Os portugueses continuam a precisar de heróis. No sábado, o cosmos conspirou para que uma sequência de acontecimentos felizes prometessem à pátria lusa um novo 13 de maio, uma epifania, um novo salvador. Portugal, país de fé.
E o universo parece ter-se dobrado à nossa vontade e concedeu-nos alguns instantes felizes e inesquecíveis no tempo. O jardim à beira-mar plantado, que tantas vezes acha que é mero quintal das traseiras, que se sente esquecido, olvidado, foi central. Pelo menos, durante 24 horas.
O Papa mostrou que Fátima é um dos maiores santuários católicos e isto perante o mundo e mais de um milhão de peregrinos. Para muitos, corrigiu uma injustiça: canonizou os pastorinhos Francisco e Jacinta, legitimando-os assim perante a Igreja e o mundo católico. Ao mesmo tempo, legitimou as aparições da Cova da Iria de 1917, que continuam a não obter consenso no próprio Vaticano.
Nessa mesma noite, os olhos e os corações lusos viraram-se para Kiev e desejaram e acreditaram num milagre completamente diferente. Há mais de meio século – 53 anos! – que os melhores compositores e músicos do "país dos poetas" concorrem ao Festival Eurovisão da Canção. Em vão. Nem ao top 5 chegaram.
Outros países recém-chegados – arrivistas, dizem os nossos paladinos nacionais, invejosos que o rock ucraniano seja preferido à canção lusa –, “vendem-se” à língua inglesa e granjeiam o troféu. É a Letónia, a Turquia, o Azerbaijão, até a chauvinista França, que não vence desde 1977 (e nesse venceu graças à franco-portuguesa Marie Myriam), se faz agora representar no idioma de Shakespeare.
A imprensa e a elite portuguesas foram-se assim desinteressando do festival, por onde passaram nomes como France Gall, Julio Iglesias, Olivia Newton-John, Abba, Céline Dion ou Lara Fabian, mas que por ser um palco padastro passou a ser kitsch, piroso, inomável.
A verdade é que a profusão de lantejoulas e o europop simplório que por ali pululam ainda hoje não ajudam a retirar-lhe essa fama.
Portugal manteve-se orgulhosamente só e fiel a cantar na sua língua. E eis que surge um novo bardo, primeiro troçado, depois encorajado, finalmente coroado. Vestiram-lhe as vestes sebastianistas, visivelmente demasiado largas para aqueles ombros frágeis. O nome parecia predestinado para salvar a honra lusa e até, quiçá, cumprir o Quinto Império. Quanta responsabilidade!
A verdade é que nem Portugal nem o Eurofestival precisam de heróis, apenas de simplicidade, de música genuína, de canções sem refrões bacocos, que isso é o suficiente para vencer e convencer até as plateias mais desvirtuadas pela indústria musical, que pensa saber o que o público gosta.
Talvez a Eurovisão mude de paradigma, e talvez agora as rádios portuguesas abram o espartilho do seu airplay a músicos como Salvador. Não precisamos de heróis, apenas de genuinidade. Foi essa a lição que Salvador nos deu.
A completar a coroa de glória, mas apenas para quem é benfiquista, o clube da Luz festejou o “tetra” e o 36° título nacional com uma megafesta no Marquês, onde a canção do Salvador também foi entoada.
José Luís Correia, 17/05/2017
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quinta-feira, 18 de maio de 2017
quinta-feira, 5 de abril de 2012
Revista cultural francesa "Muze" dedica dossier especial à arte portuguesa
A "Primavera Portuguesa" ou a arte como solução para a crise
A última edição da revista cultural francesa "Muze" dedica 60 páginas à arte portuguesa, não hesitando em chamar à nova vaga de artistas lusos, insubmissos e irreverentes, "A Primavera Portuguesa".
"Face às restrições impostas pelas dificuldades financeiras, Portugal é obrigado a reinventar-se. O reverso da crise pode assim vir a ser o fim de um ancestral recolhimento sobre si mesmo. A cultura toma as dianteiras da mudança e a eterna nostalgia torna-se desejo de futuro".
