foi casada com o irmão, teve dois filhos do pai, que antes de casar com Brooke foi namorado da mãe, mas depois há sempre um episódio em que Brooke acaba por voltar para Ridge.

O mesmo se passa com a "telenovela" luxemburguesa, em que até as peripécias mais incríveis já não surpreendem. A última em data envolve a Coroa e o Grão-Duque Henri, que teriam "contactos permanentes" com os serviços secretos britânicos. É o que se fica a perceber de uma conversa entre Marco Mille, antigo responsável dos serviços secretos luxemburgueses (SREL), e o primeiro-ministro, e sobre o alegado envolvimento de um irmão do soberano nos atentados. O que não espantaria, já que o grão-duque Jean fez parte das Irish Guards, com as quais desembarcou na Normandia no Dia D, em 1944, e os princípes da Casa Grã-Ducal têm feito o seu serviço militar passando sempre pela reputada Academia Militar inglesa de Sandhurst.

A conversa entre Mille e Juncker data de 2008, mas o primeiro-ministro só soube um ano depois que esta fora gravada, supostamente pelo ex-espião, graças a um relógio-gravador. Mille negou, mas foi afastado do SREL, que chefiou entre 2003 e 2010. Há semanas, o Parlamento pediu a Juncker para ouvir a gravação, mas este excusou-se dizendo que a tinha extraviado. A coisa teria ficado por aqui, senão houvesse uma "Garganta Funda" que não tivesse tido o cuidado de não a extraviar e de a entregar ao jornal Lëtzebuerger Land, que publicou a transcrição da conversa na íntegra, na sua edição de sexta-feira.

Indignaram-se os deputados e a opinião pública, e fica a pairar sobre o até agora imaculado Juncker a suspeita de querer dissimular provas. Este reagiu dizendo que a gravação era "inaceitável", pois a conversa com Mille não envolvia questões sobre a segurança do Estado. Mas não desmentiu o seu conteúdo. Por seu lado, a Casa Grã-Ducal negou segunda-feira que houvesse qualquer ligação ente a Coroa e os serviços secretos britânicos. Entretanto, a Procuradoria Geral abriu um processo para apurar em que circunstâncias a gravação foi feita. A suspeita recai agora sobre um funcionário da Casa Grã-Ducal que teria o objectivo de prejudicar a Coroa. Ontem, à hora do fecho deste jornal, esperava-se que a Câmara dos Deputados pedisse um inquérito parlamentar a este caso.

Este mal-estar não se sente só no crescente desfazmento entre povo e Coroa, ou em processos judiciais sem fim à vista, como o do Bommelëeer (não prescreve porque é terrorismo), que lançam o descrédito sobre a Polícia (antigos agentes são arguidos no caso) e a Justiça luxemburguesas, deixando a impressão que há intocáveis na sociedade, o que é inédito no Luxemburgo. Mas este sentimento de que há algo podre no reino começa a alastrar a outros sectores.

As empresas mais insuspeitas, exemplares em termos de modelo social luxemburguês, caem agora na tentação do dumping social. Como a Luxair, que denunciou o contrato colectivo. Ou a sua filial Cargolux, que anda de mão (qatari) em mão (chinesa), como quem pergunta "Quem quer casar com a Car(g)o(lux)chinha?". Isto para evitar a falência e despedir 1.500 trabalhadores. Ou ainda a Arcelor, n°1 mundial do aço, que enquanto se chamava Arbed (1911-2002) escreveu a gloriosa história da siderurgia luxemburguesa, pôs o país no mapa e se confundiu até com a própria identidade nacional, mas depois de se "indianizar" em Mittal (2006), só fala em despedimentos, redução de custos e maximização de lucros. E outras que tais que pretendem seguir o mesmo caminho. O Luxemburgo já não é definitivamente o que era.

E aos que ao longo desta crónica se perguntaram "Então, e sobre o fim do mundo, ele não diz nada?", respondo: Só se for sobre o fim do mundo em cuecas, que é onde isto tudo vai parar se assim continuarmos a viver numa sociedade cruelmente deficitária em valores não cotáveis na bolsa: a ética e a moral.


José Luís Correia 
(in jornal CONTACTO, 05/12/2012)

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