Há flores de manhã aos meus pés e só isso me faz sorrir. As flores fazem-me esquecer o pesadelo da madrugada.
Eu ia a uma vidente que se recusava a revelar-me o futuro. Mas uma bruxa, atrás de um caixote em madeira, daqueles velhos com que se acartava antes a fruta nos mercados, lia-me a sina em troca de 25 moedas. Eu ia morrer e já não me sobrava muito tempo. Eu escapara das outras vezes, mas desta não, eram o que diziam as linhas da minha mão esquerda, as cartas de Tarot, as runas, as estrelas, as borras de café, a bola de cristal, as vozes do entre-mundos e todo o coro dos fantasmas habituais da sua panóplia, que nunca erram quando erram e por tanto aí errarem sabem tanto, sabem tudo e não erram.
Acordei estremunhado. E chorei. O que há de pior do que chorar com pena de si mesmo? Não há nada pior, nada!
Mas, como todas as manhãs, levantei-me, procedi às abluções matinais habituais e saí de casa. Ao sair, um chão de flores, caídas durante a noite, fazia de tapete por todo o pátio até ao portão. E eu sorri. Flores? Que bom augúrio, pensei.
quinta-feira, 28 de junho de 2012
quarta-feira, 27 de junho de 2012
27 de Junho - Miúdas e miúdas
Garrão.
Há miúdas, é um pecado tão novas terem um corpinho já esculpido para o pecado. Aquilo só pode dar mau resultado. Ou se afirmam eroticamente juntos dos rapazes da sua idade ou com mania e presunção junto das colegas sem os mesmos atributos. Elas formam logo dois campos opostos: os das gajas e o das meninas. Eles? Eles nem sabem para onde olhar, tudo é tão novo e tentador. Aos 14 anos andam a passear um corpinho que só daqui a quatro saberão mesmo aproveitar, gozar, partilhar, dar.
Enfim, que sei eu, que aos 13, 14, 15, 16 anos me apaixonava platonicamente e não fodia nada, ao contrário de muitos dos meus colegas já sexualmente activos, ainda que muitos inconscientes e inconsequentes das suas acções. O meu despertar veio muito mais tarde, numa noite serôdia de Agosto.
(São pequenos, são grandes, são cheios, são seios.)
As inglesas adolescentes não são como as portuguesas. Aqui, um grupo beberica cerveja Sagres na praia sob o olhar complacente da mãe. A mais velhinha, talvez 16 anos, chega com um Kir Royal para ela e para a mater familias!!! Espectacular! O mundo globalizado afinal não se parece assim tanto, nunca vi putos portugueses desta idade a sorver álcool tão cedo pela manhã às vistas descaradas da figura materna...
Uma outra jovem, portuguesa esta, 16, 17 anos, biquini amarelo, bem desenhada e dourada pelo sol, cabelo castanho claro até às costas, tez morena, traz-me à memória um dia dos meus talvez 15 anos em que fiquei embasbacado ao olhar para o corpinho perfeito de uma colega de turma, quando fomos em grupo à praia, baldando-nos às aulas de uma tarde de Junho. Foi uma das minhas primeiras poluções nocturnas. É daquelas imagens que parecia já ter esquecido, mas a forma como se gravou na memória faz com que em momentos como volte a surgir por uma espécie de vão de escada da reminiscência.
Continuo a ler a extensa quase-autobiografia de Pessoa do Cavalcanti Filho. Pessoa escrevi sobre tudo, sempre, a qualquer hora, sobre qualquer assunto. Eu também me quero, mas as melhores ideias, as frases mais metafísicas, os pensamentos mais originais fogem quando puxo do caderno e da caneta, aparecem quando conduzo, desaparecem assim que estaciono...
E isto é o quê? Notas para o meu diário intermitente, para o meu caderno de itinerários? Escreve para aí, desalmado. Isto nunca dará em nada, então, porque insistes?
Há miúdas, é um pecado tão novas terem um corpinho já esculpido para o pecado. Aquilo só pode dar mau resultado. Ou se afirmam eroticamente juntos dos rapazes da sua idade ou com mania e presunção junto das colegas sem os mesmos atributos. Elas formam logo dois campos opostos: os das gajas e o das meninas. Eles? Eles nem sabem para onde olhar, tudo é tão novo e tentador. Aos 14 anos andam a passear um corpinho que só daqui a quatro saberão mesmo aproveitar, gozar, partilhar, dar.
Enfim, que sei eu, que aos 13, 14, 15, 16 anos me apaixonava platonicamente e não fodia nada, ao contrário de muitos dos meus colegas já sexualmente activos, ainda que muitos inconscientes e inconsequentes das suas acções. O meu despertar veio muito mais tarde, numa noite serôdia de Agosto.
(São pequenos, são grandes, são cheios, são seios.)
As inglesas adolescentes não são como as portuguesas. Aqui, um grupo beberica cerveja Sagres na praia sob o olhar complacente da mãe. A mais velhinha, talvez 16 anos, chega com um Kir Royal para ela e para a mater familias!!! Espectacular! O mundo globalizado afinal não se parece assim tanto, nunca vi putos portugueses desta idade a sorver álcool tão cedo pela manhã às vistas descaradas da figura materna...
Uma outra jovem, portuguesa esta, 16, 17 anos, biquini amarelo, bem desenhada e dourada pelo sol, cabelo castanho claro até às costas, tez morena, traz-me à memória um dia dos meus talvez 15 anos em que fiquei embasbacado ao olhar para o corpinho perfeito de uma colega de turma, quando fomos em grupo à praia, baldando-nos às aulas de uma tarde de Junho. Foi uma das minhas primeiras poluções nocturnas. É daquelas imagens que parecia já ter esquecido, mas a forma como se gravou na memória faz com que em momentos como volte a surgir por uma espécie de vão de escada da reminiscência.
Continuo a ler a extensa quase-autobiografia de Pessoa do Cavalcanti Filho. Pessoa escrevi sobre tudo, sempre, a qualquer hora, sobre qualquer assunto. Eu também me quero, mas as melhores ideias, as frases mais metafísicas, os pensamentos mais originais fogem quando puxo do caderno e da caneta, aparecem quando conduzo, desaparecem assim que estaciono...
E isto é o quê? Notas para o meu diário intermitente, para o meu caderno de itinerários? Escreve para aí, desalmado. Isto nunca dará em nada, então, porque insistes?
Rótulo :
caderno de itinerários,
diário incidental
terça-feira, 26 de junho de 2012
26 de Junho - Solidão, leitura, escrita e o prof. José Louro
As férias correm lestas para o fim e eu sinto-me só. Passo os serões a repetir a estrada que vai para a praia de Faro, talvez porque só a maresia e o cheiro a pinheiros mansos me acalme, talvez só o estar à beira-mar me sossegue, ou porque apenas o reencontro com este céu estrelado e familiar me faça sentir em casa.
Olho à minha volta, só casais abraçados, de mão dada, famílias com sorrisos felizes. E eu aqui, mais uma vez irremediavelmente só. Vou a um bar, ao chegar arrependo-me, vejo aquela gente feliz, em casal e com e amigos, rindo, bebendo, divertindo-se, aproveitando as férias ou simplesmente a bela noite. E como está bela e amena a noite. Arrepio caminho. Que vou fazer a um lugar onde se celebra com os outros eu que não tenho ninguém?
Os meus dias são todos inúteis, quem inventou os dias úteis? Escrever cansa-me, ler desmoraliza-me, descansar aborrece-me, ir à praia é chato. Pego no carro alugado e ando às voltas, queimo estrada.
Debaixo do alpendre da casa, as manhãs de Junho são amenas e frescas. Sopra do mar uma brisa que refresca as primeiras horas do dia e torna suportável o sol áscio. Disponho à minha volta livros e escrevo, como se o talento se transmitisse por osmose. Sento-me na mesa de mogno, rabisco ideias (todas batidas), frases (todas déjà vu), pensamentos (todos inanes). Pego noutro livro, folheio-o, deito-me no sofá esquecido ali, os crisântemos balouçam ao sol, a figueira ancestral esfolha-se na brisa, refolha-se e mira-me, até as palmeiras da vivenda vizinha me parecem já familiares e não fruto do adubo industrial da Primavera passada.
Passo de Pessoa a Rentes de Carvalho, depois viajo com Theroux e João Ricardo Pedro, folheio as antologias poéticas, Píndaro, Safo, Orfeu, Xenófanes, Sofócles, Aristófanes, Esopo, Virgílio, canso-me dos clássicos e regresso a António Barahona, Gastão Cruz, Diogo Vaz Pinto, A.M. Pires Cabral e todas as novas vozes de que não faço parte...
