sebenta de anotações esparsas, pensamentos ociosos, reflexões cadentes, poemas difusos, introspecções de uma filosofia mais ou menos opaca dos meus dias (ou + reminiscências melómanas, translúcidas, intra e extra-sensoriais, erógenas, esquizofrénicas ou obsessivas dos meus dias)
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cahier de notes éparses, pensées oisives, réflexions filantes, poèmes diffus, introspections d'une philosophie plus ou moins opaque de mes journées (ou + de réminiscences mélomanes, translucides, intra-sensorielles et extra-sensorielles, érogènes, schizophrènes ou obsessionnelles de mes journées)

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Regresso à vida doméstica


Começa Setembro, de volta à labuta, regresso ao trabalho, ao business as usual , foram-se as férias grandes e o descanso sano da silly season . No Luxemburgo, a tradição medieva da feira estabelecida por João O Cego prolonga por mais alguns dias a ligeireza e a ludicidade estival.

Inspirados por esse aspecto lúdico ou não tanto, e apesar de o Parlamento luxemburguês só regressar ao trabalho na segunda terça-feira de Outubro, alguns apressam a rentrée política.

Como Robert Kieffer, o presidente da Caixa de Pensões luxemburguesa, que ataca o Governo por este ser demasiado generoso, e propõe o aumento das quotizações sociais e mais cortes nos reembolsos médicos. Para isso, aproveita a deixa do jornal económico alemão Handelsblatt, que acusa o Luxemburgo de poder vir a ser "a próxima Grécia", já que o país terá uma dívida "implícita" de 1.100 % do PIB. Sim, leram bem, mil e cem por cento! Kieffer e o jornal alemão apostrofam assim o modelo social luxemburguês e acusam os residentes grão-ducais de "viverem há demasiado tempo na abundância”.

A preocupação legítima (quero acreditar) de Kieffer é salvar a caixa de pensões da bancarrota. Mas em vez de optar por cortar, podia propor outras soluções. Se é verdade que o número de trabalhadores fronteiriços já não chega para assegurar a viabilidade da caixa de pensões, então certas franjas da sociedade não deviam ter erupções cutâneas nacionalistas à chegada de mais mão-de-obra estrangeira, vinda de Portugal ou de outros países.

O Luxemburgo, com uma população cada vez mais envelhecida, precisa dessa mão-de-obra para assegurar o mesmo nível das suas pensões no futuro. O primeiro-ministro luxemburguês Jean-Claude Juncker bem avisou há 10 anos quando disse que o país precisava de 750 mil habitantes em 2050 para assegurar o sistema de pensões. Já não estamos muito longe disso: acrescente-se aos 510 mil habitantes os 150 mil fronteiriços e, se a população continuar a crescer ao ritmo dos últimos anos – uma média de 10 mil pessoas por ano –, estaremos nos 750 mil antes de 2025, o que nos deixa alguma margem para preparar o futuro. E o que é governar senão prever sabiamente?

Só que em 2002 as mentes pequeninas insurgiram-se com a proposta de Juncker. Mas ou é isso ou é cortar nas pensões, e muito brevemente. E quem quer isso? Agora o que é necessário fazer é agir de forma coerente e não negar evidências, acolhendo essa mão-de-obra condignamente, já que precisamos dela.

Era o que devia ser explicado, por exemplo, aos peticionários contra a instalação de um centro de requerentes de asilo em Junglinster. Se os habitantes da comuna – vamos apenas pegar nos que têm mais de 45 anos, e já são muitos –, considerarem que são os primeiros, caso fiquem no Luxemburgo, que vão pagar a reforma dos segundos, talvez alguns moradores até oferecessem o terreno para construir o tal centro. Não?

Quanto ao tal jornal alemão, o primeiro objectivo é obviamente desviar os ódios europeus da Alemanha, que até agora se soube manter ao abrigo da crise e lida com altivez com os PIGS (Portugal, Itália, Grécia e Espanha), os que chafurdaram na crise. Depois, e com uma cajadada só mata mais um coelho (não o português, que esse se mostra obediente com a cenoura raquítica que obteve do "tutor alemão", como lhe chamou António José Seguro!), atacando Juncker na sua política doméstica para o pôr em questão na sua liderança no Eurogrupo. É que os políticos alemães andam há demasiado tempo a tentar deglutir (engolir) que um líder de um pequeno país dite a política monetária da zona euro, à revelia dos ditames do gigante germânico. Mas falta-lhes o que Juncker tem de sobra: uma verdadeira visão e dimensão europeias.

Na esteira do Verão luxemburguês a já longa "telenovela" que envolve o ministro do Trabalho teve um novo desenvolvimento. Depois de ter sido já acusado de ingerência junto de agentes da autoridade, primeiro para defender o filho e depois a mulher, Nicolas Schmit hesitou muito entre ficar no executivo ou pelo lugar de embaixador em Paris. E ninguém sequer lhe propôs o lugar de Yves Mersch à frente do Banco Central do Luxemburgo?! Então, talvez embaixador? Decisões, decisões… Afinal, na segunda-feira foi anunciado que o executivo escolheu Paul Duhr para Paris. O que faz com que Schmit tenha mesmo que continuar a lidar com mais uma polémica: a troca de director na ADEM. Polémica porque a ex-directora Mariette Scholtus entende recorrer da decisão junto do tribunal administrativo. Será que Scholtus vai utilizar como argumento para se agarrar ao lugar que quando entrou em funções no ano 2000 o desemprego estava nos 2,5 % e agora está nos 6 %? E que muitos "placeurs" (não todos!) pouco mudaram na sua eficiência, altivez e imobilismo (ou será mesmo ausência?) perante os desempregados? Enfim, estes episódios da "telenovela Schmit" mancham aquele que podia ser considerado como uma das mentes mais brilhantes do partido socialista, e mesmo do Governo. Ele que podia ser o Juncker do LSAP é actualmente o membro do executivo menos popular junto do eleitorado.

Mas como em todos os reinos deste globo, polvilhe-se q.b. a parte podre do bolo com cerejas e glamour e o povo com o barulho do circo esquece até o pão. E o que há de melhor para dourar o baço brasão da monarquia grã-ducal e o ilustre lustro que o país perdeu nos últimos anos do que um casamento principesco à la Lady Di, que todos aguardam gulosamente a 20 de Outubro? Guillaume é o nosso William, aspira o povo febrilmente.

São estas as aventuras que nos aguardam na rentrée . Esperam-se ansiosamente mais cenas dos próximos capítulos.

José Luís Correia
(In CONTACTO, 05/09/2012)

sábado, 1 de setembro de 2012

Slavoj Žižek: Don't Act. Just Think.



Slavoj Žižek is a Slovenian philosopher and cultural critic. He is a professor at the European Graduate School, International Director of the Birkbeck Institute for the Humanities, Birkbeck College, University of London, and a senior researcher at the Institute of Sociology, University of Ljubljana, Slovenia. His books include Living in the End Times, First as Tragedy, Then as Farce, In Defense of Lost Causes, four volumes of the Essential Žižek, and many more.


Transcript

Slavoj ZizekCapitalism is . . . and this, almost I’m tempted to say is what is great about it, although I’m very critical of it . . . Capitalism is more an ethical/religious category for me.  It’s not true when people attack capitalists as egotists.  “They don't care.”  No!  An ideal capitalist is someone who is ready, again, to stake his life, to risk everything just so that production grows, profit grows, capital circulates.  His personal or her happiness is totally subordinated to this.  This is what I think Walter Benjamin, the great Frankfurt School companion, thinker, had in mind when he said capitalism is a form of religion.  You cannot explain, account for, a figure of a passionate capitalist, obsessed with expanded circulation, with rise of his company, in terms of personal happiness.
I am, of course, fundamentally anti-capitalist.  But let’s not have any illusions here.  No.  What shocks me is that most of the critics of today’s capitalism feel even embarrassed, that's my experience, when you confront them with a simple question, “Okay, we heard your story . . . protest horrible, big banks depriving us of billions, hundreds, thousands of billions of common people's money. . . . Okay, but what do you really want?  What should replace the system?”  And then you get one big confusion. You get either a general moralistic answer, like “People shouldn't serve money.  Money should serve people.”  Well, frankly, Hitler would have agreed with it, especially because he would say, “When people serve money, money’s controlled by Jews,” and so on, no?  So either this or some kind of a vague connection, social democracy, or a simple moralistic critique, and so on and so on.  So, you know, it’s easy to be just formally anti-capitalist, but what does it really mean?  It’s totally open. 

