Os portugueses continuam a precisar de heróis. No sábado, o cosmos conspirou para que uma sequência de acontecimentos felizes prometessem à pátria lusa um novo 13 de maio, uma epifania, um novo salvador. Portugal, país de fé.
E o universo parece ter-se dobrado à nossa vontade e concedeu-nos alguns instantes felizes e inesquecíveis no tempo. O jardim à beira-mar plantado, que tantas vezes acha que é mero quintal das traseiras, que se sente esquecido, olvidado, foi central. Pelo menos, durante 24 horas.
O Papa mostrou que Fátima é um dos maiores santuários católicos e isto perante o mundo e mais de um milhão de peregrinos. Para muitos, corrigiu uma injustiça: canonizou os pastorinhos Francisco e Jacinta, legitimando-os assim perante a Igreja e o mundo católico. Ao mesmo tempo, legitimou as aparições da Cova da Iria de 1917, que continuam a não obter consenso no próprio Vaticano.
Nessa mesma noite, os olhos e os corações lusos viraram-se para Kiev e desejaram e acreditaram num milagre completamente diferente. Há mais de meio século – 53 anos! – que os melhores compositores e músicos do "país dos poetas" concorrem ao Festival Eurovisão da Canção. Em vão. Nem ao top 5 chegaram.
Outros países recém-chegados – arrivistas, dizem os nossos paladinos nacionais, invejosos que o rock ucraniano seja preferido à canção lusa –, “vendem-se” à língua inglesa e granjeiam o troféu. É a Letónia, a Turquia, o Azerbaijão, até a chauvinista França, que não vence desde 1977 (e nesse venceu graças à franco-portuguesa Marie Myriam), se faz agora representar no idioma de Shakespeare.
A imprensa e a elite portuguesas foram-se assim desinteressando do festival, por onde passaram nomes como France Gall, Julio Iglesias, Olivia Newton-John, Abba, Céline Dion ou Lara Fabian, mas que por ser um palco padastro passou a ser kitsch, piroso, inomável.
A verdade é que a profusão de lantejoulas e o europop simplório que por ali pululam ainda hoje não ajudam a retirar-lhe essa fama.
Portugal manteve-se orgulhosamente só e fiel a cantar na sua língua. E eis que surge um novo bardo, primeiro troçado, depois encorajado, finalmente coroado. Vestiram-lhe as vestes sebastianistas, visivelmente demasiado largas para aqueles ombros frágeis. O nome parecia predestinado para salvar a honra lusa e até, quiçá, cumprir o Quinto Império. Quanta responsabilidade!
A verdade é que nem Portugal nem o Eurofestival precisam de heróis, apenas de simplicidade, de música genuína, de canções sem refrões bacocos, que isso é o suficiente para vencer e convencer até as plateias mais desvirtuadas pela indústria musical, que pensa saber o que o público gosta.
Talvez a Eurovisão mude de paradigma, e talvez agora as rádios portuguesas abram o espartilho do seu airplay a músicos como Salvador. Não precisamos de heróis, apenas de genuinidade. Foi essa a lição que Salvador nos deu.
A completar a coroa de glória, mas apenas para quem é benfiquista, o clube da Luz festejou o “tetra” e o 36° título nacional com uma megafesta no Marquês, onde a canção do Salvador também foi entoada.
José Luís Correia, 17/05/2017
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quinta-feira, 18 de maio de 2017
quinta-feira, 11 de maio de 2017
EDITORIAL: A França em marcha
Emmanuel Macron toma posse no domingo como oitavo Presidente da V República francesa, tornando-se o chefe de Estado mais novo de sempre do Hexágono.
Muitos veem nele a evolução e a revolução de que o país precisa, outros temem o resvalar num ultraliberalismo desenfreado. Uma leitura rápida do seu programa eleitoral dá-nos um vislumbre das suas linhas políticas nos próximos cinco anos.
A nível europeu, Macron quer ser o “desfibrilhador” da UE e relançar o bater do coração da Europa, i.e., o eixo Paris-Berlim, como resposta ao infarto que foi o Brexit, defende ainda a criação de um parlamento para a zona euro e a constituição de um fundo europeu para a defesa.
A nível doméstico, Macron quer: baixar os impostos às empresas, cortar no subsídio de desemprego, deixar de tributar as horas extraordinárias, “flexibilizar” a contratação e dispensa de trabalhadores, abolir o imposto predial para 80% dos lares, investir 15 mil milhões de euros na transição ecológica para reduzir a “dependência” do nuclear, contratar dez mil polícias, atribuir 15 mil milhões de euros à formação, criar cinco mil postos de docentes, reduzindo o número de alunos nas turmas a dezena e meia, cortar 120 mil empregos na administração pública, “ajustar” o sistema de pensões da Função Pública ao do setor privado, e, simultaneamente, aumentar a idade da reforma.
Mas, para isto tudo, Macron precisa de um Governo de maioria do seu lado. Depois do resultado que obteve domingo deverá, sem surpresas, alcançar essa maioria confortável nas legislativas de junho. O seu movimento “En Marche” transformou-se em partido na segunda-feira com o nome de “La République En Marche!” e a ele deverão aderir membros dos partidos tradicionais da esquerda e da direita. Se não o fizerem mostrar-se-ão incoerentes com o que defenderam entre a primeira e a segunda volta.
A França de Macron está em marcha. A pergunta é: que tipo de marcha? Os sindicatos franceses dizem-se atentos e prontos a lutar contra qualquer recuo a nível social.
Entretanto, na Frente Nacional (FN) respira-se um ar de pólvora, de implosão ou, pelo menos, de contestação da líder. Marine Le Pen não é afinal tão consensual como parecia desde o afastamento do pai, Jean-Marie. No domingo à noite, vozes no partido começaram a elevar-se e a criticar o seu exercício falhado no debate de quarta-feira frente a Macron, onde Marine perdeu a eleição, acusam. E aventam já o nome da sua sobrinha, Marion, por quem Marine nutre um ódio visceral, como em todas as boas famílias com egos sobredimensionados, para lhe suceder na liderança. Marine, que no domingo disse que a FN é já “o maior partido da oposição”, quer mudar o nome do partido, chegar a mais “patriotas” e provar que o resultado das presidenciais se pode refletir e até ampliar nas legislativas. Desse resultado pode depender o seu futuro na FN e a estratégia do partido para as presidenciais de 2022.
José Luís Correia, in Contacto, 10.05.2017
Muitos veem nele a evolução e a revolução de que o país precisa, outros temem o resvalar num ultraliberalismo desenfreado. Uma leitura rápida do seu programa eleitoral dá-nos um vislumbre das suas linhas políticas nos próximos cinco anos.
A nível europeu, Macron quer ser o “desfibrilhador” da UE e relançar o bater do coração da Europa, i.e., o eixo Paris-Berlim, como resposta ao infarto que foi o Brexit, defende ainda a criação de um parlamento para a zona euro e a constituição de um fundo europeu para a defesa.
A nível doméstico, Macron quer: baixar os impostos às empresas, cortar no subsídio de desemprego, deixar de tributar as horas extraordinárias, “flexibilizar” a contratação e dispensa de trabalhadores, abolir o imposto predial para 80% dos lares, investir 15 mil milhões de euros na transição ecológica para reduzir a “dependência” do nuclear, contratar dez mil polícias, atribuir 15 mil milhões de euros à formação, criar cinco mil postos de docentes, reduzindo o número de alunos nas turmas a dezena e meia, cortar 120 mil empregos na administração pública, “ajustar” o sistema de pensões da Função Pública ao do setor privado, e, simultaneamente, aumentar a idade da reforma.
Mas, para isto tudo, Macron precisa de um Governo de maioria do seu lado. Depois do resultado que obteve domingo deverá, sem surpresas, alcançar essa maioria confortável nas legislativas de junho. O seu movimento “En Marche” transformou-se em partido na segunda-feira com o nome de “La République En Marche!” e a ele deverão aderir membros dos partidos tradicionais da esquerda e da direita. Se não o fizerem mostrar-se-ão incoerentes com o que defenderam entre a primeira e a segunda volta.
A França de Macron está em marcha. A pergunta é: que tipo de marcha? Os sindicatos franceses dizem-se atentos e prontos a lutar contra qualquer recuo a nível social.
Entretanto, na Frente Nacional (FN) respira-se um ar de pólvora, de implosão ou, pelo menos, de contestação da líder. Marine Le Pen não é afinal tão consensual como parecia desde o afastamento do pai, Jean-Marie. No domingo à noite, vozes no partido começaram a elevar-se e a criticar o seu exercício falhado no debate de quarta-feira frente a Macron, onde Marine perdeu a eleição, acusam. E aventam já o nome da sua sobrinha, Marion, por quem Marine nutre um ódio visceral, como em todas as boas famílias com egos sobredimensionados, para lhe suceder na liderança. Marine, que no domingo disse que a FN é já “o maior partido da oposição”, quer mudar o nome do partido, chegar a mais “patriotas” e provar que o resultado das presidenciais se pode refletir e até ampliar nas legislativas. Desse resultado pode depender o seu futuro na FN e a estratégia do partido para as presidenciais de 2022.
José Luís Correia, in Contacto, 10.05.2017
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quinta-feira, 4 de maio de 2017
EDITORIAL: A forca ou a guilhotina?
Os franceses vão ter que escolher para chefe de Estado, no domingo, entre um ultraliberal, amigo da alta finança, e uma xenófoba fascista. O resultado pode e vai afetar-nos a todos, dentro e fora da UE.
É a história de um condenado à morte a quem o bom rei concede uma última graça: ele pode escolher como vai morrer, na forca ou na guilhotina. O homem encolhe os ombros e recusa escolher, porque o resultado será o mesmo.
O mesmo parecem responder muitos franceses quando confrontados com a pergunta se votarão Emmanuel Macron ou Marine Le Pen no próximo domingo. Mas será que abster-se é uma opção quando existe um perigo real e tangível de um regime fascista chegar ao poder de um dos países fundadores da União Europeia, um Estado que clama habitualmente tão alto ser “o país dos direitos do Homem”?
De um lado do ringue temos um ultraliberal, amigo e produto direto da alta finança e das grandes empresas, europeísta e federalista, o que até seria positivo nesta UE em desintegração acelerada, não fosse tudo o que mencionámos antes e, portanto, a Europa é para este um meio mais do que um fim para servir os interesses económicos.
Do outro lado temos uma nacionalista, xenófoba, neofascista, anti-imigração, anti-africanos, anti-árabes, anti-refugiados, anti-UE, enfim, “anti” quase tudo, exceto os seus próprios interesses. Sim, porque é preciso não esquecer que embora Marine queira mostrar-se como próxima do povo, esse não é o seu meio. Marine é “filha de”, como se diz em França quando se quer falar de alguém de uma família privilegiada. Marine nasceu e cresceu numa família que enriqueceu à custa dos militantes da Frente Nacional, partido cuja caixa registadora e património se confundem com os bens dos Le Pen, a tal ponto que ela e o pai já tiveram que prestar contas à justiça e ao fisco franceses por diversas vezes.
Não esqueçamos que Marine “herdou” o partido, como se este verbo e este substantivo pudessem estar juntos na mesma frase numa democracia! O pai e antigos colaboradores nazis do regime de Vichy criaram o partido em 1972 e sempre defenderam uma França isolada e fascista. Não é a operação de cosmética e charme dos últimos meses que mudam o fundo de comércio dos Le Pen.
Estará a França perante um suicídio programado? O resultado está nas mãos dos franceses. Este é o terceiro editorial seguido que dedico inteiramente às presidenciais francesas, sem contar as outras vezes em que abordei o assunto ao falar dos populismos, dos recuos identitários, das derivas económicas ultraliberais, do recuo dos valores europeus, dos novos equilíbrios de força que estão a emergir e a deixar a Europa e o mundo resvalar para um canto sombrio da civilização que já ninguém pensava ser possível. O que está em jogo é decisivo, não só para França e para os franceses, mas para todos nós, que ainda vivemos em democracia, ainda vivemos na UE, ainda gozamos de paz. Ainda. Mas por quanto tempo? Vivemos tempos conturbados, na verdade.
José Luís Correia, in Contacto, 03.05.2017
É a história de um condenado à morte a quem o bom rei concede uma última graça: ele pode escolher como vai morrer, na forca ou na guilhotina. O homem encolhe os ombros e recusa escolher, porque o resultado será o mesmo.
O mesmo parecem responder muitos franceses quando confrontados com a pergunta se votarão Emmanuel Macron ou Marine Le Pen no próximo domingo. Mas será que abster-se é uma opção quando existe um perigo real e tangível de um regime fascista chegar ao poder de um dos países fundadores da União Europeia, um Estado que clama habitualmente tão alto ser “o país dos direitos do Homem”?
De um lado do ringue temos um ultraliberal, amigo e produto direto da alta finança e das grandes empresas, europeísta e federalista, o que até seria positivo nesta UE em desintegração acelerada, não fosse tudo o que mencionámos antes e, portanto, a Europa é para este um meio mais do que um fim para servir os interesses económicos.
Do outro lado temos uma nacionalista, xenófoba, neofascista, anti-imigração, anti-africanos, anti-árabes, anti-refugiados, anti-UE, enfim, “anti” quase tudo, exceto os seus próprios interesses. Sim, porque é preciso não esquecer que embora Marine queira mostrar-se como próxima do povo, esse não é o seu meio. Marine é “filha de”, como se diz em França quando se quer falar de alguém de uma família privilegiada. Marine nasceu e cresceu numa família que enriqueceu à custa dos militantes da Frente Nacional, partido cuja caixa registadora e património se confundem com os bens dos Le Pen, a tal ponto que ela e o pai já tiveram que prestar contas à justiça e ao fisco franceses por diversas vezes.
Não esqueçamos que Marine “herdou” o partido, como se este verbo e este substantivo pudessem estar juntos na mesma frase numa democracia! O pai e antigos colaboradores nazis do regime de Vichy criaram o partido em 1972 e sempre defenderam uma França isolada e fascista. Não é a operação de cosmética e charme dos últimos meses que mudam o fundo de comércio dos Le Pen.
Estará a França perante um suicídio programado? O resultado está nas mãos dos franceses. Este é o terceiro editorial seguido que dedico inteiramente às presidenciais francesas, sem contar as outras vezes em que abordei o assunto ao falar dos populismos, dos recuos identitários, das derivas económicas ultraliberais, do recuo dos valores europeus, dos novos equilíbrios de força que estão a emergir e a deixar a Europa e o mundo resvalar para um canto sombrio da civilização que já ninguém pensava ser possível. O que está em jogo é decisivo, não só para França e para os franceses, mas para todos nós, que ainda vivemos em democracia, ainda vivemos na UE, ainda gozamos de paz. Ainda. Mas por quanto tempo? Vivemos tempos conturbados, na verdade.