Por exemplo Diogo Vaz Pinto. Muito bom. Cada vez que descubro um novo talento, uma nova pena, questiono-me sobre a minha escrita, que sentido tudo isto toma, as minhas dezenas de cadernos amontoados, espólio ignorado.
Estive hoje com o professor José Louro e foi bom revê-lo. Numa casa nova, a duas daquela que partilhou com Zeca Afonso, confia-me, quando este foi professor em Faro. Falou-me de teatro, da sua vida, como veio de Coimbra, de que nunca gostou, para Faro, os grupos de teatro que ajudou a fundar, desde o da Universidade de Lisboa, que viria a dar origem ao Teatro da Cornucópia do Luís Miguel Cintra, ao grupo Sincera da Universidade do Algarve, "fundado num vão de escada".
"Esta era a casa do Doutor Cabeçadas", conta-me, e em novo ele passava por aqui com o Zeca e dizia, "Um dia quero morar numa casa como estas". Já reformado, uma sua amiga que mora em Lisboa, pediu-lhe para ocupar uma casa em Faro que ela não queria arrendar a estranhos. Era esta casa, a casa dos seus sonhos quando era jovem professor...
No seu escritório pequeno, por onde entra pelas frestas de uma janela semi-aberta o sol forte e luminoso da tarde que começa, está rodeado por livros de teatro e de poesia. "O resto dos livros estão na minha outra casa em Almancil. E quando um autor morre, traslado-o daqui para lá", ri-se. Está velho, mas rijo, forte, robusto, lúcido, muito lúcido, sempre uma galhofa inteligente na ponta da língua. Vêm-no visitar muitos antigos alunos, para o rever ou para pedir-lhe ajuda para projectos em que serve de mentor, foi-o de tantos, inspirou tantos, aos quais com paixão ensinou e transmitiu o seu amor pelo teatro e pela literatura. Fomos tantos.
Reconheceu-me logo pela voz, assim que falei pelo intercomunicador. Recebeu-me em roupão, "acabo de acordar", eram duas da tarde. Há quase 20 anos que não nos víamos, não falávamos, mas a conversa retomou como se fóssemos velhos amigos. O Luís Vicente já lhe tinha dito que me tinha encontrado no Luxemburgo e logo exortou-me a comparecer à sua presença, antes que fosse desta para melhor.
Falámos ainda de livros, de escrita, de escritores, do Nuno Júdice. Confirmou-me que "é um gajo calado". Já "o Casimiro de Brito fala pelos cotovelos". Ah, e rimos muito. Foi bom este reencontro.
Olho à minha volta, só casais abraçados, de mão dada, famílias com sorrisos felizes. E eu aqui, mais uma vez irremediavelmente só. Vou a um bar, ao chegar arrependo-me, vejo aquela gente feliz, em casal e com e amigos, rindo, bebendo, divertindo-se, aproveitando as férias ou simplesmente a bela noite. E como está bela e amena a noite. Arrepio caminho. Que vou fazer a um lugar onde se celebra com os outros eu que não tenho ninguém?
Os meus dias são todos inúteis, quem inventou os dias úteis? Escrever cansa-me, ler desmoraliza-me, descansar aborrece-me, ir à praia é chato. Pego no carro alugado e ando às voltas, queimo estrada.
Debaixo do alpendre da casa, as manhãs de Junho são amenas e frescas. Sopra do mar uma brisa que refresca as primeiras horas do dia e torna suportável o sol áscio. Disponho à minha volta livros e escrevo, como se o talento se transmitisse por osmose. Sento-me na mesa de mogno, rabisco ideias (todas batidas), frases (todas déjà vu), pensamentos (todos inanes). Pego noutro livro, folheio-o, deito-me no sofá esquecido ali, os crisântemos balouçam ao sol, a figueira ancestral esfolha-se na brisa, refolha-se e mira-me, até as palmeiras da vivenda vizinha me parecem já familiares e não fruto do adubo industrial da Primavera passada.
Passo de Pessoa a Rentes de Carvalho, depois viajo com Theroux e João Ricardo Pedro, folheio as antologias poéticas, Píndaro, Safo, Orfeu, Xenófanes, Sofócles, Aristófanes, Esopo, Virgílio, canso-me dos clássicos e regresso a António Barahona, Gastão Cruz, Diogo Vaz Pinto, A.M. Pires Cabral e todas as novas vozes de que não faço parte...
Por exemplo Diogo Vaz Pinto. Muito bom. Cada vez que descubro um novo talento, uma nova pena, questiono-me sobre a minha escrita, que sentido tudo isto toma, as minhas dezenas de cadernos amontoados, espólio ignorado.
Estive hoje com o professor José Louro e foi bom revê-lo. Numa casa nova, a duas daquela que partilhou com Zeca Afonso, confia-me, quando este foi professor em Faro. Falou-me de teatro, da sua vida, como veio de Coimbra, de que nunca gostou, para Faro, os grupos de teatro que ajudou a fundar, desde o da Universidade de Lisboa, que viria a dar origem ao Teatro da Cornucópia do Luís Miguel Cintra, ao grupo Sincera da Universidade do Algarve, "fundado num vão de escada".
"Esta era a casa do Doutor Cabeçadas", conta-me, e em novo ele passava por aqui com o Zeca e dizia, "Um dia quero morar numa casa como estas". Já reformado, uma sua amiga que mora em Lisboa, pediu-lhe para ocupar uma casa em Faro que ela não queria arrendar a estranhos. Era esta casa, a casa dos seus sonhos quando era jovem professor...
No seu escritório pequeno, por onde entra pelas frestas de uma janela semi-aberta o sol forte e luminoso da tarde que começa, está rodeado por livros de teatro e de poesia. "O resto dos livros estão na minha outra casa em Almancil. E quando um autor morre, traslado-o daqui para lá", ri-se. Está velho, mas rijo, forte, robusto, lúcido, muito lúcido, sempre uma galhofa inteligente na ponta da língua. Vêm-no visitar muitos antigos alunos, para o rever ou para pedir-lhe ajuda para projectos em que serve de mentor, foi-o de tantos, inspirou tantos, aos quais com paixão ensinou e transmitiu o seu amor pelo teatro e pela literatura. Fomos tantos.
Reconheceu-me logo pela voz, assim que falei pelo intercomunicador. Recebeu-me em roupão, "acabo de acordar", eram duas da tarde. Há quase 20 anos que não nos víamos, não falávamos, mas a conversa retomou como se fóssemos velhos amigos. O Luís Vicente já lhe tinha dito que me tinha encontrado no Luxemburgo e logo exortou-me a comparecer à sua presença, antes que fosse desta para melhor.
Falámos ainda de livros, de escrita, de escritores, do Nuno Júdice. Confirmou-me que "é um gajo calado". Já "o Casimiro de Brito fala pelos cotovelos". Ah, e rimos muito. Foi bom este reencontro.
Rótulo :
caderno de itinerários,
diário incidental
sábado, 23 de junho de 2012
23 de Junho - Dois dias com a minha prima e encontro de terceiro grau com uma "estreleta"
A minha prima Cindy esteve dois dias aqui comigo, extraiu-me desta solidão a que me votei. Fez-me bem. Falei com ela de assuntos de que nunca tinhamos falado antes. Cresceu a minha priminha. Teve experiências, viveu, amou. Ainda bem. Fico muito feliz por ela. Cresce sã e com a mente aberta. Mas acautelada.
Encontro imediato de 3° grau com a Isabel Figueira, "estreleta" da televisão que eu desconhecia por completo. Foi a minha prima que a identificou, apresenta o Top+. A dois metros de mim discutia e gesticulava tão alto no meio da praia com um jovem marroquino, vendedor ambulante de relógios e malas, que, mesmo que quiséssemos, não dava para não reparar nela. (Nota posterior: Dias mais tarde haveria de sair uma página inteirinha dela na TV 7 Dias. Afinal o que parecia uma peixeirada casual era uma cena orquestrada para o paparazzo contratado. Descobri depois que o bar daquela praia é do namorado e como do local de onde as fotografias foram tiradas era impossível a menina não ver o fotógrafo, isto só podiam ser fotos encomendadas para engrossar as páginas de uns e a fama de outros. O jovem vendedor, de residência e actividade comercial provavelmente ilegais, foi o actor involuntário da cena e ficou famoso. Enfim, o que a fama nos faz fazer, mesmo que isso custe muito mais a terceiros do que à nossa carteira!).
Já dizia Oscar Wilde, mais ou menos qualquer coisa como isto: "Prefiro não ser famoso. Se sou famoso, copiam-me. Se me copiam, fico na moda. Se estou na moda, passo de moda. Se passo de moda, deixo de ser famoso. Se deixo de ser famoso passo o tempo todo a querer voltar a ser famoso. Dá muito trabalho, prefiro não ser famoso!"
