sebenta de anotações esparsas, pensamentos ociosos, reflexões cadentes, poemas difusos, introspecções de uma filosofia mais ou menos opaca dos meus dias (ou + reminiscências melómanas, translúcidas, intra e extra-sensoriais, erógenas, esquizofrénicas ou obsessivas dos meus dias)
-
cahier de notes éparses, pensées oisives, réflexions filantes, poèmes diffus, introspections d'une philosophie plus ou moins opaque de mes journées (ou + de réminiscences mélomanes, translucides, intra-sensorielles et extra-sensorielles, érogènes, schizophrènes ou obsessionnelles de mes journées)

quarta-feira, 29 de março de 2006

Prevenção contra a Sida: "É difícil sensibilizar os portugueses"

 Robert Hemmer, médico e presidente do Comité de Vigilância da Sida e chefe do Departamento de Doenças Infecto-Contagiosas do Centro Hospitalar do Luxemburgo Foto: Marc Wilwert
Dos 63 novos casos de sida registados no ano passado, cerca de dezena e meia são portugueses. A comunidade lusa é aliás uma das "populações-alvo" do Plano de Luta Contra a Sida.

O Dr. Robert Hemmer, presidente do Comité de Vigilância da Sida e chefe do Departamento de Doenças Infecto-Contagiosas do Centro Hospitalar do Luxemburgo, vem mais uma vez confirmar que é difícil sensibilizar a comunidade portuguesa para o problema da sida, numa altura em que o flagelo volta a bater recordes de novos infectados no Grão-Ducado (ver artigo principal). Hemmer lamenta que a gravidade do problema "não esteja a ser entendida pela comunidade portuguesa", considerando-a uma das "populações-alvo" do Plano Nacional de Luta contra a Sida.

Sobre o que o plano prevê exactamente no que diz respeito à comunidade portuguesa, Hemmer explica que os pormenores só serão conhecidos depois do projecto aprovado pelo Conselho de Governo, adiantando, ainda assim que, "como é difícil sensibilizar os portugueses, queremos actuar no terreno onde a comunidade estiver, seja em manifestações culturais ou noutros locais". Insistindo na ideia de não estigmatizar a comunidade portuguesa, o médico revela-nos com alguma relutância que o número de portugueses infectados foi de cerca de 15 em 2005, acrescentando logo em seguida que "existe mais ou menos o mesmo número de luxemburgueses infectados". Instado a pronunciar-se sobre a ideia generalizada na comunidade portuguesa de que a maioria dos novos infectados portugueses são recém-chegados de Portugal, Hemmer desmente categoricamente, explicando que nos casos que foram detectados pelo seu serviço "eram tanto portugueses de cá como recém-chegados ao Grão-Ducado".

Uma das mensagens que Hemmer insiste em fazer passar é que a sida diz respeito a pessoas de todas as idades, sexo e origens, ninguém estando ao abrigo da doença se mantiver atitudes de risco com os seus parceiros sexuais ou na partilha de seringas contaminadas. E volta a recomendar o uso do preservativo como forma mais eficaz de protecção durante as relações sexuais (ocasionais ou frequentes) em que não se conhece o parceiro sexual.

José Luís Correia 
in CONTACTO, 29/03/2006

quinta-feira, 23 de março de 2006

Debate "cidadania vs nacionalidade" Ser cidadão de razão ou coração?



Para o filósoofo Hubert Hausemer, ser cidadão significa votar de forma interessada Foto: Tessy Hansen
Cidania e nacionalidade são uma e a mesma coisa? Os dois conceitos comportam em si os mesmos direitos e deveres?

É em torno destas questões que a associação de cidadania "La vie nouvelle", que se define como "pluralista, laica e independente" (composta por 17 membros de sete nacionalidades diferentes), lança o debate em antecipação da lei da dupla-nacionalidade que deverá ser votada ainda este ano na Câmara dos Deputados. Em cena estão personagens-tipo que vão deixando pistas de reflexão no ar sobre a temática.

"A nacionalidade é uma questão de coração e o coração não se pode dividir em dois", diz a personagem que interpreta uma portuguesa. A personagem francesa reivindica querer votar no Luxemburgo e em França.

O luxemburguês-tipo (típico) responde-lhe que se assim tivesse sido permitido durante o referendo sobre a Constituição Europeia o voto dela teria sido expresso com um "sim" no Luxemburgo e um "não" em França.

"O que é, no mínimo, um caso de esquizofrenia", denuncia. O público ri e a mensagem passa. Os resultados de um questionário a 120 visitantes do Festival das Migrações mostra que 47% dos inquiridos considera que para se ser cidadão basta residir há um certo tempo no Grão-Ducado. Mas são 15% a opinar que para se ser cidadão é preciso ter a nacionalidade.

A diferença entre as duas opiniões é grande e revela que cada um de nós tem uma noção diferente dos dois conceitos. Para alguns ser cidadão é aceder a direitos e deveres cívicos mas não aos que possuem os nacionais. Por exemplo, segundo a actual legislação em vigor no Luxemburgo, o cidadão residente não-luxemburguês tem direito de voto nas eleições municipais depois de cinco anos a residir no país, mas não pode votar nas legislativas. É uma questão de vontade política.

Para o filósofo Hubert Hausemer o problema põe-se exactamente nesses termos: pode considerar-se nacionalidade e cidadania conceitos iguais ou diferentes, dependendo do ponto de vista que se quer tomar. Pode-se, por exemplo, ter nacionalidade portuguesa, mas ser cidadão do Luxemburgo, como aliás, já acontece. Mas para Hausemer a cidadania não é apenas um direito de voto, mas uma "democracia participativa", ou seja, "o mais importante é participar de maneira interessada" e tomar "decisões responsáveis".

Do público, o sindicalista Eduardo Dias intervem para se exprimir pela dupla-nacionalidade e contra o direito de voto duplo. Dias considera necessário provar ligações concretas com o país de adopção para se aceder à nacionalidade, argumentando que esta deveria ser um direito para os filhos de estrangeiros que nasceram em solo luxemburguês quando atingem a sua maioridade.

José Luís Correia e Liliana Miranda 
in CONTACTO, 22/03/2006

quarta-feira, 22 de março de 2006

Ministra da Educação reafirma: "É importante conhecer as quatro línguas escolares"


A ministra da Educação admite que a escola luxemburguesa é muito selectiva e quer mudar o estado das coisas Foto: Guy Jallay
A reforma há muito esperada e mesmo reclamada no Ensino vai mesmo acontecer? Pelo menos é o que parece, a avaliar pelas novidades que a ministra da Educação quer introduzir. Dividir o sistema de ensino luxemburguês em ciclos, introduzir um bac (exame de fim de estudos francês) internacional nas escolas públicas, avançar com um novo sistema de avaliação dos alunos e de auto-avaliação das escolas e nomear directores para os estabelecimentos de ensino primário foram as novidades apresentadas este domingo pela ministra da Educação, Mady Delvaux-Stehres, no debate sobre o plurilinguismo proposto pelo Comité de Ligação e Acção de Estrangeiros (CLAE) no Festival das Migrações.

As exigências línguísticas da escola luxemburguesa fazem com que esta seja "efectivamente muito selectiva", admitiu a ministra. "O sistema de avaliação tem que ser mudado," considerou. Delvaux-Stehres adiantou que pensa introduzir brevemente um novo sistema de avaliação dividido em três partes: escrita, oral e compreensão. A ministra pretende também que o Ensino Precoce deixe de ter apenas função de "infantário" e passe a incluir uma componente mais estimulante para as crianças, como, por exemplo, um "despertar para as línguas".

Segundo a titular da pasta da Educação, "o mais importante é os alunos conhecerem as quatro línguas escolares do país: alemão, francês, inglês e luxemburguês. Já o grau de conhecimento de cada língua pode variar consoante a orientação profissional que o aluno pretender seguir". A ministra relembrou que os alunos luxemburgueses também enfrentam dificuldades com o francês. A introdução de ciclos no ensino levaria à seguinte divisão no sistema escolar: Pré-Escolar, um ciclo; Primária, três ciclos de dois anos cada; Secundário, dois ciclos ("7éme"/"8éme" e "9éme"/"10éme").

A ministra diz que desta forma se pode avaliar o aluno por ciclos e não por ano lectivo, podendo cada criança completar o ciclo de acordo com o seu ritmo. Segundo a responsável pela pasta da Educação, estes esforços de mudança visam combater "o drama dos alunos que saem sem formação profissional e sem diploma da escola".

AS PROPOSTAS DO CLAE 

Para o presidente do CLAE, o catalão Antoni Monserrat, apesar de 39,4% do tempo escolar ser dedicado ao estudo das línguas no Primário e 34,4% no Secundário – média muito superior à europeia –, milhares de alunos continuam a matricular-se em escolas belgas e francesas por o seu nível de alemão não corresponder às exigências da escola luxemburguesa, caso decidam seguir determinadas áreas do ensino clássico. Exemplo: as enfermeiras.

Depois de formadas, são cerca de mil a regressarem anualmente ao Luxemburgo, encontrando aqui emprego apesar de não falarem luxemburguês nem alemão. Maria-Luisa Caldognetto, da Comissão Escolar do CLAE, lembrou à ministra e ao público as propostas daquele Comité para o Ensino: é preciso deixar de falar em trilinguismo e preferir o termo pluringuismo, considerando as línguas da imigração uma mais-valia para o país e não um problema; a escola deve ser acessível a todos; aprendizagem da língua materna no Secundário; escolarização precoce e pré-escolar em luxemburguês; reformar os métodos de alfabetização em alemão, adaptando-os a todos, ou alfabetização em luxemburguês; estabelecer níveis de conhecimento; e formação de professores adaptada a estes objectivos, entre outros.

Para que todos os alunos sejam tratados de forma igual no ensino luxemburguês, Monserrat lembrou ainda que o CLAE reivindica uma "via escolar única" e não duas vias, como existem actualmente (clássico e técnico).

José Luís Correia e Liliana Miranda 
in CONTACTO, 22/03/2006

quarta-feira, 15 de março de 2006

No Palácio Grão-Ducal

A entrega do cheque fez-se na presença de colaboradores da obra e de representantes da Fundação Foto: Corte Grã-Ducal
Com as vendas do seu livro "A Família Grã-Ducal" Manuel Dias entrega cheque para ajudar pessoas necessitadas O fotógrafo e correspondente do CONTACTO, Manuel Dias, autor da obra "A Família Grã-Ducal" (editada em português, francês e alemão), entregou um cheque de 5.800 euros, benefício das vendas do livro, à "Fondation du Grand-Duc Henri et de la Grande-Duchesse Maria Teresa".

Por ocasião de uma recepção que se realizou recentemente no palácio grão-ducal, Jean-Jacques Kasel, marechal da Corte e presidente da Fundação, Paul Meyers, vice-presidente, e Aline Schleder-Leuck, membro do conselho de administração, agradeceram em nome da fundação ao fotógrafo português. Os lucros das vendas deste livro editado em 2004 e que vendeu já mais de milhar e meio de exemplares, revertem a favor desta fundação, cujo objectivo é ajudar as pessoas mais necessitadas da nossa sociedade.

