Mostrar mensagens com a etiqueta concertos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta concertos. Mostrar todas as mensagens
quinta-feira, 10 de julho de 2014
Deolinda regressam a Dudelange a 12 de Julho
Depois de se terem estreado no Grão-Ducado em Outubro de 2010, em Dudelange, os Deolinda regressam à mesma cidade para um novo concerto, desta feita no Parc Leh’, no próximo sábado, 12 de Julho.
Os Deolinda são um quarteto lisboeta de música pop(ular) portuguesa acústica composto por Ana Bacalhau (voz), Pedro Silva Martins (guitarra e composição), Zé Pedro Leitão (contrabaixo e piano) e Luís Silva Martins (guitarra clássica, banjolim e “sinos”).
A música dos Deolinda está entre o fado e qualquer coisa de lisboeta, de vadio, boémio. É uma música que respira bom humor, alegria, vida, que mistura o castiço com a modernidade, tudo servido com sonoridades “roubadas” ao pop, ao jazz, ao samba, à ranchera mexicana e até à música do Haiti. A cereja no topo do bolo é a voz petulante e o gingar de Ana Bacalhau.
Nos últimos seis anos, o grupo dominou os tops de vendas com os multi-platinados álbuns “Canção ao Lado” (2008) e “2 Selos e um Carimbo” (2010), acumulando diversas distinções, tais como dois Globos de Ouro, um prémio Amália Rodrigues, um prémio José Afonso e um Songlines Music Award. Os Deolinda regressam agora ao Luxemburgo para apresentar o seu terceiro álbum de originais, “Mundo Pequenino”. Um dos músicos que participou neste álbum foi o percussionista Sérgio Nascimento. “Mundo Pequenino” foi gravado nos Boomstudios, em Vila Nova de Gaia, e foi produzido pelo britânico Jerry Boys e pela própria banda. O concerto dos Deolinda acontece no âmbito do festival de música “Summerstage”, no Parc Le’h, em Dudelange, e começa às 20h, no dia 12 de Julho. Os bilhetes custam 20 euros em pré-venda e 25 euros na bilheteira.
Os bilhetes para os três dias do festival custam 35 euros. Há ainda uma ementa especial “Summerstage”, disponível por 70 euros (que inclui um bilhete de entrada). Mais informações pelo tel. 51 99 90. ALINE
Aline Frazão também em palco
Aline Frazão é outro dos nomes lusófonos que sobem ao palco do “Summerstage” nessa noite. A cantora e compositora angolana Nasceu em Luanda, em 1988, mas vive actualmente em Barcelona.
Em 2011 lançou o seu primeiro disco de originais, “Clave Bantu”, com produção musical do contra-baixista cubano José Manuel Diaz. O disco conta ainda com duas parcerias com os escritores angolanos José Eduardo Agualusa e Ondjaki. “Movimento”, editado em 2013 pela PontoZurca, é o seu segundo álbum, onde assina a produção musical e a composição de todos os temas. Um deles é uma letra de Carlos Ferreira, jornalista e poeta angolano. Outro é o poema “Ronda”, de Alda Lara.
No palco, acompanham-na neste momento os músicos Marco Pombinho (piano e rhodes), Marcos Alves (bateria e percussão) e Francesco Valente (baixo e contrabaixo).
JLC
in CONTACTO, 09/07/2014
sexta-feira, 10 de maio de 2013
Ana Moura encantada do fado
No domingo, a fadista pisou os palcos do Luxemburgo pela quarta vez.
Depois de ter actuado na place Guillaume II, na cidade do Luxemburgo, em
directo na emissão "Portugal no Coração", em 2005, e de um espectáculo
no Trifolion de Echternach, em 2009, passou pelo palco da Philharmonie
em 2011. Agora regressou para apresentar o seu último álbum, "Desfado".
Os músicos são os primeiros a chegar ao palco. São cinco, todos bastante jovens. Que não engane a idade, vão revelar-se de uma estirpe tão talentosa que até assusta. À média luz do palco do Conservatório de Música da cidade do Luxemburgo, esperam por Ana Moura.
Segundos depois, a cantora entra, de vestido negro deslumbrante, com franjas que lembram o xaile das antigas fadistas das tabernas lisboetas, mas a sobriedade é ofuscada pelo colar de brilhantes, que realça o peito nu ilustre lusitano que canta. "Vestido negro cingido, cabelo negro comprido" é o que cantará minutos depois na sua música "A Fadista". Fala de si mesma?
Mas chamar-lhe fadista é redutor. Aos 33 anos, mais do que simplesmente marcar presença no fado há dez – o seu primeiro álbum saiu em 2003 –, Ana Moura tem-se revelado uma verdadeira força viva do fado em evolução e mesmo em revolução. E foi o que nos veio mostrar na apresentação do seu mais recente álbum.
A guitarra portuguesa dá a nota da primeira música: "Eu hei-de inventar um fado novo..." canta Ana Moura, e reconhecemos a canção "Havemos de acordar". E acorda-nos mesmo, depois de uma tarde solarenga de domingo. "Gudden Owend" [Boa noite] lança a coruchense num luxemburguês perfeito. Pede apoio ao público português para comunicar em francês com os outros espectadores: há luxemburgueses, franceses, alemães, ingleses, americanos, polacos e até um casal japonês. Porque, afinal, o fado é património da Humanidade.
Ana explica que o álbum "Desfado" tem influências do jazz, da música do norte de Portugal, mas não esquece o fado tradicional, em canções como "Com a cabeça nas nuvens" e "A Fadista". Da linha mais tradicional, Ana cantará ainda nessa noite dois fados de anteriores álbuns, "Porque teimas nesta dor" ("Guarda-me a Vida na Mão", 2003) e "Búzios" ("Para além da Saudade", 2007).