This is why, as I always repeat, with all my sympathy for Occupy Wall Street movement, it’s result was . . . I call it a Bartleby lesson.  Bartleby, of course, Herman Melville’sBartleby, you know, who always answered his favorite “I would prefer not to” . . . The message of Occupy Wall Street is, I would prefer not to play the existing game.  There is something fundamentally wrong with the system and the existing forms of institutionalized democracy are not strong enough to deal with problems.  Beyond this, they don't have an answer and neither do I.  For me, Occupy Wall Street is just a signal.  It’s like clearing the table.  Time to start thinking.
The other thing, you know, it’s a little bit boring to listen to this mantra of “Capitalism is in its last stage.”  When this mantra started, if you read early critics of capitalism, I’m not kidding, a couple of decades before French Revolution, in late eighteenth century.  No, the miracle of capitalism is that it’s rotting in decay, but the more it’s rotting, the more it thrives.  So, let’s confront that serious problem here. 
Also, let’s not remember--and I’m saying this as some kind of a communist--that the twentieth century alternatives to capitalism and market miserably failed. . . . Like, okay, in Soviet Union they did try to get rid of the predominance of money market economy.  The price they paid was a return to violent direct master and servant, direct domination, like you no longer will even formally flee.  You had to obey orders, a new authoritarian society. . . . And this is a serious problem: how to abolish market without regressing again into relations of servitude and domination.
My advice would be--because I don't have simple answers--two things: (a) precisely to start thinking.  Don't get caught into this pseudo-activist pressure.  Do something. Let’s do it, and so on.  So, no, the time is to think.  I even provoked some of the leftist friends when I told them that if the famous Marxist formula was, “Philosophers have only interpreted the world; the time is to change it” . . . thesis 11 . . . , that maybe today we should say, “In the twentieth century, we maybe tried to change the world too quickly.  The time is to interpret it again, to start thinking.” 
Second thing, I’m not saying people are suffering, enduring horrible things, that we should just sit and think, but we should be very careful what we do.  Here, let me give you a surprising example.  I think that, okay, it’s so fashionable today to be disappointed at President Obama, of course, but sometimes I’m a little bit shocked by this disappointment because what did the people expect, that he will introduce socialism in United States or what?  But for example, the ongoing universal health care debate is an important one.  This is a great thing.  Why?  Because, on the one hand, this debate which taxes the very roots of ordinary American ideology, you know, freedom of choice, states wants to take freedom from us and so on.  I think this freedom of choice that Republicans attacking Obama are using, its pure ideology.  But at the same time, universal health care is not some crazy, radically leftist notion.  It’s something that exists all around and functions basically relatively well--Canada, most of Western European countries. 
So the beauty is to select a topic which touches the fundamentals of our ideology, but at the same time, we cannot be accused of promoting an impossible agenda--like abolish all private property or what.  No, it’s something that can be done and is done relatively successfully and so on.  So that would be my idea, to carefully select issues like this where we do stir up public debate but we cannot be accused of being utopians in the bad sense of the term.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Perfeitos imperfeitos


PERFEITOS IMPERFEITOS


Capítulo I - Iniciação 

Uma rosa serôdia num terminal de aeroporto,
os aviões aterrando e nós descolando.

O teu vestido azul com um facho na noite,
um beijo roubado e as luzes intermitentes
da auto-estrada no teu rosto constante.

O teu perfume por mim acima
as minhas mãos em desassossego
mas sem medo procurando as tuas.

Os barulhos da cidade finalmente ao longe
absorvidos pela tranquilidade da serra,
a terra prometida, a noite desejada porque a desejámos.


Sintra à beira serra, à beira beijo,
Baía de Cascais, devaneio à beira Tejo.
Cheguei ao meu porto de abrigo e tu ao teu ancoradouro amigo.

E desde o Monte da Lua e do promontório do esteiro
lançámos sonhos ao céu e ao mar com espuma de infinito.


O nosso amor consumado num acto de fé.


Capítulo II - Benção 


Meu amor, venho de longe só para te dizer
que o vento mudou
e que tens de esquecer.

O futuro não pode ser refém
da perfeição, da ilusão
nem do que já passou.

Serás a minha odalisca arisca
e eu o teu beduino de olhos em amêndoa.
Se quiseres.

Serás a minha princesa mourisca
de olhos tristes e coração de leoa.
Se me quiseres.

Não tenho tesouros nem palácios de marfim
mas quero-te no meu harém de ninguém
de púrpura e carmim.

Vem, deixa-me beijar a tua cicatriz
e lamber as tuas feridas
diz-me que desfiz
os teus pesadelos e as promessas traídas
e todo o desengano insano.

Que nada agora te acanhe
minha rosa champanhe
minha Coco Chanel, minha Maria Rapaz
minha Mónica fogosa e audaz
minha poesia, minha prosa,
minha literatura
minha alma velha, minha centelha
meu relâmpago, meu trovão 
minha pimenta, meu açafrão
meu gengibre e meu anis
minha flor dos Cárpatos
minha princesa etérea, minha alma pura,
não me digas que estamos a ser insensatos,
não sejas perfeita, sê feliz!


III - Oração

Sejamos perfeitos imperfeitos,
sem condicionais. E desejemos mais,
desejemos tudo, só tudo pode ser o desejo.
E para além de todos os tempos verbais
sejamos mais que perfeitos!



Capítulo IV - Consagração

És raio de sol
que atravessou o meu caminho,
luz que iluminou a minha vida.
Detive-me e disfrutei
do teu calor no meu rosto e no meu peito.

És clarão na noite escura, na minha noite,
como a gota de chuva se enche de amor
antes de se lançar dos céus para dar vida a um torrão de terra.

És a fragrância fresca nas minhas manhãs, legado delicado
e diafano, como um sopro de vida a acordar-me.
Como pode um raio de luz ter-se extraviado
e agora encontrar-me?

Como pode o teu abraço ser o meu arpejo,
como pode o teu olhar entender-me assim,
como podem os teus lábios terem o desenho do meu beijo
como posso ter tanta sede de ti?

Deus, como tenho sede.

E tu, que devias ser água, és oceano.
Devias ser luz, mas és sol.
Devias ser calor, mas és fogo.
Devias ser sexo, mas és amor.
Devias ser gozo, mas és êxtase.
Devias ser grito, mas és libertação.
Devias ser mito, mas és fé.
Devias ser salto, mas és voo.
Devias ser tontura, mas és queda.
Devias ser vertigem, mas és viagem.
Devias ser o universo todo. E somos.

Como podem os nossos sonhos e as nossas almas
ter-se misturado no infinito
há tantos séculos atrás e os nossos corpos
somente agora no tempo finito deste delito?


Capítulo V - Sacramento

És manhãs de amor e tardes de calor,
horas de desatino, lençóis em desalinho,
noites estreladas, e todas as minhas madrugadas.

És os meus dias e as minhas horas
os meus minutos e os meus segundos
e toda a mecânica do meu coração.

