sebenta de anotações esparsas, pensamentos ociosos, reflexões cadentes, poemas difusos, introspecções de uma filosofia mais ou menos opaca dos meus dias (ou + reminiscências melómanas, translúcidas, intra e extra-sensoriais, erógenas, esquizofrénicas ou obsessivas dos meus dias)
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cahier de notes éparses, pensées oisives, réflexions filantes, poèmes diffus, introspections d'une philosophie plus ou moins opaque de mes journées (ou + de réminiscences mélomanes, translucides, intra-sensorielles et extra-sensorielles, érogènes, schizophrènes ou obsessionnelles de mes journées)

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quinta-feira, 24 de abril de 2014

Fátima Marinho na Primavera dos Poetas do Luxemburgo, esta sexta e sábado

Foto: Primavera dos Poetas
A escritora e poetisa portuguesa que este ano representa Portugal na Primavera dos Poetas do Luxemburgo é Fátima Marinho.

Fátima Marinho vai estar no Grão-Ducado na sexta e no sábado (25 e 26 de Abril), em três dos eventos da Primavera dos Poetas.

Na sexta-feira, a poetisa tem encontro marcado com alunos num dos liceus associados à edição deste ano do evento. À noite, pelas 19h, a autora vai estar na Kulturfabrik, em Esch-sur-Alzette, na abertura oficial da Primavera dos Poetas, na qual participam alguns dos 14 poetas de 13 países europeus convidados este ano pela edição luxemburguesa deste festival europeu.

No dia seguinte, sábado, há a já habitual “Grande Noite da Poesia”, na Abadia de Neumünster, no Grund, com todos os poetas convidados. O serão, com entrada livre, é animado com música e gastronomia, e divide-se em duas partes: leitura de poemas e “jam session” poética.

Fátima Marinho nasceu em 1966 em Cuba e reside actualmente em Braga. O seu mais recente livro intitula-se “Ama-me sem me suportares!” (Editora Alphabetum). Foi professora e é co-autora com Eduarda Costa da colecção de livros escolares “Magia do Saber” (Porto Editora). Foi ainda adjunta do secretário de Estado da Educação. Dirigiu várias associações culturais e de apoio às crianças e jovens em risco, e desenvolveu projectos contra a violência no meio escolar.

Por tradição, a Primavera dos Poetas no Luxemburgo convida sempre um autor português ou lusófono. Já passaram pelo evento nomes como Vasco Graça Moura, Nuno Júdice, Mário de Carvalho, Rosa Alice Branco, Valter Hugo Mãe ou José Luís Peixoto.

A Primavera dos Poetas é uma iniciativa que nasceu em França e no Quebec (Canadá) em 1999, por iniciativa do então ministro francês da Cultura Jack Lang e do poeta francês Jean-Pierre Siméon.

Logo em 1999, o Luxemburgo organizou também o evento, por iniciativa do poeta italo-luxemburguês Jean Portante. Mas só em 2008 foi criado no Luxemburgo um Comité para a organização da Primavera dos Poetas-Luxemburgo (PPL). Assim, para alguns, esta é a 15a edição da Primavera dos Poetas no Luxemburgo, enquanto para outros é a sétima.

João Tordo a 8 de Maio no Luxemburgo 

Também o escritor português João Tordo é um dos autores que a Primavera dos Poetas-Luxemburgo vai trazer este ano ao Grão-Ducado.

Integrado no seu programa “Périphériques du Printemps des Poètes”, o filho de Fernando Tordo vai estar a 8 de Maio no Centro Cultural Camões, na cidade do Luxemburgo, para falar da sua obra e do seu último romance, “Biografia Involuntária dos Amantes”.


João Tordo nasceu em Lisboa em 1975. Licenciou-se em Filosofia e estudou Jornalismo e Escrita Criativa em Londres e Nova Iorque. Em 2001, venceu o Prémio Jovens Criadores na categoria de Literatura. Publicou os romances “O Livro dos Homens sem Luz” (2004), “Hotel Memória” (2007), “As Três Vidas” (2008), que recebeu o Prémio Literário José Saramago e cuja edição brasileira foi, em 2011, finalista do Prémio Portugal Telecom; “O Bom Inverno” (2010), finalista do prémio Melhor Livro de Ficção Narrativa da Sociedade Portuguesa de Autores e do Prémio Literário Fernando Namora, cuja tradução francesa integra as obras seleccionadas para a 6ª edição do Prémio Literário Europeu; e “Anatomia dos Mártires” (2011), finalista do Prémio Literário Fernando Namora.

O seu mais recente romance,”Biografia Involuntária dos Amantes”, saiu há poucas semanas. Os seus livros estão publicados em França, Itália, Brasil, Sérvia e Croácia. João Tordo trabalha ainda como cronista, tradutor e guionista.


José Luís Correia 
(in CONTACTO, 02/04/2014)

quarta-feira, 21 de março de 2012

À conversa com os escritores José Luís Peixoto e Altina Ribeiro

Emigração, filha bastarda da literatura portuguesa 
 


A emigração portuguesa vista por José Luís Peixoto e Altina Ribeiro. Duas gerações, duas experiências, dois livros sobre um tema que a literatura portuguesa ainda enjeita, lamentam os dois escritores.

A conferência com os escritores José Luís Peixoto e Altina Ribeiro, no domingo, no Salão do Livro do Festival das Migrações, acabou por ser totalmente dominada pelo tema da emigração. Ou não fossem os mais recentes romances dos dois autores dedicados a esse tema.

No caso de Altina Ribeiro, tanto o seu primeiro livro "Le fado comme seul bagage" (que vai ser adaptado para cinema por Anna da Palma), como o segundo, "Alice au pays de Salazar", falam da emigração. No primeiro fala de como emigrou para Paris com os pais, aos 9 anos, em 1969. O segundo é a história de uma amiga, que lhe pediu para contar em livro a sua experiência da emigração.

No seu último romance, intitulado "Livro", José Luís Peixoto inspira-se na emigração dos pais para França, também nos anos 60. "A emigração para mim é a história antes de mim, porque eles regressaram a Portugal após o 25 de Abril e eu nasci em Setembro de 1974", diz.

  Altina resume o seu primeiro livro, no qual fala de como se sentiu desenraizada, de como descobriu a electricidade pela primeira vez, do "décalage" intergeracional com os pais, da emigração clandestina, dos "bidonsvilles" (bairros de lata). Recorda como o pai foi "a salto" para França, quase dois mil quilómetros a pé e em camiões de gado. Altina tinha dois anos e recorda que não reconhecia o pai quando este voltava a Portugal. "Quando vinha, o meu pai era um estranho, eu até ficava aliviada quando ele se ia embora".