A surpresa boa (muito boa!) vai ser a canção que dá nome ao álbum, assinada por Pedro Silva Martins, dos Deolinda (que também compôs "Havemos de acordar"). Ter convidado o mentor dos Deolinda para este álbum prova o rumo insubmisso que Ana quer dar ao fado.
A cantora convidou ainda outros nomes da cena portuguesa, músicos da sua geração, que para ela compuseram "Fado Alado" e "Quando o sol espreitar de novo". São temas de dois insuspeitos fadistas: Pedro Abrunhosa e Manel Cruz (Pluto, Supernada, Foge Foge Bandido, ex-Ornatos Violetas). As letras são muito bonitas, algumas canções ficam longe do fado tradicional, mas a alma continua portuguesa.
A voz de Ana Moura seduz, parece rouca mas é grave, forte, firme, potente, quente, intensa. Amália aqui tão perto. As canções intimistas, como "Amor afoito", são cantadas à flor da pele. "A minha estrela" termina com Ana a tocar numa caixa de música a melodia de "La vie en rose", de Edith Piaf. Noutras, como em "Despiu a saudade", o jazz é não só patente como omnipresente.
A cumplicidade com os músicos instala um ambiente de clube nova-iorquino. Como em "Case of you", um lindíssimo original de Joni Mitchell, um dos ícones do jazz e do folk norte-americanos. fado novo Com Ana Moura, o fado viaja até Nova Iorque, passa por Braga e regressa a Alfama.
Há canções introspectivas, circunspectas e logo de seguida explosões de alegria. Numa canção, Ana quer seduzir-nos com voz sensual e na seguinte quer dançar connosco de mãos dadas. Os espectadores aderem. O fado também é festa. Como em "E tu gostavas de mim", o público acompanha a cantora com palmas. A canção é uma pérola, a meio caminho entre o fado bailado e o folclore, da autoria do talentoso e bem humorado Miguel Araújo, que conhecemos de canções como "Os maridos das outras", "Capitão Fantástico" ou "Fizz Limão". Mas será que o público se apercebe da letra?
Miguel Araújo é hoje o único músico português com coragem para fazer rimar "foguetões" com "neutrões", e de falar de cães em naves espaciais, microondas em Plutão, da banda larga em Arganil e do ciberespaço em Contumil, tudo isto... num fado! É ainda mais genial na voz de Ana Moura.
Nestas ousadias, no humor, nas incursões em outros géneros sente-se o fado a evoluir, a crescer, à nossa frente. Já não são os álbuns experimentais de Paulo Bragança ou de Mísia do início dos anos 1990, nem as influências dos Madredeus, que nem todos os fadistas assumiam. O fado de Ana Moura, como o de alguns dos jovens fadistas, é um fado definitivamente novo, que se assume com o seu q.b. de saudoso e tradicional, mas já não quer ser apenas isso, agora é planetário, transgride as regras, bem à portuguesa, com um sorriso, descomplexadamente, mas só graças a esse impulso espontâneo de libertação pode dar-se ao mundo e recordar-nos que foi assim que nasceu, rufião.
Num interlúdio musical, sem Ana, os cinco músicos – André Moreira (baixo), Pedro Soares (guitarra), João Gomes (teclas), Márcio Costa (bateria) e Ângelo Freire (guitarra portuguesa) – vão mostrar as razões porque a cantora os escolheu para a acompanharem desde Janeiro nesta digressão. Ângelo Freire, de apenas 21 anos, vai mesmo destacar-se e provar que é o virtuoso da guitarra portuguesa de que todos falam.
No encore, Ana vai cantar "Sou do fado" (Fado Loucura) e "Fado Serrano", temas que a ligam a Amália. E vai mesmo ousar acrescentar ao Fado Serrano uma sonora introdução luxemburguesa, "Gudd Nuecht Lëtzebuerg, muito boa noite, senhoras e senhores...", ao qual se rendem os últimos irredutíveis autóctones que estão na sala.
No final do concerto, nas poucas declarações que deu, Ana Moura disse-se contente por ter tanto público jovem aqui no Luxemburgo. "Alguns vierem dar-me os parabéns pela coragem e arrojo de ter feito este disco", diz lisonjeada.
A cantora confessa que estava um pouco "receosa" pela forma como os portugueses cá fora, talvez mais familiares do fado tradicional, reagiriam ao seu novo álbum. Mas, "curiosamente, têm reagido muito bem", garante , "talvez porque o álbum também integra fados mais tradicionais e uma vertente inspirada na música do norte de Portugal".
"Da última vez que vim ao Luxemburgo, trouxe um repertório um pouco mais tradicional. Este disco é realmente muito diferente. Fico muito feliz que os portugueses gostem destas nossas aventuras. É que para além de sermos fadistas, temos o nosso próprio percurso natural. Este disco fazia muito sentido neste momento da minha carreira, pelas colaborações que tenho feito nos últimos anos. Eu queria partilhar isso com o meu público". E explica o seu afecto ao jazz: "o fado e o jazz assemelham-se muito, porque se cantam ambos com a alma, são um canto muito mais interior do que exterior".
