domingo, 20 de maio de 2012
sábado, 24 de dezembro de 2011
Natal 1979, Luxemburgo
Quando era criança, a época natalícia em minha casa começava muitas semanas antes da data festiva. A minha mãe cozinhava dias inteiros para fazer filhoses e outros doces. Fazia travessas e travessas. Dava para partilhar com os vizinhos, com os primos e cheguei até a levar para a escola, num dia em que tivemos que apresentar as tradições natalícias dos países de onde éramos originários. Os meus colegas de turma luxemburgueses faziam caretas ao pronunciarem a palavra “fi-lô-séch”, mas só à primeira, porque depois de provarem a pronúncia vinha-lhes com mais naturalidade.
Mais tarde, descobri que essas nuvens retorcidas, estaladiças e generosamente polvilhadas de açúcar em pó, que no Alentejo de onde a minha mãe é originária, se chamam filhoses, têm noutras terras portuguesas o nome de coscorõese, e podem ter as mais variadas formas e ingredientes.
Eu gostava de ver a minha mãe a cozinhar longas horas. Em casa, durante semanas pairavam aromas adocicados, que tornavam o Inverno luxemburguês lá fora menos frio.
Na noite da consoada, a casa enchia-se de família e amigos, risos e conversas soltas. Havia lombo assado e batatas no forno, sonhos, coscorões, Dom Rodrigos e pastéis de batata doce algarvios, e o meu pai servia o seu melhor Medronho, trazido secretamente no Verão anterior, escondido no fundo falso de uma mala de cartão para escapar aos agentes das alfândegas.
in "Diário Incidental"
Weimeriskirch, 24.12.2011
(foto: JLC)
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
Um café e um croissant
- Pois, nós em Portugal também dizemos isso, eh eh...
- Mas fomos nós que introduzimos o café na Europa, sabias?
- Foram os turcos, queres tu dizer...
- Sim, mas foi graças a um polaco!
- Como assim?...
- Quando os otomanos foram derrotados às portas de Viena em 1683 e fugiram, deixando para trás acampamentos militares inteiros montados, uma das coisas que lá foi encontrado foram sacos de café, que um polaco que ali morava logo comprou, para vender na sua taberna. E foi a partir de Viena que o café chegou ao resto da Europa. E é por isso que ainda hoje café em polaco se chama kawa, uma palavra muito próxima do árabe qahvah e do turco khave.
Mariusz, o empregado da café onde me refugiei do frio e da neve de Novembro, em Cracóvia, contou-me então como o rei polaco Jan Sobieski e 30 mil homens tinham ajudado o Império Austro-Húngaro e a Europa contra a segunda invasão turca. O que é um facto histórico. Já quanto à história do café, fiquei com as minhas dúvidas, mas achei curiosa a convicção.
Eram três e meia da tarde, a noite tinha já descido sobre Cracóvia, quando me assolou um intenso desejo de café com xarope de avelãs. Tentando encontrar o meu caminho entre a neblina fina, nem sequer me detive diante dos quadros dos artistas expostos na Porta de São Floriano, e enfiei-me na primeira kawiarnia que encontrei. Os cracovitas gostam de dizer que a sua cidade é conhecida por ter mais igrejas do que dias tem o ano e que só o número de cafés se equipara ao dos templos. Mas enquanto os primeiros são procurados para aquecer a alma, os segundos são-no para acalentarem os corpos.
E com esta conversa, Mariusz conseguiu convencer-me a provar o "café à turca", que os polacos ainda hoje costumam servir, e que é bardzo melhor que essas invenções starbuckianas de café com... avelãs.
A kawiarnia estava instalada numa cave, com paredes em tijolos, e eu tinha escolhido uma mesa num canto, tão pequena que não conseguia arrumar os jornais e os braços em cima do tampo de mogno quadrado. Na parede estavam suspensos velhos capacetes de bombeiros que alguém teve a luminosa ideia de adaptar com uma lâmpada para serem utilizados como candeeiros.
- E foi também graças a essa vitória que nasceram os croissants, ainda hoje chamados viennoiserie. Um pasteleiro de Viena achou graça pôr os viennenses a comerem o símbolo da lua crescente dos turcos, interrompeu Mariusz os meus pensamentos, servindo-me o café e um croissant, "oferta da casa".
- Então é isto a famosa hospitalidade polaca?