"A Família Grã-ducal" reúne cerca de 400 retratos da autoria do emigrante minhoto, encomendados e aprovados pelo Grão-Duque Henri e a Grã-Duquesa Maria Teresa, que revelam aspectos inéditos da intimidade da família real. Colaboraram ainda nesta obra José Luís Correia (aka Alexandre Weytjens, para a tradução), Robert Theisen (redacção), Lucien Hilger (organização) e Manuel Schortgen (edição).

in CONTACTO
15/03/2006

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2006

Directiva Bolkestein "moderada" aprovada em primeira leitura

O texto inicial da directiva "Bolkestein" era acusado de favorecer o "dumping" social dos trabalhadores comunitários Caricatura: Olivier Jaminon
UE/ Supressão do príncípio do "país de origem" na liberalização dos serviços

Uma versão mitigada da polémica directiva sobre a liberalização dos serviços foi aprovada em primeira leitura pelo Parlamento Europeu, apesar da manifestação que levou 35 mil pessoas a Estraburgo, na semana passada. Um acordo entre as principais famílias políticas permitiu que uma maioria de deputados europeus aprovasse a 16 de Fevereiro, em Estrasburgo, um projecto de compromisso da controversa directiva "Bolkestein", que visa a liberalização dos serviços na União Europeia (UE).

 Depois de duas horas de discussões e mais de 400 emendas terem sido votadas, foi aprovada, em primeira leitura, uma versão moderada da directiva "Bolkestein" (elaborada pelo antigo comissário europeu do Mercado Interno, o holandês Frits Bolkestein), por 394 votos a favor, 215 contra e 33 abstenções.

Os eurodeputados decidiram suprimir o princípio do "país de origem", que fora o ponto mais contestado da proposta. Segundo aquele princípio, um fornecedor de serviços estaria sujeito à lei do país de que é oriundo, e não à do país onde vai exercer uma "missão temporária". Recorrendo ao famoso exemplo do "canalizador polaco" – que ilustrou os receios, em vários países, da possibilidade de uma invasão de mão-de-obra barata –, este poderá trabalhar em França com o seu equipamento, mas deve respeitar o direito francês e a protecção do ambiente.

ABERTURA AO MERCADO DE SERVIÇOS 

A nova proposta de directiva mantém a obrigação dos Estados-membros assegurarem o livre acesso no seu território aos fornecedores estrangeiros, nomeadamente através da supressão de barreiras consideradas actualmente discriminatórias e desproporcionadas.

Os Estados-membros não podem obrigar o prestatário de serviços estrangeiro a abrir uma filial no país onde prestará os serviços, impôr que este esteja inscrito num registo profissional nesse país nem impedi-lo de utilizar equipamentos do seu país de origem. Os governos nacionais vão poder continuar a restringir o acesso por razões de ordem, segurança e saúde pública e de protecção ambiental.

Os Estados-membros deverão fazer aplicar o direito do trabalho e as convenções colectivas em vigor para evitar o dumping social. Uma harmonização ao nível europeu dessas regulamentações está prevista cinco anos após a directiva entrar em vigor.

SERVIÇOS PÚBLICOS EXCLUÍDOS 

Ficaram excluídos do campo de acção da nova directiva muitos dos serviços inicialmente previstos, nomeadamente os serviços públicos não-comerciais, como a educação ou os transportes, mas também o sector audiovisual, a saúde, os jogos, o notariado, as agências de trabalho temporário e o sector social. José Manuel Durão Barroso já anunciou que a Comissão Europeia vai rever e corrigir a proposta inicial o mais depressa possível com base no texto agora adoptado pelos eurodeputados. O projecto será depois examinado pelo Conselho e regressará ao Parlamento Europeu no Outono, para uma segunda leitura. A liberalização dos serviços é considerada uma peça fundamental na criação do "mercado interno", que prevê o fim de todas as barreiras à circulação de pessoas, serviços, capitais e mercadorias entre os 25 estados-membros.

José Luís Correia 
in CONTACTO, 22/02/2006

terça-feira, 20 de dezembro de 2005

V Congresso da CCPL dominado pelo debate em torno da participação política e cívica

Participaram cerca de 80 pessoas neste Congresso, entre representantes do movimento associativo e convidados Foto: M. Dias 

Nada mais, nada menos que nove mulheres, das quais metade são jovens com menos de 25 anos, fazem parte dos 30 membros eleitos para o Conselho da Confederação da Comunidade Portuguesa no Luxemburgo (CCPL), num facto inédito na história deste organismo.

Esta votação foi a grande novidade que marcou o V Congresso da CCPL, que decorreu, no passado domingo, dia 15 de Dezembro, em Strassen.

Para José António Coimbra de Matos, Presidente cessante da CCPL, "este congresso e consequente votação foi um dos poucos actos cívicos e verdadeiramente democráticos que ainda se vêm no mundo associativo no Luxemburgo".

Outra das suspresas deveu-se aos resultados das eleições mostrarem que o candidato mais votado não foi o Presidente cessante, como se poderia prever, mas Maria Joaquina Carvalho, membro da Associação de Pais de Schifflange, bastante activa da CCPL, nomeadamente no Grupo de Ensino.

Para quem "agoirava" o Congresso da dissolução e a falta de interesse de muitos representantes do mundo associativo por este organismo, os resultados vieram provar que as mulheres e a nova geração, em particular, estão apostados em dar continuação a este projecto.

Participaram neste Congresso cerca de 80 pessoas. Além das Autoridades Portuguesas no Luxemburgo, faziam parte dos convidados, Marcel Sauber, Presidente do Conselho de Estado, Christiane Martin, Comissária para os Estrangeiros, Carlos Correia, Chefe de Gabinete do Secretário de Estado das Comunidades (em representação de José Cesário), os deputados portugueses Carlos Gonçalves (PSD) e Carlos Luís (PS), os Burgomestres de Strassen e da Cidade do Luxemburgo, Gaby Leytem e Paul Helminger respectivamente, os Deputados luxemburgueses Claude Wiseler (CSV) e Xavier Bettel (DP), bem como 46 representantes (inscritos) do Movimento Associativo, entre outros.

Na sua intervenção, Helminger defendeu que a CCPL deve continuar a ser o interlocutor privilegiado da Comunidade Portuguesa, não só a nível nacional mas comunal, porque é importante que esta fale a "uma só voz".

O Burgomestre da capital lamentou ainda que muitos não-luxemburgueses não se inscrevam nas listas eleitorais e que, sem isso, nunca conseguirão sensibilizar os partidos luxemburgueses. "Ou então estão tão satisfeitos do país onde vivem que nos deixam decidir tudo sozinhos?", gracejou.

Também o Cônsul-Geral disse considerar que a "Comunidade Portuguesa deve tornar-se parte inteira e integrante da sociedade luxemburguesa, participando não só na vida económica, mas também social e política do país".

O Presidente do Comité de Ligação e de Acção dos Estrangeiros (CLAE), Diogo Quintela, considerou este Congresso o começo de uma "redinamização de um organismo que o CLAE considera muito importante".

Este responsável evocou ainda a possibilidade das duas associações colaborarem juntas, em 2003, numa campanha de sensibilização para a inscrição nas listas eleitorais, já que "é impensável que 30% da população do Luxemburgo continue a ser excluída das decisões do Governo".

Para o Presidente cessante da CCPL, a integração "é o nosso principal objectivo". Na sua alocução, Coimbra de Matos revindicou que o Estado português assuma as suas responsabilidades em relação ao Movimento Associativo e à Juventude, defendeu a inscrição automática nas listas eleitorais e a dupla-nacionalidade.

"Recusamos o paternalismo do Estado Português e os favores do Estado luxemburguês. Queremos apenas aquilo a que temos direito enquanto cidadãos europeus", frisou. Mas, a par da questão da participação política, foram discutidas e abordadas outras de não menos importância, como: o papel das Associações de Pais de Alunos Portugueses, nomeadamente em relação às Associações de Pais luxemburguesas; o Ensino do Português no Luxemburgo; o Sistema Educativo do Grão-Ducado, questão onde Coimbra de Matos insistiu em frisar que considera "inaceitável que a Escola continue a ser um local de segregação e de exclusão!"; bem como a participação das mulheres e jovens na vida associativa, social e política.

Todos os temas discutidos fazem parte de um vasto Projecto de Programa de Acção, aprovado por maioria, neste Congresso e que abrange ainda questões como as estruturas da Comunidade Portuguesa, a representação da Comunidade em Órgãos Consultivos, as relações com as Autoridades Portuguesas, a Formação e questões sociais que preocupam a Comunidade no Grão-Ducado. Este Programa de Acção traça as grandes linhas de orientação da CCPL para os próximos dois anos. O Conselho deverá reunir em Janeiro, para decidir da constituição da Direcção e nomeação de um Presidente.

José Luís Correia, 
in CONTACTO, 20/12/2002

sábado, 3 de dezembro de 2005

Toma lá Luxemburgo! - revista à portuguesa veio até ao Grão-Ducado

Cristina Areia, Fernando Mendes e Carlos Areias Foto: M. Dias
No fim de semana de 20 e 21 de Novembro, o Luxemburgo viveu ao ritmo da revista à portuguesa. "Tomá lá Revista" trouxe-nos de volta aos palcos do Grão-Ducado o inimitável "pequeno" grande actor Fernando Mendes, a provar que os homens, e sobretudo os actores, "não se medem aos palmos".

Do já célebre trio que todos conhecemos da série "Nós, os ricos", apenas Carlos Areias o pôde acompanhar. A vinda de Rosa do Canto estava igualmente prevista, mas a acttiz sofreu um acidente nas vésperas da viagem e não os pôde acompanhar, para seu e nosso desgosto. Quem veio, para nosso prazer, foi a jovem actriz Cristina Areia e a cantora Cândida Branca-Flôr, de quem já tínhamos saudades de ouvir cantar e ver em palco. Apesar de poucos... foram bons!

Um verdadeiro espectáculo de revista à portuguesa com sketches cómicos e canções, ao qual o público se rendeu, desde os primeiros instantes, nos dois dias de espectáculo, tanto na capital, como em Differdange. O nosso Jornal teve a oportunidade de falar com os quatro artistas, sobre as impressões da sua passagem pelo Grão-Ducado. Quisemos também conhecer alguns dos seus novos projectos.

