sebenta de anotações esparsas, pensamentos ociosos, reflexões cadentes, poemas difusos, introspecções de uma filosofia mais ou menos opaca dos meus dias (ou + reminiscências melómanas, translúcidas, intra e extra-sensoriais, erógenas, esquizofrénicas ou obsessivas dos meus dias)
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cahier de notes éparses, pensées oisives, réflexions filantes, poèmes diffus, introspections d'une philosophie plus ou moins opaque de mes journées (ou + de réminiscences mélomanes, translucides, intra-sensorielles et extra-sensorielles, érogènes, schizophrènes ou obsessionnelles de mes journées)

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

esquisso - Viagem à volta de Lucilin

(primeiro esquisso, Natal 2006-Natal 2007)

Viagem à volta de Lucilin



Manhã de inverno, frio abaixo do zero
Pequeno-almoço em pijama
Nao consigo decidir-me frente aos cereais
Biolay, Frégé, Garrell ou Delerm.
Chupo pães de leite ensopados
Em capuccino caseiro
Numa grande xicara azul e branca de faiança
Comprada numa Primavera florida nas gargantas do Verdon
Mordisco pêssegos carecas
Os meus dedos vagabundeiam semi-distraidos
pelos jornais do fim de semana
absortos da noção de que não conseguirei ler nem metade
ou ia-se também já o próprio prazer,
que é tudo o que me resta numa manhã fria.



Les Livres do Le Monde, a página Culture do Soir,
o Libération tem uma nova paginação,
o Magazine Littéraire e a Lire panegiricam sobre Littell
e o jornal de Letras sobre os contos exemplares da Sophia.
Não devia ter comprado tudo tão bolimicamente,
sou como um miúdo, tonto no meio de tanta guloseima,
que ao encher os bolsos ávidos já sabe que encherá
a boca só para empanturrar-se de forma doentia,
nao sem antes exibir aos coleguinhas
os rebuçados mais coloridos, a barra de chocolate-novidade.
Do estômago sobe-me uma insustentável azia pelas goelas acima,
um vómito augado perante a abundância das doçarias, de tanto açúcar
das prateleiras cheias de arte e literatura em frasco
que se propagam azimut e exponencialmente
e me atrofiam e paralisam frente à página branca e ao ecrã negro,
uma azia que não sofre de memória olfactiva e papilar
e apreende a comparação.

Sobrevoo as notícias, gaza, al-qaeda, chéchénia, litvinenko, politkovskaja, a campanha eleitoral francesa, inflação, a deslocalização, a mundialização, os rtts, os ogms, as ongs, os clones, os políticos, a corrupção, os evaporitos do mar morto, as cordas que ameaçam a física, as catástrofes naturais, o aquecimento global, os acidentes áreos, a pala parcial da justiça, da crítica.

Semanalmente, invariavelmente, o último grande fenómeno,
os novos talentos incontornáveis, os futuros grandes vultos do século que cresce,
mas são sombras chinesas, os mesmos autores,
mudam as caras, às vezes os nomes,
mas lá vêm as palavras-chave, chaves-mestras da compreensão enlatada,
as frases-choque atiradas ao público como migalhas de filosofia de algibeira,
propaganda concentrada, as aulas de marketing propaladas
em todo o seu esplendor, o briefing aprendido na ponta da língua.

Passo a página. A sopa crick de kafka, o último best-seller do Ormesson,
As melomanias da Dombasle, os vértigos do marido,
um jogo intermitente entre os retratos
de Durer, Rubens e Deschamps na página da pintura.
Um cinema cruel e áspero, Cronenberg, o dogma já morreu,
anseio debalde por assistir à Coppélia
na Bastilha e ao impúdico Cândido do Bernstein no Châtelet.

Almoço no Petit Bouchon, rue des Bains,
salmão grelhado et pommes au four
um fotógrafo diz-me que vai passar o Natal à Finlândia
e o ano bom a S.Petersburgo, eu estou a ler a batalha de estalinegrade
e sorrio recordando a anita pettersen e as suas questões norueguesas.

Na grand-rue, miro de soslaio os novos tenho-que-ter
A Hermes, a Cartier, a Schroeders, a Dutti.
A Lacoste deu lugar a uma loja de roupa interior feminina.
hesito à soleira da papelaria Beaumont, refugio-me na
Alinea. O apart mudou-se em arco-íris. Q?

Na cinemateca decorre a retrospectiva de cinema espanhol.
O Centauro fita o veado azul fora de prazo, cheira a gaufres belgas,
a salsichas alemãs grelhadas de patronímico furtado.
A Bolsa continua serena, tranquila e quase despercebida, igual ao país.
Uma senhora em casaco raposa sai da Villeroy
e tenta vestir as luvas de cabedal
num malabarismo bambo entre o saquito bram e mala vuitton.

