sebenta de anotações esparsas, pensamentos ociosos, reflexões cadentes, poemas difusos, introspecções de uma filosofia mais ou menos opaca dos meus dias (ou + reminiscências melómanas, translúcidas, intra e extra-sensoriais, erógenas, esquizofrénicas ou obsessivas dos meus dias)
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cahier de notes éparses, pensées oisives, réflexions filantes, poèmes diffus, introspections d'une philosophie plus ou moins opaque de mes journées (ou + de réminiscences mélomanes, translucides, intra-sensorielles et extra-sensorielles, érogènes, schizophrènes ou obsessionnelles de mes journées)

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sexta-feira, 11 de setembro de 2015

A minha relação platónica com a(s) Ciência(s)


Numa próxima vida serei cientista, apetece-me dizer depois de ler estes dois livros do biólogo e entomólogo Edward O. Wilson. Voltei a sentir a mesma paixão pela Ciência do que quando era criança. Não sei como me interessei pela Ciência, se foi gracas à paixão que Carl Sagan me conseguia transmitir no seu magnífico "Cosmos", se às emissões dos irmãos Bogdanov, se à série "Il était une fois...", se aos documentários televisivos que eu via, ou os livros que me ofereciam e eu devorava.

Desisti uma primeira vez de ser cientista quando percebi que a Matemática era uma das chaves obrigatórias para aceder a esse grande templo. Como na disciplina de "Rechnen" eu sempre tinha sido um aluno mediano, percebi que devia optar por outro caminho, talvez a escrita, talvez o ensino. Em caminho, fui seduzido pelo Jornalismo, ao qual também fui ter por acaso.

Matemática: bem me quer, mal me quer

Ao chegar ao liceu, no sétimo, voltei a ter esperança no meu amor renegado pela Ciência quando fui nesse ano lectivo o melhor aluno a Matemática.

O professor de Matemática - acho que se chamava qualquer coisa Cândido de Oliveira -, era um pequeno tirano, muito empertigado, seco e ríspido, ou dava ares de ser para nos intimidar. E funcionava. Todos tinhamos medo dele. Dava as aulas invariavelmente de fato e gravata, azuis como o seu Rover 213, o da bagageira alta, um modelo novo na época. Nós, os putos, para conjurar o medo, chamavamos-lhe 'Pinguim'.

Ele devia ter uns 30 anos, mas parecia mais velho, e não conseguia, ou não queria, mostrar empatia para com os alunos. Destilava a matéria a uma velocidade supersónica, as equações inundavam o quadro negro de uma ponta a outra, e antes que pudéssemos recopiar os hieróglifos, ele apagava tudo e já estava a explicar o que nem tinha começado a escrever no quadro ainda molhado. Aborrecia-se depressa com quem não entendia à primeira e chamava nomes a alguns dos alunos. Tinha sapiência, mas a pedagogia tinha ficado pelo caminho, se alguma vez a teve. A mim, o homem tratava-me bem, talvez por ser o melhor aluno. Não sei o que me aconteceu nesse ano, estávamos a ser iniciados a uma nova matéria e a mim tudo me parecia de repente óbvio e fácil, sentia-me iluminado e não entendia as dificuldades que os outros sentiam. Foi sol de pouca dura.

No oitavo ano, com 14 anos, tive uma paixoneta pela minha professora de Química, uma jovem talvez dez anos mais velha, alta, magrita, frágil, de óculos gigantes, um bocado desajeitada, mas gira, de voz doce e de cabelos à Whitney Houston, que me tresloucavam. Mostrei-me aplicado e interessado, o que me valeu boas notas na disciplina e mais uma vez pensei na Ciência como um futuro possível.

Mas no nono ano tropecei na realidade e o golpe de misericórdia foi-me desferido com a iniciação à Trigonometria. O professor era um antigo Comando, as lições pareciam operações militares, as noções eram ensinadas como se fossem ordens, os paus de giz a voar eram pelotões de fuzilamento, os testes eram teatros de guerra. Comparado com este professor, o 'Pinguim' tinha sido a Madre Teresa de Calcutá. Nesse ano, senti-me completamente perdido para a Matemática e, por conseguinte, para a Ciência.