As minhas mãos nos teus seios cheios
o teu rosto em mim
os teus cabelos na cascata da minha boca
quando me olhas assim
as tuas coxas e as tuas pernas cerceando-me sem dano
as tuas costas arqueadas numa alegre semifusa
as tuas gotas de suor num arco-íris profano
e nesse instante supremo quero lá saber da hipotenusa
e até a gramática fica à míngua
quando a duna da tua barriga toca na minha língua
é só o teu esforço no meu
o teu cansaço no meu
e tudo o mais que faço
é no teu regaço, arregaço, amasso, desfaço, trespasso, refaço.

Descanso.
Descansa.

E és finalmente todo o teu corpo a desaguar no meu
como se a tua foz fosse a minha garganta
e o meu peito a tua esperança.

Desagua nos meus braços
e dança na minha boca
segura-te aos meus flancos
escorre pelas minhas margens
como a força das marés.

Que a lua grave
desta atracção nada sabe
nem o teorema de Newton
compreende esta lei.

Um rio não se engana a caminho do mar,
então porque hás-de tu?



Capítulo VI - Comunhão

Acto de fé, auto-de-fé
combustão espontânea dos corpos
e das nossas bocas em rota de colisão
tsunami dos nossos sentidos
e dos nossos sexos comungando a ânsia.

Seja feita à nossa vontade!

E dizendo isto ergueu a taça enrugada aos céus
e disse:  "Esta é a minha vida,
que hei-de derramar em ti e por ti
para salvação do nosso pecado".

E a penitente obediente ajoelhou-se
e aceitou a vida na sua boca e no seu peito.

Depois, pegando novamente no seu cálice,
levantou-o ao alto e fazendo isto disse:
"Este é o meu corpo, que repouso em ti
e no teu coração, para glória do nosso Amor".

E a penitente finalmente sorriu
e beberam os dois do veneno antigo.

Seja feita à nossa vontade!



Capítulo VII - Apocalipse


Einstein tinha razão:
o tempo dilata quando estou longe de ti.



JLC28082012

Comunhão

Acto de fé, auto-de-fé
combustão espontânea dos corpos
e das nossas bocas em rota de colisão
tsunami dos nossos sentidos
e dos nossos sexos comungando a ânsia.

Seja feita à nossa vontade!

E dizendo isto ergueu a taça enrugada aos céus e disse:
"Esta é a minha vida, que hei-de derramar em ti e por ti
para salvação do nosso pecado".

E a penitente obediente ajoelhou-se
e aceitou a vida na sua boca e no seu peito.

Depois, pegando novamente no seu cálice, levantou-o ao alto
e fazendo isto disse: "Este é o meu corpo, que repouso em ti
e no teu coração, para glória do nosso Amor".

E a penitente finalmente sorriu e beberam os dois do veneno antigo.

Seja feita à nossa vontade!

JLC13082012


sábado, 25 de agosto de 2012

Morreu Neil Armstrong, o primeiro homem a pisar a Lua


O astronauta norte-americano Neil Armstrong, o primeiro homem que caminhou na Lua, morreu hoje aos 82 anos, anunciou a cadeia de televisão americana NBC News.

Neil Armstrong tinha sido operado ao coração a 7 de Agosto. 

O astronauta Neil Armstrong e o seu companheiro da Apollo 11, Buzz Aldrin, foram os primeiros homens a caminhar na superfície lunar, a 20 de Julho de 1969. 

Armstrong nasceu em 1930 e foi astronauta, piloto de testes e aviador naval. Antes de se tornar astronauta, estava na Marinha dos Estados Unidos e serviu na Guerra da Coreia. Após a guerra, serviu como piloto de testes na Estação de Voo do Comitê Consultivo Nacional para a Aeronáutica (NACA) de alta velocidade.

Armstrong interessou-se pela NASA cinco ou seis meses depois da abertura das inscrições para a formação de um novo grupo de astronautas, em 1962, e foi escolhido para o chamado Grupo dos Nove, denominação decorrente do modo como eram conhecidos os primeiros astronautas norte-americanos seleccionados em 1960 para o Projeto Mercury, o Grupo dos Sete, tornando-se o primeiro astronauta norte-americano civil.

Toda a saga de Armstrong, Aldrin, Michael Collins e do voo pioneiro está contada na história da missão Apollo 11. A sua frase épica, "Este é um pequeno passo para o homem, um salto gigantesco para a Humanidade" ao pisar pela primeira vez a superfície lunar, é uma das mais conhecidas na História, mas só veio à cabeça de Neil poucos momentos antes de descer da nave, já pousado na Lua, pelo menos é o que reza a lenda.

Além de algumas experiências científicas que ali fizeram, Armstring e o piloto do Módulo Lunar, "Buzz" Aldrin, plantaram no Mar da Tranqüilidade uma bandeira dos Estados Unidos e colocaram uma placa junto ao Módulo Lunar Eagle, assinada pelos astronautas e pelo presidente americano Richard Nixon: "Aqui os homens do planeta Terra puseram pela primeira vez os pés na Lua, em 20 de Julho de 1969. Viemos em paz em nome de toda a Humanidade".

Após a cirurgia ao coração no início de Agosto, para desobstrução das artérias, encontrava-se a recuperar no Hospital de Cincinnati, cidade onde morava com a esposa. Mas Armstrong não resistiu às intervenções e acabou por falecer em Columbus, no estado de Ohio.

(Lusa/Wikipedia)

The Phantom of the Opera • All I Ask of You • Emmy Rossum & Patrick Wilson



No more talk of darkness,
Forget these wide-eyed fears
I'm here, nothing can harm you
My words will warm and calm you

Let me be your freedom
Let daylight dry your tears
I'm here, with you, beside you
To guard you and to guide you

Then say you love me every winter morning
Turn my head with talk of summertime
Say you need me with you, now and always
Promise me that all you say is true
That's all I ask of you

Let me be your shelter
Let me be your light.
You're safe: no-one will find you
Your fears are far behind you

All I want is freedom
A world that's warm and bright
And you always beside me
To hold me and to hide me

Then say you'll share with me
One love, one lifetime
Let me lead you from your solitude
Say you need me with you here, beside you
Anywhere you go, let me go too
That's all I ask of you

Say the word and I will follow you.
Share each day with me, each night, each morning
Say you feel the way I do
That's all I ask of you
Anywhere you go let me go too
Love me - that's all I ask of you

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

POEMA DOS HERÓIS


Poema dos Heróis

Eu era um índio,
vestia uma velha serrapilheira
na qual a minha mãe tinha cortado franjas
e colado fitas coloridas,
calçava as pantufas da minha tia
a fazer de mocassins 
elas punham-me riscas de batom no rosto
a imitar pinturas de guerra
para eu lutar contra o Batman e o Zorro.

Também eu queria resgatar a fada e a princesa
mas elas não queriam.
O Batman e o Zorro ganhavam sempre.
Pum, pum, pum e eu tinha que morrer
mesmo se não me apetecesse.
Como pode o vilão ser tão bem mandado?

Eu preferia fumar o cachimbo da paz,
escolher penas de águia para enfeitar o cabelo
e partilhar o lanche com a minha squaw
debaixo da carteira da professora imitando o tipi.

Mas a Anita soltava um gritinho
e fugia esconder-se atrás do Osvaldo ou do Bruno.
Como pode uma princesa preferir um herói
vestido de morcego ou de raposa ?

No ano seguinte fiz uma birra
e quis um coldre, um colete,
uma estrela, um chapéu de cobói
e uma pistola que dava estalidos e tudo.

Mas a princesa veio de Pocahontas
e as setas do Gerónimo
vieram colar-se à testa do xerife mau.

JLC05052012

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Do Ser

"Ah não ser eu toda a gente e toda a parte!", 
Fernando Pessoa (Ode Triunfal) 

Dia mágico. Há dias assim. O dia 28 de Julho. A vida não pergunta se estás preparado, não te diz que é certo ou errado, se é o momento propício ou não. É e pronto. E tu, ou apanhas boleia da vida ou ficas para trás. E, como prefiro viver com remorsos do que com pesares, atirei-me à água.