José Luís Correia, in Contacto, 03.05.2017
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quarta-feira, 26 de abril de 2017
Presidenciais francesas: Lobos vestidos de cordeiros
Os franceses “apuraram” para a segunda volta das presidenciais um ultraliberal amigo da alta finança e uma nacionalista demagoga da extrema-direita. E agora, o que será de França?
Como escrevi aqui na semana passada, a França desbipolarizou-se, e a deserção dos eleitores dos dois grandes partidos tradicionais da esquerda e da direita, que se alternavam no poder há mais de 50 anos, ficou mais patente do que nunca. Para a segunda volta “apuraram” dois candidatos antissistema ou que, pelo menos, assim gostam de apresentar-se.
Marine Le Pen pegou no partido do pai em 2011 e em meia dúzia de anos, literalmente, fez o que o ’pater familias’ não conseguiu em 40 anos: transformou a Frente Nacional em partido que quase passa por respeitável. Ou imita bem. Com um discurso calmo e sem nunca irromper pelos histerismos de ódio racial e negacionista de Jean-Marie, a filha sintonizou as preocupações da FN com a dos franceses do “país real”, os que sofrem de desemprego, os que perderam poder económico nos últimos anos devido à crise financeira, às deslocalizações e à pauperização da província.
As linhas de base da FN não mudaram, note-se bem, continua a ser um partido anti-europeu, anti-estrangeiros, anti-islâmico, racista e nacionalista. Mas numa época em que cada vez mais cidadãos se sentem abandonados pelo Estado e pela UE, no centro da qual deveriam ser a preocupação principal, a FN soube passar o seu arado demagógico e cavar trincheiras cada vez mais profundas entre os que se sentem esquecidos e os que estes consideram as elites. Os resultados de domingo mostram-no claramente: Macron ganhou nas cidades, Le Pen na província.
O mesmo fenómeno, o sentimento de abandono do Estado por parte do cidadão anónimo, em detrimento das elites, levou à eleição de um improvável Donald Trump nos EUA.
Emmanuel Macron não é um candidato antissistema, é talvez o melhor candidato do sistema porque passa por... não sê-lo. Tornou-se inspetor das Finanças em 2004, em 2006 é apresentado a François Hollande, dois anos depois troca a Função Pública por um cargo de banqueiro de negócios da família Rotschild.
Em apenas três datas, que fazem parte da sua biografia oficial, percebemos que a subida fulgurante em meia dúzia de anos de um mero inspetor das Finanças a conselheiro de uma das maiores fortunas do mundo não é anódina.
A inteligência de Macron foi perceber e reagir ao fenómeno do descrédito e da erosão dos partidos tradicionais que outros políticos sentiam mas recusavam ver. Afastando-se a tempo de François Hollande, criou o seu próprio movimento político. Com que dinheiro?, eis a questão.
Apresentando-se apartidário e centrista, as políticas que conduziu e propôs no Governo Hollande não deixam margens para dúvidas: Macron é um ultraliberal, anti-Estado social, amigo da alta finança, a quem deve provavelmente a sua ascensão, e diz-se europeu convicto (mas convicto de quê?). Tanto
Le Pen como Macron fazem pensar em lobos (trans)vestidos de cordeiros. Mas agora é tarde, já entraram no estábulo.
José Luís Correia
in Contacto, 26 de abril de 2017
Como escrevi aqui na semana passada, a França desbipolarizou-se, e a deserção dos eleitores dos dois grandes partidos tradicionais da esquerda e da direita, que se alternavam no poder há mais de 50 anos, ficou mais patente do que nunca. Para a segunda volta “apuraram” dois candidatos antissistema ou que, pelo menos, assim gostam de apresentar-se.
Marine Le Pen pegou no partido do pai em 2011 e em meia dúzia de anos, literalmente, fez o que o ’pater familias’ não conseguiu em 40 anos: transformou a Frente Nacional em partido que quase passa por respeitável. Ou imita bem. Com um discurso calmo e sem nunca irromper pelos histerismos de ódio racial e negacionista de Jean-Marie, a filha sintonizou as preocupações da FN com a dos franceses do “país real”, os que sofrem de desemprego, os que perderam poder económico nos últimos anos devido à crise financeira, às deslocalizações e à pauperização da província.
As linhas de base da FN não mudaram, note-se bem, continua a ser um partido anti-europeu, anti-estrangeiros, anti-islâmico, racista e nacionalista. Mas numa época em que cada vez mais cidadãos se sentem abandonados pelo Estado e pela UE, no centro da qual deveriam ser a preocupação principal, a FN soube passar o seu arado demagógico e cavar trincheiras cada vez mais profundas entre os que se sentem esquecidos e os que estes consideram as elites. Os resultados de domingo mostram-no claramente: Macron ganhou nas cidades, Le Pen na província.
O mesmo fenómeno, o sentimento de abandono do Estado por parte do cidadão anónimo, em detrimento das elites, levou à eleição de um improvável Donald Trump nos EUA.
Emmanuel Macron não é um candidato antissistema, é talvez o melhor candidato do sistema porque passa por... não sê-lo. Tornou-se inspetor das Finanças em 2004, em 2006 é apresentado a François Hollande, dois anos depois troca a Função Pública por um cargo de banqueiro de negócios da família Rotschild.
Em apenas três datas, que fazem parte da sua biografia oficial, percebemos que a subida fulgurante em meia dúzia de anos de um mero inspetor das Finanças a conselheiro de uma das maiores fortunas do mundo não é anódina.
A inteligência de Macron foi perceber e reagir ao fenómeno do descrédito e da erosão dos partidos tradicionais que outros políticos sentiam mas recusavam ver. Afastando-se a tempo de François Hollande, criou o seu próprio movimento político. Com que dinheiro?, eis a questão.
Apresentando-se apartidário e centrista, as políticas que conduziu e propôs no Governo Hollande não deixam margens para dúvidas: Macron é um ultraliberal, anti-Estado social, amigo da alta finança, a quem deve provavelmente a sua ascensão, e diz-se europeu convicto (mas convicto de quê?). Tanto
Le Pen como Macron fazem pensar em lobos (trans)vestidos de cordeiros. Mas agora é tarde, já entraram no estábulo.
José Luís Correia
in Contacto, 26 de abril de 2017
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quinta-feira, 20 de abril de 2017
Presidenciais francesas: Venha o diabo e escolha
Nunca se viveu uma campanha eleitoral como esta para a eleição do Presidente da República francês. França parece estar a desbipolarizar-se para se dividir em quatro. Os papéis invertem-se, os protagonistas habituais passam para os papéis secundários e vice-versa, e tudo a que estávamos habituados na política francesa parece estar de pernas para o ar.
Um candidato é indiciado por crime de desvio de fundos públicos – François Fillon –, mas grita que é alvo de uma cabala política engendrada pelos “gabinetes escuros” do Eliseu. Teoria da conspiração? Fillon disse que se fosse indiciado pela justiça, abandonaria a campanha, foi indiciado e não desistiu. Surreal!
Um outro candidato, Marine Le Pen, é também ela alvo de suspeitas de desvio de fundos, mas europeus. Mas esta, ao contrário do que é seu hábito, não se finge de vítima. São os papéis novamente a inverterem-se.
Mas esta campanha é também inédita porque os dois principais partidos do espectro político gaulês – Les Républicains (UDR nos anos 1970, RPR até 2002 sob Chirac, e depois UMP, sob Chirac e Sarkozy) e os Socialistas – são os que têm tido mais dificuldade em convencer os eleitores, como sempre tinha acontecido em todas as eleições legislativas ou presidenciais até hoje.
Fillon, que era suposto ter a missão “fácil” de unir toda a direita e marcar o regresso desta ao poder após a impopular era de Hollande, sofreu uma derrocada e um descrédito tais que nem depois da eleição terá fim à vista. A justiça encarregar-se-á de ditar o ponto final nessa história.
O PS, que deveria renovar-se com um digno sucessor de Hollande, desentendeu-se internamente e dois ex-ministros do executivo cessante concorrem um contra o outro, com Emmanuel Macron a adiantar-se muito a Benoît Hamon.
Num PS dividido, os eleitores mais à direita alinharam com Macron ou mesmo Fillon. Os mais à esquerda apoiam Jean-Luc Mélenchon, um antigo socialista que em 2008 fundou uma espécie de Bloco de Esquerda francês, e que parece estar também a canalizar os eleitores que ainda hesitavam.
Sobra Marine Le Pen na extrema-direita, que com um discurso aparentemente pausado, menos histérico e radical que o seu pai, tem conseguido também ganhar eleitores aos partidos tradicionais.
Com esta deserção dos partidos tradicionais, França parece estar a desbipolarizar-se para se dividir em quatro. Nunca até hoje e a tão poucos dias do sufrágio presidencial, havia tanta hesitação nas intenções de voto, o que possibilita que qualquer um dos quatro candidatos mais à frente nas sondagens possa passar à segunda volta.
O que na segunda volta pode significar que se passarem Mélenchon e Le Pen, o Hexágono vai fazer uma espargata política inacreditável. O que fez François Hollande, pela primeira vez, sair da sua reserva e falar de um dos candidatos, apelando para que os franceses não votem na esquerda radical e anti-europeia de Mélenchon. Inacreditável!
A extrema-esquerda mete mais medo do que a extrema-direita? Já nos anos 1930 os políticos franceses diziam que Hitler era preferível à Frente Popular de esquerda. A História e a sua tendência para se repetir ou seremos simplesmente burros?
José Luís Correia
in Contacto, 19/04/2017
Um candidato é indiciado por crime de desvio de fundos públicos – François Fillon –, mas grita que é alvo de uma cabala política engendrada pelos “gabinetes escuros” do Eliseu. Teoria da conspiração? Fillon disse que se fosse indiciado pela justiça, abandonaria a campanha, foi indiciado e não desistiu. Surreal!
Um outro candidato, Marine Le Pen, é também ela alvo de suspeitas de desvio de fundos, mas europeus. Mas esta, ao contrário do que é seu hábito, não se finge de vítima. São os papéis novamente a inverterem-se.
Mas esta campanha é também inédita porque os dois principais partidos do espectro político gaulês – Les Républicains (UDR nos anos 1970, RPR até 2002 sob Chirac, e depois UMP, sob Chirac e Sarkozy) e os Socialistas – são os que têm tido mais dificuldade em convencer os eleitores, como sempre tinha acontecido em todas as eleições legislativas ou presidenciais até hoje.
Fillon, que era suposto ter a missão “fácil” de unir toda a direita e marcar o regresso desta ao poder após a impopular era de Hollande, sofreu uma derrocada e um descrédito tais que nem depois da eleição terá fim à vista. A justiça encarregar-se-á de ditar o ponto final nessa história.
O PS, que deveria renovar-se com um digno sucessor de Hollande, desentendeu-se internamente e dois ex-ministros do executivo cessante concorrem um contra o outro, com Emmanuel Macron a adiantar-se muito a Benoît Hamon.
Num PS dividido, os eleitores mais à direita alinharam com Macron ou mesmo Fillon. Os mais à esquerda apoiam Jean-Luc Mélenchon, um antigo socialista que em 2008 fundou uma espécie de Bloco de Esquerda francês, e que parece estar também a canalizar os eleitores que ainda hesitavam.
Sobra Marine Le Pen na extrema-direita, que com um discurso aparentemente pausado, menos histérico e radical que o seu pai, tem conseguido também ganhar eleitores aos partidos tradicionais.
Com esta deserção dos partidos tradicionais, França parece estar a desbipolarizar-se para se dividir em quatro. Nunca até hoje e a tão poucos dias do sufrágio presidencial, havia tanta hesitação nas intenções de voto, o que possibilita que qualquer um dos quatro candidatos mais à frente nas sondagens possa passar à segunda volta.
O que na segunda volta pode significar que se passarem Mélenchon e Le Pen, o Hexágono vai fazer uma espargata política inacreditável. O que fez François Hollande, pela primeira vez, sair da sua reserva e falar de um dos candidatos, apelando para que os franceses não votem na esquerda radical e anti-europeia de Mélenchon. Inacreditável!
A extrema-esquerda mete mais medo do que a extrema-direita? Já nos anos 1930 os políticos franceses diziam que Hitler era preferível à Frente Popular de esquerda. A História e a sua tendência para se repetir ou seremos simplesmente burros?
José Luís Correia
in Contacto, 19/04/2017
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quinta-feira, 13 de abril de 2017
Os senhores da guerra
Os EUA atacaram posições do regime de Bashar al-Assad na Síria, a primeira vez desde o início da guerra civil naquele país em 2011. Para muitos, isto indica o surgimento de um novo conflito que pode depressa degenerar e envolver as principais potências mundias.
Ventos de guerra. Na Síria. No Mar do Japão. Trump gira o globo nos dedos, como num velho filme de Chaplin, e pensa na melhor forma de desviar a atenção da sua política doméstica ineficaz. Precisa de vitórias. Rápidas. Repara como George W. Bush, de simples filho de presidente, amador de bretzels e de hambúrgueres, se transformou em chefe de guerra de um dia para o outro, numa manhã de setembro, graças a duas torres caídas providencialmente...
Donald afasta a franja laranja e posiciona os seus navios e soldadinhos no mapa geoestratégico global. - Ping-pong-gang, um navio para ali!
- Pyongyang!
- E Home, onde fica?
- Homs, Presidente! No norte da Síria.
- Hã? Há petróleo, passa ali um gaseoduto, há reservas de água doce?
Novos ventos de guerra sopram dos quadrantes da cupidez, há ânsia de domínio e de supremacia. As superpotências sonham em inverter o crepúsculo irreversível da sua hegemonia decadente, as potências emergentes planeiam conquistas. E o oligarca de Moscovo ri, uma nova guerra para vender arsenal militar e alargar o feudo. Paris, Londres, Berlim lamentam, condenam. Mas nas salas escuras dos governos dessas metrópoles irrepreensíveis, sempre prontas para dar lições de moral e mostrar a exemplaridade europeia, os senhores da guerra esfregam as mãos ávidas dos negócios chorudos que aí vêm. Não há como uma boa guerra para relançar a economia.
Para nós, essa guerra parece novidade? Sim, é dali que provêm os refugiados sírios que aqui chegam, fogem da guerra e de uma regime sanguinário. Preferem morrer no caminho tentando sobreviver com a família, ter o Mediterrâneo como cemitério, do que ficarem simplesmente à espera de serem gaseados ou bombardeados pelo seu próprio regime. Os sírios (sobre)vivem assim há seis anos! Na senda da primavera árabe, tentaram derrubar a ditadura de Bashar al-Assad em 2011. Reclamavam a mudança, a esperança prometida pelo mesmo Bashar na “primavera de Damasco”, dez anos antes, quando este chegou ao poder parecendo querer encarnar a modernização e o caminho da democracia no pais. Mas foi sol de pouca dura. Bashar mostrou bem ser o filho do general Hafez el-Assad, que tinha governado com autoritarismo o país durante três décadas. E se herdou o “trono” paterno, hoje, 16 anos depois, está mais do que nunca decidido a guardá-lo. Com o apoio de Moscovo.
