"Memóras Póstumas de Brás Cubas", de Machado de Assis (1881)
O livro começa com o narrador, Brás Cubas, a falar do seu funeral. Dali faz o leitor viajar para trás no tempo até à sua morte, ao delírio dos seus últimos momentos, o instante em que adoeceu e por aí fora...
Quando o leitor acha que percebeu como a história se vai construir, o narrador faz uma finta ao leitor e começa a contar a história da sua vida desde o princípio.
Nascido em 1805, a vida de Brás atravessa as primeiras seis décadas do séx. XIX, desde a infância de menino rico, passando pela adolescência quando se dá a independência do Brasil. É nessa idade que se apaixona pela primeira vez por Marcela, uma "rapariga" que não tratava a moral por tu. O "Amor" durou "quinze meses e onze contos de réis", a expensas da família. Para o fazer esquecer Marcela, o pai manda-o para Lisboa. Em seis dias e ainda antes de desembarcar na capital portuguesa, os desgostos de amor estavam ultrapassados. Em Coimbra aprende a arte da boémia, da serenata e do "romantismo prático". Licencia-se em Direito mesmo não entendendo nada do assunto, por isso acha-se um génio.
Regressa ao Rio de Janeiro e namora com uma linda moça, mas que era "coxa", deficiência que o seu coração não consegue esquecer e por isso não se apaixona... O pai tem outros planos, quer casá-lo com Virgília, filha de um político, matrimónio que vai catapultá-lo para o Parlamento e assegurar-lhe o futuro.
Primeiro reticente, Brás começa a interessar-se por Virgília, mas esta prefere casar-se com Lobo Neves, que fará dela baronesa ou mesmo marquesa. Mais tarde e já casada, Virgília acabará por ceder aos avanços de Brás, tornar-se-á sua amante durante largos anos será o verdadeiro e grande amor da sua vida, confia no seu leito de morte.
Um dos encontros mais cómicos e irónicos é quando se cruza com Quincas Borba, um filósofo meio doido, que até inventa uma nova corrente filosófica.
Pela sua vida ainda passa a bonita Nhã-Loló, de 19 anos, mas que morre de febre amarela e Brás torna-se então um irredutível solteirão.
No fim da vida, tendo falhado no amor, na politica, em sociedade e em quase tudo, tenta uma última tentativa de imortalidade ao envidar todos os esforços para criar o "emplastro Brás Cubas", meio compressa meio cataplasmo que visa curar todas as doenças. E é em plena "criação" deste remédio que a pneumonia o "apanha" e a morte lhe bate à porta aos 64 anos.
E assim passa uma vida... com tantas oportunidades desperdiçadas, mas uma vida mesmo assim bem vivida, "à sua maneira".
Contada na primeira pessoa, a delícia da história é o seu tom cáustico, irónico do narrador ao falar das suas próprias aventuras e desventuras. Do autor fica-nos o maravilhamento pela inovação no estilo, estilo acima de tudo livre, muitas vezes mesmo audaz, e muito moderna quebra na narração linear. Machado de Assis confessa ter-se deixado influenciar por autores como Shakespeare ou Xavier de Maistre.
Contando a história da vida de Brás Cubas, Machado de Assis aproveita para descrever a sociedade brasileira, as diferentes classes sociais, a escravatura, o século XIX brasileiro, pelo que esta tragi-comédia é considerada por muitos críticos como sendo a primeira obra "realista" da literatura do pais. No entanto, certos excertos, discursos do narrador e diálogos fazem pensar no Modernismo, que chegaria apenas após o virar do século, pelo que esta pode ser considerada uma obra visionária.
O paralelo com "Os Maias" de Eça de Queirós, obra sua contemporânea (escrita oito anos depois) é óbvia para o leitor português, mesmo se a obra brasileira é mais rica em humor. Mas também há por lá um Vilaça e até um "Dâmaso". Mas a delícia na leitura foi a mesma, mesmo se li as duas obras a 22 anos de distância uma da outra.
segunda-feira, 30 de abril de 2012
domingo, 22 de abril de 2012
WARP DRIVE EXPLAINED BY MEXICAN PHYSICIAN MIGUEL ALCUBIERRE AS MATHEMATHICALLY POSSIBLE
Alcubierre drive
History
In 1994 Alcubierre proposed a way of changing the geometry of space by creating a wave which would cause the fabric of space ahead of a spacecraft to contract and the space behind it to expand The ship would then ride this wave inside a region of flat space known as a warp bubble, and would not move within this bubble, but instead be carried along as the region itself moves as a consequence of the actions of the drive. If this is so, conventional relativistic effects such as time dilation would not apply in the way they would in the case of a ship moving at a very great velocity through flat spacetime, relative to other objects. This method of propulsion would not involve objects in motion at speeds faster than light with respect to the contents of the warp-bubble; that is, a light beam within the warp-bubble would still always move faster than the ship. Thus the mathematical formulation of the Alcubierre metric does not contradict the conventional claim that the laws of relativity do not allow a slower-than-light object to accelerate to faster-than-light speeds. The Alcubierre drive, however, remains a hypothetical concept with seemingly insuperable problems: The amount of energy required is unobtainably large, there is no method to create a warp bubble in a region that does not already contain one, and there is no method to move from the warp-bubble once having arrived at a supposed destination.Alcubierre metric
The Alcubierre metric defines the warp drive spacetime. This is a Lorentzian manifold which, if interpreted in the context of general relativity, allows a warp bubble to appear in previously flat spacetime and move off at effectively superluminal speed. Inhabitants of the bubble feel no inertial effects. The object(s) within the bubble are not moving (locally) faster than light, instead, the space around them shifts so that the object(s) arrives at its destination faster than light would in normal space.Alcubierre chose a specific form for the function f, but other choices give a simpler spacetime exhibiting the desired "warp drive" effects more clearly and simply.
Mathematics of the Alcubierre drive
Using the ADM formalism of general relativity, the spacetime is described by a foliation of space-like hypersurfaces of constant coordinate time t. The general form of the metric described within the context of this formalism is:is the lapse function that gives the interval of proper time between nearby hypersurfaces,
is the shift vector that relates the spatial coordinate systems on different hypersurfaces
is a positive definite metric on each of the hypersurfaces.
The particular form that Alcubierre studied is defined by:
where
and
with
With this particular form of the metric, it can be shown that the energy density measured by observers whose 4-velocity is normal to the hypersurfaces is given by
where
Thus, as the energy density is negative, one needs exotic matter to travel faster than the speed of light. The existence of exotic matter is not theoretically ruled out; however, generating enough exotic matter and sustaining it to perform feats such as faster-than-light travel (and also to keep open the 'throat' of a wormhole) is thought to be impractical. Low has argued that within the context of general relativity, it is impossible to construct a warp drive in the absence of exotic matter.It is generally believed that a consistent theory of quantum gravity will resolve such issues once and for all.
Physics of the Alcubierre drive
For those familiar with the effects of special relativity, such as Lorentz contraction and time dilation, the Alcubierre metric has some apparently peculiar aspects. In particular, Alcubierre has shown that even when the ship is accelerating, it travels on a free-fall geodesic. In other words, a ship using the warp to accelerate and decelerate is always in free fall, and the crew would experience no accelerational g-forces. Enormous tidal forces would be present near the edges of the flat-space volume because of the large space curvature there, but by suitable specification of the metric, these would be made very small within the volume occupied by the ship.The original warp drive metric, and simple variants of it, happen to have the ADM form which is often used in discussing the initial-value formulation of general relativity. This may explain the widespread misconception that this spacetime is a solution of the field equation of general relativity. Metrics in ADM form are adapted to a certain family of inertial observers, but these observers are not really physically distinguished from other such families. Alcubierre interpreted his "warp bubble" in terms of a contraction of "space" ahead of the bubble and an expansion behind. But this interpretation might be misleading, since the contraction and expansion actually refers to the relative motion of nearby members of the family of ADM observers.
In general relativity, one often first specifies a plausible distribution of matter and energy, and then finds the geometry of the spacetime associated with it; but it is also possible to run the Einstein field equations in the other direction, first specifying a metric and then finding the energy-momentum tensor associated with it, and this is what Alcubierre did in building his metric. This practice means that the solution can violate various energy conditions and require exotic matter. The need for exotic matter leads to questions about whether it is actually possible to find a way to distribute the matter in an initial spacetime which lacks a "warp bubble" in such a way that the bubble will be created at a later time. Yet another problem is that, according to Serguei Krasnikov, it would be impossible to generate the bubble without being able to force the exotic matter to move at locally FTL speeds, which would require the existence of tachyons. Some methods have been suggested which would avoid the problem of tachyonic motion, but would probably generate a naked singularity at the front of the bubble.
Difficulties
Significant problems with the metric of this form stem from the fact that all known warp drive spacetimes violate various energy conditions. It is true that certain experimentally verified quantum phenomena, such as the Casimir effect, when described in the context of the quantum field theories, lead to stress-energy tensors which also violate the energy conditions, such as negative mass-energy, and thus one can hope that Alcubierre-type warp drives can be physically realized by clever engineering taking advantage of such quantum effects. However, if certain quantum inequalities conjectured by Ford and Roman hold, then the energy requirements for some warp drives may be absurdly gigantic, e.g. the energy equivalent of -1067 grams might be required to transport a small spaceship across the Milky Way galaxy. This is orders of magnitude greater than the estimated mass of the universe. Counter-arguments to these apparent problems have also been offered.Chris Van Den Broeck, in 1999, has tried to address the potential issues. By contracting the 3+1 dimensional surface area of the 'bubble' being transported by the drive, while at the same time expanding the 3 dimensional volume contained inside, Van Den Broeck was able to reduce the total energy needed to transport small atoms to less than 3 solar masses. Later, by slightly modifying the Van Den Broeck metric, Krasnikov reduced the necessary total amount of negative energy to a few milligrams.
Krasnikov proposed that, if tachyonic matter cannot be found or used, then a solution might be to arrange for masses along the path of the vessel to be set in motion in such a way that the required field was produced. But in this case, the Alcubierre Drive vessel is not able to go dashing around the galaxy at will. It is only able to travel routes which, like a railroad, have first been equipped with the necessary infrastructure. The pilot inside the bubble is causally disconnected with its walls and cannot carry out any action outside the bubble. Thus, because the pilot cannot place infrastructure ahead of the bubble while "in transit", the bubble cannot be used for the first trip to a distant star. In other words, to travel to Vega (which is 25 light-years from the Earth) one first has to arrange everything so that the bubble moving toward Vega with a superluminal velocity would appear and these arrangements will always take more than 25 years.
Coule has argued that schemes such as the one proposed by Alcubierre are infeasible as matter placed en route of the intended path of a craft has to be placed at superluminal speed. Thus, according to Coule, an Alcubierre Drive is required in order to build an Alcubierre Drive. Since none have been proven to exist already then the drive is impossible to construct, even if the metric is physically meaningful. Coule argues that an analogous objection will apply to any proposed method of constructing an Alcubierre Drive.
A paper by José Natário published in 2002 argued that it would be impossible for the ship to send signals to the front of the bubble, meaning that crew members could not control, steer or stop the ship.
A more recent paper by Carlos Barceló, Stefano Finazzi, and Stefano Liberati makes use of quantum theory to argue that the Alcubierre Drive at FTL velocities is impossible; mostly due to extremely high temperatures caused by Hawking radiation destroying anything inside the bubble at superluminal velocities and leading to instability of the bubble itself. These problems do not arise if the bubble velocity is kept subluminal, but it is still necessary to provide exotic matter for the drive to work.