É com esta introdução do artigo "Novo alento na cultura" da jornalista e escritora Filipa Melo que começa o dossier especial da revista cultural francesa "Muze" (edição de Abril-Maio-Junho).
A publicação que se auto-intitula "a revista trimestral da cultura no feminino", escolhe assim uma perspectiva assumidamente feminina e dá-nos a ver o Portugal de hoje e a arte contemporânea lusa através dos olhos de várias portuguesas: Amália Rodrigues, Agustina Bessa-Luís, Sophia de Mello Breyner Andresen, Paula Rego, Lídia Jorge, Maria de Medeiros, Cristina Branco, Joana Vasconcelos, Filipa Melo, entre outras.
SAUDADE INSUBMISSA
Filipa Melo começa por explicar a origem da saudade, essa palavra tão portuguesa que significa bem mais do que simplesmente nostalgia, pela qual é muitas vezes (mal) traduzida. E do fado (fatum = destino), a canção que é suposto cantar a saudade, mas ao invés a chora.
Socorrendo-se das definições de Teixeira de Pascoaes e de Eduardo Lourenço, a escritora recorda que a saudade "terá nascido" em 1578, no momento em que D. Sebastião desaparece na batalha de Alcácer-Quibir, deixando o país órfão de um futuro glorioso. Dos "Lusíadas" (1572) de Camões, à "Mensagem" (1934) de Fernando Pessoa, a saudade atravessa os séculos portugueses até ao princípio do século XXI, como se Portugal vivesse "numa ficção de império territorial ou espiritual, prisioneiro do passado", e como se apenas sobre as lágrimas do império perdido se pudesse construir um porvir.
Mas, mais importante para Filipa Melo, há hoje artistas portugueses que querem sair desse "labirinto da saudade" (E. Lourenço) e se lançam em epopeias mais pessoais e viradas para o futuro. Os exemplos que dá são Gonçalo M. Tavares e o seu poema-romance épico/anti-épico "Uma Viagem à Índia" (2011), e as obras irreverentes e iconoclastas da artista plástica Joana Vasconcelos (foto supra e foto infra).
Enquanto Gonçalo põe o seu romance "a dialogar em surdina com os Lusíadas", mas narra a busca individual(ista) de uma hiperpersonagem literária e não o destino ultramarino de uma nação, as obras de Joana reciclam objectos tradicionais para lhes dar outra dimensão, numa espécie de "auto-ridicularização" nacional. Nas mãos de Joana Vasconcelos, "a identidade nacional é um jogo lúdico e crítico entre tradição e modernidade". Uma das fundadoras da Muze, Stéphanie Janico, entrevista Joana Vasconcelos, que lhe fala, por exemplo, da génese da sua obra "Carmen Miranda", um sapato de tacão gigante (4 metros!) feito de... panelas em aço inoxidável. Uma obra conceptual que representa "a condição da mulher contemporânea, presa entre a tradição do lar e a tentação da sedução" (foto supra).
A diferença nestes novos artistas portugueses é que são influenciados por uma estética internacional, que fica cada vez menos a dever algo à saudade. "A europeização do pensamento português desenvolve-se em paralelo com a europeização dos costumes", lembra Filipa Melo, citando os filósofos José Gil e Maria Filomena Molder. E Miguel Real, outro dos novos escritores, que considera que "hoje já não estamos em diálogo com a Europa: agora também somos a Europa". Ou Valter Hugo Mãe, "escritor que fala da realidade social contemporânea", e João Tordo, "o mais anglo-saxónico dos jovens autores portugueses".
Mas não é só na literatura que há novos talentos que quebram com o passado. Para Filipa Melo, "A Marcha dos Implacáveis", do músico portuense JP Simões, ou "Parva que eu sou", dos Deolinda, podiam perfeitamente ser o novo hino nacional, em que a nova geração se mostra insubmissa e revoltada face ao destino que lhe é imposto pelos governantes e a crise.
"A actual música portuguesa fervilha de novidades, desde Tiago Guillul a B Fachada e aos Buraka Som Sistema", aponta Filipa Melo. "Na última década, até o fado foi reinventado, com textos mais contemporâneos (...) e saiu da sombra imponente de Amália".
