sebenta de anotações esparsas, pensamentos ociosos, reflexões cadentes, poemas difusos, introspecções de uma filosofia mais ou menos opaca dos meus dias (ou + reminiscências melómanas, translúcidas, intra e extra-sensoriais, erógenas, esquizofrénicas ou obsessivas dos meus dias)
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cahier de notes éparses, pensées oisives, réflexions filantes, poèmes diffus, introspections d'une philosophie plus ou moins opaque de mes journées (ou + de réminiscences mélomanes, translucides, intra-sensorielles et extra-sensorielles, érogènes, schizophrènes ou obsessionnelles de mes journées)

quarta-feira, 23 de abril de 2008

primavera dos poetas recebeu prémio saramago 2007
valter hugo mãe, "tsunami" da língua
e da literatura portuguesas


valter hugo mãe, vencedor do prémio saramago 2007 esteve este fim-de-semana no luxemburgo para participar na primavera dos poetas. o contacto conversou com aquele que o nobel da literatura 1998 qualifica de "tsunami" da língua e da literatura portuguesas.

chama-se valter hugo lemos mas escolheu o pseudónimo literário valter hugo mãe, assim mesmo, grafado em minúsculas, que é o que não só distingue como define a sua escrita (ver caixilho), seja na poesia, pela qual começou nestas lides ainda adolescente, ou na prosa, à qual quer dedicar cada vez mais espaço e tempo.
com apenas 36 anos tem já mais de uma dezena de livros de poesia e dois romances publicados, "o nosso reino" (temas e debates, 2004) e "o remorso de baltazar serapião" (quid novi, 2006), tendo-lhe valido este último o prestigiado prémio literário josé saramago 2007.
"este livro é um tsunami, não no sentido destrutivo, mas da força. (...) quando foi publicado? e os sismógrafos não deram por nada? oh, que terra insensível: este livro é uma revolução. tem de ser lido, porque traz muito de novo e fertilizará a literatura. por vezes tive a sensação de estar a assistir a um novo parto da língua portuguesa", foram as palavras do próprio josé saramago (prémio nobel da literatura 1998) ao ler o livro.
"sem ser um romance histórico, a acção de baltazar serapião decorre na idade média e fala sobre machismo, sexo e violência, numa língua que se quer rude sem ter sido estudada para ser fiel à que se falava na época. mas a própria forma como a acção é contada faz com que o vocabulário e a construção frásica acabem por ser personagens do livro, ao mesmo título que os protagonistas", explica o autor.
apesar de já ter recebido o prémio garrett em 1999, talvez tenha sido o prémio saramago que o tornou mais conhecido junto do grande público. o poeta era, no entanto, já um nome confirmado no mundo literário e editorial português, tendo sido fundador das editoras quasi (com jorge reis-sá) e objecto cardíaco, projectos que entretanto abandonou.
foi aproveitando essa notoriedade recente que o instituto camões do luxemburgo resolveu convidar o jovem para representar portugal na primavera dos poetas que o grão-ducado acolheu durante o fim de semana.
depois dos rasgados elogios do prémio nobel e da crítica, entre os quais vasco graça moura, que o compara a guimarães rosa, o jovem confiou ao nosso jornal ter ficado "emudecido" com esse reconhecimento. vencer o prémio saramago foi algo de "avassalador", confessa, até porque escolheu viver em vila do conde, longe dos grandes centros urbanos e diz não estar habituado a que se "lembrem" dele. mas, garante, não tem medo das responsabilidades, embora se questione "como fazer para impressionar essa gente toda outra vez". talvez com um novo romance?

o novo romance sobre a imigração e a estreia como cantor


previsto para outubro e tendo como palco bragança, o novo livro de valter hugo mãe "conta a história de um imigrante ucraniano em terras lusas e como este é alvo de discriminação pelos portugueses", revelou o autor ao contacto. ainda sem título, a obra pretende-se uma crítica ao facto de um país de emigração como portugal ter dificuldades em lidar com os seus imigrantes.
grande fã de adolfo luxúria canibal, vocalista dos mão morta, valter hugo mãe está actualmente a gravar um álbum de "jazz-fado-blues", como o próprio conta, com dois elementos daquela banda, na sua primeira incursão como cantor. a saída do álbum está prevista também para outubro com a chancela da editora cobra. Como letrista, valter hugo mãe havia já trabalhado com paulo praça (artista vila-condense), e recentemente chegaram-lhe convites de rui reininho (líder dos gnr), pedro abrunhosa, mundo cão e frei fado d'el rei, o que o está a entusiasmar muito.
na primavera dos poetas, valter hugo mãe também mostrou esses seus dotes musicais. após dizer poemas seus, alguns dos quais do seu último livro de peosia, "pornografia erudita" (cosmorama, 2007), improvisou um excerto de uma canção dos madredeus, mostrando ser dono de um voz forte e lírica, o que lhe valeu a admiração e o espanto do público presente, que não esperava, de todo, a "actuação" expontâna.
entretanto, parece que tudo está a acontecer na vida do autor e as cosmorama edições preparam-se para editar em breve uma recolha com toda a sua poesia (incluindo "bruno", que teve apenas edição em espanha).
os curiosos ou os fãs podem consultar o seu blogue em http://casadeosso.blogspot.com/ ou descobrir mais sobre o autor no seu site oficial, em www.valterhugomae.com/, na internet.

abaixo as maiúsculas

durante a entrevista com o poeta e escritor português valter hugo mãe, que esteve no luxemburgo, para participar na primavera dos poetas, durante o passado fim de semana (ver artigo principal) interpelámos o autor sobre as minúsculas omnipresentes na sua escrita.
negando cultivar "a diferença pela diferença", de ir em movimentos de moda ou de o fazer apenas para provocar, o autor confia "detestar" maiúsculas.
"escrevo em minúsculas porque acredito que o meu texto adquire uma tonalidade diferente. coloco numa mesma dignidade e paridade todas as palavras. abdico da convenção prévia de acentuar algumas delas através da maiúscula, elimino essa discriminação. em qualquer obra literária a importância relativa das palavras é afinal decidida pelo leitor. além disso, as minúsculas aceleram a leitura, e na minha narrativa que já é acelerada, é interessante deixar o leitor sem travões", explicou.

josé luís correia
(in jornal "contacto", 23.04.08)


com o poeta e escritor valter hugo mãe (à esquerda), durante a primavera dos poetas que decorreu entre 18 e 21 de abril no luxemburgo

2 comentários:

Paulo lobo disse...

tenho pena imensa, sobretudo depois deler este teu relato, de nao ter podido vir ao 'printemps', mas fico com uma curiosidade imensa de ler algo do valer hugo mae,
obrigado por todas estas informaçoes!

Paulo lobo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.