Na última semana nasceu no Luxemburgo, de forma espontânea, um movimento de solidariedade para ajudar as vítimas do incêndio em Pedrógão Grande, e foi crescendo exponencialmente.
Uma enorme onda de solidariedade para com as vítimas do incêndio em Pedrógão Grande varreu Portugal e as comunidades na última semana.
No Luxemburgo foram muitos os que dedicaram a semana passada, incluindo serões, o feriado nacional luxemburguês e o fim de semana, em detrimento da família, da vida privada e até profissional, para trabalhar em prol das vítimas deste incêndio, reunindo bens e dinheiro, gerindo donativos e voluntários, multiplicando contactos para encontrar, numa primeira fase, locais de armazenamento para os produtos e pessoas para ajudar e, numa segunda fase, meios de transporte para levar tudo para Portugal. Um trabalho gigantesco, titânico, tentacular, que envolveu privados, associações, empresas e outras entidades, e se espalhou por todo o Grão-Ducado, de Mondorf a Differdange, de Belvaux a Dierkich.
Muitos foram também os luxemburgueses e estrangeiros que se solidarizaram, pois Portugal foi notícia em todos os media internacionais.
Espantoso quando se sabe que este movimento da sociedade civil nasceu, assim, de forma espontânea e cresceu exponencialmente ao longo dos dias. Incrível também o resultado, pelo tempo recorde para juntar tudo – cinco dias! – e enviar um camião e duas carrinhas para a zona sinistrada, e quando se sabe que mesmo depois dos pedidos para que as pessoas parem de dar bens, estes continuam a chegar, como se fosse mais fácil lançar esta “onda” do que pará-la.
A angariação dos donativos em dinheiro vai continuar até pelo menos meados de julho, com várias associações a juntarem-se naturalmente a este movimento e a aproveitarem as festas que já tinham agendadas para recolher fundos.
Parafraseando o Marquês de Pombal, depois de enterrados os mortos, agora é preciso cuidar dos vivos, que é exatamente para o que vão servir estes bens.
Para o Presidente da República, a prioridade agora é “acelerar a reconstrução”. Mas Marcelo sabe que mesmo se tudo indica que este foi um fogo que teve inicio devido a causas naturais é necessário “apurar tudo o que houver a apurar”.
Porque este não foi mais um incêndio florestal, foi o pior de todos! Arderam só naquele incêndio mais de 53 mil hectares de mata, quase metade de toda a área florestal ardida em todo o ano de 2016. Porque foi também o mais mortífero da história dos fogos florestais em Portugal e o 11° incêndio florestal mais mortífero a nível mundial. E porque Portugal é o sexto país onde mais se morre em grandes incêndios florestais.
É preciso apurar tudo o que houver para apurar, mas não ficar apenas por aí. É preciso mais prevenção e gerir as nossas matas de outra forma, ouvir o que os cientistas têm a dizer sobre a matéria e agir. Desta vez foram ceifadas muitas vidas: homens, mulheres e crianças. Temos três meses de verão pela frente, três meses de potenciais incêndios a gerir. Isto não pode acontecer nunca mais.
José Luís Correia,
in Contacto, 28/06/2017
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quarta-feira, 28 de junho de 2017
quinta-feira, 22 de junho de 2017
EDITORIAL no Contacto: Chamas, cinzas e luto
Como todos os anos quando há incêndios florestais, os portugueses ficam chocados e parecem acordar para uma calamidade que devora héctares de mata há décadas.
Mais uma vez, as chamas devastaram o jardim à beira-mar plantado. Jardim bem mal cuidado, de que falamos orgulhosamente mas carece de jardinagem e de jardineiro. Jardim do qual gabamos ao turista as bonitas flores, mas que basta este olhar melhor para ver as ervas daninhas. Matas onde se acumulam lixeiras ou aldeias sitiadas por labaredas não vendem postais.
A devastação que está a deixar o fogo que deflagrou no sábado no Pedrógão Grande – ainda não extinto à hora do fecho desta edição (após quatro dias!) –, faz já desta tragédia a mais pesada da história dos incêndios florestais em Portugal. As notícias das perdas humanas caíram como se fossem um eletrochoque junto dos portugueses. Um choque mais forte do que aqueles que nos sacodem nos verões em que morre um ou dois bombeiros, mas um eletrochoque que vem transvestido de uma falsa inocência. Porque mesmo se foram condições climatéricas invulgares que levaram ao início deste fogo, uma trovoada seca como dizem as autoridades, temos que nos questionar porque razão não sabemos lutar melhor contra esta calamidade que nos fustiga anualmente.
Questionemo-nos. Porque, afinal, somos todos culpados. Culpados de não fazer mais pressão junto do poder local e central que sabe há décadas que temos um país propenso aos fogos florestais. Culpados porque não denunciamos quem não limpa as suas próprias matas.
Culpados porque não condenamos o amigo que joga a beata de cigarro pela janela ao conduzir numa estrada pejada de um lado e de outro de eucaliptos, que são “autênticos bicos de gás acesos nas florestas” e só beneficiam a indústria madeireira, como denunciam os cientistas.
Culpados porque nos indignamos e comovemos nas redes sociais e nas televisões mas não agimos, não obrigamos o Governo a refundar o serviço dos guardas florestais, que foram integrados na GNR, a criar mais corporações de bombeiros profissionais, a revalorizar os bombeiros voluntários que ganham uns míseros 1,87 euros à hora e mesmo assim (a)correm, muitas vezes, para uma morte certa.
Culpados porque não questionamos o Executivo por que não investe em mais recursos humanos e materiais na prevenção de um holocausto (do grego “completamente queimado”) evitável.
Um pouco por todo o lado em Portugal, nas comunidades e também no Luxemburgo nascem movimentos solidários para com as vítimas dos incêndios.
Mas é essencial agir a montante e coragem política para implementar medidas que vão levar anos a ter efeito mas a termo farão recuar o número de fogos. É preciso investir na limpeza das matas e na reflorestação com espécies de árvores ditas “bombeiras”, que travam os incêndios, como os castanheiros, os carvalhos ou as bétulas. Também este é um investimento no turismo, mas sobretudo no futuro. Até agora, infelizmente, a política sempre optou pelas ações a curto prazo. Com o resultado que se vê.
José Luís Correia
in Contacto, 21/06/2017
Mais uma vez, as chamas devastaram o jardim à beira-mar plantado. Jardim bem mal cuidado, de que falamos orgulhosamente mas carece de jardinagem e de jardineiro. Jardim do qual gabamos ao turista as bonitas flores, mas que basta este olhar melhor para ver as ervas daninhas. Matas onde se acumulam lixeiras ou aldeias sitiadas por labaredas não vendem postais.
A devastação que está a deixar o fogo que deflagrou no sábado no Pedrógão Grande – ainda não extinto à hora do fecho desta edição (após quatro dias!) –, faz já desta tragédia a mais pesada da história dos incêndios florestais em Portugal. As notícias das perdas humanas caíram como se fossem um eletrochoque junto dos portugueses. Um choque mais forte do que aqueles que nos sacodem nos verões em que morre um ou dois bombeiros, mas um eletrochoque que vem transvestido de uma falsa inocência. Porque mesmo se foram condições climatéricas invulgares que levaram ao início deste fogo, uma trovoada seca como dizem as autoridades, temos que nos questionar porque razão não sabemos lutar melhor contra esta calamidade que nos fustiga anualmente.
Questionemo-nos. Porque, afinal, somos todos culpados. Culpados de não fazer mais pressão junto do poder local e central que sabe há décadas que temos um país propenso aos fogos florestais. Culpados porque não denunciamos quem não limpa as suas próprias matas.
Culpados porque não condenamos o amigo que joga a beata de cigarro pela janela ao conduzir numa estrada pejada de um lado e de outro de eucaliptos, que são “autênticos bicos de gás acesos nas florestas” e só beneficiam a indústria madeireira, como denunciam os cientistas.
Culpados porque nos indignamos e comovemos nas redes sociais e nas televisões mas não agimos, não obrigamos o Governo a refundar o serviço dos guardas florestais, que foram integrados na GNR, a criar mais corporações de bombeiros profissionais, a revalorizar os bombeiros voluntários que ganham uns míseros 1,87 euros à hora e mesmo assim (a)correm, muitas vezes, para uma morte certa.
Culpados porque não questionamos o Executivo por que não investe em mais recursos humanos e materiais na prevenção de um holocausto (do grego “completamente queimado”) evitável.
Um pouco por todo o lado em Portugal, nas comunidades e também no Luxemburgo nascem movimentos solidários para com as vítimas dos incêndios.
Mas é essencial agir a montante e coragem política para implementar medidas que vão levar anos a ter efeito mas a termo farão recuar o número de fogos. É preciso investir na limpeza das matas e na reflorestação com espécies de árvores ditas “bombeiras”, que travam os incêndios, como os castanheiros, os carvalhos ou as bétulas. Também este é um investimento no turismo, mas sobretudo no futuro. Até agora, infelizmente, a política sempre optou pelas ações a curto prazo. Com o resultado que se vê.
José Luís Correia
in Contacto, 21/06/2017
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quinta-feira, 18 de maio de 2017
EDITORIAL: A vitória do anti-herói
Os portugueses continuam a precisar de heróis. No sábado, o cosmos conspirou para que uma sequência de acontecimentos felizes prometessem à pátria lusa um novo 13 de maio, uma epifania, um novo salvador. Portugal, país de fé.
E o universo parece ter-se dobrado à nossa vontade e concedeu-nos alguns instantes felizes e inesquecíveis no tempo. O jardim à beira-mar plantado, que tantas vezes acha que é mero quintal das traseiras, que se sente esquecido, olvidado, foi central. Pelo menos, durante 24 horas.
O Papa mostrou que Fátima é um dos maiores santuários católicos e isto perante o mundo e mais de um milhão de peregrinos. Para muitos, corrigiu uma injustiça: canonizou os pastorinhos Francisco e Jacinta, legitimando-os assim perante a Igreja e o mundo católico. Ao mesmo tempo, legitimou as aparições da Cova da Iria de 1917, que continuam a não obter consenso no próprio Vaticano.
Nessa mesma noite, os olhos e os corações lusos viraram-se para Kiev e desejaram e acreditaram num milagre completamente diferente. Há mais de meio século – 53 anos! – que os melhores compositores e músicos do "país dos poetas" concorrem ao Festival Eurovisão da Canção. Em vão. Nem ao top 5 chegaram. Outros países recém-chegados – arrivistas, dizem os nossos paladinos nacionais, invejosos que o rock ucraniano seja preferido à canção lusa –, “vendem-se” à língua inglesa e granjeiam o troféu. É a Letónia, a Turquia, o Azerbaijão, até a chauvinista França, que não vence desde 1977 (e nesse venceu graças à franco-portuguesa Marie Myriam), se faz agora representar no idioma de Shakespeare.
A imprensa e a elite portuguesas foram-se assim desinteressando do festival, por onde passaram nomes como France Gall, Julio Iglesias, Olivia Newton-John, Abba, Céline Dion ou Lara Fabian, mas que por ser um palco padastro passou a ser kitsch, piroso, inomável. A verdade é que a profusão de lantejoulas e o europop simplório que por ali pululam ainda hoje não ajudam a retirar-lhe essa fama.
Portugal manteve-se orgulhosamente só e fiel a cantar na sua língua. E eis que surge um novo bardo, primeiro troçado, depois encorajado, finalmente coroado. Vestiram-lhe as vestes sebastianistas, visivelmente demasiado largas para aqueles ombros frágeis. O nome parecia predestinado para salvar a honra lusa e até, quiçá, cumprir o Quinto Império. Quanta responsabilidade!
A verdade é que nem Portugal nem o Eurofestival precisam de heróis, apenas de simplicidade, de música genuína, de canções sem refrões bacocos, que isso é o suficiente para vencer e convencer até as plateias mais desvirtuadas pela indústria musical, que pensa saber o que o público gosta.
Talvez a Eurovisão mude de paradigma, e talvez agora as rádios portuguesas abram o espartilho do seu airplay a músicos como Salvador. Não precisamos de heróis, apenas de genuinidade. Foi essa a lição que Salvador nos deu.
A completar a coroa de glória, mas apenas para quem é benfiquista, o clube da Luz festejou o “tetra” e o 36° título nacional com uma megafesta no Marquês, onde a canção do Salvador também foi entoada.
José Luís Correia, 17/05/2017
in Contacto
E o universo parece ter-se dobrado à nossa vontade e concedeu-nos alguns instantes felizes e inesquecíveis no tempo. O jardim à beira-mar plantado, que tantas vezes acha que é mero quintal das traseiras, que se sente esquecido, olvidado, foi central. Pelo menos, durante 24 horas.
O Papa mostrou que Fátima é um dos maiores santuários católicos e isto perante o mundo e mais de um milhão de peregrinos. Para muitos, corrigiu uma injustiça: canonizou os pastorinhos Francisco e Jacinta, legitimando-os assim perante a Igreja e o mundo católico. Ao mesmo tempo, legitimou as aparições da Cova da Iria de 1917, que continuam a não obter consenso no próprio Vaticano.
Nessa mesma noite, os olhos e os corações lusos viraram-se para Kiev e desejaram e acreditaram num milagre completamente diferente. Há mais de meio século – 53 anos! – que os melhores compositores e músicos do "país dos poetas" concorrem ao Festival Eurovisão da Canção. Em vão. Nem ao top 5 chegaram. Outros países recém-chegados – arrivistas, dizem os nossos paladinos nacionais, invejosos que o rock ucraniano seja preferido à canção lusa –, “vendem-se” à língua inglesa e granjeiam o troféu. É a Letónia, a Turquia, o Azerbaijão, até a chauvinista França, que não vence desde 1977 (e nesse venceu graças à franco-portuguesa Marie Myriam), se faz agora representar no idioma de Shakespeare.