Lula Pena, Camané e Cristina Branco, "a fadista atípica", são alguns dos exemplos desse renascimento do fado. Mas, embora sejam apologistas da renovação da canção nacional, todos se reivindicam descendentes de Amália. Porque Amália é incontornável. A revista aproveita para fazer um resumo biográfico da Diva, da revelação à consagração, passando pelos anos difíceis do pós-25 de Abril, em que lhe era recriminada a proximidade que tivera com o Estado Novo, até à reabilitação nos anos 90, também muito graças a toda uma nova geração de fadistas.
Filipa Melo não esquece a música clássica e destaca a "originalidade e inventividade" de pianistas como Bernardo Sassetti ou Maria João Pires.
"Portugal é actualmente o país das grandes contradições", diz Filipa Melo. No cinema temos, por exemplo, recorda, Manoel de Oliveira, o realizador mais idoso do mundo (103 anos) ainda em actividade, cujas obras "são mais citadas do que socialmente aceites ou realmente degustadas". Mas Oliveira recebe quase sempre apoio estatal, que continua a escapar a talentos mais jovens, como João Salaviza, que recebeu a Palma de Ouro em Cannes (2009), e outros que, face à falta de apoio financeiro, optam por filmar documentários ou filmes de intervenção social", como "forma de resistência".
Face à situação actual, que parece desesperante e sem saída, Filipa Melo cita JP Simões: "Temos que fazer qualquer coisa. Não podemos simplesmente desaparecer no nevoeiro de Alcácer-Quibir. Era o que faltava. Portugal seria o primeiro país da história a renunciar a si próprio".
A ARTE E A LITERATURA LUSAS NO FEMININO
Nesta sua vontade de transmitir uma perspectiva feminina da arte portuguesa, a Muze não podia deixar de dar destaque a uma das artistas plásticas lusas mais importantes da actualidade: Paula Rego (foto infra).
Para a escritora e historiadora francesa Pascaline Balland (d'Almeida), que também colabora neste número, Paula Rego distingue-se por uma "narração interventiva, a denúncia da dominação masculina, as cenas da vida doméstica, a violência recalcada". A obra de Paula Rego "escapa aos rótulos, e essa é a sua força", escreve a historiadora, que evoca a exposição da artista que esteve recentemente patente na filial da Fundação Gulbenkian em Paris.
A "Primavera Portuguesa" ou a arte como solução para a crise
Pierre Léglise-Costa, conhecido tradutor, historiador de arte, crítico e único homem convidado para escrever neste dossier, fala do papel da mulher na arte e na literatura portuguesas. Começa por recordar que "as canções de amigo, de escárnio e de maldizer têm um narrador feminino, apesar de serem escritas por homens". O homem não escreve, parte para a caça, para o mar, para a guerra, o homem é o ser desejado.
Com D. Manuel (1469-1521), a poesia torna-se a arte nacional e os homens assumem-se poetas. O maior de todos Camões, que escreve às mulheres como lhes fala, ou não lhe fossem atribuídos, além das 1.100 estrofes dos Lusíadas, inúmeros poemas de amor e quase tantas conquistas femininas.
Cem anos mais tarde, em França, a "impostura" literária das medievais cantigas de amigo ainda vende. O best-seller de então deve-se à paixão, ao desejo violento, aos sentimentos frustrados e à dor expressas de forma arrebatadora nas cartas da freira portuguesa Sóror Mariana de Alcoforado a um marquês francês. Coligidas em livro em 1669, tornam-se imediatamente um fenómeno de popularidade. Os franceses não acreditam que há em Portugal uma mulher que escreva daquela forma primorosa e o tradutor é tido como o autor. Ainda hoje os críticos disputam a autoria das epístolas: uns defendem que foi Soror Mariana, que realmente viveu em Beja entre 1640 e 1723, outros suspeitam do conde Gabriel de Guilleragues. "Mas", pergunta Léglise-Costa, "como poderia, nessa época, um conde francês conhecer tão bem a vida num convento de Beja?"