Encontro imediato de 3° grau com a Isabel Figueira, "estreleta" da televisão que eu desconhecia por completo. Foi a minha prima que a identificou, apresenta o Top+. A dois metros de mim discutia e gesticulava tão alto no meio da praia com um jovem marroquino, vendedor ambulante de relógios e malas, que, mesmo que quiséssemos, não dava para não reparar nela. (Nota posterior: Dias mais tarde haveria de sair uma página inteirinha dela na TV 7 Dias. Afinal o que parecia uma peixeirada casual era uma cena orquestrada para o paparazzo contratado. Descobri depois que o bar daquela praia é do namorado e como do local de onde as fotografias foram tiradas era impossível a menina não ver o fotógrafo, isto só podiam ser fotos encomendadas para engrossar as páginas de uns e a fama de outros. O jovem vendedor, de residência e actividade comercial provavelmente ilegais, foi o actor involuntário da cena e ficou famoso. Enfim, o que a fama nos faz fazer, mesmo que isso custe muito mais a terceiros do que à nossa carteira!).
Já dizia Oscar Wilde, mais ou menos qualquer coisa como isto: "Prefiro não ser famoso. Se sou famoso, copiam-me. Se me copiam, fico na moda. Se estou na moda, passo de moda. Se passo de moda, deixo de ser famoso. Se deixo de ser famoso passo o tempo todo a querer voltar a ser famoso. Dá muito trabalho, prefiro não ser famoso!"
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diário incidental
terça-feira, 19 de junho de 2012
19 de Junho - Conversas entre o céu e o mar
Praia de Faro.
Quero isto o ano inteiro: uma mesa e uma cadeira à beira-mar para ler, para escrever, para ficar a ouvir conversar o céu e o mar.
É um bocado desesperante, perto dos 40, saber que estou longe de alguns dos sonhos que me quis: uma casa numa encosta sobre o mar, com janelas grandes sobre a linha do horizonte, uma família, crianças a brincar à minha volta, o riso de as pegar ao colo por surpresa, os meus livros publicados em cima de uma mesa de madeira da Índia, a minha biblioteca à minha volta num grande escritório luminoso, um alpendre florido com uma grande mesa em madeira para os almoços domingueiros e a escrita incidental, um jardim com um grande chorão, onde eu poderia pendurar um balouço para dois.
Ao invés, ando aos caídos, inventando-me turista, procurando nos caminhos do meu passado, porque perdido estou. Forço o destino, falho, como sempre me aconteceu no passado, a rapariga foge a sete pés. E a verdade técnica é que eu continuo casado e pergunto-me porque não funcionou. Pergunta de retórica porque afinal sei-o muito bem.
Escrevo pouco, devia escrever mais, mas doem-me a cabeça e as costas.
Aos 40 anos é proibido estar aqui a perguntar "É por aqui?". Oh eu, que sempre quis ir por onde ninguém indicava, sempre acabei por borregamente seguir os caminhos balizados. Jamais du hors-piste? Quel talent! Estou novamente numa encruzilhada, a J. e eu. Vais por ali? Eu, talvez por aqui. Obrigado por teres feito o caminho comigo até aqui. Foi bom, foi generoso, foi bonito, mas o trilho parece terminar aqui. E agora?
Tiro as sandálias, sacudo a areia. E agora? Estou descalço. Calço novamente as sandálias ou vou mesmo assim? Sei lá! E agora? Nem sei para que ponto do horizonte olhar. Seguir o vento? Como se isso fosse a solução. Mau-grado, chupo o indicador e estico-o no ar. No reflexo seguinte abro a mão ao vento, estico a outra, miro as minhas mãos bronzeadas e semi-velhas, a pele seca das nozes, a cicatriz quase apagada de uma queimadura de infância, viro-as, as palmas brancas rabiscadas de linhas da vida e de amor não me revelam nada. Qual a trave-mestra do meu caminho, da minha vida? Que destino? O meu destino já mudou tantas vezes, o que mostra desde logo toda a fiabilidade do destino! Faço eu bem em não acreditar nestas merdas? Mas agora dava-me um jeitão acreditar.
Vim sozinho de férias para me reencontrar, para fazer reboot, para desligar, para me distanciar de tudo e para estar comigo mesmo. Porque é tão difícil estar comigo mesmo se tantas vezes almejei por instantes assim? E agora, aqui tens! E agora?
Doem-me as costas.
Rodeio-me de livros, compro compulsivamente dois, quatro, oito, dezasseis. Leio um, dois, três... literatura, viagens, política, filosofia, história, poesia... deixo a meio, jogo para o lado, não me dizem nada, não têm soluções para nada. Parece que nunca ninguém escreveu nada sobre nada no Mundo...
Já que a vida me pôs entre parênteses, aproveito esta pausa, esta ida à box, para me instruir, para ler, mas quanto mais leio mais tonturas tenho e certezas de que não tenho certezas nenhuma.
Leio, escrevo, andava com falta de tempo para isto.
Escrever? Escurecer páginas. Que me traz isso? Enegrecer folhas de cadernos e cadernos. Para quê? Tanta tinta vertida, para quê?
- Ser como a espuma do mar, que não fica agarrada a nenhuma onda, viajar de maré em maré, oceanos fora, espraiar de vez em quando...
- Epá, não consegues fazer melhor que isso? Tantos livros emborcados, tanta teoria engolida, tanta literatura, pffff, é só letra!
- Às vezes só me apetece esmurrar-me, um uppercut bem mandado contra o próprio queixo. Mas falta-me... balanço, jeito, coragem, tomates. Tento não observar-me de longe, porque ficaria com ainda mais raiva. Miro-me de perto e fico com piedade. Que bom!... Resistindo às ganas de me esganar, vou sobrevivendo. E é isto que se vê!
- Ok, queres um conselho? Este é grátis: não digas, faz! Não ameaces, sê! Não ameaces beijar, beija!
E o que é que tu fizeste? Exactamente o contrário! O c-o-n-t-r-á-r-i-o!!!???
- Olha, vai à merda! Volta pra puta da tua mansarda, que é o único sítio de onde nunca devias ter saído, o único lugar onde és alguém. Ah, vai-te... já que não fazes nada para te vir! Sim, qual é o problema, eu também sei fazer trocadilhos merdosos, que não valem peva. Não tens a exclusividade da mediocridade!
- Ideia luminosa para uma pick-up line infalível para meter conversa com a rapariga sozinha da toalha ao lado: "Você está sozinha, eu estou sozinho, posso fazer-lhe companhia?" Simples, directo, despretensioso, pergunta fechada, fácil de responder, de reagir, pões todas as peças na metade dela do tabuleiro. Se ela quiser baldeá-las, pode-o com um plácido "Não!"
- Ok, ok, essa é a teoria. Então, e a prática?
- A prática? Fico revolvendo a frase no cerebrozito, acanho-me, desvio o olhar, admiro o casal do outro lado a beijar-se e fico com os olhos rasos de água...
- Pffff, paneleirice!....
Quero isto o ano inteiro: uma mesa e uma cadeira à beira-mar para ler, para escrever, para ficar a ouvir conversar o céu e o mar.
É um bocado desesperante, perto dos 40, saber que estou longe de alguns dos sonhos que me quis: uma casa numa encosta sobre o mar, com janelas grandes sobre a linha do horizonte, uma família, crianças a brincar à minha volta, o riso de as pegar ao colo por surpresa, os meus livros publicados em cima de uma mesa de madeira da Índia, a minha biblioteca à minha volta num grande escritório luminoso, um alpendre florido com uma grande mesa em madeira para os almoços domingueiros e a escrita incidental, um jardim com um grande chorão, onde eu poderia pendurar um balouço para dois.
Ao invés, ando aos caídos, inventando-me turista, procurando nos caminhos do meu passado, porque perdido estou. Forço o destino, falho, como sempre me aconteceu no passado, a rapariga foge a sete pés. E a verdade técnica é que eu continuo casado e pergunto-me porque não funcionou. Pergunta de retórica porque afinal sei-o muito bem.
Escrevo pouco, devia escrever mais, mas doem-me a cabeça e as costas.
Aos 40 anos é proibido estar aqui a perguntar "É por aqui?". Oh eu, que sempre quis ir por onde ninguém indicava, sempre acabei por borregamente seguir os caminhos balizados. Jamais du hors-piste? Quel talent! Estou novamente numa encruzilhada, a J. e eu. Vais por ali? Eu, talvez por aqui. Obrigado por teres feito o caminho comigo até aqui. Foi bom, foi generoso, foi bonito, mas o trilho parece terminar aqui. E agora?
