sebenta de anotações esparsas, pensamentos ociosos, reflexões cadentes, poemas difusos, introspecções de uma filosofia mais ou menos opaca dos meus dias (ou + reminiscências melómanas, translúcidas, intra e extra-sensoriais, erógenas, esquizofrénicas ou obsessivas dos meus dias)
-
cahier de notes éparses, pensées oisives, réflexions filantes, poèmes diffus, introspections d'une philosophie plus ou moins opaque de mes journées (ou + de réminiscences mélomanes, translucides, intra-sensorielles et extra-sensorielles, érogènes, schizophrènes ou obsessionnelles de mes journées)

terça-feira, 26 de junho de 2012

26 de Junho - Solidão, leitura, escrita e o prof. José Louro

As férias correm lestas para o fim e eu sinto-me só. Passo os serões a repetir a estrada que vai para a praia de Faro, talvez porque só a maresia e o cheiro a pinheiros mansos me acalme, talvez só o estar à beira-mar me sossegue, ou porque apenas o reencontro com este céu estrelado e familiar me faça sentir em casa.

Olho à minha volta, só casais abraçados, de mão dada, famílias com sorrisos felizes. E eu aqui, mais uma vez irremediavelmente só. Vou a um bar, ao chegar arrependo-me, vejo aquela gente feliz, em casal e com e amigos, rindo, bebendo, divertindo-se, aproveitando as férias ou simplesmente a bela noite. E como está bela e amena a noite. Arrepio caminho. Que vou fazer a um lugar onde se celebra com os outros eu que não tenho ninguém?

Os meus dias são todos inúteis, quem inventou os dias úteis? Escrever cansa-me, ler desmoraliza-me, descansar aborrece-me, ir à praia é chato. Pego no carro alugado e ando às voltas, queimo estrada.

Debaixo do alpendre da casa, as manhãs de Junho são amenas e frescas. Sopra do mar uma brisa que refresca as primeiras horas do dia e torna suportável o sol áscio. Disponho à minha volta livros e escrevo, como se o talento se transmitisse por osmose. Sento-me na mesa de mogno, rabisco ideias (todas batidas), frases (todas déjà vu), pensamentos (todos inanes). Pego noutro livro, folheio-o, deito-me no sofá esquecido ali, os crisântemos balouçam ao sol, a figueira ancestral esfolha-se na brisa, refolha-se e mira-me, até as palmeiras da vivenda vizinha me parecem já familiares e não fruto do adubo industrial da Primavera passada.

Passo de Pessoa a Rentes de Carvalho, depois viajo com Theroux e João Ricardo Pedro, folheio as antologias poéticas, Píndaro, Safo, Orfeu, Xenófanes, Sofócles, Aristófanes, Esopo, Virgílio, canso-me dos clássicos e regresso a António Barahona, Gastão Cruz, Diogo Vaz Pinto, A.M. Pires Cabral e todas as novas vozes de que não faço parte...

Por exemplo Diogo Vaz Pinto. Muito bom. Cada vez que descubro um novo talento, uma nova pena, questiono-me sobre a minha escrita, que sentido tudo isto toma, as minhas dezenas de cadernos amontoados, espólio ignorado.

Estive hoje com o professor José Louro e foi bom revê-lo. Numa casa nova, a duas daquela que partilhou com Zeca Afonso, confia-me, quando este foi professor em Faro. Falou-me de teatro, da sua vida, como veio de Coimbra, de que nunca gostou, para Faro, os grupos de teatro que ajudou a fundar, desde o da Universidade de Lisboa, que viria a dar origem ao Teatro da Cornucópia do Luís Miguel Cintra, ao grupo Sincera da Universidade do Algarve, "fundado num vão de escada".

"Esta era a casa do Doutor Cabeçadas", conta-me, e em novo ele passava por aqui com o Zeca e dizia, "Um dia quero morar numa casa como estas". Já reformado, uma sua amiga que mora em Lisboa, pediu-lhe para ocupar uma casa em Faro que ela não queria arrendar a estranhos. Era esta casa, a casa dos seus sonhos quando era jovem professor...

No seu escritório pequeno, por onde entra pelas frestas de uma janela semi-aberta o sol forte e luminoso da tarde que começa, está rodeado por livros de teatro e de poesia. "O resto dos livros estão na minha outra casa em Almancil. E quando um autor morre, traslado-o daqui para lá", ri-se. Está velho, mas rijo, forte, robusto, lúcido, muito lúcido, sempre uma galhofa inteligente na ponta da língua. Vêm-no visitar muitos antigos alunos, para o rever ou para pedir-lhe ajuda para projectos em que serve de mentor, foi-o de tantos, inspirou tantos, aos quais com paixão ensinou e transmitiu o seu amor pelo teatro e pela literatura. Fomos tantos.

Reconheceu-me logo pela voz, assim que falei pelo intercomunicador. Recebeu-me em roupão, "acabo de acordar", eram duas da tarde. Há quase 20 anos que não nos víamos, não falávamos, mas a conversa retomou como se fóssemos velhos amigos. O Luís Vicente já lhe tinha dito que me tinha encontrado no Luxemburgo e logo exortou-me a comparecer à sua presença, antes que fosse desta para melhor.

Falámos ainda de livros, de escrita, de escritores, do Nuno Júdice. Confirmou-me que "é um gajo calado". Já "o Casimiro de Brito fala pelos cotovelos". Ah, e rimos muito. Foi bom este reencontro.

sábado, 23 de junho de 2012

23 de Junho - Dois dias com a minha prima e encontro de terceiro grau com uma "estreleta"

A minha prima Cindy esteve dois dias aqui comigo, extraiu-me desta solidão a que me votei. Fez-me bem. Falei com ela de assuntos de que nunca tinhamos falado antes. Cresceu a minha priminha. Teve experiências, viveu, amou. Ainda bem. Fico muito feliz por ela. Cresce sã e com a mente aberta. Mas acautelada.