A imprensa e a elite portuguesas foram-se assim desinteressando do festival, por onde passaram nomes como France Gall, Julio Iglesias, Olivia Newton-John, Abba, Céline Dion ou Lara Fabian, mas que por ser um palco padastro passou a ser kitsch, piroso, inomável. A verdade é que a profusão de lantejoulas e o europop simplório que por ali pululam ainda hoje não ajudam a retirar-lhe essa fama.
Portugal manteve-se orgulhosamente só e fiel a cantar na sua língua. E eis que surge um novo bardo, primeiro troçado, depois encorajado, finalmente coroado. Vestiram-lhe as vestes sebastianistas, visivelmente demasiado largas para aqueles ombros frágeis. O nome parecia predestinado para salvar a honra lusa e até, quiçá, cumprir o Quinto Império. Quanta responsabilidade!
A verdade é que nem Portugal nem o Eurofestival precisam de heróis, apenas de simplicidade, de música genuína, de canções sem refrões bacocos, que isso é o suficiente para vencer e convencer até as plateias mais desvirtuadas pela indústria musical, que pensa saber o que o público gosta.
Talvez a Eurovisão mude de paradigma, e talvez agora as rádios portuguesas abram o espartilho do seu airplay a músicos como Salvador. Não precisamos de heróis, apenas de genuinidade. Foi essa a lição que Salvador nos deu.
A completar a coroa de glória, mas apenas para quem é benfiquista, o clube da Luz festejou o “tetra” e o 36° título nacional com uma megafesta no Marquês, onde a canção do Salvador também foi entoada.
José Luís Correia, 17/05/2017
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quinta-feira, 11 de maio de 2017
EDITORIAL: A França em marcha
Emmanuel Macron toma posse no domingo como oitavo Presidente da V República francesa, tornando-se o chefe de Estado mais novo de sempre do Hexágono.
Muitos veem nele a evolução e a revolução de que o país precisa, outros temem o resvalar num ultraliberalismo desenfreado. Uma leitura rápida do seu programa eleitoral dá-nos um vislumbre das suas linhas políticas nos próximos cinco anos.
A nível europeu, Macron quer ser o “desfibrilhador” da UE e relançar o bater do coração da Europa, i.e., o eixo Paris-Berlim, como resposta ao infarto que foi o Brexit, defende ainda a criação de um parlamento para a zona euro e a constituição de um fundo europeu para a defesa.
A nível doméstico, Macron quer: baixar os impostos às empresas, cortar no subsídio de desemprego, deixar de tributar as horas extraordinárias, “flexibilizar” a contratação e dispensa de trabalhadores, abolir o imposto predial para 80% dos lares, investir 15 mil milhões de euros na transição ecológica para reduzir a “dependência” do nuclear, contratar dez mil polícias, atribuir 15 mil milhões de euros à formação, criar cinco mil postos de docentes, reduzindo o número de alunos nas turmas a dezena e meia, cortar 120 mil empregos na administração pública, “ajustar” o sistema de pensões da Função Pública ao do setor privado, e, simultaneamente, aumentar a idade da reforma.
Mas, para isto tudo, Macron precisa de um Governo de maioria do seu lado. Depois do resultado que obteve domingo deverá, sem surpresas, alcançar essa maioria confortável nas legislativas de junho. O seu movimento “En Marche” transformou-se em partido na segunda-feira com o nome de “La République En Marche!” e a ele deverão aderir membros dos partidos tradicionais da esquerda e da direita. Se não o fizerem mostrar-se-ão incoerentes com o que defenderam entre a primeira e a segunda volta.
A França de Macron está em marcha. A pergunta é: que tipo de marcha? Os sindicatos franceses dizem-se atentos e prontos a lutar contra qualquer recuo a nível social.
Entretanto, na Frente Nacional (FN) respira-se um ar de pólvora, de implosão ou, pelo menos, de contestação da líder. Marine Le Pen não é afinal tão consensual como parecia desde o afastamento do pai, Jean-Marie. No domingo à noite, vozes no partido começaram a elevar-se e a criticar o seu exercício falhado no debate de quarta-feira frente a Macron, onde Marine perdeu a eleição, acusam. E aventam já o nome da sua sobrinha, Marion, por quem Marine nutre um ódio visceral, como em todas as boas famílias com egos sobredimensionados, para lhe suceder na liderança. Marine, que no domingo disse que a FN é já “o maior partido da oposição”, quer mudar o nome do partido, chegar a mais “patriotas” e provar que o resultado das presidenciais se pode refletir e até ampliar nas legislativas. Desse resultado pode depender o seu futuro na FN e a estratégia do partido para as presidenciais de 2022.
José Luís Correia, in Contacto, 10.05.2017
Muitos veem nele a evolução e a revolução de que o país precisa, outros temem o resvalar num ultraliberalismo desenfreado. Uma leitura rápida do seu programa eleitoral dá-nos um vislumbre das suas linhas políticas nos próximos cinco anos.
A nível europeu, Macron quer ser o “desfibrilhador” da UE e relançar o bater do coração da Europa, i.e., o eixo Paris-Berlim, como resposta ao infarto que foi o Brexit, defende ainda a criação de um parlamento para a zona euro e a constituição de um fundo europeu para a defesa.
A nível doméstico, Macron quer: baixar os impostos às empresas, cortar no subsídio de desemprego, deixar de tributar as horas extraordinárias, “flexibilizar” a contratação e dispensa de trabalhadores, abolir o imposto predial para 80% dos lares, investir 15 mil milhões de euros na transição ecológica para reduzir a “dependência” do nuclear, contratar dez mil polícias, atribuir 15 mil milhões de euros à formação, criar cinco mil postos de docentes, reduzindo o número de alunos nas turmas a dezena e meia, cortar 120 mil empregos na administração pública, “ajustar” o sistema de pensões da Função Pública ao do setor privado, e, simultaneamente, aumentar a idade da reforma.
Mas, para isto tudo, Macron precisa de um Governo de maioria do seu lado. Depois do resultado que obteve domingo deverá, sem surpresas, alcançar essa maioria confortável nas legislativas de junho. O seu movimento “En Marche” transformou-se em partido na segunda-feira com o nome de “La République En Marche!” e a ele deverão aderir membros dos partidos tradicionais da esquerda e da direita. Se não o fizerem mostrar-se-ão incoerentes com o que defenderam entre a primeira e a segunda volta.
A França de Macron está em marcha. A pergunta é: que tipo de marcha? Os sindicatos franceses dizem-se atentos e prontos a lutar contra qualquer recuo a nível social.
Entretanto, na Frente Nacional (FN) respira-se um ar de pólvora, de implosão ou, pelo menos, de contestação da líder. Marine Le Pen não é afinal tão consensual como parecia desde o afastamento do pai, Jean-Marie. No domingo à noite, vozes no partido começaram a elevar-se e a criticar o seu exercício falhado no debate de quarta-feira frente a Macron, onde Marine perdeu a eleição, acusam. E aventam já o nome da sua sobrinha, Marion, por quem Marine nutre um ódio visceral, como em todas as boas famílias com egos sobredimensionados, para lhe suceder na liderança. Marine, que no domingo disse que a FN é já “o maior partido da oposição”, quer mudar o nome do partido, chegar a mais “patriotas” e provar que o resultado das presidenciais se pode refletir e até ampliar nas legislativas. Desse resultado pode depender o seu futuro na FN e a estratégia do partido para as presidenciais de 2022.
José Luís Correia, in Contacto, 10.05.2017
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quinta-feira, 4 de maio de 2017
EDITORIAL: A forca ou a guilhotina?
Os franceses vão ter que escolher para chefe de Estado, no domingo, entre um ultraliberal, amigo da alta finança, e uma xenófoba fascista. O resultado pode e vai afetar-nos a todos, dentro e fora da UE.
É a história de um condenado à morte a quem o bom rei concede uma última graça: ele pode escolher como vai morrer, na forca ou na guilhotina. O homem encolhe os ombros e recusa escolher, porque o resultado será o mesmo.
O mesmo parecem responder muitos franceses quando confrontados com a pergunta se votarão Emmanuel Macron ou Marine Le Pen no próximo domingo. Mas será que abster-se é uma opção quando existe um perigo real e tangível de um regime fascista chegar ao poder de um dos países fundadores da União Europeia, um Estado que clama habitualmente tão alto ser “o país dos direitos do Homem”?
De um lado do ringue temos um ultraliberal, amigo e produto direto da alta finança e das grandes empresas, europeísta e federalista, o que até seria positivo nesta UE em desintegração acelerada, não fosse tudo o que mencionámos antes e, portanto, a Europa é para este um meio mais do que um fim para servir os interesses económicos.
Do outro lado temos uma nacionalista, xenófoba, neofascista, anti-imigração, anti-africanos, anti-árabes, anti-refugiados, anti-UE, enfim, “anti” quase tudo, exceto os seus próprios interesses. Sim, porque é preciso não esquecer que embora Marine queira mostrar-se como próxima do povo, esse não é o seu meio. Marine é “filha de”, como se diz em França quando se quer falar de alguém de uma família privilegiada. Marine nasceu e cresceu numa família que enriqueceu à custa dos militantes da Frente Nacional, partido cuja caixa registadora e património se confundem com os bens dos Le Pen, a tal ponto que ela e o pai já tiveram que prestar contas à justiça e ao fisco franceses por diversas vezes.
Não esqueçamos que Marine “herdou” o partido, como se este verbo e este substantivo pudessem estar juntos na mesma frase numa democracia! O pai e antigos colaboradores nazis do regime de Vichy criaram o partido em 1972 e sempre defenderam uma França isolada e fascista. Não é a operação de cosmética e charme dos últimos meses que mudam o fundo de comércio dos Le Pen.
Estará a França perante um suicídio programado? O resultado está nas mãos dos franceses. Este é o terceiro editorial seguido que dedico inteiramente às presidenciais francesas, sem contar as outras vezes em que abordei o assunto ao falar dos populismos, dos recuos identitários, das derivas económicas ultraliberais, do recuo dos valores europeus, dos novos equilíbrios de força que estão a emergir e a deixar a Europa e o mundo resvalar para um canto sombrio da civilização que já ninguém pensava ser possível. O que está em jogo é decisivo, não só para França e para os franceses, mas para todos nós, que ainda vivemos em democracia, ainda vivemos na UE, ainda gozamos de paz. Ainda. Mas por quanto tempo? Vivemos tempos conturbados, na verdade.
José Luís Correia, in Contacto, 03.05.2017
É a história de um condenado à morte a quem o bom rei concede uma última graça: ele pode escolher como vai morrer, na forca ou na guilhotina. O homem encolhe os ombros e recusa escolher, porque o resultado será o mesmo.
O mesmo parecem responder muitos franceses quando confrontados com a pergunta se votarão Emmanuel Macron ou Marine Le Pen no próximo domingo. Mas será que abster-se é uma opção quando existe um perigo real e tangível de um regime fascista chegar ao poder de um dos países fundadores da União Europeia, um Estado que clama habitualmente tão alto ser “o país dos direitos do Homem”?
De um lado do ringue temos um ultraliberal, amigo e produto direto da alta finança e das grandes empresas, europeísta e federalista, o que até seria positivo nesta UE em desintegração acelerada, não fosse tudo o que mencionámos antes e, portanto, a Europa é para este um meio mais do que um fim para servir os interesses económicos.
Do outro lado temos uma nacionalista, xenófoba, neofascista, anti-imigração, anti-africanos, anti-árabes, anti-refugiados, anti-UE, enfim, “anti” quase tudo, exceto os seus próprios interesses. Sim, porque é preciso não esquecer que embora Marine queira mostrar-se como próxima do povo, esse não é o seu meio. Marine é “filha de”, como se diz em França quando se quer falar de alguém de uma família privilegiada. Marine nasceu e cresceu numa família que enriqueceu à custa dos militantes da Frente Nacional, partido cuja caixa registadora e património se confundem com os bens dos Le Pen, a tal ponto que ela e o pai já tiveram que prestar contas à justiça e ao fisco franceses por diversas vezes.
Não esqueçamos que Marine “herdou” o partido, como se este verbo e este substantivo pudessem estar juntos na mesma frase numa democracia! O pai e antigos colaboradores nazis do regime de Vichy criaram o partido em 1972 e sempre defenderam uma França isolada e fascista. Não é a operação de cosmética e charme dos últimos meses que mudam o fundo de comércio dos Le Pen.
Estará a França perante um suicídio programado? O resultado está nas mãos dos franceses. Este é o terceiro editorial seguido que dedico inteiramente às presidenciais francesas, sem contar as outras vezes em que abordei o assunto ao falar dos populismos, dos recuos identitários, das derivas económicas ultraliberais, do recuo dos valores europeus, dos novos equilíbrios de força que estão a emergir e a deixar a Europa e o mundo resvalar para um canto sombrio da civilização que já ninguém pensava ser possível. O que está em jogo é decisivo, não só para França e para os franceses, mas para todos nós, que ainda vivemos em democracia, ainda vivemos na UE, ainda gozamos de paz. Ainda. Mas por quanto tempo? Vivemos tempos conturbados, na verdade.
José Luís Correia, in Contacto, 03.05.2017
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quarta-feira, 26 de abril de 2017
Presidenciais francesas: Lobos vestidos de cordeiros
Os franceses “apuraram” para a segunda volta das presidenciais um ultraliberal amigo da alta finança e uma nacionalista demagoga da extrema-direita. E agora, o que será de França?