O que me decidiu também a não seguir um curso científico não foi apenas a barreira da Matemática. Foi igualmente o estado da Ciência em Portugal no fim dos anos 1980, próximo do grau zero. Desde as aulas de Quimica, Fisica e Biologia ministradas sem paixão, em salas não adaptadas de escolas secundárias vetustas, por professores sem vocação, que preferiam estar num laboratório, entre estiletes, tubos de ensaio e amostras, do que a aturar jovens fedelhos, até ao desinteresse completo do Estado em investir neste sector.

Aconselho a este propósito um livro bastante explícito sobre este assunto, "Diálogos sobre Portugal" (1998), escrito a duas mãos por Mariana Pereira e pelo professor de Física e Biofísica Manuel Paiva (então na Faculdade de Medicina da ULB-Universidade Livre de Bruxelas, e que trabalhou com a NASA e a ESA).

Fascínio pela Ciência

Mais tarde, no primeiro ano da faculdade, a cadeira de Estatística voltou a provar-me que a Matemática não era minha amiga. Mas conservei o fascínio pelos números, as equações, a geometria, a teoria das probabilidades. Para mim, que tanto me orgulho de aprender fácil e rapidamente novas línguas, essa linguagem teimava em resistir-me, mostrava-se críptica, permanecia opaca, indecifrável. Afastei-me definitivamente da Matemática.

Mas da Ciência não. Interessei-me pela Astronomia (o céu nocturno do Verão algarvio é irresistível), pela Biologia Marinha (um dos primeiros cursos da então recém-inaugurada Universidade do Algarve), pela Física (a atracção dos corpos), pela Electrotecnia (despiste total), pela Vexologia (pus na cabeça decorar todas as bandeiras do mundo), pela Cartografia (ainda hoje tento coleccionar mapas antigos), pela História, que explorei na Universidade, e até pela Geografia, outra história de amor transviada.

Na Geografia sempre fui "aluno muito aplicado, mas de aproveitamento fraco", segundo anotação na minha caderneta do professor António Cerdeira, no oitavo ano. Para não me desanimar confiou-me que tinha sido professor 30 anos antes de um aluno "aplicado, mas de aproveitamento fraco" e que, apesar disso, tinha chegado a primeiro-ministro, o aluno Aníbal António Cavaco Silva, naquela mesma Escola Secundária Tomás Cabreira, em Faro, mas que na altura se chamava Serpa Pinto ou Escola Industrial,

Há dois anos, cruzei-me de novo com ela

Ha dois anos, cruzei-me de novo com ela, a Matemática. Tudo aconteceu quando decidi aprofundar os meus conhecimentos em Astronomia, Física, Física Quântica e Astrofísica, nas pesquisas que tenho de fazer para o romance de ficção científica que estou a escrever.

Fiquei de novo tão fascinado pelas equações dessas disciplinas e pelas ciências em geral, que fui logo a correr comprar, como um alarve, o livro "Gödel, Escher, Bach: An Eternal Golden Braid" (1979) de Douglas Hofstadter. Caí de bem alto. Massudo, compacto, denso, abordando noções e definições complexas, num discurso sábio, mas ininterrupto e nada conciso, o livro revelou-se-me impenetrável, ilegível, codificado, para alguém como eu com tão grandes lacunas a Matemática.

Edward O. Wilson é o Carl Sagan da Biologia

Voltemos a Edward O. Wilson. O primeiro livro que li dele foi "The Meaning of Human Existence" (2014). Comprei um exemplar para ter acesso à integralidade do capítulo intitulado "A Portrait of E.T.".

Eu procurava tudo o que pudesse sobre exobiologia, conjecturas sobre as possibilidades de vida no Sistema Solar e nos cerca de dois mil exoplanetas descobertos até hoje, as últimas notícias sobre os insectos extremófilos que existem nos fundos dos oceanos da Terra, etc. No seu livro, Wilson conjectura sobre as possíveis formas da vida alienígena, desde as mais simples e microbiológicas até a eventuais formas mais complexas ou mesmo inteligentes, responde a algumas das minhas dúvidas e fez até nascer outras, nas quais eu até nem tinha pensado.

No segundo, "Cartas a um Jovem Cientista" (2013, para a edição original em inglês), Wilson conta como despertou para a biologia, para a entomologia, e fala do seu amor pelas formigas. De repente, pareceu-me estar a mergulhar, de novo, com o mesmo fascínio dos meus tempos de juventude, no universo da trilogia "Les fourmis" (1991-96), de Bernard Werber.