"As pessoas têm saudades deste tipo de espectáculo" Fernando Mendes mostrou-se satisfeito com o acolhimento a que teve direito ao chegar ao Grão-Ducado, dizendo que "o Luxemburgo foi o país da Europa onde fomos mais bem recebidos e onde o público aderiu melhor, com sorrisos, com aplausos e se deslocou em grande massa, para ver o nosso espectáculo". "Sentimos que as pessoas têm saudade deste tipo de espectáculo", disse Fernando Mendes, tentando explicar o sucesso desta "revista à portuguesa", que já levaram aos Estados Unidos, Canadá, Suiça, Alemanha e que brevemente estará em Paris. Fernando Mendes reconhece que a grande afluência a esta revista tem a ver com o grande sucesso da sitcom "Nós, os ricos," que passa regularmente na RTPi e que vai terminar brevemente.

Adiantou-nos, igualmente, que já recebeu convites para outros canais de televisão, para integrar projectos do mesmo género. Enquanto os projectos em televisão não avançam, confessou-nos que gostaria, e já há muito que pensa nisso, montar uma revista no Parque Mayer. "Pano para mangas" Carlos Areias, o actor que interpreta o papel do mordomo em "Nós, os ricos" reconheceu que, apesar de ser um actor sobejamente conhecido em Portugal, a sua carreira deu um salto, nomeadamente junto dos emigrantes, a partir do momento em que esta série começou a ser transmitida pela RTPi.

Carlos Areias lamenta um pouco o fim desta série já que, segundo ele, "há pano para mangas", o que é preciso é pegar bem no casaco. Sobre projectos futuros, disse não saber ainda nada de concreto, mas admitiu que o mesmo elenco da série vai provavelmente continuar junto, mesmo se for noutro projecto, ou noutro canal. "Mais uma novela, e Cinema talvez" Provando que "filho de peixe, sabe nadar", a actriz Cristina Areia, é filha de Carlos Areias e constituía o terceiro elemento deste elenco cómico.

Cristina Areia também não deixou de frisar a maneira carinhosa como foi recebida pelos espectadores portugueses do Luxemburgo. "Os espectáculos, para os nossos emigrantes, são sempre os mais emocionantes, porque nos acolhem com um carinho tão grande, que é quase sempre um público melhor do que o público português, lá em Portugal", disse.

No Luxemburgo o nome de Cristina Areia é pouco conhecido, mas em Portugal é já, apesar de jovem, uma conhecida actriz de revista, teatro e televisão. "Eu trabalho para os canais todos, mas vocês aqui só vêem a RTPi!", disse, como a edesculpar-se, com um sorriso. Foi precisamente na RTPi que a vimos recentemente na telenovela "Os Lobos".

É já em Janeiro, disse-nos, que vai começar a gravar uma nova novela da RTP, que deve estreiar no Verão na RTPi. Confiou ainda, estar à espera de um projecto para cinema, mas que, entretanto, gostaria de continuar a fazer espectáculos com o Fernando Mendes, que já acompanha há vários anos.

"Quero ajudar crianças abandonadas" Cândida Branca-Flôr, esteve pela última vez no Luxemburgo, há cerca de cinco anos. Desta vez regressou, mas trazida por um projecto diferente. Inseriu-se, naturalmente, nesta revista onde alternavam os sketches humorísticos com os seus maiores sucessos, com que nos brindou ao longo de quase duas horas de espectáculo. Adiantou-nos, que está já a trabalhar para o seu próximo álbum, mas que este não deverá sair antes do próximo Verão. Um álbum de originais que contará, igualmente, com alguns dos seus sucessos mais antigos, mas com arranjos novos, e canções de compositores seus favoritos, como é o caso do saudoso Carlos Paião.

Cândida Branca-Flor disse querer continuar "ligada à música, independentemente de continuar, ou não, a cantar. Gostava também de ajudar novos valores". "Tenho ainda projectos em relação a crianças portuguesas abandonadas, e tenho um convite para fazer um mega-concerto, em prol das crianças em Angola. Foram só dois dias, mas permanecerão inesquecíveis durante muito tempo, nas mentes de muitos de nós. Entretanto, fica a certeza de que os voltaremos a ver na RTPi.

José Luís Correia 
in jornal CONTACTO, 03/12/1999

sábado, 19 de novembro de 2005

Ramos-Horta em visita ao Luxemburger Wort

Visita do Nobel da Paz José Ramos-Horta ao Luxemburger Wort em 19.11.1998

sábado, 29 de outubro de 2005

Pequeno-almoço com... António-Pedro Vasconcelos: "Jaime" é o meu filme mais redondo, mais equilibrado"

António-Pedro Vasconcelos falou com José Luís Correia, 
em entrevista ao nosso jornal Foto: M. Dias

CONTACTO: Ficou surpreendido e contente por ver na ante-estreia do "Jaime" aqui no Luxemburgo uma sala do Cinema Utopolis completamente cheia? 

António-Pedro Vasconcelos: Fiquei contente, claro. Afinal nós fazemos os filmes para termos estes momentos. Não há nenhum autor que não tenha uma grande ansiedade quando faz um filme ou escreve um livro ao esperar o momento em que o público vai dar o veredicto. Apesar de haver muitos portugueses na sala, constatei que um filme não é necessariamente feito exclusivamente para um público nacional. Já tive essa experiência em Espanha, no Festival de San Sebastian, onde houve uma recepção ao filme idêntica, calorosa e entusiástica. Fazemos filmes sobre aquilo que conhecemos e portanto são filmes que têm a ver com a nossa cultura e que estão enraizados numa determinada realidade, mas podem ser feitos susceptíveis de serem apreciados por toda a gente pelo mundo inteiro, na medida em que falam de sentimentos e transmitem emoções partilhadas por culturas diferentes e pessoas diferentes. É isso que nos gratifica das dificuldades que nós tivemos.

CONTACTO.: Depois de oito anos afastado do cinema como é que resolveu lançar-se neste projecto? 

A.P.V.: Estive afastado durante cerca de quatro anos porque decidi aceitar responsabilidades políticas quer a nível nacional, quer a nível europeu com o Comissário Deus Pinheiro, porque me pareceu que havia qualquer coisa a fazer para tentar dar a volta às dificuldades que um cineasta que tenta fazer cinema encontra num país pequeno como Portugal e mesmo na Europa. Por isso achei que era um desafio quando me propuseram responsabilizar-me pelo audiovisual em Portugal e representar o nosso país nas instâncias europeias, e fazer com o prof. Deus Pinheiro uma reflexão sobre o futuro do audiovisual na Europa. Quando percebi que quer a nível português, quer a nível europeu não há vontade política para mudar as coisas, voltei. Voltei e tentei recomeçar a minha actividade. Tentei fazer vários filmes mas tive imensas dificuldades, sistematicamente os meus projectos foram recusados. O próprio "Jaime" foi "chumbado" por uma Comissão, presidida pelo Dr. Prado Coelho, que achou que o filme não tinha interesse nenhum. E estive assim durante 4 anos sem conseguir montar um único projecto.

CONTACTO: Este filme aborda o problema da exploração do trabalho infantil. Porquê a escolha deste tema? 

A.P.V.: Foi o produtor luxemburguês Jani Thilges, que eu já conhecia há muito tempo, e que conhece muito bem Portugal por já lá ter produzido outros filmes, que me propôs produzir um filme. Eu tinha vários projectos e ele escolheu este por lhe parecer o mais interessante. Escolhi este tema porque achei que o cinema português e europeu falavam muito pouco desta realidade e que era preciso chamar a atenção para isso. A partir daí construí-se uma história...

CONTACTO: Este é mais um da série de filmes feitos em colaboração com o Luxemburgo. O que pensa que esta troca traz tanto a um país como ao outro? 

A.P.V.: É sempre bom juntar mais do que um país, porque multiplicam-se os financiamentos, e um dos problemas que enfrentamos sempre é o dos financiamentos. Por outro lado, dá mais garantias que os filmes sejam estreados e vistos em mais do que um país. Esta co-produção também permitiu que este filme beneficiasse de técnicos muito competentes, nomeadamente no som e na decoração, que eram luxemburgueses, e de um belga na montagem. Foi um encontro feliz que nasceu do facto do Jani Thiltges conhecer muito bem o Luís Galvão Teles, que é um realizador radicado aqui no Luxemburgo, e como eu também conhecia o Luís, foi por essa via que a colaboração se fez. Eles criaram aliás uma sociedade em Lisboa [n.d.e.: trata-se da Fado Filmes] e têm a intenção de continuar a produzir com Portugal. Esta colaboração é muito boa para o cinema português, já que o Luxemburgo está no centro da Europa e irradia pelas suas raízes francófonas para todo o mercado da cultura francesa, o que é excelente para Portugal cujo grande problema histórico é o isolamento geográfico e cultural. Eu sou um cosmopolita e sempre defendi que as culturas têm condições para se universalizar ou então morrem e transformam-se em folclore.

CONTACTO: Como explica o sucesso de «Jaime»? 

A.P.V.: É sempre difícil, mesmo ao próprio autor, explicar um sucesso assim. Mas espero que o sucesso do «Jaime» se deva não tanto ao tema mas à maneira como é tratado, ou seja, ao meu carinho pelos personagens e a melhor maneira de tratar bem os personagens é tratar bem os actores. E penso que o facto dos actores parecerem pessoas, que é uma coisa que nem sempre acontece no cinema português, darem corpo aos personagens, transportarem emoções, sentimentos e viverem conflitos com os quais as pessoas se identificam facilmente, é o que explica o sucesso do filme. Eu gostaria de pensar que não é porque se fala do trabalho infantil ou porque trata de crianças. Os meus filmes de uma maneira geral, com altos e baixos, têm tido um sucesso idêntico – estou–me a lembrar, por exemplo, d' «O Lugar do Morto», que na altura fez até mais espectadores do que o «Jaime». Penso que é o facto de eu fazer personagens de carne e osso e tornar credíveis as situações, e espero não perder a mão nos meus próximos filmes.

CONTACTO: Como é que foi filmar com crianças? 

A.P.V.: Tornou-se fácil porque quer um, quer outro eram muito dotados. O mais difícil eram quando estavam juntos. Eu tenho filhos e sei como é, quando os miúdos estão juntos é sempre mais complicado... Foi fácil sobretudo porque perceberam ambos relativamente depressa o que era ser actor e representar.

CONTACTO: A crítica diz que este filme anuncia uma fase mais madura da sua carreira. Concorda ou pensa que este filme vem numa continuidade lógica e natural do seu trabalho? 

A.P.V.: Vem numa continuidade lógica, mas é lógico que o trabalho amadureça e portanto acho que é um filme mais amadurecido e talvez o meu filme mais bem construído ao nível da história do argumento, que é uma preocupação muito grande que eu tenho. Há outros filmes em que há momentos que eu gosto mais, mas este é talvez o meu filme mais equilibrado, mais redondo, e nesse sentido tem muito a ver com o que eu fiz antes, portanto é um amadurecimento óbvio.