Para Peixoto, a emigração era o que ouvia das conversas entre os pais e as irmãs. Eram as "auto-rutas", os "auto-buses", os "fogos-ruges", os "magasins", uma linguagem codificada e misteriosa para a criança que José Luís era, confiou no altura em que lançou o livro, em 2010. "Quando falavam de França, eu ficava de fora". "Há muitos filhos de emigrantes que vão para Portugal para descobrir o país dos pais. Este 'Livro' é para mim o caminho inverso, sou eu a tentar descobrir a emigração que os meus pais viveram. E também foi para me descobrir a mim próprio. Sou da geração que se define pelo que não viveu: a ditadura, a revolução, a emigração, a guerra colonial. Graças a este livro percebi o contexto em que nasci".

Peixoto conta que a reacção que o "Livro" recebeu fez-lhe perceber que em Portugal se precisava de falar deste tema. "Algumas pessoas perguntaram-me se eu tinha feito muita pesquisa para escrever este livro. Parece que não se dão conta que a emigração ainda é uma realidade". E lamenta que nem os antigos emigrantes falem, nem o resto da população, para quem a emigração parece um acto consumado, quando esta nunca realmente cessou. "Não há muitos romances sobre a emigração portuguesa e isso é inacreditável, quando um milhão e meio de portugueses emigrou para França nos anos 60 e 70. A literatura portuguesa raramente aborda o assunto, é tabu, não se fala e há sobretudo muitos clichés", critica o escritor. "Não há uma relação pacífica com este tema. Eu não sabia que havia dificuldades em Portugal para falar nisto. Para mim foi fácil, porque não o vivi. Mas penso que escrever sobre isso pode tornar mais sã a nossa relação com o passado. Em Portugal temos um problema com muitas questões do nosso passado, não só com a emigração".

"Os emigrantes merecem um reconhecimento porque construiram dois países, o país que deixaram e para onde enviavam dinheiro, e o país onde trabalharam. Admiro-os porque se lançaram no desconhecido e seguiram os seus sonhos. Quem segue os seus sonhos faz o mundo avançar".

"O meu primeiro livro é uma homenagem aos meus pais e a todos os emigrantes", diz também Altina. "Eles não sabiam escrever, não tinham meios para contar essa experiência, essa dor, então contei-a eu".

Na sua relação com a emigração como noutros domínios, Peixoto considera que Portugal é "bipolar".

"Acho que o país precisa de uma psicanálise. Num dia, somos os maiores, não há Expo como a nossa, vamos ganhar o Mundial de Futebol. No outro, somos os mais desgraçadinhos". Para o escritor, Portugal "evoluiu demasiado depressa" no último meio século. "A imagem do país deixou de ser a velhinha vestida de preto e com bigode, para passar a ser a ponte Vasco da Gama. Não percebo porque temos orgulho numa coisa, e esquecemos e escondemos a outra. As duas coisas coabitam, essa velhinha de bigode é a nossa avó, e é muito triste ter vergonha da nossa avó. Temos que encontrarmo-nos como país nesses dois pólos", aconselha José Luís Peixoto ao deitar o país no divã.

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Entrevista com José Luís Peixoto

"Cada romance é uma 
experiência muito sentida"


CONTACTO: É a segunda vez que vem ao Luxemburgo...

José Luís Peixoto:
É a terceira! A primeira vez foi há 20 anos com os meus pais, viemos de carro e parámos aqui uma tarde... A segunda foi em 2009 para a Primavera dos Poetas e esta é a terceira vez.

CONT.: Como foi esta visita, no âmbito do Festival das Migrações?

J.L.P.:
Este festival deu-me a imagem da sociedade multicultural que o Luxemburgo é.

CONT.: O contacto com os seus leitores de cá foi gratificante?

JLP:
Desta vez aconteceu algo que nunca me tinha acontecido ainda no estrangeiro, que foi encontrar realmente muitas pessoas que já conheciam os meus livros. O meu último romance ["Livro"] toca a realidade da emigração portuguesa e foi muito gratificante perceber que o livro tinha chegado a algumas destas pessoas. Foi como lhes devolver algo que me deram de cada vez que estive com portugueses fora de Portugal.

CONT.: Nesse seu livro fala da emigração, inspirando-se na experiência que os seus pais tiveram em França nos anos 1960 e que faz parte da história "antes de si", como costuma dizer. Mas quando foi professor em Cabo Verde, também viveu a emigração...

JLP:
Estive lá apenas um ano e meio, e não considero que tivesse sido uma experiência de emigração. Primeiro, porque nunca pensei em ficar lá muito tempo, depois porque era um país de língua portuguesa, com muitas referências idênticas a Portugal, e não acho que seja comparável... A distância, claro, fez aperceber-me que só damos valor a certas coisas quando estamos longe.

CONT.: O miúdo que escrevia para o DN Jovem nos anos 1990, imaginava um dia viajar pelo mundo para falar dos seus livros?

JLP:
Não imaginava e confesso que nem sequer me permitia sonhar tanto. Eu tinha vontade de publicar livros, ter leitores e a escrita sempre na minha vida. Hoje, vivo coisas que nunca imaginei, como chegar aqui e encontrar pessoas que já leram o que escrevi, isso é fascinante. Enquanto escrevia nunca imaginei que pudesse ser esse o destino daquilo que escrevia. Mas, é verdade que escrever comporta essa transcendência, é lançar palavras para um horizonte que nunca conseguimos muito bem controlar.

CONT.: Hoje escreve pelas mesmas razões pelas quais escrevia na adolescência?

JLP:
Tento não perder de vista as razões que me levavam a escrever quando era adolescente, porque eram de um grande entusiasmo e pureza, que é muito importante manter. Crescer não significa recusar aquilo que fomos. Há características que importa nunca perder, como a capacidade de acreditar.

CONT.: Foi difícil vingar como escritor?

JLP:
O primeiro livro que publiquei, que não considero um romance, chama-se "Morreste-me" (2000), e foi lançado em edição de autor. Já tinha escrito aquele que viria a ser o meu primeiro romance, "Nenhum Olhar" (2000), e andava à procura de editor de uma forma muito simples, enviando manuscritos pelo correio. E não foi realmente muito fácil: ou não recebia respostas positivas ou não recebia resposta nenhuma. Foi assim durante cerca de um ano, até que recebi finalmente uma resposta de uma editora e as coisas evoluiram. Depois veio o Prémio Saramago em 2001 e um reconhecimento a vários níveis. Sinto que, mesmo que nada disso tivesse acontecido, eu teria continuado a escrever. Talvez escrevesse algo diferente, a minha vida teria sido talvez diferente. Mas, penso que essas dificuldades até foram positivas, porque são as dificuldades que nos fazem sentir a realização no momento em que as conseguimos ultrapassar.