Como escrevi aqui na semana passada, a França desbipolarizou-se, e a deserção dos eleitores dos dois grandes partidos tradicionais da esquerda e da direita, que se alternavam no poder há mais de 50 anos, ficou mais patente do que nunca. Para a segunda volta “apuraram” dois candidatos antissistema ou que, pelo menos, assim gostam de apresentar-se.
Marine Le Pen pegou no partido do pai em 2011 e em meia dúzia de anos, literalmente, fez o que o ’pater familias’ não conseguiu em 40 anos: transformou a Frente Nacional em partido que quase passa por respeitável. Ou imita bem. Com um discurso calmo e sem nunca irromper pelos histerismos de ódio racial e negacionista de Jean-Marie, a filha sintonizou as preocupações da FN com a dos franceses do “país real”, os que sofrem de desemprego, os que perderam poder económico nos últimos anos devido à crise financeira, às deslocalizações e à pauperização da província.
As linhas de base da FN não mudaram, note-se bem, continua a ser um partido anti-europeu, anti-estrangeiros, anti-islâmico, racista e nacionalista. Mas numa época em que cada vez mais cidadãos se sentem abandonados pelo Estado e pela UE, no centro da qual deveriam ser a preocupação principal, a FN soube passar o seu arado demagógico e cavar trincheiras cada vez mais profundas entre os que se sentem esquecidos e os que estes consideram as elites. Os resultados de domingo mostram-no claramente: Macron ganhou nas cidades, Le Pen na província.
O mesmo fenómeno, o sentimento de abandono do Estado por parte do cidadão anónimo, em detrimento das elites, levou à eleição de um improvável Donald Trump nos EUA.
Emmanuel Macron não é um candidato antissistema, é talvez o melhor candidato do sistema porque passa por... não sê-lo. Tornou-se inspetor das Finanças em 2004, em 2006 é apresentado a François Hollande, dois anos depois troca a Função Pública por um cargo de banqueiro de negócios da família Rotschild.
Em apenas três datas, que fazem parte da sua biografia oficial, percebemos que a subida fulgurante em meia dúzia de anos de um mero inspetor das Finanças a conselheiro de uma das maiores fortunas do mundo não é anódina.
A inteligência de Macron foi perceber e reagir ao fenómeno do descrédito e da erosão dos partidos tradicionais que outros políticos sentiam mas recusavam ver. Afastando-se a tempo de François Hollande, criou o seu próprio movimento político. Com que dinheiro?, eis a questão.
Apresentando-se apartidário e centrista, as políticas que conduziu e propôs no Governo Hollande não deixam margens para dúvidas: Macron é um ultraliberal, anti-Estado social, amigo da alta finança, a quem deve provavelmente a sua ascensão, e diz-se europeu convicto (mas convicto de quê?). Tanto
Le Pen como Macron fazem pensar em lobos (trans)vestidos de cordeiros. Mas agora é tarde, já entraram no estábulo.
José Luís Correia
in Contacto, 26 de abril de 2017
Como escrevi aqui na semana passada, a França desbipolarizou-se, e a deserção dos eleitores dos dois grandes partidos tradicionais da esquerda e da direita, que se alternavam no poder há mais de 50 anos, ficou mais patente do que nunca. Para a segunda volta “apuraram” dois candidatos antissistema ou que, pelo menos, assim gostam de apresentar-se.
Marine Le Pen pegou no partido do pai em 2011 e em meia dúzia de anos, literalmente, fez o que o ’pater familias’ não conseguiu em 40 anos: transformou a Frente Nacional em partido que quase passa por respeitável. Ou imita bem. Com um discurso calmo e sem nunca irromper pelos histerismos de ódio racial e negacionista de Jean-Marie, a filha sintonizou as preocupações da FN com a dos franceses do “país real”, os que sofrem de desemprego, os que perderam poder económico nos últimos anos devido à crise financeira, às deslocalizações e à pauperização da província.
As linhas de base da FN não mudaram, note-se bem, continua a ser um partido anti-europeu, anti-estrangeiros, anti-islâmico, racista e nacionalista. Mas numa época em que cada vez mais cidadãos se sentem abandonados pelo Estado e pela UE, no centro da qual deveriam ser a preocupação principal, a FN soube passar o seu arado demagógico e cavar trincheiras cada vez mais profundas entre os que se sentem esquecidos e os que estes consideram as elites. Os resultados de domingo mostram-no claramente: Macron ganhou nas cidades, Le Pen na província.
O mesmo fenómeno, o sentimento de abandono do Estado por parte do cidadão anónimo, em detrimento das elites, levou à eleição de um improvável Donald Trump nos EUA.
Emmanuel Macron não é um candidato antissistema, é talvez o melhor candidato do sistema porque passa por... não sê-lo. Tornou-se inspetor das Finanças em 2004, em 2006 é apresentado a François Hollande, dois anos depois troca a Função Pública por um cargo de banqueiro de negócios da família Rotschild.
Em apenas três datas, que fazem parte da sua biografia oficial, percebemos que a subida fulgurante em meia dúzia de anos de um mero inspetor das Finanças a conselheiro de uma das maiores fortunas do mundo não é anódina.
A inteligência de Macron foi perceber e reagir ao fenómeno do descrédito e da erosão dos partidos tradicionais que outros políticos sentiam mas recusavam ver. Afastando-se a tempo de François Hollande, criou o seu próprio movimento político. Com que dinheiro?, eis a questão.
Apresentando-se apartidário e centrista, as políticas que conduziu e propôs no Governo Hollande não deixam margens para dúvidas: Macron é um ultraliberal, anti-Estado social, amigo da alta finança, a quem deve provavelmente a sua ascensão, e diz-se europeu convicto (mas convicto de quê?). Tanto
Le Pen como Macron fazem pensar em lobos (trans)vestidos de cordeiros. Mas agora é tarde, já entraram no estábulo.
José Luís Correia
in Contacto, 26 de abril de 2017
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quinta-feira, 20 de abril de 2017
Presidenciais francesas: Venha o diabo e escolha
Nunca se viveu uma campanha eleitoral como esta para a eleição do Presidente da República francês. França parece estar a desbipolarizar-se para se dividir em quatro. Os papéis invertem-se, os protagonistas habituais passam para os papéis secundários e vice-versa, e tudo a que estávamos habituados na política francesa parece estar de pernas para o ar.
Um candidato é indiciado por crime de desvio de fundos públicos – François Fillon –, mas grita que é alvo de uma cabala política engendrada pelos “gabinetes escuros” do Eliseu. Teoria da conspiração? Fillon disse que se fosse indiciado pela justiça, abandonaria a campanha, foi indiciado e não desistiu. Surreal!
Um outro candidato, Marine Le Pen, é também ela alvo de suspeitas de desvio de fundos, mas europeus. Mas esta, ao contrário do que é seu hábito, não se finge de vítima. São os papéis novamente a inverterem-se.
Mas esta campanha é também inédita porque os dois principais partidos do espectro político gaulês – Les Républicains (UDR nos anos 1970, RPR até 2002 sob Chirac, e depois UMP, sob Chirac e Sarkozy) e os Socialistas – são os que têm tido mais dificuldade em convencer os eleitores, como sempre tinha acontecido em todas as eleições legislativas ou presidenciais até hoje.
Fillon, que era suposto ter a missão “fácil” de unir toda a direita e marcar o regresso desta ao poder após a impopular era de Hollande, sofreu uma derrocada e um descrédito tais que nem depois da eleição terá fim à vista. A justiça encarregar-se-á de ditar o ponto final nessa história.
O PS, que deveria renovar-se com um digno sucessor de Hollande, desentendeu-se internamente e dois ex-ministros do executivo cessante concorrem um contra o outro, com Emmanuel Macron a adiantar-se muito a Benoît Hamon.
Num PS dividido, os eleitores mais à direita alinharam com Macron ou mesmo Fillon. Os mais à esquerda apoiam Jean-Luc Mélenchon, um antigo socialista que em 2008 fundou uma espécie de Bloco de Esquerda francês, e que parece estar também a canalizar os eleitores que ainda hesitavam.
Sobra Marine Le Pen na extrema-direita, que com um discurso aparentemente pausado, menos histérico e radical que o seu pai, tem conseguido também ganhar eleitores aos partidos tradicionais.
Com esta deserção dos partidos tradicionais, França parece estar a desbipolarizar-se para se dividir em quatro. Nunca até hoje e a tão poucos dias do sufrágio presidencial, havia tanta hesitação nas intenções de voto, o que possibilita que qualquer um dos quatro candidatos mais à frente nas sondagens possa passar à segunda volta.
O que na segunda volta pode significar que se passarem Mélenchon e Le Pen, o Hexágono vai fazer uma espargata política inacreditável. O que fez François Hollande, pela primeira vez, sair da sua reserva e falar de um dos candidatos, apelando para que os franceses não votem na esquerda radical e anti-europeia de Mélenchon. Inacreditável!
A extrema-esquerda mete mais medo do que a extrema-direita? Já nos anos 1930 os políticos franceses diziam que Hitler era preferível à Frente Popular de esquerda. A História e a sua tendência para se repetir ou seremos simplesmente burros?
José Luís Correia
in Contacto, 19/04/2017
Um candidato é indiciado por crime de desvio de fundos públicos – François Fillon –, mas grita que é alvo de uma cabala política engendrada pelos “gabinetes escuros” do Eliseu. Teoria da conspiração? Fillon disse que se fosse indiciado pela justiça, abandonaria a campanha, foi indiciado e não desistiu. Surreal!
Um outro candidato, Marine Le Pen, é também ela alvo de suspeitas de desvio de fundos, mas europeus. Mas esta, ao contrário do que é seu hábito, não se finge de vítima. São os papéis novamente a inverterem-se.
Mas esta campanha é também inédita porque os dois principais partidos do espectro político gaulês – Les Républicains (UDR nos anos 1970, RPR até 2002 sob Chirac, e depois UMP, sob Chirac e Sarkozy) e os Socialistas – são os que têm tido mais dificuldade em convencer os eleitores, como sempre tinha acontecido em todas as eleições legislativas ou presidenciais até hoje.
Fillon, que era suposto ter a missão “fácil” de unir toda a direita e marcar o regresso desta ao poder após a impopular era de Hollande, sofreu uma derrocada e um descrédito tais que nem depois da eleição terá fim à vista. A justiça encarregar-se-á de ditar o ponto final nessa história.
O PS, que deveria renovar-se com um digno sucessor de Hollande, desentendeu-se internamente e dois ex-ministros do executivo cessante concorrem um contra o outro, com Emmanuel Macron a adiantar-se muito a Benoît Hamon.
Num PS dividido, os eleitores mais à direita alinharam com Macron ou mesmo Fillon. Os mais à esquerda apoiam Jean-Luc Mélenchon, um antigo socialista que em 2008 fundou uma espécie de Bloco de Esquerda francês, e que parece estar também a canalizar os eleitores que ainda hesitavam.
Sobra Marine Le Pen na extrema-direita, que com um discurso aparentemente pausado, menos histérico e radical que o seu pai, tem conseguido também ganhar eleitores aos partidos tradicionais.
Com esta deserção dos partidos tradicionais, França parece estar a desbipolarizar-se para se dividir em quatro. Nunca até hoje e a tão poucos dias do sufrágio presidencial, havia tanta hesitação nas intenções de voto, o que possibilita que qualquer um dos quatro candidatos mais à frente nas sondagens possa passar à segunda volta.
O que na segunda volta pode significar que se passarem Mélenchon e Le Pen, o Hexágono vai fazer uma espargata política inacreditável. O que fez François Hollande, pela primeira vez, sair da sua reserva e falar de um dos candidatos, apelando para que os franceses não votem na esquerda radical e anti-europeia de Mélenchon. Inacreditável!
A extrema-esquerda mete mais medo do que a extrema-direita? Já nos anos 1930 os políticos franceses diziam que Hitler era preferível à Frente Popular de esquerda. A História e a sua tendência para se repetir ou seremos simplesmente burros?
José Luís Correia
in Contacto, 19/04/2017
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quinta-feira, 13 de abril de 2017
Os senhores da guerra
Os EUA atacaram posições do regime de Bashar al-Assad na Síria, a primeira vez desde o início da guerra civil naquele país em 2011. Para muitos, isto indica o surgimento de um novo conflito que pode depressa degenerar e envolver as principais potências mundias.
Ventos de guerra. Na Síria. No Mar do Japão. Trump gira o globo nos dedos, como num velho filme de Chaplin, e pensa na melhor forma de desviar a atenção da sua política doméstica ineficaz. Precisa de vitórias. Rápidas. Repara como George W. Bush, de simples filho de presidente, amador de bretzels e de hambúrgueres, se transformou em chefe de guerra de um dia para o outro, numa manhã de setembro, graças a duas torres caídas providencialmente...
Donald afasta a franja laranja e posiciona os seus navios e soldadinhos no mapa geoestratégico global. - Ping-pong-gang, um navio para ali!
- Pyongyang!
- E Home, onde fica?
- Homs, Presidente! No norte da Síria.
- Hã? Há petróleo, passa ali um gaseoduto, há reservas de água doce?
Novos ventos de guerra sopram dos quadrantes da cupidez, há ânsia de domínio e de supremacia. As superpotências sonham em inverter o crepúsculo irreversível da sua hegemonia decadente, as potências emergentes planeiam conquistas. E o oligarca de Moscovo ri, uma nova guerra para vender arsenal militar e alargar o feudo. Paris, Londres, Berlim lamentam, condenam. Mas nas salas escuras dos governos dessas metrópoles irrepreensíveis, sempre prontas para dar lições de moral e mostrar a exemplaridade europeia, os senhores da guerra esfregam as mãos ávidas dos negócios chorudos que aí vêm. Não há como uma boa guerra para relançar a economia.