Ana Moura é uma voz do fado no jazz ou do jazz no fado? Na noite do concerto, demos por nós, por vezes, a ouvir uma cantora de jazz que se terá extraviado no fado, primo tão próximo da canção lusitana. A guitarra portuguesa entrava sem ser convidada, mas a viagem era tão natural que a canção só podia ser adoptada pelo público, que se deixava embalar. Noutras canções, era assumidamente um fado-jazz, mesmo quando cantado em inglês. Mas como explicar o fado em inglês? Escutar as canções de Ana Moura dispensam qualquer explicação.
Texto: José Luís Correia
Foto: Tania Feller
(in jornal CONTACTO, 08/05/2013)
Os músicos são os primeiros a chegar ao palco. São cinco, todos bastante jovens. Que não engane a idade, vão revelar-se de uma estirpe tão talentosa que até assusta. À média luz do palco do Conservatório de Música da cidade do Luxemburgo, esperam por Ana Moura.
Segundos depois, a cantora entra, de vestido negro deslumbrante, com franjas que lembram o xaile das antigas fadistas das tabernas lisboetas, mas a sobriedade é ofuscada pelo colar de brilhantes, que realça o peito nu ilustre lusitano que canta. "Vestido negro cingido, cabelo negro comprido" é o que cantará minutos depois na sua música "A Fadista". Fala de si mesma?
Mas chamar-lhe fadista é redutor. Aos 33 anos, mais do que simplesmente marcar presença no fado há dez – o seu primeiro álbum saiu em 2003 –, Ana Moura tem-se revelado uma verdadeira força viva do fado em evolução e mesmo em revolução. E foi o que nos veio mostrar na apresentação do seu mais recente álbum.
A guitarra portuguesa dá a nota da primeira música: "Eu hei-de inventar um fado novo..." canta Ana Moura, e reconhecemos a canção "Havemos de acordar". E acorda-nos mesmo, depois de uma tarde solarenga de domingo. "Gudden Owend" [Boa noite] lança a coruchense num luxemburguês perfeito. Pede apoio ao público português para comunicar em francês com os outros espectadores: há luxemburgueses, franceses, alemães, ingleses, americanos, polacos e até um casal japonês. Porque, afinal, o fado é património da Humanidade.
Ana explica que o álbum "Desfado" tem influências do jazz, da música do norte de Portugal, mas não esquece o fado tradicional, em canções como "Com a cabeça nas nuvens" e "A Fadista". Da linha mais tradicional, Ana cantará ainda nessa noite dois fados de anteriores álbuns, "Porque teimas nesta dor" ("Guarda-me a Vida na Mão", 2003) e "Búzios" ("Para além da Saudade", 2007).
A surpresa boa (muito boa!) vai ser a canção que dá nome ao álbum, assinada por Pedro Silva Martins, dos Deolinda (que também compôs "Havemos de acordar"). Ter convidado o mentor dos Deolinda para este álbum prova o rumo insubmisso que Ana quer dar ao fado.
A cantora convidou ainda outros nomes da cena portuguesa, músicos da sua geração, que para ela compuseram "Fado Alado" e "Quando o sol espreitar de novo". São temas de dois insuspeitos fadistas: Pedro Abrunhosa e Manel Cruz (Pluto, Supernada, Foge Foge Bandido, ex-Ornatos Violetas). As letras são muito bonitas, algumas canções ficam longe do fado tradicional, mas a alma continua portuguesa.
A voz de Ana Moura seduz, parece rouca mas é grave, forte, firme, potente, quente, intensa. Amália aqui tão perto. As canções intimistas, como "Amor afoito", são cantadas à flor da pele. "A minha estrela" termina com Ana a tocar numa caixa de música a melodia de "La vie en rose", de Edith Piaf. Noutras, como em "Despiu a saudade", o jazz é não só patente como omnipresente.
A cumplicidade com os músicos instala um ambiente de clube nova-iorquino. Como em "Case of you", um lindíssimo original de Joni Mitchell, um dos ícones do jazz e do folk norte-americanos. fado novo Com Ana Moura, o fado viaja até Nova Iorque, passa por Braga e regressa a Alfama.
Há canções introspectivas, circunspectas e logo de seguida explosões de alegria. Numa canção, Ana quer seduzir-nos com voz sensual e na seguinte quer dançar connosco de mãos dadas. Os espectadores aderem. O fado também é festa. Como em "E tu gostavas de mim", o público acompanha a cantora com palmas. A canção é uma pérola, a meio caminho entre o fado bailado e o folclore, da autoria do talentoso e bem humorado Miguel Araújo, que conhecemos de canções como "Os maridos das outras", "Capitão Fantástico" ou "Fizz Limão". Mas será que o público se apercebe da letra?
Miguel Araújo é hoje o único músico português com coragem para fazer rimar "foguetões" com "neutrões", e de falar de cães em naves espaciais, microondas em Plutão, da banda larga em Arganil e do ciberespaço em Contumil, tudo isto... num fado! É ainda mais genial na voz de Ana Moura.
Nestas ousadias, no humor, nas incursões em outros géneros sente-se o fado a evoluir, a crescer, à nossa frente. Já não são os álbuns experimentais de Paulo Bragança ou de Mísia do início dos anos 1990, nem as influências dos Madredeus, que nem todos os fadistas assumiam. O fado de Ana Moura, como o de alguns dos jovens fadistas, é um fado definitivamente novo, que se assume com o seu q.b. de saudoso e tradicional, mas já não quer ser apenas isso, agora é planetário, transgride as regras, bem à portuguesa, com um sorriso, descomplexadamente, mas só graças a esse impulso espontâneo de libertação pode dar-se ao mundo e recordar-nos que foi assim que nasceu, rufião.