José Luís Correia
in jornal CONTACTO 29/10/2000

quinta-feira, 20 de outubro de 2005

Duas vozes cantam duas cidades: O "fado" de Nápoles e a canção de Lisboa

Consiglia Licciardi e Nuno da Câmara Pereira Foto: M. Dias
Por iniciativa do Instituto Camões e do Istituto Italiano de Cultura, realizou-se, no passado sábado, no Teatro Municipal de Esch/Alzette, um serão dedicado ao Fado e à canção napolitana. Os "actores principais" deste diálogo entre o Fado e a Canção de Nápoles, foram o fadista Nuno da Câmara Pereira e a cantora Consiglia Licciardi, acompanhados pelos músicos Fernando Silva (guitarra portuguesa), Pedro Amendoeira (guitarra portuguesa), Carlos Velez (viola), Fernando Calado (viola), Giuseppe Licciardi (guitarra), Gianni Dell'Aversana (guitarra) e Michele Di Martino (mandolina).

Duas vozes, sete guitarras 

O público deixou-se encantar e rendeu-se, por completo, às vozes dos dois artistas, que interpretaram, cada um, canções das suas cidades respectivas sobre o tempo, a noite, o sentimento, o jardim, o bairro, o passado, o abandono, a tradição, a distância e o amor. Nuno da Câmara Pereira de um lado do palco, Consiglia Licciardi, do outro.

Cada emoção, cada lugar cantado à maneira de Lisboa ou de Napóles, ora na voz bem nossa conhecida de Nuno, ora na voz potentissima de Cristalina de Consiglia. Duas vozes, mas não ao desafio. Antes, numa mútua sedução, como uma serenata consentida.

Muito aplaudido pelo público foram sobretudo os desempenhos dos dois artistas, quando estes se exprimiam na Língua do outro: Consiglia não hesitou mesmo em usar o xaile preto, tipicamente português, para acompanhar Nuno da Câmara Pereira em alguns fados.

Um dos momentos altos do espectáculo foi um dueto da célebre canção italiana "Ó Sole Mio", cantado em Italiano e Português. Também muito apreciado, sobretudo pelo público português, foram alguns fados, que Nuno da Câmara Pereira não pode deixar de cantar, mesmo se não faziam parte do programa, prolongando assim, por mais meia-hora, o espectáculo.

Outro momento que conquistou o público, composto essencialmente por portugueses e italianos, embora houvesse também muitos luxemburgueses, foi quando os sete guitarristas em palco (três italianos e 4 portugueses) interpretaram, num majestoso tema instrumental, o "Interlúdio luso-partenopeu", sob forma de diálogo entre a guitarra portuguesa e a mandolina.

Depois do espectáculo, o CONTACTO falou com o fadista português que se declarou muito contente por estar de novo no Luxemburgo, e que aprecia muito a maneira como é recebido pela comunidade portuguesa aqui radicada.

Um projecto com quatro anos 

Nuno da Câmara Pereira disse-nos como tinha nascido este projecto e a digressão que têm feito pela Europa e Bacia mediterrância.

"Há uns quatro anos, encontrei a Consiglia num Festival de Música Mediterrânica, na ilha de Malta. Eu estava a representar Portugal com o Fado e a Consiglia a Itália, com a Canção napolitana. Sentimos a perfeita sintonia entre as duas canções e daí surgiu a ideia de cantar em dueto. Ambas as canções são bastante homogéneas, nostálgicas, mediterrânicas - a cultura portuguesa, tem, aliás, muito mais de mediterrânico do que possamos imaginar - e há muitos outros pontos comuns entre as duas cidades, Nápoles e Lisboa, e entre os dois povos."

"Já levámos este espectáculo ao Teatro de la Valleta, a Malta, à Sícilia, a Florença, a Nápoles, e a Tunes (Tunísia)", disse-nos.

Nuno da Câmara Pereira confiou-nos que foi um pouco difícil aprender a cantar em napolitano (diferente da língua italiana). Os dois artistas estão também a pensar imortalizar este espectáculo único num álbum. Para já, há a vontade de multiplicarem os concertos em Portugal e por toda a Europa.

O próximo local, na sua agenda, é o Funchal, onde estarão já esta noite (uma semana depois do Luxemburgo), num espectáculo transmitido em directo pela RTP Madeira. Depois, no fim do mês de Outubro, estarão na Argentina, no primeiro concerto do que será a sua digressão na América Latina, no próximo ano.

 "Uma experiência extraordinária" 

Consiglia Licciardi considera este projecto uma "experiência extraordinária", que o Fado de Lisboa e a Canção napolitana "são duas canções que falam de cidades à beira-mar, que falam dos mesmos sentimentos, da nostalgia, do amor".

Disse-nos que tinha sido muito difícil aprender a cantar em Português e confiou-nos que estava muito ansiosa e desejosa de actuar na Madeira, já que este será o seu primeiro espectáculo em Portugal. Confessou-nos que vai ser um momento forte para si, "como foi, há dois anos, para o Nuno, a primeira vez que ele cantou em Nápoles". Consiglia espera também que o espectáculo seja registado num disco,logo que uma Editora manifeste interresse. Nuno da Câmara Pereira tem novo disco, sem fado

Quanto a projectos a solo, Nuno da Câmara Pereira revelou, em primeira mão ao CONTACTO, que estava prestes a sair, nos próximos dias, um novo álbum seu, mas que não contemplava o Fado. "Este álbum chama-se 'A última noite', é um disco com música de sedução, música de dança em Castelhano e Português, música romântica, "slows", um 'fado dançável', onde contei com a participação de Rui Veloso, dos Tetvocal, do Jorge Fernando, da cubana Lucrécia, da Rosana (Ilhas Canárias), da espanhola Yolanda e até do guitarrista dos Pink Floyd, Snowy White", revelou-nos o fadista. "Já que há tantos cantores da canção ligeira que cantam Fado, porque não fazer o contrário, um fadista cantar música ligeira?", acrescentou.

José Luís Correia
in CONTACTO, 20/10/2000

segunda-feira, 26 de setembro de 2005

Serviço Voluntário Europeu: "Uma experiência única"

Carla Sofia Sousa Miranda em entrevista com o nosso redactor José Luís Correia 
Foto: Tessy Hansen 

Carla Sofia Sousa Miranda tem 22 anos, mora no Bairro da Ameixoeira, em Lisboa, e esteve durante dez meses a fazer o "Serviço Voluntário Europeu" (SVE) no Luxemburgo, no seio da Confederação da Comunidade Portuguesa do Luxemburgo (CCPL).

É formada em Estudos Europeus pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Antes de fazer o programa SVE já fizera o programa "Leonardo da Vinci" em 1998, ficando interessada pelo SVE desde essa altura, mas só se viria a decidir a seguir este programa depois de terminado o curso.

Porquê a CCPL? Carla diz ter-se candidatado a vários projectos do SVE para a França, Inglaterra e Luxemburgo. A motivação das suas escolhas fizeram-se pelo tema do projecto, mas também pela língua do país que a iria acolher. Estabeleceu contactos com outros projectos no Luxemburgo, mas optou pelo da CCPL.

"A maior parte dos outros projectos neste país tinham um âmbito mais social e cultural, com jovens e crianças das 'Maison de Jeunes' e 'Foyers de Jour'. Eu preferi a CCPL porque, além de poder vir a trabalhar com jovens, o projecto era mais abrangente e não se resumia apenas a isso", explica.

A decisão também foi influenciada pelo seu currículo académico. "Este projecto enquadrava-se melhor nos meus projectos futuros e no curso que eu tinha feito. Formei-me em Estudos Europeus, onde abordámos, inclusive, a emigração portuguesa no Mundo. Eu tinha também curiosidade em conhecer essa realidade", conta-nos.

Um país de várias comunidades 

O primeiro contacto com a comunidade portuguesa no Grão-Ducado correspondeu positivamente às suas expectativas.

"O que estudei em termos teóricos adapta-se perfeitamente ao Luxemburgo, embora na prática as coisas se revelassem diferentes. Os portugueses neste país tem características bem específicas e são um caso completamente à parte do resto da emigração portuguesa. Nunca imaginei vir encontrar uma comunidade tão fechada sobre si própria. Pensava que existia uma maior homogeneidade entre a comunidade portuguesa e a sociedade luxemburguesa. O Luxemburgo é um país de várias comunidades, de várias sociedades e é pena que assim seja, porque perde muito!"

"Mas o balanço do estágio é positivo", afiança, "foi bom trabalhar com a comunidade portuguesa, não conhecê-la apenas na teoria, mas saber quais são as suas necessidades, problemas e lutas".

Em termos culturais, profissionais e até pessoais revela-nos que sente que cresceu e evoluiu.

"Este estágio permitiu-me ter as primeiras experiências com o mundo do trabalho. Como se trata de um serviço de voluntariado não tinha um trabalho rígido, tinha flexibilidade horária. Como a CCPL é uma associação onde só colaboram voluntários, por vezes senti que pesavam demasiadas responsabilidades sobre mim, mas, simultaneamente, sentia que me atribuíam crédito para poder trabalhar livremente; que o meu trabalho era útil e que as pessoas confiavam em mim. Graças a isso, hoje tenho mais certezas sobre o que quero fazer, sei o que sei fazer melhor e as formas como gosto de trabalhar. Aprende-se muita coisa a viver num país do centro da Europa, tão parecido com a Alemanha, onde as pessoas são mais frias que em Portugal, mas mais metódicas e rigorosas. Os portugueses tendem a ser mais desorganizados, mas, face a um problema são mais inventivos e improvisam".

Carla admite que nem todos os SVE são como este, mas acredita que constituem sempre "uma experiência única". "É sempre positivo deixar o país, conhecer outras coisas, alargar horizontes", defende.

Segundo Carla, em Portugal uma experiência como estas, no estrangeiro, é considerada uma mais-valia no mercado do trabalho. E ficou tão entusiasmada que, entretanto, conseguiu convencer mais dois jovens do seu curso a trabalharem, este ano, para o projecto da CCPL, integrados no SVE.

Os dois jovens, Filipe Santos e Miriam Mateus já chegaram ao Luxemburgo, onde deverão permanecer até Julho de 2004.

Quanto à Carla, e depois deste projecto, procura algo que se enquadre no curso que fez, seja no âmbito dos assuntos europeus ou no do património e gestão cultural, em Portugal ou no estrangeiro, equacionando, inclusive, voltar para o Luxemburgo ou ir viver para França. Para mais informações sobre o SVE pode consultar, na net o site www.injep.fr/prog/SVE/jeunes.html ou a Agence National luxembourgeoise du Programme Jeunesse, tel. 4786477 (Myriam Putzeys).

José Luís Correia
in CONTACTO, 26/09/2003

sábado, 3 de setembro de 2005

Que lei, para quem? Touros de morte em Barrancos: contra!

Quando uma aldeia inteira apela à tradição para legitimar as práticas mais cruéis e sanguinolentas, pergunto-me afinal em que século estou?!

Esta manhã devo ter acordado na Idade Média ou numa época ainda mais recuada, em que se faziam ainda sacrifícios de animais de oferenda aos deuses. Afinal o homem evoluiu mas a sua bestialidade ficou?