Para nós, essa guerra parece novidade? Sim, é dali que provêm os refugiados sírios que aqui chegam, fogem da guerra e de uma regime sanguinário. Preferem morrer no caminho tentando sobreviver com a família, ter o Mediterrâneo como cemitério, do que ficarem simplesmente à espera de serem gaseados ou bombardeados pelo seu próprio regime. Os sírios (sobre)vivem assim há seis anos! Na senda da primavera árabe, tentaram derrubar a ditadura de Bashar al-Assad em 2011. Reclamavam a mudança, a esperança prometida pelo mesmo Bashar na “primavera de Damasco”, dez anos antes, quando este chegou ao poder parecendo querer encarnar a modernização e o caminho da democracia no pais. Mas foi sol de pouca dura. Bashar mostrou bem ser o filho do general Hafez el-Assad, que tinha governado com autoritarismo o país durante três décadas. E se herdou o “trono” paterno, hoje, 16 anos depois, está mais do que nunca decidido a guardá-lo. Com o apoio de Moscovo.
A Coreia do Norte é outro teatro de uma guerra do porvir. Outro filho e neto de ditadores obstina-se em manter o povo na miséria e no obscurantismo para perpetuar a dinastia Kim, que se segura ao poder desde 1948! Os senhores da guerra, salvadores do mundo livre, já sabem onde agir a seguir.
José Luís Correia
in Contacto, 12.04.2017
Ventos de guerra. Na Síria. No Mar do Japão. Trump gira o globo nos dedos, como num velho filme de Chaplin, e pensa na melhor forma de desviar a atenção da sua política doméstica ineficaz. Precisa de vitórias. Rápidas. Repara como George W. Bush, de simples filho de presidente, amador de bretzels e de hambúrgueres, se transformou em chefe de guerra de um dia para o outro, numa manhã de setembro, graças a duas torres caídas providencialmente...
Donald afasta a franja laranja e posiciona os seus navios e soldadinhos no mapa geoestratégico global. - Ping-pong-gang, um navio para ali!
- Pyongyang!
- E Home, onde fica?
- Homs, Presidente! No norte da Síria.
- Hã? Há petróleo, passa ali um gaseoduto, há reservas de água doce?
Novos ventos de guerra sopram dos quadrantes da cupidez, há ânsia de domínio e de supremacia. As superpotências sonham em inverter o crepúsculo irreversível da sua hegemonia decadente, as potências emergentes planeiam conquistas. E o oligarca de Moscovo ri, uma nova guerra para vender arsenal militar e alargar o feudo. Paris, Londres, Berlim lamentam, condenam. Mas nas salas escuras dos governos dessas metrópoles irrepreensíveis, sempre prontas para dar lições de moral e mostrar a exemplaridade europeia, os senhores da guerra esfregam as mãos ávidas dos negócios chorudos que aí vêm. Não há como uma boa guerra para relançar a economia.
Para nós, essa guerra parece novidade? Sim, é dali que provêm os refugiados sírios que aqui chegam, fogem da guerra e de uma regime sanguinário. Preferem morrer no caminho tentando sobreviver com a família, ter o Mediterrâneo como cemitério, do que ficarem simplesmente à espera de serem gaseados ou bombardeados pelo seu próprio regime. Os sírios (sobre)vivem assim há seis anos! Na senda da primavera árabe, tentaram derrubar a ditadura de Bashar al-Assad em 2011. Reclamavam a mudança, a esperança prometida pelo mesmo Bashar na “primavera de Damasco”, dez anos antes, quando este chegou ao poder parecendo querer encarnar a modernização e o caminho da democracia no pais. Mas foi sol de pouca dura. Bashar mostrou bem ser o filho do general Hafez el-Assad, que tinha governado com autoritarismo o país durante três décadas. E se herdou o “trono” paterno, hoje, 16 anos depois, está mais do que nunca decidido a guardá-lo. Com o apoio de Moscovo.
A Coreia do Norte é outro teatro de uma guerra do porvir. Outro filho e neto de ditadores obstina-se em manter o povo na miséria e no obscurantismo para perpetuar a dinastia Kim, que se segura ao poder desde 1948! Os senhores da guerra, salvadores do mundo livre, já sabem onde agir a seguir.
José Luís Correia
in Contacto, 12.04.2017
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quarta-feira, 5 de abril de 2017
EDITORIAL no Jornal Contacto: Reforçar laços
Assegurar aos alunos de origem portuguesa no Luxemburgo aulas de língua materna, desde o precoce ao secundário, é o grande objetivo de um acordo que António Costa vem assinar hoje no Grão-Ducado.
O primeiro-ministro português está hoje em visita ao Luxemburgo. António Costa retribui a visita que Xavier Bettel fez a Lisboa em novembro, mas vem sobretudo assinar acordos bilaterais que visam uma colaboração mais estreita dos dois países em diferentes áreas.
O mais importante destes acordos, pelo menos para a comunidade portuguesa, é o “Memorando de Entendimento relativo à Promoção da Língua e da Cultura portuguesas no Luxemburgo”. Com este acordo, os dois países comprometem-se a promover juntos o ensino do português na escola luxemburguesa, do precoce ao secundário, como um “ensino complementar”. O que na prática se deverá traduzir pela substituição das aulas do ensino integrado e paralelo.
No Luxemburgo, as autarquias gozam de autonomia política em vários pelouros, a educação é uma dessas áreas. Assim, se uma comuna o desejar, este acordo permitir-lhe-á optar por uma “ferramenta” pensada para os alunos portugueses e feita para “encaixar” no sistema de ensino nacional, que não é “um corpo estranho”, como podia ser considerado o ensino integrado, ou um “corpo externo”, como podia ser visto o ensino paralelo. Pelo menos, é essa a intenção.
O facto de o acordo envolver docentes portugueses, luxemburgueses e até fazer referência a “professores luxemburgueses de origem portuguesa” é um sinal muito positivo. É como se, pela primeira vez, o Grão-Ducado assumisse que tem docentes de origem portuguesa e que estes são uma mais-valia para responder às necessidades específicas de uma parte da população escolar. Esperemos que o acordo sirva sobretudo os alunos e que comunas, como as de Esch/Alzette, não decidam unilateralmente acabar com as aulas de português. Esch anunciou já, aliás, que vai adotar o novo sistema. Esperemos que outras sigam o exemplo.
Um outro acordo a ser assinado hoje é sobre o setor espacial. O Luxemburgo, que vai criar uma agência espacial nacional e decidiu investir na exploração de mineiro de asteróides, tem atraído empresas do ramo aéreo-espacial para o Grão-Ducado. Portugal pode vir a ser um parceiro estratégico nesta área. Isto se for avante o projeto de transformar a base das Lages nos Açores em base espacial da Nasa, com rampas de lançamento para foguetões low-cost, como está a ser estudado desde junho de 2016.
O interesse do Luxemburgo por Portugal vai muito mais longe porque esta “vontade” abre-lhe as portas do “mundo português”, como aliás se viu aquando do pedido que o Grão-Ducado fez há anos para ser país-observador da CPLP. Estes laços só ganham em ser reforçados, em benefício dos dois países, assim o entendam sempre os governos respetivos. E a comunidade portuguesa do Luxemburgo tem um papel determinante a desempenhar nesse âmbito.
José Luís Correia
in Contacto, 05/04/2017
O primeiro-ministro português está hoje em visita ao Luxemburgo. António Costa retribui a visita que Xavier Bettel fez a Lisboa em novembro, mas vem sobretudo assinar acordos bilaterais que visam uma colaboração mais estreita dos dois países em diferentes áreas.
O mais importante destes acordos, pelo menos para a comunidade portuguesa, é o “Memorando de Entendimento relativo à Promoção da Língua e da Cultura portuguesas no Luxemburgo”. Com este acordo, os dois países comprometem-se a promover juntos o ensino do português na escola luxemburguesa, do precoce ao secundário, como um “ensino complementar”. O que na prática se deverá traduzir pela substituição das aulas do ensino integrado e paralelo.
No Luxemburgo, as autarquias gozam de autonomia política em vários pelouros, a educação é uma dessas áreas. Assim, se uma comuna o desejar, este acordo permitir-lhe-á optar por uma “ferramenta” pensada para os alunos portugueses e feita para “encaixar” no sistema de ensino nacional, que não é “um corpo estranho”, como podia ser considerado o ensino integrado, ou um “corpo externo”, como podia ser visto o ensino paralelo. Pelo menos, é essa a intenção.
O facto de o acordo envolver docentes portugueses, luxemburgueses e até fazer referência a “professores luxemburgueses de origem portuguesa” é um sinal muito positivo. É como se, pela primeira vez, o Grão-Ducado assumisse que tem docentes de origem portuguesa e que estes são uma mais-valia para responder às necessidades específicas de uma parte da população escolar. Esperemos que o acordo sirva sobretudo os alunos e que comunas, como as de Esch/Alzette, não decidam unilateralmente acabar com as aulas de português. Esch anunciou já, aliás, que vai adotar o novo sistema. Esperemos que outras sigam o exemplo.
Um outro acordo a ser assinado hoje é sobre o setor espacial. O Luxemburgo, que vai criar uma agência espacial nacional e decidiu investir na exploração de mineiro de asteróides, tem atraído empresas do ramo aéreo-espacial para o Grão-Ducado. Portugal pode vir a ser um parceiro estratégico nesta área. Isto se for avante o projeto de transformar a base das Lages nos Açores em base espacial da Nasa, com rampas de lançamento para foguetões low-cost, como está a ser estudado desde junho de 2016.
O interesse do Luxemburgo por Portugal vai muito mais longe porque esta “vontade” abre-lhe as portas do “mundo português”, como aliás se viu aquando do pedido que o Grão-Ducado fez há anos para ser país-observador da CPLP. Estes laços só ganham em ser reforçados, em benefício dos dois países, assim o entendam sempre os governos respetivos. E a comunidade portuguesa do Luxemburgo tem um papel determinante a desempenhar nesse âmbito.
José Luís Correia
in Contacto, 05/04/2017
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quarta-feira, 15 de março de 2017
Editorial no Jornal Contacto: O eixo Roterdão-Ancara
Esta é a nova era dos populismos e até o improvável se torna possível.
Sempre defendi a adesão da Turquia à União Europeia, porque sou por uma união federalista, sem fronteiras e intercontinental, uma união que devia ir – e um dia irá, porque é inevitável – muito além da Europa. Mas não sou a favor da adesão de uma Turquia em que o Estado não está separado claramente das autoridades religiosas, e em que as liberdades fundamentais e a democracia são apenas palavras nos cartazes das campanhas eleitorais, cuja cor se esbate menos depressa do que as promessas dos candidatos pseudodemocratas.
Por um lado, parece que a sociedade turca se ocidentalizou muito nas últimas décadas, e reivindica cada vez mais um lugar legítimo na União Europeia. Por outro, as derivas do regime ditatorial de Recep Erdogan são incompatíveis com os valores em que assenta a Europa.
A Europa precisa da Turquia e vice-versa, e cada lado parece fazer compromissos, como no acordo firmado para atenuar a crise dos refugiados e dos migrantes. Mas é cada vez mais difícil aturar o autoritarismo e o nacionalismo de Erdogan, que não permite qualquer contestação política. A mão de ferro com que o golpe de Estado fracassado de julho último foi jugulado não deixa margens para dúvidas. Basta esperar que num país em que nos últimos 40 anos já houve três golpes de Estado e uma tentativa, o movimento anti-Erdogan volte ao contra-ataque. Em prol de uma Turquia laica, europeísta, progressista, como Atatürk a sonhou.
Erdogan não tem nada de Atatürk, mesmo se se vê como o novo paladino da nação. Com ele, tudo é jogo político. E até se dá ao luxo de brincar com a Europa. No sábado, enviou dois ministros a Roterdão para participar num comício pró-Governo de Ancara, em plena campanha para as legislativas holandesas, impregnadas pelo discurso anti-muçulmano de Geert Wilders. Erdogan sabia perfeitamente que a presença dos governantes iria gerar polémica (ou pior). Foi provocação ou reaproveitamento político? Erdogan tão bem usa o populismo interno a seu favor como o populismo externo contra si, para justificar o poder autoritário que exerce.
A Holanda proibiu a entrada dos ministros turcos para não acender o rastilho com que a extrema-direita anda a brincar. Mas a Europa não reagiu.
A Holanda, que vai hoje a votos e onde a extrema-direita de Wilders nunca esteve tão bem nas sondagens. Mas ganhar as eleições parece impossível e fazer parte do próximo Governo ainda mais. Pelo menos, matematicamente. Mesmo se Wilders subiu nas sondagens, num parlamento com 150 assentos, pode vir a conquistar no máximo um quinto, já estimando as últimas sondagens em alta. Mesmo assim será insuficiente para governar sozinho. Os outros partidos que lideram as sondagens podem até obter menos votos que Wilders, mas nenhum deles quer uma aliança com o diabo.
Vai a Holanda, conhecida por ser tolerante, aberta, precursora e defensora das liberdades individuais, intrinsecamente anti-Trump, deixar-se polarizar pela questão da crise dos refugiados e pelo discurso anti-Islão de Wilders, e virar-se para a extrema-direita pró-Trump? Seria contranatura. Mas esta é a nova era dos populismos, em que já percebemos que tudo é possível. Mesmo o improvável e o impensável.