Pierre Léglise-Costa fala ainda de outros exemplos de portuguesas que brilharam nas artes: a pintora barroca Josefa de Óbidos (1630-1684); a Infanta Maria-Bárbara (1771-1758), filha de D. João V e que viria depois a ser rainha de Espanha, exímia instrumentista e compositora, e que ainda hoje é considerada a rainha mais culta da história da monarquia espanhola; ou a marquesa de Alorna (1750-1839), que deixou uma vasta obra literária. Para o crítico, cinco mulheres marcaram a literatura do século XX português: a poetisa Sophia de Mello Breyner Andresen, a romancista Agustina Bessa-Luís e as "Três Marias" – Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa e Maria Isabel Barreno. Cada uma, à sua maneira, pôs a mulher contemporânea no centro da acção, num Portugal que tinha dificuldades em arrancar-se ao século XIX. Apesar da sua delicadeza e de ser proveniente de uma família aristocrática, Sophia foi uma firme adversária do regime salazarista. Agustina vem de um meio rural e a sua prosa, onde a mulher tem sempre um papel preponderante, vai tornar-se incontornável. As "Três Marias" lançam uma pedrada no charco literário em 1972 com as suas "Novas Cartas Portuguesas" (em alusão às cartas de Mariana de Alcoforado), em que os estilos, os géneros e os temas se alternam livremente. Demasiado livremente. O livro faz escândalo e as três são presas, só vindo a ser libertadas quando se dá o 25 de Abril.
Os anos 80, que para Léglise-Costa ficam marcados pela "explosão" na cena literária de José Saramago e de António Lobo Antunes, vêem também aparecer nomes como Lídia Jorge. A revista aproveita para publicar nesta edição o seu conto "O marido" (1997), sobre uma mulher vítima de violência conjugal. A escritora algarvia confia em entrevista à Muze que este texto marca dois episódios da realidade portuguesa a que ela própria assistiu, apesar de 25 anos os separarem e uma revolução.
De passagem, a revista recomenda ainda "As palavras poupadas" de Maria Judite de Carvalho e o romance de estreia da actriz e escritora Leonor Baldaque, neta de Agustina, que se lançou este ano pela Gallimard com "Vita (la vie légère)", escrito em francês.
No cinema, as mulheres também começam a fazer-se notar atrás da câmara nos anos 80. Primeiro com Teresa Villaverde e mais tarde com Maria de Medeiros (na foto infra), esta última com a única longa-metragem feita até hoje sobre a Revolução dos Cravos. A filha do maestro Victorino d'Almeida é aliás uma das entrevistadas pela revista, na qual fala da sua actividade como actriz e realizadora, entre Lisboa, Paris e Hollywood (foto infra).
Outros novos talentos das artes visuais portuguesas, que também merecem destaque neste dossier, são Carla Cabanas (n. 1979), conhecida pelas suas fotos, à qual acrescenta desenhos, textos, som ou vídeo, em obras que interrogam a memória privada e colectiva; e o projecto "Diário da República", do colectivo Kameraphoto, que em 2011, pelo Centenário da República Portuguesa, fez um retrato do país e das mudanças sociais que Portugal atravessa.
O design cuidado e os artigos assinados por especialistas na matéria testemunham um interesse genuíno da revista Muze por um Portugal que não pode senão reinventar-se face à crise. A crise, por causa da qual Portugal aparece actualmente e demasiadas vezes vilipendiado na imprensa estrangeira, foi aqui aproveitada para revisitar um país que, afinal, ainda tem muito (t)alento para se voltar a erguer. É uma escolha editorial. Que aprovamos.
A revista Muze pode ser encontrada nas livrarias (preço: 14,90 euros em França, ou 15,70 euros no Luxemburgo).
Texto: José Luís Correia
Fotos: Anouk Antony
in CONTACTO, 04/04/2012
A última edição da revista cultural francesa "Muze" dedica 60 páginas à arte portuguesa, não hesitando em chamar à nova vaga de artistas lusos, insubmissos e irreverentes, "A Primavera Portuguesa".