A Coreia do Norte é outro teatro de uma guerra do porvir. Outro filho e neto de ditadores obstina-se em manter o povo na miséria e no obscurantismo para perpetuar a dinastia Kim, que se segura ao poder desde 1948! Os senhores da guerra, salvadores do mundo livre, já sabem onde agir a seguir.
José Luís Correia
in Contacto, 12.04.2017
Ventos de guerra. Na Síria. No Mar do Japão. Trump gira o globo nos dedos, como num velho filme de Chaplin, e pensa na melhor forma de desviar a atenção da sua política doméstica ineficaz. Precisa de vitórias. Rápidas. Repara como George W. Bush, de simples filho de presidente, amador de bretzels e de hambúrgueres, se transformou em chefe de guerra de um dia para o outro, numa manhã de setembro, graças a duas torres caídas providencialmente...
Donald afasta a franja laranja e posiciona os seus navios e soldadinhos no mapa geoestratégico global. - Ping-pong-gang, um navio para ali!
- Pyongyang!
- E Home, onde fica?
- Homs, Presidente! No norte da Síria.
- Hã? Há petróleo, passa ali um gaseoduto, há reservas de água doce?
Novos ventos de guerra sopram dos quadrantes da cupidez, há ânsia de domínio e de supremacia. As superpotências sonham em inverter o crepúsculo irreversível da sua hegemonia decadente, as potências emergentes planeiam conquistas. E o oligarca de Moscovo ri, uma nova guerra para vender arsenal militar e alargar o feudo. Paris, Londres, Berlim lamentam, condenam. Mas nas salas escuras dos governos dessas metrópoles irrepreensíveis, sempre prontas para dar lições de moral e mostrar a exemplaridade europeia, os senhores da guerra esfregam as mãos ávidas dos negócios chorudos que aí vêm. Não há como uma boa guerra para relançar a economia.
Para nós, essa guerra parece novidade? Sim, é dali que provêm os refugiados sírios que aqui chegam, fogem da guerra e de uma regime sanguinário. Preferem morrer no caminho tentando sobreviver com a família, ter o Mediterrâneo como cemitério, do que ficarem simplesmente à espera de serem gaseados ou bombardeados pelo seu próprio regime. Os sírios (sobre)vivem assim há seis anos! Na senda da primavera árabe, tentaram derrubar a ditadura de Bashar al-Assad em 2011. Reclamavam a mudança, a esperança prometida pelo mesmo Bashar na “primavera de Damasco”, dez anos antes, quando este chegou ao poder parecendo querer encarnar a modernização e o caminho da democracia no pais. Mas foi sol de pouca dura. Bashar mostrou bem ser o filho do general Hafez el-Assad, que tinha governado com autoritarismo o país durante três décadas. E se herdou o “trono” paterno, hoje, 16 anos depois, está mais do que nunca decidido a guardá-lo. Com o apoio de Moscovo.
A Coreia do Norte é outro teatro de uma guerra do porvir. Outro filho e neto de ditadores obstina-se em manter o povo na miséria e no obscurantismo para perpetuar a dinastia Kim, que se segura ao poder desde 1948! Os senhores da guerra, salvadores do mundo livre, já sabem onde agir a seguir.
José Luís Correia
in Contacto, 12.04.2017
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quarta-feira, 15 de março de 2017
Editorial no Jornal Contacto: O eixo Roterdão-Ancara
Esta é a nova era dos populismos e até o improvável se torna possível.
Sempre defendi a adesão da Turquia à União Europeia, porque sou por uma união federalista, sem fronteiras e intercontinental, uma união que devia ir – e um dia irá, porque é inevitável – muito além da Europa. Mas não sou a favor da adesão de uma Turquia em que o Estado não está separado claramente das autoridades religiosas, e em que as liberdades fundamentais e a democracia são apenas palavras nos cartazes das campanhas eleitorais, cuja cor se esbate menos depressa do que as promessas dos candidatos pseudodemocratas.
Por um lado, parece que a sociedade turca se ocidentalizou muito nas últimas décadas, e reivindica cada vez mais um lugar legítimo na União Europeia. Por outro, as derivas do regime ditatorial de Recep Erdogan são incompatíveis com os valores em que assenta a Europa.
A Europa precisa da Turquia e vice-versa, e cada lado parece fazer compromissos, como no acordo firmado para atenuar a crise dos refugiados e dos migrantes. Mas é cada vez mais difícil aturar o autoritarismo e o nacionalismo de Erdogan, que não permite qualquer contestação política. A mão de ferro com que o golpe de Estado fracassado de julho último foi jugulado não deixa margens para dúvidas. Basta esperar que num país em que nos últimos 40 anos já houve três golpes de Estado e uma tentativa, o movimento anti-Erdogan volte ao contra-ataque. Em prol de uma Turquia laica, europeísta, progressista, como Atatürk a sonhou.
Erdogan não tem nada de Atatürk, mesmo se se vê como o novo paladino da nação. Com ele, tudo é jogo político. E até se dá ao luxo de brincar com a Europa. No sábado, enviou dois ministros a Roterdão para participar num comício pró-Governo de Ancara, em plena campanha para as legislativas holandesas, impregnadas pelo discurso anti-muçulmano de Geert Wilders. Erdogan sabia perfeitamente que a presença dos governantes iria gerar polémica (ou pior). Foi provocação ou reaproveitamento político? Erdogan tão bem usa o populismo interno a seu favor como o populismo externo contra si, para justificar o poder autoritário que exerce.
A Holanda proibiu a entrada dos ministros turcos para não acender o rastilho com que a extrema-direita anda a brincar. Mas a Europa não reagiu.
A Holanda, que vai hoje a votos e onde a extrema-direita de Wilders nunca esteve tão bem nas sondagens. Mas ganhar as eleições parece impossível e fazer parte do próximo Governo ainda mais. Pelo menos, matematicamente. Mesmo se Wilders subiu nas sondagens, num parlamento com 150 assentos, pode vir a conquistar no máximo um quinto, já estimando as últimas sondagens em alta. Mesmo assim será insuficiente para governar sozinho. Os outros partidos que lideram as sondagens podem até obter menos votos que Wilders, mas nenhum deles quer uma aliança com o diabo.
Vai a Holanda, conhecida por ser tolerante, aberta, precursora e defensora das liberdades individuais, intrinsecamente anti-Trump, deixar-se polarizar pela questão da crise dos refugiados e pelo discurso anti-Islão de Wilders, e virar-se para a extrema-direita pró-Trump? Seria contranatura. Mas esta é a nova era dos populismos, em que já percebemos que tudo é possível. Mesmo o improvável e o impensável.
José Luís Correia
in Contacto, 15.03.2017
Sempre defendi a adesão da Turquia à União Europeia, porque sou por uma união federalista, sem fronteiras e intercontinental, uma união que devia ir – e um dia irá, porque é inevitável – muito além da Europa. Mas não sou a favor da adesão de uma Turquia em que o Estado não está separado claramente das autoridades religiosas, e em que as liberdades fundamentais e a democracia são apenas palavras nos cartazes das campanhas eleitorais, cuja cor se esbate menos depressa do que as promessas dos candidatos pseudodemocratas.
Por um lado, parece que a sociedade turca se ocidentalizou muito nas últimas décadas, e reivindica cada vez mais um lugar legítimo na União Europeia. Por outro, as derivas do regime ditatorial de Recep Erdogan são incompatíveis com os valores em que assenta a Europa.
A Europa precisa da Turquia e vice-versa, e cada lado parece fazer compromissos, como no acordo firmado para atenuar a crise dos refugiados e dos migrantes. Mas é cada vez mais difícil aturar o autoritarismo e o nacionalismo de Erdogan, que não permite qualquer contestação política. A mão de ferro com que o golpe de Estado fracassado de julho último foi jugulado não deixa margens para dúvidas. Basta esperar que num país em que nos últimos 40 anos já houve três golpes de Estado e uma tentativa, o movimento anti-Erdogan volte ao contra-ataque. Em prol de uma Turquia laica, europeísta, progressista, como Atatürk a sonhou.
Erdogan não tem nada de Atatürk, mesmo se se vê como o novo paladino da nação. Com ele, tudo é jogo político. E até se dá ao luxo de brincar com a Europa. No sábado, enviou dois ministros a Roterdão para participar num comício pró-Governo de Ancara, em plena campanha para as legislativas holandesas, impregnadas pelo discurso anti-muçulmano de Geert Wilders. Erdogan sabia perfeitamente que a presença dos governantes iria gerar polémica (ou pior). Foi provocação ou reaproveitamento político? Erdogan tão bem usa o populismo interno a seu favor como o populismo externo contra si, para justificar o poder autoritário que exerce.
A Holanda proibiu a entrada dos ministros turcos para não acender o rastilho com que a extrema-direita anda a brincar. Mas a Europa não reagiu.
A Holanda, que vai hoje a votos e onde a extrema-direita de Wilders nunca esteve tão bem nas sondagens. Mas ganhar as eleições parece impossível e fazer parte do próximo Governo ainda mais. Pelo menos, matematicamente. Mesmo se Wilders subiu nas sondagens, num parlamento com 150 assentos, pode vir a conquistar no máximo um quinto, já estimando as últimas sondagens em alta. Mesmo assim será insuficiente para governar sozinho. Os outros partidos que lideram as sondagens podem até obter menos votos que Wilders, mas nenhum deles quer uma aliança com o diabo.
Vai a Holanda, conhecida por ser tolerante, aberta, precursora e defensora das liberdades individuais, intrinsecamente anti-Trump, deixar-se polarizar pela questão da crise dos refugiados e pelo discurso anti-Islão de Wilders, e virar-se para a extrema-direita pró-Trump? Seria contranatura. Mas esta é a nova era dos populismos, em que já percebemos que tudo é possível. Mesmo o improvável e o impensável.
José Luís Correia
in Contacto, 15.03.2017
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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017
Editorial no Contacto: "Donald, o 'trumpalhão'"
Em política costuma fazer-se o balanço dos 100 dias de um governo no poder para avaliar o estado de graça do mesmo. No caso da Adminisração Trump, no cargo há um mês, só se pode falar em “estado de desgraça”.
Há um mês que os EUA são (des)governados por um milionário excêntrico e trapalhão, e o seu séquito de bobos balofos, que vão acumulando gafe atrás de gafe.
Podíamos rir de tudo isto se se tratasse de uma comédia grosseira de Hollywood. A realidade por vezes ultrapassa mesmo a ficção mais absurda e o mundo assiste incrédulo e perplexo ao teatrinho grotesco das figurinhas da Administração de Donald Trump, sem estatura intelectual nem política para liderar a potência mundial que os EUA ainda são, mas em rápido descalabro e descrédito.
Com este 45° presidente, o país atingiu um cúmulo trágicómico para o qual já não há superlativos. Trágico porque as decisões e declarações de Trump e da sua equipa podem ter consequências graves e globais. Algumas já tiveram. Cómico porque os deslizes de Donald – desde erros ortográficos crassos nas mensagens que publica no Twitter até às falsas notícias que roçam o incidente diplomático – fazem-nos rir de quão ridículas são, mas também nos fazem sentir uma estranha vergonha alheia pela outrora prestigiosa Casa Branca, que parece agora entregue a um bando de labregos.
A última asneira de Trump foi quando evocou um suposto atentado terrorista que teria ocorrido sexta-feira na Suécia. A declaração foi feita durante um discurso, no sábado, na Flórida, perante milhares dos seus seguidores mais fiéis, a quem explicava a sua firme vontade de levar avante o seu decreto anti-imigração muçulmana.
Os 9,5 milhões de suecos tiveram que rebobinar para confirmar que tinham ouvido bem. De que atentado estaria Donald a falar? A ministra dos Negócios Estrangeiros sueca pediu explicações a Washington e o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros da Suécia não hesitou em tuitar: “Suécia? Ataque terrorista? O que é que ele tem andado a fumar?”, referindo-se a Trump. Os internautas suecos deram largas à sua imaginação para troçar de Donald. Um vídeo mostra um polícia sueco a interrogar um urso branco, principal suspeito do susposto atentado.
Trump explicou mais tarde, também via Twitter, que tinha visto uma reportagem na Fox News sobre o aumento da criminalidade na Suécia e que era a isso que teria feito referência.
Esta não é a primeira vez que Trump ou a sua equipa deturpam a verdade para a adaptar à sua realidade. Até encontraram uma nova fórmula para isso: “factos alternativos”. Infelizmente, quantos seguidores de Trump ouviram a declaração sobre a Suécia e quantos leram o pseudo-desmentido no Twitter? Da totalidade de eleitores que votaram em Trump em novembro, ainda há mais de 80% convictos que ele está a ser um bom Presidente e a levar a cabo tudo o que prometeu, segundo uma recente sondagem.
O mundo atura-o e arma-se de paciência. Ainda só passou um mês. Faltam 47.
José Luís Correia, in Contacto, 22/02/2017
Há um mês que os EUA são (des)governados por um milionário excêntrico e trapalhão, e o seu séquito de bobos balofos, que vão acumulando gafe atrás de gafe.
Podíamos rir de tudo isto se se tratasse de uma comédia grosseira de Hollywood. A realidade por vezes ultrapassa mesmo a ficção mais absurda e o mundo assiste incrédulo e perplexo ao teatrinho grotesco das figurinhas da Administração de Donald Trump, sem estatura intelectual nem política para liderar a potência mundial que os EUA ainda são, mas em rápido descalabro e descrédito.
Com este 45° presidente, o país atingiu um cúmulo trágicómico para o qual já não há superlativos. Trágico porque as decisões e declarações de Trump e da sua equipa podem ter consequências graves e globais. Algumas já tiveram. Cómico porque os deslizes de Donald – desde erros ortográficos crassos nas mensagens que publica no Twitter até às falsas notícias que roçam o incidente diplomático – fazem-nos rir de quão ridículas são, mas também nos fazem sentir uma estranha vergonha alheia pela outrora prestigiosa Casa Branca, que parece agora entregue a um bando de labregos.
A última asneira de Trump foi quando evocou um suposto atentado terrorista que teria ocorrido sexta-feira na Suécia. A declaração foi feita durante um discurso, no sábado, na Flórida, perante milhares dos seus seguidores mais fiéis, a quem explicava a sua firme vontade de levar avante o seu decreto anti-imigração muçulmana.
