sebenta de anotações esparsas, pensamentos ociosos, reflexões cadentes, poemas difusos, introspecções de uma filosofia mais ou menos opaca dos meus dias (ou + reminiscências melómanas, translúcidas, intra e extra-sensoriais, erógenas, esquizofrénicas ou obsessivas dos meus dias)
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cahier de notes éparses, pensées oisives, réflexions filantes, poèmes diffus, introspections d'une philosophie plus ou moins opaque de mes journées (ou + de réminiscences mélomanes, translucides, intra-sensorielles et extra-sensorielles, érogènes, schizophrènes ou obsessionnelles de mes journées)

quinta-feira, 15 de junho de 2017

O QUE É O AMOR, AMOR?



Perguntaste-me “O que é o Amor, amor?”.
Eu sei que sabes, mas queres que eu diga.
E como posso não responder às tuas pupilas intranquilas,
quando ficam suspensas a aguardar a resposta dos meus lábios.

Eu balbucio, gaguejo, procuro as palavras
que se atropelam, vêm em frenético galope
ao som de um tambor tonitruante e nervoso
desde os vales verdejantes
que fizeste florescer no meu coração.

O corcel da frente pára de repente,
arfa, uma, duas vezes,
o seu olhar animal detém-se no teu
e repete para si mesmo: “O que é o Amor, amor?”

Há um silêncio longo
como a pausa interminável de um respirar.

Finalmente, a brisa que sopra levemente
quebra o instante surdo.

O corcel é agora alazão rampante,
nitra como metatrone, pujança gigantesca
que se ergue e que inteiro se sente,
força tranquila, plenitude serena,
ousadia destemida porque é capaz
de tudo.

Os seus músculos de adamastor
contorcem-se, dobram-se e desdobram-se
e abrem-se em asas vigorosas e gloriosas.
O Pégaso descola rumo aos céus,
rumo às estrelas.

O salto no vazio sem temer, o voo instintivo.

Os meus dedos acariciam o teu rosto
como se quisesse aprender os seus contornos
que já conheço, o desenho do teu nariz,
a cambraia dos teus lábios,
pousas a tua face na minha mão
como se tivesses chegado a casa.

E respondo: O Amor? O Amor és tu!,
e selo o que digo com um beijo.

E é beijar-te sem querer parar, e chegar-te a mim,
e fazeres parte dos meus braços.
E é o todas as canções de amor me falarem de ti,
e é o acordar com vontade dos teus olhos e da tua voz
e dos teus dedos nos meus, e da tua boca no meu peito...
é um querer-te bem sem saber de onde vem,
é simplesmente ser, deixar o sentimento acontecer,
deixar o coração ser mais do que mero músculo,
deixá-lo ir por aí, deixá-lo correr,
deixá-lo discutir com a razão e vencer.

E se nem a geografia nos quer,
se o planeta não encolhe,
se não posso espalmar os Alpes
num só revés de mão
e secar os rios e rasgar os lagos,
e aproximar os mares,
então o universo não faz sentido...

Mas os teus braços...

Os teus braços, os teus beijos
e os teus olhos e o teu corpo
são a minha rosa dos ventos,
a minha rota da seda,
o meu mapa de novos mundos
para além de mim.

O Amor é isso tudo
e tudo o que mais que não cabe aqui
e tudo o mais que não cabe em mim.
O Amor somos nós.
E isso a mim chega-me.
E se o que sinto por ti
e tu sentes por mim não é Amor,
então deveria ser,
porque não aceito outra explicação,
nem há outra definição.

AGW, 06062017

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