CONT: Mas também passou por momentos muito difíceis...

JLP:
Esse tempo das dificuldades não foi enquanto escritor que as vivi, mas como professor, porque por vezes havia ordenados em atraso. Curiosamente quando passei do ensino para a escrita, foi passar para uma actividade instável, como é a escrita, mas vindo de uma actividade que não é particularmente estável, como é o ensino em Portugal. Os primeiros tempos não foram muito fáceis, porque ainda não escrevia para os jornais e as revistas com que colaboro hoje, nem tinha tantas solicitações. Mas, a pouco e pouco e com muito trabalho, as coisas foram-se consolidando. Hoje, a escrita passou a ser uma ocupação que, em termos de segurança, me permite viver de uma forma que acaba por ser muito mais estável do que se tivesse continuado no ensino, porque olho para os meus colegas e vejo a situação em que estão.

CONT.: Quer dizer que se pudesse falar hoje com o José Luís Peixoto que escrevia para o DN Jovem lhe diria para continuar a acreditar no sonho de escrever?

JLP:
(Risos) Sim, sim, sem dúvida... Eu tenho a grande sorte de ter descoberto, muito claramente, o que queria fazer, que era escrever. Nunca escrevi porque não pudesse fazer outra coisa, mas porque era exactamente isso que queria fazer. Hoje, continuo a ter o privilégio imenso de poder desenvolver a minha vida profissional nessa área.

CONT: Escreve poesia, teatro, ficção. Sente-se mais confortável em que disciplina?

JLP:
Cada uma dessas áreas dá-me um prazer diferente e aprendo com todas elas lições que utilizo depois em todas as outras. Hoje, os romances têm um lugar muito importante para mim. São como pilares de um templo que determinam a cronologia da minha vida. O romance é um género particularmente exigente, que obriga a uma vivência bastante intensa das personagens, das situações, e isso faz com que se misture muito com as impressões que estou a viver em cada momento. Por isso, cada romance é uma experiências muito sentida.

CONT.: Confiaram-me que aqui no Luxemburgo tem tentado escapar ao programa da estadia para tentar escrever ao máximo. Podemos esperar uma ficção cujo teatro é o Grão-Ducado?

JLP:
Já escrevi dois textos no Luxemburgo e espero escrever mais. Nunca se é completamente imune ao lugar onde se está. No entanto, não penso que vou escrever sobre o Luxemburgo, até porque escrever sobre algo necessita de uma certa reflexão e de um certo distanciamento. Penso que as visitas ao Luxemburgo, a darem algum fruto, será depois de eu as maturar bem.

CONT.: Está a trabalhar nalgum novo romance?

JLP:
Sim, tenho sempre um romance em preparação, pelo menos na cabeça, mas não quero ainda revelar muito sobre isso...

Posso dizer que em Abril vou publicar, pela primeira vez, um livro infantil. É para leitores muito sinceros, por isso estou um pouco ansioso. Até agora nunca tive que pensar que estava a escrever para uma faixa etária específica, mesmo se escrevia principalmente para adultos.

CONT.: E já testou em casa, com o seu filho de seis anos?

JLP:
Sim, já testei (risos), várias vezes até!

CONT: E o que anda a ler neste momento?

JLP:
Estou a ler "A arte de viajar", de Alain de Botton.  

Texto e Entrevista: José Luís Correia 
Fotos: Carlos de jesus
(in CONTACTO, 21/12/2011)  

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Leituras


Quando me aborreço de um, viajo para outro. Sou um leitor infiel, uma vadia literária. Mas assumo.

"Portugal a pé", de Nuno Ferreira: Incursão no país profundo ou Também isto é Portugal no século XXI

Acabo de ler o "Portugal a pé" (Ed. Vertimag, Novembro 2011) do jornalista Nuno Ferreira (ex-Expresso e ex-Público) e adorei.

Gosto de livros de viagens em geral, de Gonçalo Cadilhe (deu duas vezes a volta ao Mundo) a Miguel Sousa Tavares (viagens pelo deserto), passando por Bruce Chatwin e Paul Theroux (que adora viagens em comboio). Nuno Ferreira passará a ser o novo autor com quem deverei contar na minha prateleira das viagens.

"Portugal a pé" conta a sua aventura pela província profunda, de Sagres a Cevide, a aldeia mais a Norte de Portugal, calcorreando o Barrocal algarvio, subindo pela raia alentejana, deambulando pelas Beiras, vencendo a neve na Serra da Estrela, puxando até Trás-os-Montes, desbravando o Minho. Um incursão no país real, como agora se diz. Entre Fevereiro de 2008 e Novembro de 2010.
Primeiro há a coragem de um homem em enfrentar a estrada, a geografia, a natureza e os elementos. Depois, a vontade de um jornalista de escrever sobre o que também é Portugal neste princípio de século XXI. 

Uma das primeiras pedradas no charco que o autor dá, e bem, é desmistificar a tal hospitalidade que dizem que é "natural" nos portugueses. Afinal, como eu próprio já o vivi, os portugueses tanto sabem ser acolhedores e hospitaleiros como provincialmente carrancudos e desconfiados.  Esta é uma característica que o autor vai, infelizmente, encontrar em todos os cantos do país. Passou por ladrão, pedinte, drogado, vagabundo e até contrabandista.
Gostei deste mapa do país, longe das grandes urbes, porque há mais Portugal do que o do Terreiro do Paço, há um Portugal a agonizar longe da capital, mas também a encontrar soluções geniais para (sobre)viver, com bibliotecas ambulantes, ecomuseus, turismo rural e televisões regionais.  