"Face às restrições impostas pelas dificuldades financeiras, Portugal é obrigado a reinventar-se. O reverso da crise pode assim vir a ser o fim de um ancestral recolhimento sobre si mesmo. A cultura toma as dianteiras da mudança e a eterna nostalgia torna-se desejo de futuro".
É com esta introdução do artigo "Novo alento na cultura" da jornalista e escritora Filipa Melo que começa o dossier especial da revista cultural francesa "Muze" (edição de Abril-Maio-Junho).
A publicação que se auto-intitula "a revista trimestral da cultura no feminino", escolhe assim uma perspectiva assumidamente feminina e dá-nos a ver o Portugal de hoje e a arte contemporânea lusa através dos olhos de várias portuguesas: Amália Rodrigues, Agustina Bessa-Luís, Sophia de Mello Breyner Andresen, Paula Rego, Lídia Jorge, Maria de Medeiros, Cristina Branco, Joana Vasconcelos, Filipa Melo, entre outras.
SAUDADE INSUBMISSA
Filipa Melo começa por explicar a origem da saudade, essa palavra tão portuguesa que significa bem mais do que simplesmente nostalgia, pela qual é muitas vezes (mal) traduzida. E do fado (fatum = destino), a canção que é suposto cantar a saudade, mas ao invés a chora.
Socorrendo-se das definições de Teixeira de Pascoaes e de Eduardo Lourenço, a escritora recorda que a saudade "terá nascido" em 1578, no momento em que D. Sebastião desaparece na batalha de Alcácer-Quibir, deixando o país órfão de um futuro glorioso. Dos "Lusíadas" (1572) de Camões, à "Mensagem" (1934) de Fernando Pessoa, a saudade atravessa os séculos portugueses até ao princípio do século XXI, como se Portugal vivesse "numa ficção de império territorial ou espiritual, prisioneiro do passado", e como se apenas sobre as lágrimas do império perdido se pudesse construir um porvir.
Mas, mais importante para Filipa Melo, há hoje artistas portugueses que querem sair desse "labirinto da saudade" (E. Lourenço) e se lançam em epopeias mais pessoais e viradas para o futuro. Os exemplos que dá são Gonçalo M. Tavares e o seu poema-romance épico/anti-épico "Uma Viagem à Índia" (2011), e as obras irreverentes e iconoclastas da artista plástica Joana Vasconcelos (foto supra e foto infra).
Enquanto Gonçalo põe o seu romance "a dialogar em surdina com os Lusíadas", mas narra a busca individual(ista) de uma hiperpersonagem literária e não o destino ultramarino de uma nação, as obras de Joana reciclam objectos tradicionais para lhes dar outra dimensão, numa espécie de "auto-ridicularização" nacional. Nas mãos de Joana Vasconcelos, "a identidade nacional é um jogo lúdico e crítico entre tradição e modernidade". Uma das fundadoras da Muze, Stéphanie Janico, entrevista Joana Vasconcelos, que lhe fala, por exemplo, da génese da sua obra "Carmen Miranda", um sapato de tacão gigante (4 metros!) feito de... panelas em aço inoxidável. Uma obra conceptual que representa "a condição da mulher contemporânea, presa entre a tradição do lar e a tentação da sedução" (foto supra).
A diferença nestes novos artistas portugueses é que são influenciados por uma estética internacional, que fica cada vez menos a dever algo à saudade. "A europeização do pensamento português desenvolve-se em paralelo com a europeização dos costumes", lembra Filipa Melo, citando os filósofos José Gil e Maria Filomena Molder. E Miguel Real, outro dos novos escritores, que considera que "hoje já não estamos em diálogo com a Europa: agora também somos a Europa". Ou Valter Hugo Mãe, "escritor que fala da realidade social contemporânea", e João Tordo, "o mais anglo-saxónico dos jovens autores portugueses".
Mas não é só na literatura que há novos talentos que quebram com o passado. Para Filipa Melo, "A Marcha dos Implacáveis", do músico portuense JP Simões, ou "Parva que eu sou", dos Deolinda, podiam perfeitamente ser o novo hino nacional, em que a nova geração se mostra insubmissa e revoltada face ao destino que lhe é imposto pelos governantes e a crise.