More difficulties emerge in regards to the amount of exotic matter required for such a propulsion. According to Pfenning and Allen Everett of Tufts, a warp bubble traveling at 10 times light-speed must have a wall thickness of no more than 10−32 meters. This is only slightly longer than the Planck length, 10−35. A bubble macroscopically large enough to enclose a ship 200 meters across would require a total amount of exotic matter equal to 10 billion times the mass of the observable universe. Straining the exotic matter to an extremely thin band of 10−32 meters is considered impractical. Similar constraints apply to Krasnikov's superluminal subway. A modification of Alcubierre's model was recently constructed by Chris van den Broeck of the Catholic University of Louvain in Belgium. It requires much less exotic matter but places the ship in a curved space-time "bottle" whose neck is about 10−32 meters. So-called cosmic strings, hypothesized in some cosmological theories, involve very large energy densities in long, narrow lines. But[clarification needed] all known physically reasonable cosmic-string models have positive (positive space-time warping effects) energy densities. These results seem to make it rather unlikely that one could construct Alcubierre warp drives using exotic matter generated by quantum effects.
The Alcubierre drive and science fiction
Faster-than-light travel is often used in science fiction to denote a wide variety of imaginary propulsion methods, most of which have nothing to do with the Alcubierre drive or any other physical theory. Some science-fiction works, particularly of the 'hard' genre, have explicitly made use of the Alcubierre theory, such as Stephen Baxter's novel Ark.The Alcubierre drive theory is proposed as a possible reason for events occurring in the graphic novel "Orbiter" by Warren Ellis and Colleen Doran.
The Ian Douglas "Star Carrier" series exclusively uses the Alcubierre drive as the main mode of interstellar travel.
Also, in M. John Harrison's novel Light, the character Ed Chianese, while trying to get a job with the Circus of Pathet Lao, claims that he "rode navigator on Alcubierre ships."
From Wikipedia, the free encyclopedia
Rótulo :
conquista do espaço
quinta-feira, 12 de abril de 2012
Turbilhão de areia e pó em Marte atinge 20 km de altura
A sonda Mars Reconnaissance Orbiter (MRO) da NASA fotografou a 14 de Março um turbilhão de pó e areia na superfície de Marte (na zona de Amazonis Planitia, Hemisfério Norte) que atingiu os 20 km de altura. Com os clichés, a NASA fez uma montagem animada do turbilhão (ver animação). Na Terra, um tornado não ultrapassa os 16 km em altura e um turbilhão de pó e areia nunca mais de uma centena de metros.
sexta-feira, 6 de abril de 2012
Presentely reading
"The Ends of The Earth - An Anthology of the Finest Writing on The Arctic and The Antarctic", by Elizabeth Kolbert and Francis Spufford (Bloomsbury, 2007).
Rótulo :
livros e leituras
quinta-feira, 5 de abril de 2012
Revista cultural francesa "Muze" dedica dossier especial à arte portuguesa
A "Primavera Portuguesa" ou a arte como solução para a crise
A última edição da revista cultural francesa "Muze" dedica 60 páginas à arte portuguesa, não hesitando em chamar à nova vaga de artistas lusos, insubmissos e irreverentes, "A Primavera Portuguesa".
"Face às restrições impostas pelas dificuldades financeiras, Portugal é obrigado a reinventar-se. O reverso da crise pode assim vir a ser o fim de um ancestral recolhimento sobre si mesmo. A cultura toma as dianteiras da mudança e a eterna nostalgia torna-se desejo de futuro".
É com esta introdução do artigo "Novo alento na cultura" da jornalista e escritora Filipa Melo que começa o dossier especial da revista cultural francesa "Muze" (edição de Abril-Maio-Junho).
A publicação que se auto-intitula "a revista trimestral da cultura no feminino", escolhe assim uma perspectiva assumidamente feminina e dá-nos a ver o Portugal de hoje e a arte contemporânea lusa através dos olhos de várias portuguesas: Amália Rodrigues, Agustina Bessa-Luís, Sophia de Mello Breyner Andresen, Paula Rego, Lídia Jorge, Maria de Medeiros, Cristina Branco, Joana Vasconcelos, Filipa Melo, entre outras.
SAUDADE INSUBMISSA
Filipa Melo começa por explicar a origem da saudade, essa palavra tão portuguesa que significa bem mais do que simplesmente nostalgia, pela qual é muitas vezes (mal) traduzida. E do fado (fatum = destino), a canção que é suposto cantar a saudade, mas ao invés a chora.
Socorrendo-se das definições de Teixeira de Pascoaes e de Eduardo Lourenço, a escritora recorda que a saudade "terá nascido" em 1578, no momento em que D. Sebastião desaparece na batalha de Alcácer-Quibir, deixando o país órfão de um futuro glorioso. Dos "Lusíadas" (1572) de Camões, à "Mensagem" (1934) de Fernando Pessoa, a saudade atravessa os séculos portugueses até ao princípio do século XXI, como se Portugal vivesse "numa ficção de império territorial ou espiritual, prisioneiro do passado", e como se apenas sobre as lágrimas do império perdido se pudesse construir um porvir.
Mas, mais importante para Filipa Melo, há hoje artistas portugueses que querem sair desse "labirinto da saudade" (E. Lourenço) e se lançam em epopeias mais pessoais e viradas para o futuro. Os exemplos que dá são Gonçalo M. Tavares e o seu poema-romance épico/anti-épico "Uma Viagem à Índia" (2011), e as obras irreverentes e iconoclastas da artista plástica Joana Vasconcelos (foto supra e foto infra).
Enquanto Gonçalo põe o seu romance "a dialogar em surdina com os Lusíadas", mas narra a busca individual(ista) de uma hiperpersonagem literária e não o destino ultramarino de uma nação, as obras de Joana reciclam objectos tradicionais para lhes dar outra dimensão, numa espécie de "auto-ridicularização" nacional. Nas mãos de Joana Vasconcelos, "a identidade nacional é um jogo lúdico e crítico entre tradição e modernidade". Uma das fundadoras da Muze, Stéphanie Janico, entrevista Joana Vasconcelos, que lhe fala, por exemplo, da génese da sua obra "Carmen Miranda", um sapato de tacão gigante (4 metros!) feito de... panelas em aço inoxidável. Uma obra conceptual que representa "a condição da mulher contemporânea, presa entre a tradição do lar e a tentação da sedução" (foto supra).
A diferença nestes novos artistas portugueses é que são influenciados por uma estética internacional, que fica cada vez menos a dever algo à saudade. "A europeização do pensamento português desenvolve-se em paralelo com a europeização dos costumes", lembra Filipa Melo, citando os filósofos José Gil e Maria Filomena Molder. E Miguel Real, outro dos novos escritores, que considera que "hoje já não estamos em diálogo com a Europa: agora também somos a Europa". Ou Valter Hugo Mãe, "escritor que fala da realidade social contemporânea", e João Tordo, "o mais anglo-saxónico dos jovens autores portugueses".
Mas não é só na literatura que há novos talentos que quebram com o passado. Para Filipa Melo, "A Marcha dos Implacáveis", do músico portuense JP Simões, ou "Parva que eu sou", dos Deolinda, podiam perfeitamente ser o novo hino nacional, em que a nova geração se mostra insubmissa e revoltada face ao destino que lhe é imposto pelos governantes e a crise.
"A actual música portuguesa fervilha de novidades, desde Tiago Guillul a B Fachada e aos Buraka Som Sistema", aponta Filipa Melo. "Na última década, até o fado foi reinventado, com textos mais contemporâneos (...) e saiu da sombra imponente de Amália".
Lula Pena, Camané e Cristina Branco, "a fadista atípica", são alguns dos exemplos desse renascimento do fado. Mas, embora sejam apologistas da renovação da canção nacional, todos se reivindicam descendentes de Amália. Porque Amália é incontornável. A revista aproveita para fazer um resumo biográfico da Diva, da revelação à consagração, passando pelos anos difíceis do pós-25 de Abril, em que lhe era recriminada a proximidade que tivera com o Estado Novo, até à reabilitação nos anos 90, também muito graças a toda uma nova geração de fadistas.
Filipa Melo não esquece a música clássica e destaca a "originalidade e inventividade" de pianistas como Bernardo Sassetti ou Maria João Pires.
"Portugal é actualmente o país das grandes contradições", diz Filipa Melo. No cinema temos, por exemplo, recorda, Manoel de Oliveira, o realizador mais idoso do mundo (103 anos) ainda em actividade, cujas obras "são mais citadas do que socialmente aceites ou realmente degustadas". Mas Oliveira recebe quase sempre apoio estatal, que continua a escapar a talentos mais jovens, como João Salaviza, que recebeu a Palma de Ouro em Cannes (2009), e outros que, face à falta de apoio financeiro, optam por filmar documentários ou filmes de intervenção social", como "forma de resistência".
Face à situação actual, que parece desesperante e sem saída, Filipa Melo cita JP Simões: "Temos que fazer qualquer coisa. Não podemos simplesmente desaparecer no nevoeiro de Alcácer-Quibir. Era o que faltava. Portugal seria o primeiro país da história a renunciar a si próprio".
A ARTE E A LITERATURA LUSAS NO FEMININO
Nesta sua vontade de transmitir uma perspectiva feminina da arte portuguesa, a Muze não podia deixar de dar destaque a uma das artistas plásticas lusas mais importantes da actualidade: Paula Rego (foto infra).
Para a escritora e historiadora francesa Pascaline Balland (d'Almeida), que também colabora neste número, Paula Rego distingue-se por uma "narração interventiva, a denúncia da dominação masculina, as cenas da vida doméstica, a violência recalcada". A obra de Paula Rego "escapa aos rótulos, e essa é a sua força", escreve a historiadora, que evoca a exposição da artista que esteve recentemente patente na filial da Fundação Gulbenkian em Paris.
A "Primavera Portuguesa" ou a arte como solução para a crise
Pierre Léglise-Costa, conhecido tradutor, historiador de arte, crítico e único homem convidado para escrever neste dossier, fala do papel da mulher na arte e na literatura portuguesas. Começa por recordar que "as canções de amigo, de escárnio e de maldizer têm um narrador feminino, apesar de serem escritas por homens". O homem não escreve, parte para a caça, para o mar, para a guerra, o homem é o ser desejado.
Com D. Manuel (1469-1521), a poesia torna-se a arte nacional e os homens assumem-se poetas. O maior de todos Camões, que escreve às mulheres como lhes fala, ou não lhe fossem atribuídos, além das 1.100 estrofes dos Lusíadas, inúmeros poemas de amor e quase tantas conquistas femininas.
Cem anos mais tarde, em França, a "impostura" literária das medievais cantigas de amigo ainda vende. O best-seller de então deve-se à paixão, ao desejo violento, aos sentimentos frustrados e à dor expressas de forma arrebatadora nas cartas da freira portuguesa Sóror Mariana de Alcoforado a um marquês francês. Coligidas em livro em 1669, tornam-se imediatamente um fenómeno de popularidade. Os franceses não acreditam que há em Portugal uma mulher que escreva daquela forma primorosa e o tradutor é tido como o autor. Ainda hoje os críticos disputam a autoria das epístolas: uns defendem que foi Soror Mariana, que realmente viveu em Beja entre 1640 e 1723, outros suspeitam do conde Gabriel de Guilleragues. "Mas", pergunta Léglise-Costa, "como poderia, nessa época, um conde francês conhecer tão bem a vida num convento de Beja?"