Encontro imediato de 3° grau com a Isabel Figueira, "estreleta" da televisão que eu desconhecia por completo. Foi a minha prima que a identificou, apresenta o Top+. A dois metros de mim discutia e gesticulava tão alto no meio da praia com um jovem marroquino, vendedor ambulante de relógios e malas, que, mesmo que quiséssemos, não dava para não reparar nela. (Nota posterior: Dias mais tarde haveria de sair uma página inteirinha dela na TV 7 Dias. Afinal o que parecia uma peixeirada casual era uma cena orquestrada para o paparazzo contratado. Descobri depois que o bar daquela praia é do namorado e como do local de onde as fotografias foram tiradas era impossível a menina não ver o fotógrafo, isto só podiam ser fotos encomendadas para engrossar as páginas de uns e a fama de outros. O jovem vendedor, de residência e actividade comercial provavelmente ilegais, foi o actor involuntário da cena e ficou famoso. Enfim, o que a fama nos faz fazer, mesmo que isso custe muito mais a terceiros do que à nossa carteira!).

Já dizia Oscar Wilde, mais ou menos qualquer coisa como isto: "Prefiro não ser famoso. Se sou famoso, copiam-me. Se me copiam, fico na moda. Se estou na moda, passo de moda. Se passo de moda, deixo de ser famoso. Se deixo de ser famoso passo o tempo todo a querer voltar a ser famoso. Dá muito trabalho, prefiro não ser famoso!"

terça-feira, 19 de junho de 2012

19 de Junho - Conversas entre o céu e o mar

Praia de Faro.

Quero isto o ano inteiro: uma mesa e uma cadeira à beira-mar para ler, para escrever, para ficar a ouvir conversar o céu e o mar.

É um bocado desesperante, perto dos 40, saber que estou longe de alguns dos sonhos que me quis: uma casa numa encosta sobre o mar, com janelas grandes sobre a linha do horizonte, uma família, crianças a brincar à minha volta, o riso de as pegar ao colo por surpresa, os meus livros publicados em cima de uma mesa de madeira da Índia, a minha biblioteca à minha volta num grande escritório luminoso, um alpendre florido com uma grande mesa em madeira para os almoços domingueiros e a escrita incidental, um jardim com um grande chorão, onde eu poderia pendurar um balouço para dois.

Ao invés, ando aos caídos, inventando-me turista, procurando nos caminhos do meu passado, porque perdido estou. Forço o destino, falho, como sempre me aconteceu no passado, a rapariga foge a sete pés. E a verdade técnica é que eu continuo casado e pergunto-me porque não funcionou. Pergunta de retórica porque afinal sei-o muito bem.

Escrevo pouco, devia escrever mais, mas doem-me a cabeça e as costas.

Aos 40 anos é proibido estar aqui a perguntar "É por aqui?". Oh eu, que sempre quis ir por onde ninguém indicava, sempre acabei por borregamente seguir os caminhos balizados. Jamais du hors-piste? Quel talent! Estou novamente numa encruzilhada, a J. e eu. Vais por ali? Eu, talvez por aqui. Obrigado por teres feito o caminho comigo até aqui. Foi bom, foi generoso, foi bonito, mas o trilho parece terminar aqui. E agora?

Tiro as sandálias, sacudo a areia. E agora? Estou descalço. Calço novamente as sandálias ou vou mesmo assim? Sei lá! E agora? Nem sei para que ponto do horizonte olhar. Seguir o vento? Como se isso fosse a solução. Mau-grado, chupo o indicador e estico-o no ar. No reflexo seguinte abro a mão ao vento, estico a outra, miro as minhas mãos bronzeadas e semi-velhas, a pele seca das nozes, a cicatriz quase apagada de uma queimadura de infância, viro-as, as palmas brancas rabiscadas de linhas da vida e de amor não me revelam nada. Qual a trave-mestra do meu caminho, da minha vida? Que destino? O meu destino já mudou tantas vezes, o que mostra desde logo toda a fiabilidade do destino! Faço eu bem em não acreditar nestas merdas? Mas agora dava-me um jeitão acreditar.

Vim sozinho de férias para me reencontrar, para fazer reboot, para desligar, para me distanciar de tudo e para estar comigo mesmo. Porque é tão difícil estar comigo mesmo se tantas vezes almejei por instantes assim? E agora, aqui tens! E agora?

Doem-me as costas.

Rodeio-me de livros, compro compulsivamente dois, quatro, oito, dezasseis. Leio um, dois, três... literatura, viagens, política, filosofia, história, poesia... deixo a meio, jogo para o lado, não me dizem nada, não têm soluções para nada. Parece que nunca ninguém escreveu nada sobre nada no Mundo...

Já que a vida me pôs entre parênteses, aproveito esta pausa, esta ida à box, para me instruir, para ler, mas quanto mais leio mais tonturas tenho e certezas de que não tenho certezas nenhuma.

Leio, escrevo, andava com falta de tempo para isto.

Escrever? Escurecer páginas. Que me traz isso? Enegrecer folhas de cadernos e cadernos. Para quê? Tanta tinta vertida, para quê?

- Ser como a espuma do mar, que não fica agarrada a nenhuma onda, viajar de maré em maré, oceanos fora, espraiar de vez em quando...

- Epá, não consegues fazer melhor que isso? Tantos livros emborcados, tanta teoria engolida, tanta literatura, pffff, é só letra!

- Às vezes só me apetece esmurrar-me, um uppercut bem mandado contra o próprio queixo. Mas falta-me... balanço, jeito, coragem, tomates. Tento não observar-me de longe, porque ficaria com ainda mais raiva. Miro-me de perto e fico com piedade. Que bom!... Resistindo às ganas de me esganar, vou sobrevivendo. E é isto que se vê!