Neste retrato fiel de Portugal no princípio do século, numa mesma aldeia coexistem os cibercafés e as carroças de burros. Num momento, o jornalista escreve no seu laptop num castro recuado no Minho, no outro conversa com velhos que só já têm como ocupação ver passar a vida inexorável, sentados na soleira da porta de casa, encostados ao balcão em pedra de uma taberna, disfrutando de um bagaço, de um café e de um cigarro, ou maldizendo a vida porque têm de tratar da horta sozinhos, porque os filhos emigraram todos para Lisboa ou para França. 
Nuno Ferreira cruza-se com ciganos, dos que pedem dinheiro, mas também dos que o convidam para dormir a sesta junto ao acampamento, dos que têm uma carroça, mas também dos que vão de automóvel à cidade, cruza-se com gente tacanha, provinciana, que corre a esconder-se em casa quando o viajante forasteiro assoma à entrada da aldeia, mas também conhece pessoas afáveis que o convidam naturalmente a partilhar uma sopa, um borrego ou uma lampreia em convívio fraternal, em espírito familiar até. Tudo isso também é Portugal hoje.
Gostei de como o autor conta as situações que viveu, da radiografia às gentes, dos bons momentos e das situações extremas, como aquela em que se perdeu no Marão, ficou pendurado numa falésia e teve de ser resgatado pelos bombeiros de Baião. E de como um dos jovens soldados da paz arriscou a própria vida para o salvar. 
Este é o Portugal que existe, que vive, que sofre, que vibra, que é abnegado e não resignado...
Nuno Ferreira fala-nos in loco das mazelas da desertificação do país rural, das vivendas de emigrantes - amarelas, roxas, com torreões germânicos e telhados suíços, fechadas o ano inteiro - que descaracterizam as aldeias típicas, do envelhecimento demográfico da província, entregue a si mesma, esquecida pelo poder central, de horizontes inteiros desolados que hoje são apenas cinza, dizimados pelos incêndios do Verão português. 
Com este testemunho de Nuno Ferreira, essas realidades, que todos conhecemos mas das quais não temos verdadeiramente a noção (não, não temos, acreditem!), deixam de ser apenas uma estatística e uma banal reportagem de 2 minutos no final de um telejornal, que esquecemos coniventes entre o jantar e a telenovela.
Mas o autor também nos recorda e nos faz (re)descobrir as belezas esquecidas e escondidas do nosso país, as praias fluviais naturais, as cascatas majestosas, a pureza de muitos rios portugueses, a magnificência dos montes, das matas e das florestas nacionais, das praias algarvias (ainda) não devastadas ou dos montados alentejanos sumptuosos no seu sossego.
Gostaria que o autor tivesse falado mais de coisas pessoais, ou melhor, de como viveu certas coisas interiormente. Diz às tantas que leva livros na mochila, eu gostaria que tivesse falado mais dessas leituras e das suas viagens interiores. Gostaria que todo o livro fosse mais pessoal, à semelhança do "capítulo-confissão", em que se entrega ao leitor, admitindo que voltou a cair no alcoolismo nesta sua viagem por Portugal. Um país onde alcoolismo rima com hospitalidade. "Vai mais uma Aldeia Velha? Um café com cheirinho?", todos conhecemos esta "hospitalidade" de café. Como recusar um último bagaço, um "medronho amigo" a quem nos recebeu calorosamente? Foi um dos capitulos que mais gostei. Acho que é preciso muita coragem para se ser sincero com quem nos lê.
O autor confia neste seu diário de viagem que é muitas vezes interpelado com a pergunta de porque está a fazer esta jornada a pé, se é promessa, se é peregrinação a Fátima, perguntam se não tem carro, "atão, mas nem uma bicicleta tem?...". 
Eu acredito que esta viagem ao país verdadeiro só podia mesmo ser a pé, o que lhe permitiu ter o tempo e o vagar de parar e conversar, observar, ver acontecer, viver e conviver, e partilhar o pulsar de cada povoação. Parabéns ao Nuno Ferreira por este trabalho que ainda ninguém tinha feito, uma incursão feita na primeira pessoa no país profundo. Um livro pioneiro.
Nuno Ferreira prepara-se para regressar à estrada e fazer "Os Açores a pé". Eu aguardo pacientemente pelo seu segundo livro desta colecção, que poderá vir a ser um tríptico e que passará a ser obrigatório em cada biblioteca portuguesa.
José Luís Correia

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Quando a ficção científica também é filosofia

Duas obras marcaram-me neste últimos dias: "Replay" e "The Man from Earth".

A primeira obra é um livro de Ken Grimwood (1987) e aborda a reincarnação de uma forma nova e original. Em vez de a alma "saltar" de corpo em corpo, ao longo das gerações e das eras, o personagem principal de Grimwood, Jeff Winston, um rádio-jornalista de 43 anos, morre em 1988 e volta a acordar em 1963 no seu próprio corpo, de 18 anos. Vinte e cinco anos depois, game over e replay. Over and over again...

Se a reincarnação serve para que a alma melhore e se aperfeiçoe em cada "descida" à Terra, acreditam os budistas, a personagem de Grimwood vai servir-se dos seus primeiros replays para não casar com a mesma miúda, fazer vida de hippie e sexo desregrado nos anos 60, sair da Universidade sem diploma, apostar nas corridas de cavalos das quais já conhece os resultados e com isso fazer fortuna, jogar na bolsa apostando providencialmente em pequenas empresas dos anos 70 como a Apple, arrecadar milhões e construir um império na boa tradição americana do self made man.

Ao longo dos replays, Jeff repara que apesar de ter escolhido de cada vez vias diferentes para chegar a 1988, isso não lhe traz a felicidade e a serenidade a que almeja.

O final é inesperado, até para mim que estou habituado a devorar tudo o que são livros, filmes e histórias sobre universos paralelos, realidades alternativas e viagens no tempo.

Atenção, spoiler: Depois de muitos replays, Jeff nota que acorda cada vez mais tarde ao regressar ao passado: em 1963, depois em 1965, depois nos anos 70 e no final, apenas a alguns momentos de voltar a morrer. A evidência impõe-se: chegará um momento em que deixará de haver replays e morrerá "de vez". No momento em que espera esse derradeiro replay... o tal ataque de coração, que já o fulminara centenas de vezes antes, simplesmente não acontece. E a vida continua, como se nada fosse...

Mas é só com toda a experiência das suas mil vidas diferentes que o jornalista vai perceber o que deve fazer para procurar a felicidade. E que nunca é tarde demais.

A Warner Bros comprou os direitos da obra de Grimwood, mas nunca chegou a realizar o filme. Sobretudo depois de em 1993 a comédia "Groundhog Day", com Bill Murray e Andie MacDowell, ter estreado. O autor tentou processar os produtores de "Groundhog Day", mas em vão. Grimwood morreu em 2003 de... um ataque de coração. Os fãs continuam à espera de um filme. Diz-se que Ben Affleck estaria a tratar da produção.



A segunda história chama-se "The man from Earth" e é um filme realizado por Jerome Bixby.

1998. Um professor de história, John Oldman prepara-se para mudar-se para outra cidade. Os amigos, quase todos também professores na Universidade, não entendem bem porquê, até porque o brilhante professor, apesar de ainda nos seus 30 e tais, chegou recentemente a chefe do seu departamento na faculdade.

John hesita, mas acaba por explicar aos amigos a razão da sua partida. E o que começa como uma brincadeira vai depressa tornar-se um momento alucinante para os que o pensavam conhecer.

John começa por contar que teve a oportunidade de viajar com Cristóvão Colombo, mas nessa época ele ainda acreditava que a Terra era plana e temia mesmo cair de uma das suas bordas.