Num interlúdio musical, sem Ana, os cinco músicos – André Moreira (baixo), Pedro Soares (guitarra), João Gomes (teclas), Márcio Costa (bateria) e Ângelo Freire (guitarra portuguesa) – vão mostrar as razões porque a cantora os escolheu para a acompanharem desde Janeiro nesta digressão. Ângelo Freire, de apenas 21 anos, vai mesmo destacar-se e provar que é o virtuoso da guitarra portuguesa de que todos falam.
No encore, Ana vai cantar "Sou do fado" (Fado Loucura) e "Fado Serrano", temas que a ligam a Amália. E vai mesmo ousar acrescentar ao Fado Serrano uma sonora introdução luxemburguesa, "Gudd Nuecht Lëtzebuerg, muito boa noite, senhoras e senhores...", ao qual se rendem os últimos irredutíveis autóctones que estão na sala.
No final do concerto, nas poucas declarações que deu, Ana Moura disse-se contente por ter tanto público jovem aqui no Luxemburgo. "Alguns vierem dar-me os parabéns pela coragem e arrojo de ter feito este disco", diz lisonjeada.
A cantora confessa que estava um pouco "receosa" pela forma como os portugueses cá fora, talvez mais familiares do fado tradicional, reagiriam ao seu novo álbum. Mas, "curiosamente, têm reagido muito bem", garante , "talvez porque o álbum também integra fados mais tradicionais e uma vertente inspirada na música do norte de Portugal".
"Da última vez que vim ao Luxemburgo, trouxe um repertório um pouco mais tradicional. Este disco é realmente muito diferente. Fico muito feliz que os portugueses gostem destas nossas aventuras. É que para além de sermos fadistas, temos o nosso próprio percurso natural. Este disco fazia muito sentido neste momento da minha carreira, pelas colaborações que tenho feito nos últimos anos. Eu queria partilhar isso com o meu público". E explica o seu afecto ao jazz: "o fado e o jazz assemelham-se muito, porque se cantam ambos com a alma, são um canto muito mais interior do que exterior".
Ana Moura é uma voz do fado no jazz ou do jazz no fado? Na noite do concerto, demos por nós, por vezes, a ouvir uma cantora de jazz que se terá extraviado no fado, primo tão próximo da canção lusitana. A guitarra portuguesa entrava sem ser convidada, mas a viagem era tão natural que a canção só podia ser adoptada pelo público, que se deixava embalar. Noutras canções, era assumidamente um fado-jazz, mesmo quando cantado em inglês. Mas como explicar o fado em inglês? Escutar as canções de Ana Moura dispensam qualquer explicação.
Texto: José Luís Correia
Foto: Tania Feller
(in jornal CONTACTO, 08/05/2013)
quinta-feira, 20 de julho de 2006
Madredeus na Abadia de Neumünster: 20 anos a cantar a alma portuguesa
| É a quarta vez que os Madredeus actuam no Luxemburgo Fotos: Guy Wolff |
Cantam Lisboa, a alma e a poesia portuguesa. Uma guitarra portuguesa alada (José Peixoto), uma viola clássica sublimada (Pedro Ayres Magalhães), um baixo providencial (Fernando Júdice) e teclas inspiradas (Carlos Maria Trindade) enquadram a composição para uma voz única e inconfundível, a de Teresa Salgueiro.
Um domingo ao entardecer, num cenário idílico. Os Madredeus são o grupo português mais internacional de sempre e a prová-lo, mais uma vez, foi o público – 1.200 pessoas das mais diferentes nacionalidades e origens – que assistiu no domingo ao concerto no adro da Abadia de Neumünster, no Grund, no âmbito do Festival OMNI 2006, promovido pelo Centro Cultural de Encontro (CCRN).
É a quarta vez que os Madredeus passam pelo país, do qual guardam a boa recordação do concerto em Wiltz, em 2000, e do primeiro, em 1992, "porque era uma das duas primeiras actuações que faziamos fora de Portugal", conta-nos Pedro Ayres Magalhães, mentor do grupo.
"Do palco, não fazemos distinções entre o público. É normal em Paris ou no Luxemburgo haver mais portugueses do que noutras cidades, mas os portugueses até costumam ser a minoria. A obra do grupo – temos cerca de 120 canções –, continua a ser pouco conhecida, mesmo se o nome é famoso!", lamenta Pedro Ayres, mentor e membro-fundador do grupo.
Lisboa e Teresa
Os Madredeus são uma fantasia musical erudita de raiz genuinamente portuguesa, segundo uma definição de Pedro Ayres. Move o grupo o culto da composição em português. A grande fonte de inspiração é Lisboa. Mas também a própria Teresa Salgueiro.
"Fazemos música para guitarra, para a voz da Teresa e para ser cantada em português", explica o guitarrista. Virtuoso, para quem o soube apreciar no domingo, e que continua a ser, 20 anos depois da criação do grupo, o principal letrista e compositor das canções.
Em 20 anos mudaram muito? "Não mudámos, evoluímos!", corrige. E acrescenta: "Cultivámos um estilo, apurámos, sofisticámos um tipo de encenação, a solenidade nos concertos, a importância da voz, da poesia e da guitarra clássica".
| "Madredeus é uma orquestra de bolso", diz Pedro Ayres Magalhães |
Esta "orquestra de bolso", como Pedro Ayres lhe costuma chamar, "já atingiu tudo ou quase tudo o que havia para atingir".
"Em termos de popularidade e de reconhecimento internacional conseguimos o que nenhum outro grupo português conseguiu. Fizemos música para cinema (n.d.R.: Wim Wenders e Maria de Medeiros, por exemplo), tocámos com orquestras, em catedrais, em salas das mais prestigiadas do mundo. Em Portugal, somos um dos grupos cujos concertos mais bilhetes vendem e mesmo a nível europeu, somos os únicos no nosso género a tocar em 36 países há 20 anos."