- Ok, queres um conselho? Este é grátis: não digas, faz! Não ameaces, sê! Não ameaces beijar, beija!
E o que é que tu fizeste? Exactamente o contrário! O c-o-n-t-r-á-r-i-o!!!???

- Olha, vai à merda! Volta pra puta da tua mansarda, que é o único sítio de onde nunca devias ter saído, o único lugar onde és alguém. Ah, vai-te... já que não fazes nada para te vir! Sim, qual é o problema, eu também sei fazer trocadilhos merdosos, que não valem peva. Não tens a exclusividade da mediocridade!

- Ideia luminosa para uma pick-up line infalível para meter conversa com a rapariga sozinha da toalha ao lado: "Você está sozinha, eu estou sozinho, posso fazer-lhe companhia?" Simples, directo, despretensioso, pergunta fechada, fácil de responder, de reagir, pões todas as peças na metade dela do tabuleiro. Se ela quiser baldeá-las, pode-o com um plácido "Não!"

- Ok, ok, essa é a teoria. Então, e a prática?

- A prática? Fico revolvendo a frase no cerebrozito, acanho-me, desvio o olhar, admiro o casal do outro lado a beijar-se e fico com os olhos rasos de água...

- Pffff, paneleirice!....

sexta-feira, 15 de junho de 2012

15 de Junho - Farniente

7h30, Pequeno-almoço: pão de leite com chocolate e uma chávena de leite frio.

Compro a "Quase Autobiografia de Fernando Pessoa" na Bertrand, no Fórum, mas os outros livros da minha lista estão esgotados.

Rumo ao Garrão, a minha praia de eleição, alugo uma chaise-longue e dou dois mergulhos revigorantes nas águas atlânticas e frias da manhã. Junho aquece. Continuo a ler "Tabua" e o destino fabuloso de Guina.

Almoço no Izzy's: Camarão e maionese piri-piri, Salada de Frango César, um expresso e um corneto de morango. Almoço com o meu caderno de viagem. Chupo um camarão e desenho uma ideia, engulo uma folha de alface e escrevo, debico o frango e rabisco. Almoço solitário.

À minha volta, inglesas e francesas, nada de realmente interessante. As que se auto-intitulam MILF bronzeiam as mamas ao léu, mas poucas dão realmente vontade de olhar. Eu mergulho o olhar nas minhas páginas e prefiro passar a tarde assim, a ler, a descansar o olhar observando o mar, as ondas no seu movimento repetitivo mas relaxante de ir e vir, absortas às revoluções do mundo, e deixam-me imerso na linha indistinta do horizonte, distraído apenas pelo leve balouçar de uma adolescente num fato de banho verde fluorescente que vai e vem entre a água e a toalha e saracoteia o corpo como numa passerelle.

Ofereço-me a mim mesmo uma massagem na praia, numa tenda com grandes lençóis brancos a servirem de cortinados, montada no areal entre o bar e os parasóis. As mãos da massagista fazem milagres no meu corpo, na minha pele, fico relaxado, bem precisava, mas dou por mim com vontades de sesta, o que nunca me aconteceu numas mãos assim.




quinta-feira, 14 de junho de 2012

14 de Junho - E preciso um gajo habituar-se que está de férias

6h30, acordar.
7h30, cochilar.
8h30, levantar.

Pequeno-almoço na marquise, com as janelas bem abertas, para deixar entrar ar fresco e luz. Grande chávena de leite, dois expressos, sandes de queijo e pão integral. O rádio sintonizado na Antena 3.

10h: Comprar lenços de papel e toalha de praia no Fórum Algarve.

10h47: Praia de Faro, primeiro bronze.

12h30: Almoço n'O Paquete: dois hamburgueres caseiros, coca-cola, e dois expressos. Ainda me estou a ambientar. Continuo a esquecer-me que em Portugal não devo pedir expressos, mas "café". E no Luxemburgo, tenho que pedir expresso e não "café", senão trazem-me um chávena que mais parece um balde de café aguado.

Leitura incidental: na revista Visão fico a conhecer o escritor-turbo Pedro Chagas Freitas a propósito do seu projecto "Livro em directo" (livro2012.blogspot.com) que vai escrever em 2012 minutos um romance entre sábado e domingo.

Nas páginas culturais, vejo uma peça que me interessa: "Ode Marítima" (de F. Pessoa) no Teatro D. Maria II, com o actor João Grosso. Mas detesto a ideia de ter que ir sozinho. Não sei se irei.

Aponto livros que quero comprar: "Quase Autobiografia de Fernando Pessoa" de José Paulo Cavalcanti Filho; "Teoria da Literatura", de Vitor Aguiar e Silva; "Conhecimento da Literatura", de Carlos Reis. Para já.

Jantar: Bacalhau com Natas e vinho alentejano na casa do Ângelo e da Cátia. Conversa com o Rui e a Ana, que querem emigrar para o Luxemburgo.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

13 de Junho - Férias, dia 1

Luxemburgo, chuva, 9 horas. Autocarro atrasado. Mais chuva. Uma hora de transferência até Frankfurt/Hahn. Fila de check-in inexistente, cheguei com três horas e meia de antecedência. Sandes e café enquanto espero a hora de embarque. Uma tailandesa/coreana/chinesa troca olhares comigo. Um aeroporto é um lugar propício aos encontros fugazes, olhares que desejavam um lugar de estar e não de passar.

Embarco finalmente. No avião, começo a ler "Tabua" de Carlos Tourinho de Abreu, e o protagonista, Guina, faz-me viajar até ao seu mundo.