E, de repente, o universo inteiro entrou-me pelos olhos adentro, era como se estivesse no meu corpo e em toda a parte ao mesmo tempo, um tempo único, um só instante, como se todo o tempo desde o Big Bang e bem antes tivesse sido apenas um segundo, esse segundo que ali eu sentia em mim, era como se o universo fosse infinito mas eu conseguisse ver exactamente o ponto em que ele era finito e como uma membrana se desmultiplicava noutros, não um universo, um multiverso, como nós, que ainda não sabemos, mas somos múltiplos, como dizia Pessoa, somos tudo e todos, e não sabemos ainda

Era como se tudo de repente fizesse sentido, o movimento das partículas, o enigma quântico, a transmutação dos neutrinos, o paradeiro do bosão, as órbitas dos átomos, a ordem das moléculas, a tabela dos elementos, a corrida dos rios rasgando leito até ao mar, as erupções dos vulcões rompendo a geografia, a força dos ciclones e dos tsunamis devastando as civilizações, o trilho invisível dos insectos, o voo aleatório das aves, o percurso dos invertebrados aos mamíferos, a origem do Homem, o destino da Humanidade, a rotação da Terra, a inclinação da Lua, a explosão do Sol, a cintura de asteróides, os eclipses de Saturno, os semi-anéis de Neptuno, o braço menor de Orion, o enigma dos nativos de Sirius, a íris negra da via láctea, a colisão com Andrómeda, a dobra no tecido do espaço, a deriva galáctica, a variante cósmica, o fim do cosmos, o big bang.

E eu estava em toda a parte e em cada instante. Melhor, eu era tudo e todos os instantes. As explosões em mim, as estrelas em mim, os buracos negros rasgando-me por dentro, o universo todo em mim, dilatando o tempo que não existe.

E tudo isto porque conheci um outro ser. Tu!




domingo, 19 de agosto de 2012

Esta é a tua herança


"(...) Meu filho, daqui contemplas o teu destino, o teu passado e o teu futuro, estas são as nossas, as tuas raizes, com origem numa outra vida, num outro tempo. 

Fomos príncipes das Terras Altas, reis dos territórios do nevoeiro e soberanos destess vales, que acordam banhados de orvalho e neblina e que o sol não se cansa de doirar, do raiar do dia ao ocaso que sempre  assombram como um fim do mundo. 

A nossa história atravessou os séculos, os tempos, as eras, e esta é a herança que te deixo, para que perpetues o nosso sangue, o nosso nome e a nossa lenda...(...)"

Raúl Afonso Cosarca Correia,
(in "Raízes Que Viajam", pág. 28, C&C Edições Brasil-Europa, s.d.)

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

SINAL WOW RECEBIDO PELO SETI EM 15 DE AGOSTO DE 1977



15 de Agosto de 1977: Foi há 35 anos que o Instituto Seti (Search for Extra-Terrestrial Intelligence) captou o único sinal recebido na Terra que se suspeita ser de origem extra-terrestre. Nunca mais se fez ouvir 

Le signal « Wow! » fut un fort signal radio à bande étroite capté le 15 août 1977 par le radiotéléscope The Big Ear de l'université de l'État de l'Ohio. Présumé extraterrestre, ce signal a duré 72 secondes et n'a plus été détecté depuis.
C'est l'astrophysicien Jerry R. Ehman qui observa le phénomène alors qu'il travaillait avec le radiotélescope au projet SETI. Stupéfié de voir à quel point le signal correspondait à la signature attendue d'un signal interstellaire dans l'antenne utilisée, Ehman a entouré au stylo le passage correspondant sur la sortie imprimée et a écrit le commentaire « Wow! » (exclamation de surprise ou d'admiration en anglais) dans la marge à côté. Ce commentaire est devenu le nom du signal. On ne connaît ni la nature ni l'origine du signal et, a fortiori, s'il codait quelque-chose. Affirmer qu'il codait quelque-chose équivaut à certifier qu'il avait pour origine une civilisation extraterrestre, ce qui n'est pas prouvé à ce jour. Certitudes[réf. nécessaire] : le signal était à bande étroite (quelques kHz) ; il venait d'une direction très précise du ciel, la durée de 72 secondes correspondant au passage d'un "lobe" de sensibilité de l'antenne sur ce point ; lors du passage d'un second lobe quelques minutes plus tard, le signal avait disparu. Cela suggère une origine dans l'espace, en orbite ou plus loin. Il n'y a pas d'explication physique connue. Une explication qui a été proposée pour le wow et pour d'autres signaux similaires trouvés depuis par SETI est qu'ils pourraient être des réflexions d'émetteurs radios terrestres sur des satellites, mais d'autres ont dit que ces réflexions ne pourraient pas renvoyer assez d'énergie. Restent des phénomènes physiques inconnus, ou des émissions de civilisations extraterrestres selon des modalités incomprises.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

O nosso amor morreu

O nosso amor morreu... Quem o diria?
Quem o pensara mesmo ao ver-me tonto,
Ceguinho de te ver, sem ver quanto
Do tempo que passava, que fugia!

Bem estava a sentir que ele morria...
E outro clarão, ao longe, já desponta!
Um engano que morre... e logo aponta
A luz doutra miragem fugidia...

Eu bem sei, meu Amor, que pra viver
São precisos amores, pra morrer,
E são precisos sonhos pra partir.

E bem sei, meu Amor, que era preciso
Fazer do amor que parte o claro riso
De que outro amor impossível que há-de vir!

FLORBELA ESPANCA

quarta-feira, 18 de julho de 2012

l'ennuie

le désir de vie m'ennuie,
l'ivresse des moments m'étouffe,
je ne suis ni le bateau ni le rivage
mais la rivière et je mes sens couler malgré moi
vers un immense destin certain qui m'engloutira
et je ne serais plus rivière ni fleuve ni rien
je hais la destinée, la mer, les nuages, la terre,
ce cycle inévitable, je fais du surplace
et n'arrive pas à m'arracher de mon lit,
à m'évaporer vers d'autres cieux,
à me laisser emporter par d'autres vents,
à me laisser dégouliner dans d'autres gueules,
à me laisser boire par d'autres gorges
je voudrais me tranformer en veines
et en sang et marcher et courir et m'enfuir

JLC

A banda original sonora da minha vida

A banda original sonora da minha vida está riscada
passo como um fantasma por ela
como se apenas a assombrasse
como se apenas tivesse dela
o ténue e translúcido retrato
que deixam os dedos suados
numa vidraça entre dois mundos indistintos.

Turista de universos paralelos
passageiro da vida
como se observasse tudo de outro lugar.

Devolveram-me o rascunho.
Desenha outro!, ordenaram-me.
Mas eu fiz birra, disse que já não queria, era o que faltava!
Desatei aos pontapés com a vida
e com um revés de mão violento
varri do estirador a minha dor
e todos os meus papéis certinhos
misturei o passado ao futuro
porque já não tenho, não estou nem sou presente.

Tinha saudades do que podia ser
procurava incansavelmente o círculo que não existe.
Tudo é apenas alucinação, vertigem
e eu caí na espiral, na miragem.

Preciso escapar de mim mesmo
para sair ileso daqui.
A vida é um caminho
que não vai dar a lugar nenhum

(...)

JLC

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Higgs : "Nunca pensei viver para ver este dia"

Peter Higgs, o cientista britânico que deu o nome ao “bosão de Higgs” e que em 1964 publicou a teoria da existência da partícula subatómica que confere massa, disse estar “deliciado” com a provável confirmação da teoria.

“Nunca esperei que isto acontecesse enquanto eu fosse vivo, e vou pedir à minha família que ponha champanhe no frigorífico”, disse o cientista, de 83 anos, numa declaração à imprensa na quarta-feira.