Actualmente, todos os elementos do grupo evoluem noutros projectos colectivos ou a solo. O único a dedicar-se totalmemte aos Madredeus é Pedro Ayres, que foi também quem teve a ideia de criar o grupo em 1986. E lembra a génese, para juntar ao mito do grupo: "Quando eu andava em concerto pelo país (n.d.R.: leia-se, no tempo dos Heróis do Mar), via os teatros fechados e fiquei com vontade de criar um grupo com guitarras acústicas que pudesse tocar nesses sitíos." O resto já faz parte da história oficial. Foi assim que nasceu a ideia. Vinte anos depois está mais do que nunca viva e recomenda-se.
Depois de mais de 120 cidades do mundo, foi a vez do Luxemburgo ficar a conhecer o concerto onde divulgam as músicas dos dois últimos álbuns: "Faluas do Tejo", de 2005 e "Um Amor Infinito", de 2004. Isto porque não há temas novos nem estão a preparar nenhum álbum para celebrar os 20 anos de carreira.
Num incontornável "bis" no final da noite, regressaram ao palco para oferecer ao público temas de álbuns anteriores como "No céu da Mouraria" e "Haja o que houver".
José Luís Correia,
in CONTACTO, 19/07/2006
sexta-feira, 2 de junho de 2006
Raquel Barreira, definitivamente jazzy
| Já cantou rock, depois fado. Hoje, a sua música não tem fronteiras nem complexos Foto: Francisco S. |
Além de Georges Urwald (piano) e Al Lenners (percussão) – com quem compôs o álbum que mais se parece consigo –, faziam parte da lista de convidados especiais Marc Demuth (contrabaixo), Lisa Berg (violoncelo), Maurizio Spiridigliozzi (acordeão), Gast Gnad (trombone), Ernie Hammes (trompete), Nadine Kauffmann (saxofone), Vania Lecuit (violino) e Joachim Kruithof (alto).
A noite era de estreias e prometia. Raquel cantou pela primeira vez em francês, "Mémoires", um original escrito por si, à semelhança de quase todos os temas dos seus álbuns. Este aguarda ser incluído no próximo álbum. Como aliás outros novos temas já compostos por si, Urwald e Lenners, mas que o trio ainda não está a apresentar ao vivo, confiou a cantora ao nosso jornal.
Outra novidade: Raquel fez-se acompanhar na lindíssima canção "À luz do dia" por um grupo coral adolescente. Um excelente proposta que, infelizmente nesse dia, não surtiu o efeito desejado. Mas uma ideia, quiçá a reservar para um próximo trabalho.
Do italiano ao inglês, do swing ao fado, passando pelo tango e a valsa, Raquel provou ser uma artista multifacetada que já viajou muito pela música, conseguindo seduzir públicos muito diferentes.
Os espectadores não-portugueses eram aliás numerosos, como sempre nos seus concertos, e foram, mais uma vez, contagiados pelo entusiasmo da cantora que já os conquistou. A prová-lo, consulte-se no site www.raquelbarreira.net a sua agenda de concertos previstos até ao Verão. A próxima actuação é já na sexta-feira, 2 de Junho, às 17h, na Abadia de Neumünster, no Grund.
No concerto em Esch, Raquel mostrou ainda que não é o xaile que faz a fadista. É a voz. Com a sua, sentida e depurada, e o piano sensível de Urwald, o fado "Ó gente da minha terra" (um dos mais famosos fados cantados por Amália) adquiriu um encanto dramático muito belo, personalizando naquele instante a saudade, mesmo para quem não falava a língua de Camões. Porque há coisas que não se explicam.
José Luís Correia
in CONTACTO, 31/05/2006
Rótulo :
concertos,
contacto,
música,
Raquel Barreira
quinta-feira, 20 de outubro de 2005
Duas vozes cantam duas cidades: O "fado" de Nápoles e a canção de Lisboa
| Consiglia Licciardi e Nuno da Câmara Pereira Foto: M. Dias |
Duas vozes, sete guitarras
O público deixou-se encantar e rendeu-se, por completo, às vozes dos dois artistas, que interpretaram, cada um, canções das suas cidades respectivas sobre o tempo, a noite, o sentimento, o jardim, o bairro, o passado, o abandono, a tradição, a distância e o amor. Nuno da Câmara Pereira de um lado do palco, Consiglia Licciardi, do outro.
Cada emoção, cada lugar cantado à maneira de Lisboa ou de Napóles, ora na voz bem nossa conhecida de Nuno, ora na voz potentissima de Cristalina de Consiglia. Duas vozes, mas não ao desafio. Antes, numa mútua sedução, como uma serenata consentida.
Muito aplaudido pelo público foram sobretudo os desempenhos dos dois artistas, quando estes se exprimiam na Língua do outro: Consiglia não hesitou mesmo em usar o xaile preto, tipicamente português, para acompanhar Nuno da Câmara Pereira em alguns fados.
Um dos momentos altos do espectáculo foi um dueto da célebre canção italiana "Ó Sole Mio", cantado em Italiano e Português. Também muito apreciado, sobretudo pelo público português, foram alguns fados, que Nuno da Câmara Pereira não pode deixar de cantar, mesmo se não faziam parte do programa, prolongando assim, por mais meia-hora, o espectáculo.