Por cima da Baía da Biscaia, um australiano loiraço, tipo Dawson (James Van Der Beek), pergunta à hospedeira que zona sobrevoamos. Nunca pensei nessa pick-up line, bolas! A menina é alta, curvilínea, ruiva, olhos verdes (irlandesa?), boa como o milho, como se diz poeticamente, numa saia travada que só apetece ver-lhe cair até aos tornozelos branquinhos. Mas ela não sabe responder (?), o que me arranca do meu devaneio obsceno. Intrometo-me na conversa, apenas movido pelo interesse geográfico da conversa, claro. Explico ao "aussie" onde estamos e que tudo isto faz parte do Golfo da Gasconha, e recordo-lhe Cyrano de Bergerac, o do nariz enorme, you know? A hospedeira ouve como Roxanne. Desta vez percebeu, menina?

O piloto não resiste a dizer-nos que aterrámos antes da hora prevista, e a dar-nos o resultado do jogo Dinamarca-Portugal: estamos a ganhar.

No tapete das bagagens, o australiano mete-se comigo. Quer saber se sou de Faro, quanto pode custar um táxi até um sítio chamado "Eva", porque quer apanhar um autocarro até à Ericeira, onde vai participar num campeonato de surf.

Mas perco o tempo que ganhei na Rent-a-car :-( Chego a casa às 19h30. Janto no Fórum: Sopa Juliana e água do Luso. Faço compras no Continente, compro uma pen para ter internet. Regresso a casa e ao Guina. Primeira noite: descanso.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Pintura do séc. XVII onde se vê um estranho objecto anacrónico

Pintura "Exaltação da Eucaristía"
de Ventura Salimbeni
Igreja de São Pedro,
Montalcino (Itália)
Ano: 1600 A.D.


quinta-feira, 24 de maio de 2012

Poema: "Os meus pais"

Os meus pais 



Ele falava francês há bem mais tempo do que ela,
mas foi ela que me ensinou o pouco que conhecia
antes de eu ir pra escola, um dia. 
Mas uma coisa os dois fizeram questão, 
que eu e o meu irmão 
soubéssemos, bem antes dos dez, 
a falar e a escrever, pelo menos, português. 
Ela não me falou dos livros que leu
porque nunca tinha lido nenhum. 
Cresci numa casa onde os primeiros livros foram os meus.
Ela dizia-me: « Sou uma ‘Alfabeta’, 
mas tu, tens de comer o Nestum, 
aprender a ler e a escrever, 
é isso que tens de fazer, 
para arranjares mais tarde um bom emprego ». 
Ele? Ele sabia ler bem, mas nem em segredo
me falou do que tinha lido
e do que recitava de ouvido.
Ela gostava de me ver a mexer nos legos,
nos carrinhos e nos livros, 
mas se eu saísse, sem pedir, para jogar à bola com os colegas
levava logo com castigos. 
Ela quis mostrar-me como se cozinhava, costurava, faxinava
e lavava a loiça, o que até é uma coisa bem prática, 
mas só obrigado eu participava. 
Ele era bom na matemática
mas eu não percebia nada. 
Ele quis transmitir-me o nome das ferramentas de carpinteiro, 
que era o ofício que tinha aprendido, 
mas eu não me interessava pela arte de marceneiro
e ele ficava triste e aborrecido. 
Para ser totalmente sincero, houve uma coisa que ele me ensinou: 
a História de Portugal e isso ficou. 
Explicavam-me muitas vezes que não havia dinheiro
para comprar todos os brinquedos que eu queria,
eu parava o berreiro 
e fazia que percebia. 
Ela dizia-me para eu parar de ser chato,
para comer a sopa toda do prato
porque havia meninos pobres que queriam e não tinham.
Ele? Ele não dizia nada, dava-me um tabefe e tefe-tefe 
eu metia a mistela à boca, mesmo já fria, 
continha as lágrimas e planeava uma táctica 
para ser presidente um dia 
e plantar espinafres em toda a África. 
Ela contou-me como se tinham conhecido em Paris, 
como se tinham casado, 
mas não como se tinham amado. 
Disse-me que uma vez se tinha apaixonado, 
mas não me disse se tinha sido por ele. 
Não li nada sobre Sócrates, Platão ou Filosofia 
antes de chegar aos bancos da escola. 
Eles não me falaram de Napoleão, de Rousseau,
nem de Voltaire ou Waterloo, 
excepto do dos Abba, que era uma canção muito boa. 
Não me falaram de Camilo, de Eça, de Antero ou de Pessoa
mas ele conhecia algumas rimas do Aleixo 
e d’« Este livro que vos deixo ». 
Disse-me também que se lembrou da Cartilha de João de Deus
enquanto atravessava a pé os Pirinéus. 
Sem saber que não era o mesmo João, ela contava-me mais, 
que tinha sido um santo, que nasceu na terra dela e criou os hospitais. 
Eu perguntava mais, mas ele lembrava-se pouco de Maio de 68, 
só que os jovens bloquearam as ruas todas uma noite 
e não o deixaram ir trabalhar. 
Não me disseram que era importante votar, 
mas eu fui, e eles acharam bem.
E começaram a votar também. 
Conheciam muitas histórias que falavam da PIDE e da ditadura
mas nada sobre como fugir aos impostos. 
No tempo deles não havia Coca-Cola, só bebiam Pirolito e Sumol. 
Lembravam-se da censura,
de passar fome, do trabalho de sol a sol, 
ela, sob a chuva, nas herdades,
ele, no mar, debaixo de tempestades. 
Ele não foi à tropa, mas ela foi madrinha de guerra. 
Ele dizia-se comunista mesmo quando já não estava na berra, 
mas não sabia quem fora Lenine nem o tsar. 
Ela? Ela não falava de política, só não gostava do Salazar. 
Nunca foram ao Louvre, mas viam muitos filmes franceses, 
dos que nunca tinham passado nem em Montemor nem em Faro.
Diziam que o de Gaulle era um bom presidente. E os gauleses ?
Deviam ser apenas cigarros! Aí, ela interrompia, e dizia-me que a droga
era perigosa, e ele acrescentava « E o tabaco muito caro ». 
Ele contou-me do mundo antes da televisão: 
quando era jovem era, às vezes, folgazão, 
ao fim-de-semana ia ao baile 
ou ao cinema nas salas da sociedade. 
Ele gostava de ver cobóis, ela os filmes do Calvário e da Madalena, 
não tinham discos nem cassetes, mas conheciam a cantilena 
dos ranchos, das modas, do ié-ié e até dos Beatles. 
Não me disseram como fazer com as raparigas: 
ele disse-me apenas para ter cuidado com o dinheiro
e ela para não as fazer sofrer e não ser um pantomineiro. 
Levei uns açoites, umas estaladas
e umas valentes bofetadas, 
mas sei que fui amado, com certeza, muito. 
Ela dizia-o com beijos, abraços e mimos. 
Ele? Ele não o mostrava, não sabia como mostrar. 
Não havia nada que eu devesse ter feito, 
excepto, talvez, a Universidade. 
Ela queria que eu fosse bancário ou professor, 
ele apenas que eu ganhasse o meu dinheiro. 
Não havia nada que eu não devesse ter sido, 
excepto, talvez, jornalista ou escritor. 
Não me disseram nada sobre os novos ricos
nem sobre os esquerdistas, os anárquicos,
os socialistas, os nacionalistas. Não eram dessa rês. 
Eu não era filho da esquerda nem da direita,
era filho dos meus pais, do meu país e de 1973. 
Falávamos pouco sobre religião, mas muito sobre fé
que, disse-me ela, é sempre uma opção,
mas logo a seguir obrigou-me a fazer a Primeira Comunhão. 
Não me falaram dos árabes nem de Maomé, 
não me falaram dos chineses (ainda não havia chineses!), 
mas dos belgas, dos alemães e dos luxemburgueses. 
« Nós somos católicos », incutiram-me, 
mas não souberam explicar-me 
o que nos diferenciava dos judeus, 
e disseram-me que todos, até os negros e os ciganos,
                                                              são filhos de deus.
Deram-me um certo modelo moral, 
uma certa força vital 
– ou melhor –, a força vital certa, 
um certo sentido da vida, uma educação normal, 
uma mente aberta. 
Os meus pais. 