É que esta manhã, fiquei de tal maneira enjoado e enojado que perdi a fome para o resto do dia, ao ler nos jornais e na televisão que a aldeia raiana de Barrancos continua a fincar o pé como um "gaiato teimoso e embirrento", contra todo o país e todas as leis se for preciso, e vai mesmo avançar, novamente, apesar das decisões dos tribunais, com mais uma Corrida de Touros de morte, durante as festas locais dedicadas a Nossa Senhora da Conceição.

Conhecendo bem tudo o que gira em torno da festa brava, por minha mãe ter durante muito tempo servido na casa de uma grande família de toureiros alentejanos, fui percebendo o orgulho alentejano, o gosto pelos cavalos, o respeito pelos touros. Respeito, é esse o sentimento que o toureiro tem pelo touro quando o enfrenta na arena. Depende da pujança e da "raça" do touro que a sua lide seja um espectáculo ou um "flop".

Ao contrário do que muita gente pensa, na "tourada à portuguesa", o touro não é morto ao sair da praça: primeiro retiram-lhe as farpas e é de imediato tratado. Muitos touros voltam às suas ganadarias e aos seus montados, onde poderão ser escolhidos para voltarem a ser toureados; outros são guardados pois a sua estirpe e qualidades de toureio exigem que ele perpetue a sua "raça", multiplicando os novilhos.

O que está aqui em causa, nesta discussão, é a morte gratuita de um animal, para fins puramente de diversão popular. O que nos termos da nossa sociedade dita civilizada é uma aversão, enquanto contrariedade, já que agimos comos animais e não como seres civilizados.

Não estou aqui para defender a tourada à portuguesa, cuja tradição é não matar os touros. Quero é manifestar o meu repúdio à morte gratuita, imputada a um animal, para puro delírio dos homens. Também a tourada à portuguesa tem o seu grau de crueldade. Por isso, sou, hoje, contra qualquer tipo de tourada.

Mas, a haver tourada, a portuguesa ainda pode ser considerada a mais equitável e digna, em relação à espanhola. Na portuguesa, há o toureiro que espicaça o touro de forma a instigá-lo a mostrar a sua fúria e "raça", e há também a figura do forcado que enfrenta o touro de mãos nuas, face a face. Aqui a luta sempre é mais equitável.

Já na tourada à espanhola o touro é picado pelos "picadores" de forma a ficar enfraquecido para que a tarefa do "matador" seja facilitada. Também aqui, o homem enfrenta o touro face a face, mas acaba por matá-lo.

É a superioridade do homem sobre o animal. Não haverá outras formas menos cruéis de exortar a nossa condição de seres "supostamente" superiores? Mais do que estas considerações todas, e sejamos contra ou a favor, há uma lei que fica por cumprir e à qual, um grupo de pessoas, quer fazer ouvidos moucos. A lei é para todos, e não há excepções, é o que nos ensinam.

A tradição não pode ser desculpa para excepções, e para que se continuem a perpetuar acções como estas, que em nada dignificam o ser humano e, neste caso preciso, Portugal e os portugueses. E se algum barranquenho argumentar que mais valia ser espanhol, eu respondo: com portugueses assim, quem precisa de espanhóis?

José Luís Correia 
(in jornal CONTACTO, 03/09/1999)

quarta-feira, 31 de agosto de 2005

Editorial: Portugal no divã

Portugal, "o país dos tristes", escrevia há dias Filipe Rodrigues da Silva, na sua crónica do "Diário Digital", apoiando-se em resultados do Instituto Alemão de Estudo do Trabalho, segundo o qual os portugueses são os cidadãos mais deprimidos de toda a União Europeia dos 15.

E a verificação faz-se no terreno! Em Portugal, quando saímos à rua, só se veêm rostos descompostos, testas franzidas, olhares alheados, pestanas sorumbáticas, ombros descaídos, corpos à deriva. É a crise ou o sermos tristes é uma característica idiossincrática portuguesa?

Já não me lembro se era numa história do famoso gaulês de capacete de asas aladas do Uderzo e do Goscinny que diziam que os celtiberos (leia-se espanhóis) eram esfuziantes, com o seu sapateado de talão forte (futuro flamenco), enquanto os lusitanos do alto alcantil já lamuriavam o seu fado...

Sempre fomos assim ou têm sido os sucessivos e incompetentes governos que afundaram a economia e a moral dos portugueses?

Neste momento somos um país de velhos, que se deixam ficar sentados a ver girar o Mundo, enquanto o quintal arde. Absortos em ontens gloriosos, coçando em êxtase o bigode anacrónico, envergando o pijama de império já roto no traseiro flácido. Só trocamos as ceroulas de flanela pelos calções demasiado curtos e deslavados do clube bairrista.

Regressámos à meninice. Em Portugal não há adultos. Isso obrigaria a aceitar responsabilidades e a prever o futuro, ou seja, governar. Tanto ao nível estatal como individual. O nosso país é um "desgoverno", gangrena que mina tanto a sociedade civil como a classe política, que a imita e reproduz. Ou será o contrário?

Governar é uma disciplina demasiado obscura, complicada e carece do imediatismo que lhe exigem as mentes obtusas. O Passado e a futebolística - esta última, ciência nacional por excelência - são as únicas matérias nobres que merecem palestras públicas mediáticas que resultam em acesas discussões e vivas polémicas, enquanto o país se desinteressa de si mesmo.

Que mais estimula o país? Os assuntos abaixo da cintura ou de dor de chifre do jet-set, por ecrã interposto ou nas fotos em papier glacé. E as inadiáveis idas à praia ao fim-de-semana - único lazer ainda gratuito -, e à nova loja do incontornável e atractivo centro comercial.

O país está reduzido a cinzas, mas já não se comove. Esmera-se no olvido colectivo. Além das nuvens de fumo negro que lhe toldam o horizonte, num espantoso exercício anti-mnemónico, faz delete ao emprego precário, às rendas em atraso, aos impostos que incham, ao ordenado nunca garantido, às facturas por pagar, ao débito que cresce no cartão de crédito, à frustração, à depressão e vai vivendo a sua própria "vidinha".

Na apatia geral alastra a prática nacional do "salve-se quem puder, que eu já estou safo", o egotismo, o egoísmo, o deixa-andar, o desleixe português, o adiamento constante do essencial.

Só assim se explica que:
a) continuemos a não investir suficientemente na Educação, única semente capaz de germinar um Futuro verdadeiramente prometedor;
b) a crise se arraste sem luz visível ao fundo do túnel, sem se aplicarem medidas eficientes, enquanto muitos, preferindo esquecer a lição socrática, voltam a nutrir no seu sebastianismo mórbido esperanças em presidenciais messiánicas;
c) tenhamos reagido tão tarde para apelar à ajuda internacional no combate aos incêndios, gastando rios de dinheiro em submarinos para combater inimigos-fantasma em vez de investirmos em meios aéreos para apagar os fogos, em muitos dos casos, postos.

Paradoxalmente, continuamos a esbanjar o "ouro azul" para que a relva continue a crescer bem verde nos hotéis dos turistas e a meter água nas decisões políticas, quando esta seria bem mais necessária nas matas que ardem.

José Luís Correia 
in CONTACTO 31/08/2005

terça-feira, 23 de agosto de 2005

"Déierschutzliga" - a Liga luxemburguesa Protectora dos Animais

José Luís Correia à conversa com Sylvie Mousel, da "Déierschutzliga" Foto: Á. Cruz 

Em Julho, publicámos um artigo (ver CONTACTO de 26/07/02) que denunciava o facto de algumas pessoas, com menos escrúpulos, simplesmente abandonarem os seus animais domésticos ao partirem para o estrangeiro, durante férias prolongadas.

Na altura, falámos com a secretária-geral da "Lëtzebuerger Déierschutzliga" (a Liga luxemburguesa de Protecção dos Animais), Sylvie Mousel. Voltámos a falar com Sylvie Mousel mas, desta vez, para sabermos mais sobre esta Liga luxemburguesa de Protecção dos Animais.

Mousel começou por nos dizer que a Liga existe há 96 anos e foi criada sob o Alto Patrocínio da Grã-Duquesa Mariana de Bragança. Existem sete secções regionais autónomas, distribuídas nas várias zonas do país, às quais a Liga fornece todo o apoio financeiro, quando necessário, ou jurídico, quando estas avançam com processos em Tribunal.

A Liga gere um orçamento anual de aproximadamente 3.500.000 francos, fundos que provêm de um subsídio da Edilidade da capital, dos seus sete mil membros (5 euros de quotização anual cada) e de donativos vários.

A Liga trata, entre outras coisas, da campanha de castração de gatos, através da sua Secção de Dudelange. Mas as suas preocupações e acções de protecção alargam-se a todos os animais, domésticos ou não.

Relações conflictuosas com os caçadores 

Mousel falou-nos ainda das relações conflituosas com as associações de caçadores. A instituição contesta, nomeadamente, a lei que autoriza os caçadores a dispararem sobre um gato se este estiver a mais de 300 metros de uma localidade.

A "Déierschutzliga" tenta também acabar com os sistemas de labirinto controlado onde as raposas capturadas são submetidas a caçadas virtuais, "o que é psiquicamente terrível para o animal", acusam. Os caçadores negam a existência de tais instalações.

Relativamente ao período que se segue ao nascimento das crias das raposas, a Liga está a tentar intervir junto do Governo para que este prolongue o tempo de caça proibida de seis para quinze ou dezoito semanas, defendendo que este é o tempo mínimo necessário para as crias aprenderem a sobreviver sozinhas.

Também contestada é a forma como os caçadores supostamente usariam animais vivos, como faisões criados em cativeiro ou gansos de asas presas, para treinar os seus cães para a caça. Para Setembro, está já agendada uma reunião entre a "Déierschutzliga" e os caçadores para tratar destes e doutros problemas.

Dá-se recompensa para mutiladores de cavalos 

Para concluir, Sylvie Mousel quis ainda chamar a atenção para a recompensa de 1700 euros, que está a ser dada às pessoas que tenham informações ou ajudem a identificar os autores das mortes e mutilações de vários cavalos, que tiveram lugar recentemente entre Leudelange e Roedgen e em Bertrange, ou contactando a Polícia Judiciária de Esch/Alzette (Comissário Krings), pelo tel. 53 18 19-805. Para mais informações pode contactar a "Lëtzebuerger Déierschutzliga", sediada no n°33, rue Adolphe, na Cidade do Luxemburgo, ou pelo tel. 45 45 35 (aberta das 8 às 12h e das 14 às 18h; encerrada aos sábados, domingos e feriados).

José Luís Correia, 
in CONTACTO, 23/08/2002

terça-feira, 16 de agosto de 2005

Gaston Roderes, chefe de Redacção do CONTACTO vai para a reforma

José Luís Correia entrevista Gaston Roderes Foto: Á. Cruz
Gaston Roderes, Chefe de Redacção do CONTACTO entre 1995 e 2002, retirou-se da vida profissional, no passado dia 1 de Agosto. Foi por esta ocasião que nos voltámos a encontrar com Gaston Roderes para uma pequena conversa de amigos, mais do que para uma entrevista, e falarmos da sua carreira de mais de 40 anos no Jornalismo, no seio da "Imprimerie Saint-Paul", e da sua experiência, nos últimos anos, à frente do CONTACTO. Gaston Roderes nasceu em 1940, na Cidade do Luxemburgo.