Porque razão é que os livros de Wilson me levaram a pensar e a escrever aqui sobre as minhas relações complicadas com as ciências? Porque Wilson é o Sagan da Biologia. Fala com tal amor da sua disciplina, explica com palavras simples os fenómenos mais complexos, que nos seduz, embarca na sua paixão, no seu mundo.

Porque me fascina tanto a Ciência? Porque é, afinal, o caminho infinito para a compreensão do mundo e do universo.

Mas esta minha relação com a Ciência tem sido assim, um bem me quer, mal me quer, um amor renegado a que sempre regresso. Mas no final de cada nova incursão, sou sempre obrigado a admitir que no meu percurso académico, profissional e de vida não adquiri as ferramentas necessárias para poder dominar muitas das disciplinas que me fascinam. E o meu amor pela Ciência fica-se assim, na sua forma platónica, muito perto da estéril.

José Luís Correia
11/09/2015

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

As duas Leis de Sturgeon

Em 1951, Theodore Sturgeon, autor de ficcao cientifica, escreveu: "Nunca nada é absolutamente assim", que depois resumiu para "Noventa por cento da ficcao cientifica é lixo, como aliás, noventa por cento de tudo é lixo".

Esta máxima ficou conhecida como 1a Lei de Sturgeon.

Um segundo adágio, conhecida como 2a Lei de Sturgeon, é um norma para o pensamento crítico, que se resume na seguinte assumpcao: "Qual a próxima pergunta?". Este adágio vem formulado com um símbolo constituído pela letra Q, atravessada por uma seta.



terça-feira, 15 de novembro de 2011

Quando a ficção científica também é filosofia

Duas obras marcaram-me neste últimos dias: "Replay" e "The Man from Earth".

A primeira obra é um livro de Ken Grimwood (1987) e aborda a reincarnação de uma forma nova e original. Em vez de a alma "saltar" de corpo em corpo, ao longo das gerações e das eras, o personagem principal de Grimwood, Jeff Winston, um rádio-jornalista de 43 anos, morre em 1988 e volta a acordar em 1963 no seu próprio corpo, de 18 anos. Vinte e cinco anos depois, game over e replay. Over and over again...

Se a reincarnação serve para que a alma melhore e se aperfeiçoe em cada "descida" à Terra, acreditam os budistas, a personagem de Grimwood vai servir-se dos seus primeiros replays para não casar com a mesma miúda, fazer vida de hippie e sexo desregrado nos anos 60, sair da Universidade sem diploma, apostar nas corridas de cavalos das quais já conhece os resultados e com isso fazer fortuna, jogar na bolsa apostando providencialmente em pequenas empresas dos anos 70 como a Apple, arrecadar milhões e construir um império na boa tradição americana do self made man.

Ao longo dos replays, Jeff repara que apesar de ter escolhido de cada vez vias diferentes para chegar a 1988, isso não lhe traz a felicidade e a serenidade a que almeja.

O final é inesperado, até para mim que estou habituado a devorar tudo o que são livros, filmes e histórias sobre universos paralelos, realidades alternativas e viagens no tempo.

Atenção, spoiler: Depois de muitos replays, Jeff nota que acorda cada vez mais tarde ao regressar ao passado: em 1963, depois em 1965, depois nos anos 70 e no final, apenas a alguns momentos de voltar a morrer. A evidência impõe-se: chegará um momento em que deixará de haver replays e morrerá "de vez". No momento em que espera esse derradeiro replay... o tal ataque de coração, que já o fulminara centenas de vezes antes, simplesmente não acontece. E a vida continua, como se nada fosse...

Mas é só com toda a experiência das suas mil vidas diferentes que o jornalista vai perceber o que deve fazer para procurar a felicidade. E que nunca é tarde demais.

A Warner Bros comprou os direitos da obra de Grimwood, mas nunca chegou a realizar o filme. Sobretudo depois de em 1993 a comédia "Groundhog Day", com Bill Murray e Andie MacDowell, ter estreado. O autor tentou processar os produtores de "Groundhog Day", mas em vão. Grimwood morreu em 2003 de... um ataque de coração. Os fãs continuam à espera de um filme. Diz-se que Ben Affleck estaria a tratar da produção.