Tiro as sandálias, sacudo a areia. E agora? Estou descalço. Calço novamente as sandálias ou vou mesmo assim? Sei lá! E agora? Nem sei para que ponto do horizonte olhar. Seguir o vento? Como se isso fosse a solução. Mau-grado, chupo o indicador e estico-o no ar. No reflexo seguinte abro a mão ao vento, estico a outra, miro as minhas mãos bronzeadas e semi-velhas, a pele seca das nozes, a cicatriz quase apagada de uma queimadura de infância, viro-as, as palmas brancas rabiscadas de linhas da vida e de amor não me revelam nada. Qual a trave-mestra do meu caminho, da minha vida? Que destino? O meu destino já mudou tantas vezes, o que mostra desde logo toda a fiabilidade do destino! Faço eu bem em não acreditar nestas merdas? Mas agora dava-me um jeitão acreditar.
Vim sozinho de férias para me reencontrar, para fazer reboot, para desligar, para me distanciar de tudo e para estar comigo mesmo. Porque é tão difícil estar comigo mesmo se tantas vezes almejei por instantes assim? E agora, aqui tens! E agora?
Doem-me as costas.
Rodeio-me de livros, compro compulsivamente dois, quatro, oito, dezasseis. Leio um, dois, três... literatura, viagens, política, filosofia, história, poesia... deixo a meio, jogo para o lado, não me dizem nada, não têm soluções para nada. Parece que nunca ninguém escreveu nada sobre nada no Mundo...
Já que a vida me pôs entre parênteses, aproveito esta pausa, esta ida à box, para me instruir, para ler, mas quanto mais leio mais tonturas tenho e certezas de que não tenho certezas nenhuma.
Leio, escrevo, andava com falta de tempo para isto.
Escrever? Escurecer páginas. Que me traz isso? Enegrecer folhas de cadernos e cadernos. Para quê? Tanta tinta vertida, para quê?
- Ser como a espuma do mar, que não fica agarrada a nenhuma onda, viajar de maré em maré, oceanos fora, espraiar de vez em quando...
- Epá, não consegues fazer melhor que isso? Tantos livros emborcados, tanta teoria engolida, tanta literatura, pffff, é só letra!
- Às vezes só me apetece esmurrar-me, um uppercut bem mandado contra o próprio queixo. Mas falta-me... balanço, jeito, coragem, tomates. Tento não observar-me de longe, porque ficaria com ainda mais raiva. Miro-me de perto e fico com piedade. Que bom!... Resistindo às ganas de me esganar, vou sobrevivendo. E é isto que se vê!
- Ok, queres um conselho? Este é grátis: não digas, faz! Não ameaces, sê! Não ameaces beijar, beija!
E o que é que tu fizeste? Exactamente o contrário! O c-o-n-t-r-á-r-i-o!!!???
- Olha, vai à merda! Volta pra puta da tua mansarda, que é o único sítio de onde nunca devias ter saído, o único lugar onde és alguém. Ah, vai-te... já que não fazes nada para te vir! Sim, qual é o problema, eu também sei fazer trocadilhos merdosos, que não valem peva. Não tens a exclusividade da mediocridade!
- Ideia luminosa para uma pick-up line infalível para meter conversa com a rapariga sozinha da toalha ao lado: "Você está sozinha, eu estou sozinho, posso fazer-lhe companhia?" Simples, directo, despretensioso, pergunta fechada, fácil de responder, de reagir, pões todas as peças na metade dela do tabuleiro. Se ela quiser baldeá-las, pode-o com um plácido "Não!"
- Ok, ok, essa é a teoria. Então, e a prática?
- A prática? Fico revolvendo a frase no cerebrozito, acanho-me, desvio o olhar, admiro o casal do outro lado a beijar-se e fico com os olhos rasos de água...
- Pffff, paneleirice!....
Rótulo :
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sexta-feira, 15 de junho de 2012
15 de Junho - Farniente
7h30, Pequeno-almoço: pão de leite com chocolate e uma chávena de leite frio.
Compro a "Quase Autobiografia de Fernando Pessoa" na Bertrand, no Fórum, mas os outros livros da minha lista estão esgotados.
Rumo ao Garrão, a minha praia de eleição, alugo uma chaise-longue e dou dois mergulhos revigorantes nas águas atlânticas e frias da manhã. Junho aquece. Continuo a ler "Tabua" e o destino fabuloso de Guina.
Almoço no Izzy's: Camarão e maionese piri-piri, Salada de Frango César, um expresso e um corneto de morango. Almoço com o meu caderno de viagem. Chupo um camarão e desenho uma ideia, engulo uma folha de alface e escrevo, debico o frango e rabisco. Almoço solitário.
À minha volta, inglesas e francesas, nada de realmente interessante. As que se auto-intitulam MILF bronzeiam as mamas ao léu, mas poucas dão realmente vontade de olhar. Eu mergulho o olhar nas minhas páginas e prefiro passar a tarde assim, a ler, a descansar o olhar observando o mar, as ondas no seu movimento repetitivo mas relaxante de ir e vir, absortas às revoluções do mundo, e deixam-me imerso na linha indistinta do horizonte, distraído apenas pelo leve balouçar de uma adolescente num fato de banho verde fluorescente que vai e vem entre a água e a toalha e saracoteia o corpo como numa passerelle.
Ofereço-me a mim mesmo uma massagem na praia, numa tenda com grandes lençóis brancos a servirem de cortinados, montada no areal entre o bar e os parasóis. As mãos da massagista fazem milagres no meu corpo, na minha pele, fico relaxado, bem precisava, mas dou por mim com vontades de sesta, o que nunca me aconteceu numas mãos assim.
Compro a "Quase Autobiografia de Fernando Pessoa" na Bertrand, no Fórum, mas os outros livros da minha lista estão esgotados.
Rumo ao Garrão, a minha praia de eleição, alugo uma chaise-longue e dou dois mergulhos revigorantes nas águas atlânticas e frias da manhã. Junho aquece. Continuo a ler "Tabua" e o destino fabuloso de Guina.
Almoço no Izzy's: Camarão e maionese piri-piri, Salada de Frango César, um expresso e um corneto de morango. Almoço com o meu caderno de viagem. Chupo um camarão e desenho uma ideia, engulo uma folha de alface e escrevo, debico o frango e rabisco. Almoço solitário.
À minha volta, inglesas e francesas, nada de realmente interessante. As que se auto-intitulam MILF bronzeiam as mamas ao léu, mas poucas dão realmente vontade de olhar. Eu mergulho o olhar nas minhas páginas e prefiro passar a tarde assim, a ler, a descansar o olhar observando o mar, as ondas no seu movimento repetitivo mas relaxante de ir e vir, absortas às revoluções do mundo, e deixam-me imerso na linha indistinta do horizonte, distraído apenas pelo leve balouçar de uma adolescente num fato de banho verde fluorescente que vai e vem entre a água e a toalha e saracoteia o corpo como numa passerelle.
Ofereço-me a mim mesmo uma massagem na praia, numa tenda com grandes lençóis brancos a servirem de cortinados, montada no areal entre o bar e os parasóis. As mãos da massagista fazem milagres no meu corpo, na minha pele, fico relaxado, bem precisava, mas dou por mim com vontades de sesta, o que nunca me aconteceu numas mãos assim.
Rótulo :
caderno de itinerários,
diário incidental
quinta-feira, 14 de junho de 2012
14 de Junho - E preciso um gajo habituar-se que está de férias
6h30, acordar.
7h30, cochilar.
8h30, levantar.
Pequeno-almoço na marquise, com as janelas bem abertas, para deixar entrar ar fresco e luz. Grande chávena de leite, dois expressos, sandes de queijo e pão integral. O rádio sintonizado na Antena 3.
10h: Comprar lenços de papel e toalha de praia no Fórum Algarve.
10h47: Praia de Faro, primeiro bronze.
12h30: Almoço n'O Paquete: dois hamburgueres caseiros, coca-cola, e dois expressos. Ainda me estou a ambientar. Continuo a esquecer-me que em Portugal não devo pedir expressos, mas "café". E no Luxemburgo, tenho que pedir expresso e não "café", senão trazem-me um chávena que mais parece um balde de café aguado.
Leitura incidental: na revista Visão fico a conhecer o escritor-turbo Pedro Chagas Freitas a propósito do seu projecto "Livro em directo" (livro2012.blogspot.com) que vai escrever em 2012 minutos um romance entre sábado e domingo.
Nas páginas culturais, vejo uma peça que me interessa: "Ode Marítima" (de F. Pessoa) no Teatro D. Maria II, com o actor João Grosso. Mas detesto a ideia de ter que ir sozinho. Não sei se irei.