Viveu os seus anos de Juventude em Useldange e Cessange, frequentou o "Lycée des Garçons" de Diekirch e depois o da capital. Aos 21 anos entra ao serviço da "Imprimerie Saint-Paul" + (ISP, hoje renomeada "saint-paul luxembourg"), onde depois de trabalhar nos Serviços Administrativos, assume os comandos da Redacção Desportiva do "Luxemburger Wort" (LW); posteriormente inaugura e dirige a Rubrica Automóvel, função que viria a desempenhar até 2000.

Em 1995 é nomeado membro da Chefia de Redacção do LW. Reside há longos anos em Mamer, onde foi sempre activo a nível político, tendo sido durante 12 anos, Adjunto do Burgomestre.

CONTACTO: Depois de longos anos a trabalhar no mundo do Jornalismo, a reforma vem como o descanso merecido? 

Gaston Roderes: Sim, penso que é um repouso merecido, mesmo se nas primeiras semanas é difícil mudar os hábitos que regeram durante anos a nossa vida.

É difícil desligarmo-nos por completo do Jornalismo, daí estar contente por alguns colegas da Rubrica Automóvel continuarem a solicitar, de vez em quando, a minha colaboração. Não é portanto uma ruptura abrupta, porque uma longa carreira no Jornalismo não se corta como um fio, de um dia para o outro.

CONT.: Pode-nos contar como foi passar estes anos todos na "ISP" e no "Luxemburger Wort"?

G. R.: Quando assinei pelo "Wort" tinha 21 anos e acabado de fazer o meu Serviço Militar, obrigatório na altura. Estou contente por ter passado toda a minha vida activa no seio da ISP. Fui membro dos Serviços Administrativos, depois de alguns anos, chamaram-me para a Redacção Desportiva, na altura em que o "Wort" decidiu aumentar as suas páginas de Desporto.

Foi um desafio que aceitei e que marcou um período muito agradável da minha vida. Seguiu-se a Rubrica Automóvel, que começámos a partir do zero. Também essa foi uma época muito interessante da minha carreira. Viajei pelo Mundo inteiro e guardo boas recordações. Senti-me sobretudo muito honrado pela Direcção, que me convidou há cerca de seis, sete anos para ser membro da Chefia de Redacção. Ser membro do grupo "saint-paul", da Redacção e da Chefia de Redacção representou para mim uma grande honra.

CONT.: Durante a sua passagem pela Rubrica Desportiva estabeleceu contactos com grandes figuras do Desporto, como, por exemplo, Josy Barthel... 

G.R.: Sim, convivi de perto com Josy Barthel, enquanto ele foi Presidente do Comité Olímpico Luxemburguês. Depois quando foi Presidente da Federação Luxemburguesa de Futebol (FLF), pediu-me para eu ser o seu Acessor de Imprensa. Cruzei muitas outras personalidades internacionais do Desporto, entrevistei o então Presidente do Comité Internacional Olímpico, Juan Antonio Samaranch, aquando da sua visita ao Luxemburgo, antes dos Jogos Olímpicos de Sapporo (N.d.R.: XI Olímpiadas de Inverno, em 1972). Tive ainda a oportunidade de contactar de perto com o Grão-Duque Jean e o com o actual Grão-Duque Henri (n.d.R.: membros de honra do CSOL, enquanto Soberanos), quando este era jovem, nos famosos Jogos Olímpicos de Munique, em 1972 (N.d.R.: Olímpiadas de Verão), onde houve aquele trágico ataque terrorista ao bloco israelita... Tenho efectivamente recordações que não se apagarão tão cedo.

CONT.: No Jornalismo, as coisas mudaram muito no último meio-século? 

G. R.: Tudo evolui e o Jornalismo tem evoluído em todas as épocas. Aqui no Luxemburgo, evoluiu sobretudo depois do aparecimento da Televisão, nos anos 50. Mas as verdadeiras mudanças vieram mais tarde, no fim dos anos 60, quando tivemos que alterar o carácter das reportagens que eram feitas até aí: não bastava relatar os eventos de forma cronológica, era preciso acrescentar os antecedentes e o comentário. Tivemos que reinventar o Jornalismo e explorar os campos que a Televisão não podia, nem tinha tempo de trabalhar. Também ao nível técnico houve grandes evoluções: quando comecei no "Wort", os jornais ainda eram feitos com os caracteres de tipografia inventados por Gutenberg, e hoje é tudo feito por computador. Penso que devo ser dos raros membros da Redacção que conheceu três máquinas rotativas diferentes na ISP. Três rotativas na vida de um Jornalista também é um pormenor que marca (risos).

CONT.: Como vê o futuro do Jornalismo? Com optimismo? 

G. R.: Com um optimismo moderado. Mas tenho a profunda convicção que a Imprensa não se extinguirá se souber adaptar-se às necessidades da sociedade actual e se fornecer um trabalho de qualidade. Cada vez mais, os leitores são pessoas formadas e sabem fazer a diferença entre um Jornalismo sério e um que não o é suficientemente. Sério, não em relação ao conteúdo das reportagens, mas da qualidade do que se escreve, ou seja, do tratamento da língua que utilizamos, seja ela qual for.

CONT.: Quer falar-nos sobre a sua "aventura" no CONTACTO? 

G. R.: Quando me propuseram essas funções, hesitei em aceitar porque não sabia falar nem ler o Português. Mas, finalmente, concluiu-se que era necessário alguém que tivesse por missão coordenar o CONTACTO com os diferentes serviços do resto da empresa e que tivesse em conta, em estreita colaboração com a Redacção, a linha editorial da casa. Não me arrependo de ter aceitado, proporcionou-me muitos e bons momentos na minha vida quotidiana. Mesmo em fim de carreira, foi uma experiência muito enriquecedora, permitiu-me estabelecer novos contactos com a Comunidade e as Autoridades Portuguesas no Grão-Ducado, mesmo se lamento não terem sido mais intensas. É com orgulho que olho hoje para os anos que trabalhei com o CONTACTO, porque este foi afinal o único órgão de imprensa a ter tão bem evoluído e tanto, nos últimos anos. Desenvolveu-se ao nível redactorial, aumentou o seu volume de publicidade – o que hoje em dia não é de forma nenhuma evidente nestes tempos difíceis, sabemo-lo em toda a imprensa. No CONTACTO aconteceu exactamente o contrário e isso deveu-se sobretudo à evolução crescente do seu conteúdo redactorial. Hoje, com uma distribuição de 16 mil exemplares, tornou-se indiscutivelmente o principal elo de ligação entre a Comunidade Portuguesa e os restantes residentes do Luxemburgo.

CONT.: Já falámos do futuro da Imprensa. E para o CONTACTO, há um futuro? 

G. R.: Para o CONTACTO há um futuro que não tem directamente nada a ver com as reflexões que fiz há pouco, sobre a Imprensa em geral. Neste momento, não vejo razões para se pôr em questão o futuro próximo do CONTACTO. Com a sua taxa de penetração a um nível em constante crescimento (ver CONTACTO de 9 de Agosto de 2002) e havendo uma procura, cada vez maior, de informação por parte da Comunidade lusófona residente no Luxemburgo, hoje, mais do que nunca, o CONTACTO tem a sua razão de ser. E hoje é – ninguém o pode negar –, a publicação em Língua Portuguesa mais importante do Luxemburgo e penso que ainda vai continuar a ser assim, durante anos. Claro que é preciso ver como o jornal evoluirá e qual a sua relação com os jovens portugueses daqui. Se o dia chegar em que estes já não falem nem entendam o Português, evidentemente será preciso questionar a existência do jornal. Mas, a meu ver, não é para já. Espero que o CONTACTO continue nesta senda dos últimos anos. De uma pequena folha associativa, o CONTACTO conseguiu, em poucos anos, impôr-se no meio da Imprensa luxemburguesa, de uma forma que ninguém esperava.

CONT.: Para terminar, tem alguma mensagem especial para os leitores do CONTACTO e para a Comunidade Portuguesa em geral? 

G. R.: "Primeiro que tudo, gostaria de agradecer à equipa com a qual tive o prazer de trabalhar. Obrigado a todos os que confiaram em nós, especialmente aos leitores, que, estou convicto, continuarão fiéis ao jornal. Um obrigado também a todos os comerciantes e empresários que nos fizeram confiança a nível publicitário. Agradeço a todas as pessoas que tive a oportunidade de conhecer através do CONTACTO, com as quais vivi momentos muito interessantes. Espero que todos os Portugueses continuem a sentir-se bem no Luxemburgo. Aliás, o CONTACTO sempre defendeu que Luxemburgueses e Portugueses deviam viver juntos neste país e não cada para para o seu lado." Ao seu ex-Chefe de Redacção deseja o CONTACTO uma reforma repousante, descansada, mesmo se sabemos que continuará a colaborar com o "Luxemburger Wort", porque uma paixão e uma dedicação de 40 anos pelo Jornalismo não se acabam de um dia para o outro.

José Luís Correia 
in CONTACTO, 16/08/2002

sexta-feira, 29 de julho de 2005

Madredeus é "uma fantasia musical de raiz portuguesa", diz Pedro Ayres Magalhães

Fotos: Paulo Lobo
Formaram-se no final de 1986 e da formação original com Rodrigo Leão (Vox Ensemble), Gabriel Gomes (Sétima Legião) e Francisco Ribeiro restam apenas Pedro Ayres Magalhães (ex-Heróis do Mar) e Teresa Salgueiro, hoje acompanhados por Fernando Júdice (ex-Trovante), José Peixoto e Carlos Maria Trindade (ex-Heróis do Mar).

Hoje são um dos expoentes máximos da música portuguesa e os melhores embaixadores de Portugal no estrangeiro, com a sua música à qual se rendem multidões em países espalhados nos quatro cantos do mundo. Passaram, na última sexta-feira, dia 21 de Julho, por Wiltz, para participar no "Festival de Música e Teatro" daquela cidade. Era a terceira vez que vinham ao Luxemburgo. E, mais uma vez, valeu a pena.

Valeu a pena ir até Wiltz e ver aquele ambiente de pequena cidade rústica, no meio de montes e vales verdejantes que já conhecemos, sublimado pela primorosa música dos Madredeus e pela magnífica voz de Teresa Salgueiro, que a todos encantou.

O espectáculo começou eram 21 horas, ainda o sol banhava Wiltz com uma média luz. O crepúsculo caía e também a música dos Madredeus se ia tornando mais intimista e mais próxima do público. Este, na sua maior parte composto por luxemburgueses (notavam-se também muitos portugueses, claro!), rendia-se de corpo e alma à voz doce de Teresa Salgueiro.