JLC 20052012
(inspirado livremente da canção « France Culture », de Arnaud Fleurent-Didier, do álbum « La reproduction », 2010)

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Já chegou a nova revista LER. O meu mês já pode começar :-)



O que gosto na LER é que é uma revista literária que não se restringe aos sacro-santos estilos e formatos literários pelos quais juram os (supostos) intelectuais dos nossos dias, e ousa sem pejo abordar assuntos menos mainstream como a ficção-científica ou a banda desenhada. 


SF - É assim, como prazer jubilatório, que me deparei com duas páginas dedicadas a um clássico da ficção-científica britânica, "Quatermass and The Pit", da autoria de Nigel Kneale, artigo no qual Rogério Casanova aproveita para evocar mestres da SF (Science Fiction ou FC, Ficção Científica) como HG Wells, Lovecraft e Jack Handey e até fala em Eric van Daniken e da sua célebre Teoria dos Antigos Astronautas. E a meio da revista, como quem não quer a coisa, fala em Edgar Rice Burroughs (o criador de Tarzan), a propósito do seu "John Carter" (Crónicas Marcianas), que acaba se sair no cinema. Muito bom mesmo. 


Um catalão, um italiano, uma brasileira, dois portugueses e um inédito de Vitorino Nemésio 

Depois, prazer imenso ao ler a entrevista de Carlos Vaz Marques a Enrique Vilas-Matas, em que o catalâo volta a repetir que recusaria o Nobel da Literatura se este lhe fosse atribuído. E responde com humor ao Questionário de Proust, que o entrevistador resolve de imprevisto lançar como desafio ao escritor.


Venho à tona de água e volto a mergulhar no prazer.


Nove páginas sobre o mais português e o mais pessoano dos italianos, Antonio Tabucchi, que nos deixou há pouco tempo.


Página panorâmica sobre a autora brasileira Clarice Lispector (1920-1977) por ocasião da publicação em Portugal de "Lustre" e "Água Viva".

E porque a literatura também é sublimada através da sétima arte, a LER apresenta a mais recente obra do cineasta mais idoso do Mundo ainda em actividade, Manoel de Oliveira (103 anos!), "O Gebo e A Sombra", adaptação do livro homónimo de Raúl Brandão (1923). E, de passagem, publica um texto inédito de Vitorino Nemésio sobre Brandão.


BD lusa: De 1872 aos nossos dias


A LER aproveitou esta edição para transfigurar a sua capa (imagem em cima) num dos expoentes emergentes da Nona Arte, o português João Lemos, que a Marvel já adoptou.


A revista dedica ao todo 11 páginas à BD portuguesa + 1 sobre a saída recente em Portugal de "Persépolis", da iraniana Marjane Satrapi. 


A LER passa em revista rápida os nomes dos percursores da banda desenhada em Portugal como Rafael Bordalo Pinheiro (primeira BD, em 1872), Stuart Carvalhais (1887-1961), Carlos Botelho (1899-1982), Eduardo Teixeira Coelho (1919-2005), José Garcês (n. 1928), José Ruy (n. 1930) e revistas como Mosquito (dos anos 1930 aos anos 80) e Visão (anos 70), para chegar aos jovens talentos que começam a fazer-se notar hoje a nível nacional e internacional. 


Como os que começaram já a trabalhar para gigantes como a Marvel. João Lemos assinou recentemente um número de Wolwerine (imagem da esquerda) e participou com Ricardo Tércio e Nuno Plati num volume colectivo com argumento de C.B. Cebulski; ou a Dark Horse, para a qual Filipe Melo editou, em co-autoria com Juan Cavia, "As Incríveis Aventuras de Dog Mendoza & Pizza Boy". 