Pierre Léglise-Costa fala ainda de outros exemplos de portuguesas que brilharam nas artes: a pintora barroca Josefa de Óbidos (1630-1684); a Infanta Maria-Bárbara (1771-1758), filha de D. João V e que viria depois a ser rainha de Espanha, exímia instrumentista e compositora, e que ainda hoje é considerada a rainha mais culta da história da monarquia espanhola; ou a marquesa de Alorna (1750-1839), que deixou uma vasta obra literária. Para o crítico, cinco mulheres marcaram a literatura do século XX português: a poetisa Sophia de Mello Breyner Andresen, a romancista Agustina Bessa-Luís e as "Três Marias" – Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa e Maria Isabel Barreno. Cada uma, à sua maneira, pôs a mulher contemporânea no centro da acção, num Portugal que tinha dificuldades em arrancar-se ao século XIX. Apesar da sua delicadeza e de ser proveniente de uma família aristocrática, Sophia foi uma firme adversária do regime salazarista. Agustina vem de um meio rural e a sua prosa, onde a mulher tem sempre um papel preponderante, vai tornar-se incontornável. As "Três Marias" lançam uma pedrada no charco literário em 1972 com as suas "Novas Cartas Portuguesas" (em alusão às cartas de Mariana de Alcoforado), em que os estilos, os géneros e os temas se alternam livremente. Demasiado livremente. O livro faz escândalo e as três são presas, só vindo a ser libertadas quando se dá o 25 de Abril.
Os anos 80, que para Léglise-Costa ficam marcados pela "explosão" na cena literária de José Saramago e de António Lobo Antunes, vêem também aparecer nomes como Lídia Jorge. A revista aproveita para publicar nesta edição o seu conto "O marido" (1997), sobre uma mulher vítima de violência conjugal. A escritora algarvia confia em entrevista à Muze que este texto marca dois episódios da realidade portuguesa a que ela própria assistiu, apesar de 25 anos os separarem e uma revolução.
De passagem, a revista recomenda ainda "As palavras poupadas" de Maria Judite de Carvalho e o romance de estreia da actriz e escritora Leonor Baldaque, neta de Agustina, que se lançou este ano pela Gallimard com "Vita (la vie légère)", escrito em francês.
No cinema, as mulheres também começam a fazer-se notar atrás da câmara nos anos 80. Primeiro com Teresa Villaverde e mais tarde com Maria de Medeiros (na foto infra), esta última com a única longa-metragem feita até hoje sobre a Revolução dos Cravos. A filha do maestro Victorino d'Almeida é aliás uma das entrevistadas pela revista, na qual fala da sua actividade como actriz e realizadora, entre Lisboa, Paris e Hollywood (foto infra).
Outros novos talentos das artes visuais portuguesas, que também merecem destaque neste dossier, são Carla Cabanas (n. 1979), conhecida pelas suas fotos, à qual acrescenta desenhos, textos, som ou vídeo, em obras que interrogam a memória privada e colectiva; e o projecto "Diário da República", do colectivo Kameraphoto, que em 2011, pelo Centenário da República Portuguesa, fez um retrato do país e das mudanças sociais que Portugal atravessa.
O design cuidado e os artigos assinados por especialistas na matéria testemunham um interesse genuíno da revista Muze por um Portugal que não pode senão reinventar-se face à crise. A crise, por causa da qual Portugal aparece actualmente e demasiadas vezes vilipendiado na imprensa estrangeira, foi aqui aproveitada para revisitar um país que, afinal, ainda tem muito (t)alento para se voltar a erguer. É uma escolha editorial. Que aprovamos.
A revista Muze pode ser encontrada nas livrarias (preço: 14,90 euros em França, ou 15,70 euros no Luxemburgo).
Texto: José Luís Correia
Fotos: Anouk Antony
in CONTACTO, 04/04/2012
A última edição da revista cultural francesa "Muze" dedica 60 páginas à arte portuguesa, não hesitando em chamar à nova vaga de artistas lusos, insubmissos e irreverentes, "A Primavera Portuguesa".
"Face às restrições impostas pelas dificuldades financeiras, Portugal é obrigado a reinventar-se. O reverso da crise pode assim vir a ser o fim de um ancestral recolhimento sobre si mesmo. A cultura toma as dianteiras da mudança e a eterna nostalgia torna-se desejo de futuro".
É com esta introdução do artigo "Novo alento na cultura" da jornalista e escritora Filipa Melo que começa o dossier especial da revista cultural francesa "Muze" (edição de Abril-Maio-Junho).
A publicação que se auto-intitula "a revista trimestral da cultura no feminino", escolhe assim uma perspectiva assumidamente feminina e dá-nos a ver o Portugal de hoje e a arte contemporânea lusa através dos olhos de várias portuguesas: Amália Rodrigues, Agustina Bessa-Luís, Sophia de Mello Breyner Andresen, Paula Rego, Lídia Jorge, Maria de Medeiros, Cristina Branco, Joana Vasconcelos, Filipa Melo, entre outras.
SAUDADE INSUBMISSA
Filipa Melo começa por explicar a origem da saudade, essa palavra tão portuguesa que significa bem mais do que simplesmente nostalgia, pela qual é muitas vezes (mal) traduzida. E do fado (fatum = destino), a canção que é suposto cantar a saudade, mas ao invés a chora.
Socorrendo-se das definições de Teixeira de Pascoaes e de Eduardo Lourenço, a escritora recorda que a saudade "terá nascido" em 1578, no momento em que D. Sebastião desaparece na batalha de Alcácer-Quibir, deixando o país órfão de um futuro glorioso. Dos "Lusíadas" (1572) de Camões, à "Mensagem" (1934) de Fernando Pessoa, a saudade atravessa os séculos portugueses até ao princípio do século XXI, como se Portugal vivesse "numa ficção de império territorial ou espiritual, prisioneiro do passado", e como se apenas sobre as lágrimas do império perdido se pudesse construir um porvir.
Mas, mais importante para Filipa Melo, há hoje artistas portugueses que querem sair desse "labirinto da saudade" (E. Lourenço) e se lançam em epopeias mais pessoais e viradas para o futuro. Os exemplos que dá são Gonçalo M. Tavares e o seu poema-romance épico/anti-épico "Uma Viagem à Índia" (2011), e as obras irreverentes e iconoclastas da artista plástica Joana Vasconcelos (foto supra e foto infra).
Enquanto Gonçalo põe o seu romance "a dialogar em surdina com os Lusíadas", mas narra a busca individual(ista) de uma hiperpersonagem literária e não o destino ultramarino de uma nação, as obras de Joana reciclam objectos tradicionais para lhes dar outra dimensão, numa espécie de "auto-ridicularização" nacional. Nas mãos de Joana Vasconcelos, "a identidade nacional é um jogo lúdico e crítico entre tradição e modernidade". Uma das fundadoras da Muze, Stéphanie Janico, entrevista Joana Vasconcelos, que lhe fala, por exemplo, da génese da sua obra "Carmen Miranda", um sapato de tacão gigante (4 metros!) feito de... panelas em aço inoxidável. Uma obra conceptual que representa "a condição da mulher contemporânea, presa entre a tradição do lar e a tentação da sedução" (foto supra).
A diferença nestes novos artistas portugueses é que são influenciados por uma estética internacional, que fica cada vez menos a dever algo à saudade. "A europeização do pensamento português desenvolve-se em paralelo com a europeização dos costumes", lembra Filipa Melo, citando os filósofos José Gil e Maria Filomena Molder. E Miguel Real, outro dos novos escritores, que considera que "hoje já não estamos em diálogo com a Europa: agora também somos a Europa". Ou Valter Hugo Mãe, "escritor que fala da realidade social contemporânea", e João Tordo, "o mais anglo-saxónico dos jovens autores portugueses".
Mas não é só na literatura que há novos talentos que quebram com o passado. Para Filipa Melo, "A Marcha dos Implacáveis", do músico portuense JP Simões, ou "Parva que eu sou", dos Deolinda, podiam perfeitamente ser o novo hino nacional, em que a nova geração se mostra insubmissa e revoltada face ao destino que lhe é imposto pelos governantes e a crise.
"A actual música portuguesa fervilha de novidades, desde Tiago Guillul a B Fachada e aos Buraka Som Sistema", aponta Filipa Melo. "Na última década, até o fado foi reinventado, com textos mais contemporâneos (...) e saiu da sombra imponente de Amália".
Lula Pena, Camané e Cristina Branco, "a fadista atípica", são alguns dos exemplos desse renascimento do fado. Mas, embora sejam apologistas da renovação da canção nacional, todos se reivindicam descendentes de Amália. Porque Amália é incontornável. A revista aproveita para fazer um resumo biográfico da Diva, da revelação à consagração, passando pelos anos difíceis do pós-25 de Abril, em que lhe era recriminada a proximidade que tivera com o Estado Novo, até à reabilitação nos anos 90, também muito graças a toda uma nova geração de fadistas.
Filipa Melo não esquece a música clássica e destaca a "originalidade e inventividade" de pianistas como Bernardo Sassetti ou Maria João Pires.
"Portugal é actualmente o país das grandes contradições", diz Filipa Melo. No cinema temos, por exemplo, recorda, Manoel de Oliveira, o realizador mais idoso do mundo (103 anos) ainda em actividade, cujas obras "são mais citadas do que socialmente aceites ou realmente degustadas". Mas Oliveira recebe quase sempre apoio estatal, que continua a escapar a talentos mais jovens, como João Salaviza, que recebeu a Palma de Ouro em Cannes (2009), e outros que, face à falta de apoio financeiro, optam por filmar documentários ou filmes de intervenção social", como "forma de resistência".
Face à situação actual, que parece desesperante e sem saída, Filipa Melo cita JP Simões: "Temos que fazer qualquer coisa. Não podemos simplesmente desaparecer no nevoeiro de Alcácer-Quibir. Era o que faltava. Portugal seria o primeiro país da história a renunciar a si próprio".
A ARTE E A LITERATURA LUSAS NO FEMININO
Nesta sua vontade de transmitir uma perspectiva feminina da arte portuguesa, a Muze não podia deixar de dar destaque a uma das artistas plásticas lusas mais importantes da actualidade: Paula Rego (foto infra).
Para a escritora e historiadora francesa Pascaline Balland (d'Almeida), que também colabora neste número, Paula Rego distingue-se por uma "narração interventiva, a denúncia da dominação masculina, as cenas da vida doméstica, a violência recalcada". A obra de Paula Rego "escapa aos rótulos, e essa é a sua força", escreve a historiadora, que evoca a exposição da artista que esteve recentemente patente na filial da Fundação Gulbenkian em Paris.
A "Primavera Portuguesa" ou a arte como solução para a crise
Pierre Léglise-Costa, conhecido tradutor, historiador de arte, crítico e único homem convidado para escrever neste dossier, fala do papel da mulher na arte e na literatura portuguesas. Começa por recordar que "as canções de amigo, de escárnio e de maldizer têm um narrador feminino, apesar de serem escritas por homens". O homem não escreve, parte para a caça, para o mar, para a guerra, o homem é o ser desejado.
Com D. Manuel (1469-1521), a poesia torna-se a arte nacional e os homens assumem-se poetas. O maior de todos Camões, que escreve às mulheres como lhes fala, ou não lhe fossem atribuídos, além das 1.100 estrofes dos Lusíadas, inúmeros poemas de amor e quase tantas conquistas femininas.