Os amigos brincam com ele e riem-se da partida que este está a querer pregar-lhes. John confia que pensa ter mais de 11 mil anos - perdeu as contas, diz. Lembra-se de ter nascido ainda na Idade da Pedra, a sua "primeira vida" viveu-a com uma tribo das cavernas. E enquanto os outros iam envelhecendo e falecendo à sua volta, ele nunca morria.

A tribo começou por escolhê-lo como feiticeiro e chamane, mas temendo o que não compreendiam, expulsaram-no do grupo. Foi nómada, viajou a pé pelas florestas da Europa, trocou dezenas de vezes de tribo, seguindo em direcção aos territórios mais ricos em caça. John diz lembrar-se que o tempo aqueceu há cerca de 8 mil anos, viu as águas separar a França da costa britânica. Participou na construção das primeiras cidades, durante dois mil anos foi sumério, cidadão em Ur, conheceu o rei sumério Hamurabi pessoalmente. Viajou para o leste e foi discípulo de Buda, foi etrusco, assistiu à ascensão e à queda do império romano, foi amigo de Van Gogh...

O sorriso divertido dos amigos vai desaparecendo à medida que estes - eminentes professores de Biologia, Arqueologia, Psicologia, Antropologia - lhe fazem perguntas e as respostas parecem verosímeis.

Mas a revelação mais perturbante de todas está ainda para vir, quando John aproxima os ensinamentos de Buda dos que Jesus Cristo tentou transmitir.

Dois dos seus amigos ficam irritados com ele, os outros sentem-se perdidos, num misto de fascinação, curiosidade e incredulidade.

Preocupados com ele, três dos seus amigos já não o querem deixar partir, acham que ele precisa de ajuda psiquiátrica.

E é aí, que John diz que foi tudo uma brincadeira. A não ser que seja apenas para se ver livre dos seus amigos...


Gostei desta história porque explora a viagem no tempo, mesmo se neste caso é a eternidade que está em questão; a vivência de vidas diferentes, sem recorrer a reincarnação. Mas também aqui, as mil vidas de John Oldman (trocadilho) serviram para este ir aprendendo com a Humanidade. E por isso apreciei como, durante o decorrer da história, a serenidade de John nunca descai, como se fora realmente dotado de uma sabedoria não só antiga como sem idade. Ou como eu gosto de imaginar que fosse.

Outros dos aspectos desta história que apreceei é o facto de John dizer que os factos históricos que ficaram para a posteridade nos livros, nos manuais oficiais, nem sempre aconteceram como nos são elatados e como os estudamos. Ou foram deturpados voluntariamente ou o tempo foi limando, escolhendo, pormenores que não o são e que nunca o foram.

Um filme que pede um livro

O meu primeiro reflexo foi pensar: "isto dava uma peça de teatro hilariante". Depois procurei o livro e descobri que além de ser um recôndito filme que só saiu em DVD, o argumento não existe em versão impressa.

A obra estreou directamente em filme em 2007, mas passou completamente despercebida. Primeiro porque nem sequer saiu nas salas de cinema, saiu directamente em DVD. E só chegou à Europa este ano.

As grandes produtoras habituadas aos blockbusters não acreditaram no filme talvez pelo seu lado despojado em termos de cenários, porque não tem absolutamente nenhuma cena de acção, porque conta apenas com oito personagens, que se envolvem num diálogo surrealista. Demasiado surrealista para o grande público?

É, no entanto, esta história merece ser contada.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

A rentrée literária em Portugal

Portugal tem muitos e bons livros que vão marcar a rentrée literária.

Uma das novidades é “Apocalypse Baby”, da polémica escritora francesa Virginie Despentes. A obra venceu o prémio Renaudot 2010, que em Portugal a editora Sextante publica. Trata-se de um road story de uma investigadora privada contratada para encontrar a filha desaparecida de uma família rica.

“Fall River e outros contos dispersos”, de John Cheever é outra das novidades que a Sextante lança, mas em Outubro. Cheever (1912-1982) é considerado um dos maiores escritores norte-americanos do século XX. O livro reúne contos dispersos dos anos 1930 e 1940.

No mesmo mês, a Porto Editora publica “O Quarto de Jack”, de Emma Donoghue, finalista do Man Booker Prize 2010. Trata-se de uma espécie de conto de fadas negro, narrado por um menino de cinco anos, cuja visão do mundo está limitada às paredes do quarto onde vive fechado com a mãe, o que desencadeará um olhar muito diferente sobre o universo exterior. A Porto Ed. reedita ainda “As Rosas de Atacama” de Luis Sepúlveda. O novo romance do chileno está previsto para Fevereiro do próximo ano.

Em Novembro, a Sextante publica “A Filha do Coveiro”, um dos grandes romances de Joyce Carol Oates, a “Harpa de Ervas”, de Truman Capote, “El Cuaderno de Maya”, o mais recente romance de Isabel Allende, e “Rixa de Gatos”, com que o escritor catalão Eduardo Mendoza venceu o Prémio Planeta 2010. Esta última história desenrola-se antes da Guerra Civil espanhola (1936-1939). A Sextante lança ainda “Macedo – Uma biografia da Infâmia” de António Mega Ferreira, a biografia de José Agostinho Macedo, um ser detestável que viveu na transição do século XVIII com o XIX.

Para Novembro, a Porto Editora coloca nos escaparates o romance “O Horizonte”, de Patrick Modiano, considerado um dos maiores escritores franceses da actualidade (nasceu em 1945). O livro conta a história de um aspirante a escritor em Berlim.

Nesta rentrée literária, a Babel propõe os contos policiais “Os Crimes dos Viúvos Negros”, de Isaac Asimov. O autor, mais conhecido por ser um dos vultos maiores da ficção-científica do séc. XX, conta aqui como um grupo de cavalheiros se dedica a investigar mistérios sem se levantarem da poltrona do seu clube de gentlemen.

A Babel põe ainda nos escaparates uma biografia de Camilo Castelo Branco. Com selo da Verbo, “15 Dias de Febre”, de Maria do Carmo Castelo Branco, é uma inovadora "autopsicografia" (termo inventado pelo escritor austríaco Hermann Broch, 1886-1951) de Camilo Castelo Branco. A autora põe Camilo a falar da sua vida antes e depois da sua morte, a conversar com os seus críticos, e a falar de literatura e até das novas tecnologias.

Com a chancela da Ulisseia, a Babel lança o romance “Uma Espécie de Sono” de Henry Roth, considerado pela crítica como o pai da narrativa norte-americana do século XX. Esta é uma obra semi-biográfica que acompanha a vida no gueto judaico de Nova Iorque através de um personagem que se vai integrando na sociedade mas que, simultaneamente, perde a individualidade e a voz. Trata-se de uma espécie de "Ulisses" (James Joyce) da literatura norte-americana.