Higgs vive em Edimburgo, a capital da Escócia, mas esteve na ontem presente em Genebra, quando a Organização Europeia para Pesquisa Nuclear (CERN, na sigla francesa) anunciou a descoberta de uma partícula subatómica “consistente” com o bosão que tem o nome do cientista.

No entanto, o CERN não confirmou ainda que a nova partícula descoberta seja o tão procurado "bosão de Higgs".

“É uma coisa incrível, que isto aconteça enquanto eu sou vivo”, disse Higgs, que recebeu uma ovação de pé quando chegou ao auditório do CERN. Higgs sentou-se, no auditório, ao lado do físico belga Francois Englert, de 79 anos, que contribuiu também de forma separada para a teoria.

“Só quero dizer que os meus pensamentos vão para Robert Brout”, disse Englert, em lágrimas, que louvou o terceiro cientista pioneiro, que morreu em 2011, sem ver provada a teoria.

O que é o bosão de Higgs?

Se existir, o  Bosão de Higgs pode mudar tudo o que sabemos sobre o Universo e a Natureza. O bosão de Higgs é uma partícula elementar,que se supõe terá surgido logo após o Big Bang, ou seja, a explosão que deu origem ao nascimento do Universo.

A sua escala pode ser maciça e validar o modelo padrão actual das restantes partículas elementares. É a única partícula do modelo padrão que ainda não foi observada, mas pode representar a chave para explicar a origem da massa das outras partículas elementares.

O bosão de Higgs combina duas forças da natureza e mostra que são, de facto, aspetos diferentes de uma mesma força maior, sendo que esta partícula é a responsável pela existência de massa nas partículas elementares.

O bosão de Higgs foi predito em 1964 por vários cientistas, mas só até há bem pouco tempo, quando o Colisionador de Partículas norte-americano Tevatron e o Largo Colisionador de Hadrões (LHC), na Suíça, começaram a funcionar é que passaram a existir condições tecnológicas de procurar a possível existência do bosão.


Depois de quase meio século de investigação, e dezenas de milhar de milhões de euros investidos, os cientistas acreditam ter descoberto agora o bosão.

A Alemanha, o país que mais investiu no processo de descoberta da partícula, já saudou a descoberta, que Berlim considerou como histórica.

“A busca pelo bosão de Higgs durou quase 50 anos, mais é possível que tenha sido atingido. A persistência e a curiosidade dos investigadores foram recompensados. Felicito as equipas por esta descoberta sensacional”, disse em comunicado Annette Schavan, ministra alemã na investigação científica.

A descoberta da partícula permitiu também aos cientistas respirarem de alívio, uma vez que confirma a teoria que identifica os blocos constitutivos da matéria ("building blocks of life").

“O bosão de Higgs tinha sido antecipado há mais de quatro décadas e, se não existisse, os teóricos de todo o mundo teriam de voltar ao início, em desespero”, disse Anthony Thomas, da universidade australiana de Adelaide, citado pela agência noticiosa France Presse.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Cientistas quase a anunciar descoberta do Bosão de Higgs, também conhecido por partícula de Deus

A verificar-se que o Bosão de Higgs existe, a descoberta
pode mudar tudo o que sabemos sobre o Universo
O Bosão de Higgs é uma partícula elementar,que se supõe terá surgido logo após o Big Bang, ou seja, a explosão que deu origem ao nascimento do Universo. 

A sua escala pode ser maciça e validar o modelo padrão actual das restantes partículas elementares. É a única partícula do modelo padrão que ainda não foi observada, mas pode representar a chave para explicar a origem da massa das outras partículas elementares.

O bosão de Higgs foi predito em 1964 por vários cientistas, mas só até há bem pouco tempo, quando o Colisionador de Partículas norte-americano Tevatron e o Largo Colisionador de Hadrões (LHC), na Suíça, começaram a funcionar é que passaram a existir condições tecnológicas de procurar a possível existência do bosão. 

sábado, 30 de junho de 2012

30 de Junho - Último dia de férias

Aeroporto de Faro.

Daqui a quatro horas faço 39 anos.  É o meu último dia de férias. Estive por aqui duas semanas e meia para meter distância entre mim e o Luxemburgo, entre mim e a realidade. Consegui?

O que levo daqui? Dez quilos de livros, comprei alguns porque precisava, uns porque os vou ler, outros porque os quero ter, outros ainda por obsessão, outros mais por devaneio, e outros porque sim. Comprei música: Miguel Araújo e três compilações de hip-hop em português, um relógio Rolex Oyster Daytona. Lindíssimo. E eu vaidoso. E com vergonha desta vaidade bacoca e barata, que não se parece comigo. Mas fez-me bem fazer-me bem. Por uma vez. Foi a minha prenda de anos a mim mesmo. Acho que posso, acho que mereço.

E mais que isso? Apenas muitos dias de solidão. Sol e dão. Muitos dias erráticos, vadiando, vagueando, deambulando, deslizando por sobre o tecido grosso da realidade. Tentando escapar para a frente. Muitas tentativas de engate planeadas, uma ínfima percentagem realmente levada a cabo no terreno, nenhuma dessas concluindo-se positivamente com um novo número de telefone. Acho que não estava para aí virado... ando enferrujado. Ou triste. Ou cansado da vida.

Apenas dois ou três encontros interessantes.

Do terceiro dia de férias, fica-me a recordação carinhosa de um serão muito agradável com a Tânia, uma amiga actriz, menina delicada e sensível, olhar expressivo e azul, cujo coração não estava disponível para as minhas serenatas e seduções e o corpo para os meus ardores e leviandades. Ficou uma boa amiga? O futuro o dirá...

A meio das férias, num dos passeios por Vilamoura minglei numa festa onde entrei sem ser convidado, era um happening aberto, com gente gira, e tive uma conversa charmosa com a Mónica. Uma menina muito doce, muito bem apessoada, riso de criança, rosto lindo, muito expressivo, olhos calorosos, vestido de cocktail très bcbg (bon chic bon genre), "fui eu que desenhei", um sotaque giríssimo de um país que não descortinei, parecia um daqueles filmes em que o protagonista cruza por acaso uma bela forasteira, mas que afinal é uma espia e que tem como missão seduzi-lo para lhe extorquir informações. Naquela noite eu devia ter envergado o meu fato James Bond. Mas furtei-me à festa demasiado cedo e sem o número de telefone da bela desconhecida...

Ontem, penúltimo dia das férias, voltei a Vilamoura e ofereci-me a mim mesmo um jantar num dos meus restaurantes preferidos da marina, o Akvavit. Gosto porque tem uma esplanada sobre a água, com vista para toda a marina, mesas largas, cadeiras resistentes e confortáveis em rede, música lounge agradável, pessoal esmerado e atencioso. Encomendei tostas com doce e foie gras, como entrada; folhado de espinafres como prato principal; regado por duas imperiais. E um expresso, que a noite ainda era uma criança e eu estava com esperança de rever a Mata Hari do outro dia ;-) Mas foi debalde que a procurei com os olhos no lugar onde nos tínhamos conhecido. Não quis o destino...

Dei uma volta, passeando o olhar pelos passantes, transeuntes, turistas e emigrantes. Os emigrantes reconhecem-se pelos calções com logos dos subúrbios parisienses e t-shirt griffé. As inglesas reconhecem-se pela sua toilette, vestido comprido, alguns de cores garridas. Saem à noite em Vilamoura como se fossem a uma festa em Buckingham Palace, mas vão, no máximo, ao Black Jack, a discoteca do Casino. O meu preferido: o vestido-kimono, muito sensual, negro, com flores de cerejeira e decote plongeant, abrindo-se generoso em flor... Ah, mas aquela não era inglesa, era sueca ou escandinava, percebo pela sonoridade da língua. Volto-me para trás à sua passagem e aprecio de longe as curvas perfeitas que a seda japonesa lhe desenha. Isto é como entrar numa pastelaria - para utilizar uma bela metáfora gulosa do "poeta" Joey, da série "Friends" - e não poder provar com o dedo os bolinhos com creme, ou os com chantilly, ou os que têm recheio e poder fazer saltar a cereja do topo.