Outro momento que conquistou o público, composto essencialmente por portugueses e italianos, embora houvesse também muitos luxemburgueses, foi quando os sete guitarristas em palco (três italianos e 4 portugueses) interpretaram, num majestoso tema instrumental, o "Interlúdio luso-partenopeu", sob forma de diálogo entre a guitarra portuguesa e a mandolina.
Depois do espectáculo, o CONTACTO falou com o fadista português que se declarou muito contente por estar de novo no Luxemburgo, e que aprecia muito a maneira como é recebido pela comunidade portuguesa aqui radicada.
Um projecto com quatro anos
Nuno da Câmara Pereira disse-nos como tinha nascido este projecto e a digressão que têm feito pela Europa e Bacia mediterrância.
"Há uns quatro anos, encontrei a Consiglia num Festival de Música Mediterrânica, na ilha de Malta. Eu estava a representar Portugal com o Fado e a Consiglia a Itália, com a Canção napolitana. Sentimos a perfeita sintonia entre as duas canções e daí surgiu a ideia de cantar em dueto. Ambas as canções são bastante homogéneas, nostálgicas, mediterrânicas - a cultura portuguesa, tem, aliás, muito mais de mediterrânico do que possamos imaginar - e há muitos outros pontos comuns entre as duas cidades, Nápoles e Lisboa, e entre os dois povos."
"Já levámos este espectáculo ao Teatro de la Valleta, a Malta, à Sícilia, a Florença, a Nápoles, e a Tunes (Tunísia)", disse-nos.
Nuno da Câmara Pereira confiou-nos que foi um pouco difícil aprender a cantar em napolitano (diferente da língua italiana). Os dois artistas estão também a pensar imortalizar este espectáculo único num álbum. Para já, há a vontade de multiplicarem os concertos em Portugal e por toda a Europa.
O próximo local, na sua agenda, é o Funchal, onde estarão já esta noite (uma semana depois do Luxemburgo), num espectáculo transmitido em directo pela RTP Madeira. Depois, no fim do mês de Outubro, estarão na Argentina, no primeiro concerto do que será a sua digressão na América Latina, no próximo ano.
"Uma experiência extraordinária"
Consiglia Licciardi considera este projecto uma "experiência extraordinária", que o Fado de Lisboa e a Canção napolitana "são duas canções que falam de cidades à beira-mar, que falam dos mesmos sentimentos, da nostalgia, do amor".
Disse-nos que tinha sido muito difícil aprender a cantar em Português e confiou-nos que estava muito ansiosa e desejosa de actuar na Madeira, já que este será o seu primeiro espectáculo em Portugal. Confessou-nos que vai ser um momento forte para si, "como foi, há dois anos, para o Nuno, a primeira vez que ele cantou em Nápoles". Consiglia espera também que o espectáculo seja registado num disco,logo que uma Editora manifeste interresse. Nuno da Câmara Pereira tem novo disco, sem fado
Quanto a projectos a solo, Nuno da Câmara Pereira revelou, em primeira mão ao CONTACTO, que estava prestes a sair, nos próximos dias, um novo álbum seu, mas que não contemplava o Fado. "Este álbum chama-se 'A última noite', é um disco com música de sedução, música de dança em Castelhano e Português, música romântica, "slows", um 'fado dançável', onde contei com a participação de Rui Veloso, dos Tetvocal, do Jorge Fernando, da cubana Lucrécia, da Rosana (Ilhas Canárias), da espanhola Yolanda e até do guitarrista dos Pink Floyd, Snowy White", revelou-nos o fadista. "Já que há tantos cantores da canção ligeira que cantam Fado, porque não fazer o contrário, um fadista cantar música ligeira?", acrescentou.
José Luís Correia
in CONTACTO, 20/10/2000
Rótulo :
concertos,
contacto,
entrevistas,
fado,
música
sexta-feira, 29 de julho de 2005
Madredeus é "uma fantasia musical de raiz portuguesa", diz Pedro Ayres Magalhães
| Fotos: Paulo Lobo |
Hoje são um dos expoentes máximos da música portuguesa e os melhores embaixadores de Portugal no estrangeiro, com a sua música à qual se rendem multidões em países espalhados nos quatro cantos do mundo. Passaram, na última sexta-feira, dia 21 de Julho, por Wiltz, para participar no "Festival de Música e Teatro" daquela cidade. Era a terceira vez que vinham ao Luxemburgo. E, mais uma vez, valeu a pena.
Valeu a pena ir até Wiltz e ver aquele ambiente de pequena cidade rústica, no meio de montes e vales verdejantes que já conhecemos, sublimado pela primorosa música dos Madredeus e pela magnífica voz de Teresa Salgueiro, que a todos encantou.
O espectáculo começou eram 21 horas, ainda o sol banhava Wiltz com uma média luz. O crepúsculo caía e também a música dos Madredeus se ia tornando mais intimista e mais próxima do público. Este, na sua maior parte composto por luxemburgueses (notavam-se também muitos portugueses, claro!), rendia-se de corpo e alma à voz doce de Teresa Salgueiro.
No final, o grupo não pôde sair de palco sem um "bis" obrigatório e mereceu uma "standing ovation" (ovação de pé) emocionante. Depois do concerto, a organização do Festival convidou uma pequena comitiva para uma recepção com o grupo. Entre conversas de admiradores e autógrafos, o CONTACTO conseguiu falar com Teresa Salgueiro, Pedro Ayres Magalhães e Carlos Maria Trindade.