Outra história judaica é a contada por Isaac Bashevis Singer, Nobel da Literatura 1978, em “Satã em Goray”, inédito em Portugal. Trata-se de um romance histórico cuja acção decorre numa aldeia judaica perto da cidade de Lublin (Polónia), entre o século XVII e os anos 1930.

“Uma Parte do Todo”, do australiano Steve Toltz, finalista do Booker Prize 2008, é outra das apostas da Ulisseia e conta uma saga familiar nesse país-continente que é a Austrália.

“O Gene da Dúvida”, de Nicos Panyotopoulos, sai em Outubro, e conta como num futuro próximo um cientista isola o gene do génio e como as editoras começam a exigir que os seus autores façam o teste para verificar se são ou não génios.

No mesmo mês, sai ainda “A Última Criança”, de John Hart, thriller vencedor do Edgar Award para melhor policial literário e do Silver Dagger (prémio homólogo britânico), e “Tudo o que Poderíamos Ter Sido Tu e Eu Se Não Fôssemos Tu e Eu”, de Alberto Espinosa, apelidado pela crítica como “o Murakami espanhol”.

valter hugo mãe lança quinto romance sobre a vontade de ser pai

A Editora Objectiva lança este mês o o quinto romance do escritor e poeta valter hugo mãe (na foto ao lado, foto de Nelson d'Aires), “O Filho de Mil Homens”, a história de Crisóstomo, um homem infeliz de não ser ainda pai aos 40 anos, tristeza que o autor confiou partilhar com a sua personagem.

Ainda este mês, a Objectiva aposta na mais recente romance do “enfant terrible” da literatura francesa, Michel Houellebecq. “O Mapa e o Território”, que arrebatou o prestigiado prémio Goncourt 2010. O livro satiriza o mundo da arte parisiense e descreve com frieza clínica a miséria afectiva e sexual do homem moderno, em solidão absoluta.

Também galardoado – desta vez com o prémio francês "Fémina Étranger 2010" e o prémio de Livro Europeu do Ano 2010 – foi o romance da jovem autora prodígio finlandesa Sofi Oksanen, “Purga”, outro das obras que sai pela Objectiva. Uma história de amor na Estónia de 1992, depois de o país ter sido libertado da União Soviética. Oksanen, de 32 anos, venceu em 2008, ano de publicação do seu romance na Finlândia, os três maiores prémios literários do país.

A editora publica também não-ficção, como “O Crepúsculo de Um Ídolo”, do filósofo francês Michel Onfray. Neste, Onfray põe em causa Freud, argumentando que o “pai” da Psicanálise transformou os seus próprios instintos e necessidades fisiológicas numa doutrina com pretensões de universalidade.

O destaque das novidades de ficção na Dom Quixote vai para “Némesis”, o mais recente romance do norte-americano Philip Roth, autor vencedor do Booker 2011 e eterno candidato ao Nobel, que será publicado em Novembro. “Némesis” é a história de Buck Cantor, o monitor de um recinto de jogos, lançador do dardo e halterofilista de 23 anos, que trava uma guerra pessoal contra a epidemia de poliomielite que atinge alguns dos jovens a seu cargo. Ao contá-la, Roth conduz os leitores “pelo itinerário meticuloso das emoções que semelhante epidemia pode gerar: o medo, o pânico, a revolta, a incredulidade, o sofrimento e a dor”, indica a editora.

Outros títulos da rentrée da Dom Quixote são, em Outubro, “O Filho do Desconhecido”, de Allan Hollinghurst, nomeado para o Booker Prize 2011, e este mês, “A Grande Casa”, de Nicole Krauss, e “A Bofetada”, de Christos Tsiolkas, romance vencedor do Commonwealth Prize e nomeado para o Man Booker Prize que está a ser adaptado para uma série de televisão e cuja história parte precisamente da bofetada que um homem dá a uma criança de três anos durante um encontro de amigos – um acto isolado que irá repercutir-se nas vidas das oito pessoas que dele foram testemunhas.

Na Teorema, sai em Novembro “Alvo Nocturno”, do argentino Ricardo Piglia, que foi considerado um dos melhores livros de 2010 em Espanha.

Na Objectiva sai em Outubro “Rixa de Gatos”, mais um título do catalão Eduardo Mendoza, Prémio Planeta 2010, cuja obra completa está a ser publicada em Portugal pela Sextante.

“A Viagem de Autocarro”, de Josep Pla – escritor primordial da cultura catalã - é o novo título da colecção de literatura de viagens dirigida pelo jornalista Carlos Vaz Marques (colaborador da revista "Ler"). Segundo o jornalista, este livro “pode ser considerado o paradigma daquilo com que Pla nos faz sorrir a cada passo: ao longo de 100 km de poesia e humor, ele conduz-nos através de uma deliciosa espontaneidade, mas que não exclui as reflexões mais profundas”.

A editora Ahab propõe, este mês, o livro de contos “Uma Vasta e Deserta Paisagem”, de Kjell Askildsen, uma obra distinguida com o Prémio da Crítica Norueguesa, que apresenta aos leitores, com ironia e humor negro, personagens solitárias que se movem num mundo de sentimentos emudecidos e tensões latentes.

Seguem-se, em Outubro, “Postais de Inverno”, de Ann Beattie, e “A Visita do Médico Real”, de Per Olov Enquist, considerado um dos melhores autores suecos contemporâneos. Trata-se de um romance que lhe valeu três prémios: o August Prize, o Independent Foreign Prize e o Prix du Meilleur Livre Étranger, este último em França.

Com a chancela da Eucleia chega este mês às livrarias o romance “Não Humano”, do japonês Osamu Dazai, um best-seller no Japão, com mais de 10 milhões de exemplares vendidos.

Em Outubro, esta nova editora publicará “Necrópole”, um romance do colombiano Santiago Gamboa que foi prémio internacional La Otra Orilla, “A Arte de Chorar em Coro”, do dinamarquês Erling Jepsen, um romance já adaptado ao cinema, e “Quanto mais depressa ando, mais pequena sou”, da norueguesa Kjersti Annesdatter Skomvsvold, um romance que lhe valeu o prémio Tarjei Vesaas para primeira obra.

O Clube do Autor publica “A Livraria”, o segundo romance da escritora britânica Penelope Fitzgerald, finalista do Booker Prize, que conta a história de Florence Green, uma viúva que em 1959 investe uma pequena herança que recebeu para abrir uma livraria numa casa com fama de ser assombrada na vila costeira de Hardborough e aí desencadeia “um terramoto” ao colocar à venda o romance “Lolita”, de Vladimir Nabokov.

A Gradiva publica, do italiano Umberto Eco, o ensaio “Construir o Inimigo”, bem como uma nova versão do romance “O Nome da Rosa”, obra que o celebrizou internacionalmente, e ainda “O Haiku das Palavras Perdidas”, de Andrés Pascual, e “Nagasaqui”, de Eric Faye.