Esta gulodice é perigosa. Ando demasiado esfomeado e vê-se. Vou com muita sede ao pote e afugento-as.

Última tentativa de conquista com uma eslava no Irish Cabin Pub. Tem olhos doces e um rabo de danar a alma, mas também aqui embrulho o meu discurso de engate no bolso; sirvo um sorriso social que ela me devolve, deixo gorjeta como se isso fosse a minha e a sua única consolação e desejo-lhe boa noite. Regresso sozinho a casa. The story of my life...

A tentativa de fuga para a frente não passou de uma tentativa de evasão falhada. Continuo agrilhoado no meu presente. Os brasileiros têm uma boa expressão para isto: "Cair na real!", uma expressão bem mais forte do que o inglês "back to reality!", porque quando se voa fora dela, o regresso só pode ser uma queda, um trambolhão, um deslizar em queda livre, uma colisão. E depois fico ali eu com os passarinhos parvos e as estrelinhas e os outros gatafunhos a girarem-me à roda da cabeça, tentando retomar os sentidos...

Album de férias

Praia do Garrão logo pela manhãzinha
E um cocktail by night na Marina de Vilamoura 
Fotos C. Silva

quinta-feira, 28 de junho de 2012

28 de Junho - Flores matutinas

Há flores de manhã aos meus pés e só isso me faz sorrir. As flores fazem-me esquecer o pesadelo da madrugada.

Eu ia a uma vidente que se recusava a revelar-me o futuro. Mas uma bruxa, atrás de um caixote em madeira, daqueles velhos com que se acartava antes a fruta nos mercados, lia-me a sina em troca de 25 moedas. Eu ia morrer e já não me sobrava muito tempo. Eu escapara das outras vezes, mas desta não, eram o que diziam as linhas da minha mão esquerda, as cartas de Tarot, as runas, as estrelas, as borras de café, a bola de cristal, as vozes do entre-mundos e todo o coro dos fantasmas habituais da sua panóplia, que nunca erram quando erram e por tanto aí errarem sabem tanto, sabem tudo e não erram.

Acordei estremunhado. E chorei. O que há de pior do que chorar com pena de si mesmo? Não há nada pior, nada!

Mas, como todas as manhãs, levantei-me, procedi às abluções matinais habituais e saí de casa. Ao sair, um chão de flores, caídas durante a noite, fazia de tapete por todo o pátio até ao portão. E eu sorri. Flores? Que bom augúrio, pensei.


quarta-feira, 27 de junho de 2012

27 de Junho - Miúdas e miúdas

Garrão.

Há miúdas, é um pecado tão novas terem um corpinho já esculpido para o pecado. Aquilo só pode dar mau resultado. Ou se afirmam eroticamente juntos dos rapazes da sua idade ou com mania e presunção junto das colegas sem os mesmos atributos. Elas formam logo dois campos opostos: os das gajas e o das meninas. Eles? Eles nem sabem para onde olhar, tudo é tão novo e tentador. Aos 14 anos andam a passear um corpinho que só daqui a quatro saberão mesmo aproveitar, gozar, partilhar, dar.

Enfim, que sei eu, que aos 13, 14, 15, 16 anos me apaixonava platonicamente e não fodia nada, ao contrário de muitos dos meus colegas já sexualmente activos, ainda que muitos inconscientes e inconsequentes das suas acções. O meu despertar veio muito mais tarde, numa noite serôdia de Agosto.

(São pequenos, são grandes, são cheios, são seios.)

As inglesas adolescentes não são como as portuguesas. Aqui, um grupo beberica cerveja Sagres na praia sob o olhar complacente da mãe. A mais velhinha, talvez 16 anos, chega com um Kir Royal para ela e para a mater familias!!! Espectacular! O mundo globalizado afinal não se parece assim tanto, nunca vi putos portugueses desta idade a sorver álcool tão cedo pela manhã às vistas descaradas da figura materna...

Uma outra jovem, portuguesa esta, 16, 17 anos, biquini amarelo, bem desenhada e dourada pelo sol, cabelo castanho claro até às costas, tez morena, traz-me à memória um dia dos meus talvez 15 anos em que fiquei embasbacado ao olhar para o corpinho perfeito de uma colega de turma, quando fomos em grupo à praia, baldando-nos às aulas de uma tarde de Junho. Foi uma das minhas primeiras poluções nocturnas. É daquelas imagens que parecia já ter esquecido, mas a forma como se gravou na memória faz com que em momentos como volte a surgir por uma espécie de vão de escada da reminiscência.

Continuo a ler a extensa quase-autobiografia de Pessoa do Cavalcanti Filho. Pessoa escrevi sobre tudo, sempre, a qualquer hora, sobre qualquer assunto. Eu também me quero, mas as melhores ideias, as frases mais metafísicas, os pensamentos mais originais fogem quando puxo do caderno e da caneta, aparecem quando conduzo, desaparecem assim que estaciono...

E isto é o quê? Notas para o meu diário intermitente, para o meu caderno de itinerários? Escreve para aí, desalmado. Isto nunca dará em nada, então, porque insistes?

terça-feira, 26 de junho de 2012

26 de Junho - Solidão, leitura, escrita e o prof. José Louro

As férias correm lestas para o fim e eu sinto-me só. Passo os serões a repetir a estrada que vai para a praia de Faro, talvez porque só a maresia e o cheiro a pinheiros mansos me acalme, talvez só o estar à beira-mar me sossegue, ou porque apenas o reencontro com este céu estrelado e familiar me faça sentir em casa.

Olho à minha volta, só casais abraçados, de mão dada, famílias com sorrisos felizes. E eu aqui, mais uma vez irremediavelmente só. Vou a um bar, ao chegar arrependo-me, vejo aquela gente feliz, em casal e com e amigos, rindo, bebendo, divertindo-se, aproveitando as férias ou simplesmente a bela noite. E como está bela e amena a noite. Arrepio caminho. Que vou fazer a um lugar onde se celebra com os outros eu que não tenho ninguém?

Os meus dias são todos inúteis, quem inventou os dias úteis? Escrever cansa-me, ler desmoraliza-me, descansar aborrece-me, ir à praia é chato. Pego no carro alugado e ando às voltas, queimo estrada.

Debaixo do alpendre da casa, as manhãs de Junho são amenas e frescas. Sopra do mar uma brisa que refresca as primeiras horas do dia e torna suportável o sol áscio. Disponho à minha volta livros e escrevo, como se o talento se transmitisse por osmose. Sento-me na mesa de mogno, rabisco ideias (todas batidas), frases (todas déjà vu), pensamentos (todos inanes). Pego noutro livro, folheio-o, deito-me no sofá esquecido ali, os crisântemos balouçam ao sol, a figueira ancestral esfolha-se na brisa, refolha-se e mira-me, até as palmeiras da vivenda vizinha me parecem já familiares e não fruto do adubo industrial da Primavera passada.

Passo de Pessoa a Rentes de Carvalho, depois viajo com Theroux e João Ricardo Pedro, folheio as antologias poéticas, Píndaro, Safo, Orfeu, Xenófanes, Sofócles, Aristófanes, Esopo, Virgílio, canso-me dos clássicos e regresso a António Barahona, Gastão Cruz, Diogo Vaz Pinto, A.M. Pires Cabral e todas as novas vozes de que não faço parte...

Por exemplo Diogo Vaz Pinto. Muito bom. Cada vez que descubro um novo talento, uma nova pena, questiono-me sobre a minha escrita, que sentido tudo isto toma, as minhas dezenas de cadernos amontoados, espólio ignorado.