Entre muitos outros, como: Diniz Conefrey, José Carlos Fernandes (A Pior Banda do Mundo; Aaron Slobodj), Miguel Rocha, Filipe Abranches (Lanza en Astillero; Diário de K.), Nuno Saraiva, António Jorge Gonçalves, Eliseu Gouveia, Miguel Montenegro, Ana Freitas, Mário Freitas, Filipe Teixeira, Filipe Andrade, Rui Lacas (Merci Patron!), André Lemos (Mediaeval Spectres Soaked in Syrup), David Soares (Mucha) & com Pedro Nora (M. Burroughs), Paulo Monteiro (O Amor Infinito Que Te Tenho e Outras Histórias), Bruno Borges, Miguel Carneiro, Susa Monteiro (Adeus Tristeza), Osvaldo Medina (A Fórmula da Felicidade), Pepedelrey (A Tua Carne é Má), Joana Figueiredo, Carlos Pinheiro, Marcos Farrajota, Pedro Serpa ou José Feitor. 


Nomes a ter em atenção no futuro da literatura portuguesa quer venha aos quadradinhos, em pranchas, storyboards, romances gráficos ou comics.


Porque a BD é um fascínio para quem é fã, a LER não resistiu a partilhar connosco a génese e o making of da capa deste mês da revista, concebida por João Lemos (o tal da Marvel).



Ainda não li tudo, mas o mês ainda nem vai a meio...

terça-feira, 8 de maio de 2012

"História do Luxemburgo" lançado na Livraria Ler Devagar, em Lisboa, no dia 23 de Maio

O livro "História do Luxemburgo", do historiador luxemburguês Gilbert Trausch é oficialmente lançado em Lisboa a 23 de Maio, às 18h, na livraria "Ler Devagar" (rua Rodrigues Faria, n° 103, Ed. G-0.3).

O evento vai contar com a presença do embaixador do Luxemburgo em Portugal, Paul Schmit, que vai fazer uma apresentação, em português e em francês, sobre a história do Luxemburgo.

A versão portuguesa da obra de Gilbert Trausch, "História do Luxemburgo", agora publicada em edição portuguesa, resulta de um projecto do Ministério da Cultura luxemburguês, com a colaboração do Forum Portugal-Luxemburgo e o apoio da Embaixada do Luxemburgo em Portugal.

Trata-se de uma obra importante para o desenvolvimento das relações bilaterais entre os dois países, nomeadamente por razão da importante comunidade lusófona residente no Luxemburgo, que conta actualmente mais de 100 mil portugueses.

Apesar do seu tamanho – 2.586 km2 e 500 mil habitantes – o Grão-Ducado do Luxemburgo é um verdadeiro Estado, com uma história particularmente rica. Situado no coração da Europa, entre a França, a Bélgica e a Alemanha, o Luxemburgo participou nos grandes desenvolvimentos Europeus. O passado movimentado do Grão-Ducado é um verdadeiro resumo da história europeia. Na Idade Média, os seus principes usaram a coroa do Sacro Império Germânico e nos tempos modernos a sua fortaleza foi de uma importância fundamental na luta entre as grandes potências. Antes de se tornar independente, no Século XIX, o Luxemburgo viveu sucessivamente sob soberania bourgonha, espanhola, francesa, austriaca e holandesa. No Século XX, este país próspero e dinâmico desempenhou um papel decisivo na unificação da Europa.

sábado, 5 de maio de 2012

Poema do Herói


Herói

Eu era um índio
vestia uma velha serrapilheira
na qual a minha mãe tinha cortado franjas
e colado fitas coloridas
calçava as pantufas da minha tia a fazer de mocassins
e elas punham-me riscas de baton no rosto
a imitar pinturas de guerra
para eu lutar contra o Batman e o Zorro.

Também eu queria resgatar a fada e a princesa
mas elas não queriam.
O Batman e o Zorro ganhavam sempre. 
Pum, pum, pum e eu tinha que morrer
mesmo se não me apetecesse.

Como pode o vilão ser tão bem mandado?

Eu preferia fumar o cachimbo da paz,
escolher penas de águia para enfeitar o cabelo
e partilhar o lanche com a minha squaw
debaixo da carteira da professora imitando o tipi.

Mas a Anita soltava um gritinho
e fugia esconder-se atrás do Osvaldo ou do Bruno.
Como pode uma princesa preferir um herói
vestido de morcego ou de raposa ?

No ano seguinte fiz uma birra
e quis um coldre, um colete,
uma estrela, um chapéu de cobói
e uma pistola que dava estalidos e tudo.
Mas a princesa veio de Pocahontas
e as setas do Gerónimo 
vieram colar-se à testa do xerife mau.

JLC05052012

O meu amigo Paul de Sousa numa curta-metragem psico-romântica com Jessica Spotts

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Da consciência colectiva e outros meandros

Hoje estava a ouvir um professor de escrita criativa a falar num documentário e ele dizia que sempre viveu com a impressão que algo grande, devastador, aconteceria um dia à Humanidade, no nosso tempo de vida.

Ora, isto foi o que eu sempre pensei. Mas há algo de sobrenatural nisso, há algum conhecimento omnisciente e inato em todos nós que nos deixa prever o que pode vir a acontecer?

Um outro episódio da minha vida: Eu devia ter uns 12 ou 13 anos e comecei a acreditar na serendipicidade,  descobria sentidos encobertos em tudo o que me acontecia e que nada era obra do acaso. Ora, no meu egocentrismo adolescente, comecei a suspeitar que era joguete em mãos divinas, uma experiência no tubo de ensaio de um ser maior. Mas a minha arrogância ia mais longe. Eu não era apenas uma cobaia, um animalzinho a ser testado e por isso amaldiçoado por não poder ter mão no meu próprio destino, eu era também, portanto, um ser único e privilegiado, por ser A EXPERIÊNCIA desse ser divino. E isso levava-me a pensar que não só nada era acaso, como tudo o que me rodeava - as pessoas, as ruas, as cidades, os planetas, o universo, até onde era a grande questão que me obcecava, - tinha sido criado apenas para mim, para o propósito dessa experiência, como se o ser divino tivesse construído um terrário, ambiente controlado, apenas para mim, a formiga, o objecto observado.