- Pois, porque não são só vocês portugueses que têm a fama de serem hospitaleiros.
Alexandre Weytjens
(foto e texto)
segunda-feira, 22 de setembro de 2008
O homem-bolha
Alex Weytjens
do texto "Conversas (interiores) de café", 23.12.2005
(in Os Cadernos do Gaspar, vol. I)
sábado, 13 de setembro de 2008
Hannah - Belle ou la nouvelle libertine

O Gaspar que há em mim descobriu hoje uma série inglesa deliciosa: Secret Diary of a Call Girl.
Hannah (a actriz e cantora Billie Piper) veste todos os dias, várias vezes por dia, a pele de Belle. "Prostituta, escort lady, pêga, puta, dama de companhia, call girl, é apenas uma questão de semântica", como ela própria se apresenta.
Hannah não se droga, não foi violada quando era criança, não provém de uma família destroçada. "Sou preguiçosa, gosto de ser a minha própria patroa...ah, e gosto de sexo!", afirma peremptória, alegre e assumidamente. Belle não tem tabus no sexo, está sempre pronta a concretizar as fantasias mais dementes e loucas dos seus clientes. Estes revelam-se, no entanto, mais humanos que tarados sexuais. Demasiado frequentemente ao gosto de Hannah, que prefere ser amante profissional do que confidente. E é aqui que Belle quase deixa cair a máscara ao afirmar: "Prefiro os clientes com quem sou uma pessoa completamente diferente de mim, quanto mais diferente melhor". Por detrás daquele desembaraço libertino todo de Belle, - que destoa do flegma britânico de alguns dos seus clientes e essas cenas têm muita piada - há afinal a miúda - Hannah - que tem medo que os pais e o melhor amigo descubram a profissão que exerce.
A vida deverá levá-la a compreender que a separação dessas gémeas siamesas não é assim tão fácil (nem salutar) e que ela é as duas na mesma pessoa e que é isso que deve assumir. Belle tem um corpo esculpido para o pecado, Belle tem olhar de criança. Hannah e Belle. Aliás, penso que a escolha dos dois nomes da personagem principal pelos argumentistas da série não foram inocentes, já que se conjugam na perfeição para dar origem a uma terceira, evolução/fusão das duas primeiras: Annabelle.
Só vi dois episódios, mas é isto que adivinho sejam as cenas dos próximos capítulos... Juro que não li o livro em que a série se inspira (teria gostado, por certo!), escrito ao que sei por uma anónima cujo pseudónimo era "Belle de Jour" e retraçaria a sua própria experiência de vida. Em Portugal saiu um livro semelhante há um par de anos que obteve muito sucesso. Bom, mas não é por adivinhar o que se segue que vou deixar de ver a série. É a única novidade neste segmento após Sex in the City e Nip/Tuck. Isto agora só torna a coisa ainda mais interessante. "A beleza não está no destino, mas no caminho", não é o que preconiza o velho adágio filosófico? Será que Confúcio estaria a pensar nas séries ligeiramente picantes do princípio do século XXI quando aventou esta máxima? Gosto de pensar que na sua extrema e omniconsciente clarividência que sim ;-)


quarta-feira, 28 de maio de 2008
domingo, 18 de maio de 2008
Ao domingo, gosto de pornografia (4)
"Um corpo bom como um figo,
não se fode vestido!"
in "Da Sedução - Poemas Eróticos de Bertolt Brecht, com gravuras de Pablo Picasso" (1999, Ed. Bizâncio). Uma prendinha que a minha querida Carla P. me ofereceu em boa hora, porque hoje o livrinho está esgotado.
Ao domingo, gosto de pornografia (2)

Ao domingo, gosto de pornografia
a língua lambe
A língua lambe as pétalas vermelhas
da rosa pluriaberta; a língua lavra
certo oculto botão, e vai tecendo
lépidas variações de leves ritmos.