Estive hoje com o professor José Louro e foi bom revê-lo. Numa casa nova, a duas daquela que partilhou com Zeca Afonso, confia-me, quando este foi professor em Faro. Falou-me de teatro, da sua vida, como veio de Coimbra, de que nunca gostou, para Faro, os grupos de teatro que ajudou a fundar, desde o da Universidade de Lisboa, que viria a dar origem ao Teatro da Cornucópia do Luís Miguel Cintra, ao grupo Sincera da Universidade do Algarve, "fundado num vão de escada".

"Esta era a casa do Doutor Cabeçadas", conta-me, e em novo ele passava por aqui com o Zeca e dizia, "Um dia quero morar numa casa como estas". Já reformado, uma sua amiga que mora em Lisboa, pediu-lhe para ocupar uma casa em Faro que ela não queria arrendar a estranhos. Era esta casa, a casa dos seus sonhos quando era jovem professor...

No seu escritório pequeno, por onde entra pelas frestas de uma janela semi-aberta o sol forte e luminoso da tarde que começa, está rodeado por livros de teatro e de poesia. "O resto dos livros estão na minha outra casa em Almancil. E quando um autor morre, traslado-o daqui para lá", ri-se. Está velho, mas rijo, forte, robusto, lúcido, muito lúcido, sempre uma galhofa inteligente na ponta da língua. Vêm-no visitar muitos antigos alunos, para o rever ou para pedir-lhe ajuda para projectos em que serve de mentor, foi-o de tantos, inspirou tantos, aos quais com paixão ensinou e transmitiu o seu amor pelo teatro e pela literatura. Fomos tantos.

Reconheceu-me logo pela voz, assim que falei pelo intercomunicador. Recebeu-me em roupão, "acabo de acordar", eram duas da tarde. Há quase 20 anos que não nos víamos, não falávamos, mas a conversa retomou como se fóssemos velhos amigos. O Luís Vicente já lhe tinha dito que me tinha encontrado no Luxemburgo e logo exortou-me a comparecer à sua presença, antes que fosse desta para melhor.

Falámos ainda de livros, de escrita, de escritores, do Nuno Júdice. Confirmou-me que "é um gajo calado". Já "o Casimiro de Brito fala pelos cotovelos". Ah, e rimos muito. Foi bom este reencontro.

sábado, 23 de junho de 2012

23 de Junho - Dois dias com a minha prima e encontro de terceiro grau com uma "estreleta"

A minha prima Cindy esteve dois dias aqui comigo, extraiu-me desta solidão a que me votei. Fez-me bem. Falei com ela de assuntos de que nunca tinhamos falado antes. Cresceu a minha priminha. Teve experiências, viveu, amou. Ainda bem. Fico muito feliz por ela. Cresce sã e com a mente aberta. Mas acautelada.

Encontro imediato de 3° grau com a Isabel Figueira, "estreleta" da televisão que eu desconhecia por completo. Foi a minha prima que a identificou, apresenta o Top+. A dois metros de mim discutia e gesticulava tão alto no meio da praia com um jovem marroquino, vendedor ambulante de relógios e malas, que, mesmo que quiséssemos, não dava para não reparar nela. (Nota posterior: Dias mais tarde haveria de sair uma página inteirinha dela na TV 7 Dias. Afinal o que parecia uma peixeirada casual era uma cena orquestrada para o paparazzo contratado. Descobri depois que o bar daquela praia é do namorado e como do local de onde as fotografias foram tiradas era impossível a menina não ver o fotógrafo, isto só podiam ser fotos encomendadas para engrossar as páginas de uns e a fama de outros. O jovem vendedor, de residência e actividade comercial provavelmente ilegais, foi o actor involuntário da cena e ficou famoso. Enfim, o que a fama nos faz fazer, mesmo que isso custe muito mais a terceiros do que à nossa carteira!).

Já dizia Oscar Wilde, mais ou menos qualquer coisa como isto: "Prefiro não ser famoso. Se sou famoso, copiam-me. Se me copiam, fico na moda. Se estou na moda, passo de moda. Se passo de moda, deixo de ser famoso. Se deixo de ser famoso passo o tempo todo a querer voltar a ser famoso. Dá muito trabalho, prefiro não ser famoso!"

terça-feira, 19 de junho de 2012

19 de Junho - Conversas entre o céu e o mar

Praia de Faro.

Quero isto o ano inteiro: uma mesa e uma cadeira à beira-mar para ler, para escrever, para ficar a ouvir conversar o céu e o mar.

É um bocado desesperante, perto dos 40, saber que estou longe de alguns dos sonhos que me quis: uma casa numa encosta sobre o mar, com janelas grandes sobre a linha do horizonte, uma família, crianças a brincar à minha volta, o riso de as pegar ao colo por surpresa, os meus livros publicados em cima de uma mesa de madeira da Índia, a minha biblioteca à minha volta num grande escritório luminoso, um alpendre florido com uma grande mesa em madeira para os almoços domingueiros e a escrita incidental, um jardim com um grande chorão, onde eu poderia pendurar um balouço para dois.

Ao invés, ando aos caídos, inventando-me turista, procurando nos caminhos do meu passado, porque perdido estou. Forço o destino, falho, como sempre me aconteceu no passado, a rapariga foge a sete pés. E a verdade técnica é que eu continuo casado e pergunto-me porque não funcionou. Pergunta de retórica porque afinal sei-o muito bem.

Escrevo pouco, devia escrever mais, mas doem-me a cabeça e as costas.

Aos 40 anos é proibido estar aqui a perguntar "É por aqui?". Oh eu, que sempre quis ir por onde ninguém indicava, sempre acabei por borregamente seguir os caminhos balizados. Jamais du hors-piste? Quel talent! Estou novamente numa encruzilhada, a J. e eu. Vais por ali? Eu, talvez por aqui. Obrigado por teres feito o caminho comigo até aqui. Foi bom, foi generoso, foi bonito, mas o trilho parece terminar aqui. E agora?

Tiro as sandálias, sacudo a areia. E agora? Estou descalço. Calço novamente as sandálias ou vou mesmo assim? Sei lá! E agora? Nem sei para que ponto do horizonte olhar. Seguir o vento? Como se isso fosse a solução. Mau-grado, chupo o indicador e estico-o no ar. No reflexo seguinte abro a mão ao vento, estico a outra, miro as minhas mãos bronzeadas e semi-velhas, a pele seca das nozes, a cicatriz quase apagada de uma queimadura de infância, viro-as, as palmas brancas rabiscadas de linhas da vida e de amor não me revelam nada. Qual a trave-mestra do meu caminho, da minha vida? Que destino? O meu destino já mudou tantas vezes, o que mostra desde logo toda a fiabilidade do destino! Faço eu bem em não acreditar nestas merdas? Mas agora dava-me um jeitão acreditar.

Vim sozinho de férias para me reencontrar, para fazer reboot, para desligar, para me distanciar de tudo e para estar comigo mesmo. Porque é tão difícil estar comigo mesmo se tantas vezes almejei por instantes assim? E agora, aqui tens! E agora?

Doem-me as costas.

Rodeio-me de livros, compro compulsivamente dois, quatro, oito, dezasseis. Leio um, dois, três... literatura, viagens, política, filosofia, história, poesia... deixo a meio, jogo para o lado, não me dizem nada, não têm soluções para nada. Parece que nunca ninguém escreveu nada sobre nada no Mundo...

Já que a vida me pôs entre parênteses, aproveito esta pausa, esta ida à box, para me instruir, para ler, mas quanto mais leio mais tonturas tenho e certezas de que não tenho certezas nenhuma.

Leio, escrevo, andava com falta de tempo para isto.

Escrever? Escurecer páginas. Que me traz isso? Enegrecer folhas de cadernos e cadernos. Para quê? Tanta tinta vertida, para quê?