Comprei um oito no fisher
e os odores álacres a farinha padeira transportam-me
até ao adro de uma igreja que eu atravessava todas as manhãs.
Uma vez por semana, o catavento enferrujado (ou seria do pó vermelho?)
surpreendia-me a correr com sete francos
a tilintarem-me nervosas no bolso (não no roto!)
das calças castanhas de bombazine em boca de sino
para ir comprar uma tablete fina de chocolate e uma carcaça.
Depois, metodicamente, introduzia a primeira na segunda
para comer mais tarde na escola ao recreio, quando tinha oito anos.
Não gostava das sandes de presunto e manteiga
Que a minha mãe religiosamente me enviava na pasta quadrada.
Rico do meu lanche civilizado, contornava sorridente o quarteirão,
Como se já pudesse passear pelo mundo
sem vergonha das minhas origens e do presunto alentejano,
Parava na loja dos brinquedos e tudo me era permitido.
Fazia mentalmente a minha lista pra enviar ao pai natal seis meses depois,
e não esquecida nada. Cromos do diamantino e do bento para o meu álbum paninni,
puzzles da fauna africana, carrinhos matchbox, pistas de corrida,
comboios eléctricos, fortalezas playmobils, baldes de lego
para construir toda a minha frota de naves espaciais
e o indispensável fato Actarus para poder viajar até outras constelações
e o do Zorro para usar à civil...

E, como sabia que as cartas dos adultos
tinham sempre um PS, eu lembrava-me in extremis
de alguma coisa pra acrescentar nesse indispensável apêndice:
“Pai Natal, não me tragas os brinquedos
dentro de uma caixa com esferovite
que eu sou elérgico!”

Desço do camões à praça de armas,
pela mesma rua em que desaguei
um dia com um anjo loiro do daugava
e vem-me o perfume adocicado
de bolos de gengibre e chá preto que comemos no oberweiss
mistura-se à canela do vinho quente do mercado de natal
e dos churros da feira do glacis,
procuro lugar cativo no colors, quadrados a imitar ébano,
losangos policromáticos, empregados gay friendly,
o café custa mais barato que no coffee-lounge da rue de la poste
mas lá o alemão faz desenhos cubistas no cappuccino,
dá-me a provar chocolates de hortelã-pimenta e anis,
cakes, pepitas de amêndoa, a escolha entre açúcar branco ou amarelo.

No Casino há bolas espelhadas de discoteca na marquise.
No dierfgen os monólogos da vagina passam em reposição,
na cozinha do diabo fazem-se sopas divinas.
À noite, o urban e o whispers estão lotados,
discutem-se as trades e os trends
uma despedida de solteiro acabou em pancada cá fora
o tube entupido com inglesas lambendo sal nas costas das mãos e e emborcando tequila,
o artscène tem a cerveja mais barata e os adolescentes sabem-no bem
karamba, animação. os tempos em que eu dançava no adro do stiler já foram. yesterdays.

O museu de história e de arte medita, deitado, no sossego nocturno.
Passo pelo kastel aos saltos, dou com a tola na muralha do restaurante goethe
no encontro inopinado com os pedregulhos
que servem de soalho ao tiermchen.
contorno o palácio, o parlamento, o mercado das ervas-doces,
os rostos sobranceiros do café da imprensa
e ociosos nipónicos esporádicos assistem ao render da guarda,
aos turnos dos mancebos, quando a sentinela assoma da guarita
e enfrenta a corrente de ar gelada
que se enfia naquele vão de rua.

Passo pelo bocaccio, apetece-me um carpaccio i pomodoros
deslizo até ao museu da cidade onde ouvi o violoncelo do mergenthaler
e onde nunca compro o renert nem abdico de subir e descer a sala-elevador,
como um garoto num carrocel, ao descobrir um novo brinquedo...
Um restaurante vegetariano, um chinês, um brasileiro,
o espírito-santo sem espírito são numa praça, o ascensor para o vale,
No grund há artistas nas ruas, bebo uma cerveja preta no inglês,
atravesso fortificações, caio nas catacumbas,
tiro fotografias-postais a três amigas alemãs com a ponte vermelha
e as torres gémeas em pano de fundo.
Desço clausen até à cantina da cervejaria, cheira a cachaço de porco assado com
favas, o bar escocês, a taberna britânica, o bar do bob, o melusina,
venço a lomba, regresso à abadia,
na loja de neumunster compro um bloco-notas
com a abelha em torno de uma groselha do dali,
surpreendo um casamento na capela francesa,
extasio-me perante a via láctea e a deriva das galáxias
no primeiro andar do antigo presidio das mulheres

Passeio na petrusse, compro um gelado no mini-golf,
a fonte não espicha água, os joggers correm,
os namorados beijericam-se nos bancos
e eu pensando no meu amor, pensando no meu amor...

3 comentários:

Anónimo disse...

Bravo Zé! Até consegues dar-me saudades das tardes de inverno luxemburguesas, c'est un comble! Beta

Paulo lobo disse...

genial!
lê-se este texto a correr mentalmente pelas ruas que pensamos conhecer
das quais extrais os sabores, mistérios e melancolias
gosto muito desta torrente de palavras e sensaçoes quase hipnoticas!

Alexandre Gaspar Weytjens disse...

Obrigado pelas vossas palavras, obrigado por se deixarem guiar pela minha "voz", fico sensibilizado sobretudo por tocar pessoas que onsideram à priori que o Luxemburgo não possui uma certa magia, mas há lugares, até aqui, fora do tempo... é desse país que eu gosto! ;-)