E lambe, lambilonga, lambilenta,
a licorina gruta cabeluda,
e, quanto mais lambente, mais ativa,
atinge o céu do céu, entre gemidos,
entre gritos, balidos e rugidos
de leões na floresta, enfurecidos.
sexta-feira, 16 de maio de 2008
domingo, 6 de janeiro de 2008
Dos sacerdotes zoroástricos da Pérsia e de como interviram na génese dos cadernos do gaspar
meu ilustre homónimo, senão o primeiro Gaspar de uma grande linhagem. A origem de meu digníssimo antecessor é dúbia e a primeira referência que se lhe faz não é na Bíblia, como se possa pensar. O Evangelho de S. Mateus (Mt 2,11) é aliás o único dos quatro evangelhos reconhecidos a evocar uns vagos "magos", sem dizer quantos eram nem revelar nomes. Um outro Evangelho, o texto apócrifo de S. Tiago (séc. II), também se refere a estes, mas sem acrescentar nada de novo ao texto de Mateus.A primeira referência biográfica aparece num documento escrito por São Beda em inícios do século VIII. É ele quem tece uma biografia de Gaspar e dos seus dois companheiros de viagem. Estes teriam trazido do Oriente mirra, incenso e ouro ao menino Jesus. Talvez daí se tenha depreendido que eram três. É a estas ofertas que se deve a tradição da nossa troca de presentes no Natal.
Gaspar é descrito como o mais moço dos três. Uns textos dizem-no asiático, outros persa. São Beda diz que Gaspar seria originário de uma das regiões montanhosas nas margens do Mar Cáspio. Seria mago ou sacerdote zoroástrico. É ele quem traz o incenso ao menino.
Tenho em comum com esse ancestral homónimo o continente (Os Weytjens são originários de Goa) e o deleite de deixar-me, em serões zen, guiar pelas constelações e seduzir pelas fragrâncias tranquilizadoras desse extracto de terebintácea que é o incenso.
Ah, mas o ponto comum mais importante: mesmo se segundo algumas teorias, não há maior crime do que a libertinagem para a religião de Zaratustra, segundo estudos recentes de investigadores universitários franceses, alguns contos femininos zoroástricos teriam estado na origem dos contos eróticos de Sherazade. E não foram "As Mil e Uma Noites" (que o meu amigo Luís Castro - quando ele ainda morava no Montenegro - guardava entre a televisão e a velha consola Amiga Commodore) os primeiros livros a fazerem-me mergulhar, a puxarem-me, que digo, a sugarem-me para esses fabulosos mundos onde tudo era permitido e os tabus derretiam como neve ao sol.
Eu..., um adolescente borbulhento e intimidado...deparava-me de repente em plenos lupanares assistindo aos faustos e caprichos sexuais desses califas impotentes, por debaixo de clarabóias onde espreitava a lua crescente, os coitos arrebatados nos haréns das alas secretas dos palacetes ou nos jardins interiores floridos, junto à fonte de todos os amores, as princesas sófregas, as odaliscas mouriscas, os alcoices nos oásis perdidos, os prostíbulos nos dédalos dos souks, os eunucos aparentemente inofensivos mas de dedos prodigiosos e línguas hábeis...
Nesses tempos acneicos serviam-me essas leituras, heu, ...voluptuosas, de inspiração para as minhas poluções nocturnas. Nunca pensei eu próprio vir a escrevê-las.

Desenhos: "Point of Eternal Light" de Brian Whelan, "Odalisque Slave" de Dominique Ingres e "Odalisque" de Mariano Fortuny
quinta-feira, 27 de dezembro de 2007
EXPLICIT
Avisa-se que este blog pode derivar para extremos a que alguns leitores não estão habituados desde o volume 1.
quarta-feira, 26 de dezembro de 2007
Ménage à 3 X 2
O serão começou como sempre, com conversa de chacha, uns filmes pornográficos a desfilar ininterruptamente na tela e uns copitos para quebrar o gelo entre aqueles que não se conheciam ainda, como era o caso de nós e da Barbara, uma italiana de 26 anos, professora no mesmo liceu que a Fati. A Fati, já a conheço demasiado bem (um dia conto!) e o R. também, mas não destas andanças. Mas não foi uma surpresa total encontrá-lo ali.
Música chill-out, acepipes apimentados, de gengibre e canela, chás de ginseng e pau de cabinda, cerveja belga, alcóois anisados para todos os gostos, uma caixa com anéis púbicos, dezenas de preservativos banalizados, às cores e de todos os sabores, a mesa pós-consoada estava bem posta. O Peter perguntou quem queria meio-comprimido de um produto-milagre que ele compra na net (não é viagra, mas parece!), que põe eréctil qualquer bicho morto em 20 minutos.