Cem anos mais tarde, em França, a "impostura" literária das medievais cantigas de amigo ainda vende. O best-seller de então deve-se à paixão, ao desejo violento, aos sentimentos frustrados e à dor expressas de forma arrebatadora nas cartas da freira portuguesa Sóror Mariana de Alcoforado a um marquês francês. Coligidas em livro em 1669, tornam-se imediatamente um fenómeno de popularidade. Os franceses não acreditam que há em Portugal uma mulher que escreva daquela forma primorosa e o tradutor é tido como o autor. Ainda hoje os críticos disputam a autoria das epístolas: uns defendem que foi Soror Mariana, que realmente viveu em Beja entre 1640 e 1723, outros suspeitam do conde Gabriel de Guilleragues. "Mas", pergunta Léglise-Costa, "como poderia, nessa época, um conde francês conhecer tão bem a vida num convento de Beja?"
Pierre Léglise-Costa fala ainda de outros exemplos de portuguesas que brilharam nas artes: a pintora barroca Josefa de Óbidos (1630-1684); a Infanta Maria-Bárbara (1771-1758), filha de D. João V e que viria depois a ser rainha de Espanha, exímia instrumentista e compositora, e que ainda hoje é considerada a rainha mais culta da história da monarquia espanhola; ou a marquesa de Alorna (1750-1839), que deixou uma vasta obra literária. Para o crítico, cinco mulheres marcaram a literatura do século XX português: a poetisa Sophia de Mello Breyner Andresen, a romancista Agustina Bessa-Luís e as "Três Marias" – Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa e Maria Isabel Barreno. Cada uma, à sua maneira, pôs a mulher contemporânea no centro da acção, num Portugal que tinha dificuldades em arrancar-se ao século XIX. Apesar da sua delicadeza e de ser proveniente de uma família aristocrática, Sophia foi uma firme adversária do regime salazarista. Agustina vem de um meio rural e a sua prosa, onde a mulher tem sempre um papel preponderante, vai tornar-se incontornável. As "Três Marias" lançam uma pedrada no charco literário em 1972 com as suas "Novas Cartas Portuguesas" (em alusão às cartas de Mariana de Alcoforado), em que os estilos, os géneros e os temas se alternam livremente. Demasiado livremente. O livro faz escândalo e as três são presas, só vindo a ser libertadas quando se dá o 25 de Abril.
Os anos 80, que para Léglise-Costa ficam marcados pela "explosão" na cena literária de José Saramago e de António Lobo Antunes, vêem também aparecer nomes como Lídia Jorge. A revista aproveita para publicar nesta edição o seu conto "O marido" (1997), sobre uma mulher vítima de violência conjugal. A escritora algarvia confia em entrevista à Muze que este texto marca dois episódios da realidade portuguesa a que ela própria assistiu, apesar de 25 anos os separarem e uma revolução.
De passagem, a revista recomenda ainda "As palavras poupadas" de Maria Judite de Carvalho e o romance de estreia da actriz e escritora Leonor Baldaque, neta de Agustina, que se lançou este ano pela Gallimard com "Vita (la vie légère)", escrito em francês.
No cinema, as mulheres também começam a fazer-se notar atrás da câmara nos anos 80. Primeiro com Teresa Villaverde e mais tarde com Maria de Medeiros (na foto infra), esta última com a única longa-metragem feita até hoje sobre a Revolução dos Cravos. A filha do maestro Victorino d'Almeida é aliás uma das entrevistadas pela revista, na qual fala da sua actividade como actriz e realizadora, entre Lisboa, Paris e Hollywood (foto infra).
Outros novos talentos das artes visuais portuguesas, que também merecem destaque neste dossier, são Carla Cabanas (n. 1979), conhecida pelas suas fotos, à qual acrescenta desenhos, textos, som ou vídeo, em obras que interrogam a memória privada e colectiva; e o projecto "Diário da República", do colectivo Kameraphoto, que em 2011, pelo Centenário da República Portuguesa, fez um retrato do país e das mudanças sociais que Portugal atravessa.
O design cuidado e os artigos assinados por especialistas na matéria testemunham um interesse genuíno da revista Muze por um Portugal que não pode senão reinventar-se face à crise. A crise, por causa da qual Portugal aparece actualmente e demasiadas vezes vilipendiado na imprensa estrangeira, foi aqui aproveitada para revisitar um país que, afinal, ainda tem muito (t)alento para se voltar a erguer. É uma escolha editorial. Que aprovamos.
A revista Muze pode ser encontrada nas livrarias (preço: 14,90 euros em França, ou 15,70 euros no Luxemburgo).
Texto: José Luís Correia
Fotos: Anouk Antony
in CONTACTO, 04/04/2012
quinta-feira, 29 de março de 2012
Um dos planetas-irmão da Terra fica a 23 anos-luz
O planeta-irmão mais próxima da nossa Terra até agora descoberto fica "apenas" a 23 anos-luz de nós, e faz parte de um sistema estelar triplo (três estrelas). Trata-se do planeta Gliese 667 Cc, que é quatro vezes maior que a Terra e, pelas suas características, é considerado o "irmão" do nosso.
Durante seis anos, uma equipa de cientistas do Óbservatório Europeu do Sul ESO (European Southern Observatory, situado no Chile) sondou graças ao espectógrafo "caçador de planetas" HARPS (High Accuracy Radial velocity Planet Searcher) uma amostra de 102 estrelas anãs vermelhas da nossa galáxia e descobriu nove (9) Super-Terras, entre elas Gliese 667Cc.
O HARPS permitiu descobrir que as Super-Terras (planetas entre uma e dez vezes maiores que o nosso) são muito comuns na zona habitável ("zona de vida" ou "goldilock zone") das estrelas mais comuns da nossa galáxia, as anãs vermelhas de fraca luminosidade.
As anãs vermelhas (ou anãs M) constituem cerca de 80 por cento das estrelas da nossa galáxia (c. 160 mil milhões de estrelas) e destas, cerca de 41 por cento têm uma Super-Terra na sua órbita, na zona de vida, isto é, onde pode existir água líquida na superfície do planeta. As anãs vermelhas são mais frias e de mais fraca intensidade que o nosso Sol, que é uma anã amarela (ou anã G).
Xavier Bonfils, da equipa de cientistas do ESO que fez esta descoberta, estima que há dezenas de milhares de planetas deste tipo na Via Láctea e cerca de uma centena só na vizinhança imediata do nosso Sol, ou seja, a menos de 30 anos-luz (como é o caso de Gliese 667Cc)
A equipa descobriu igualmente que planetas gigantes (entre 100 e 1000 vezes maiores que a Terra), normalmente planetas gasosos, do tipo Júpiter ou Saturno, são mais raros em torno das anãs vermelhas (apenas 12 por cento).
Esta descoberta vai facilitar a procura de planetas em que a vida é possível, já que avaliou a percentagem das possibilidades de Super-Terras em torno das estrelas mais comuns da nossa galáxia.
sábado, 24 de março de 2012
As três razões pelas quais vejo "Once Upon a Time"
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| The Swan, aka Jennifer Morrison |
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| Snow White, aka Ginnifer Goodwin |
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| Rumpelstiltskin, aka Robert Carlyle |
A história passa-se nos dias de hoje e tem como cenário a cidade fictícia de Storybrooke, no ...Maine. Na cidade moram personagens de contos de fada,mas que esqueçeram quem são. Os personagens foram vítimas de um feitiço por parte da Bruxa Má para se vingar da Branca de Neve e do Príncipe Encantado, foram exilados no nosso mundo e esqueçeram a sua verdadeira identidade.
Antes que o feitiço se abata sobre as personagens do mundo imaginário, Branca de Neve consegue enviar a filha, Swan, para o mundo real. Esta escapa ao feitiço e cresce em Boston sem saber quem são os seus pais.
Vinte e oito anos depois, um menino, Henry, vem bater à porta de Swan e anuncia-lhe que é o seu filho e neto de Branca de Neve. Swan não acredita na criança, mas ajuda-o a regressar a casa.
Chegados a Storybrooke, este pede que ela o ajude a despertar as personagens do feitiço. Sem acreditar em Henry, Swan vai ficando pela cidade, porque repara como a mãe adoptiva, Regina, o negligencia. Henry explica-lhe então que a mãe adoptiva é na realidade a Bruxa Má e que a única a poder quebrar o feitiço é Swan.
Para acrescentar mais mistério à história, há uma personagem ainda mais enigmática: Rumpelstiltskin, que consegue manipular todos os moradores e até a Rainha Má. É também o único a recordar-se de quem realmente é...
quarta-feira, 21 de março de 2012
À conversa com os escritores José Luís Peixoto e Altina Ribeiro
Emigração, filha bastarda da literatura portuguesa
A emigração portuguesa vista por José Luís Peixoto e Altina Ribeiro. Duas gerações, duas experiências, dois livros sobre um tema que a literatura portuguesa ainda enjeita, lamentam os dois escritores.
A conferência com os escritores José Luís Peixoto e Altina Ribeiro, no domingo, no Salão do Livro do Festival das Migrações, acabou por ser totalmente dominada pelo tema da emigração. Ou não fossem os mais recentes romances dos dois autores dedicados a esse tema.
No caso de Altina Ribeiro, tanto o seu primeiro livro "Le fado comme seul bagage" (que vai ser adaptado para cinema por Anna da Palma), como o segundo, "Alice au pays de Salazar", falam da emigração. No primeiro fala de como emigrou para Paris com os pais, aos 9 anos, em 1969. O segundo é a história de uma amiga, que lhe pediu para contar em livro a sua experiência da emigração.
No seu último romance, intitulado "Livro", José Luís Peixoto inspira-se na emigração dos pais para França, também nos anos 60. "A emigração para mim é a história antes de mim, porque eles regressaram a Portugal após o 25 de Abril e eu nasci em Setembro de 1974", diz.
Altina resume o seu primeiro livro, no qual fala de como se sentiu desenraizada, de como descobriu a electricidade pela primeira vez, do "décalage" intergeracional com os pais, da emigração clandestina, dos "bidonsvilles" (bairros de lata). Recorda como o pai foi "a salto" para França, quase dois mil quilómetros a pé e em camiões de gado. Altina tinha dois anos e recorda que não reconhecia o pai quando este voltava a Portugal. "Quando vinha, o meu pai era um estranho, eu até ficava aliviada quando ele se ia embora".
Para Peixoto, a emigração era o que ouvia das conversas entre os pais e as irmãs. Eram as "auto-rutas", os "auto-buses", os "fogos-ruges", os "magasins", uma linguagem codificada e misteriosa para a criança que José Luís era, confiou no altura em que lançou o livro, em 2010. "Quando falavam de França, eu ficava de fora". "Há muitos filhos de emigrantes que vão para Portugal para descobrir o país dos pais. Este 'Livro' é para mim o caminho inverso, sou eu a tentar descobrir a emigração que os meus pais viveram. E também foi para me descobrir a mim próprio. Sou da geração que se define pelo que não viveu: a ditadura, a revolução, a emigração, a guerra colonial. Graças a este livro percebi o contexto em que nasci".