"A actual música portuguesa fervilha de novidades, desde Tiago Guillul a B Fachada e aos Buraka Som Sistema", aponta Filipa Melo. "Na última década, até o fado foi reinventado, com textos mais contemporâneos (...) e saiu da sombra imponente de Amália".
Lula Pena, Camané e Cristina Branco, "a fadista atípica", são alguns dos exemplos desse renascimento do fado. Mas, embora sejam apologistas da renovação da canção nacional, todos se reivindicam descendentes de Amália. Porque Amália é incontornável. A revista aproveita para fazer um resumo biográfico da Diva, da revelação à consagração, passando pelos anos difíceis do pós-25 de Abril, em que lhe era recriminada a proximidade que tivera com o Estado Novo, até à reabilitação nos anos 90, também muito graças a toda uma nova geração de fadistas.
Filipa Melo não esquece a música clássica e destaca a "originalidade e inventividade" de pianistas como Bernardo Sassetti ou Maria João Pires.
"Portugal é actualmente o país das grandes contradições", diz Filipa Melo. No cinema temos, por exemplo, recorda, Manoel de Oliveira, o realizador mais idoso do mundo (103 anos) ainda em actividade, cujas obras "são mais citadas do que socialmente aceites ou realmente degustadas". Mas Oliveira recebe quase sempre apoio estatal, que continua a escapar a talentos mais jovens, como João Salaviza, que recebeu a Palma de Ouro em Cannes (2009), e outros que, face à falta de apoio financeiro, optam por filmar documentários ou filmes de intervenção social", como "forma de resistência".
Face à situação actual, que parece desesperante e sem saída, Filipa Melo cita JP Simões: "Temos que fazer qualquer coisa. Não podemos simplesmente desaparecer no nevoeiro de Alcácer-Quibir. Era o que faltava. Portugal seria o primeiro país da história a renunciar a si próprio".
A ARTE E A LITERATURA LUSAS NO FEMININO
Nesta sua vontade de transmitir uma perspectiva feminina da arte portuguesa, a Muze não podia deixar de dar destaque a uma das artistas plásticas lusas mais importantes da actualidade: Paula Rego (foto infra).
Para a escritora e historiadora francesa Pascaline Balland (d'Almeida), que também colabora neste número, Paula Rego distingue-se por uma "narração interventiva, a denúncia da dominação masculina, as cenas da vida doméstica, a violência recalcada". A obra de Paula Rego "escapa aos rótulos, e essa é a sua força", escreve a historiadora, que evoca a exposição da artista que esteve recentemente patente na filial da Fundação Gulbenkian em Paris.
A "Primavera Portuguesa" ou a arte como solução para a crise
Pierre Léglise-Costa, conhecido tradutor, historiador de arte, crítico e único homem convidado para escrever neste dossier, fala do papel da mulher na arte e na literatura portuguesas. Começa por recordar que "as canções de amigo, de escárnio e de maldizer têm um narrador feminino, apesar de serem escritas por homens". O homem não escreve, parte para a caça, para o mar, para a guerra, o homem é o ser desejado.
Com D. Manuel (1469-1521), a poesia torna-se a arte nacional e os homens assumem-se poetas. O maior de todos Camões, que escreve às mulheres como lhes fala, ou não lhe fossem atribuídos, além das 1.100 estrofes dos Lusíadas, inúmeros poemas de amor e quase tantas conquistas femininas.
Cem anos mais tarde, em França, a "impostura" literária das medievais cantigas de amigo ainda vende. O best-seller de então deve-se à paixão, ao desejo violento, aos sentimentos frustrados e à dor expressas de forma arrebatadora nas cartas da freira portuguesa Sóror Mariana de Alcoforado a um marquês francês. Coligidas em livro em 1669, tornam-se imediatamente um fenómeno de popularidade. Os franceses não acreditam que há em Portugal uma mulher que escreva daquela forma primorosa e o tradutor é tido como o autor. Ainda hoje os críticos disputam a autoria das epístolas: uns defendem que foi Soror Mariana, que realmente viveu em Beja entre 1640 e 1723, outros suspeitam do conde Gabriel de Guilleragues. "Mas", pergunta Léglise-Costa, "como poderia, nessa época, um conde francês conhecer tão bem a vida num convento de Beja?"