Quando muitos anos mais tarde vi o filme Matrix (1999), dos irmãos Wachowski, foi como se fosse uma revelação para mim. Afinal, havia mais gente no mundo a pensar coisas tão aparentemente absurdas como eu.

E isto indicava que eu estava certa no meu delírio? Ou provava de alguma maneira a possível existência de uma consciência colectiva transversal a toda a Humanidade?

Analisei a coisa melhor.

Somos o produto de ingredientes, não só genéticos mas acredito que também mentais ou psicológicos, como lhes quiserem chamar, que herdámos da nossa família, da nossa educação religiosa, escolar, académica, do nosso quadro social, mais tarde profissional, e do que vamos rejeitando e escolhemos ir aceitando desse caldeirão de receitas, algumas delas aparentemente incompatíveis. Mas fizemos a síntese. Somos essa síntese. Um produto inacabado porque sempre em evolução.

Para regressar ao tal professor, ele disse ter cerca de 35 anos, pouco menos do que eu. O que eu acho é que a nossa geração - a dele e a minha - foi tão exposta, bombardeada com esse tipo de histórias de fim do mundo, de apocalipse eminente, de catástrofe global, que hoje transportamos isso em nós, como se fosse um gatilho prestes a ser premido a qualquer momento.

A pergunta não era tanto se iria ser premido, mas quando. Penso que esse medo é uma herança directa que nos vem da Guerra Fria, bem como da ameaça que logo a seguir eclodiu, ainda o Muro de Berlim não tinha bem caído, de uma catástrofe ecológica. A juntar à soma destes medos acrescente-se todos os temores explorados há mais de meio-século pela ficção e pela ficção-científica e de que a minha geração foi, é e continua a ser ávida consumidora: invasão de extraterrestres, guerra total, holocausto atómico, inverno nuclear, pandemia global, colapso económico mundial, mudança do eixo da Terra, sopro solar devastador, raios galácticos mortais, entre muitos outros fins possíveis, com um único resultado: o extermínio de toda a Humanidade.

É claro que esta crença pode não "afectar" toda a minha geração. Depende do que consumiram. Literatura, cinema, televisão, jogos, quero eu dizer.

Mas o que realmente acredito hoje é que esses universos criaram um certo imaginário colectivo, que não sei se se pode chamar consciência colectiva. Mas é inegável que determinaram a forma como pensamos, decidimos e vivemos.

Consciente disso, tento furtar-me à consciência colectiva, à minha tendência natural, porque descobri que afinal não é natural de todo, mas fabricada, artificial. Primeiro deixei de acreditar no destino, que tudo está pré-determinado, e que só eu escolho o meu caminho. Depois esforço-me por acreditar que não estamos no fim, mas no princípio, na aurora da Humanidade. E vistas bem as coisas, quer seja em grutas escuras ou no espaço sideral - as formas como ainda nos coçamos, caçamos, alimentamos, brigamos e acasalamos - continuam a ser instintos tão primitivos como os dos macacos dos quais descendemos.

No fim destas viagens alucinantes pelos meus meandros, que muitas vezes me deixam a mim mesmo com vertigens, acabo sempre por concluir que quanto mais sei, menos sei. Mas, apesar disso, estas incursões turísticas em mim e a materialização catártica pela escrita dessas crenças e desses medos recalcados fazem-me bem. Porque não servem só para me experimentar numa tentativa (vã?) de literatura, mas sobretudo para os exorcizar.





terça-feira, 1 de maio de 2012

Reportage sur RTBF: Le Luxembourg, un Eldorado pour les "réfugiés de l'euro" portugais?

http://www.rtbf.be/info/monde/detail_le-luxembourg-un-eldorado-pour-les-refugies-de-l-euro-portugais?id=7753685

Reportage du 24/04/2012

Li Hamlet... e sobrevivi!

"Hamlet" (ou "The Tragical History of Hamlet, Prince of Denmark)", de William Shakespeare (1603) 

Diziam-me que não iria sobreviver, que iria ficar desgastado de Shakespeare para sempre, que iria deixar a leitura pelo meio... ou que iria adorar. Pois foi quem apostou na última hipótese que ganhou.

Uma peça muito longa, deveras (192 páginas!), mas excelente, uma obra prima mesmo. Sei bem que sou apenas um dos milhares que já leu a peça e achou isto, mas pronto, desta vez sou eu a dizê-lo ;-)

Dizer que as peças de Shakespeare são lições de vida é quase uma Lapalissade. Mas adorei sobretudo a forma como Shakespeare até se dá ao luxo de dar lições de poesia e de teatro, enquanto conta a história e enquanto vai abatendo (quase) todos os seus personagens.

Foi também muito giro chegar àquelas partes em que se percebe o contexto textual das expressões universalmente conhecidas como "Ser ou não Ser" ou "Há qualquer coisa de podre no Reino da Dinamarca", "Há mais coisas no céu e na terra, Horácio, do que pode supôr a tua vã imaginação", etc. Aconselho a leitura e aconselho a paciência ao desbravarem as páginas mais densas.

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Li e gostei

"Memóras Póstumas de Brás Cubas", de Machado de Assis (1881)

O livro começa com o narrador, Brás Cubas, a falar do seu funeral. Dali faz o leitor viajar para trás no tempo até à sua morte, ao delírio dos seus últimos momentos, o instante em que adoeceu e por aí fora...