Peixoto conta que a reacção que o "Livro" recebeu fez-lhe perceber que em Portugal se precisava de falar deste tema. "Algumas pessoas perguntaram-me se eu tinha feito muita pesquisa para escrever este livro. Parece que não se dão conta que a emigração ainda é uma realidade". E lamenta que nem os antigos emigrantes falem, nem o resto da população, para quem a emigração parece um acto consumado, quando esta nunca realmente cessou. "Não há muitos romances sobre a emigração portuguesa e isso é inacreditável, quando um milhão e meio de portugueses emigrou para França nos anos 60 e 70. A literatura portuguesa raramente aborda o assunto, é tabu, não se fala e há sobretudo muitos clichés", critica o escritor. "Não há uma relação pacífica com este tema. Eu não sabia que havia dificuldades em Portugal para falar nisto. Para mim foi fácil, porque não o vivi. Mas penso que escrever sobre isso pode tornar mais sã a nossa relação com o passado. Em Portugal temos um problema com muitas questões do nosso passado, não só com a emigração".
"Os emigrantes merecem um reconhecimento porque construiram dois países, o país que deixaram e para onde enviavam dinheiro, e o país onde trabalharam. Admiro-os porque se lançaram no desconhecido e seguiram os seus sonhos. Quem segue os seus sonhos faz o mundo avançar".
"O meu primeiro livro é uma homenagem aos meus pais e a todos os emigrantes", diz também Altina. "Eles não sabiam escrever, não tinham meios para contar essa experiência, essa dor, então contei-a eu".
Na sua relação com a emigração como noutros domínios, Peixoto considera que Portugal é "bipolar".
"Acho que o país precisa de uma psicanálise. Num dia, somos os maiores, não há Expo como a nossa, vamos ganhar o Mundial de Futebol. No outro, somos os mais desgraçadinhos". Para o escritor, Portugal "evoluiu demasiado depressa" no último meio século. "A imagem do país deixou de ser a velhinha vestida de preto e com bigode, para passar a ser a ponte Vasco da Gama. Não percebo porque temos orgulho numa coisa, e esquecemos e escondemos a outra. As duas coisas coabitam, essa velhinha de bigode é a nossa avó, e é muito triste ter vergonha da nossa avó. Temos que encontrarmo-nos como país nesses dois pólos", aconselha José Luís Peixoto ao deitar o país no divã.
_________________________________________
CONTACTO: É a segunda vez que vem ao Luxemburgo...
José Luís Peixoto: É a terceira! A primeira vez foi há 20 anos com os meus pais, viemos de carro e parámos aqui uma tarde... A segunda foi em 2009 para a Primavera dos Poetas e esta é a terceira vez.
CONT.: Como foi esta visita, no âmbito do Festival das Migrações?
J.L.P.: Este festival deu-me a imagem da sociedade multicultural que o Luxemburgo é.
CONT.: O contacto com os seus leitores de cá foi gratificante?
JLP: Desta vez aconteceu algo que nunca me tinha acontecido ainda no estrangeiro, que foi encontrar realmente muitas pessoas que já conheciam os meus livros. O meu último romance ["Livro"] toca a realidade da emigração portuguesa e foi muito gratificante perceber que o livro tinha chegado a algumas destas pessoas. Foi como lhes devolver algo que me deram de cada vez que estive com portugueses fora de Portugal.
CONT.: Nesse seu livro fala da emigração, inspirando-se na experiência que os seus pais tiveram em França nos anos 1960 e que faz parte da história "antes de si", como costuma dizer. Mas quando foi professor em Cabo Verde, também viveu a emigração...
JLP: Estive lá apenas um ano e meio, e não considero que tivesse sido uma experiência de emigração. Primeiro, porque nunca pensei em ficar lá muito tempo, depois porque era um país de língua portuguesa, com muitas referências idênticas a Portugal, e não acho que seja comparável... A distância, claro, fez aperceber-me que só damos valor a certas coisas quando estamos longe.
CONT.: O miúdo que escrevia para o DN Jovem nos anos 1990, imaginava um dia viajar pelo mundo para falar dos seus livros?
JLP: Não imaginava e confesso que nem sequer me permitia sonhar tanto. Eu tinha vontade de publicar livros, ter leitores e a escrita sempre na minha vida. Hoje, vivo coisas que nunca imaginei, como chegar aqui e encontrar pessoas que já leram o que escrevi, isso é fascinante. Enquanto escrevia nunca imaginei que pudesse ser esse o destino daquilo que escrevia. Mas, é verdade que escrever comporta essa transcendência, é lançar palavras para um horizonte que nunca conseguimos muito bem controlar.
CONT.: Hoje escreve pelas mesmas razões pelas quais escrevia na adolescência?
JLP: Tento não perder de vista as razões que me levavam a escrever quando era adolescente, porque eram de um grande entusiasmo e pureza, que é muito importante manter. Crescer não significa recusar aquilo que fomos. Há características que importa nunca perder, como a capacidade de acreditar.
CONT.: Foi difícil vingar como escritor?
JLP: O primeiro livro que publiquei, que não considero um romance, chama-se "Morreste-me" (2000), e foi lançado em edição de autor. Já tinha escrito aquele que viria a ser o meu primeiro romance, "Nenhum Olhar" (2000), e andava à procura de editor de uma forma muito simples, enviando manuscritos pelo correio. E não foi realmente muito fácil: ou não recebia respostas positivas ou não recebia resposta nenhuma. Foi assim durante cerca de um ano, até que recebi finalmente uma resposta de uma editora e as coisas evoluiram. Depois veio o Prémio Saramago em 2001 e um reconhecimento a vários níveis. Sinto que, mesmo que nada disso tivesse acontecido, eu teria continuado a escrever. Talvez escrevesse algo diferente, a minha vida teria sido talvez diferente. Mas, penso que essas dificuldades até foram positivas, porque são as dificuldades que nos fazem sentir a realização no momento em que as conseguimos ultrapassar.
CONT: Mas também passou por momentos muito difíceis...
JLP: Esse tempo das dificuldades não foi enquanto escritor que as vivi, mas como professor, porque por vezes havia ordenados em atraso. Curiosamente quando passei do ensino para a escrita, foi passar para uma actividade instável, como é a escrita, mas vindo de uma actividade que não é particularmente estável, como é o ensino em Portugal. Os primeiros tempos não foram muito fáceis, porque ainda não escrevia para os jornais e as revistas com que colaboro hoje, nem tinha tantas solicitações. Mas, a pouco e pouco e com muito trabalho, as coisas foram-se consolidando. Hoje, a escrita passou a ser uma ocupação que, em termos de segurança, me permite viver de uma forma que acaba por ser muito mais estável do que se tivesse continuado no ensino, porque olho para os meus colegas e vejo a situação em que estão.
CONT.: Quer dizer que se pudesse falar hoje com o José Luís Peixoto que escrevia para o DN Jovem lhe diria para continuar a acreditar no sonho de escrever?
JLP: (Risos) Sim, sim, sem dúvida... Eu tenho a grande sorte de ter descoberto, muito claramente, o que queria fazer, que era escrever. Nunca escrevi porque não pudesse fazer outra coisa, mas porque era exactamente isso que queria fazer. Hoje, continuo a ter o privilégio imenso de poder desenvolver a minha vida profissional nessa área.
CONT: Escreve poesia, teatro, ficção. Sente-se mais confortável em que disciplina?
JLP: Cada uma dessas áreas dá-me um prazer diferente e aprendo com todas elas lições que utilizo depois em todas as outras. Hoje, os romances têm um lugar muito importante para mim. São como pilares de um templo que determinam a cronologia da minha vida. O romance é um género particularmente exigente, que obriga a uma vivência bastante intensa das personagens, das situações, e isso faz com que se misture muito com as impressões que estou a viver em cada momento. Por isso, cada romance é uma experiências muito sentida.
CONT.: Confiaram-me que aqui no Luxemburgo tem tentado escapar ao programa da estadia para tentar escrever ao máximo. Podemos esperar uma ficção cujo teatro é o Grão-Ducado?
JLP: Já escrevi dois textos no Luxemburgo e espero escrever mais. Nunca se é completamente imune ao lugar onde se está. No entanto, não penso que vou escrever sobre o Luxemburgo, até porque escrever sobre algo necessita de uma certa reflexão e de um certo distanciamento. Penso que as visitas ao Luxemburgo, a darem algum fruto, será depois de eu as maturar bem.
CONT.: Está a trabalhar nalgum novo romance?
JLP: Sim, tenho sempre um romance em preparação, pelo menos na cabeça, mas não quero ainda revelar muito sobre isso...
Posso dizer que em Abril vou publicar, pela primeira vez, um livro infantil. É para leitores muito sinceros, por isso estou um pouco ansioso. Até agora nunca tive que pensar que estava a escrever para uma faixa etária específica, mesmo se escrevia principalmente para adultos.
CONT.: E já testou em casa, com o seu filho de seis anos?
JLP: Sim, já testei (risos), várias vezes até!
CONT: E o que anda a ler neste momento?
JLP: Estou a ler "A arte de viajar", de Alain de Botton.
A emigração portuguesa vista por José Luís Peixoto e Altina Ribeiro. Duas gerações, duas experiências, dois livros sobre um tema que a literatura portuguesa ainda enjeita, lamentam os dois escritores.
A conferência com os escritores José Luís Peixoto e Altina Ribeiro, no domingo, no Salão do Livro do Festival das Migrações, acabou por ser totalmente dominada pelo tema da emigração. Ou não fossem os mais recentes romances dos dois autores dedicados a esse tema.
No caso de Altina Ribeiro, tanto o seu primeiro livro "Le fado comme seul bagage" (que vai ser adaptado para cinema por Anna da Palma), como o segundo, "Alice au pays de Salazar", falam da emigração. No primeiro fala de como emigrou para Paris com os pais, aos 9 anos, em 1969. O segundo é a história de uma amiga, que lhe pediu para contar em livro a sua experiência da emigração.
No seu último romance, intitulado "Livro", José Luís Peixoto inspira-se na emigração dos pais para França, também nos anos 60. "A emigração para mim é a história antes de mim, porque eles regressaram a Portugal após o 25 de Abril e eu nasci em Setembro de 1974", diz.
Altina resume o seu primeiro livro, no qual fala de como se sentiu desenraizada, de como descobriu a electricidade pela primeira vez, do "décalage" intergeracional com os pais, da emigração clandestina, dos "bidonsvilles" (bairros de lata). Recorda como o pai foi "a salto" para França, quase dois mil quilómetros a pé e em camiões de gado. Altina tinha dois anos e recorda que não reconhecia o pai quando este voltava a Portugal. "Quando vinha, o meu pai era um estranho, eu até ficava aliviada quando ele se ia embora".
Para Peixoto, a emigração era o que ouvia das conversas entre os pais e as irmãs. Eram as "auto-rutas", os "auto-buses", os "fogos-ruges", os "magasins", uma linguagem codificada e misteriosa para a criança que José Luís era, confiou no altura em que lançou o livro, em 2010. "Quando falavam de França, eu ficava de fora". "Há muitos filhos de emigrantes que vão para Portugal para descobrir o país dos pais. Este 'Livro' é para mim o caminho inverso, sou eu a tentar descobrir a emigração que os meus pais viveram. E também foi para me descobrir a mim próprio. Sou da geração que se define pelo que não viveu: a ditadura, a revolução, a emigração, a guerra colonial. Graças a este livro percebi o contexto em que nasci".