Pierre Léglise-Costa fala ainda de outros exemplos de portuguesas que brilharam nas artes: a pintora barroca Josefa de Óbidos (1630-1684); a Infanta Maria-Bárbara (1771-1758), filha de D. João V e que viria depois a ser rainha de Espanha, exímia instrumentista e compositora, e que ainda hoje é considerada a rainha mais culta da história da monarquia espanhola; ou a marquesa de Alorna (1750-1839), que deixou uma vasta obra literária. Para o crítico, cinco mulheres marcaram a literatura do século XX português: a poetisa Sophia de Mello Breyner Andresen, a romancista Agustina Bessa-Luís e as "Três Marias" – Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa e Maria Isabel Barreno. Cada uma, à sua maneira, pôs a mulher contemporânea no centro da acção, num Portugal que tinha dificuldades em arrancar-se ao século XIX. Apesar da sua delicadeza e de ser proveniente de uma família aristocrática, Sophia foi uma firme adversária do regime salazarista. Agustina vem de um meio rural e a sua prosa, onde a mulher tem sempre um papel preponderante, vai tornar-se incontornável. As "Três Marias" lançam uma pedrada no charco literário em 1972 com as suas "Novas Cartas Portuguesas" (em alusão às cartas de Mariana de Alcoforado), em que os estilos, os géneros e os temas se alternam livremente. Demasiado livremente. O livro faz escândalo e as três são presas, só vindo a ser libertadas quando se dá o 25 de Abril.
Os anos 80, que para Léglise-Costa ficam marcados pela "explosão" na cena literária de José Saramago e de António Lobo Antunes, vêem também aparecer nomes como Lídia Jorge. A revista aproveita para publicar nesta edição o seu conto "O marido" (1997), sobre uma mulher vítima de violência conjugal. A escritora algarvia confia em entrevista à Muze que este texto marca dois episódios da realidade portuguesa a que ela própria assistiu, apesar de 25 anos os separarem e uma revolução.
De passagem, a revista recomenda ainda "As palavras poupadas" de Maria Judite de Carvalho e o romance de estreia da actriz e escritora Leonor Baldaque, neta de Agustina, que se lançou este ano pela Gallimard com "Vita (la vie légère)", escrito em francês.
No cinema, as mulheres também começam a fazer-se notar atrás da câmara nos anos 80. Primeiro com Teresa Villaverde e mais tarde com Maria de Medeiros (na foto infra), esta última com a única longa-metragem feita até hoje sobre a Revolução dos Cravos. A filha do maestro Victorino d'Almeida é aliás uma das entrevistadas pela revista, na qual fala da sua actividade como actriz e realizadora, entre Lisboa, Paris e Hollywood (foto infra).
Outros novos talentos das artes visuais portuguesas, que também merecem destaque neste dossier, são Carla Cabanas (n. 1979), conhecida pelas suas fotos, à qual acrescenta desenhos, textos, som ou vídeo, em obras que interrogam a memória privada e colectiva; e o projecto "Diário da República", do colectivo Kameraphoto, que em 2011, pelo Centenário da República Portuguesa, fez um retrato do país e das mudanças sociais que Portugal atravessa.
O design cuidado e os artigos assinados por especialistas na matéria testemunham um interesse genuíno da revista Muze por um Portugal que não pode senão reinventar-se face à crise. A crise, por causa da qual Portugal aparece actualmente e demasiadas vezes vilipendiado na imprensa estrangeira, foi aqui aproveitada para revisitar um país que, afinal, ainda tem muito (t)alento para se voltar a erguer. É uma escolha editorial. Que aprovamos.
A revista Muze pode ser encontrada nas livrarias (preço: 14,90 euros em França, ou 15,70 euros no Luxemburgo).