No final, o grupo não pôde sair de palco sem um "bis" obrigatório e mereceu uma "standing ovation" (ovação de pé) emocionante. Depois do concerto, a organização do Festival convidou uma pequena comitiva para uma recepção com o grupo. Entre conversas de admiradores e autógrafos, o CONTACTO conseguiu falar com Teresa Salgueiro, Pedro Ayres Magalhães e Carlos Maria Trindade.

Uma das perguntas que fizemos aos três foi como definiam o seu som, questão que tem atormentado muitos críticos de música quando tentam "rotular" o género de música interpretada pelos Madredeus. Como se fossem preciso "rótulos" ou denominações para classificar esta música e os Madredeus! Os Madredeus de quem Miguel Esteves Cardoso disse (em 1987), muito antes de ter chegado a hora da consagração nacional e internacional, que esta era a melhor esperança da nação e esta música "um dos géneros da verdade".

"Uma música dedicada à língua portuguesa" 

CONT: Esta é a terceira vez que vêm ao Luxemburgo. Foi bom voltar a vir actuar cá? 

Teresa Salgueiro: Já há alguns anos que não vinhamos ao Luxemburgo. Das outras duas vezes que viemos foi em situações muito diferentes e o lugar em que tocámos não era tão agradável. Desta vez, o cenário era mais propício, estava algum frio, mas penso que as pessoas gostaram e apreciaram a música com muita atenção. Eu, pessoalmente, gostei muito de cá estar. Vivi esta terceira passagem por aqui com alegria, mas esta é uma visita muito breve, porque amanhã já vamos embora.

CONT.: Este concerto no Luxemburgo fez parte de uma digressão mais larga pela Europa? 

T. S.: Sim, estamos a meio de uma viagem. Chegámos aqui vindos de Roma, fizemos seis concertos em Espanha, e do Luxemburgo seguimos para a Croácia. Depois da Croácia vamos fazer o último concerto da digressão espanhola, a Santiago de Compostela e por fim estaremos em Londres, no dia 30 de Julho. Daí seguimos para Lisboa. Este concerto foi estreado em Paris, passámos ainda por Bruxelas, Belgrado, Antuérpia (Anvers), Jerusalém, Telaviv, Berlim, Hanôver. Em Agosto vamos pela primeira vez fazer um mês de férias, algo que nunca conseguimos fazer nestes dez anos de viagem. Depois do mês de Agosto vamos ao Brasil (Manaus), México, Argentina, Finlândia. Em Novembro e Dezembro está prevista uma digressão em Itália.

CONT.: Como explica este sucesso internacional dos Madredeus? 

T. S.: Não me compete a mim explicar este sucesso, cabe ao público. Mas penso que as pessoas gostam do estilo original de música que criámos. Acho que se nota também o gosto que temos em fazer concertos e estas grandes viagens que temos feito com a nossa música é que nos têm merecido o entusiasmo do público em tantos países diferentes. Penso que o público aprecia o ambiente particular que se estabelece, acho que temos uma música muito transparente, com que as pessoas se identificam. Temos viajado muito, as pessoas já nos conhecem e voltam a ver-nos e nós também queremos voltar a vê-las e retribuir-lhes o interesse e o entusiasmo que nos dão, com novas músicas.

CONT.: Daí neste concerto terem apresentado muitas novas canções... 

T.S.: Este é o concerto que preparámos e que estamos a apresentar este ano. Gravámos um disco no início deste ano, o ano passado foi preenchido por uma digressão com muitos temas conhecidos. Este ano, optámos por apresentar novas músicas. Se por um lado as pessoas podem gostar de ouvir músicas antigas, penso que gostam de saber da criatividade e vontade que os músicos têm de responder ao seu entusiasmo com novas criações. Eu, pessoalmente, gosto muito das canções novas.

CONT.: Como é que define a música dos Madredeus? 

T. S.: Acho que é um estilo de música completamente original. É música portuguesa, dedicada à palavra, ao canto da língua portuguesa. É uma música que visita muitos ouros estilos, tem essa liberdade. Mas não encontro uma definição particular, não tenho um rótulo para lhe dar...

CONT.: Além dos Madredeus, pensa, no futuro, numa carreira a solo, ou em projectos diferentes? 

T. S.: Até ao fim do ano vou andar em viagens com os Madredeus. Para o ano, é lançado o nosso próximo disco. O trabalho com os Madredeus é muito intenso e tem sido, no fundo, a minha escola, tem sido através destas canções, que são feitas para mim, que tenho crescido e aprendido até que ponto é grande este meu gosto pela música. Há algumas coisas que eu gosto de cantar que não são Madredeus, como canções tradicionais. Gosto também muito de cantar fado, mas não sei se um dia se virá a justificar e se terei disponibilidade para fazer um trabalho. Gostaria de poder vir a fazê-lo, mas não tenho ainda nada de concreto previsto nesse sentido.

(cont. na pág. seguinte) 


"Uma orquestra de bolso" 

CONT: Como foi esta visita ao Luxemburgo, um país onde os esperam sempre muitos portugueses fãs do grupo? 

Pedro Ayres Magalhães: Foi muito boa, visto que tocámos no quadro de um festival como este e num sítio dedicado à Música, um local extraordinário. Nos concertos anteriores que demos aqui tocámos num pavilhão, onde não é tão aprazível tocar. O Luxemburgo tem esta particularidade de quando vimos cá, esperamos sempre a presença da comunidade portuguesa. Sente-se o entusiasmo e o ambiente, é por isso particular.

CONT: Como define o som dos Madredeus? 

P.A.M.: Essa é mais uma preocupação enciclopédica que eu não tenho muito. Por vezes pergunto-me se Madredeus é música clássica, se é fado? É, em todo o caso, uma música anti-académica, feita por estudantes de música, que toca influências vagas da música popular, do pop-rock, no fundo, da música contemporânea do nosso tempo. Procuramos criar um repertório para a poesia portuguesa cantada, bem como para a guitarra clássica, guitarra brasileira, guitarra portuguesa, guitarra flamenca, buzouki, harpa. Imaginamos o que podemos tocar com as nossas guitarras, o sintetizador e a voz da Teresa, tentando ser o mais criativos possível para explorar todas as potencialidades deste "ensemble". Quando cheguei aqui estava a perguntar-me se os luxemburgueses iam pensar que isto era mesmo fado ou não, enquanto que todos os portugueses sabem bem que isto não é fado. Para os portugueses Madredeus é Madredeus, ninguém precisa de explicações! O reportório dos Madredeus é uma tradução do fado, uma música feita inspirada nessa música de Lisboa, uma inspiração poética no feitio do fado. Cantamos inspirados na música de Lisboa, sem cantar a música de Lisboa! Eu gosto de chamar à música dos Madredeus: "uma fantasia musical de raiz potuguesa". Ou então "uma orquestra de bolso", porque afinal são apenas quatro músicos e uma voz.

CONT: Quando esta aventura começou em 1987, no antigo Convento da Madre de Deus, em Xabregas (zona oriental de Lisboa), imaginavam que poucos anos depois viriam a atingir este êxito internacional? 

PAM: Quando começámos queríamos apenas fazer música diferente. Decidimos que era música para uma voz feminina, que não havia de ter baterias, nem percussões, senão não se ouvia nada do que ela cantava. Queríamos explorar música do tipo "Madrigal", as canções alentejanas, o fado, as baladas pop-rock. Nessa altura não nos preocupava ser famosos, preocupava-nos criar um repertório. Depois a nossa preocupação foi gravar esse reportório e apresentá-lo ao vivo. Ao príncipio fazíamos 20 concertos por ano, era uma coisa amadora na nossa vida, um divertimento. Foi assim até 1991 em que fizemos a nossa primeira digressão em Portugal que foi um grande êxito. Começámos inclusive a receber convites do estrangeiro. As tantas tivemos que decidir se íamos ser profissionais ou não, e que isso implicaria a possibilidade da nossa música ser editada em todo o mundo. Evitámos sempre demasiada exposição na tv e na rádio, concentrámo-nos nos concertos e na construção do repertório, tentando melhorar a música, viajando com ela. Isto nunca foi previsível em nenhum momento. Neste momento o grupo é uma coisa revolucionária. Acabamos de vir de uma tournée de seis concertos em Espanha, onde os Madredeus com a sua pequena orquestra tocaram, como aqui, em espaços da melhor música que se faz no mundo. Isto nunca foi possível imaginar nesses primeiros anos.

CONT.: Para os admiradores da voz do Pedro Ayres Magalhães, saudosos desta dos tempos da Resistência, em que interpretava nomeadamente os temas "Nunca Mais" (álbum "Palavras ao Vento") e "Perigo" (álbum "Mano a Mano"), quando é que podem esperar voltar a ouvi-la? 

P.A.M.: (risos) Eu não tenho muito jeito para cantar, embora goste muito de cantar. Esses discos, em que cantávamos todos juntos, + foram muito felizes ...

CONT.: A Resistência acabou definitivamente? 

P.A.M.: Quando nos encontramos falamos sempre nisso. Algumas das bandas naquela altura ainda não eram tão famosas como são hoje. Era sempre muito difícil juntar toda a gente e hoje ainda mais. Mas continuamos a ter esse sonho porque foi para nós algo importante...

"Um som único" 

CONT: Foi bom voltar ao Luxemburgo no quadro deste Festival de Música e Teatro de Wiltz? 

Carlos Maria Trindade: Este festival é muito bem organizado. Para nós é sempre bom, porque costumamos fazer este circuito de festivais por toda a Europa. As pessoas que frequentam estes festivais são pessoas que gostam de música e que têm um espírito aberto. Não precisamos só de um público que vá ver os Madredeus porque são famosos, mas porque ouvem a música, e este público acho que ouviu a música...

CONT.: Faço-lhe a mesma pergunta que fiz à Teresa e ao Pedro Ayres, como é que definiria a música dos Madredeus?

C.M.T.: É um som único, um som baseado em composições originais cantadas em Português, para a voz da Teresa Salgueiro, que é o mais importante. Isso é Madredeus.

CONT.: E consegue ter tempo para os seus outros projectos, nomeadamente a solo? 

C.M.T.: O José Peixoto e eu trabalhamos a tempo inteiro para os Madredeus, mas sempre que podemos trabalhamos nos nossos projectos individuais. É importante, perante nós próprios sabermos que ainda podemos fazer música de autores individuais e explorando mais a técnica instrumentalista. Quando compomos para os Madredeus sabemos que vamos compor para aquele grupo, para aquela voz e trabalhamos de maneira específica para os Madredeus, que é um grupo semi-acústico muito interessante.

Festival de Wiltz 2001 com Gilberto Gil

A actuação dos Madredeus em Wiltz foi um dos maiores sucessos dos últimos tempos, confidenciava-nos, no final do espectáculo, um responsável da organização.