Os 9,5 milhões de suecos tiveram que rebobinar para confirmar que tinham ouvido bem. De que atentado estaria Donald a falar? A ministra dos Negócios Estrangeiros sueca pediu explicações a Washington e o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros da Suécia não hesitou em tuitar: “Suécia? Ataque terrorista? O que é que ele tem andado a fumar?”, referindo-se a Trump. Os internautas suecos deram largas à sua imaginação para troçar de Donald. Um vídeo mostra um polícia sueco a interrogar um urso branco, principal suspeito do susposto atentado.
Trump explicou mais tarde, também via Twitter, que tinha visto uma reportagem na Fox News sobre o aumento da criminalidade na Suécia e que era a isso que teria feito referência.
Esta não é a primeira vez que Trump ou a sua equipa deturpam a verdade para a adaptar à sua realidade. Até encontraram uma nova fórmula para isso: “factos alternativos”. Infelizmente, quantos seguidores de Trump ouviram a declaração sobre a Suécia e quantos leram o pseudo-desmentido no Twitter? Da totalidade de eleitores que votaram em Trump em novembro, ainda há mais de 80% convictos que ele está a ser um bom Presidente e a levar a cabo tudo o que prometeu, segundo uma recente sondagem.
O mundo atura-o e arma-se de paciência. Ainda só passou um mês. Faltam 47.
José Luís Correia, in Contacto, 22/02/2017
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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017
Editorial no Contacto: "Olhó Robô"
Esta semana, por iniciativa da eurodeputada luxemburguesa Mady Delvaux-Stehres, vai ser discutido em Bruxelas que tipo de legislação criar a nível europeu para regulamentar os robôs e a inteligência artificial.
Quando o luxemburguês Hugo Gernsback, considerado o pai da ficção científica, escreveu em 1911 o romance de antecipação “Ralph 124C 41+”, sobre um andróide no ano de 2660, nunca imaginaria que viria do seu país uma proposta pioneira para legislar sobre os robôs.
O engenheiro luxemburguês “fugira” precisamente da sua Bonnevoie natal sete anos antes por o seu país se recusar a investir numa lâmpada elétrica que ele inventara. Cem anos depois, o Luxemburgo quer-se um país voltado para o futuro, diferente do que era no virar do século XX e até há bem poucos anos. O país investiu muito na investigação e na biotecnologia, lançou-se na exploração de asteróides e vai criar uma agência espacial.
E esta semana, por iniciativa da eurodeputada luxemburguesa Mady Delvaux-Stehres, vai ser discutido em Bruxelas que tipo de legislação criar a nível europeu para regulamentar os robôs. Até que ponto queremos que os robôs facilitem a nossa vida e que regras são necessárias para que vivam e trabalhem no meio de nós? É a este tipo de questões que Bruxelas vai tentar responder. O documento prevê, por exemplo, que os proprietários de robôs sejam taxados para contribuirem para a Segurança Social, e questiona-se sobre a responsabilidade e a personalidade jurídica que deve ou não ter uma máquina.
Não são perguntas de retórica nem a pensar num futuro longíquo, é matéria que nos interpela já hoje, com robôs – uns com rosto humano, outros nem tanto – a não trabalharem apenas na indústria, mas cada vez mais em hospitais e em setores sensíveis, e brevemente no seio do nosso lar, a “pretexto” de ajudarem nas tarefas domésticas, pessoas deficientes ou idosas.
A emergência do carro autónomo, que deverá ser comercializado em grande escala até 2025, apressou os engenheiros de robótica a trabalharem com psicólogos, sociólogos e filósofos sobre os limites das decisões de uma máquina na interação com um ser humano.
Todos estes decisores, desde os engenheiros aos eurodeputados, parecem esquecer que a literatura já refletiu em muitos destes problemas éticos. Considerada um subgénero, a ficção científica foi quase sempre ignorada pela elite. A grande referência do género, o escritor Isaac Asimov, imaginou as leis robóticas num dos seus livros, em 1942, que respondem a algumas destas questões. Por exemplo, uma das leis de Asimov diz que um robô deve ser programado de forma a nunca ferir um humano, nem deixar que este se magoe; a segunda diretiva estipula que uma máquina deve sempre obedecer a um humano, excepto se as ordens entram em conflito com a primeira lei.
Confrontados com um futuro que chegou mais depressa do que imaginávamos, seria útil e instrutivo (e até lúdico) ir hoje beber inspiração onde ela nunca faltou. Um luxemburguês há cem anos e uma luxemburguesa hoje mostram o caminho.
José Luís Correia, in Contacto, 15/02/2017
Quando o luxemburguês Hugo Gernsback, considerado o pai da ficção científica, escreveu em 1911 o romance de antecipação “Ralph 124C 41+”, sobre um andróide no ano de 2660, nunca imaginaria que viria do seu país uma proposta pioneira para legislar sobre os robôs.
O engenheiro luxemburguês “fugira” precisamente da sua Bonnevoie natal sete anos antes por o seu país se recusar a investir numa lâmpada elétrica que ele inventara. Cem anos depois, o Luxemburgo quer-se um país voltado para o futuro, diferente do que era no virar do século XX e até há bem poucos anos. O país investiu muito na investigação e na biotecnologia, lançou-se na exploração de asteróides e vai criar uma agência espacial.
E esta semana, por iniciativa da eurodeputada luxemburguesa Mady Delvaux-Stehres, vai ser discutido em Bruxelas que tipo de legislação criar a nível europeu para regulamentar os robôs. Até que ponto queremos que os robôs facilitem a nossa vida e que regras são necessárias para que vivam e trabalhem no meio de nós? É a este tipo de questões que Bruxelas vai tentar responder. O documento prevê, por exemplo, que os proprietários de robôs sejam taxados para contribuirem para a Segurança Social, e questiona-se sobre a responsabilidade e a personalidade jurídica que deve ou não ter uma máquina.
Não são perguntas de retórica nem a pensar num futuro longíquo, é matéria que nos interpela já hoje, com robôs – uns com rosto humano, outros nem tanto – a não trabalharem apenas na indústria, mas cada vez mais em hospitais e em setores sensíveis, e brevemente no seio do nosso lar, a “pretexto” de ajudarem nas tarefas domésticas, pessoas deficientes ou idosas.
A emergência do carro autónomo, que deverá ser comercializado em grande escala até 2025, apressou os engenheiros de robótica a trabalharem com psicólogos, sociólogos e filósofos sobre os limites das decisões de uma máquina na interação com um ser humano.
Todos estes decisores, desde os engenheiros aos eurodeputados, parecem esquecer que a literatura já refletiu em muitos destes problemas éticos. Considerada um subgénero, a ficção científica foi quase sempre ignorada pela elite. A grande referência do género, o escritor Isaac Asimov, imaginou as leis robóticas num dos seus livros, em 1942, que respondem a algumas destas questões. Por exemplo, uma das leis de Asimov diz que um robô deve ser programado de forma a nunca ferir um humano, nem deixar que este se magoe; a segunda diretiva estipula que uma máquina deve sempre obedecer a um humano, excepto se as ordens entram em conflito com a primeira lei.
Confrontados com um futuro que chegou mais depressa do que imaginávamos, seria útil e instrutivo (e até lúdico) ir hoje beber inspiração onde ela nunca faltou. Um luxemburguês há cem anos e uma luxemburguesa hoje mostram o caminho.
José Luís Correia, in Contacto, 15/02/2017
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quarta-feira, 9 de novembro de 2016
Entrevista: "O que existe hoje na Rússia são novas formas de feudalismo e de fascismo"
Por José Luís Correia - Maxim Kantor é um artista plástico e
dissidente russo. Pintor, escultor, escritor, dramaturgo, filósofo,
pensador, mostra-se bastante crítico do “putinismo”, que acusa de
favorecer o feudalismo e o fascismo no país. Em França lançou este
ano oromance “Feu Rouge” (“Red Light”, em inglês). No Luxemburgo, a sua
mostra de pintura “Le nouveau bestiaire” esteve recentemente exposta na
Abadia de Neumünster, no Grund.
(...)
Leia o artigo, na íntegra, na edição do jornal Contacto desta quarta-feira.
![]() |
| Maxim Kantor Foto: Alain PIron |
(...)
Leia o artigo, na íntegra, na edição do jornal Contacto desta quarta-feira.
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quarta-feira, 2 de novembro de 2016
EDITORIAL: Mundo sustém respiração
Hillary Clinton ou Donald Trump, qual o próximo ocupante da Casa Branca? A resposta chega na terça-feira, 8 de novembro. Entretanto, meio mundo está expectante e anseia pelo mal menor.
A campanha eleitoral para as presidenciais norte-americanas entrou na sua última semana e é seguida há meses por quase todo o planeta, que sustém a respiração e espera pelo cenário menos pior. Hillary Clinton está à frente de Donald Trump nas sondagens. A democrata recolhe 47% das intenções de voto e o opositor 43% (segundo o site RealClearPolitics.com, à hora do fecho da edição).
Mas no dia do sufrágio pode haver surpresas, como em 2000, quando Al Gore era o favorito mas George W. Bush foi eleito. Com as consequências que todos conhecemos. Talvez por isso as presidenciais americanas suscitem tanto interesse em todo o globo.
Trump começou como um ’outsider’ risível, depois conquistou o eleitorado republicano, afastou os candidatos mais sérios e liderou as sondagens durante meses. Mas agora está em recuo, devido a controvérsias relativas a declarações sobre como considera e trata as mulheres, os povos latinos, os afro-americanos e até os seus empregados. Mas também pela falta de transparência das suas finanças. Trump é o seu próprio pior inimigo, autor de disparates, insultos e ofensas que fazem corar qualquer político e sentir-se embaraçado todo o campo republicano, o que lhe tem valido ver cada vez mais apoiantes do ’Grand Old Party’ dizerem abertamente que votarão nos Democratas pela primeira vez.
E, no entanto, Trump tem seguidores que o apoiam cegamente. Como aquele apoiante afro-americano que na semana passada foi a um comício do magnata na Carolina do Norte e acabou sendo expulso por o considerarem um opositor, simplesmente por ser negro. O homem rechaçado admite que vai, mesmo assim, votar em Trump (!?). Um amigo meu diz que Trump só se candidatou para provar que é possível fazer pior que W. Bush.
Com tudo isto, como não preferir Hillary, que se pode tornar na primeira mulher no cargo máximo do poder nos EUA? Pois, mas o que poderia ser, afinal não parece assim tão óbvio. É que Hillary também tem esqueletos no armário. Apesar de gozar de uma relativa boa nota na opinião pública pelos seus papéis de Primeira Dama e senadora, o escândalo Benghazi e o caso que o FBI investiga sobre ter utilizado o seu correio eletrónico privado para tratar de emails estatais pôs em questão o seu desempenho como secretária de Estado. Também o dossier imobiliário Whitewater manchou a sua reputação.
Com o barulho das luzes ninguém viu nada: o teatro das presidenciais nos EUA afastou para segundo plano o acordo de livre comércio CETA, assinado no domingo entre a UE e o Canadá. Um tratado que elimina barreiras alfandegárias, mas parece favorecer mais as multinacionais do que os cidadãos e pode levar à desregulamentação da economia, do mercado do trabalho e ao desmantelamento dos direitos sociais.
José Luís Correia
in Contacto, 02.11.2016
A campanha eleitoral para as presidenciais norte-americanas entrou na sua última semana e é seguida há meses por quase todo o planeta, que sustém a respiração e espera pelo cenário menos pior. Hillary Clinton está à frente de Donald Trump nas sondagens. A democrata recolhe 47% das intenções de voto e o opositor 43% (segundo o site RealClearPolitics.com, à hora do fecho da edição).
Mas no dia do sufrágio pode haver surpresas, como em 2000, quando Al Gore era o favorito mas George W. Bush foi eleito. Com as consequências que todos conhecemos. Talvez por isso as presidenciais americanas suscitem tanto interesse em todo o globo.
Trump começou como um ’outsider’ risível, depois conquistou o eleitorado republicano, afastou os candidatos mais sérios e liderou as sondagens durante meses. Mas agora está em recuo, devido a controvérsias relativas a declarações sobre como considera e trata as mulheres, os povos latinos, os afro-americanos e até os seus empregados. Mas também pela falta de transparência das suas finanças. Trump é o seu próprio pior inimigo, autor de disparates, insultos e ofensas que fazem corar qualquer político e sentir-se embaraçado todo o campo republicano, o que lhe tem valido ver cada vez mais apoiantes do ’Grand Old Party’ dizerem abertamente que votarão nos Democratas pela primeira vez.
E, no entanto, Trump tem seguidores que o apoiam cegamente. Como aquele apoiante afro-americano que na semana passada foi a um comício do magnata na Carolina do Norte e acabou sendo expulso por o considerarem um opositor, simplesmente por ser negro. O homem rechaçado admite que vai, mesmo assim, votar em Trump (!?). Um amigo meu diz que Trump só se candidatou para provar que é possível fazer pior que W. Bush.
Com tudo isto, como não preferir Hillary, que se pode tornar na primeira mulher no cargo máximo do poder nos EUA? Pois, mas o que poderia ser, afinal não parece assim tão óbvio. É que Hillary também tem esqueletos no armário. Apesar de gozar de uma relativa boa nota na opinião pública pelos seus papéis de Primeira Dama e senadora, o escândalo Benghazi e o caso que o FBI investiga sobre ter utilizado o seu correio eletrónico privado para tratar de emails estatais pôs em questão o seu desempenho como secretária de Estado. Também o dossier imobiliário Whitewater manchou a sua reputação.
Com o barulho das luzes ninguém viu nada: o teatro das presidenciais nos EUA afastou para segundo plano o acordo de livre comércio CETA, assinado no domingo entre a UE e o Canadá. Um tratado que elimina barreiras alfandegárias, mas parece favorecer mais as multinacionais do que os cidadãos e pode levar à desregulamentação da economia, do mercado do trabalho e ao desmantelamento dos direitos sociais.
José Luís Correia
in Contacto, 02.11.2016
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quinta-feira, 25 de agosto de 2016
Editorial no Jornal CONTACTO: "Pot-pourri da silly season"
Conversa de café:
- Então, o nosso Benfica?
- Nosso? Meu não é. Lá tiveram que ser outra vez levados ao colinho...
- Colinho, que colinho? Vocês são mesmo maus perdedores.
- Nós não perdemos, foi empate!
Quando não há nada para conversar na “estação parva”, há sempre o futebol, valor fundamental do “ser bom português”. No entanto, a “silly season” este ano trouxe um rico rol de pérolas de parvoíce.
Primeiro foram os caçadores de Pokémons. Cabeça mergulhada nos seus smartphones, hipnotizados pelos bonecos da realidade aumentada, alguns foram atropelados, causaram acidentes de trânsito, caíram em escadas e rios, outros invadiram jardins e casas privadas. No Luxemburgo, um condutor foi multado por conduzir no boulevard Joseph II, na capital, a 8 km/h, andava a caçar esses monstrinhos. Uma aldeia francesa proibiu os bonecos virtuais da Nintendo e foi festivamente declarada “zona livre de Pokémons”. Em Washington, o director do Museu do Holocausto indignou-se que houvesse Pokémons à solta no memorial dedicado à Shoa.