Uma das perguntas que fizemos aos três foi como definiam o seu som, questão que tem atormentado muitos críticos de música quando tentam "rotular" o género de música interpretada pelos Madredeus. Como se fossem preciso "rótulos" ou denominações para classificar esta música e os Madredeus! Os Madredeus de quem Miguel Esteves Cardoso disse (em 1987), muito antes de ter chegado a hora da consagração nacional e internacional, que esta era a melhor esperança da nação e esta música "um dos géneros da verdade".
"Uma música dedicada à língua portuguesa"
CONT: Esta é a terceira vez que vêm ao Luxemburgo. Foi bom voltar a vir actuar cá?
Teresa Salgueiro: Já há alguns anos que não vinhamos ao Luxemburgo. Das outras duas vezes que viemos foi em situações muito diferentes e o lugar em que tocámos não era tão agradável. Desta vez, o cenário era mais propício, estava algum frio, mas penso que as pessoas gostaram e apreciaram a música com muita atenção. Eu, pessoalmente, gostei muito de cá estar. Vivi esta terceira passagem por aqui com alegria, mas esta é uma visita muito breve, porque amanhã já vamos embora.
CONT.: Este concerto no Luxemburgo fez parte de uma digressão mais larga pela Europa?
T. S.: Sim, estamos a meio de uma viagem. Chegámos aqui vindos de Roma, fizemos seis concertos em Espanha, e do Luxemburgo seguimos para a Croácia. Depois da Croácia vamos fazer o último concerto da digressão espanhola, a Santiago de Compostela e por fim estaremos em Londres, no dia 30 de Julho. Daí seguimos para Lisboa. Este concerto foi estreado em Paris, passámos ainda por Bruxelas, Belgrado, Antuérpia (Anvers), Jerusalém, Telaviv, Berlim, Hanôver. Em Agosto vamos pela primeira vez fazer um mês de férias, algo que nunca conseguimos fazer nestes dez anos de viagem. Depois do mês de Agosto vamos ao Brasil (Manaus), México, Argentina, Finlândia. Em Novembro e Dezembro está prevista uma digressão em Itália.
CONT.: Como explica este sucesso internacional dos Madredeus?
T. S.: Não me compete a mim explicar este sucesso, cabe ao público. Mas penso que as pessoas gostam do estilo original de música que criámos. Acho que se nota também o gosto que temos em fazer concertos e estas grandes viagens que temos feito com a nossa música é que nos têm merecido o entusiasmo do público em tantos países diferentes. Penso que o público aprecia o ambiente particular que se estabelece, acho que temos uma música muito transparente, com que as pessoas se identificam. Temos viajado muito, as pessoas já nos conhecem e voltam a ver-nos e nós também queremos voltar a vê-las e retribuir-lhes o interesse e o entusiasmo que nos dão, com novas músicas.
CONT.: Daí neste concerto terem apresentado muitas novas canções...
T.S.: Este é o concerto que preparámos e que estamos a apresentar este ano. Gravámos um disco no início deste ano, o ano passado foi preenchido por uma digressão com muitos temas conhecidos. Este ano, optámos por apresentar novas músicas. Se por um lado as pessoas podem gostar de ouvir músicas antigas, penso que gostam de saber da criatividade e vontade que os músicos têm de responder ao seu entusiasmo com novas criações. Eu, pessoalmente, gosto muito das canções novas.
CONT.: Como é que define a música dos Madredeus?
T. S.: Acho que é um estilo de música completamente original. É música portuguesa, dedicada à palavra, ao canto da língua portuguesa. É uma música que visita muitos ouros estilos, tem essa liberdade. Mas não encontro uma definição particular, não tenho um rótulo para lhe dar...
CONT.: Além dos Madredeus, pensa, no futuro, numa carreira a solo, ou em projectos diferentes?
T. S.: Até ao fim do ano vou andar em viagens com os Madredeus. Para o ano, é lançado o nosso próximo disco. O trabalho com os Madredeus é muito intenso e tem sido, no fundo, a minha escola, tem sido através destas canções, que são feitas para mim, que tenho crescido e aprendido até que ponto é grande este meu gosto pela música. Há algumas coisas que eu gosto de cantar que não são Madredeus, como canções tradicionais. Gosto também muito de cantar fado, mas não sei se um dia se virá a justificar e se terei disponibilidade para fazer um trabalho. Gostaria de poder vir a fazê-lo, mas não tenho ainda nada de concreto previsto nesse sentido.
(cont. na pág. seguinte)
"Uma orquestra de bolso"
CONT: Como foi esta visita ao Luxemburgo, um país onde os esperam sempre muitos portugueses fãs do grupo?
Pedro Ayres Magalhães: Foi muito boa, visto que tocámos no quadro de um festival como este e num sítio dedicado à Música, um local extraordinário. Nos concertos anteriores que demos aqui tocámos num pavilhão, onde não é tão aprazível tocar. O Luxemburgo tem esta particularidade de quando vimos cá, esperamos sempre a presença da comunidade portuguesa. Sente-se o entusiasmo e o ambiente, é por isso particular.
CONT: Como define o som dos Madredeus?