A segunda história chama-se "The man from Earth" e é um filme realizado por Jerome Bixby.

1998. Um professor de história, John Oldman prepara-se para mudar-se para outra cidade. Os amigos, quase todos também professores na Universidade, não entendem bem porquê, até porque o brilhante professor, apesar de ainda nos seus 30 e tais, chegou recentemente a chefe do seu departamento na faculdade.

John hesita, mas acaba por explicar aos amigos a razão da sua partida. E o que começa como uma brincadeira vai depressa tornar-se um momento alucinante para os que o pensavam conhecer.

John começa por contar que teve a oportunidade de viajar com Cristóvão Colombo, mas nessa época ele ainda acreditava que a Terra era plana e temia mesmo cair de uma das suas bordas.

Os amigos brincam com ele e riem-se da partida que este está a querer pregar-lhes. John confia que pensa ter mais de 11 mil anos - perdeu as contas, diz. Lembra-se de ter nascido ainda na Idade da Pedra, a sua "primeira vida" viveu-a com uma tribo das cavernas. E enquanto os outros iam envelhecendo e falecendo à sua volta, ele nunca morria.

A tribo começou por escolhê-lo como feiticeiro e chamane, mas temendo o que não compreendiam, expulsaram-no do grupo. Foi nómada, viajou a pé pelas florestas da Europa, trocou dezenas de vezes de tribo, seguindo em direcção aos territórios mais ricos em caça. John diz lembrar-se que o tempo aqueceu há cerca de 8 mil anos, viu as águas separar a França da costa britânica. Participou na construção das primeiras cidades, durante dois mil anos foi sumério, cidadão em Ur, conheceu o rei sumério Hamurabi pessoalmente. Viajou para o leste e foi discípulo de Buda, foi etrusco, assistiu à ascensão e à queda do império romano, foi amigo de Van Gogh...

O sorriso divertido dos amigos vai desaparecendo à medida que estes - eminentes professores de Biologia, Arqueologia, Psicologia, Antropologia - lhe fazem perguntas e as respostas parecem verosímeis.

Mas a revelação mais perturbante de todas está ainda para vir, quando John aproxima os ensinamentos de Buda dos que Jesus Cristo tentou transmitir.

Dois dos seus amigos ficam irritados com ele, os outros sentem-se perdidos, num misto de fascinação, curiosidade e incredulidade.

Preocupados com ele, três dos seus amigos já não o querem deixar partir, acham que ele precisa de ajuda psiquiátrica.

E é aí, que John diz que foi tudo uma brincadeira. A não ser que seja apenas para se ver livre dos seus amigos...


Gostei desta história porque explora a viagem no tempo, mesmo se neste caso é a eternidade que está em questão; a vivência de vidas diferentes, sem recorrer a reincarnação. Mas também aqui, as mil vidas de John Oldman (trocadilho) serviram para este ir aprendendo com a Humanidade. E por isso apreciei como, durante o decorrer da história, a serenidade de John nunca descai, como se fora realmente dotado de uma sabedoria não só antiga como sem idade. Ou como eu gosto de imaginar que fosse.

Outros dos aspectos desta história que apreceei é o facto de John dizer que os factos históricos que ficaram para a posteridade nos livros, nos manuais oficiais, nem sempre aconteceram como nos são elatados e como os estudamos. Ou foram deturpados voluntariamente ou o tempo foi limando, escolhendo, pormenores que não o são e que nunca o foram.

Um filme que pede um livro

O meu primeiro reflexo foi pensar: "isto dava uma peça de teatro hilariante". Depois procurei o livro e descobri que além de ser um recôndito filme que só saiu em DVD, o argumento não existe em versão impressa.

A obra estreou directamente em filme em 2007, mas passou completamente despercebida. Primeiro porque nem sequer saiu nas salas de cinema, saiu directamente em DVD. E só chegou à Europa este ano.

As grandes produtoras habituadas aos blockbusters não acreditaram no filme talvez pelo seu lado despojado em termos de cenários, porque não tem absolutamente nenhuma cena de acção, porque conta apenas com oito personagens, que se envolvem num diálogo surrealista. Demasiado surrealista para o grande público?

É, no entanto, esta história merece ser contada.