Depois foi o “burqini”, um fato de banho-burca, que cobre todo o corpo excepto o rosto e que algumas muçulmanas decidiram levar para as praias francesas este Verão. No clima de crescente islamofobia que se vive em França há mais de ano e meio devido aos atentados terroristas, a peça de roupa foi utilizada como um rastilho pelos que surfam na onda fácil da extrema-direita. Felizmente não pegou fogo... ainda. Cannes e Nice proibiram o burqini e algumas banhistas foram mesmo multadas.
O “Zorro do Nicab”, Rachid Nekkaz, um homem de negócios franco-argelino, que se diz contra o burqini, pagou as coimas das autuadas e recordou ao Estado francês que num país que apregoa a torto e a direito ser uma república laica, as liberdades fundamentais devem ser respeitadas, como a de vestir a roupa que se quer. No país dos Direitos Humanos, não aplicar a regra básica do “a minha liberdade acaba onde começa a tua” esta polémica é absurda. A imprensa anglo-saxónica, também em falta de notícias, ri-se dos gauleses. Inventado em 2003 pela estilista australiana de origem libanesa Aheda Zanetti, o fato de banho-burca nunca foi tão popular em França como agora, desde que os seus detractores começaram a denunciá-lo, e quanto mais praias o proíbem mais muçulmanas o vestem.
O Brasil acolheu as piores Olimpíadas de sempre. Os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro ficaram manchados pela instabilidade política do país, a demolição de favelas para construir estádios, as instalações inacabadas ou deficientes, os assaltos aos atletas (e até a um ministro português), a poluição de alguns locais onde decorriam provas, a tocha olímpica que foi roubada e apagada, o virar de costas dos brasileiros aos Jogos, entre outros incidentes.
Enquanto isso, em Portugal... “Ai, Portugal, Portugal/Enquanto ficares à espera/Ninguém te pode ajudar”. Podem vir hidroaviões Canadairs da Rússia e de Espanha, mas a canção de Jorge Palma é a melhor resposta às perguntas que nos angustia a garganta: porque razão o nosso país é dizimado pelas chamas todos os Verões? Como é que num país onde os incêndios florestais grassam anualmente ainda faltam meios para combater o flagelo? O jardim à beira-mar plantado transforma-se, de ano para ano, em ermo de cinzas, uma calamidade. Falta investimento, prevenção, visão e vontade. E sem isso, não há futuro.
Uma prova palpável de que “pode mais quem quer do quem pode” é a conquista histórica por Portugal do título de campeão europeu de futebol. A glória do título iluminou as várias gerações de grandes futebolistas portugueses que tivemos nas últimas décadas mas que nunca ganharam nada internacionalmente, e libertou-nos do sentimento de injustiça que pairava sobre a nossa selecção. Mas não havia maldição alguma, faltava apenas acreditarmos e investirmos em nós. O motor da vitória foi o seleccionador, mas também a vontade, o acreditar. Quando se quer, consegue-se. Porque não aplicar essa tenacidade a tudo, Portugal? O país quer, espera, almeja que os nossos melhores atletas tragam medalhas olímpicas, mas não lhes dá condições?! Depois lamenta-se. Tristezas não pagam dívidas.
Dizia alguém que o final de Agosto é como um longo fim-de-semana antes da segunda-feira de trabalho. Que nos sirva para reflectir: em nós, no país, no futuro. Deixemos de ser “silly” e de nos queixarmos. Façamos!
José Luís Correia
in CONTACTO, 24/08/2016
- Então, o nosso Benfica?
- Nosso? Meu não é. Lá tiveram que ser outra vez levados ao colinho...
- Colinho, que colinho? Vocês são mesmo maus perdedores.
- Nós não perdemos, foi empate!
Quando não há nada para conversar na “estação parva”, há sempre o futebol, valor fundamental do “ser bom português”. No entanto, a “silly season” este ano trouxe um rico rol de pérolas de parvoíce.
Primeiro foram os caçadores de Pokémons. Cabeça mergulhada nos seus smartphones, hipnotizados pelos bonecos da realidade aumentada, alguns foram atropelados, causaram acidentes de trânsito, caíram em escadas e rios, outros invadiram jardins e casas privadas. No Luxemburgo, um condutor foi multado por conduzir no boulevard Joseph II, na capital, a 8 km/h, andava a caçar esses monstrinhos. Uma aldeia francesa proibiu os bonecos virtuais da Nintendo e foi festivamente declarada “zona livre de Pokémons”. Em Washington, o director do Museu do Holocausto indignou-se que houvesse Pokémons à solta no memorial dedicado à Shoa.
Depois foi o “burqini”, um fato de banho-burca, que cobre todo o corpo excepto o rosto e que algumas muçulmanas decidiram levar para as praias francesas este Verão. No clima de crescente islamofobia que se vive em França há mais de ano e meio devido aos atentados terroristas, a peça de roupa foi utilizada como um rastilho pelos que surfam na onda fácil da extrema-direita. Felizmente não pegou fogo... ainda. Cannes e Nice proibiram o burqini e algumas banhistas foram mesmo multadas.
O “Zorro do Nicab”, Rachid Nekkaz, um homem de negócios franco-argelino, que se diz contra o burqini, pagou as coimas das autuadas e recordou ao Estado francês que num país que apregoa a torto e a direito ser uma república laica, as liberdades fundamentais devem ser respeitadas, como a de vestir a roupa que se quer. No país dos Direitos Humanos, não aplicar a regra básica do “a minha liberdade acaba onde começa a tua” esta polémica é absurda. A imprensa anglo-saxónica, também em falta de notícias, ri-se dos gauleses. Inventado em 2003 pela estilista australiana de origem libanesa Aheda Zanetti, o fato de banho-burca nunca foi tão popular em França como agora, desde que os seus detractores começaram a denunciá-lo, e quanto mais praias o proíbem mais muçulmanas o vestem.
O Brasil acolheu as piores Olimpíadas de sempre. Os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro ficaram manchados pela instabilidade política do país, a demolição de favelas para construir estádios, as instalações inacabadas ou deficientes, os assaltos aos atletas (e até a um ministro português), a poluição de alguns locais onde decorriam provas, a tocha olímpica que foi roubada e apagada, o virar de costas dos brasileiros aos Jogos, entre outros incidentes.
Enquanto isso, em Portugal... “Ai, Portugal, Portugal/Enquanto ficares à espera/Ninguém te pode ajudar”. Podem vir hidroaviões Canadairs da Rússia e de Espanha, mas a canção de Jorge Palma é a melhor resposta às perguntas que nos angustia a garganta: porque razão o nosso país é dizimado pelas chamas todos os Verões? Como é que num país onde os incêndios florestais grassam anualmente ainda faltam meios para combater o flagelo? O jardim à beira-mar plantado transforma-se, de ano para ano, em ermo de cinzas, uma calamidade. Falta investimento, prevenção, visão e vontade. E sem isso, não há futuro.
Uma prova palpável de que “pode mais quem quer do quem pode” é a conquista histórica por Portugal do título de campeão europeu de futebol. A glória do título iluminou as várias gerações de grandes futebolistas portugueses que tivemos nas últimas décadas mas que nunca ganharam nada internacionalmente, e libertou-nos do sentimento de injustiça que pairava sobre a nossa selecção. Mas não havia maldição alguma, faltava apenas acreditarmos e investirmos em nós. O motor da vitória foi o seleccionador, mas também a vontade, o acreditar. Quando se quer, consegue-se. Porque não aplicar essa tenacidade a tudo, Portugal? O país quer, espera, almeja que os nossos melhores atletas tragam medalhas olímpicas, mas não lhes dá condições?! Depois lamenta-se. Tristezas não pagam dívidas.
Dizia alguém que o final de Agosto é como um longo fim-de-semana antes da segunda-feira de trabalho. Que nos sirva para reflectir: em nós, no país, no futuro. Deixemos de ser “silly” e de nos queixarmos. Façamos!
José Luís Correia
in CONTACTO, 24/08/2016
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quinta-feira, 7 de maio de 2015
Editorial no Jornal CONTACTO: "Ei-los que chegam!"
Cerca de seis mil migrantes foram resgatados no Mediterrâneo no último fim-de-semana e outros sete mil foram travados na Líbia quando se preparavam para embarcar para a Europa.
Poderia a operação Tritão (da Frontex, a agência europeia para o controlo das fronteiras da UE) com os seus parcos meios, ter conseguido chegar a tempo para salvar 13 mil migrantes de uma só vez? Só no sábado foram 17 as embarcações de refugiados que pediram para ser socorridas e a operação europeia de vigilância do Mediterrâneo – que dispõe apenas de 21 navios, quatro aviões e um helicóptero –, desta vez chegou a tempo de evitar uma nova tragédia humana.
Este podia ter sido um fim-de-semana negro, fatal para os migrantes, vergonhoso para a UE, de luto para a Humanidade. Mas foi de esperança(s): uma menina migrante nasceu a bordo de um patrulhador da marinha italiana. A mãe fugiu de um país em guerra, a filha crescerá na Europa prometida.
O último fim-de-semana só não bateu um recorde porque foi ultrapassado pelo de 12 e 13 de Abril, quando 6.600 migrantes foram “repescados”. Nos primeiros quatro meses deste ano já foram resgatados mais de 25 mil migrantes, quase o mesmo número que em 2014 no mesmo período. O que mudou foi o número de mortos e desaparecidos no mar, que cresceu exponencialmente, passando de uma centena para quase dois mil. E o número arrisca-se a aumentar ainda mais dramaticamente, já que com o bom tempo e o estado mais calmo do mar as travessias clandestinas vão aumentar.
E o que faz a UE? Na cimeira de 23 de Abril – convocada à pressa na sequência do naufrágio de 1.200 migrantes num só dia – os 28 decidiram triplicar o orçamento da operação Tritão para 9 milhões de euros mensais até ao fim do ano, aumentar os meios de vigilância e de socorro no Mediterrâneo e alargar a zona geográfica da Frontex no Mediterrâneo. Mas até à data nada foi posto em prática.
François Hollande quer destruir os barcos dos passadores antes de zarparem para a Europa, mas nem a ONU nem os países a quem o presidente francês expôs a ideia – como a Rússia – concordaram, para já, com a sugestão. Enquanto isso, Hollande enviou um navio para o Mediterrâneo, a Alemanha enviou dois. Mais nada foi feito. Nem foi discutida, por exemplo, a distribuição dos migrantes pela UE. Como se o problema fosse apenas dos Estados-membro banhados pelo Mediterrâneo, a Itália, Grécia, Espanha e Malta, países que já estão a abarrotar com refugiados, em campos onde aguardam a sua sorte.
A Itália diz que vai preferir os refugiados de guerra em detrimento dos migrantes económicos e dar asilo político aos primeiros, mas apenas se estes o pedirem. Porque para muitos, a Itália deveria ter sido apenas um ponto de passagem, alguns têm família em França, Bélgica, Alemanha ou Reino Unido e é aí que estão a tentar chegar. É por isso que a Itália reivindica há anos que o Tratado de Dublin seja revisto, já que este prevê que os refugiados sejam acolhidos pelo primeiro Estado-membro onde chegam.
O presidente da Comissão Europeia Jean-Claude Juncker criticou as decisões tímidas da UE e defendeu que é urgente falar das “quotas” de migrantes a distribuir pelos Estados-membros. Mas há países que nem querem ouvir falar nisso, nem na reforma do Tratado de Berlim.
Apesar de o Luxemburgo ser dos Estados-membros que menos pedidos de asilo recebe dos países de onde chegam estes migrantes, o primeiro-ministro luxemburguês Xavier Bettel quer criar um grupo para preparar a eventual chegada em maior número de refugiados, caso a UE decida impor quotas.
Entretanto, na terça-feira chegaram 45 refugiados sírios ao Luxemburgo, ao abrigo de um acordo com a ONU. Enquanto a UE hesita, o número de migrantes e de mortos no cemitério do Mediterrâneo vai aumentando. O problema de fundo são as guerras civis nos países de origem dos migrantes, na Síria, Iraque, Líbia e Sudão ou a ditadura sanguinária na Eritreia, e a extrema miséria na Etiópia ou no Mali. Morrer no mar ou chegar à Europa não é apenas um acto desesperado, é a última esperança de quem atravessou o deserto, a selva ou a savana, escapou a animais selvagens e guerrilheiros, percorreu milhares de quilómetros a pé ou num transporte de fortuna em condições sub-humanas.
“Ei-los que partem, novos e velhos, buscando a sorte, noutras paragens, noutras aragens, entre outros povos, ei-los que partem, velhos e novos. Ei-los que partem, de olhos molhados, coração triste e a saca às costas, esperança em riste, sonhos dourados, ei-los que partem, de olhos molhados. Virão um dia, contando histórias, de lá de longe, onde o suor se fez em pão, virão um dia, ou não.”
A canção de Manuel Freire, que descreve a emigração lusa nos anos 1960, bem se poderia aplicar hoje à fuga aflita dos migrantes do Norte de África, do Iraque e da Síria para a Europa. Porque afinal, o que faz deles migrantes diferentes dos portugueses que deixavam Portugal há 50 anos, para fugir da guerra e da miséria? É que se nós portugueses não entendermos o seu desespero, o seu sofrimento e até a sua esperança, quem entenderá?
Hoje, a aldeia global é uma metrópole mesquinha, degradante, cruel, sem ética nem valores, em que os moradores do centro (países ricos), no conforto e no calor das suas casas, têm apenas como preocupação adquirir o mais recente brinquedo high-tech, pensando que podem ignorar o grito de sofrimento que vai emergindo dos subúrbios (países pobres), infestados de guerra e de miséria, que frequentemente “o centro” fomentou na “periferia”, apenas para sustentar o seu nível de vida. E quando os subúrbios extravasarem? Não é já o que está a acontecer? Enquanto não prevenirmos as causas, teremos que remediar (e remendar) as consequências. E sabe-se lá que consequências nos esperam. Não é só do futuro dos migrantes que se trata, mas também do nosso.
José Luís Correia
in CONTACTO, 06/05/2015
Poderia a operação Tritão (da Frontex, a agência europeia para o controlo das fronteiras da UE) com os seus parcos meios, ter conseguido chegar a tempo para salvar 13 mil migrantes de uma só vez? Só no sábado foram 17 as embarcações de refugiados que pediram para ser socorridas e a operação europeia de vigilância do Mediterrâneo – que dispõe apenas de 21 navios, quatro aviões e um helicóptero –, desta vez chegou a tempo de evitar uma nova tragédia humana.