Na Casa das Letras é editado em Novembro o primeiro de três volumes do mais recente romance de Haruki Murakami, “1Q84”, ficando os outros dois para 2012.

A Quetzal propõe “Ravelstein”, de Saul Bellow, e “O Segundo Avião”, ensaio de Martin Amis – dois autores cuja obra completa está a publicar, e em Outubro, “A Curva do Rio”, o romance de estreia do Nobel da Literatura 2001, V.S. Naipaul, com que inicia também a edição da obra do autor.

Oficina do Livro reedita "Os Cinco"

A famosa série “Os Cinco” (The Famous Five, no original), da escritora inglesa Enid Blyton, regressa este mês numa nova reedição da Oficina do Livro. "Os Cinco na Ilha do Tesouro” (1942) e “Nova Aventura dos Cinco” (1943) são os dois primeiros títulos, numa colecção que inclui 21 volumes.

Esta nova edição portuguesa inclui uma nota da neta de Enid Blyton, Sophie Smallwood.

Estima-se que mais de 600 milhões de exemplares dos quase 800 livros da escritora inglesa tenham sido vendidos em todo o mundo, e traduzidos para 40 línguas. Blyton é também a autora de “Os Sete”, “As Gémeas” e do Noddy. A autora morreu em 1968, aos 71 anos. Em Fevereiro deste ano foi descoberto um texto inédito, alegadamente da sua autoria, intitulado "Mr Tumpy's Caravan", datado de 1938.

LUSA (com algumas adaptações do autor do blogue)

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Escritor Urbano Tavares Rodrigues acredita que futuro vai trazer "movimentos de revolta" e "uma sociedade mais igualitária"

O escritor Urbano Tavares Rodrigues defendeu recentemete que virão movimentos de revolta e surgirá uma nova sociedade mais igualitária e ecológica.

O escritor falava durante a apresentação do seu mais recente livro, "Assim se esvai a vida", que reúne além desta novela ainda os textos, "O cornetim encarnado" e "Os olhos do demónio e Outros contos".

"Assim se esvai a vida" é uma narrativa que começa antes do 25 de Abril de 1974 e se estende até à actualidade.

Tavares Rodrigues, que fez parte da resistência ao Estado Novo e foi preso por três vezes, disse acreditar que "novos tempos" surgirão em breve.

"O capitalismo neo-liberal atravessa uma crise estrutural que é uma espécie de suicídio, vai autodestruir-se e vão surgir movimentos de revolta e sociedades novas que têm de ter uma feição ecológica e uma divisão mais igualitária dos bens", vaticina o escritor.

"Vivemos problemas gravíssimos de destruição do meio ambiente, da natureza, do mundo em que vivemos".

No futuro "a divisão dos bens terá de ser equilibrada, terá de haver uma grande liberdade de expressão e de crenças religiosas, e será tendencialmente mais igualitária".

"Assim se esvai a vida"


A novela "Assim se esvai a vida" foi escrita "num impulso, apaixonadamente, quase sem pensar, num mês apenas", disse, reconhecendo "haver perigo" no convívio narrativo entre personagens ficcionais e reais.

Natália Correia, Nikias Skapinakis, Francisco Sousa Tavares são algumas personagens aludidas, tal como o próprio escritor que na "conjura da Sé" estava destinado a dirigir o jornal O Século.

"O Nikias substituiu o Vasco Gonçalves no comando da brigada de assalto. Isto é História de Portugal", sublinhou.

Outras personagens reais acabaram por se autonomizar e tornar-se ficcionais, como "é o caso de Pedro Manuel de Athaíde pensado no início como sendo o Luís de Sttau Monteiro, mas que no fim evolui de outra maneira”. Já Augusto Mozart “é claramente o Augusto Abelaira", disse.

Urbano Tavares Rodrigues reconhece "muito de autobiográfico" na personagem do escritor Felisberto Roxo, até pelos seus rompantes amorosos.

"Gosto muito de mulheres, em tudo, como namoradas, amantes, amigas, e fiz das mulheres as personagens dos meus romances e dei-lhes uma visão do mundo", disse.

"O cornetim vermelho"

"O cornetim vermelho" é claramente autobiográfico, são apontamentos do dia-a-dia, reflexões do escritor.

"É o ver o mundo para lá do meu terraço, a partir de acontecimentos a que assisti ou que me chegam através da televisão", explicou.

Tavares Rodrigues sempre registou apontamentos, reflexões e, mesmo preso sem direito a ler e escrever, arranjou forma de o fazer.

"Pedi para ler a Bíblia, já que me recusavam tudo, e o director veio ter comigo dizendo que sabia que eu não era católico, mas talvez me fizesse bem", recordou.

Conseguiu uma carga de esferográfica e escreveu em papel higiénico duro. Estes escritos fê-los "passar" quando saiu da cadeia e deram origem a três títulos, entre eles "A estrada de morrer".

Em "O cornetim vermelho", afirmou, "há algo de combativo, até pelos poemas que tem e que são vozes de combate".

"Os olhos do demónio e outros contos"

O terceiro título reúne contos, a que o autor chama "micro narrativas".

"Através de um grande poder de síntese consigo contar uma história ou definir uma personagem", explicou. "Alguns podem ser mote para um romance, não sei, a ver vamos", confiou.

Ainda longe de pensar no próximo romance, Urbano Tavares Rodrigues editará no Outono o terceiro volume das obras completas, um ensaio - "A natureza do acto criador", um livro de contos e a poesia completa.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Novo livro de Luísa Costa Gomes: "Ilusão (ou o que quiserem)"

A escritora Luísa Costa Gomes lançou há pouco "Ilusão (ou o que quiserem)", na editora Dom Quixote. Esta obra marca o regresso da autora aos romances, depois de "Educação para a tristeza" (1999). A sua últioma obra em data, "A pirata", de 2006, era antes uma biografia ficcionada.

"Ilusão (ou o que quiserem)" conta a história de um actor e de uma professora e, aborda, por exemplo, o tema do mundo virtual "Second Life". Segundo a autora, o romance debruça-se sobre a problematização do naturalismo/realismo dominante.

"Vivemos hoje uma arte naturalista ou realista mas nunca fomos capazes de a problematizar e de pôr em causa esse realismo, é mais arte pop que outra coisa. Aquilo que eu queria que estivesse lá no romance era a problematização da relação entre a realidade, a ilusão e o realismo", disse na apresentação pública do romance.