Peixoto conta que a reacção que o "Livro" recebeu fez-lhe perceber que em Portugal se precisava de falar deste tema. "Algumas pessoas perguntaram-me se eu tinha feito muita pesquisa para escrever este livro. Parece que não se dão conta que a emigração ainda é uma realidade". E lamenta que nem os antigos emigrantes falem, nem o resto da população, para quem a emigração parece um acto consumado, quando esta nunca realmente cessou. "Não há muitos romances sobre a emigração portuguesa e isso é inacreditável, quando um milhão e meio de portugueses emigrou para França nos anos 60 e 70. A literatura portuguesa raramente aborda o assunto, é tabu, não se fala e há sobretudo muitos clichés", critica o escritor. "Não há uma relação pacífica com este tema. Eu não sabia que havia dificuldades em Portugal para falar nisto. Para mim foi fácil, porque não o vivi. Mas penso que escrever sobre isso pode tornar mais sã a nossa relação com o passado. Em Portugal temos um problema com muitas questões do nosso passado, não só com a emigração".
"Os emigrantes merecem um reconhecimento porque construiram dois países, o país que deixaram e para onde enviavam dinheiro, e o país onde trabalharam. Admiro-os porque se lançaram no desconhecido e seguiram os seus sonhos. Quem segue os seus sonhos faz o mundo avançar".
"O meu primeiro livro é uma homenagem aos meus pais e a todos os emigrantes", diz também Altina. "Eles não sabiam escrever, não tinham meios para contar essa experiência, essa dor, então contei-a eu".
Na sua relação com a emigração como noutros domínios, Peixoto considera que Portugal é "bipolar".
"Acho que o país precisa de uma psicanálise. Num dia, somos os maiores, não há Expo como a nossa, vamos ganhar o Mundial de Futebol. No outro, somos os mais desgraçadinhos". Para o escritor, Portugal "evoluiu demasiado depressa" no último meio século. "A imagem do país deixou de ser a velhinha vestida de preto e com bigode, para passar a ser a ponte Vasco da Gama. Não percebo porque temos orgulho numa coisa, e esquecemos e escondemos a outra. As duas coisas coabitam, essa velhinha de bigode é a nossa avó, e é muito triste ter vergonha da nossa avó. Temos que encontrarmo-nos como país nesses dois pólos", aconselha José Luís Peixoto ao deitar o país no divã.
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Entrevista com José Luís Peixoto
"Cada romance é uma experiência muito sentida"
CONTACTO: É a segunda vez que vem ao Luxemburgo...
José Luís Peixoto: É a terceira! A primeira vez foi há 20 anos com os meus pais, viemos de carro e parámos aqui uma tarde... A segunda foi em 2009 para a Primavera dos Poetas e esta é a terceira vez.
CONT.: Como foi esta visita, no âmbito do Festival das Migrações?
J.L.P.: Este festival deu-me a imagem da sociedade multicultural que o Luxemburgo é.
CONT.: O contacto com os seus leitores de cá foi gratificante?
JLP: Desta vez aconteceu algo que nunca me tinha acontecido ainda no estrangeiro, que foi encontrar realmente muitas pessoas que já conheciam os meus livros. O meu último romance ["Livro"] toca a realidade da emigração portuguesa e foi muito gratificante perceber que o livro tinha chegado a algumas destas pessoas. Foi como lhes devolver algo que me deram de cada vez que estive com portugueses fora de Portugal.
CONT.: Nesse seu livro fala da emigração, inspirando-se na experiência que os seus pais tiveram em França nos anos 1960 e que faz parte da história "antes de si", como costuma dizer. Mas quando foi professor em Cabo Verde, também viveu a emigração...
JLP: Estive lá apenas um ano e meio, e não considero que tivesse sido uma experiência de emigração. Primeiro, porque nunca pensei em ficar lá muito tempo, depois porque era um país de língua portuguesa, com muitas referências idênticas a Portugal, e não acho que seja comparável... A distância, claro, fez aperceber-me que só damos valor a certas coisas quando estamos longe.
CONT.: O miúdo que escrevia para o DN Jovem nos anos 1990, imaginava um dia viajar pelo mundo para falar dos seus livros?
JLP: Não imaginava e confesso que nem sequer me permitia sonhar tanto. Eu tinha vontade de publicar livros, ter leitores e a escrita sempre na minha vida. Hoje, vivo coisas que nunca imaginei, como chegar aqui e encontrar pessoas que já leram o que escrevi, isso é fascinante. Enquanto escrevia nunca imaginei que pudesse ser esse o destino daquilo que escrevia. Mas, é verdade que escrever comporta essa transcendência, é lançar palavras para um horizonte que nunca conseguimos muito bem controlar.
CONT.: Hoje escreve pelas mesmas razões pelas quais escrevia na adolescência?
JLP: Tento não perder de vista as razões que me levavam a escrever quando era adolescente, porque eram de um grande entusiasmo e pureza, que é muito importante manter. Crescer não significa recusar aquilo que fomos. Há características que importa nunca perder, como a capacidade de acreditar.
CONT.: Foi difícil vingar como escritor?
JLP: O primeiro livro que publiquei, que não considero um romance, chama-se "Morreste-me" (2000), e foi lançado em edição de autor. Já tinha escrito aquele que viria a ser o meu primeiro romance, "Nenhum Olhar" (2000), e andava à procura de editor de uma forma muito simples, enviando manuscritos pelo correio. E não foi realmente muito fácil: ou não recebia respostas positivas ou não recebia resposta nenhuma. Foi assim durante cerca de um ano, até que recebi finalmente uma resposta de uma editora e as coisas evoluiram. Depois veio o Prémio Saramago em 2001 e um reconhecimento a vários níveis. Sinto que, mesmo que nada disso tivesse acontecido, eu teria continuado a escrever. Talvez escrevesse algo diferente, a minha vida teria sido talvez diferente. Mas, penso que essas dificuldades até foram positivas, porque são as dificuldades que nos fazem sentir a realização no momento em que as conseguimos ultrapassar.
CONT: Mas também passou por momentos muito difíceis...
JLP: Esse tempo das dificuldades não foi enquanto escritor que as vivi, mas como professor, porque por vezes havia ordenados em atraso. Curiosamente quando passei do ensino para a escrita, foi passar para uma actividade instável, como é a escrita, mas vindo de uma actividade que não é particularmente estável, como é o ensino em Portugal. Os primeiros tempos não foram muito fáceis, porque ainda não escrevia para os jornais e as revistas com que colaboro hoje, nem tinha tantas solicitações. Mas, a pouco e pouco e com muito trabalho, as coisas foram-se consolidando. Hoje, a escrita passou a ser uma ocupação que, em termos de segurança, me permite viver de uma forma que acaba por ser muito mais estável do que se tivesse continuado no ensino, porque olho para os meus colegas e vejo a situação em que estão.
CONT.: Quer dizer que se pudesse falar hoje com o José Luís Peixoto que escrevia para o DN Jovem lhe diria para continuar a acreditar no sonho de escrever?
JLP: (Risos) Sim, sim, sem dúvida... Eu tenho a grande sorte de ter descoberto, muito claramente, o que queria fazer, que era escrever. Nunca escrevi porque não pudesse fazer outra coisa, mas porque era exactamente isso que queria fazer. Hoje, continuo a ter o privilégio imenso de poder desenvolver a minha vida profissional nessa área.
CONT: Escreve poesia, teatro, ficção. Sente-se mais confortável em que disciplina?
JLP: Cada uma dessas áreas dá-me um prazer diferente e aprendo com todas elas lições que utilizo depois em todas as outras. Hoje, os romances têm um lugar muito importante para mim. São como pilares de um templo que determinam a cronologia da minha vida. O romance é um género particularmente exigente, que obriga a uma vivência bastante intensa das personagens, das situações, e isso faz com que se misture muito com as impressões que estou a viver em cada momento. Por isso, cada romance é uma experiências muito sentida.
CONT.: Confiaram-me que aqui no Luxemburgo tem tentado escapar ao programa da estadia para tentar escrever ao máximo. Podemos esperar uma ficção cujo teatro é o Grão-Ducado?
JLP: Já escrevi dois textos no Luxemburgo e espero escrever mais. Nunca se é completamente imune ao lugar onde se está. No entanto, não penso que vou escrever sobre o Luxemburgo, até porque escrever sobre algo necessita de uma certa reflexão e de um certo distanciamento. Penso que as visitas ao Luxemburgo, a darem algum fruto, será depois de eu as maturar bem.
CONT.: Está a trabalhar nalgum novo romance?
JLP: Sim, tenho sempre um romance em preparação, pelo menos na cabeça, mas não quero ainda revelar muito sobre isso...
Posso dizer que em Abril vou publicar, pela primeira vez, um livro infantil. É para leitores muito sinceros, por isso estou um pouco ansioso. Até agora nunca tive que pensar que estava a escrever para uma faixa etária específica, mesmo se escrevia principalmente para adultos.
CONT.: E já testou em casa, com o seu filho de seis anos?
JLP: Sim, já testei (risos), várias vezes até!
CONT: E o que anda a ler neste momento?
JLP: Estou a ler "A arte de viajar", de Alain de Botton.
Texto e Entrevista: José Luís Correia
Fotos: Carlos de jesus
Fotos: Carlos de jesus
(in CONTACTO, 21/12/2011)
Rótulo :
emigração,
literatura
terça-feira, 20 de março de 2012
Especular na bolsa, tão verdade há 150 anos como hoje
"Para as especulações na Bolsa, Fevereiro é um dos meses mais perigosos. Os outros são Julho, Janeiro, Setembro, Abril, Novembro, Maio, Março, Junho, Dezembro, Agosto e Outubro."
Mark Twain (1835-1910)
.
Mark Twain (1835-1910)
.
Rótulo :
livros e leituras
quinta-feira, 15 de março de 2012
Harold Bloom arrasa "Caim" de José Saramago
Intitulado “O grande comediante revisita a Bíblia”, o artigo do conhecido crítico literário norte-americano, que também é professor de Humanidades na Universidade de Yale, e de Inglês na Universidade de Nova Iorque, debruça-se sobre a edição americana de "Caim" (editado em Portugal em 2009; editado nos EUA em Outubro de 2011), a última obra que Saramago publicou em vida (morreu em Junho de 2010).
Bloom fala como conheceu Saramago, no dia em que o crítico literário se deslocou a Portugal para ser distinguido pela Universidade de Coimbra, e como os dois travaram um "conhecimento caloroso", mas também fala de um "desacordo exegético" que os opôs devido a "O Evangelho Segundo Jesus Cristo" (1991). Bloom, que apelida Saramago de "estalinista irredutível", considera que nesse seu livro o português nem se dá conta que retrata "um Deus que tem muitas afinidades com o tirano georgiano".
Para Bloom, “Caim” é um epílogo deliberado e burlesco ao “Evangelho”. Mas "falta-lhe mais humor" nesta obra, escrita quase duas décadas depois do "Evangelho".
"Como admirador de há décadas de Saramago, não quero depreciar esta ficção final. Prefiro considerá-la como algo que me ajuda a apreciar as suas concretizações ascéticas. O que corre mal em 'Caim' é que o autor é demasiado tendencioso e nos quer convencer, impôr um desígnio. A necessidade que [Saramago] tinha de lutar contra o fascismo e a Igreja sempre ameaçaram distraí-lo da sua verdadeira genialidade de contador de histórias cómicas. O Evangelho é assustadoramente cómico, Caim apenas faz sorrir."