José Luís Correia
in Contacto, 15.03.2017
Sempre defendi a adesão da Turquia à União Europeia, porque sou por uma união federalista, sem fronteiras e intercontinental, uma união que devia ir – e um dia irá, porque é inevitável – muito além da Europa. Mas não sou a favor da adesão de uma Turquia em que o Estado não está separado claramente das autoridades religiosas, e em que as liberdades fundamentais e a democracia são apenas palavras nos cartazes das campanhas eleitorais, cuja cor se esbate menos depressa do que as promessas dos candidatos pseudodemocratas.
Por um lado, parece que a sociedade turca se ocidentalizou muito nas últimas décadas, e reivindica cada vez mais um lugar legítimo na União Europeia. Por outro, as derivas do regime ditatorial de Recep Erdogan são incompatíveis com os valores em que assenta a Europa.
A Europa precisa da Turquia e vice-versa, e cada lado parece fazer compromissos, como no acordo firmado para atenuar a crise dos refugiados e dos migrantes. Mas é cada vez mais difícil aturar o autoritarismo e o nacionalismo de Erdogan, que não permite qualquer contestação política. A mão de ferro com que o golpe de Estado fracassado de julho último foi jugulado não deixa margens para dúvidas. Basta esperar que num país em que nos últimos 40 anos já houve três golpes de Estado e uma tentativa, o movimento anti-Erdogan volte ao contra-ataque. Em prol de uma Turquia laica, europeísta, progressista, como Atatürk a sonhou.
Erdogan não tem nada de Atatürk, mesmo se se vê como o novo paladino da nação. Com ele, tudo é jogo político. E até se dá ao luxo de brincar com a Europa. No sábado, enviou dois ministros a Roterdão para participar num comício pró-Governo de Ancara, em plena campanha para as legislativas holandesas, impregnadas pelo discurso anti-muçulmano de Geert Wilders. Erdogan sabia perfeitamente que a presença dos governantes iria gerar polémica (ou pior). Foi provocação ou reaproveitamento político? Erdogan tão bem usa o populismo interno a seu favor como o populismo externo contra si, para justificar o poder autoritário que exerce.
A Holanda proibiu a entrada dos ministros turcos para não acender o rastilho com que a extrema-direita anda a brincar. Mas a Europa não reagiu.
A Holanda, que vai hoje a votos e onde a extrema-direita de Wilders nunca esteve tão bem nas sondagens. Mas ganhar as eleições parece impossível e fazer parte do próximo Governo ainda mais. Pelo menos, matematicamente. Mesmo se Wilders subiu nas sondagens, num parlamento com 150 assentos, pode vir a conquistar no máximo um quinto, já estimando as últimas sondagens em alta. Mesmo assim será insuficiente para governar sozinho. Os outros partidos que lideram as sondagens podem até obter menos votos que Wilders, mas nenhum deles quer uma aliança com o diabo.
Vai a Holanda, conhecida por ser tolerante, aberta, precursora e defensora das liberdades individuais, intrinsecamente anti-Trump, deixar-se polarizar pela questão da crise dos refugiados e pelo discurso anti-Islão de Wilders, e virar-se para a extrema-direita pró-Trump? Seria contranatura. Mas esta é a nova era dos populismos, em que já percebemos que tudo é possível. Mesmo o improvável e o impensável.
José Luís Correia
in Contacto, 15.03.2017
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quarta-feira, 8 de março de 2017
Oito de março
Hoje, 8 de março, assinala-se o Dia Internacional da Mulher. Apesar dos progressos de que tanto nos regozijamos nos países ocidentais, ainda estamos longe da igualdade de direitos.
A palavra japonesa “shufu” designa a doméstica, a mulher que casando, renuncia a trabalhar e fica em casa para tratar dos filhos, do marido e do lar. Shufu é cada vez mais na sociedade nipónica sinónimo de “josei”, a palavra japonesa para mulher. A mulher subalterna, obediente e serviçal. Se o Japão é considerado um dos paises mais evoluídos do mundo, então deveríamos reconsiderar o seu grau de civilização pela forma como trata as mulheres. Seria interessante ver o novo ranking do país do sol nascente.
Não caiamos num etnocentrismo fácil e reflitamos no papel das mulheres na nossa sociedade, onde muitas delas trabalham oito horas ou mais por dia, mas depois chegam a casa e têm a lida da casa à sua espera, o jantar, a loiça, a roupa, porque o marido está na “bricola”, no sofá a ver futebol ou no café a relaxar. Porque muita gente ainda pensa assim: o homem trabalha, a mulher trata da casa, é assim desde Matusalém.
Questionemo-nos então se é mais iníquo ser como os japoneses ou condenar a mulher a um “duplo dia”? O Japão é apenas um exemplo, porque infelizmente na maioria dos países as mulheres efetivamente não gozam dos mesmos direitos que os homens. Nem falemos no caso de muitos países muçulmanos, que se apoiam na religião para justificar a forma como a lei (des)trata as mulheres.
Por vezes, a discriminação de que as mulheres são vítimas existe quase de forma velada, senão invisível, nos “territórios” que já parecem conquistados à causa, como nos nossos países ocidentais na questão das tarefas domésticas não partilhadas. Ou na questão da diferença salarial que parece resolvida, depois de tantos países europeus terem legislado na matéria. Mas não.
Portugal foi um dos países onde a diferença salarial entre homens e mulheres mais aumentou na UE entre 2010 e 2015, segundo um estudo do Eurostat divulgado esta terça-feira. O Luxemburgo está no top-3 dos bons alunos neste estudo.
Mas até no Luxemburgo, onde podíamos pensar que a luta das mulheres pela igualdade de tratamento parece evoluir, damo-nos conta que ainda falta percorrer um longo caminho. Sobretudo quando algo tão anódino como o preço de acesso a uma casa de banho pública na estação central dos caminhos de ferros da cidade do Luxemburgo desmente esses progressos e, longe de ser anedótico, se torna sintomático e revelador.
A luta das mulheres pela igualdade de direitos remonta ao século XIX, mas só em 1945 a ONU adotou uma carta de princípios que estabelecem a igualdade entre os géneros. Entretanto, já passaram 72 anos! Setenta e dois! E, infelizmenre, só se continua a falar da igualdade de géneros uma vez por ano, por ocasião do Dia Internacional da Mulher. A verdadeira vitória será quando deixar de haver Dia da Mulher.
José Luís Correia
in Contacto de 08/03/2017
A palavra japonesa “shufu” designa a doméstica, a mulher que casando, renuncia a trabalhar e fica em casa para tratar dos filhos, do marido e do lar. Shufu é cada vez mais na sociedade nipónica sinónimo de “josei”, a palavra japonesa para mulher. A mulher subalterna, obediente e serviçal. Se o Japão é considerado um dos paises mais evoluídos do mundo, então deveríamos reconsiderar o seu grau de civilização pela forma como trata as mulheres. Seria interessante ver o novo ranking do país do sol nascente.
Não caiamos num etnocentrismo fácil e reflitamos no papel das mulheres na nossa sociedade, onde muitas delas trabalham oito horas ou mais por dia, mas depois chegam a casa e têm a lida da casa à sua espera, o jantar, a loiça, a roupa, porque o marido está na “bricola”, no sofá a ver futebol ou no café a relaxar. Porque muita gente ainda pensa assim: o homem trabalha, a mulher trata da casa, é assim desde Matusalém.
Questionemo-nos então se é mais iníquo ser como os japoneses ou condenar a mulher a um “duplo dia”? O Japão é apenas um exemplo, porque infelizmente na maioria dos países as mulheres efetivamente não gozam dos mesmos direitos que os homens. Nem falemos no caso de muitos países muçulmanos, que se apoiam na religião para justificar a forma como a lei (des)trata as mulheres.
Por vezes, a discriminação de que as mulheres são vítimas existe quase de forma velada, senão invisível, nos “territórios” que já parecem conquistados à causa, como nos nossos países ocidentais na questão das tarefas domésticas não partilhadas. Ou na questão da diferença salarial que parece resolvida, depois de tantos países europeus terem legislado na matéria. Mas não.
Portugal foi um dos países onde a diferença salarial entre homens e mulheres mais aumentou na UE entre 2010 e 2015, segundo um estudo do Eurostat divulgado esta terça-feira. O Luxemburgo está no top-3 dos bons alunos neste estudo.
Mas até no Luxemburgo, onde podíamos pensar que a luta das mulheres pela igualdade de tratamento parece evoluir, damo-nos conta que ainda falta percorrer um longo caminho. Sobretudo quando algo tão anódino como o preço de acesso a uma casa de banho pública na estação central dos caminhos de ferros da cidade do Luxemburgo desmente esses progressos e, longe de ser anedótico, se torna sintomático e revelador.
A luta das mulheres pela igualdade de direitos remonta ao século XIX, mas só em 1945 a ONU adotou uma carta de princípios que estabelecem a igualdade entre os géneros. Entretanto, já passaram 72 anos! Setenta e dois! E, infelizmenre, só se continua a falar da igualdade de géneros uma vez por ano, por ocasião do Dia Internacional da Mulher. A verdadeira vitória será quando deixar de haver Dia da Mulher.
José Luís Correia
in Contacto de 08/03/2017
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quinta-feira, 2 de março de 2017
O ágora dos estrangeiros
O Festival das Migrações foi no passado o palanque público onde os estrangeiros reivindicavam direitos. Chegou a ser ponto de passagem obrigatório para políticos, representantes de partidos e mesmo do Governo. Agora, já não. Porquê?
O Festival das Migrações já não é o que era. Por um lado, temos de constatar que o certame melhorou materialmente. A casa onde o festival recebe anualmente 30 mil visitantes é mais digna desde que em 2005 o festival se instalou na Luxexpo, em Kirchberg.
Quem se lembra do vetusto e exíguo hall Victor Hugo, onde os então cerca de 80 stands (hoje são 400!) se empoleiravam uns em cima dos outros e o então recém-nascido Salão do Livro e das Culturas (criado em 2001) era relegado para uma tenda no exterior, impedido de crescer.
Sem falar no estacionamento “selvagem” de responsáveis dos stands e dos então 20 mil visitantes que invadia ruas e passeios do Limpertsberg, para indignação dos moradores do bairro e gáudio dos agentes comunais que passavam três dias a emitir multas.
O certame também melhorou na qualidade e na diversificação da oferta. Não só há mais expositores, mas há mais países e associações representados, mais stands gastronómicos, mais artistas e grupos musicais em cima e fora do palco. E o Salão do Livro ganhou em 2013 um irmão mais novo, o Artsmanif, onde artistas plásticos do Grão-Ducado e da Grande Região, que procurem uma montra, podem resgatar as suas obras do anonimato dos seus ateliês.
Mas se o Festival das Migrações ganhou em todos estes campos parece que o CLAE, o Comité de Ligação das Associações de Estrangeiros, que organiza o certame desde o início dos anos 80, parece ter desistido da luta política. Ou pelo menos, afrouxo o ritmo da luta.
O festival, através das associações afiliadas ao CLAE, começou no final da década de 80 por ser um palanque público onde os estrangeiros reivindicavam o direito de voto nas eleições comunais e legislativas. Foi ponto de passagem obrigatório para políticos, representantes de partidos e mesmo do Governo.
Nos anos 90 a luta não desarmou e nos sucessivos festivais dessa década o direito de voto nas comunais era tema recorrente. No festival, as palestras sobre o tema multiplicavam-se, o visitante interessado não conseguia “ir a todas”, os debates eram animados e inflamados. Em 1999, os estrangeiros puderam votar pela primeira vez nas eleições locais.
É essa índole reivindicativa e de espaço público de discussão dos temas atuais, sociais e políticos fraturantes, que tem faltado às recentes edições do festival. É disso que muitos visitantes se queixam, de o certame se contentar em ser apenas “festivaleiro”. Talvez isso seja o reflexo da falta de verbas de que o festival sempre sofreu.
Este ano, o CLAE quer insistir na sensibilização junto dos residentes estrangeiros para que se inscrevam nos cadernos eleitorais por forma a poderem votar nas eleições comunais de outubro próximo. Que ferramentas, que argumentos de sensibilização, que campanha tem o CLAE previsto? Que verba? Só vontade não chega. E o Governo não ajuda.
José Luís Correia
in Contacto, 01/03/2017
O Festival das Migrações já não é o que era. Por um lado, temos de constatar que o certame melhorou materialmente. A casa onde o festival recebe anualmente 30 mil visitantes é mais digna desde que em 2005 o festival se instalou na Luxexpo, em Kirchberg.
Quem se lembra do vetusto e exíguo hall Victor Hugo, onde os então cerca de 80 stands (hoje são 400!) se empoleiravam uns em cima dos outros e o então recém-nascido Salão do Livro e das Culturas (criado em 2001) era relegado para uma tenda no exterior, impedido de crescer.
Sem falar no estacionamento “selvagem” de responsáveis dos stands e dos então 20 mil visitantes que invadia ruas e passeios do Limpertsberg, para indignação dos moradores do bairro e gáudio dos agentes comunais que passavam três dias a emitir multas.
O certame também melhorou na qualidade e na diversificação da oferta. Não só há mais expositores, mas há mais países e associações representados, mais stands gastronómicos, mais artistas e grupos musicais em cima e fora do palco. E o Salão do Livro ganhou em 2013 um irmão mais novo, o Artsmanif, onde artistas plásticos do Grão-Ducado e da Grande Região, que procurem uma montra, podem resgatar as suas obras do anonimato dos seus ateliês.
Mas se o Festival das Migrações ganhou em todos estes campos parece que o CLAE, o Comité de Ligação das Associações de Estrangeiros, que organiza o certame desde o início dos anos 80, parece ter desistido da luta política. Ou pelo menos, afrouxo o ritmo da luta.
O festival, através das associações afiliadas ao CLAE, começou no final da década de 80 por ser um palanque público onde os estrangeiros reivindicavam o direito de voto nas eleições comunais e legislativas. Foi ponto de passagem obrigatório para políticos, representantes de partidos e mesmo do Governo.