Foto: do site da autora (será retirada se esta assim o solicitar)

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

valter hugo mãe prepara novo romance para fevereiro

o poeta, cantor e romancista valter hugo mãe está a ultimar um novo romance, previsto estar nos escaparates em fevereiro. segundo o que li na imprensa, será uma história de um velho à espera da hora da morte.

a história explora o sentimento de espera da morte, da tristeza e do "inferno" que é para algumas pessoas a velhice, mas inclui também partes cómicas e loucas, confiou valter. o autor revela que esta história não será tão "acelerada" e "enlouquecida" como "o apocalipse dos trabalhadores", "o remorso de baltazar serapião" (prémio josé saramago 2007) ou "o nosso reino", os seus três anteriores romances. mas as minúsculas, que são uma das características da escrita do jovem escritor, não deverão desaparecer. como ele me confiou, quando tive o prazer de o entrevistar há ano e meio, a escolha das minúsculas deve-se à vontade de acelerar a narrativa e a leitura para o leitor.

além destes três romances, valter hugo mãe, 38 anos, natural de vila do conde e hoje residente na cidade do porto, é autor de várias recolhas poéticas e dois livros infantis. recentemente enveredou pelas lides musicais com a banda Governo, da qual é letrista e vocalista, e que inclui ainda henrique fernandes, antónio rafael e miguel pedro, estes dois últimos membros dos mão morta. o primeiro álbum "propaganda sentimental" já está à venda.

na sua breve passagem pelo luxemburgo, em abril de 2008, para participar na primavera dos poetas, depois de ler alguns dos seus poemas, recordo como valter fizera questão de dar um ar da sua graça (e da sua voz) entoando uma canção, o que revela que este projecto era uma vontade mais que latente do autor.

links úteis:
valter hugo mãe no myspace
site oficial de valter hugo mãe
casa de osso - o blogue do escritor
governo no myspace

p.s.: penso que a fotografia é do próprio valter e será retirada a pedido do autor

sábado, 7 de novembro de 2009

Cartas inéditas de T.S. Eliot desmentem fama de marido cruel e insensível

Cartas até agora inéditas que o poeta Thomas Stearns Eliot (1888-1965) escreveu nos anos 20 reflectem a sua preocupação pela mulher doente e desmentem a fama de marido cruel e insensível, pelo menos até ao internamento daquela numa clínica psiquiátrica.

Essas cartas, a que "The Sunday Times" se referiu na sua última edição, mostram um Eliot crescentemente desesperado com os problemas médicos de Vivien, com a qual se tinha casado em 1915, aos 26 anos.

Numa das cartas, enviada ao romancista e crítico John Middleton Murry, Eliot conta que a mulher passara tão mal que durante três dias ela tivera a sensação de que a mente lhe abandonara o corpo.

Eliot descreve a sua própria angústia: "Matei deliberadamente os meus sentidos, matei-me deliberadamente, para poder continuar com esta vida que é apenas exterior".

A fama do marido insensível que acabaria por internar a mulher num asilo psiquiátrico deve muito à obra de teatro "Tom e Viv", de Michael Hasting, estreada em 1984 e transposta para o cinema com Willem Dafoe no papel de Eliot e Miranda Richardson no de Vivien.

As cartas, compiladas com a ajuda da segunda mulher do poeta, Valerie, serão publicadas esta semana no Reino Unido.

Eliot, empregado no banco Lloyds de Londres, continuou o seu trabalho, de que não gostava, porque necessitava de ganhar dinheiro para manter na clínica a mulher doente, e ao mesmo tempo escrevia poesia e ocupava-se da revista literária "The Criterion".

O responsável da publicação das cartas, John Haffendon, disse não estar seguro de que as cartas possam ser tomadas "à letra", mas reconheceu que "estas e muitas outras deixam bem claros o seu desespero e a sua angústia".

Há também cartas da própria Vivien em que expressa ao poeta a sua preocupação e o seu amor por ele. Numa delas, datada de 1925, Vivien pede-lhe que a desculpe por o torturar e enlouquecer.

Um mês mais tarde, Vivien escreveu à criada do casal, Ellen, a pedir-lhe que dissesse ao marido que o amava e o amaria sempre.

Segundo o editor das cartas, tanto Eliot como a mulher estavam doentes, mas o certo é que ele e o cunhado acabaram por a internar num asilo psiquiátrico, onde permaneceria entre 1938 e 1947, um ano antes de o poeta ser distinguido com o Prémio Nobel de Literatura.

Sabe-se também que Eliot nunca a visitou na clínica, embora continuassem casados.

O segundo lote de cartas será publicado dentro de dois anos, e uma das principais revelações, assinalou o editor, é a de que Eliot, considerado um anti-semita, tinha amigos judeus.

A correspondência cruzada com um dos seus amigos, o académico norte-americano Horace Kellen, mostra que, durante a Segunda Guerra Mundial, o poeta ajudou refugiados judeus a fugirem para os Estados Unidos.

"Não há provas de anti-semitismo algum na correspondência que examinei", asseverou Haffenden.

Opinião diferente tem Anthony Julius, autor de um livro em que analisa os alegados sentimentos anti-semitas na obra Eliot e concretamente em poemas como "Gerontion", "Burbank with a Baedeker: Bleistein with a Cigar" e "Sweeney among the Nightingales".

Eliot - disse Julius ao 'The Sunday Times' - "fez-se eco dos lugares comuns existentes sobre os judeus e utilizou-os criativamente na sua poesia. Mas claro que é possível ter, ao mesmo tempo, amigos judeus. Todos temos as nossas contradições".

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Frédéric Beigbeder vence Prémio Renaudot pelo seu romance "Un roman français"

O prestigiado Prémio Renaudot foi atribuído segunda-feira ao escritor francês Frédéric Beigbeder pelo seu romance "Un roman français", que contou com a chancela da Grasset.

Frédéric Beigbeder nasceu a 21 de Setembro de 1965, é licenciado em Ciências Políticas pelo Institut d'Etudes Politiques de Paris, é também crítico e publicitário.

É autor, entre outros, de obras como "Mémoire d'un jeune homme dérangé" (1990), "Vacances dans le coma" (1994), "L'amour dure trois ans" (1997), "Nouvelles sous ecstasy" (1999), "Windows on the World" (2003), "L'égoïste romantique" (2005). Mas foi graças ao romance "99 francs" que se fez conhecer do grande público no ano 2000 e que passou a ser considerando um escritor mais do que simplesmente um criativo vindo do mundo da publicidade.

Como crítico literário escreveu em revistas como "Globe Hebdo" (1993-94), "Elle" (1995-96), "Paris Match" (1997),"Voici" (desde 1997), "Le Figaro Littéraire", "Lire" e "Technikart".

O prémio Renaudot do ensaio distinguiu Daniel Cordier por "Alias Caracalla" e o de Livro de Bolso, este ano atribuído pela primeira vez, Hubert Haddad, natural da Tunísia, por "Palestine".