A única vez que experimentei, fiquei afinal sem dar a queca. Foi há uns dois anos. Uma francesa, que se me escapuliu por entre as mãos depois de me fazer andar atrás dela o serão todo no Marx! Foi com o rabo a dar a dar entre as pernas. Só me apetecia era enfiar o meu Johnny Thursday nem que fosse no buraco de um tijolo. Nem um duche frio e umas masturbanças frenéticas em catadupa me acalmaram...o ânimo. Depois de três horas, aquela porcaria começou mesmo a doer-me. Sentia o coração a bombear como uma locomotiva. Sei lá se sou cardíaco mas depois disso, merdas dessas, não muito obrigado.
"Hoje, passo!", declinei com a mão. O R. também não quis. O Peter engoliu sem hesitar. Depois, olhando para mim, sussurou qualquer coisa à Barbara num gracejo, que eu não ouvi, nem me interessou. Mas a gaja ficou com ela fisgada em mim, foi o que me pareceu. Gostei do olhar dela, do corpito provocante, mas no sorteio, ela afinal calhou ao R. O Peter com a Jen e eu com a Fatinha. Porra! Não é que a gaja não seja boa, mas é uma maluca que detesto aturar. Até durante as fodas nos fode o juizo. Saltou-me literalmente para cima. Calminha, menina!
Não me queixo, a Fati, desta vez, portou-se bem comigo. Quem sofreu com ela, foi o Peter.
Mas, felizmente que, depois das quecas regulamentares, foi tudo ao molho e com fé. A Barbara veio ter comigo. Já há algum tempo que não provava uma italiana. Cabelos pretos longos, corpo maneirinho, seios pequenos, pernas compridas e finas. Uma queca bem conduzida, bem puxada, a gaja era bastante elástica. Sobretudo quando se empalou em mim, numa espargata alucinante e se recostou para trás, os cabelos a roçar no chão. Disse-me que fazia dança. Foi bastante bom, devo admitir, apesar de ter começado por ficar com alguma apreensão quando me deu o primeiro linguado e colidi com o piercing que a gaja tinha na língua, artíficio cosmético metálico que pouco aprecio. No umbigo, ainda vai. Mas lingua, bico ou clitoris perfurado, foda-se, chega para lá! Com ela fiz abstração e, diga-se em abono da verdade, que a coisa se passou bem. A repetir, com certeza!
Melhor momento - Quando as três se ocuparam exclusivamente de mim. Divinal. Indescritível! Ou quando as três se puseram a divertir sozinhas depois de nos deixarem k.o.
Melhor momento II - A Fatinha, estava a ser comida forte e feio pelo Peter, em cima do grande sofá persa. O gajo estava a martelar-lhe com força, porque sabe que ela gosta assim ou por causa do efeito explosivo do comprimido. Só sei que o cio era tanto que a mola do sofá rebentou e espetou a nádega da gaja. Ela mandou um grito estridente que ele, pensando que ela se estava a vir, chamou-a de "grosse pute". A gaja furibunda deu-lhe com os pés, o gajo caiu de cu no chão. Risota geral.
O Peter tem sempre boas ideias para os dias feriados.
sexta-feira, 14 de dezembro de 2007
Friday night: the fuck fucked...by the bell!
"Quero mudar o karma da minha cama..." disse a ruiva de O Sexo e a Cidade à amiga e eu cortei o som e insurgi-me comigo próprio: "Foda-se, mas para que é que eu estou a ver uma cretinice destas?"
Bom, talvez porque é sexta-feira à noite e porque por uma vez o Gaspar decidiu ficar em casa, no aconchego do lar, gozando o regaço morno da Jenny, agora que cultivo há três meses a monogamia exclusiva compulsiva. Calma, não é contagioso, queria experimentar... e estou a gostar. Mas, claro que, como cada bela tem o seu senão, esta relação continuada alterou por completo o meu ritmo de vida. Diurno e nocturno.
Mas é por isso que numa sexta-feira à noite estou frente à televisão a ver lamechices destas? Não! O televisor nem estava aceso.
O serão começou com uma refeição ligeira, seguido de um duche sensual. Os beijos e amassos começaram na banheira, na sequência natural das brincadeirinhas com o champô nas partes pudibundas. O piso escorregadio do local fez-nos, no entanto, optar por outra faixa de aterragem. No sofá, enrolada no seu toalhão, a Jenny recostara-se languidamente para trás, na grande almofada e estendera as pernas nuas sobre um pouf. No movimento de as deixar deslizar uma na outra, como uma femme fatale num filme pulp, o tolhão ia descaindo e desvendava ambrósias apetecíveis.