Nos anos 90 a luta não desarmou e nos sucessivos festivais dessa década o direito de voto nas comunais era tema recorrente. No festival, as palestras sobre o tema multiplicavam-se, o visitante interessado não conseguia “ir a todas”, os debates eram animados e inflamados. Em 1999, os estrangeiros puderam votar pela primeira vez nas eleições locais.
É essa índole reivindicativa e de espaço público de discussão dos temas atuais, sociais e políticos fraturantes, que tem faltado às recentes edições do festival. É disso que muitos visitantes se queixam, de o certame se contentar em ser apenas “festivaleiro”. Talvez isso seja o reflexo da falta de verbas de que o festival sempre sofreu.
Este ano, o CLAE quer insistir na sensibilização junto dos residentes estrangeiros para que se inscrevam nos cadernos eleitorais por forma a poderem votar nas eleições comunais de outubro próximo. Que ferramentas, que argumentos de sensibilização, que campanha tem o CLAE previsto? Que verba? Só vontade não chega. E o Governo não ajuda.
José Luís Correia
in Contacto, 01/03/2017
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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017
Editorial no Contacto: "Donald, o 'trumpalhão'"
Em política costuma fazer-se o balanço dos 100 dias de um governo no poder para avaliar o estado de graça do mesmo. No caso da Adminisração Trump, no cargo há um mês, só se pode falar em “estado de desgraça”.
Há um mês que os EUA são (des)governados por um milionário excêntrico e trapalhão, e o seu séquito de bobos balofos, que vão acumulando gafe atrás de gafe.
Podíamos rir de tudo isto se se tratasse de uma comédia grosseira de Hollywood. A realidade por vezes ultrapassa mesmo a ficção mais absurda e o mundo assiste incrédulo e perplexo ao teatrinho grotesco das figurinhas da Administração de Donald Trump, sem estatura intelectual nem política para liderar a potência mundial que os EUA ainda são, mas em rápido descalabro e descrédito.
Com este 45° presidente, o país atingiu um cúmulo trágicómico para o qual já não há superlativos. Trágico porque as decisões e declarações de Trump e da sua equipa podem ter consequências graves e globais. Algumas já tiveram. Cómico porque os deslizes de Donald – desde erros ortográficos crassos nas mensagens que publica no Twitter até às falsas notícias que roçam o incidente diplomático – fazem-nos rir de quão ridículas são, mas também nos fazem sentir uma estranha vergonha alheia pela outrora prestigiosa Casa Branca, que parece agora entregue a um bando de labregos.
A última asneira de Trump foi quando evocou um suposto atentado terrorista que teria ocorrido sexta-feira na Suécia. A declaração foi feita durante um discurso, no sábado, na Flórida, perante milhares dos seus seguidores mais fiéis, a quem explicava a sua firme vontade de levar avante o seu decreto anti-imigração muçulmana.
Os 9,5 milhões de suecos tiveram que rebobinar para confirmar que tinham ouvido bem. De que atentado estaria Donald a falar? A ministra dos Negócios Estrangeiros sueca pediu explicações a Washington e o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros da Suécia não hesitou em tuitar: “Suécia? Ataque terrorista? O que é que ele tem andado a fumar?”, referindo-se a Trump. Os internautas suecos deram largas à sua imaginação para troçar de Donald. Um vídeo mostra um polícia sueco a interrogar um urso branco, principal suspeito do susposto atentado.
Trump explicou mais tarde, também via Twitter, que tinha visto uma reportagem na Fox News sobre o aumento da criminalidade na Suécia e que era a isso que teria feito referência.
Esta não é a primeira vez que Trump ou a sua equipa deturpam a verdade para a adaptar à sua realidade. Até encontraram uma nova fórmula para isso: “factos alternativos”. Infelizmente, quantos seguidores de Trump ouviram a declaração sobre a Suécia e quantos leram o pseudo-desmentido no Twitter? Da totalidade de eleitores que votaram em Trump em novembro, ainda há mais de 80% convictos que ele está a ser um bom Presidente e a levar a cabo tudo o que prometeu, segundo uma recente sondagem.
O mundo atura-o e arma-se de paciência. Ainda só passou um mês. Faltam 47.
José Luís Correia, in Contacto, 22/02/2017
Há um mês que os EUA são (des)governados por um milionário excêntrico e trapalhão, e o seu séquito de bobos balofos, que vão acumulando gafe atrás de gafe.
Podíamos rir de tudo isto se se tratasse de uma comédia grosseira de Hollywood. A realidade por vezes ultrapassa mesmo a ficção mais absurda e o mundo assiste incrédulo e perplexo ao teatrinho grotesco das figurinhas da Administração de Donald Trump, sem estatura intelectual nem política para liderar a potência mundial que os EUA ainda são, mas em rápido descalabro e descrédito.
Com este 45° presidente, o país atingiu um cúmulo trágicómico para o qual já não há superlativos. Trágico porque as decisões e declarações de Trump e da sua equipa podem ter consequências graves e globais. Algumas já tiveram. Cómico porque os deslizes de Donald – desde erros ortográficos crassos nas mensagens que publica no Twitter até às falsas notícias que roçam o incidente diplomático – fazem-nos rir de quão ridículas são, mas também nos fazem sentir uma estranha vergonha alheia pela outrora prestigiosa Casa Branca, que parece agora entregue a um bando de labregos.
A última asneira de Trump foi quando evocou um suposto atentado terrorista que teria ocorrido sexta-feira na Suécia. A declaração foi feita durante um discurso, no sábado, na Flórida, perante milhares dos seus seguidores mais fiéis, a quem explicava a sua firme vontade de levar avante o seu decreto anti-imigração muçulmana.
Os 9,5 milhões de suecos tiveram que rebobinar para confirmar que tinham ouvido bem. De que atentado estaria Donald a falar? A ministra dos Negócios Estrangeiros sueca pediu explicações a Washington e o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros da Suécia não hesitou em tuitar: “Suécia? Ataque terrorista? O que é que ele tem andado a fumar?”, referindo-se a Trump. Os internautas suecos deram largas à sua imaginação para troçar de Donald. Um vídeo mostra um polícia sueco a interrogar um urso branco, principal suspeito do susposto atentado.
Trump explicou mais tarde, também via Twitter, que tinha visto uma reportagem na Fox News sobre o aumento da criminalidade na Suécia e que era a isso que teria feito referência.
Esta não é a primeira vez que Trump ou a sua equipa deturpam a verdade para a adaptar à sua realidade. Até encontraram uma nova fórmula para isso: “factos alternativos”. Infelizmente, quantos seguidores de Trump ouviram a declaração sobre a Suécia e quantos leram o pseudo-desmentido no Twitter? Da totalidade de eleitores que votaram em Trump em novembro, ainda há mais de 80% convictos que ele está a ser um bom Presidente e a levar a cabo tudo o que prometeu, segundo uma recente sondagem.
O mundo atura-o e arma-se de paciência. Ainda só passou um mês. Faltam 47.
José Luís Correia, in Contacto, 22/02/2017
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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017
Editorial no Contacto: "Olhó Robô"
Esta semana, por iniciativa da eurodeputada luxemburguesa Mady Delvaux-Stehres, vai ser discutido em Bruxelas que tipo de legislação criar a nível europeu para regulamentar os robôs e a inteligência artificial.
Quando o luxemburguês Hugo Gernsback, considerado o pai da ficção científica, escreveu em 1911 o romance de antecipação “Ralph 124C 41+”, sobre um andróide no ano de 2660, nunca imaginaria que viria do seu país uma proposta pioneira para legislar sobre os robôs.
O engenheiro luxemburguês “fugira” precisamente da sua Bonnevoie natal sete anos antes por o seu país se recusar a investir numa lâmpada elétrica que ele inventara. Cem anos depois, o Luxemburgo quer-se um país voltado para o futuro, diferente do que era no virar do século XX e até há bem poucos anos. O país investiu muito na investigação e na biotecnologia, lançou-se na exploração de asteróides e vai criar uma agência espacial.
E esta semana, por iniciativa da eurodeputada luxemburguesa Mady Delvaux-Stehres, vai ser discutido em Bruxelas que tipo de legislação criar a nível europeu para regulamentar os robôs. Até que ponto queremos que os robôs facilitem a nossa vida e que regras são necessárias para que vivam e trabalhem no meio de nós? É a este tipo de questões que Bruxelas vai tentar responder. O documento prevê, por exemplo, que os proprietários de robôs sejam taxados para contribuirem para a Segurança Social, e questiona-se sobre a responsabilidade e a personalidade jurídica que deve ou não ter uma máquina.
Não são perguntas de retórica nem a pensar num futuro longíquo, é matéria que nos interpela já hoje, com robôs – uns com rosto humano, outros nem tanto – a não trabalharem apenas na indústria, mas cada vez mais em hospitais e em setores sensíveis, e brevemente no seio do nosso lar, a “pretexto” de ajudarem nas tarefas domésticas, pessoas deficientes ou idosas.
A emergência do carro autónomo, que deverá ser comercializado em grande escala até 2025, apressou os engenheiros de robótica a trabalharem com psicólogos, sociólogos e filósofos sobre os limites das decisões de uma máquina na interação com um ser humano.
Todos estes decisores, desde os engenheiros aos eurodeputados, parecem esquecer que a literatura já refletiu em muitos destes problemas éticos. Considerada um subgénero, a ficção científica foi quase sempre ignorada pela elite. A grande referência do género, o escritor Isaac Asimov, imaginou as leis robóticas num dos seus livros, em 1942, que respondem a algumas destas questões. Por exemplo, uma das leis de Asimov diz que um robô deve ser programado de forma a nunca ferir um humano, nem deixar que este se magoe; a segunda diretiva estipula que uma máquina deve sempre obedecer a um humano, excepto se as ordens entram em conflito com a primeira lei.
Confrontados com um futuro que chegou mais depressa do que imaginávamos, seria útil e instrutivo (e até lúdico) ir hoje beber inspiração onde ela nunca faltou. Um luxemburguês há cem anos e uma luxemburguesa hoje mostram o caminho.
José Luís Correia, in Contacto, 15/02/2017
Quando o luxemburguês Hugo Gernsback, considerado o pai da ficção científica, escreveu em 1911 o romance de antecipação “Ralph 124C 41+”, sobre um andróide no ano de 2660, nunca imaginaria que viria do seu país uma proposta pioneira para legislar sobre os robôs.
O engenheiro luxemburguês “fugira” precisamente da sua Bonnevoie natal sete anos antes por o seu país se recusar a investir numa lâmpada elétrica que ele inventara. Cem anos depois, o Luxemburgo quer-se um país voltado para o futuro, diferente do que era no virar do século XX e até há bem poucos anos. O país investiu muito na investigação e na biotecnologia, lançou-se na exploração de asteróides e vai criar uma agência espacial.
E esta semana, por iniciativa da eurodeputada luxemburguesa Mady Delvaux-Stehres, vai ser discutido em Bruxelas que tipo de legislação criar a nível europeu para regulamentar os robôs. Até que ponto queremos que os robôs facilitem a nossa vida e que regras são necessárias para que vivam e trabalhem no meio de nós? É a este tipo de questões que Bruxelas vai tentar responder. O documento prevê, por exemplo, que os proprietários de robôs sejam taxados para contribuirem para a Segurança Social, e questiona-se sobre a responsabilidade e a personalidade jurídica que deve ou não ter uma máquina.
Não são perguntas de retórica nem a pensar num futuro longíquo, é matéria que nos interpela já hoje, com robôs – uns com rosto humano, outros nem tanto – a não trabalharem apenas na indústria, mas cada vez mais em hospitais e em setores sensíveis, e brevemente no seio do nosso lar, a “pretexto” de ajudarem nas tarefas domésticas, pessoas deficientes ou idosas.
A emergência do carro autónomo, que deverá ser comercializado em grande escala até 2025, apressou os engenheiros de robótica a trabalharem com psicólogos, sociólogos e filósofos sobre os limites das decisões de uma máquina na interação com um ser humano.
Todos estes decisores, desde os engenheiros aos eurodeputados, parecem esquecer que a literatura já refletiu em muitos destes problemas éticos. Considerada um subgénero, a ficção científica foi quase sempre ignorada pela elite. A grande referência do género, o escritor Isaac Asimov, imaginou as leis robóticas num dos seus livros, em 1942, que respondem a algumas destas questões. Por exemplo, uma das leis de Asimov diz que um robô deve ser programado de forma a nunca ferir um humano, nem deixar que este se magoe; a segunda diretiva estipula que uma máquina deve sempre obedecer a um humano, excepto se as ordens entram em conflito com a primeira lei.
Confrontados com um futuro que chegou mais depressa do que imaginávamos, seria útil e instrutivo (e até lúdico) ir hoje beber inspiração onde ela nunca faltou. Um luxemburguês há cem anos e uma luxemburguesa hoje mostram o caminho.
José Luís Correia, in Contacto, 15/02/2017
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quinta-feira, 29 de dezembro de 2016
EDITORIAL: Isto foi 2016!O ano de 2016 foi bom. O ano de 2016 foi mau. Para Portugal foi positivo. A nível internacional nem por isso.
Portugal sofria de duas ressacas consecutivas, Sócrates e Passos Coelho, mas a azia começa a passar. Os fatores são vários. Depois de dez anos de um Segundo Cavaquismo, os portugueses elegeram um chefe de Estado nas antípodas do anterior, mais próximo do povo, mais claro e direto nos propósitos e na política, e intervindo com inteligência quando deve intervir. Hoje, os portugueses têm um Presidente de que se orgulham e que sentem que os representa.