Aponto livros que quero comprar: "Quase Autobiografia de Fernando Pessoa" de José Paulo Cavalcanti Filho; "Teoria da Literatura", de Vitor Aguiar e Silva; "Conhecimento da Literatura", de Carlos Reis. Para já.
Jantar: Bacalhau com Natas e vinho alentejano na casa do Ângelo e da Cátia. Conversa com o Rui e a Ana, que querem emigrar para o Luxemburgo.
7h30, cochilar.
8h30, levantar.
Pequeno-almoço na marquise, com as janelas bem abertas, para deixar entrar ar fresco e luz. Grande chávena de leite, dois expressos, sandes de queijo e pão integral. O rádio sintonizado na Antena 3.
10h: Comprar lenços de papel e toalha de praia no Fórum Algarve.
10h47: Praia de Faro, primeiro bronze.
12h30: Almoço n'O Paquete: dois hamburgueres caseiros, coca-cola, e dois expressos. Ainda me estou a ambientar. Continuo a esquecer-me que em Portugal não devo pedir expressos, mas "café". E no Luxemburgo, tenho que pedir expresso e não "café", senão trazem-me um chávena que mais parece um balde de café aguado.
Leitura incidental: na revista Visão fico a conhecer o escritor-turbo Pedro Chagas Freitas a propósito do seu projecto "Livro em directo" (livro2012.blogspot.com) que vai escrever em 2012 minutos um romance entre sábado e domingo.
Nas páginas culturais, vejo uma peça que me interessa: "Ode Marítima" (de F. Pessoa) no Teatro D. Maria II, com o actor João Grosso. Mas detesto a ideia de ter que ir sozinho. Não sei se irei.
Aponto livros que quero comprar: "Quase Autobiografia de Fernando Pessoa" de José Paulo Cavalcanti Filho; "Teoria da Literatura", de Vitor Aguiar e Silva; "Conhecimento da Literatura", de Carlos Reis. Para já.
Jantar: Bacalhau com Natas e vinho alentejano na casa do Ângelo e da Cátia. Conversa com o Rui e a Ana, que querem emigrar para o Luxemburgo.
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quarta-feira, 13 de junho de 2012
13 de Junho - Férias, dia 1
Luxemburgo, chuva, 9 horas. Autocarro atrasado. Mais chuva. Uma hora de transferência até Frankfurt/Hahn. Fila de check-in inexistente, cheguei com três horas e meia de antecedência. Sandes e café enquanto espero a hora de embarque. Uma tailandesa/coreana/chinesa troca olhares comigo. Um aeroporto é um lugar propício aos encontros fugazes, olhares que desejavam um lugar de estar e não de passar.
Embarco finalmente. No avião, começo a ler "Tabua" de Carlos Tourinho de Abreu, e o protagonista, Guina, faz-me viajar até ao seu mundo.
Por cima da Baía da Biscaia, um australiano loiraço, tipo Dawson (James Van Der Beek), pergunta à hospedeira que zona sobrevoamos. Nunca pensei nessa pick-up line, bolas! A menina é alta, curvilínea, ruiva, olhos verdes (irlandesa?), boa como o milho, como se diz poeticamente, numa saia travada que só apetece ver-lhe cair até aos tornozelos branquinhos. Mas ela não sabe responder (?), o que me arranca do meu devaneio obsceno. Intrometo-me na conversa, apenas movido pelo interesse geográfico da conversa, claro. Explico ao "aussie" onde estamos e que tudo isto faz parte do Golfo da Gasconha, e recordo-lhe Cyrano de Bergerac, o do nariz enorme, you know? A hospedeira ouve como Roxanne. Desta vez percebeu, menina?
O piloto não resiste a dizer-nos que aterrámos antes da hora prevista, e a dar-nos o resultado do jogo Dinamarca-Portugal: estamos a ganhar.
No tapete das bagagens, o australiano mete-se comigo. Quer saber se sou de Faro, quanto pode custar um táxi até um sítio chamado "Eva", porque quer apanhar um autocarro até à Ericeira, onde vai participar num campeonato de surf.
Mas perco o tempo que ganhei na Rent-a-car :-( Chego a casa às 19h30. Janto no Fórum: Sopa Juliana e água do Luso. Faço compras no Continente, compro uma pen para ter internet. Regresso a casa e ao Guina. Primeira noite: descanso.
Embarco finalmente. No avião, começo a ler "Tabua" de Carlos Tourinho de Abreu, e o protagonista, Guina, faz-me viajar até ao seu mundo.
Por cima da Baía da Biscaia, um australiano loiraço, tipo Dawson (James Van Der Beek), pergunta à hospedeira que zona sobrevoamos. Nunca pensei nessa pick-up line, bolas! A menina é alta, curvilínea, ruiva, olhos verdes (irlandesa?), boa como o milho, como se diz poeticamente, numa saia travada que só apetece ver-lhe cair até aos tornozelos branquinhos. Mas ela não sabe responder (?), o que me arranca do meu devaneio obsceno. Intrometo-me na conversa, apenas movido pelo interesse geográfico da conversa, claro. Explico ao "aussie" onde estamos e que tudo isto faz parte do Golfo da Gasconha, e recordo-lhe Cyrano de Bergerac, o do nariz enorme, you know? A hospedeira ouve como Roxanne. Desta vez percebeu, menina?
O piloto não resiste a dizer-nos que aterrámos antes da hora prevista, e a dar-nos o resultado do jogo Dinamarca-Portugal: estamos a ganhar.
No tapete das bagagens, o australiano mete-se comigo. Quer saber se sou de Faro, quanto pode custar um táxi até um sítio chamado "Eva", porque quer apanhar um autocarro até à Ericeira, onde vai participar num campeonato de surf.
Mas perco o tempo que ganhei na Rent-a-car :-( Chego a casa às 19h30. Janto no Fórum: Sopa Juliana e água do Luso. Faço compras no Continente, compro uma pen para ter internet. Regresso a casa e ao Guina. Primeira noite: descanso.
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diário incidental
quinta-feira, 7 de junho de 2012
Pintura do séc. XVII onde se vê um estranho objecto anacrónico
Pintura "Exaltação da Eucaristía"
de Ventura Salimbeni
Igreja de São Pedro,
Montalcino (Itália)
Ano: 1600 A.D.
de Ventura Salimbeni
Igreja de São Pedro,
Montalcino (Itália)
Ano: 1600 A.D.
quinta-feira, 31 de maio de 2012
quinta-feira, 24 de maio de 2012
Poema: "Os meus pais"
Os meus pais
Ele falava francês há bem mais tempo do que ela,
mas foi ela que me ensinou o pouco que conhecia
antes de eu ir pra escola, um dia.
Mas uma coisa os dois fizeram questão,
que eu e o meu irmão
soubéssemos, bem antes dos dez,
a falar e a escrever, pelo menos, português.
Ela não me falou dos livros que leu
porque nunca tinha lido nenhum.
Cresci numa casa onde os primeiros livros foram os meus.
Ela dizia-me: « Sou uma ‘Alfabeta’,
mas tu, tens de comer o Nestum,
aprender a ler e a escrever,
é isso que tens de fazer,
para arranjares mais tarde um bom emprego ».
Ele? Ele sabia ler bem, mas nem em segredo
me falou do que tinha lido
e do que recitava de ouvido.
Ela gostava de me ver a mexer nos legos,
nos carrinhos e nos livros,
mas se eu saísse, sem pedir, para jogar à bola com os colegas
levava logo com castigos.
Ela quis mostrar-me como se cozinhava, costurava, faxinava
e lavava a loiça, o que até é uma coisa bem prática,
mas só obrigado eu participava.
Ele era bom na matemática
mas eu não percebia nada.
Ele quis transmitir-me o nome das ferramentas de carpinteiro,
que era o ofício que tinha aprendido,
mas eu não me interessava pela arte de marceneiro
e ele ficava triste e aborrecido.
Para ser totalmente sincero, houve uma coisa que ele me ensinou:
a História de Portugal e isso ficou.
Explicavam-me muitas vezes que não havia dinheiro
para comprar todos os brinquedos que eu queria,
eu parava o berreiro
e fazia que percebia.
Ela dizia-me para eu parar de ser chato,
para comer a sopa toda do prato
porque havia meninos pobres que queriam e não tinham.
Ele? Ele não dizia nada, dava-me um tabefe e tefe-tefe
eu metia a mistela à boca, mesmo já fria,
continha as lágrimas e planeava uma táctica
para ser presidente um dia
e plantar espinafres em toda a África.
Ela contou-me como se tinham conhecido em Paris,
como se tinham casado,
mas não como se tinham amado.