- Ser como a espuma do mar, que não fica agarrada a nenhuma onda, viajar de maré em maré, oceanos fora, espraiar de vez em quando...

- Epá, não consegues fazer melhor que isso? Tantos livros emborcados, tanta teoria engolida, tanta literatura, pffff, é só letra!

- Às vezes só me apetece esmurrar-me, um uppercut bem mandado contra o próprio queixo. Mas falta-me... balanço, jeito, coragem, tomates. Tento não observar-me de longe, porque ficaria com ainda mais raiva. Miro-me de perto e fico com piedade. Que bom!... Resistindo às ganas de me esganar, vou sobrevivendo. E é isto que se vê!

- Ok, queres um conselho? Este é grátis: não digas, faz! Não ameaces, sê! Não ameaces beijar, beija!
E o que é que tu fizeste? Exactamente o contrário! O c-o-n-t-r-á-r-i-o!!!???

- Olha, vai à merda! Volta pra puta da tua mansarda, que é o único sítio de onde nunca devias ter saído, o único lugar onde és alguém. Ah, vai-te... já que não fazes nada para te vir! Sim, qual é o problema, eu também sei fazer trocadilhos merdosos, que não valem peva. Não tens a exclusividade da mediocridade!

- Ideia luminosa para uma pick-up line infalível para meter conversa com a rapariga sozinha da toalha ao lado: "Você está sozinha, eu estou sozinho, posso fazer-lhe companhia?" Simples, directo, despretensioso, pergunta fechada, fácil de responder, de reagir, pões todas as peças na metade dela do tabuleiro. Se ela quiser baldeá-las, pode-o com um plácido "Não!"

- Ok, ok, essa é a teoria. Então, e a prática?

- A prática? Fico revolvendo a frase no cerebrozito, acanho-me, desvio o olhar, admiro o casal do outro lado a beijar-se e fico com os olhos rasos de água...

- Pffff, paneleirice!....

sexta-feira, 15 de junho de 2012

15 de Junho - Farniente

7h30, Pequeno-almoço: pão de leite com chocolate e uma chávena de leite frio.

Compro a "Quase Autobiografia de Fernando Pessoa" na Bertrand, no Fórum, mas os outros livros da minha lista estão esgotados.

Rumo ao Garrão, a minha praia de eleição, alugo uma chaise-longue e dou dois mergulhos revigorantes nas águas atlânticas e frias da manhã. Junho aquece. Continuo a ler "Tabua" e o destino fabuloso de Guina.

Almoço no Izzy's: Camarão e maionese piri-piri, Salada de Frango César, um expresso e um corneto de morango. Almoço com o meu caderno de viagem. Chupo um camarão e desenho uma ideia, engulo uma folha de alface e escrevo, debico o frango e rabisco. Almoço solitário.

À minha volta, inglesas e francesas, nada de realmente interessante. As que se auto-intitulam MILF bronzeiam as mamas ao léu, mas poucas dão realmente vontade de olhar. Eu mergulho o olhar nas minhas páginas e prefiro passar a tarde assim, a ler, a descansar o olhar observando o mar, as ondas no seu movimento repetitivo mas relaxante de ir e vir, absortas às revoluções do mundo, e deixam-me imerso na linha indistinta do horizonte, distraído apenas pelo leve balouçar de uma adolescente num fato de banho verde fluorescente que vai e vem entre a água e a toalha e saracoteia o corpo como numa passerelle.

Ofereço-me a mim mesmo uma massagem na praia, numa tenda com grandes lençóis brancos a servirem de cortinados, montada no areal entre o bar e os parasóis. As mãos da massagista fazem milagres no meu corpo, na minha pele, fico relaxado, bem precisava, mas dou por mim com vontades de sesta, o que nunca me aconteceu numas mãos assim.




quinta-feira, 14 de junho de 2012

14 de Junho - E preciso um gajo habituar-se que está de férias

6h30, acordar.
7h30, cochilar.
8h30, levantar.

Pequeno-almoço na marquise, com as janelas bem abertas, para deixar entrar ar fresco e luz. Grande chávena de leite, dois expressos, sandes de queijo e pão integral. O rádio sintonizado na Antena 3.

10h: Comprar lenços de papel e toalha de praia no Fórum Algarve.

10h47: Praia de Faro, primeiro bronze.

12h30: Almoço n'O Paquete: dois hamburgueres caseiros, coca-cola, e dois expressos. Ainda me estou a ambientar. Continuo a esquecer-me que em Portugal não devo pedir expressos, mas "café". E no Luxemburgo, tenho que pedir expresso e não "café", senão trazem-me um chávena que mais parece um balde de café aguado.

Leitura incidental: na revista Visão fico a conhecer o escritor-turbo Pedro Chagas Freitas a propósito do seu projecto "Livro em directo" (livro2012.blogspot.com) que vai escrever em 2012 minutos um romance entre sábado e domingo.

Nas páginas culturais, vejo uma peça que me interessa: "Ode Marítima" (de F. Pessoa) no Teatro D. Maria II, com o actor João Grosso. Mas detesto a ideia de ter que ir sozinho. Não sei se irei.

Aponto livros que quero comprar: "Quase Autobiografia de Fernando Pessoa" de José Paulo Cavalcanti Filho; "Teoria da Literatura", de Vitor Aguiar e Silva; "Conhecimento da Literatura", de Carlos Reis. Para já.

Jantar: Bacalhau com Natas e vinho alentejano na casa do Ângelo e da Cátia. Conversa com o Rui e a Ana, que querem emigrar para o Luxemburgo.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

13 de Junho - Férias, dia 1

Luxemburgo, chuva, 9 horas. Autocarro atrasado. Mais chuva. Uma hora de transferência até Frankfurt/Hahn. Fila de check-in inexistente, cheguei com três horas e meia de antecedência. Sandes e café enquanto espero a hora de embarque. Uma tailandesa/coreana/chinesa troca olhares comigo. Um aeroporto é um lugar propício aos encontros fugazes, olhares que desejavam um lugar de estar e não de passar.

Embarco finalmente. No avião, começo a ler "Tabua" de Carlos Tourinho de Abreu, e o protagonista, Guina, faz-me viajar até ao seu mundo.

Por cima da Baía da Biscaia, um australiano loiraço, tipo Dawson (James Van Der Beek), pergunta à hospedeira que zona sobrevoamos. Nunca pensei nessa pick-up line, bolas! A menina é alta, curvilínea, ruiva, olhos verdes (irlandesa?), boa como o milho, como se diz poeticamente, numa saia travada que só apetece ver-lhe cair até aos tornozelos branquinhos. Mas ela não sabe responder (?), o que me arranca do meu devaneio obsceno. Intrometo-me na conversa, apenas movido pelo interesse geográfico da conversa, claro. Explico ao "aussie" onde estamos e que tudo isto faz parte do Golfo da Gasconha, e recordo-lhe Cyrano de Bergerac, o do nariz enorme, you know? A hospedeira ouve como Roxanne. Desta vez percebeu, menina?

O piloto não resiste a dizer-nos que aterrámos antes da hora prevista, e a dar-nos o resultado do jogo Dinamarca-Portugal: estamos a ganhar.

No tapete das bagagens, o australiano mete-se comigo. Quer saber se sou de Faro, quanto pode custar um táxi até um sítio chamado "Eva", porque quer apanhar um autocarro até à Ericeira, onde vai participar num campeonato de surf.

Mas perco o tempo que ganhei na Rent-a-car :-( Chego a casa às 19h30. Janto no Fórum: Sopa Juliana e água do Luso. Faço compras no Continente, compro uma pen para ter internet. Regresso a casa e ao Guina. Primeira noite: descanso.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Pintura do séc. XVII onde se vê um estranho objecto anacrónico

Pintura "Exaltação da Eucaristía"
de Ventura Salimbeni
Igreja de São Pedro,
Montalcino (Itália)
Ano: 1600 A.D.