Este podia ter sido um fim-de-semana negro, fatal para os migrantes, vergonhoso para a UE, de luto para a Humanidade. Mas foi de esperança(s): uma menina migrante nasceu a bordo de um patrulhador da marinha italiana. A mãe fugiu de um país em guerra, a filha crescerá na Europa prometida.
O último fim-de-semana só não bateu um recorde porque foi ultrapassado pelo de 12 e 13 de Abril, quando 6.600 migrantes foram “repescados”. Nos primeiros quatro meses deste ano já foram resgatados mais de 25 mil migrantes, quase o mesmo número que em 2014 no mesmo período. O que mudou foi o número de mortos e desaparecidos no mar, que cresceu exponencialmente, passando de uma centena para quase dois mil. E o número arrisca-se a aumentar ainda mais dramaticamente, já que com o bom tempo e o estado mais calmo do mar as travessias clandestinas vão aumentar.
E o que faz a UE? Na cimeira de 23 de Abril – convocada à pressa na sequência do naufrágio de 1.200 migrantes num só dia – os 28 decidiram triplicar o orçamento da operação Tritão para 9 milhões de euros mensais até ao fim do ano, aumentar os meios de vigilância e de socorro no Mediterrâneo e alargar a zona geográfica da Frontex no Mediterrâneo. Mas até à data nada foi posto em prática.
François Hollande quer destruir os barcos dos passadores antes de zarparem para a Europa, mas nem a ONU nem os países a quem o presidente francês expôs a ideia – como a Rússia – concordaram, para já, com a sugestão. Enquanto isso, Hollande enviou um navio para o Mediterrâneo, a Alemanha enviou dois. Mais nada foi feito. Nem foi discutida, por exemplo, a distribuição dos migrantes pela UE. Como se o problema fosse apenas dos Estados-membro banhados pelo Mediterrâneo, a Itália, Grécia, Espanha e Malta, países que já estão a abarrotar com refugiados, em campos onde aguardam a sua sorte.
A Itália diz que vai preferir os refugiados de guerra em detrimento dos migrantes económicos e dar asilo político aos primeiros, mas apenas se estes o pedirem. Porque para muitos, a Itália deveria ter sido apenas um ponto de passagem, alguns têm família em França, Bélgica, Alemanha ou Reino Unido e é aí que estão a tentar chegar. É por isso que a Itália reivindica há anos que o Tratado de Dublin seja revisto, já que este prevê que os refugiados sejam acolhidos pelo primeiro Estado-membro onde chegam.
O presidente da Comissão Europeia Jean-Claude Juncker criticou as decisões tímidas da UE e defendeu que é urgente falar das “quotas” de migrantes a distribuir pelos Estados-membros. Mas há países que nem querem ouvir falar nisso, nem na reforma do Tratado de Berlim.
Apesar de o Luxemburgo ser dos Estados-membros que menos pedidos de asilo recebe dos países de onde chegam estes migrantes, o primeiro-ministro luxemburguês Xavier Bettel quer criar um grupo para preparar a eventual chegada em maior número de refugiados, caso a UE decida impor quotas.
Entretanto, na terça-feira chegaram 45 refugiados sírios ao Luxemburgo, ao abrigo de um acordo com a ONU. Enquanto a UE hesita, o número de migrantes e de mortos no cemitério do Mediterrâneo vai aumentando. O problema de fundo são as guerras civis nos países de origem dos migrantes, na Síria, Iraque, Líbia e Sudão ou a ditadura sanguinária na Eritreia, e a extrema miséria na Etiópia ou no Mali. Morrer no mar ou chegar à Europa não é apenas um acto desesperado, é a última esperança de quem atravessou o deserto, a selva ou a savana, escapou a animais selvagens e guerrilheiros, percorreu milhares de quilómetros a pé ou num transporte de fortuna em condições sub-humanas.
“Ei-los que partem, novos e velhos, buscando a sorte, noutras paragens, noutras aragens, entre outros povos, ei-los que partem, velhos e novos. Ei-los que partem, de olhos molhados, coração triste e a saca às costas, esperança em riste, sonhos dourados, ei-los que partem, de olhos molhados. Virão um dia, contando histórias, de lá de longe, onde o suor se fez em pão, virão um dia, ou não.”
A canção de Manuel Freire, que descreve a emigração lusa nos anos 1960, bem se poderia aplicar hoje à fuga aflita dos migrantes do Norte de África, do Iraque e da Síria para a Europa. Porque afinal, o que faz deles migrantes diferentes dos portugueses que deixavam Portugal há 50 anos, para fugir da guerra e da miséria? É que se nós portugueses não entendermos o seu desespero, o seu sofrimento e até a sua esperança, quem entenderá?
Hoje, a aldeia global é uma metrópole mesquinha, degradante, cruel, sem ética nem valores, em que os moradores do centro (países ricos), no conforto e no calor das suas casas, têm apenas como preocupação adquirir o mais recente brinquedo high-tech, pensando que podem ignorar o grito de sofrimento que vai emergindo dos subúrbios (países pobres), infestados de guerra e de miséria, que frequentemente “o centro” fomentou na “periferia”, apenas para sustentar o seu nível de vida. E quando os subúrbios extravasarem? Não é já o que está a acontecer? Enquanto não prevenirmos as causas, teremos que remediar (e remendar) as consequências. E sabe-se lá que consequências nos esperam. Não é só do futuro dos migrantes que se trata, mas também do nosso.
José Luís Correia
in CONTACTO, 06/05/2015
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quinta-feira, 5 de março de 2015
Editorial no jornal CONTACTO: "As novas invasões bárbaras"
Cristãos perseguidos e massacrados, mulheres espancadas, apedrejadas até à morte ou abatidas à queima-roupa em plena rua por não estarem “devidamente” cobertas ou simplesmente por vestirem um pulóver de cor vermelha, “infiéis” capturados, torturados, degolados, decapitados, imolados vivos dentro de jaulas, crianças escravizadas, utilizadas como escudo humano ou crucificadas e enterradas vivas. E tudo isso vangloriado, propagandeado, em vídeos ignóbeis e abjectos exibidos na internet.
A barbárie do Estado Islâmico parece não ter limites, é aterradora, brutal, bestial (sem ofensa para os animais, parafreaseando Dostoievski). Não tem ideologias nem credo. Não tem! Que ideologia, que religião, em nome de que deus se praticam estas atrocidades inomináveis? Não! Não é religião nem guerra santa, é apenas vontade de propagar o caos e a selvajaria.
As últimas vítimas do ódio jihadista são obras de arte milenares do museu de Mossul, no Iraque. Estelas babilónicas, um touro androcéfalo alado assírio, estátuas do período helenístico, todos destruídos à marretada, com picaretas, maços e martelos pneumáticos. Uma devastação similar à destruição das obras de arte incas, maias e astecas pelos primeiros conquistadores espanhóis no início do século XV. Mais de dois mil livros, pergaminhos, manuscritos e gravuras, alguns com mais mais de 5 mil anos, foram queimados pelos jihadistas, em Janeiro, num dos maiores autos-da-fé de que há memória desde o incêndio da biblioteca de Alexandria.
Foi ali, no Iraque, que brotaram as mais antigas sociedades humanas, que se redigiram os primeiros códigos de lei, que se elevaram do barro as primevas cidades. São os registos da aurora da civilização que estão a ser reduzidos em pó, num esforço (gorado, esperamos!) de os apagar da face da Terra e das páginas da História.
O Estado Islâmico copiou assim os talibãs do Afeganistão, que em 2001 dinamitaram os budas de Bamiyan, que ali se erguiam há 1.500 anos.
Todas estas obras de arte, património de valor inestimável da Humanidade, foram testemunhas da ascensão e queda de impérios e civilizações, viram passar por eles os séculos e alguns deles os milénios, foram, se não admirados, pelo menos, respeitados por exércitos, conquistadores, reis, imperadores e até ditadores para, finalmente, serem demolidos sem glória por hordas ferozes de extremistas cobardes. Cobardes, porque uma obra de arte não devolve o murro, não se sabe defender. Cobardes porque se escondem atrás de uma religião e de um deus para justificarem os seus crimes e a sua pequenez.
Que ódio é este? Ódio à civilização, ao ser humano? Onde está o Islão tolerante que foi um exemplo civilizacional, intelectual e de coabitação na Idade Média? Que leitura deturpada do Corão leva a actos sórdidos desta índole?
Para o Estado Islâmico todos nós, ocidentais, somos inféis a abater, a exterminar. Como o recordou Steve Duarte, o português que trocou Meispelt, no Luxemburgo, pela Síria, em entrevista à RTP na semana passada. Steve aproveitou para revelar que ele era um dos webmasters que criava as páginas internet e os “gloriosos” vídeos para o Estado Islãmico. Aberrante!
Mas não é só a Europa ou o Ocidente que devem lutar para erradicar este flagelo islâmico, inimigo de toda a Humanidade. Todos os países muçulmanos deveriam empenhar-se mais numa luta sem tréguas contra quem mancha assim a religião de Maomé. Mas quanta conivência, cumplicidade até, da parte de certas organizações e estados muçulmanos, sem falar dos príncipes e emires que financiam, cada vez menos secretamente, os jihadistas! O intuito? Propagar o caos na Europa e no Ocidente. Para quê? Objectivos que nada têm a ver com religião, mas com o desenhar de futuras hegemonias políticas e sobretudo económicas.
Já repararam que a guerra do petróleo entrou numa nova fase, com a exploração em cada vez maior escala do “ouro negro” a partir das jazidas de xisto? Esta é a verdadeira guerra que se trama nas entrelinhas da História e dos jornais. As guerras dos recursos naturais vão marcar o século XXI. A procissão ainda vai no adro, mas já se vislumbra um século tumultuoso.
O conflito que opõe Kiev aos separatistas pró-russos do leste da Ucrânia é uma guerra pelos recursos naturais. Putin, saudosista soviético, sonha com um novo império russo e não admite que o travem na sua “gesta”. Que o diga Boris Nemtsov, conhecido opositor do presidente russo, assassinado na sexta-feira. Mas a UE e os EUA também têm responsabilidades no conflito ucraniano. Podem até agitar-se bandeiras anti-fascistas, pró-democráticas ou pró-europeias, mas são de facto interesses políticos e económicos que germinaram este conflito, que se espera não venha a degenerar em guerra civil ou pior, se propague à UE. Um conflito no qual não há heróis de um lado – Kiev, UE e EUA – e vilões do outro – Donetsk e Moscovo. A UE apoia Kiev para garantir o futuro alargamento da sua influência política a leste e a perenização do fornecimento de gás; Moscovo financia Donetsk para manter o poderio na região e assegurar o acesso ao Mar Negro.
E face a estas novas invasões bárbaras ante portas, o que faz a União Europeia? Os Estados-membros, em vez de falarem a uma só voz, de se apresentarem como um bloco unido e solidário, estão cada vez mais divididos. Em nome de regras económicas dogmáticas, inventadas à pressa no início dos anos 1990, zangam-se por “tostões”, os “bons alunos” apontam e punem os “maus alunos”, que ameaçam de exclusão do “clube”. Por outro lado, intestinamente, outros questionam a própria União, exacerbando os nacionalismos.
“Há o risco cada vez maior de ver os guarda-fronteiras que devem defender a Europa contra a barbárie crescente se tornarem eles próprios fascistas”, advertia em Janeiro, em entrevista ao Le Monde, o Prémio Nobel da Literatura húngaro Imre Kertész.
Quo vadis Europa, quo vadis Orbi? Que século XXI nos espera?
José Luís Correia
in CONTACTO, 04/03/2015
A barbárie do Estado Islâmico parece não ter limites, é aterradora, brutal, bestial (sem ofensa para os animais, parafreaseando Dostoievski). Não tem ideologias nem credo. Não tem! Que ideologia, que religião, em nome de que deus se praticam estas atrocidades inomináveis? Não! Não é religião nem guerra santa, é apenas vontade de propagar o caos e a selvajaria.
As últimas vítimas do ódio jihadista são obras de arte milenares do museu de Mossul, no Iraque. Estelas babilónicas, um touro androcéfalo alado assírio, estátuas do período helenístico, todos destruídos à marretada, com picaretas, maços e martelos pneumáticos. Uma devastação similar à destruição das obras de arte incas, maias e astecas pelos primeiros conquistadores espanhóis no início do século XV. Mais de dois mil livros, pergaminhos, manuscritos e gravuras, alguns com mais mais de 5 mil anos, foram queimados pelos jihadistas, em Janeiro, num dos maiores autos-da-fé de que há memória desde o incêndio da biblioteca de Alexandria.
Foi ali, no Iraque, que brotaram as mais antigas sociedades humanas, que se redigiram os primeiros códigos de lei, que se elevaram do barro as primevas cidades. São os registos da aurora da civilização que estão a ser reduzidos em pó, num esforço (gorado, esperamos!) de os apagar da face da Terra e das páginas da História.
O Estado Islâmico copiou assim os talibãs do Afeganistão, que em 2001 dinamitaram os budas de Bamiyan, que ali se erguiam há 1.500 anos.
Todas estas obras de arte, património de valor inestimável da Humanidade, foram testemunhas da ascensão e queda de impérios e civilizações, viram passar por eles os séculos e alguns deles os milénios, foram, se não admirados, pelo menos, respeitados por exércitos, conquistadores, reis, imperadores e até ditadores para, finalmente, serem demolidos sem glória por hordas ferozes de extremistas cobardes. Cobardes, porque uma obra de arte não devolve o murro, não se sabe defender. Cobardes porque se escondem atrás de uma religião e de um deus para justificarem os seus crimes e a sua pequenez.
Que ódio é este? Ódio à civilização, ao ser humano? Onde está o Islão tolerante que foi um exemplo civilizacional, intelectual e de coabitação na Idade Média? Que leitura deturpada do Corão leva a actos sórdidos desta índole?
Para o Estado Islâmico todos nós, ocidentais, somos inféis a abater, a exterminar. Como o recordou Steve Duarte, o português que trocou Meispelt, no Luxemburgo, pela Síria, em entrevista à RTP na semana passada. Steve aproveitou para revelar que ele era um dos webmasters que criava as páginas internet e os “gloriosos” vídeos para o Estado Islãmico. Aberrante!
Mas não é só a Europa ou o Ocidente que devem lutar para erradicar este flagelo islâmico, inimigo de toda a Humanidade. Todos os países muçulmanos deveriam empenhar-se mais numa luta sem tréguas contra quem mancha assim a religião de Maomé. Mas quanta conivência, cumplicidade até, da parte de certas organizações e estados muçulmanos, sem falar dos príncipes e emires que financiam, cada vez menos secretamente, os jihadistas! O intuito? Propagar o caos na Europa e no Ocidente. Para quê? Objectivos que nada têm a ver com religião, mas com o desenhar de futuras hegemonias políticas e sobretudo económicas.