Disse-me que uma vez se tinha apaixonado,
mas não me disse se tinha sido por ele.
Não li nada sobre Sócrates, Platão ou Filosofia
antes de chegar aos bancos da escola.
Eles não me falaram de Napoleão, de Rousseau,
nem de Voltaire ou Waterloo,
excepto do dos Abba, que era uma canção muito boa.
Não me falaram de Camilo, de Eça, de Antero ou de Pessoa
mas ele conhecia algumas rimas do Aleixo
e d’« Este livro que vos deixo ».
Disse-me também que se lembrou da Cartilha de João de Deus
enquanto atravessava a pé os Pirinéus.
Sem saber que não era o mesmo João, ela contava-me mais,
que tinha sido um santo, que nasceu na terra dela e criou os hospitais.
Eu perguntava mais, mas ele lembrava-se pouco de Maio de 68,
só que os jovens bloquearam as ruas todas uma noite
e não o deixaram ir trabalhar.
Não me disseram que era importante votar,
mas eu fui, e eles acharam bem.
E começaram a votar também.
Conheciam muitas histórias que falavam da PIDE e da ditadura
mas nada sobre como fugir aos impostos.
No tempo deles não havia Coca-Cola, só bebiam Pirolito e Sumol.
Lembravam-se da censura,
de passar fome, do trabalho de sol a sol,
ela, sob a chuva, nas herdades,
ele, no mar, debaixo de tempestades.
Ele não foi à tropa, mas ela foi madrinha de guerra.
Ele dizia-se comunista mesmo quando já não estava na berra,
mas não sabia quem fora Lenine nem o tsar.
Ela? Ela não falava de política, só não gostava do Salazar.
Nunca foram ao Louvre, mas viam muitos filmes franceses,
dos que nunca tinham passado nem em Montemor nem em Faro.
Diziam que o de Gaulle era um bom presidente. E os gauleses ?
Deviam ser apenas cigarros! Aí, ela interrompia, e dizia-me que a droga
era perigosa, e ele acrescentava « E o tabaco muito caro ».
Ele contou-me do mundo antes da televisão:
quando era jovem era, às vezes, folgazão,
ao fim-de-semana ia ao baile
ou ao cinema nas salas da sociedade.
Ele gostava de ver cobóis, ela os filmes do Calvário e da Madalena,
não tinham discos nem cassetes, mas conheciam a cantilena
dos ranchos, das modas, do ié-ié e até dos Beatles.
Não me disseram como fazer com as raparigas:
ele disse-me apenas para ter cuidado com o dinheiro
e ela para não as fazer sofrer e não ser um pantomineiro.
Levei uns açoites, umas estaladas
e umas valentes bofetadas,
mas sei que fui amado, com certeza, muito.
Ela dizia-o com beijos, abraços e mimos.
Ele? Ele não o mostrava, não sabia como mostrar.
Não havia nada que eu devesse ter feito,
excepto, talvez, a Universidade.
Ela queria que eu fosse bancário ou professor,
ele apenas que eu ganhasse o meu dinheiro.
Não havia nada que eu não devesse ter sido,
excepto, talvez, jornalista ou escritor.
Não me disseram nada sobre os novos ricos
nem sobre os esquerdistas, os anárquicos,
os socialistas, os nacionalistas. Não eram dessa rês.
Eu não era filho da esquerda nem da direita,
era filho dos meus pais, do meu país e de 1973.
Falávamos pouco sobre religião, mas muito sobre fé
que, disse-me ela, é sempre uma opção,
mas logo a seguir obrigou-me a fazer a Primeira Comunhão.
Não me falaram dos árabes nem de Maomé,
não me falaram dos chineses (ainda não havia chineses!),
mas dos belgas, dos alemães e dos luxemburgueses.
« Nós somos católicos », incutiram-me,
mas não souberam explicar-me
o que nos diferenciava dos judeus,
e disseram-me que todos, até os negros e os ciganos,
são filhos de deus.
Deram-me um certo modelo moral,
uma certa força vital
– ou melhor –, a força vital certa,
um certo sentido da vida, uma educação normal,
uma mente aberta.
Os meus pais.
JLC 20052012
(inspirado livremente da canção « France Culture », de Arnaud Fleurent-Didier, do álbum « La reproduction », 2010)
domingo, 20 de maio de 2012
terça-feira, 15 de maio de 2012
quarta-feira, 9 de maio de 2012
Já chegou a nova revista LER. O meu mês já pode começar :-)
O que gosto na LER é que é uma revista literária que não se restringe aos sacro-santos estilos e formatos literários pelos quais juram os (supostos) intelectuais dos nossos dias, e ousa sem pejo abordar assuntos menos mainstream como a ficção-científica ou a banda desenhada.
SF - É assim, como prazer jubilatório, que me deparei com duas páginas dedicadas a um clássico da ficção-científica britânica, "Quatermass and The Pit", da autoria de Nigel Kneale, artigo no qual Rogério Casanova aproveita para evocar mestres da SF (Science Fiction ou FC, Ficção Científica) como HG Wells, Lovecraft e Jack Handey e até fala em Eric van Daniken e da sua célebre Teoria dos Antigos Astronautas. E a meio da revista, como quem não quer a coisa, fala em Edgar Rice Burroughs (o criador de Tarzan), a propósito do seu "John Carter" (Crónicas Marcianas), que acaba se sair no cinema. Muito bom mesmo.
Um catalão, um italiano, uma brasileira, dois portugueses e um inédito de Vitorino Nemésio
Depois, prazer imenso ao ler a entrevista de Carlos Vaz Marques a Enrique Vilas-Matas, em que o catalâo volta a repetir que recusaria o Nobel da Literatura se este lhe fosse atribuído. E responde com humor ao Questionário de Proust, que o entrevistador resolve de imprevisto lançar como desafio ao escritor.
Venho à tona de água e volto a mergulhar no prazer.
Nove páginas sobre o mais português e o mais pessoano dos italianos, Antonio Tabucchi, que nos deixou há pouco tempo.
Página panorâmica sobre a autora brasileira Clarice Lispector (1920-1977) por ocasião da publicação em Portugal de "Lustre" e "Água Viva".
E porque a literatura também é sublimada através da sétima arte, a LER apresenta a mais recente obra do cineasta mais idoso do Mundo ainda em actividade, Manoel de Oliveira (103 anos!), "O Gebo e A Sombra", adaptação do livro homónimo de Raúl Brandão (1923). E, de passagem, publica um texto inédito de Vitorino Nemésio sobre Brandão.
BD lusa: De 1872 aos nossos dias
A LER aproveitou esta edição para transfigurar a sua capa (imagem em cima) num dos expoentes emergentes da Nona Arte, o português João Lemos, que a Marvel já adoptou.
A revista dedica ao todo 11 páginas à BD portuguesa + 1 sobre a saída recente em Portugal de "Persépolis", da iraniana Marjane Satrapi.
A LER passa em revista rápida os nomes dos percursores da banda desenhada em Portugal como Rafael Bordalo Pinheiro (primeira BD, em 1872), Stuart Carvalhais (1887-1961), Carlos Botelho (1899-1982), Eduardo Teixeira Coelho (1919-2005), José Garcês (n. 1928), José Ruy (n. 1930) e revistas como Mosquito (dos anos 1930 aos anos 80) e Visão (anos 70), para chegar aos jovens talentos que começam a fazer-se notar hoje a nível nacional e internacional.
Como os que começaram já a trabalhar para gigantes como a Marvel. João Lemos assinou recentemente um número de Wolwerine (imagem da esquerda) e participou com Ricardo Tércio e Nuno Plati num volume colectivo com argumento de C.B. Cebulski; ou a Dark Horse, para a qual Filipe Melo editou, em co-autoria com Juan Cavia, "As Incríveis Aventuras de Dog Mendoza & Pizza Boy".
Entre muitos outros, como: Diniz Conefrey, José Carlos Fernandes (A Pior Banda do Mundo; Aaron Slobodj), Miguel Rocha, Filipe Abranches (Lanza en Astillero; Diário de K.), Nuno Saraiva, António Jorge Gonçalves, Eliseu Gouveia, Miguel Montenegro, Ana Freitas, Mário Freitas, Filipe Teixeira, Filipe Andrade, Rui Lacas (Merci Patron!), André Lemos (Mediaeval Spectres Soaked in Syrup), David Soares (Mucha) & com Pedro Nora (M. Burroughs), Paulo Monteiro (O Amor Infinito Que Te Tenho e Outras Histórias), Bruno Borges, Miguel Carneiro, Susa Monteiro (Adeus Tristeza), Osvaldo Medina (A Fórmula da Felicidade), Pepedelrey (A Tua Carne é Má), Joana Figueiredo, Carlos Pinheiro, Marcos Farrajota, Pedro Serpa ou José Feitor.