"O recinto estava lotado, estavam cerca de 1100 pessoas. É um record para o Festival de Wiltz, que costuma ter entre 600 e 900 pessoas quando temos casa cheia. Só o Miles Davis igualou este número em 1991, quando veio cá", disse o mesmo reponsável, visivelmente satisfeito, adiantando "para o ano já estamos a pensar em cá trazer o Gilberto Gil".

A toda a organização do Festival de Wiltz um bem-haja por este tipo de iniciativas e por ter trazido até nós um dos melhores grupos e o mais internacional da música portuguesa.

Texto: José Luís Correia
Fotos: Paulo Lobo 
in CONTACTO, 28/07/2000

quarta-feira, 20 de julho de 2005

No Conselho de Imprensa do Luxemburgo

Foto: Marc Wilwert

De 8 de Março a 11 de Maio decorreram na "Maison de la Presse", na capital, cursos organizados pelo Conselho de Imprensa do Luxemburgo sobre a Constituição Europeia, finanças comunais e outros temas de interesse que acabaram por enriquecer os frequentadores dos mesmos.

Na semana passada, os 22 jornalistas que ali se deslocaram semanalmente receberam os diplomas: Jean-Marie Backes (Tageblatt); Ulrike Botzler (Télécran); Marion Bur (La Voix du Luxembourg); José Luís Correia (CONTACTO); José Campinho (Correio); Ralph Di Marco (La Voix du Luxembourg); Maurice Fick (La Voix du Luxembourg); Marie-Paul Fischbach (de radio 100,7); Alex Fohl (Tageblatt); Pascal Hansen (Tageblatt); René Hoffmann (Le Jeudi); Diane Klein (RTL); Joseph Lorent (d'Wort); Lucien Montebrusco (Tageblatt); Sascha Seil (Tageblatt); Fabienne Pirsch (Télécran); Tom Reisen (Tageblatt); Max Theis; (RTL); Wolf von Leipzig (d'Wort); Patrick Welter (Lëtzebuerg Journal); Marc Willière (d'Wort) e Raphaël Zwank (d'Wort).

in CONTACTO
20/07/2005

sábado, 16 de julho de 2005

Concerto de Sara Tavares: Arco-íris musical em Wiltz

Aos 26 anos, Sara Tavares é já um valor seguro da música em Portugal 
Foto: Jos. Scheer 

A meio caminho entre a África e a Europa, e com influências que vão desde o gospel e o jazz à bossa nova, passando pelo fado e pela música portuguesa, as canções de Sara Tavares conquistaram a cidade alta de Wiltz, no passado domingo.

A assistência – cerca de 300 pessoas – deixou-se aquecer pela voz solar da cantora, apesar da chuva e do frio que insistiam. Sara soube, a cada instante – com músicas como "Chuva de Verão" e "Tu és o Sol" – aproveitar o lento entardecer bucólico do local, para transportar o público num arco-íris musical que durou cerca de uma hora e meia. Afinal, ela era a estrela, o novo sol.

A jovem cantora, hoje com 26 anos, provou que fez uma longa caminhada desde a "Chuva de Estrelas" (programa da SIC, onde foi revelada, em 1994). Cantou músicas dos seus dois álbuns com voz sempre sentida e como se estivesse entre amigos. E estava, porque o público, até aquele que não conhecia o seu trabalho, rendia-se. "Estrela Mãe" (já a noite caía), escrita por Paulo de Carvalho e composta por Ivan Lins especialmente para si, foi um instante sereno.

Sara ofereceu ainda ao público "Balancê", do seu próximo álbum. Alternavam músicas suaves e outras mais batucadas e houve quem não resistisse a dar um pé de dança e saltasse da plateia para junto do palco. Trocando a guitarra pela percussão com bastante à-vontade, Sara encantou sobretudo em momentos únicos como quando cantou a solo a canção de embalar "Barquinho da Esperança", do seu primeiro álbum ("Sara Tavares & Shout", de 1996), um original das "Doce" (escrito, em 1984, por Pedro Ayres Magalhães e Miguel Esteves Cardoso), que revisitou com a sua voz quente, ao mesmo tempo que tocava "calimba" (um instrumento africano feito a base de palhetas).

No fim, e com o seu sorriso, Sara conseguiu mesmo contagiar os mais fleugmáticos e irredutíveis do público a acompanharem-na em "Mi ma bô" (canção do álbum do mesmo nome de 1999).

Em conversa com a nossa reportagem, confia-se seduzida por Wiltz: "Quem organiza este Festival tem uma visão com muita sensibilidade. É muito bonito. Cantei a primeira canção a capella com os passarinhos (sorrisos)... Apesar de ser um recinto ao ar livre, as pessoas respeitarem silêncio absoluto. É um lugar fantástico. Adorei!"

Sara ainda se lembra bem da sua passagem, há quatro anos, por Kockelscheuer.

"Quando vim cá pela primeira vez, estava muito entusiasmada, o disco tinha saído há pouco tempo. Era das primeira vezes que eu saía de Portugal com aquele disco. Havia aquela euforia de mostrar a música às pessoas", recorda.

E fala-nos da sua evolução desde então: "Embora o projecto usasse as mesmas canções como base, é agora diferente. Hoje, estou numa fase mais intimista, estou preparada para explorar outras sonoridades. Estou mais próxima não só das minhas raízes culturais e familiares, mas das minhas raízes pessoais e espirituais. Sinto-me mais madura, embora saiba que é um processo e que ainda sou muita nova." Este processo explica-o, afirmando-se profundamente mediterrânica.

"Nasci e cresci em Portugal e a música portuguesa esteve sempre presente. Depois, quando comecei a trabalhar, interessei-me muito pela música cabo-verdiana. Em Cabo Verde sou aceite como crioula, mas também sou vista como uma europeia. A minha música está também a meio caminho desses dois continentes", diz. O próximo álbum já está na calha, mas "não há datas", e justifica-se dizendo que "diariamente trabalho nas ideias, nos arranjos, serão essencialmente composições minhas. Estou num processo muito grande de descoberta da minha musicalidade. É isso que eu quero agora apresentar e partilhar com as pessoas".

Tendo optado pelo gospel em determinado momento da sua carreira, hoje, os seus sons mudaram, mos o essencial ainda lá está: "Acredito muito em Deus. Acho que a minha música é uma oportunidade de abraçar as pessoas e de lhes passar uma mensagem. Será sempre a mensagem bíblica de paz e amor, e de libertação para todos os povos". Não gosta que lhe chamem nem se considera embaixatriz de Cabo Verde, ao mesmo título que Cesária Évora, por exemplo. Diz antes que a sua voz representa a "nova geração, dos que nasceram em Portugal, no Luxemburgo, na Holanda, na América, onde há grandes comunidades da segunda e terceira geração de cabo-verdianos".

"Eu não canto os estilos tradicionais de Cabo Verde. A minha música é mais contemporânea, mais europeia, mais mestiça ainda que aquela mestiçagem". No fim do concerto, o público não a deixou partir sem um "encore". Voltou com "Borboleta" e a esvoaçar se foi... para voos mais altos. Por cá, esperamos pelo seu regresso.

José Luís Correia 
in CONTACTO, 16/07/2004

quinta-feira, 16 de junho de 2005

Jornal CONTACTO galardoado com Placa de Mérito das Comunidades Portuguesas

(Da esq. p/ a dta.) Álvaro Cruz, correspondente desportivo do CONTACTO, Pe.Belmiro, editorialista do CONTACTO, Paul Zimmer, director-geral da ISP, o secretário de Estado, José Lello, Natália Morais, correctora/tradutora do CONTACTO, José Luís Correia, redactor no CONTACTO, com a Placa de Mérito atribuída ao nosso jornal,Manuela Geraldes, secretária do CONTACTO e Gaston Roderes, chefe de Redacção do nosso jornal Fotos: M. Dias
No passado domingo, dia 11 de Junho, teve lugar no Cercle Municipal, na Place d'Armes da capital, uma cerimónia para assinalar o "10 de Junho - Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas", na presença do secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, José Lello, do embaixador de Portugal, Paulo Couto Barbosa, do cônsul-geral, Mário Damas Nunes, do vice-cônsul, António Martins Antunes, do deputado Paulo Pisco, do conselheiro social e cultural da Embaixada, Rui Dias Costa, e do chefe dos Serviços Sociais do Conulado, José Araújo.

Depois de passar por Hanover e Bruxelas, José Lello deslocou-se ao Luxemburgo por ocasião deste "10 de Junho" para homenagear três instituições, "pelo seu trabalho para a boa integração da comunidade portuguesa no Luxemburgo", com a Placa de Mérito das Comunidades Portuguesas. Um dos galardoados foi o nosso jornal, pelo seu 30° aniversário.

Paul Zimmer, director-geral da Imprimerie Saint-Paul, editor do CONTACTO, recebeu o galardão das mãos do secretário de Estado.

José Lello homenageou ainda o Grupo Desportivo "Os Lusitanos" pelos seus 25 anos (comemorados em 1999), na pessoa do seu presidente demissionário António Cerqueira, e o Centro de Apoio Social e Associativo (CASA) pelos seus 20 anos, representado pelo seu presidente José Ferreira Trindade.

Recebeu ainda a Menção Honrosa do Prémio Camões, a autora Maria Teresa Pimentel.

Depois da alocução de boas-vindas do cônsul-geral Damas Nunes, realizou-se um pequeno recital com os pianistas Adriano Jordão, conhecido artista vindo de Portugal e o jovem Michel Lopes, residente no Luxemburgo.

Michel Lopes começou por interpretar uma obra de Franz Liszt, a "Primeira balada em ré bemol maior", enquanto Jordão interpretou a "Fantasia Triunfal" de Louis Gottschalk. Esta obra é "uma fantasia, são variações sobre o hino nacional brasileiro", como explicou o próprio Jordão ao público, "já que estamos a comemorar os 500 anos do Descobrimento do Brasil", disse ainda. Depois, as duas gerações, interpretaram uma obra de Ravel, a quatro mãos.

Seguiu-se a actuação da jovem cantora Raquel Barreira, que acompanhada pelos seus dois guitarristas interpretou dois temas: o já célebre "Menino de sua mãe", poema de Fernando Pessoa musicado por Thierry Kinsch e um original do seu primeiro álbum em preparação, "Sete Colinas", com letra da cantora e música de Kinsch.

José Lello declarou-se muito satisfeito ter vindo celebrar com a comunidade portugesa do Luxemburgo, esta festa do 10 de Junho, declarando que, graças às comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo , "a nação portuguesa não tem fronteiras". Lello, evocou ainda o drama de Wasserbillig de há algumas semanas, "um dia de grande dor para a comunidade portuguesa".

O secretário de Estado teve ainda a oportunidade de se encontrar com representantes da Confederação da Comunidade Portuguesa no Luxemburgo, CCPL e do seu Grupo de Acção Jovem GAJ. Esta cerimónia terminou com um cocktail oferecido ao público presente.

JLC 
in CONTACTO, 16/06/2000