Já repararam que a guerra do petróleo entrou numa nova fase, com a exploração em cada vez maior escala do “ouro negro” a partir das jazidas de xisto? Esta é a verdadeira guerra que se trama nas entrelinhas da História e dos jornais. As guerras dos recursos naturais vão marcar o século XXI. A procissão ainda vai no adro, mas já se vislumbra um século tumultuoso.
O conflito que opõe Kiev aos separatistas pró-russos do leste da Ucrânia é uma guerra pelos recursos naturais. Putin, saudosista soviético, sonha com um novo império russo e não admite que o travem na sua “gesta”. Que o diga Boris Nemtsov, conhecido opositor do presidente russo, assassinado na sexta-feira. Mas a UE e os EUA também têm responsabilidades no conflito ucraniano. Podem até agitar-se bandeiras anti-fascistas, pró-democráticas ou pró-europeias, mas são de facto interesses políticos e económicos que germinaram este conflito, que se espera não venha a degenerar em guerra civil ou pior, se propague à UE. Um conflito no qual não há heróis de um lado – Kiev, UE e EUA – e vilões do outro – Donetsk e Moscovo. A UE apoia Kiev para garantir o futuro alargamento da sua influência política a leste e a perenização do fornecimento de gás; Moscovo financia Donetsk para manter o poderio na região e assegurar o acesso ao Mar Negro.
E face a estas novas invasões bárbaras ante portas, o que faz a União Europeia? Os Estados-membros, em vez de falarem a uma só voz, de se apresentarem como um bloco unido e solidário, estão cada vez mais divididos. Em nome de regras económicas dogmáticas, inventadas à pressa no início dos anos 1990, zangam-se por “tostões”, os “bons alunos” apontam e punem os “maus alunos”, que ameaçam de exclusão do “clube”. Por outro lado, intestinamente, outros questionam a própria União, exacerbando os nacionalismos.
“Há o risco cada vez maior de ver os guarda-fronteiras que devem defender a Europa contra a barbárie crescente se tornarem eles próprios fascistas”, advertia em Janeiro, em entrevista ao Le Monde, o Prémio Nobel da Literatura húngaro Imre Kertész.
Quo vadis Europa, quo vadis Orbi? Que século XXI nos espera?
José Luís Correia
in CONTACTO, 04/03/2015
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quinta-feira, 6 de março de 2014
Putin que o pariu
Uma guerra entre dois estados europeus em pleno século XXI só podia ser parida por um filho da Put(in), um ex-expiãozeco com azia soviética, que depois de se destacar como um medíocre agente secreto, foi relegado a mero funcionário diligente do KGB, e que hoje aspira – bolorento, paranóico e saudosista –, a restabelecer a antiga glória e grandeza da URSS.
Ao recorrer à escalada militar na Crimeia, enviando milhares de soldados russos para a Ucrânia, Vladimir Putin não só violou a integridade territorial de um país europeu, como prova definitivamente que nunca digeriu a queda do muro de Berlim e o consequente colapso da União Soviética, dois acontecimentos históricos que trouxeram mais estabilidade à Europa.
É o que todos nós acreditamos. Putin não! Mas será que ao acenar com a bandeira vermelha de uma guerra na Europa, que acende em nós as piores memórias da nossa história recente, Putin não estará a fazer bluff?
Quando algo acontece na actualidade e cujos contornos ainda permanecem indefinidos, quando os analistas políticos ainda não decifraram claramente as motivações dos quem e dos porquês, por deformação profissional coloco-me sempre a mesma questão: isto beneficia quem?
A resposta a que cheguei, no caso de uma eventual guerra Rússia-Ucrânia, é que não beneficia ninguém: nem a Rússia, que se quer impor como um parceiro sério no xadrez económico e político internacional; nem os EUA, a braços com uma crise económica interna e que não têm interesse em embarcar numa nova guerra, que os seus cidadãos nunca apoiariam; nem a UE, que tem tudo a perder com um conflito armado no seu seio; e muito menos a Ucrânia, que não quer ser palco de um teatro de guerra sangrento.
Mas, destes todos, talvez a Rússia seja o país que realmente mais tem a perder. O valor do rublo nunca esteve tão baixo e desde que a crise com a Ucrânia piorou, ainda se deteriorou mais. Ao lançar-se numa guerra com a Ucrânia, a Rússia arrisca-se a perder o seu lugar no G8, pelo qual tanto lutou nos últimos anos. Perderia também os seus melhores clientes do mercado do gás, cujas condutas atravessam a Ucrânia para chegar à UE. E veria parte da sua economia bloqueada, com as contas bancárias dos seus dirigentes e oligarcas congeladas na UE. Mesmo se graças a este braço-de-ferro com Kiev, Putin nunca esteve melhor nas sondagens domésticas, ao intervir na Crimeia perderia toda a credibilidade internacional, ele que tanto tem defendido a não-ingerência na guerra civil síria.
A Península da Crimeia (dez vezes maior do que o Luxemburgo), no sul da Ucrânia, é para a Rússia um ponto estratégico. Militar primeiro, porque é lá que está estacionada a frota russa do mar Negro, no que é também o seu único acesso ao Mediterrâneo. Político e cultural também, porque os russos são a nacionalidade dominante da região e porque, historicamente, a Crimeia sempre foi russa. A região foi doada por Khrushchev à Ucrânia em 1954. Na altura, o gesto foi simbólico, já que a Ucrânia e a Crimeia faziam parte da URSS.
Mas revelou-se um presente envenenado quando, em 1991, os ucranianos se tornaram independentes, e a Crimeia lutou para ser uma região autónoma, não sem suscitar tensões com Kiev. Para continuar a ter ali a sua frota, Moscovo concordou em pagar uma renda anual à Ucrânia, num acordo benéfico para ambos os países e que expira em 2042. Mas sempre que o Governo de Kiev adopta uma preferência pró-UE (esta não é a primeira vez!), em detrimento da aproximação ancestral com a Rússia, as tensões agudizam-se.
Para muitos ucranianos, destituir Ianukovich significou livrar-se de um ditador que servia os interesses de Moscovo e que nem ucraniano falava. Para os pró-russos, o novo regime de Kiev é fascista, aliena-os do estatuto de protectorado da Mãe-Rússia de que gozavam, e a destituição de Ianukovich foi um golpe de Estado, incentivado pela UE e pelos EUA, o que não está longe da verdade.
Como em tudo, aqui há muitas áreas cinzentas e sobretudo muitos interesses económicos. Moscovo teme que os seus interesses sejam prejudicados na Ucrânia, com quem tem acordos económicos, como o do gás russo exportado para a UE. Se a Ucrânia pedir a adesão à UE, Putin terá de desistir da ambicionada "União Euroasiática" – bloco económico e político que Putin almeja constituir face à UE, da qual fazem já parte o Cazaquistão e a Bielorússia (ambos governados por ditadores pró-russos) –, e que sem Kiev não faz sentido.
Tudo isto leva a pensar que Putin está a fazer bluff. Nos últimos dias tem dado uma no cravo, outra na ferradura. No sábado, enviou mais tropas para a Crimeia, no domingo aceitou a mediação de Angela Merkel para dialogar com Kiev, na segunda-feira lançou um ultimato à Ucrânia, na terça mandou os seus soldados na Crimeia regressar às casernas. Quo vadis?
A ser bluff, este serve como mera demonstração de força, que visa provar toda a magnanimidade de Putin quando este propuser outras opções à guerra. Moscovo deverá então propor mais vantagens económicas e políticas à Ucrânia para que esta não se aproxime da UE. Putin pode ainda apresentar-se como salvador da Crimeia, exigindo a independência da região, o que a Ucrânia tem todo em interesse em aceitar, pouco perdendo com essa opção. Putin tem de mostrar que a Rússia é um gigante que não se deixa demover pelos seus vizinhos, nem pela UE, nem pelos EUA, nem por ninguém.
O povo amordaçado da Bielorússia está de olhos postos na crise do vizinho ucraniano. E o ditador pró-russo que dirige o país também. Lukashenko não quer ser outro Ianukovich. Putin tem de ter tudo isto em consideração e não mostrar parte fraca ao que considera uma provocação da Ucrânia. O seu pior pesadelo seria que o afastamento da Ucrânia da órbita de Moscovo contagiasse outras ex-repúblicas soviéticas que continuam, de bom ou mau grado, fiéis servos da Rússia. É um jogo perigoso o de Putin. Perigoso para a Rússia e para todos nós na Europa, afastada que pensávamos a possibilidade de uma nova guerra no nosso continente, onde a UE tem sido o garante de uma paz duradoura entre Estados, outrora inimigos ancestrais durante séculos.
Esperemos que esta crise se resolva e se torne apenas uma linha num parágrafo menor da História da Europa. Esperemos que a Rússia perceba que o reino oligarca de Putin, que dura desde 1999, apenas favorece as elites e não os cidadãos, e o povo russo entenda o seu desígnio europeu, dentro da UE, ou de uma UE diferente, alargada, maior, que poderá até ter uma denominação diferente – porque não "União Euroasiática", estendendo-se de Lisboa a Vladivostok? –, sem uma Rússia dominadora, mas parceira.
Esperemos que o povo e os dirigentes da Rússia futura entendam que é a bem que se constitui uma união e não pela força. Todos os que o tentaram pela força fracassaram, desde Alexandre Magno a Hitler. Há que aprender com a História, para não repetir os erros do passado. Os erros pagam-se caro e custam muitas vidas.
José Luís Correia
(in Jornal CONTACTO, 05/03/2014)
Ao recorrer à escalada militar na Crimeia, enviando milhares de soldados russos para a Ucrânia, Vladimir Putin não só violou a integridade territorial de um país europeu, como prova definitivamente que nunca digeriu a queda do muro de Berlim e o consequente colapso da União Soviética, dois acontecimentos históricos que trouxeram mais estabilidade à Europa.
É o que todos nós acreditamos. Putin não! Mas será que ao acenar com a bandeira vermelha de uma guerra na Europa, que acende em nós as piores memórias da nossa história recente, Putin não estará a fazer bluff?
Quando algo acontece na actualidade e cujos contornos ainda permanecem indefinidos, quando os analistas políticos ainda não decifraram claramente as motivações dos quem e dos porquês, por deformação profissional coloco-me sempre a mesma questão: isto beneficia quem?
A resposta a que cheguei, no caso de uma eventual guerra Rússia-Ucrânia, é que não beneficia ninguém: nem a Rússia, que se quer impor como um parceiro sério no xadrez económico e político internacional; nem os EUA, a braços com uma crise económica interna e que não têm interesse em embarcar numa nova guerra, que os seus cidadãos nunca apoiariam; nem a UE, que tem tudo a perder com um conflito armado no seu seio; e muito menos a Ucrânia, que não quer ser palco de um teatro de guerra sangrento.
Mas, destes todos, talvez a Rússia seja o país que realmente mais tem a perder. O valor do rublo nunca esteve tão baixo e desde que a crise com a Ucrânia piorou, ainda se deteriorou mais. Ao lançar-se numa guerra com a Ucrânia, a Rússia arrisca-se a perder o seu lugar no G8, pelo qual tanto lutou nos últimos anos. Perderia também os seus melhores clientes do mercado do gás, cujas condutas atravessam a Ucrânia para chegar à UE. E veria parte da sua economia bloqueada, com as contas bancárias dos seus dirigentes e oligarcas congeladas na UE. Mesmo se graças a este braço-de-ferro com Kiev, Putin nunca esteve melhor nas sondagens domésticas, ao intervir na Crimeia perderia toda a credibilidade internacional, ele que tanto tem defendido a não-ingerência na guerra civil síria.
A Península da Crimeia (dez vezes maior do que o Luxemburgo), no sul da Ucrânia, é para a Rússia um ponto estratégico. Militar primeiro, porque é lá que está estacionada a frota russa do mar Negro, no que é também o seu único acesso ao Mediterrâneo. Político e cultural também, porque os russos são a nacionalidade dominante da região e porque, historicamente, a Crimeia sempre foi russa. A região foi doada por Khrushchev à Ucrânia em 1954. Na altura, o gesto foi simbólico, já que a Ucrânia e a Crimeia faziam parte da URSS.
Mas revelou-se um presente envenenado quando, em 1991, os ucranianos se tornaram independentes, e a Crimeia lutou para ser uma região autónoma, não sem suscitar tensões com Kiev. Para continuar a ter ali a sua frota, Moscovo concordou em pagar uma renda anual à Ucrânia, num acordo benéfico para ambos os países e que expira em 2042. Mas sempre que o Governo de Kiev adopta uma preferência pró-UE (esta não é a primeira vez!), em detrimento da aproximação ancestral com a Rússia, as tensões agudizam-se.
Para muitos ucranianos, destituir Ianukovich significou livrar-se de um ditador que servia os interesses de Moscovo e que nem ucraniano falava. Para os pró-russos, o novo regime de Kiev é fascista, aliena-os do estatuto de protectorado da Mãe-Rússia de que gozavam, e a destituição de Ianukovich foi um golpe de Estado, incentivado pela UE e pelos EUA, o que não está longe da verdade.
Como em tudo, aqui há muitas áreas cinzentas e sobretudo muitos interesses económicos. Moscovo teme que os seus interesses sejam prejudicados na Ucrânia, com quem tem acordos económicos, como o do gás russo exportado para a UE. Se a Ucrânia pedir a adesão à UE, Putin terá de desistir da ambicionada "União Euroasiática" – bloco económico e político que Putin almeja constituir face à UE, da qual fazem já parte o Cazaquistão e a Bielorússia (ambos governados por ditadores pró-russos) –, e que sem Kiev não faz sentido.
Tudo isto leva a pensar que Putin está a fazer bluff. Nos últimos dias tem dado uma no cravo, outra na ferradura. No sábado, enviou mais tropas para a Crimeia, no domingo aceitou a mediação de Angela Merkel para dialogar com Kiev, na segunda-feira lançou um ultimato à Ucrânia, na terça mandou os seus soldados na Crimeia regressar às casernas. Quo vadis?
A ser bluff, este serve como mera demonstração de força, que visa provar toda a magnanimidade de Putin quando este propuser outras opções à guerra. Moscovo deverá então propor mais vantagens económicas e políticas à Ucrânia para que esta não se aproxime da UE. Putin pode ainda apresentar-se como salvador da Crimeia, exigindo a independência da região, o que a Ucrânia tem todo em interesse em aceitar, pouco perdendo com essa opção. Putin tem de mostrar que a Rússia é um gigante que não se deixa demover pelos seus vizinhos, nem pela UE, nem pelos EUA, nem por ninguém.