Nomes a ter em atenção no futuro da literatura portuguesa quer venha aos quadradinhos, em pranchas, storyboards, romances gráficos ou comics.
Porque a BD é um fascínio para quem é fã, a LER não resistiu a partilhar connosco a génese e o making of da capa deste mês da revista, concebida por João Lemos (o tal da Marvel).
Ainda não li tudo, mas o mês ainda nem vai a meio...
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terça-feira, 8 de maio de 2012
"História do Luxemburgo" lançado na Livraria Ler Devagar, em Lisboa, no dia 23 de Maio
O livro "História do Luxemburgo", do historiador luxemburguês Gilbert Trausch é oficialmente lançado em Lisboa a 23 de Maio, às 18h, na livraria "Ler Devagar" (rua Rodrigues Faria, n° 103, Ed. G-0.3).
O evento vai contar com a presença do embaixador do Luxemburgo em Portugal, Paul Schmit, que vai fazer uma apresentação, em português e em francês, sobre a história do Luxemburgo.
A versão portuguesa da obra de Gilbert Trausch, "História do Luxemburgo", agora publicada em edição portuguesa, resulta de um projecto do Ministério da Cultura luxemburguês, com a colaboração do Forum Portugal-Luxemburgo e o apoio da Embaixada do Luxemburgo em Portugal.
Trata-se de uma obra importante para o desenvolvimento das relações bilaterais entre os dois países, nomeadamente por razão da importante comunidade lusófona residente no Luxemburgo, que conta actualmente mais de 100 mil portugueses.
Apesar do seu tamanho – 2.586 km2 e 500 mil habitantes – o Grão-Ducado do Luxemburgo é um verdadeiro Estado, com uma história particularmente rica. Situado no coração da Europa, entre a França, a Bélgica e a Alemanha, o Luxemburgo participou nos grandes desenvolvimentos Europeus. O passado movimentado do Grão-Ducado é um verdadeiro resumo da história europeia. Na Idade Média, os seus principes usaram a coroa do Sacro Império Germânico e nos tempos modernos a sua fortaleza foi de uma importância fundamental na luta entre as grandes potências. Antes de se tornar independente, no Século XIX, o Luxemburgo viveu sucessivamente sob soberania bourgonha, espanhola, francesa, austriaca e holandesa. No Século XX, este país próspero e dinâmico desempenhou um papel decisivo na unificação da Europa.
O evento vai contar com a presença do embaixador do Luxemburgo em Portugal, Paul Schmit, que vai fazer uma apresentação, em português e em francês, sobre a história do Luxemburgo.
A versão portuguesa da obra de Gilbert Trausch, "História do Luxemburgo", agora publicada em edição portuguesa, resulta de um projecto do Ministério da Cultura luxemburguês, com a colaboração do Forum Portugal-Luxemburgo e o apoio da Embaixada do Luxemburgo em Portugal.
Trata-se de uma obra importante para o desenvolvimento das relações bilaterais entre os dois países, nomeadamente por razão da importante comunidade lusófona residente no Luxemburgo, que conta actualmente mais de 100 mil portugueses.
Apesar do seu tamanho – 2.586 km2 e 500 mil habitantes – o Grão-Ducado do Luxemburgo é um verdadeiro Estado, com uma história particularmente rica. Situado no coração da Europa, entre a França, a Bélgica e a Alemanha, o Luxemburgo participou nos grandes desenvolvimentos Europeus. O passado movimentado do Grão-Ducado é um verdadeiro resumo da história europeia. Na Idade Média, os seus principes usaram a coroa do Sacro Império Germânico e nos tempos modernos a sua fortaleza foi de uma importância fundamental na luta entre as grandes potências. Antes de se tornar independente, no Século XIX, o Luxemburgo viveu sucessivamente sob soberania bourgonha, espanhola, francesa, austriaca e holandesa. No Século XX, este país próspero e dinâmico desempenhou um papel decisivo na unificação da Europa.
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sábado, 5 de maio de 2012
Poema do Herói
Herói
Eu era um índio
vestia uma velha serrapilheira
na qual a minha mãe tinha cortado franjas
e colado fitas coloridas
calçava as pantufas da minha tia a fazer de mocassins
e elas punham-me riscas de baton no rosto
a imitar pinturas de guerra
para eu lutar contra o Batman e o Zorro.
Também eu queria resgatar a fada e a princesa
mas elas não queriam.
O Batman e o Zorro ganhavam
sempre.
Pum, pum, pum e eu tinha que morrer
mesmo se não me apetecesse.
Pum, pum, pum e eu tinha que morrer
mesmo se não me apetecesse.
Como pode o vilão ser tão bem
mandado?
Eu preferia
fumar o cachimbo da paz,
escolher penas de águia para enfeitar o cabelo
e partilhar o lanche com a minha
squaw
debaixo da carteira da
professora imitando o tipi.
Mas a Anita soltava um
gritinho
e fugia esconder-se atrás do
Osvaldo ou do Bruno.
Como pode uma princesa preferir um herói
vestido de morcego ou de raposa ?
No ano seguinte fiz uma birra
e quis um coldre, um colete,
uma estrela, um chapéu de cobói
e uma pistola que dava estalidos e tudo.
Mas a princesa veio de Pocahontas
e as setas do Gerónimo
vieram colar-se à testa do xerife mau.
JLC05052012
Rótulo :
meus escritos
quinta-feira, 3 de maio de 2012
Da consciência colectiva e outros meandros
Hoje estava a ouvir um professor de escrita criativa a falar num documentário e ele dizia que sempre viveu com a impressão que algo grande, devastador, aconteceria um dia à Humanidade, no nosso tempo de vida.
Ora, isto foi o que eu sempre pensei. Mas há algo de sobrenatural nisso, há algum conhecimento omnisciente e inato em todos nós que nos deixa prever o que pode vir a acontecer?
Um outro episódio da minha vida: Eu devia ter uns 12 ou 13 anos e comecei a acreditar na serendipicidade, descobria sentidos encobertos em tudo o que me acontecia e que nada era obra do acaso. Ora, no meu egocentrismo adolescente, comecei a suspeitar que era joguete em mãos divinas, uma experiência no tubo de ensaio de um ser maior. Mas a minha arrogância ia mais longe. Eu não era apenas uma cobaia, um animalzinho a ser testado e por isso amaldiçoado por não poder ter mão no meu próprio destino, eu era também, portanto, um ser único e privilegiado, por ser A EXPERIÊNCIA desse ser divino. E isso levava-me a pensar que não só nada era acaso, como tudo o que me rodeava - as pessoas, as ruas, as cidades, os planetas, o universo, até onde era a grande questão que me obcecava, - tinha sido criado apenas para mim, para o propósito dessa experiência, como se o ser divino tivesse construído um terrário, ambiente controlado, apenas para mim, a formiga, o objecto observado.
Quando muitos anos mais tarde vi o filme Matrix (1999), dos irmãos Wachowski, foi como se fosse uma revelação para mim. Afinal, havia mais gente no mundo a pensar coisas tão aparentemente absurdas como eu.
E isto indicava que eu estava certa no meu delírio? Ou provava de alguma maneira a possível existência de uma consciência colectiva transversal a toda a Humanidade?
Analisei a coisa melhor.
Somos o produto de ingredientes, não só genéticos mas acredito que também mentais ou psicológicos, como lhes quiserem chamar, que herdámos da nossa família, da nossa educação religiosa, escolar, académica, do nosso quadro social, mais tarde profissional, e do que vamos rejeitando e escolhemos ir aceitando desse caldeirão de receitas, algumas delas aparentemente incompatíveis. Mas fizemos a síntese. Somos essa síntese. Um produto inacabado porque sempre em evolução.
Para regressar ao tal professor, ele disse ter cerca de 35 anos, pouco menos do que eu. O que eu acho é que a nossa geração - a dele e a minha - foi tão exposta, bombardeada com esse tipo de histórias de fim do mundo, de apocalipse eminente, de catástrofe global, que hoje transportamos isso em nós, como se fosse um gatilho prestes a ser premido a qualquer momento.
A pergunta não era tanto se iria ser premido, mas quando. Penso que esse medo é uma herança directa que nos vem da Guerra Fria, bem como da ameaça que logo a seguir eclodiu, ainda o Muro de Berlim não tinha bem caído, de uma catástrofe ecológica. A juntar à soma destes medos acrescente-se todos os temores explorados há mais de meio-século pela ficção e pela ficção-científica e de que a minha geração foi, é e continua a ser ávida consumidora: invasão de extraterrestres, guerra total, holocausto atómico, inverno nuclear, pandemia global, colapso económico mundial, mudança do eixo da Terra, sopro solar devastador, raios galácticos mortais, entre muitos outros fins possíveis, com um único resultado: o extermínio de toda a Humanidade.