Embora eleito em 2015, este foi o ano de António Costa, que fez funcionar uma “geringonça” improvável e conseguiu até melhores resultados que Bruxelas esperava.
Uma outra vitória de Portugal, senão política pelo menos diplomática, foi a eleição de António Guterres para secretário-geral da ONU. Aos desafios todos que o ex-primeiro-ministro português já sabia que teria de enfrentar naquele cargo – Síria, Iraque, Coreia do Norte, guerras em África, crise dos migrantes, falta de reconhecimento da ONU – juntou-se na sexta-feira a condenação por parte das Nações Unidas da construção de colonatos israelitas na Palestina. Apoiado por Trump, Israel já rejeitou a resolução, o que deixa adivinhar um excelente 2017!
Portugal sagrou-se também campeão europeu de futebol. Os portugueses provaram o doce sabor da desforra que aguardavam há 32 anos, desde a derrota de 1984 frente a Platini, e uma suave vingança sobre o título “roubado” pela Grécia em 2004. Celebraram a vitória que lhes tinha sido prometida pela Geração de Ouro. A glória fez-se esperar, mas aconteceu graças a Cristiano Ronaldo e Fernando Santos.
O mundo pula, mas não avança sempre, por vezes dá saltos para trás. Este foi também o ano do Brexit, da eleição de Trump para a Casa Branca, do avanço de duas forças que dependem uma da outra – o terrorismo e o populismo. Enquanto isso, mais de cinco mil migrantes morreram ao tentarem atravessar o Mediterrâneo, um novo recorde. Sonham com uma terra prometida que não existe, que não os quer, que é uma miragem de tolerância e prosperidade. Mas para eles, sempre é melhor do que a miséria e a guerra que essa mesma Europa fomenta nos seus países.
A música ficou de luto com a morte de Bowie, Prince, Leonard Cohen e George Michael. Deus deve querer montar uma banda no céu. Por seu lado, a literatura atingiu um novo paradigma com Bob Dylan.
No Luxemburgo, país onde não se gosta de fazer ondas, a praça financeira tremeu. É o sigilo bancário com os dias contados e o caso Luxleaks a manchar a reputação do Grão-Ducado, que procura nos céus novos recursos e um rosto ’liftado’ para vender ao exterior os asteróides que ainda não capturou. 2017 promete.
José Luís Correia
in CONTACTO, 28/12/2016
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quinta-feira, 10 de novembro de 2016
EDITORIAL no Jornal CONTACTO: "Velhos são os trapos" OU "Este não é um país para velhos...portugueses"
Um estudo da Universidade do Luxemburgo mostra porque há poucos portugueses nos lares da terceira idade no país. E dá pistas para possíveis soluções.
Há uma coisa estranha que acontece volta e meia no Luxemburgo. De repente, alguém surpreende-se que o país tenha imigrantes e que estes tenham necessidades específicas. Nem parece que a imigração no país começou há 130 anos, tal é por vezes a surpresa de políticos e autoridades. A não ser que seja indiferença, na melhor hipótese, ou um ostracismo latente que se ignora, na pior.
No domingo, um episódio caricato de uma natureza que tem a ver com o choque cultural mais básico ilustrou mais uma vez isso. Um grupo de refugiados, alojados na Luxexpo, recusou-se a comer o rosbife servido ao almoço, por pensarem tratar-se de carne estragada. Simplesmente desconheciam esta forma de cozinhar carne.
Só pode ser insensibilidade e ignorância por parte das autoridades. Não imagino que num jantar entre o Governo e o magnata indiano Lakshmi Mittal fosse servida carne de vaca, um animal sagrado na Índia. Será que o interesse depende do porta-moedas do estrangeiro?
É exatamente isso que diz Maxim Kantor, um artista e escritor russo dissidente que entrevistamos nesta edição, quando se refere ao Brexit e ao sentimento anti-estrangeiros dos britânicos.
O Luxemburgo precisou, e continua a precisar, de mão de obra estrangeira, e o que teima em chegar são... pessoas. Pessoas com tradições religiosas e culturais bem suas, uma alimentação diferente, costumes e festas à sua maneira, filhos que precisam de creches e escolas adaptadas, imigrantes que chegados à velhice precisam, também aí, de cuidados específicos. Como o Luxemburgo parece agora descobrir.
Há uns anos, uma antiga ministra da Família dizia-se preocupada porque não entendia a razão de não haver idosos portugueses nos lares da terceira idade luxemburgueses. As respostas eras múltiplas mas óbvias, como demonstra agora um estudo da Universidade do Luxemburgo.
Apesar de gozarem de bastante conforto (alguns até são luxuosos), os lares no país são caros para as pequenas reformas dos portugueses. Além disso, nos lares estes idosos ficam isolados, já que a maioria dos utentes são luxemburgueses, e tanto uns como outros, falando pouco ou mal o francês, preferem a sua língua materna. O estudo preconiza a criação de estruturas da terceira idade específicas para os imigrantes idosos, mais adaptadas aos estrangeiros.
É o mínimo que estes idosos merecem, depois de terem ajudado o Luxemburgo a crescer e a enriquecer como país e nação. O papel dos filhos nesta etapa da vida dos pais também é importante, mas o Estado luxemburguês não pode continuar a furtar-se às suas responsabilidades.
A primeira geração de imigrantes acaba assim com o mito do regresso à terra natal, mas não abdica do sonho de ter uma velhice tranquila, perto de filhos e netos.
José Luís Correia
in CONTACTO, 09/11/2016
Há uma coisa estranha que acontece volta e meia no Luxemburgo. De repente, alguém surpreende-se que o país tenha imigrantes e que estes tenham necessidades específicas. Nem parece que a imigração no país começou há 130 anos, tal é por vezes a surpresa de políticos e autoridades. A não ser que seja indiferença, na melhor hipótese, ou um ostracismo latente que se ignora, na pior.
No domingo, um episódio caricato de uma natureza que tem a ver com o choque cultural mais básico ilustrou mais uma vez isso. Um grupo de refugiados, alojados na Luxexpo, recusou-se a comer o rosbife servido ao almoço, por pensarem tratar-se de carne estragada. Simplesmente desconheciam esta forma de cozinhar carne.
Só pode ser insensibilidade e ignorância por parte das autoridades. Não imagino que num jantar entre o Governo e o magnata indiano Lakshmi Mittal fosse servida carne de vaca, um animal sagrado na Índia. Será que o interesse depende do porta-moedas do estrangeiro?
É exatamente isso que diz Maxim Kantor, um artista e escritor russo dissidente que entrevistamos nesta edição, quando se refere ao Brexit e ao sentimento anti-estrangeiros dos britânicos.
O Luxemburgo precisou, e continua a precisar, de mão de obra estrangeira, e o que teima em chegar são... pessoas. Pessoas com tradições religiosas e culturais bem suas, uma alimentação diferente, costumes e festas à sua maneira, filhos que precisam de creches e escolas adaptadas, imigrantes que chegados à velhice precisam, também aí, de cuidados específicos. Como o Luxemburgo parece agora descobrir.
Há uns anos, uma antiga ministra da Família dizia-se preocupada porque não entendia a razão de não haver idosos portugueses nos lares da terceira idade luxemburgueses. As respostas eras múltiplas mas óbvias, como demonstra agora um estudo da Universidade do Luxemburgo.
Apesar de gozarem de bastante conforto (alguns até são luxuosos), os lares no país são caros para as pequenas reformas dos portugueses. Além disso, nos lares estes idosos ficam isolados, já que a maioria dos utentes são luxemburgueses, e tanto uns como outros, falando pouco ou mal o francês, preferem a sua língua materna. O estudo preconiza a criação de estruturas da terceira idade específicas para os imigrantes idosos, mais adaptadas aos estrangeiros.
É o mínimo que estes idosos merecem, depois de terem ajudado o Luxemburgo a crescer e a enriquecer como país e nação. O papel dos filhos nesta etapa da vida dos pais também é importante, mas o Estado luxemburguês não pode continuar a furtar-se às suas responsabilidades.
A primeira geração de imigrantes acaba assim com o mito do regresso à terra natal, mas não abdica do sonho de ter uma velhice tranquila, perto de filhos e netos.
José Luís Correia
in CONTACTO, 09/11/2016
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POLITIKA
quarta-feira, 2 de novembro de 2016
EDITORIAL: Mundo sustém respiração
Hillary Clinton ou Donald Trump, qual o próximo ocupante da Casa Branca? A resposta chega na terça-feira, 8 de novembro. Entretanto, meio mundo está expectante e anseia pelo mal menor.
A campanha eleitoral para as presidenciais norte-americanas entrou na sua última semana e é seguida há meses por quase todo o planeta, que sustém a respiração e espera pelo cenário menos pior. Hillary Clinton está à frente de Donald Trump nas sondagens. A democrata recolhe 47% das intenções de voto e o opositor 43% (segundo o site RealClearPolitics.com, à hora do fecho da edição).
Mas no dia do sufrágio pode haver surpresas, como em 2000, quando Al Gore era o favorito mas George W. Bush foi eleito. Com as consequências que todos conhecemos. Talvez por isso as presidenciais americanas suscitem tanto interesse em todo o globo.
Trump começou como um ’outsider’ risível, depois conquistou o eleitorado republicano, afastou os candidatos mais sérios e liderou as sondagens durante meses. Mas agora está em recuo, devido a controvérsias relativas a declarações sobre como considera e trata as mulheres, os povos latinos, os afro-americanos e até os seus empregados. Mas também pela falta de transparência das suas finanças. Trump é o seu próprio pior inimigo, autor de disparates, insultos e ofensas que fazem corar qualquer político e sentir-se embaraçado todo o campo republicano, o que lhe tem valido ver cada vez mais apoiantes do ’Grand Old Party’ dizerem abertamente que votarão nos Democratas pela primeira vez.
E, no entanto, Trump tem seguidores que o apoiam cegamente. Como aquele apoiante afro-americano que na semana passada foi a um comício do magnata na Carolina do Norte e acabou sendo expulso por o considerarem um opositor, simplesmente por ser negro. O homem rechaçado admite que vai, mesmo assim, votar em Trump (!?). Um amigo meu diz que Trump só se candidatou para provar que é possível fazer pior que W. Bush.
Com tudo isto, como não preferir Hillary, que se pode tornar na primeira mulher no cargo máximo do poder nos EUA? Pois, mas o que poderia ser, afinal não parece assim tão óbvio. É que Hillary também tem esqueletos no armário. Apesar de gozar de uma relativa boa nota na opinião pública pelos seus papéis de Primeira Dama e senadora, o escândalo Benghazi e o caso que o FBI investiga sobre ter utilizado o seu correio eletrónico privado para tratar de emails estatais pôs em questão o seu desempenho como secretária de Estado. Também o dossier imobiliário Whitewater manchou a sua reputação.
Com o barulho das luzes ninguém viu nada: o teatro das presidenciais nos EUA afastou para segundo plano o acordo de livre comércio CETA, assinado no domingo entre a UE e o Canadá. Um tratado que elimina barreiras alfandegárias, mas parece favorecer mais as multinacionais do que os cidadãos e pode levar à desregulamentação da economia, do mercado do trabalho e ao desmantelamento dos direitos sociais.
José Luís Correia
in Contacto, 02.11.2016
A campanha eleitoral para as presidenciais norte-americanas entrou na sua última semana e é seguida há meses por quase todo o planeta, que sustém a respiração e espera pelo cenário menos pior. Hillary Clinton está à frente de Donald Trump nas sondagens. A democrata recolhe 47% das intenções de voto e o opositor 43% (segundo o site RealClearPolitics.com, à hora do fecho da edição).
Mas no dia do sufrágio pode haver surpresas, como em 2000, quando Al Gore era o favorito mas George W. Bush foi eleito. Com as consequências que todos conhecemos. Talvez por isso as presidenciais americanas suscitem tanto interesse em todo o globo.
Trump começou como um ’outsider’ risível, depois conquistou o eleitorado republicano, afastou os candidatos mais sérios e liderou as sondagens durante meses. Mas agora está em recuo, devido a controvérsias relativas a declarações sobre como considera e trata as mulheres, os povos latinos, os afro-americanos e até os seus empregados. Mas também pela falta de transparência das suas finanças. Trump é o seu próprio pior inimigo, autor de disparates, insultos e ofensas que fazem corar qualquer político e sentir-se embaraçado todo o campo republicano, o que lhe tem valido ver cada vez mais apoiantes do ’Grand Old Party’ dizerem abertamente que votarão nos Democratas pela primeira vez.
E, no entanto, Trump tem seguidores que o apoiam cegamente. Como aquele apoiante afro-americano que na semana passada foi a um comício do magnata na Carolina do Norte e acabou sendo expulso por o considerarem um opositor, simplesmente por ser negro. O homem rechaçado admite que vai, mesmo assim, votar em Trump (!?). Um amigo meu diz que Trump só se candidatou para provar que é possível fazer pior que W. Bush.
Com tudo isto, como não preferir Hillary, que se pode tornar na primeira mulher no cargo máximo do poder nos EUA? Pois, mas o que poderia ser, afinal não parece assim tão óbvio. É que Hillary também tem esqueletos no armário. Apesar de gozar de uma relativa boa nota na opinião pública pelos seus papéis de Primeira Dama e senadora, o escândalo Benghazi e o caso que o FBI investiga sobre ter utilizado o seu correio eletrónico privado para tratar de emails estatais pôs em questão o seu desempenho como secretária de Estado. Também o dossier imobiliário Whitewater manchou a sua reputação.