A Jen estava pronta a ser colhida, como um pêssego maduro que só espera que dois lábios sedentos venham primeiro beijar-lhe a pele em flor e depois sugar-lhe a polpa sumarenta. Eu estava a escolher um cd de chill out tango como banda original sonora da dança horizomtal que se anunciava... e o telefone tocou.
É a Mandy, uma amiga da Jen, que precisa u-r-g-e-n-t-e-m-e-n-t-e falar com ela. E a Jen, eterna samaritana das causas perdidas, como sempre com o coração nas mãos, está lá dentro há 50 minutos a ouvir ladainhas.
Vai disto, peguei, mais por automatismo do que por costume (juro!), no telecomando e liguei o televisor no canal 6, como sempre. Estava a passar um milésimo trigésimo sexto episódio de O Sexo e a Cidade. Só não zappei logo porque uma das gajas da série tinha cruzado um gajo na rua que a convidou para ir beber um café e ela não só aceitou logo como no fim ainda lhe deu o n° de telemóvel ...sem que ele tivesse pedido!!!
E, numa deambulação do espírito, puramente sociológica (re-juro!), dei comigo a pensar: "Balelas! Mas quantas vezes é que este tipo de merdas acontece na realidade?" E antes que pudesse responder a mim próprio "Nunca!", lembrei-me da vez em que aquela francesa se meteu comigo no Marx. Em cima da hora de fecho do bar convidou-me para uma cerveja, depois para a seguir até ao (infame) "Tiffany's" em Metz. Duas horas e meia mais tarde estava no marmelanço com ela, no meu carro, frente a casa dos pais, num daqueles arredores residencais que se parecem todos uns com os outros.
Gasparices! Os tempos agora são outros, menos faustos em quantidade mas largamente compensados em qualidade. Que bom estar em casa à sexta-feira à noite, em vez de andar aos empurrões, com um copo de vodka na mão, num bar apinhado, com miúdas anoréxicas ou candidatas a tal, que nos fazem sentir pedófilos aos 34 anos, e com música de martelinhos insistente e enervante a dar a dar nas têmporas.
Estou a ficar entradote? Que se lixe. Assumo completamente os meus serões cocooning.
Voltei a devolver o pio à Carrie Bradshaw, a quem alguém dizia naquele preciso instante: "Não é que eu não tenha vontade de fazer amor. Mas tenho a impressão que as gerações antes de mim vulgarizaram tanto o sexo que banalizaram o acto!"
01h30 da manhã -
Mas como tão contrário a si é o próprio homem... quando o episódio estava no seu melhor - uma das amigas de Carrie ia começar um threesome - a Jen apareceu em lingerie sugestiva e veio sussurrar-me ao ouvido que queria compensar o tempo perdido.
Penitente, ajoelhou-se diante de mim, massajou-me os boxers, extraiu de lá o meu sexo que se fazia difícil, e prodigou-me uma convidativa felação. Eu até já nem queria. Não, não estava nada distraído com a série!!!... Mas a natureza teve razão de mim. O sangue subiu-me à cabeça e a coisa continuou com um 69 já no quarto. Não aguentando mais, ela ajustou-se em cima de mim para a grande cavalgada. Ouvi a generala Chester ordenar a carga e o tropel deflagrar sobre mim. Depois de ela se vir, pu-la de quatro para algumas investidas selváticas caninas, momento em que deixamos o bárbaro primitivo regressar a nós. Mas foi só depois de ela ficar deitada de costas, com as pernas por cima dos meus ombros e de mais algumas estocadas bem mandadas que consegui por fim também chegar à pequena morte e desfalecer afundado nela.
quinta-feira, 23 de agosto de 2007
O que são os Cadernos do Gaspar?
Na minha curta e cometaica carreira literária, assumo-me com o pseudónimo Alexandre Gaspar Weytjens, ou só A. Weytjens ou apenas Gaspar (aka AGW). Foi uma personagem que me nasceu entre as entranhas e o cerebelo (e acreditem que doeu!) por volta de 1994, em pleno 2° ano de faculdade, em Estrasburgo, quando me foi solicitado para participar no jornal literário da Residência Universitária Paul Appel. Ao contrário de outras esquizofrenias benignas (Daniela A. ou F.F. Júnior), esta vingou.