O povo amordaçado da Bielorússia está de olhos postos na crise do vizinho ucraniano. E o ditador pró-russo que dirige o país também. Lukashenko não quer ser outro Ianukovich. Putin tem de ter tudo isto em consideração e não mostrar parte fraca ao que considera uma provocação da Ucrânia. O seu pior pesadelo seria que o afastamento da Ucrânia da órbita de Moscovo contagiasse outras ex-repúblicas soviéticas que continuam, de bom ou mau grado, fiéis servos da Rússia. É um jogo perigoso o de Putin. Perigoso para a Rússia e para todos nós na Europa, afastada que pensávamos a possibilidade de uma nova guerra no nosso continente, onde a UE tem sido o garante de uma paz duradoura entre Estados, outrora inimigos ancestrais durante séculos.
Esperemos que esta crise se resolva e se torne apenas uma linha num parágrafo menor da História da Europa. Esperemos que a Rússia perceba que o reino oligarca de Putin, que dura desde 1999, apenas favorece as elites e não os cidadãos, e o povo russo entenda o seu desígnio europeu, dentro da UE, ou de uma UE diferente, alargada, maior, que poderá até ter uma denominação diferente – porque não "União Euroasiática", estendendo-se de Lisboa a Vladivostok? –, sem uma Rússia dominadora, mas parceira.
Esperemos que o povo e os dirigentes da Rússia futura entendam que é a bem que se constitui uma união e não pela força. Todos os que o tentaram pela força fracassaram, desde Alexandre Magno a Hitler. Há que aprender com a História, para não repetir os erros do passado. Os erros pagam-se caro e custam muitas vidas.
José Luís Correia
(in Jornal CONTACTO, 05/03/2014)
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quinta-feira, 3 de outubro de 2013
Enquanto houver Obama há esperança
| Foto: AFP |
Os dois países tinham relações diplomáticas cortadas desde 1979.
Para que este passo histórico fosse dado, um dos mais importantes desde o fim da Guerra Fria, foi necessário a chegada de duas peças fundamentais no xadrez mundial : Obama e Rohani.
O reformista Rohani chegou ao poder em Junho e, em poucos meses, deu mostras de uma real vontade de abrir Teerão ao Ocidente. Uma atitude que contrasta diametralmente com o seu antecessor, o conservador Mahmoud Ahmadinejad.
Rohani multiplicou intervenções e entrevistas na imprensa americana e europeia, nas quais afirma querer fazer avançar o sensível dossier nuclear iraniano, parado há oito anos. Na semana passada anunciou estar já a discutir com a Agência Internacional da Energia Atómica, por forma a provar que o Irão não está a desenvolver armas nucleares.
Sincera ou não, uma tentativa de aproximação entre Teerão e Washington tinha já sido tentada em 2006 por Ahmadinejad, mas George W. Bush nem sequer respondeu à carta do então presidente iraniano, o que acabou por envenenar ainda mais as relações.
Obama, por seu lado, deixou que Rohani multiplicasse as provas de abertura da república islâmica ao mundo e o telefonema histórico que atendeu deixa pensar que uma real aproximação é possível entre Teerão e o Ocidente.
O Prémio Nobel da Paz 2009, que muitos julgavam demasiado enleado na política doméstica, começa finalmente a mostrar a nível internacional que mereceu o galardão que a Academia Sueca lhe atribuiu em 2009.
Obama deu mostras de ser diferente de Bush também numa outra questão internacional recente: a questão da Síria. Obama não se deixou influenciar pela opinião pública mundial nem pelo lobby do sector do armamento americano, que o instigavam a atacar Damasco, para « punir » e destituir o presidente sírio por este ter alegadamente ordenado um ataque a civis com armas químicas.
Obama esperou pelas conversações a nível internacional, tentou a via diplomática e inspectores da ONU passaram pela Síria, o que levou o Conselho de Segurança das Nações Unidas a decidir, esta semana, acabar com todas as armas químicas naquele país.
A resolução da ONU, assinada em conjunto por Rússia e EUA, dita o fim das armas químicas, sem culpar o regime de Al-Assad nem as facções radicais islâmicas, que tinham interesse na entrada de tropas estrangeiras no país que destituissem Al-Assad, como aconteceu com Saddam Hussein no Iraque.
Para quem se dizia há tempos desiludido com Obama, considere apenas isto : tivesse sido o seu opositor republicano a vencer as eleições em 2008 e hoje os EUA, e o mundo (ou uma boa parte dele), estariam em guerra com o Irão e a Síria. E sabe-se lá com que possíveis alastramentos naquela zona do globo.
Claro que é conjectura, mas é baseada em oito anos de « bushismo » e tudo deixa pensar que John McCain, veterano do Vietname, à semelhança de « W », iria seguir a mesma política ou mesmo agudizá-la.
A guerra civil síria, que dura há dois anos, parece ter finalmente um fim à vista, se a comunidade internacional conseguir fazer pressão sobre o regime de Al-Assad e se os EUA e Rússia se mantiverem do mesmo lado do prato da balança, sob a égide da ONU.
Finalmente, o grande perdedor nisto tudo foi o presidente francês François Hollande, que estava decidido a ser visto como um grande líder nesta questão, se mostrou logo muito decidido a fazer justiça na Síria - ao lado dos americanos, ele que tanto criticava Sarkozy por assim agir na cena internacional.
José Luís Correia
(artigo publicado no site www.wort.lu/PT)
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sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013
Gaffe Diplomática: Bruxelas iça bandeira de Portugal com pagodes em vez de castelos
A bandeira de Portugal na entrada da sede do Conselho Europeu, em
Bruxelas, foi substituída antes da cimeira de líderes de quinta-feira, depois de
ter sido constatado que continha pagodes em vez dos tradicionais
castelos.
O “defeito” foi detectado por eurodeputados do PCP, que repararam numa fotografia tirada ao presidente do Eurogrupo, Jean-Claude Juncker, na última reunião dos ministros das Finanças da zona Euro: a bandeira portuguesa exposta na entrada do Conselho em vez de ter o escudo português com sete castelos tinha o que pareciam ser sete pagodes.
Comentando que “a adulteração não deixa de ser irónica à luz da recente alienação ao capital estrangeiro de importantes (estratégicas e lucrativas) empresas públicas portuguesas do sector energético, na sequência dos processos de privatização promovidos e apoiados pela UE e pelo FMI”, os deputados João Ferreira e Inês Zuber enviaram uma pergunta ao Conselho, questionando que medidas seriam tomadas para corrigir a situação e a que é que se devia tal adulteração.
A bandeira em causa, na chamada “entrada VIP”, entretanto substituída, tendo fonte diplomática confirmado que a representação de Portugal junto da UE solicitou aos serviços do Conselho que se procedesse à substituição das bandeiras defeituosas ainda antes da cimeira que decorre quinta e sexta-feira em Bruxelas.
A mesma fonte adiantou que, entre os vários “kits” de bandeiras no Conselho, aquele que apresentava o defeito na bandeira portuguesa havia sido oferecido pela presidência italiana da União Europeia em 2003, o que não significa que tenha sido sempre esse a ser utilizado desde então.
O “defeito” foi detectado por eurodeputados do PCP, que repararam numa fotografia tirada ao presidente do Eurogrupo, Jean-Claude Juncker, na última reunião dos ministros das Finanças da zona Euro: a bandeira portuguesa exposta na entrada do Conselho em vez de ter o escudo português com sete castelos tinha o que pareciam ser sete pagodes.
Comentando que “a adulteração não deixa de ser irónica à luz da recente alienação ao capital estrangeiro de importantes (estratégicas e lucrativas) empresas públicas portuguesas do sector energético, na sequência dos processos de privatização promovidos e apoiados pela UE e pelo FMI”, os deputados João Ferreira e Inês Zuber enviaram uma pergunta ao Conselho, questionando que medidas seriam tomadas para corrigir a situação e a que é que se devia tal adulteração.
A bandeira em causa, na chamada “entrada VIP”, entretanto substituída, tendo fonte diplomática confirmado que a representação de Portugal junto da UE solicitou aos serviços do Conselho que se procedesse à substituição das bandeiras defeituosas ainda antes da cimeira que decorre quinta e sexta-feira em Bruxelas.
A mesma fonte adiantou que, entre os vários “kits” de bandeiras no Conselho, aquele que apresentava o defeito na bandeira portuguesa havia sido oferecido pela presidência italiana da União Europeia em 2003, o que não significa que tenha sido sempre esse a ser utilizado desde então.
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sexta-feira, 23 de novembro de 2012
quarta-feira, 7 de março de 2012
O eixo da Terra está a mudar
O eixo da
Terra está a mudar
Como se o
centro de decisões e de negócios nunca pudesse ter sido Lisboa e - inverta-se os papéis -, a Alemanha o "hinterland"
europeu ou o "arrière-pays" continental. Estas duas palavras não têm
infelizmente uma boa tradução em português, pois o seu equivalente "o interior" ("país
real" é uma invenção da TV-reality show dos anos 90!), não
comporta o significado de "afastado", "esquecido, lá para trás", que os termos alemão e francês abrangem. Felizmente, a
História não dá razão aos epitetos que nos cognominam e a geografia não é uma
fatalidade. Lisboa já
foi dona de metade do Mundo e o seu "handicap" de hoje - a
periferia -, foi na Era dos Descobrimentos a sua mais-valia. E exemplos como
este abundam através dos tempos. Babilónia ou a Pérsia foram já as regiões
mais civilizadas do mundo, depois em declínio e esquecidas durante milénios, foram
novamente trazidas para o tabuleiro mundial graças ao petróleo. Como é que
Alexandre Magno conseguiu fazer da sua encravada Macedónia o centro de um império
que se estendeu através de um quarto do globo até às portas da Índia?
Como é que uma cidade como Roma construiu um império que ia da África do
Norte ao Médio Oriente e da Alemanha à Escócia? Também a América Central e do Sul
viram proliferar as civilizações mais avançadas do seu tempo quando a Europa
atravessava "os séculos escuros".
Lisboa já
foi o rosto com que a Europa fitou o mundo, recorda-nos o nosso oráculo
nacional Fernando Pessoa, na sua "Mensagem". Será que percebemos
bem a mensagem? E se o
"recado" de Pessoa fosse "Mens Ag(itat Mol)em", ou seja,
que o espírito comanda o corpo, expressão repescada à "Eneida"
de Virgílio. Mas se a mente
comanda a matéria, Deus quer, o Homem sonha e a obra nasce, então a
inteligência não se deixa ditar desditas pela geografia. Até porque a geografia
"acabou" e o homem hoje sabe ser ubíquo.
É
armado desta
sabedoria, sem ligar a fatalismos bacocos e desculpando-se com a
"soi-disant" geografia, que o Dubai, por exemplo, sabendo próximo o fim
do reino do ouro
negro, está a fazer nascer hoje a megalópole de amanhã, das areias
inóspitas do
deserto e bairros inteiros em cima de ilhas artificiais. Do mesmo
modo, o Luxemburgo, este improvável país que se quis independente sem
que
ninguém no século XIX acreditasse na sua perenidade, nem mesmo os
luxemburgueses, soube antecipar o fim da siderurgia e lançar desde os
anos 60
os pilares de outras economias (os serviços, a praça financeira, as
telecomunicações,
a logística) que asseguraram o futuro. E o Ducado agrícola das hortas de
subsistência de há dois séculos soube atravessar as convulsões
hegemónicas e geo-económicas do século XX,
e tornar-se um país política e economicamente estável, um burgo
centripeta, que
atrai populações e empresas dos quatro cantos da Europa e do Mundo.
Saber
governar é saber prever. Qualidade que têm tido alguns (friso alguns) governantes luxemburgueses (até agora !) e
que tem faltado singularmente à maioria dos políticos portugueses.
Onde está o
futuro de Portugal ? Quanto a mim, acredito que a língua é nossa melhor
embaixadora, que os caminhos que abrimos pelos mares e nos levaram ao achamento
do Brasil, a África e até Timor, são a rota instintiva a seguir para nos
projectarmos no futuro e num planeta cujo eixo está a mudar. O eixo da Terra está a mudar, mas não é o fim do Mundo.
Há muito que se previa que o centro económico do
planeta iria mudar-se do Atlântico para o Pacífico. Mas era uma leitura
enviesada. A China é hoje a potência mundial óbvia, mas a América do Sul (e não
apenas o Brasil), a Índia e África prefilam-se. O eixo não está a girar do
Atlântico para o Pacífico, antes está a mudar de hemisfério, do Norte para o
Sul.
Quando entendermos isso, saberemos como sair da actual
crise e criar uma nova era de prosperidade. Não só Portugal, mas a Europa. Portugal tem que, hoje mais do que
nunca, fortalecer os laços que teceu graças às suas Descobertas. Talvez assim Portugal
se cumpra, como sonhou Pessoa. Quanto à Europa, não se pode fechar em
fortaleza, tem que abrir-se ao Mundo, ou está destinada a que esses povos um
dia lhe virem as costas. E se num futuro não tão longíquo a Europa
demograficamente exangue precisar dos africanos? Ou se os europeus quiserem
emigrar para a África vizinha, esse gigantesco território riquíssimo, que há-de
tornar no continente emergente, e os africanos não quiserem lá os "refugiados"
do velho continente ? A Europa não pode declinar em
subúrbio flatulento da nova geografia mundial. Porque a geografia não é uma fatalidade, mas uma oportunidade.
O eixo da Terra está inelutavelmente
a mudar mas, e nós, saberemos acompanhar o movimento da tectónica económica ?
(in CONTACTO, 07.03.2012)
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quarta-feira, 15 de dezembro de 2010
Wikileaks: Urso italiano abatido por não se integrar na cultura alemã
NOTICIA LIDA NO JORNAL "PUBLICO"A morte do urso alemão
Um dos assuntos a receber atenção dos telegramas vindos da Alemanha em 2006 foi a novela à volta de Bruno, o primeiro urso selvagem a entrar na Alemanha em 170 anos, que acabou morto por caçadores na Baviera, diz a revista alemã “Der Spiegel”. As declarações do governador bávaro, Edmund Stoiber, foram restransmitidas a Washington pelo consulado de Munique. Stoiber discorreu sobre as várias categorias de ursos – “o urso normal, o urso maldoso e o urso problemático”. Disse que a Baviera teria “todo o gosto em acolher” o “urso normal”, “um urso que normalmente vive na floresta, não sai de lá e mata provavelmente uma ou duas ovelhas por ano”. No entanto Stoiber declarou que Bruno, que tinha vindo dos Alpes italianos, era “um urso problemático”. E assim, foi abatido. Análise dos diplomatas: o urso foi abatido porque não estava disposto a “adaptar-se à cultura e tradições alemãs”, como exige aos imigrantes repetidamente o ministro do Interior da Baviera. E os alemães, concluíram , apesar da capa ecológica e “verde”, ainda tem dificuldade em aceitar “natureza não domada”.
in Público 04.12.2010 ver link aqui
(artigo será retirado se o editor assim o solicitar)
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