É claro que esta crença pode não "afectar" toda a minha geração. Depende do que consumiram. Literatura, cinema, televisão, jogos, quero eu dizer.
Mas o que realmente acredito hoje é que esses universos criaram um certo imaginário colectivo, que não sei se se pode chamar consciência colectiva. Mas é inegável que determinaram a forma como pensamos, decidimos e vivemos.
Consciente disso, tento furtar-me à consciência colectiva, à minha tendência natural, porque descobri que afinal não é natural de todo, mas fabricada, artificial. Primeiro deixei de acreditar no destino, que tudo está pré-determinado, e que só eu escolho o meu caminho. Depois esforço-me por acreditar que não estamos no fim, mas no princípio, na aurora da Humanidade. E vistas bem as coisas, quer seja em grutas escuras ou no espaço sideral - as formas como ainda nos coçamos, caçamos, alimentamos, brigamos e acasalamos - continuam a ser instintos tão primitivos como os dos macacos dos quais descendemos.
No fim destas viagens alucinantes pelos meus meandros, que muitas vezes me deixam a mim mesmo com vertigens, acabo sempre por concluir que quanto mais sei, menos sei. Mas, apesar disso, estas incursões turísticas em mim e a materialização catártica pela escrita dessas crenças e desses medos recalcados fazem-me bem. Porque não servem só para me experimentar numa tentativa (vã?) de literatura, mas sobretudo para os exorcizar.
Ora, isto foi o que eu sempre pensei. Mas há algo de sobrenatural nisso, há algum conhecimento omnisciente e inato em todos nós que nos deixa prever o que pode vir a acontecer?
Um outro episódio da minha vida: Eu devia ter uns 12 ou 13 anos e comecei a acreditar na serendipicidade, descobria sentidos encobertos em tudo o que me acontecia e que nada era obra do acaso. Ora, no meu egocentrismo adolescente, comecei a suspeitar que era joguete em mãos divinas, uma experiência no tubo de ensaio de um ser maior. Mas a minha arrogância ia mais longe. Eu não era apenas uma cobaia, um animalzinho a ser testado e por isso amaldiçoado por não poder ter mão no meu próprio destino, eu era também, portanto, um ser único e privilegiado, por ser A EXPERIÊNCIA desse ser divino. E isso levava-me a pensar que não só nada era acaso, como tudo o que me rodeava - as pessoas, as ruas, as cidades, os planetas, o universo, até onde era a grande questão que me obcecava, - tinha sido criado apenas para mim, para o propósito dessa experiência, como se o ser divino tivesse construído um terrário, ambiente controlado, apenas para mim, a formiga, o objecto observado.
Quando muitos anos mais tarde vi o filme Matrix (1999), dos irmãos Wachowski, foi como se fosse uma revelação para mim. Afinal, havia mais gente no mundo a pensar coisas tão aparentemente absurdas como eu.
E isto indicava que eu estava certa no meu delírio? Ou provava de alguma maneira a possível existência de uma consciência colectiva transversal a toda a Humanidade?
Analisei a coisa melhor.
Somos o produto de ingredientes, não só genéticos mas acredito que também mentais ou psicológicos, como lhes quiserem chamar, que herdámos da nossa família, da nossa educação religiosa, escolar, académica, do nosso quadro social, mais tarde profissional, e do que vamos rejeitando e escolhemos ir aceitando desse caldeirão de receitas, algumas delas aparentemente incompatíveis. Mas fizemos a síntese. Somos essa síntese. Um produto inacabado porque sempre em evolução.
Para regressar ao tal professor, ele disse ter cerca de 35 anos, pouco menos do que eu. O que eu acho é que a nossa geração - a dele e a minha - foi tão exposta, bombardeada com esse tipo de histórias de fim do mundo, de apocalipse eminente, de catástrofe global, que hoje transportamos isso em nós, como se fosse um gatilho prestes a ser premido a qualquer momento.
A pergunta não era tanto se iria ser premido, mas quando. Penso que esse medo é uma herança directa que nos vem da Guerra Fria, bem como da ameaça que logo a seguir eclodiu, ainda o Muro de Berlim não tinha bem caído, de uma catástrofe ecológica. A juntar à soma destes medos acrescente-se todos os temores explorados há mais de meio-século pela ficção e pela ficção-científica e de que a minha geração foi, é e continua a ser ávida consumidora: invasão de extraterrestres, guerra total, holocausto atómico, inverno nuclear, pandemia global, colapso económico mundial, mudança do eixo da Terra, sopro solar devastador, raios galácticos mortais, entre muitos outros fins possíveis, com um único resultado: o extermínio de toda a Humanidade.
É claro que esta crença pode não "afectar" toda a minha geração. Depende do que consumiram. Literatura, cinema, televisão, jogos, quero eu dizer.
Mas o que realmente acredito hoje é que esses universos criaram um certo imaginário colectivo, que não sei se se pode chamar consciência colectiva. Mas é inegável que determinaram a forma como pensamos, decidimos e vivemos.
Consciente disso, tento furtar-me à consciência colectiva, à minha tendência natural, porque descobri que afinal não é natural de todo, mas fabricada, artificial. Primeiro deixei de acreditar no destino, que tudo está pré-determinado, e que só eu escolho o meu caminho. Depois esforço-me por acreditar que não estamos no fim, mas no princípio, na aurora da Humanidade. E vistas bem as coisas, quer seja em grutas escuras ou no espaço sideral - as formas como ainda nos coçamos, caçamos, alimentamos, brigamos e acasalamos - continuam a ser instintos tão primitivos como os dos macacos dos quais descendemos.
No fim destas viagens alucinantes pelos meus meandros, que muitas vezes me deixam a mim mesmo com vertigens, acabo sempre por concluir que quanto mais sei, menos sei. Mas, apesar disso, estas incursões turísticas em mim e a materialização catártica pela escrita dessas crenças e desses medos recalcados fazem-me bem. Porque não servem só para me experimentar numa tentativa (vã?) de literatura, mas sobretudo para os exorcizar.
Rótulo :
diário incidental,
Reflexão
terça-feira, 1 de maio de 2012
Li Hamlet... e sobrevivi!
"Hamlet" (ou "The Tragical History of Hamlet, Prince of Denmark)", de William Shakespeare (1603)
Diziam-me que não iria sobreviver, que iria ficar desgastado de Shakespeare para sempre, que iria deixar a leitura pelo meio... ou que iria adorar. Pois foi quem apostou na última hipótese que ganhou.
Uma peça muito longa, deveras (192 páginas!), mas excelente, uma obra prima mesmo. Sei bem que sou apenas um dos milhares que já leu a peça e achou isto, mas pronto, desta vez sou eu a dizê-lo ;-)
Dizer que as peças de Shakespeare são lições de vida é quase uma Lapalissade. Mas adorei sobretudo a forma como Shakespeare até se dá ao luxo de dar lições de poesia e de teatro, enquanto conta a história e enquanto vai abatendo (quase) todos os seus personagens.
Foi também muito giro chegar àquelas partes em que se percebe o contexto textual das expressões universalmente conhecidas como "Ser ou não Ser" ou "Há qualquer coisa de podre no Reino da Dinamarca", "Há mais coisas no céu e na terra, Horácio, do que pode supôr a tua vã imaginação", etc. Aconselho a leitura e aconselho a paciência ao desbravarem as páginas mais densas.
Diziam-me que não iria sobreviver, que iria ficar desgastado de Shakespeare para sempre, que iria deixar a leitura pelo meio... ou que iria adorar. Pois foi quem apostou na última hipótese que ganhou.
Uma peça muito longa, deveras (192 páginas!), mas excelente, uma obra prima mesmo. Sei bem que sou apenas um dos milhares que já leu a peça e achou isto, mas pronto, desta vez sou eu a dizê-lo ;-)
Dizer que as peças de Shakespeare são lições de vida é quase uma Lapalissade. Mas adorei sobretudo a forma como Shakespeare até se dá ao luxo de dar lições de poesia e de teatro, enquanto conta a história e enquanto vai abatendo (quase) todos os seus personagens.
Foi também muito giro chegar àquelas partes em que se percebe o contexto textual das expressões universalmente conhecidas como "Ser ou não Ser" ou "Há qualquer coisa de podre no Reino da Dinamarca", "Há mais coisas no céu e na terra, Horácio, do que pode supôr a tua vã imaginação", etc. Aconselho a leitura e aconselho a paciência ao desbravarem as páginas mais densas.
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