Durante muito tempo, A. Weytjens escreveu para a gaveta ou para um público mais ou menos escolhido a dedo, que sempre o reconfortou com elogios qualitativos que careciam obviamente, como espectadores próximos do objecto que eram, de rigor e objectividade.
Quando começou a ser lido por um público maior do que o seu círculo de amizades, sem quase dar por isso, muito graças ou por causa do sucesso crescente do blog Os Cadernos do Gaspar, passou a responder naturalmente ao nome de... Gaspar.
O primeiro volume dos meus cadernos está disponível online em www.cadernosgaspar.blogspot.com e foi escrito num dia-a-dia fictício e extrapolado das minhas próprias vivências e no fim de contas desembocou num pequeno romance "pulp" erótico-romântico-policial. A sua leitura deve ser efectuada seguindo as datas em que foram escritos os cadernos de modo a entender-se o enredo da história.
O segundo volume, inteiramente independente do primeiro, está disponível em www.cadernosgaspar2.blogspot.com , e é, para já, uma sebenta de anotações esparsas, pensamentos ociosos, reflexões cadentes, poemas difusos, introspecções de uma filosofia mais ou menos opaca dos meus dias.
Por vezes, acrescento um clip youtubano ou excertos de livros que estou a ler para proporcionar aos meus leitores férias da minha torpe literatura e da minha não menos ilustre rotina. A sebenta dos cadernos pode ser lida aleatoriamente.
JLC (The Real McCoy)
segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007
desenhar com os dedos
Ela observa-me, como perguntando: “É para mim que estás a olhar?” E eu respondo do meu canto, sustentando o seu olhar, esboçando um sorriso. Agora reparou com certeza em mim. Sorri também, disfarçando. Bastou um sorriso meu? Sorvo o café com leite.
.
Uma amiga senta-se à sua frente. Sorrisos, abraços, conversam. Mas o seu olhar regressa sempre ao meu. Eu escrevo, ergo o olhar, voltar a mergulhar o rosto no caderno, e continuo escrevendo. Trago a chávena aos lábios e no movimento volto a fitá-la, ela repara, vê, não se mexe, apenas as pupilas tremem como se tivesse ouvido a minha ordem de guardar a posição, os lábios púrpuros semi-abertos e suspensos para a eternidade no gesto da minha mão, na trajectória da minha pupila. Uma bela desconhecida numa manhã de Inverno.
O pulóver de gola alta escolheu-o esta manhã porque estava frio e a chover. Porque prefere sentir-se confortável a sexy. Sobretudo num dia como estes. Frio. Nada previsto. Uma manhã vazia, como tantas outras. O seu único prazer é o olhar de um estranho, um olhar prescrutador sem ser intimidante e impúdico, o olhar silencioso de um indivíduo alto e tenebroso, que não tem nada de conquistador, antes de familiar e apaziguador. Um olhar estranho de um estranho. Lá estou eu a confundir desejo e realidade.
Ela levanta-se. Vem na minha direcção. O olhar fixo em mim. Vai abordar-me, dirigir-me a palavra? Vai falar comigo, sentar-se na minha mesa? Vai perguntar se nos conhecemos? Ou perguntar-em o que desejo e pedir-me para parar com os meus olhares indecentes? Devo levantar-me, cumprimentá-lo. Ela lê a interrogação no meu rosto e sorri ligeiramente. Passa por mim, a amiga segue-a, para as traseiras da pastelaria e entram na cozinha. Afinal trabalham aqui e a amiga é uma colega. Reaparecem alguns minutos depois com um avental verde. Ela arruma os pratos atrás do balcão, limpa o tampo do armário, conversa com as outras empregadas, serve alguns clientes. Um pão de centeio, seis papo-secos, uma broa e dois suspiros.
Não me esqueceu. Num passo ligeiro, em elipse, serpenteando como um rio que não quer desaguar no mar, aproxima-se. Deseja saber se, além do seu sorriso aberto e luminoso (é o que percebo, mesmo se ela não proferiu as palavras), desejo mais alguma coisa.
“Mais café?...”
“Heu...sim, pode ser, obrigado!”
Três minutos depois satisfaz-me o desejo. Pede licença para encontrar lugar para a xícara na mesa cheia de revistas abertas, jornais dobrados e cadernos atravessados, mil folhas.