Bloom faz uma justaposição entre o final de "Caim" e o de um outro livro do escritor, "O Ano da Morte de Ricardo Reis" (1984). “Os mundos de Pessoa e Reis são tão diferentes como o são os de Caim e de Deus”, resume Bloom. E depois compara com o final de “O Evangelho Segundo Jesus Cristo".
"A dignidade ascética e o pathos trágico que podemos encontrar [no Evangelho] são qualidades que estão ausentes em Caim, do príncipio até ao fim do livro”, lamenta.
Para Bloom, o leitor que quiser encontrar o Saramago genial vai ter que procurá-lo em "História do Cerco de Lisboa" (1989) ou em "Jangada de Pedra" (1986), não no seu livro final. "'Caim' foi um erro, mas que não deve macular o nosso sentimento de uma partida gloriosa [de Saramago]", conclui.
Saramago, Calvino, Garcia Márquez e Twain
Bloom considera que Saramago era acima de tudo um "romancista cómico" e que era "admirável" nâo só essa sua "tenacidade cómica", como "a forma como este queria fazer funcionar os seus textos de forma nitzschiana".
Bloom compara Saramago a Italo Calvino, Gabriel Garcia Márquez e Mark Twain. "Twain teria gostado de Saramago, ambos eram anticlericais (...) e sabiam retratar a ferocidade fundamental da natureza humana e da sociedade".
"Cain", traduzido por Margaret Jull Costa, saiu nos Estados Unidos com a chancela da Houghton Mifflin Hartcourt (159 páginas) e custa 24 dólares.
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livros e leituras
segunda-feira, 12 de março de 2012
Número de portugueses no Luxemburgo poderá aumentar em 11.000 em dois anos
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| Foto: JLC |
Cinco mil portugueses inscreveram-se em 2011
no consulado do Luxemburgo e, a manter-se o ritmo de janeiro e
fevereiro, o número de novas inscrições consulares poderá atingir as
6.000 em 2012, disse um representante da comunidade.
O
conselheiro das Comunidades Portuguesas no Luxemburgo Eduardo Dias
falava à Lusa a propósito de uma conferência de imprensa, que dará
terça-feira em frente ao consulado-geral de Portugal, para condenar uma
alegada intenção de "desqualificar" o consulado-geral, transformando-o
em secção consular.
Para o conselheiro, esta alegada intenção, já negada pelo governo, contrasta com a crescente emigração portuguesa para o país.
Eduardo
Dias afirma que, com as novas inscrições de 2011 e 2012, o número de
portugueses no Luxemburgo poderá atingir os 115 mil.
O aumento da
emigração para o Luxemburgo é acompanhado por uma subida da taxa de
desemprego.
Segundo o conselheiro, o número de portugueses desempregados
no país passou de 32,8% no final de 2010 para 36% no final de 2011.
Questionado
sobre se existem no Luxemburgo situações de carência como têm surgido
em outras comunidades portuguesas no mundo, Eduardo Dias considerou
tratar-se de "casos isolados": "São pessoas que se deslocam com
contratos ou promessas de contratos de curta duração e que rapidamente
entram no desemprego e sem condições de habitação".
Por outro
lado, afirmou que ao contrário do que acontecia nos anos 60 e 70 -
quando "os emigrantes partiam sós e só depois de estabilizados mandavam
vir as famílias" -, atualmente viajam famílias inteiras, muitas vezes
com crianças em idade escolar", o que dificulta a adaptação.
Comunidade contra intenção de "desqualificar" representação no Luxemburgo, Governo nega
Representantes da comunidade portuguesa no Luxemburgo acusaram o
Governo português de querer "desqualificar" o consulado local,
transformando-o em secção consular, mas o secretário de Estado garante
que vai manter-se o formato atual.
"É consulado-geral e continua a
ser consulado-geral. A única alteração é que o responsável do posto
acumula as funções de encarregado de negócios da Embaixada e de
cônsul-geral, o que é uma medida de racionalização da despesa e se
justifica plenamente no Luxemburgo", disse à Lusa o governante.
José
Cesário respondia assim às acusações do conselheiro das Comunidades
Portuguesas no Luxemburgo Eduardo Dias, que na terça-feira dá uma
conferência de imprensa intitulada "Consulado de Portugal: O Caos",
juntamente com outro conselheiro, Acácio Pinheiro.
Eduardo Dias
afirma que o Governo decidiu a "desqualificação do consulado-geral de
Portugal no Luxemburgo", o que afirma contrastar com o número crescente
de portugueses que chegam ao país.
"É um consulado-geral há mais
de 30 anos e o Governo quer passá-lo para secção consular", lamentou,
afirmando que o mandato do cônsul termina em junho e não haverá
substituição.
Já no início do mês, o deputado socialista Paulo
Pisco dirigira uma pergunta ao Governo sobre a "retirada definitiva do
Luxemburgo" do cônsul-geral de Portugal.
O secretário de Estado
José Cesário confirma que "o cônsul-geral atinge o limite de idade em
breve", mas garante que vai ser colocado no país um outro diplomata que
"vai assumir as funções de cônsul e de número dois da Embaixada". Para o
governante, no Luxemburgo um mesmo diplomata "pode desempenhar as duas
funções perfeitamente".
Eduardo Dias lamenta também a redução do
número de funcionários do consulado: "Só no ano passado diminuiu de 18
para 14 e isto surge em perfeita contradição com o número de portugueses
no Luxemburgo, que está a aumentar".
"Atualmente, o consulado já
atende apenas 70 pessoas por dia e quase outras tantas voltam para trás e
têm de regressar outro dia", disse à Lusa.
José Cesário admite
que se tenham reformado alguns funcionários, que "vão sendo substituídos
progressivamente", mas lembrou que "há uma política de redução dos
funcionários da administração pública, a que os consulados não escapam".
E
sublinhou que "o consulado do Luxemburgo não é dos consulados com maior
número de atos por funcionário". "Bem pelo contrário: há consulados que
têm o dobro do trabalho por funcionário do que tem o Luxemburgo",
afirmou.
O conselheiro das Comunidades Portuguesas acusou ainda o
Estado Português de estar a violar a legislação luxemburguesa em matéria
de salário mínimo e de indexação dos salários à inflação, no caso de
cerca de metade dos funcionários do consulado, que têm contratos locais.
"Entende
o Governo português que isso tem a ver com as medidas de austeridade,
mas as medidas de austeridade têm de ser aplicadas aos funcionários que
dependem do Ministério, mas quando contrata pessoas localmente, tem de
se submeter à legislação local" disse.
Eduardo Dias adiantou que a
questão já foi colocada ao ministro do Trabalho e ao primeiro-ministro
luxemburgueses e "ambos confirmaram que o consulado está em situação de
ilegalidade", tendo o encarregado de negócios da Embaixada, Rui Correia,
sido chamado ao Ministério dos Negócios Estrangeiros do Luxemburgo para
prestar esclarecimentos.
"Portugal começa a ficar com uma má
imagem, de mau pagador e de desrespeito pela legislação do país", disse,
acrescentando que o sindicato luxemburguês OGBL está mesmo a preparar
um processo em tribunal contra o Estado português.
O secretário de
Estado remeteu comentários a estas acusações para o Ministério dos
Negócios Estrangeiros, responsável pelos pagamentos dos salários, mas a
Lusa não conseguiu até ao momento obter uma reação.
(LUSA)
Bióloga portuguesa descobre quatro novas espécies de insectos na gruta mais profunda do mundo
Numa época de crise económica profunda, com os jornais e os noticiários televisivos a debitarem diariamente más notícias, o que nos tem conduzido a uma espécie de depressão colectiva, achei por bem falar-vos de uma das boas notícias que nos chegaram nos últimos tempos mas que andam por aí diluídas e que quase passam despercebidas entre as desgraças do costume.
Uma portuguesa, Sofia Reboleira, 31 anos, investigadora do Departamento de Biologia da Universidade de Aveiro, integrou a expedição ibero-russa Cavex que, no Verão de 2010, explorou a gruta natural mais profunda do Mundo, a Krubera-Voronia, na Abcásia (Norte da Geórgia, perto do Mar Negro).
A equipa de cientistas e espeleólogos descobriu, a quase dois mil metros de profundidade, quatro novas espécies de artrópodes (calêmbolos), insectos primitivos sem olhos e sem asas. Os resultados foram tornados públicos no final de Fevereiro na revista « Terrestrial Arthropod Reviews ».
Quinhentos anos depois de um grupo de destemidos navegadores portugueses terem deixado as margens seguras do rectângulo e se lançarem para além do fim do mundo, e prendarem o planeta com uma nova geografia e novos povos, uma portuguesa aventurou-se num dos limites extremos e mais perigosos do planeta para ajudar nesta descoberta notável. E Sofia fê-lo a seus próprios custos, o que torna o seu feito ainda mais meritório. Sofia diz que ainda há muito por explorar na gruta de Krubera-Voronia e que planeia lá voltar em 2013.
A última fronteira pode até ser o espaço, mas temos muito por descobrir no nosso próprio planeta, das grutas mais recônditas das entranhas da crosta terrestre às fossas mais profundas e misteriosas dos oceanos que, com certeza, nos reservam ainda muitas surpresas.
Uma portuguesa, Sofia Reboleira, 31 anos, investigadora do Departamento de Biologia da Universidade de Aveiro, integrou a expedição ibero-russa Cavex que, no Verão de 2010, explorou a gruta natural mais profunda do Mundo, a Krubera-Voronia, na Abcásia (Norte da Geórgia, perto do Mar Negro).
A equipa de cientistas e espeleólogos descobriu, a quase dois mil metros de profundidade, quatro novas espécies de artrópodes (calêmbolos), insectos primitivos sem olhos e sem asas. Os resultados foram tornados públicos no final de Fevereiro na revista « Terrestrial Arthropod Reviews ».
Quinhentos anos depois de um grupo de destemidos navegadores portugueses terem deixado as margens seguras do rectângulo e se lançarem para além do fim do mundo, e prendarem o planeta com uma nova geografia e novos povos, uma portuguesa aventurou-se num dos limites extremos e mais perigosos do planeta para ajudar nesta descoberta notável. E Sofia fê-lo a seus próprios custos, o que torna o seu feito ainda mais meritório. Sofia diz que ainda há muito por explorar na gruta de Krubera-Voronia e que planeia lá voltar em 2013.
A última fronteira pode até ser o espaço, mas temos muito por descobrir no nosso próprio planeta, das grutas mais recônditas das entranhas da crosta terrestre às fossas mais profundas e misteriosas dos oceanos que, com certeza, nos reservam ainda muitas surpresas.
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caderno de itinerários,
na imprensa,
viagens
domingo, 11 de março de 2012
Portugal Pop, pela terceira vez no Luxemburgo
Um dos melhores momentos do 3° Portugal Pop ontem, na Kulturfabrik, em Esch/Alzette (Luxemburgo): Zé Manel "Darko" com "Define Joy". Grande voz, grande talento, um artista com muito, muito poencial ainda para dar à música portuguesa! Foi para mim uma revelação!
Adelaide Ferreira e Miguel Ângelo: grandiosos e únicos, como sempre nos habituaram. Banda In/Out, respect, grande guitarrista e grande baterista! Portugal Pop 2012, soube a pouco...
Adelaide Ferreira e Miguel Ângelo: grandiosos e únicos, como sempre nos habituaram. Banda In/Out, respect, grande guitarrista e grande baterista! Portugal Pop 2012, soube a pouco...
sábado, 10 de março de 2012
Cozinheiro luso-francês merece elogios da revista "Le Point"
Pacheco formou-se com o chefe francês Joël Robuchon (18 estrelas no Guia Michelin), trabalhou no restaurante "Aux Armes de France", em Corbeil-Essones (a 30 km a sudeste de Paris) e mereceu um artigo na revista Le Point, de 28 de Fevereiro.