P.A.M.: Essa é mais uma preocupação enciclopédica que eu não tenho muito. Por vezes pergunto-me se Madredeus é música clássica, se é fado? É, em todo o caso, uma música anti-académica, feita por estudantes de música, que toca influências vagas da música popular, do pop-rock, no fundo, da música contemporânea do nosso tempo. Procuramos criar um repertório para a poesia portuguesa cantada, bem como para a guitarra clássica, guitarra brasileira, guitarra portuguesa, guitarra flamenca, buzouki, harpa. Imaginamos o que podemos tocar com as nossas guitarras, o sintetizador e a voz da Teresa, tentando ser o mais criativos possível para explorar todas as potencialidades deste "ensemble". Quando cheguei aqui estava a perguntar-me se os luxemburgueses iam pensar que isto era mesmo fado ou não, enquanto que todos os portugueses sabem bem que isto não é fado. Para os portugueses Madredeus é Madredeus, ninguém precisa de explicações! O reportório dos Madredeus é uma tradução do fado, uma música feita inspirada nessa música de Lisboa, uma inspiração poética no feitio do fado. Cantamos inspirados na música de Lisboa, sem cantar a música de Lisboa! Eu gosto de chamar à música dos Madredeus: "uma fantasia musical de raiz potuguesa". Ou então "uma orquestra de bolso", porque afinal são apenas quatro músicos e uma voz.
CONT: Quando esta aventura começou em 1987, no antigo Convento da Madre de Deus, em Xabregas (zona oriental de Lisboa), imaginavam que poucos anos depois viriam a atingir este êxito internacional?
PAM: Quando começámos queríamos apenas fazer música diferente. Decidimos que era música para uma voz feminina, que não havia de ter baterias, nem percussões, senão não se ouvia nada do que ela cantava. Queríamos explorar música do tipo "Madrigal", as canções alentejanas, o fado, as baladas pop-rock. Nessa altura não nos preocupava ser famosos, preocupava-nos criar um repertório. Depois a nossa preocupação foi gravar esse reportório e apresentá-lo ao vivo. Ao príncipio fazíamos 20 concertos por ano, era uma coisa amadora na nossa vida, um divertimento. Foi assim até 1991 em que fizemos a nossa primeira digressão em Portugal que foi um grande êxito. Começámos inclusive a receber convites do estrangeiro. As tantas tivemos que decidir se íamos ser profissionais ou não, e que isso implicaria a possibilidade da nossa música ser editada em todo o mundo. Evitámos sempre demasiada exposição na tv e na rádio, concentrámo-nos nos concertos e na construção do repertório, tentando melhorar a música, viajando com ela. Isto nunca foi previsível em nenhum momento. Neste momento o grupo é uma coisa revolucionária. Acabamos de vir de uma tournée de seis concertos em Espanha, onde os Madredeus com a sua pequena orquestra tocaram, como aqui, em espaços da melhor música que se faz no mundo. Isto nunca foi possível imaginar nesses primeiros anos.
CONT.: Para os admiradores da voz do Pedro Ayres Magalhães, saudosos desta dos tempos da Resistência, em que interpretava nomeadamente os temas "Nunca Mais" (álbum "Palavras ao Vento") e "Perigo" (álbum "Mano a Mano"), quando é que podem esperar voltar a ouvi-la?
P.A.M.: (risos) Eu não tenho muito jeito para cantar, embora goste muito de cantar. Esses discos, em que cantávamos todos juntos, + foram muito felizes ...
CONT.: A Resistência acabou definitivamente?
P.A.M.: Quando nos encontramos falamos sempre nisso. Algumas das bandas naquela altura ainda não eram tão famosas como são hoje. Era sempre muito difícil juntar toda a gente e hoje ainda mais. Mas continuamos a ter esse sonho porque foi para nós algo importante...
"Um som único"
CONT: Foi bom voltar ao Luxemburgo no quadro deste Festival de Música e Teatro de Wiltz?
Carlos Maria Trindade: Este festival é muito bem organizado. Para nós é sempre bom, porque costumamos fazer este circuito de festivais por toda a Europa. As pessoas que frequentam estes festivais são pessoas que gostam de música e que têm um espírito aberto. Não precisamos só de um público que vá ver os Madredeus porque são famosos, mas porque ouvem a música, e este público acho que ouviu a música...
CONT.: Faço-lhe a mesma pergunta que fiz à Teresa e ao Pedro Ayres, como é que definiria a música dos Madredeus?
C.M.T.: É um som único, um som baseado em composições originais cantadas em Português, para a voz da Teresa Salgueiro, que é o mais importante. Isso é Madredeus.
CONT.: E consegue ter tempo para os seus outros projectos, nomeadamente a solo?
C.M.T.: O José Peixoto e eu trabalhamos a tempo inteiro para os Madredeus, mas sempre que podemos trabalhamos nos nossos projectos individuais. É importante, perante nós próprios sabermos que ainda podemos fazer música de autores individuais e explorando mais a técnica instrumentalista. Quando compomos para os Madredeus sabemos que vamos compor para aquele grupo, para aquela voz e trabalhamos de maneira específica para os Madredeus, que é um grupo semi-acústico muito interessante.
Festival de Wiltz 2001 com Gilberto Gil
A actuação dos Madredeus em Wiltz foi um dos maiores sucessos dos últimos tempos, confidenciava-nos, no final do espectáculo, um responsável da organização.
"O recinto estava lotado, estavam cerca de 1100 pessoas. É um record para o Festival de Wiltz, que costuma ter entre 600 e 900 pessoas quando temos casa cheia. Só o Miles Davis igualou este número em 1991, quando veio cá", disse o mesmo reponsável, visivelmente satisfeito, adiantando "para o ano já estamos a pensar em cá trazer o Gilberto Gil".
A toda a organização do Festival de Wiltz um bem-haja por este tipo de iniciativas e por ter trazido até nós um dos melhores grupos e o mais internacional da música portuguesa.
Texto: José Luís Correia
Fotos: Paulo Lobo
in CONTACTO, 28/07/2000
Rótulo :
concertos,
contacto,
entrevistas,
Madredeus,
música
Subscrever:
Mensagens (Atom)