“Cuidado, não quero entornar café nas suas notas. Parece importante...”
Miro-a, olhos nos olhos.
“...o que está a escrever!”, completa, apontando com o queixo para a mnha sebenta.
“Não estou a escrever!”, acho oportuno rectificar.
Pestaneja como quem olha melhor e reitera:
“Heu...não está a escrever?”, insiste, perante o óbvio.
“Não!... Estou a desenhar!”, explico.
O seu olhar perscruta os meus rascunhos, as minhas frases ascendentes e descendentes, as minhas letras ora redondas ora angulosas e hieróglíficas. Resolve não me corrigir (é perigoso contradizer os maluquinhos, devem ter-lhe ensinado e muito bem!)
“E já agora, pode saber-se... está a desenhar o quê?
“Você!”
quarta-feira, 24 de janeiro de 2007
...são 22h13, um telefone que toca no vazio, não atender, quem será? a sensação de estar noutro lugar, alhures, não sei bem onde e viver uma cena que repudio, mas que adivinho, mais cedo ou mais tarde tudo acaba por acontecer, já sabemos, mas não queremos ver...
Flashback de seis horas. Sol de Inverno, lá fora. Na rádio Kelly Clarkson e eu a tentar concentrar-me no trabalho ao ritmo do teen spirit.
Um telefonema em plena tarde. Do outro lado do mar. Não é o Paulo de Nova Iorque. Uma mulher. Mas não é a Raquel, de Houston, nem tão pouco a Maria do Céu, do Leblon, no Rio. É Toronto. Uma voz do passado. Uma voz triste, apagada, magoada. Percorre-me o sangue o veneno que destilei numa manhã gelada de Janeiro e que apenas basta lembrar para me voltar a acicutar.
- Não leves a mal, já me esqueci da teu disparo, quase não morri, quase não chorei, fugi para outro hemisfério...
Fala-me do Líbano, do Egipto.
- Na Primavera, o México é tão bonito! E Marraquexe... Mas o Cairo... ah, o Cairo! Encruzilhada de rosas dos ventos, rosas do deserto, a Casbah atarefada, as ruelas, a turba dos mercadores, os cheiros mesclados, acafrão, caril e canela, chá de hortelã-pimenta no estio para resfrescar, os cantares alegres das mulheres, a oração, a vigília, o silêncio no deserto, o Nilo à noite, a madrugada sossegada e estrelada...
Foge para a frente. Voltar a quê, para quê? Nada faz sentido do que se faz ou se fez, excepto o que se fez com o sentido de ser. Um ocaso nos Cárpatos já tão longíquo...
- Se soubesses como lamento aquela manhã...
- Não peças desculpa! Se foste sincero no beijo, que mais posso querer?...
O que eu queria não era um perdão, era uma consciência tranquila. Nem no derradeiro momento fui corajoso. E hoje, que faço aqui, aguardando a noite inane? o telefone insiste e eu temendo saber quem é...
- Estou! Quem é?
quarta-feira, 20 de dezembro de 2006
Rasgos de luz vermelha, do néon lá fora, "rooms", transfiguravam-te o rosto, recortavam-te os ombros e os braços nus, os seios cheios, lambiam-te a duna morna da barriga, as coxas doces. Os meus dedos ledos desenhavam o aparado perfeito do triângulo isósceles, quero lá saber dos catetos de Pitágoras agora, como um geógrafo mapeando os continentes da utopia. Os teus seios na minha boca.
Fiz-me ao mar, em vagas sucessivas, a nau emproada, os lençóis enfunados, vencendo marés vivas e neptunos ferozes, dobrando cabos e promontórios, subindo estreitos e peninsulas, contornando ilhas, desbravando as terras prometidas, todas as atitudes e longitudes do teu corpo salgado.
As minhas mãos à deriva.
Os sóis ardendo, as constelações pulsando e desenhando nas estrelas o caminho sem astrolábio.
Abalroei na baía desejada inda não era madrugada, fundeei os meus flancos antigos, semelhantes às coxas cansadas de zeus em rhodes, no teu porto de abrigo. Beijaste as minhas cicatrizes de mar dos sargaços.
Num cansaço milenar, como se navegasse desde magalhães, num derrame rouco de boas esperanças, adormeci ancorado a ti. A espuma dos nossos dias.