Texto: José Luís Correia
Fotos: Anouk Antony
in CONTACTO, 04/04/2012
domingo, 31 de outubro de 2010
Em Mamer, Cultura escreve-se com K
"Pompa e cirscuntância, marcha n°1 ", de Edgar Elgar foi uma das músicas que me fez viajar ontem até um serão dos anos 80 em que aterrorizado descobri esse ovni que é a "Laranja Mecânica" de Kubrik.
Já não ia a um concerto de música clássica desde Maio de 2008, quando estive na Beethovenhalle, em Bona, para assistir à actuação da West-Eastern Divan Orchestra, dirigida por Daniel Barenboim, projecto composto por judeus e árabes e que visa promover a paz no Médio Oriente, através da música clássica.
Ontem, no novo Centro Cultural de Mamer, o Kinneksbond, para a inauguração oficial, a lotação estava esgotada para ouvir a Harmonie Gemeng Mamer (HGM), que teve as honras de estrear a sala.
Além da famosa composição de Elgar (com arranjos de Henk von Lijnschooten), a HGM viajou pela "Finlandia" de Sibelius, o concerto para trompete, 1°movimento de Johann N. Hummel, a Thaïs, de Massenet, e pela "Viúva Alegre", de Lehar, entre outros.
Os meus momentos preferidos
Gostei de descobrir o "Japanese Tune" de Soichi Konagaya, dos arranjos (de Somadossi) que fizeram à música "Innuendo" dos Queen, e da composição original de um jovem músico local, Marco Batistella Jr, feito especialmente para a orquestra HGM e que se intitula "HGM", pegando nas notas que as letras representam. A HGM desvendou ainda uma das canções de um dos projectos que anda a preparar para 2011, a ópera rock "Jesus Christ Superstar" (1971), de Tim Rice e Andrew Lloyd Webber.
Gostei também que cedessem um lugar à coral de crianças da cidade, que interpretaram "Another Brick in The Wall", dos Pink Floyd. Embora com um arranjo a meu ver péssimo, de R. Fienga (whoever he is!), que detestei, o empenho e a dedicação com que os miúdos cantavam o "Hey, teacher, leave the kids alone", salvou a canção.
Mas para mim, os dois pontos altos da noite foram a canção "Ich gehör nur mir" do musical "Elisabeth" (sobre a imperatriz Sissi), magnificamente interpretada pela jovem soprano luxemburguesa Patricia Freres, dona de uma lindíssima voz; e o momento em que um escocês, de kilt a rigor e de gaita de foles ao ombro, invadiu a sala e se fez acompanhar pela orquestra, num "grande finale" à altura da inauguração da sala de espectáculos a que assistíamos.
Uma sala com uma acústica invejável e que respondeu às expectativas e aos desafios da estreia. O centro é líndissimo, com linhas simples e despojadas, um hall (foyer) amplo e de cores quentes e acolhedoras. O adro dianteiro é amplo e declina-se em escadaria e fonte luminosa, onde imaguino bem uma esplanada agradável no Verão. Por falar em Verão, o palco abre-se nas traseiras sobre um anfiteatro a céu aberto para uma centena de pessoas. Uma bela ideia, que fica à mercê da caprichosa e imprevisível meteorologia luxemburguesa.
Foi uma excelente noite. Não estava nada à espera de gostar tanto..., sei lá, quando me disseram que quem ia fazer a abertura era a fanfarra lá da terrazinha.
Afinal, é caso para dizer que em Mamer Cultura também se escreve com K. De "Kinneksbond", um centro de cultura que não teme fazer "a espargata cultural" entre a arte mais clássica (teatro, concertos clássicos, óperas, operetas, etc.) e alternativas menos consensuais, como composições orientais e óperas rock.
O concerto de ontem à noite mostrou acima de tudo, a meu ver, o que os responsáveis querem fazer deste novo pólo: um lugar onde os estilos se cruzam e mesclam, com uma única preocupação, a re-criação, a re-invenção permanente da(s) arte(s), como uma das disciplinas por excelência que sublimam a existência e o próprio homem.
José Luís Correia, aka, A.G. Weytjens
11h24, 31 de Outubro de 2010
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