Com o barulho das luzes ninguém viu nada: o teatro das presidenciais nos EUA afastou para segundo plano o acordo de livre comércio CETA, assinado no domingo entre a UE e o Canadá. Um tratado que elimina barreiras alfandegárias, mas parece favorecer mais as multinacionais do que os cidadãos e pode levar à desregulamentação da economia, do mercado do trabalho e ao desmantelamento dos direitos sociais.
José Luís Correia
in Contacto, 02.11.2016
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quarta-feira, 19 de outubro de 2016
Ponte Vermelha do Luxemburgo e Ponte sobre o Tejo fazem 50 anos - Duas pontes unidas por destinos comuns
Têm a mesma idade – 50 anos – são feitas da mesma “fibra” – aço luxemburguês –, e têm um destino trágico comum. Construídas para simbolizar o progresso e o futuro das capitais e dos países onde foram edificadas, ambas ficaram, no entanto, desde cedo marcadas pelos suicídios de centenas de pessoas que as escolheram como derradeiro palco no salto para a morte.
A Ponte sobre o Tejo comemorou o seu cinquentenário em 6 de Agosto último e a Ponte Vermelha faz 50 anos no próximo dia 24 de Outubro.
"A cabeça dele tinha explodido e o sapato estava no meio da estrada”, diz uma criança que vivia em 1990 no Pfaffenthal e assistiu ao suicídio de um homem que saltara da ponte Grande-Duchesse Charlotte, no documentário “Le Pont Rouge” (1991), de Geneviève Mersch.
“Não passo sob a ponte sem olhar com alguma apreensão para cima porque sei que tudo me pode cair em cima”, diz uma adolescente no filme. Uma voz de criança enumera o que costuma cair da ponte: “pacotes de batatas fritas, latas, garrafas, blocos de cimento, cães, gatos, uma centena de homens e mulheres”.
Entre 1966 e 1991, ano em que saiu o documentário, registaram-se uma centena de suicídios na ponte vermelha, avança Mersch no seu filme, ou seja, um em cada três meses durante 26 anos. “Aterravam” sobre os telhados das casas, no rio Alzette, nos passeios e parques infantis do Pfaffenthal. Na película de 20 minutos, os moradores de então contam o pesadelo que era viver no bairro.
Uma reportagem de José Luís Correia
Leia o artigo na íntegra na edição do Contacto desta quarta-feira, 19 de outubro.
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Duas pontes unidas por destinos comuns
Têm a mesma idade – 50 anos – são feitas da mesma “fibra” – aço luxemburguês –, e têm um destino trágico comum.
Construídas para simbolizar o progresso e o futuro das capitais e dos países onde foram edificadas, ambas ficaram, no entanto, desde cedo marcadas pelos suicídios de centenas de pessoas que as escolheram como derradeiro palco no salto para a morte.
“Não passo sob a ponte sem olhar com alguma apreensão para cima porque sei que tudo me pode cair em cima”, diz uma adolescente no filme. Uma voz de criança enumera o que costuma cair da ponte: “pacotes de batatas fritas, latas, garrafas, blocos de cimento, cães, gatos, uma centena de homens e mulheres”. Entre 1966 e 1991, ano em que saiu o documentário, registaram-se uma centena de suicídios na ponte vermelha, avança Mersch no seu filme, ou seja, um em cada três meses durante 26 anos. “Aterravam” sobre os telhados das casas, no rio Alzette, nos passeios e parques infantis do Pfaffenthal. Na película de 20 minutos, os moradores de então contam o pesadelo que era viver no bairro.
A Ponte sobre o Tejo comemorou o seu cinquentenário em 6 de Agosto último e a Ponte Vermelha faz 50 anos no próximo dia 24 de Outubro.
Uma reportagem de José Luís Correia
Leia o artigo na íntegra na edição do Contacto desta quarta-feira, 19 de outubro.
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quinta-feira, 8 de setembro de 2016
A quinta das crianças
A quinta-feira, 15 de Setembro, marca o regresso às aulas, mesmo se muitas escolas já começam a funcionar na segunda-feira e outras ainda antes.

Há semanas que crianças e jovens andam num nervoso miudinho, arrumam pela enésima vez a mochila mais que pronta, procuram no estojo algo que lá faltasse, revêem uma última vez a lista dos livros e manuais. É o ritual anual que antecede o – esperado por uns, temido por outros – regresso às aulas.
No Luxemburgo, o ano lectivo 2016/2017 começa com muitas novidades: uma escola pública nova com um conceito diferente abre portas em Differdange; as aulas de “Vida e Sociedade” substituem as de Religião nos liceus; entra em vigor um novo regime de orientação para o clássico/técnico; na escola primária as crianças com necessidades educativas especiais ou dificuldades de aprendizagem vão passar a ser acompanhadas por equipas especializadas; e as regras mudaram para as bolsas de estudos, subsídios e cheques-serviço. Explicamos tudo nas nossas páginas dedicadas à rentrée escolar.
Se para muitos o regresso às aulas (já) não evoca nada, para muitos ainda mexe connosco, ou porque porque temos filhos em idade escolar e vivemos com eles a azáfama destes dias, ou porque recordamos o nosso próprio frenesim pós-férias de Verão em que, sendo criança ou jovem, sentíamos de forma tangível que uma nova fase da nossa vida estava prestes a começar.
A escola é e continuará a ser algo fundamental, porque é um tempo de aprendizagem, desenvolvimento intelectual, emocional e social único, são anos determinantes que ajudam a forjar a nossa personalidade e força de carácter, a construir o futuro adulto, nos ensinam a tornarmo-nos seres sociais, nos armam para um mercado de trabalho cada vez mais complicado e diverso, mas também nos preparam para a vida “tout court”.
Se é algo tão fundamental deveríamos todos ser iguais perante a escola. Infelizmente, ainda não é o caso. A escola pública luxemburguesa continua a perpetuar um ensino a várias velocidades – modular, técnico, clássico – consoante critérios abstrusos. Se o aluno for bom a francês, mas fraco a alemão, vai para o técnico; se for forte a alemão e mau a francês, pode ir para o clássico. O que é no mínimo bizarro considerando que o clássico exige o mesmo nível nessas duas línguas. Se não tiver nenhum dos níveis exigidos o aluno é “condenado” ao modular, que é suposto ser um ano de preparação para integrar depois o secundário, mas muitas vezes é aí que a criança abandona a escola. Este erro de direccionamento (prefiro pensar que é um erro do que determinismo social, como numa certa Quinta dos Animais em que havia uns mais iguais do que outros!) acontece há décadas e vai mesmo piorar.
Até agora, pais e professores tomavam a decisão juntos. Com a nova forma de orientação escolar, que começa neste ano lectivo, caso não haja acordo, a decisão é tomada por uma comissão de orientação, de que não há recurso. Como é possível dar este poder aos professores quando se sabe que os docentes cometem mais erros de avaliação com alunos estrangeiros do que com os luxemburgueses quando decidem quem vai para o técnico ou para o clássico? Não sou eu que o afirmo, mas um estudo da Universidade do Luxemburgo, divulgado este ano.
Claro que há casos de sucesso, crianças estrangeiras que conseguem não só aceder mas distinguir-se no clássico, ou que seguem o técnico, frequentam a Universidade e chegam mesmo assim à sua profissão de sonho. Mas temos é que nos preocupar com os que não conseguem e cuja taxa ainda continua bastante elevada. Dos cerca de 40% de estrangeiros no ensino, apenas 18% chegam ao clássico, metade dos alunos que entram no clássico são luxemburgueses, apenas 11% são portugueses (“Bildungsbericht 2015”).
Os números têm mudado pouco nos últimos anos. Porque nada se faz. Na pasta da Educação têm-se sucedido nos últimos 25 anos pessoas incompetentes, incapazes de resolver o problema ou com a falta de coragem política para encarar o descontentamento do seu eleitorado caso alterassem algo ao “status quo”.
Veja-se a tempestade que se abateu sobre o actual ministro da Educação com o projecto da Escola Internacional de Differdange, que é apenas um tímido passo na criação de uma escola mais igualitária e que pela primeira vez integra a língua portuguesa no programa do ensino público. Resta aos alunos que não querem seguir o ensino técnico luxemburguês “à força” inscrever-se numa escola na Bélgica ou em França. E assim o Luxemburgo vai perdendo capital humano. Como acontece há décadas.
Compare-se a escola luxemburguesa – em que o aluno tem de dominar o sacro-santo alemão ou parece condenado a uma vida fracassada – à “Ferme des Enfants”, uma escola na região da Ardèche, em França, criada por Sophie Bouquet-Rabhi em 1999. A mentora do projecto preconiza que o mais importante é “dar auto-confiança às crianças” para fazer deles bons alunos, que mais tarde se tornarão adultos realizados.
O paradigma é simples, pudessem entendê-lo todos os professores, orientadores, directores de escola e ministros que nos lêem.
José Luís Correia
in CONTACTO, 07/09/2016

Há semanas que crianças e jovens andam num nervoso miudinho, arrumam pela enésima vez a mochila mais que pronta, procuram no estojo algo que lá faltasse, revêem uma última vez a lista dos livros e manuais. É o ritual anual que antecede o – esperado por uns, temido por outros – regresso às aulas.
No Luxemburgo, o ano lectivo 2016/2017 começa com muitas novidades: uma escola pública nova com um conceito diferente abre portas em Differdange; as aulas de “Vida e Sociedade” substituem as de Religião nos liceus; entra em vigor um novo regime de orientação para o clássico/técnico; na escola primária as crianças com necessidades educativas especiais ou dificuldades de aprendizagem vão passar a ser acompanhadas por equipas especializadas; e as regras mudaram para as bolsas de estudos, subsídios e cheques-serviço. Explicamos tudo nas nossas páginas dedicadas à rentrée escolar.
Se para muitos o regresso às aulas (já) não evoca nada, para muitos ainda mexe connosco, ou porque porque temos filhos em idade escolar e vivemos com eles a azáfama destes dias, ou porque recordamos o nosso próprio frenesim pós-férias de Verão em que, sendo criança ou jovem, sentíamos de forma tangível que uma nova fase da nossa vida estava prestes a começar.
A escola é e continuará a ser algo fundamental, porque é um tempo de aprendizagem, desenvolvimento intelectual, emocional e social único, são anos determinantes que ajudam a forjar a nossa personalidade e força de carácter, a construir o futuro adulto, nos ensinam a tornarmo-nos seres sociais, nos armam para um mercado de trabalho cada vez mais complicado e diverso, mas também nos preparam para a vida “tout court”.
Se é algo tão fundamental deveríamos todos ser iguais perante a escola. Infelizmente, ainda não é o caso. A escola pública luxemburguesa continua a perpetuar um ensino a várias velocidades – modular, técnico, clássico – consoante critérios abstrusos. Se o aluno for bom a francês, mas fraco a alemão, vai para o técnico; se for forte a alemão e mau a francês, pode ir para o clássico. O que é no mínimo bizarro considerando que o clássico exige o mesmo nível nessas duas línguas. Se não tiver nenhum dos níveis exigidos o aluno é “condenado” ao modular, que é suposto ser um ano de preparação para integrar depois o secundário, mas muitas vezes é aí que a criança abandona a escola. Este erro de direccionamento (prefiro pensar que é um erro do que determinismo social, como numa certa Quinta dos Animais em que havia uns mais iguais do que outros!) acontece há décadas e vai mesmo piorar.
Até agora, pais e professores tomavam a decisão juntos. Com a nova forma de orientação escolar, que começa neste ano lectivo, caso não haja acordo, a decisão é tomada por uma comissão de orientação, de que não há recurso. Como é possível dar este poder aos professores quando se sabe que os docentes cometem mais erros de avaliação com alunos estrangeiros do que com os luxemburgueses quando decidem quem vai para o técnico ou para o clássico? Não sou eu que o afirmo, mas um estudo da Universidade do Luxemburgo, divulgado este ano.
Claro que há casos de sucesso, crianças estrangeiras que conseguem não só aceder mas distinguir-se no clássico, ou que seguem o técnico, frequentam a Universidade e chegam mesmo assim à sua profissão de sonho. Mas temos é que nos preocupar com os que não conseguem e cuja taxa ainda continua bastante elevada. Dos cerca de 40% de estrangeiros no ensino, apenas 18% chegam ao clássico, metade dos alunos que entram no clássico são luxemburgueses, apenas 11% são portugueses (“Bildungsbericht 2015”).
Os números têm mudado pouco nos últimos anos. Porque nada se faz. Na pasta da Educação têm-se sucedido nos últimos 25 anos pessoas incompetentes, incapazes de resolver o problema ou com a falta de coragem política para encarar o descontentamento do seu eleitorado caso alterassem algo ao “status quo”.
Veja-se a tempestade que se abateu sobre o actual ministro da Educação com o projecto da Escola Internacional de Differdange, que é apenas um tímido passo na criação de uma escola mais igualitária e que pela primeira vez integra a língua portuguesa no programa do ensino público. Resta aos alunos que não querem seguir o ensino técnico luxemburguês “à força” inscrever-se numa escola na Bélgica ou em França. E assim o Luxemburgo vai perdendo capital humano. Como acontece há décadas.
Compare-se a escola luxemburguesa – em que o aluno tem de dominar o sacro-santo alemão ou parece condenado a uma vida fracassada – à “Ferme des Enfants”, uma escola na região da Ardèche, em França, criada por Sophie Bouquet-Rabhi em 1999. A mentora do projecto preconiza que o mais importante é “dar auto-confiança às crianças” para fazer deles bons alunos, que mais tarde se tornarão adultos realizados.
O paradigma é simples, pudessem entendê-lo todos os professores, orientadores, directores de escola e ministros que nos lêem.
José Luís Correia
in CONTACTO, 07/09/2016
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