A revista diz que os pratos agri-doces e as "alianças maliciosas de sabores" são já uma das marcas de referência do jovem chefe luso-francês. A publicação cita como exemplos as Coxas de Rã ‘en folie’ panadas, com creme de castanhas, alho preto e ‘raviola’ de beterraba e couve verde; ou o Pregado na Brasa com Manteiga de Verbena e o seu Risotto de Fregola Sarda; ou ainda o Entrecosto « Dry Aged » com salsa, flôr de sal, pimenta aromática e croquettes.
Dá vontade de dar um saltinho até La Clusaz...
Rótulo :
gastronomia
sexta-feira, 9 de março de 2012
EDITORIAL: O eixo da terra está a mudar
O eixo da Terra está a mudar
Li algures na imprensa portuguesa que, muito embora os portugueses não apreciem o epiteto de "país periférico" que Bruxelas dá a Portugal, o facto é que é isso mesmo que o nosso rectângulo é, "que fazer", resignava-se o jornalista? E acrescentava que isso explica a condição de "subúrbio" a que o nosso rectângulo está votado. Ou seja, a culpa da crise que nos caiu em cima não é nossa, é do lugar que herdámos da geografia (!?).
Como se o centro de decisões e de negócios nunca pudesse ter sido Lisboa e – inverta-se os papéis –, a Alemanha o "hinterland" europeu ou o "arrière-pays" continental. Estas duas palavras não têm infelizmente uma boa tradução em português, pois o seu equivalente "o interior" ("país real" é uma invenção da TV-reality show dos anos 90!), não comporta o significado de "afastado", "esquecido, lá para trás", que os termos alemão e francês abrangem. Felizmente, a História não dá razão aos epitetos que nos cognominam e a geografia não é uma fatalidade. Lisboa já foi dona de metade do Mundo e o seu "handicap" de hoje – a periferia –, foi na Era dos Descobrimentos a sua mais-valia. E exemplos como este abundam através dos tempos. Babilónia ou a Pérsia foram já as regiões mais civilizadas do mundo, depois em declínio e esquecidas durante milénios, foram novamente trazidas para o tabuleiro mundial graças ao petróleo. Como é que Alexandre Magno conseguiu fazer da sua encravada Macedónia o centro de um império que se estendeu através de um quarto do globo até às portas da Índia? Como é que uma cidade como Roma construiu um império que ia da África do Norte ao Médio Oriente e da Alemanha à Escócia? Também a América Central e do Sul viram proliferar as civilizações mais avançadas do seu tempo quando a Europa atravessava "os séculos escuros".
Lisboa já foi o rosto com que a Europa fitou o mundo, recorda-nos o nosso oráculo nacional Fernando Pessoa, na sua "Mensagem". Será que percebemos bem a mensagem? E se o "recado" de Pessoa fosse "Mens Ag(itat Mol)em", ou seja, que o espírito comanda o corpo, expressão repescada à "Eneida" de Virgílio. Mas se a mente comanda a matéria, Deus quer, o Homem sonha e a obra nasce, então a inteligência não se deixa ditar desditas pela geografia. Até porque a geografia "acabou" e o homem hoje sabe ser ubíquo.
É armado desta sabedoria, sem ligar a fatalismos bacocos e desculpando-se com a "soi-disant" geografia, que o Dubai, por exemplo, sabendo próximo o fim do reino do ouro negro, está a fazer nascer hoje a megalópole de amanhã, das areias inóspitas do deserto e bairros inteiros em cima de ilhas artificiais. Do mesmo modo, o Luxemburgo, este improvável país que se quis independente sem que ninguém no século XIX acreditasse na sua perenidade, nem mesmo os luxemburgueses, soube antecipar o fim da siderurgia e lançar desde os anos 60 os pilares de outras economias (os serviços, a praça financeira, as telecomunicações, a logística) que asseguraram o futuro. E o Ducado agrícola das hortas de subsistência de há dois séculos soube atravessar as convulsões hegemónicas e geo-económicas do século XX, e tornar-se um país política e economicamente estável, um burgo centripeta, que atrai populações e empresas dos quatro cantos da Europa e do Mundo.
Saber governar é saber prever. Qualidade que têm tido alguns (friso alguns) governantes luxemburgueses (até agora !) e que tem faltado singularmente à maioria dos políticos portugueses.
Onde está o futuro de Portugal? Quanto a mim, acredito que a língua é nossa melhor embaixadora, que os caminhos que abrimos pelos mares e nos levaram ao achamento do Brasil, a África e até Timor, são a rota instintiva a seguir para nos projectarmos no futuro e num planeta cujo eixo está a mudar. O eixo da Terra está a mudar, mas não é o fim do Mundo.
Há muito que se previa que o centro económico do planeta iria mudar-se do Atlântico para o Pacífico. Mas era uma leitura enviesada. A China é hoje a potência mundial óbvia, mas a América do Sul (e não apenas o Brasil), a Índia e África prefilam-se. O eixo não está a girar do Atlântico para o Pacífico, antes está a mudar de hemisfério, do Norte para o Sul.
Quando entendermos isso, saberemos como sair da actual crise e criar uma nova era de prosperidade. Não só Portugal, mas a Europa. Portugal tem que, hoje mais do que nunca, fortalecer os laços que teceu graças às suas Descobertas. Talvez assim Portugal se cumpra, como sonhou Pessoa. Quanto à Europa, não se pode fechar em fortaleza, tem que abrir-se ao Mundo, ou está destinada a que esses povos um dia lhe virem as costas. E se num futuro não tão longíquo a Europa demograficamente exangue precisar dos africanos? Ou se os europeus quiserem emigrar para a África vizinha, esse gigantesco território riquíssimo, que há-de tornar-se no continente emergente, e os africanos não quiserem lá os "refugiados" do velho continente ? A Europa não pode declinar em subúrbio flatulento da nova geografia mundial. Porque a geografia não é uma fatalidade, mas uma oportunidade.
O eixo da Terra está inelutavelmente a mudar mas, e nós, saberemos acompanhar o movimento da tectónica económica ?
José Luís Correia
in CONTACTO, 07/03/2012
quarta-feira, 7 de março de 2012
O eixo da Terra está a mudar
O eixo da
Terra está a mudar
Como se o
centro de decisões e de negócios nunca pudesse ter sido Lisboa e - inverta-se os papéis -, a Alemanha o "hinterland"
europeu ou o "arrière-pays" continental. Estas duas palavras não têm
infelizmente uma boa tradução em português, pois o seu equivalente "o interior" ("país
real" é uma invenção da TV-reality show dos anos 90!), não
comporta o significado de "afastado", "esquecido, lá para trás", que os termos alemão e francês abrangem. Felizmente, a
História não dá razão aos epitetos que nos cognominam e a geografia não é uma
fatalidade. Lisboa já
foi dona de metade do Mundo e o seu "handicap" de hoje - a
periferia -, foi na Era dos Descobrimentos a sua mais-valia. E exemplos como
este abundam através dos tempos. Babilónia ou a Pérsia foram já as regiões
mais civilizadas do mundo, depois em declínio e esquecidas durante milénios, foram
novamente trazidas para o tabuleiro mundial graças ao petróleo. Como é que
Alexandre Magno conseguiu fazer da sua encravada Macedónia o centro de um império
que se estendeu através de um quarto do globo até às portas da Índia?
Como é que uma cidade como Roma construiu um império que ia da África do
Norte ao Médio Oriente e da Alemanha à Escócia? Também a América Central e do Sul
viram proliferar as civilizações mais avançadas do seu tempo quando a Europa
atravessava "os séculos escuros".
Lisboa já
foi o rosto com que a Europa fitou o mundo, recorda-nos o nosso oráculo
nacional Fernando Pessoa, na sua "Mensagem". Será que percebemos
bem a mensagem? E se o
"recado" de Pessoa fosse "Mens Ag(itat Mol)em", ou seja,
que o espírito comanda o corpo, expressão repescada à "Eneida"
de Virgílio. Mas se a mente
comanda a matéria, Deus quer, o Homem sonha e a obra nasce, então a
inteligência não se deixa ditar desditas pela geografia. Até porque a geografia
"acabou" e o homem hoje sabe ser ubíquo.
É
armado desta
sabedoria, sem ligar a fatalismos bacocos e desculpando-se com a
"soi-disant" geografia, que o Dubai, por exemplo, sabendo próximo o fim
do reino do ouro
negro, está a fazer nascer hoje a megalópole de amanhã, das areias
inóspitas do
deserto e bairros inteiros em cima de ilhas artificiais. Do mesmo
modo, o Luxemburgo, este improvável país que se quis independente sem
que
ninguém no século XIX acreditasse na sua perenidade, nem mesmo os
luxemburgueses, soube antecipar o fim da siderurgia e lançar desde os
anos 60
os pilares de outras economias (os serviços, a praça financeira, as
telecomunicações,
a logística) que asseguraram o futuro. E o Ducado agrícola das hortas de
subsistência de há dois séculos soube atravessar as convulsões
hegemónicas e geo-económicas do século XX,
e tornar-se um país política e economicamente estável, um burgo
centripeta, que
atrai populações e empresas dos quatro cantos da Europa e do Mundo.
Saber
governar é saber prever. Qualidade que têm tido alguns (friso alguns) governantes luxemburgueses (até agora !) e
que tem faltado singularmente à maioria dos políticos portugueses.
Onde está o
futuro de Portugal ? Quanto a mim, acredito que a língua é nossa melhor
embaixadora, que os caminhos que abrimos pelos mares e nos levaram ao achamento
do Brasil, a África e até Timor, são a rota instintiva a seguir para nos
projectarmos no futuro e num planeta cujo eixo está a mudar. O eixo da Terra está a mudar, mas não é o fim do Mundo.
Há muito que se previa que o centro económico do
planeta iria mudar-se do Atlântico para o Pacífico. Mas era uma leitura
enviesada. A China é hoje a potência mundial óbvia, mas a América do Sul (e não
apenas o Brasil), a Índia e África prefilam-se. O eixo não está a girar do
Atlântico para o Pacífico, antes está a mudar de hemisfério, do Norte para o
Sul.
Quando entendermos isso, saberemos como sair da actual
crise e criar uma nova era de prosperidade. Não só Portugal, mas a Europa. Portugal tem que, hoje mais do que
nunca, fortalecer os laços que teceu graças às suas Descobertas. Talvez assim Portugal
se cumpra, como sonhou Pessoa. Quanto à Europa, não se pode fechar em
fortaleza, tem que abrir-se ao Mundo, ou está destinada a que esses povos um
dia lhe virem as costas. E se num futuro não tão longíquo a Europa
demograficamente exangue precisar dos africanos? Ou se os europeus quiserem
emigrar para a África vizinha, esse gigantesco território riquíssimo, que há-de
tornar no continente emergente, e os africanos não quiserem lá os "refugiados"
do velho continente ? A Europa não pode declinar em
subúrbio flatulento da nova geografia mundial. Porque a geografia não é uma fatalidade, mas uma oportunidade.
O eixo da Terra está inelutavelmente
a mudar mas, e nós, saberemos acompanhar o movimento da tectónica económica ?
(in CONTACTO, 07.03.2012)
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