Quando o leitor acha que percebeu como a história se vai construir, o narrador faz uma finta ao leitor e começa a contar a história da sua vida desde o princípio.

Nascido em 1805, a vida de Brás atravessa as primeiras seis décadas do séx. XIX, desde a infância de menino rico, passando pela adolescência quando se dá a independência do Brasil. É nessa idade que se apaixona pela primeira vez por Marcela, uma "rapariga" que não tratava a moral por tu. O "Amor" durou "quinze meses e onze contos de réis", a expensas da família. Para o fazer esquecer Marcela, o pai manda-o para Lisboa. Em seis dias e ainda antes de desembarcar na capital portuguesa, os desgostos de amor estavam ultrapassados. Em Coimbra aprende a arte da boémia, da serenata e do "romantismo prático". Licencia-se em Direito mesmo não entendendo nada do assunto, por isso acha-se um génio.

Regressa ao Rio de Janeiro e namora com uma linda moça, mas que era "coxa", deficiência que o seu coração não consegue esquecer e por isso não se apaixona... O pai tem outros planos, quer casá-lo com Virgília, filha de um político, matrimónio que vai catapultá-lo para o Parlamento e assegurar-lhe o futuro.

Primeiro reticente, Brás começa a interessar-se por Virgília, mas esta prefere casar-se com Lobo Neves, que fará dela baronesa ou mesmo marquesa. Mais tarde e já casada, Virgília acabará por ceder aos avanços de Brás, tornar-se-á sua amante durante largos anos será o verdadeiro e grande amor da sua vida, confia no seu leito de morte.

Um dos encontros mais cómicos e irónicos é quando se cruza com Quincas Borba, um filósofo meio doido, que até inventa uma nova corrente filosófica.

Pela sua vida ainda passa a bonita Nhã-Loló, de 19 anos, mas que morre de febre amarela e Brás torna-se então um irredutível solteirão.

No fim da vida, tendo falhado no amor, na politica, em sociedade e em quase tudo, tenta uma última tentativa de imortalidade ao envidar todos os esforços para criar o "emplastro Brás Cubas", meio compressa meio cataplasmo que visa curar todas as doenças. E é em plena "criação" deste remédio que a pneumonia o "apanha" e a morte lhe bate à porta aos 64 anos.

E assim passa uma vida... com tantas oportunidades desperdiçadas, mas uma vida mesmo assim bem vivida, "à sua maneira".

Contada na primeira pessoa, a delícia da história é o seu tom cáustico, irónico do narrador ao falar das suas próprias aventuras e desventuras. Do autor fica-nos o maravilhamento pela inovação no estilo, estilo acima de tudo livre, muitas vezes mesmo audaz, e muito moderna quebra na narração linear. Machado de Assis confessa ter-se deixado influenciar por autores como Shakespeare ou Xavier de Maistre.


Contando a história da vida de Brás Cubas, Machado de Assis aproveita para descrever a sociedade brasileira, as diferentes classes sociais, a escravatura, o século XIX brasileiro, pelo que esta tragi-comédia é considerada por muitos críticos como sendo a primeira obra "realista" da literatura do pais. No entanto, certos excertos, discursos do narrador e diálogos fazem pensar no Modernismo, que chegaria apenas após o virar do século, pelo que esta pode ser considerada uma obra visionária.

O paralelo com "Os Maias" de Eça de Queirós, obra sua contemporânea (escrita oito anos depois) é óbvia para o leitor português, mesmo se a obra brasileira é mais rica em humor. Mas também há por lá um Vilaça e até um "Dâmaso". Mas a delícia na leitura foi a mesma, mesmo se li as duas obras a 22 anos de distância uma da outra.





domingo, 22 de abril de 2012

WARP DRIVE EXPLAINED BY MEXICAN PHYSICIAN MIGUEL ALCUBIERRE AS MATHEMATHICALLY POSSIBLE

Alcubierre drive


Concept of the Alcubierre drive, showing the opposing regions of expanding and contracting spacetime that propel the central region
 
The Alcubierre drive (or Alcubierre metric / Metric tensor) is a speculative idea based on a valid solution of the Einstein field equations as proposed by Miguel Alcubierre by which a spacecraft might be accelerated to speeds greater than the speed of light in order to achieve the objective of interstellar flight.

History

In 1994 Alcubierre proposed a way of changing the geometry of space by creating a wave which would cause the fabric of space ahead of a spacecraft to contract and the space behind it to expand The ship would then ride this wave inside a region of flat space known as a warp bubble, and would not move within this bubble, but instead be carried along as the region itself moves as a consequence of the actions of the drive. If this is so, conventional relativistic effects such as time dilation would not apply in the way they would in the case of a ship moving at a very great velocity through flat spacetime, relative to other objects. This method of propulsion would not involve objects in motion at speeds faster than light with respect to the contents of the warp-bubble; that is, a light beam within the warp-bubble would still always move faster than the ship. Thus the mathematical formulation of the Alcubierre metric does not contradict the conventional claim that the laws of relativity do not allow a slower-than-light object to accelerate to faster-than-light speeds. The Alcubierre drive, however, remains a hypothetical concept with seemingly insuperable problems: The amount of energy required is unobtainably large, there is no method to create a warp bubble in a region that does not already contain one, and there is no method to move from the warp-bubble once having arrived at a supposed destination.

Alcubierre metric

The Alcubierre metric defines the warp drive spacetime. This is a Lorentzian manifold which, if interpreted in the context of general relativity, allows a warp bubble to appear in previously flat spacetime and move off at effectively superluminal speed. Inhabitants of the bubble feel no inertial effects. The object(s) within the bubble are not moving (locally) faster than light, instead, the space around them shifts so that the object(s) arrives at its destination faster than light would in normal space.
Alcubierre chose a specific form for the function f, but other choices give a simpler spacetime exhibiting the desired "warp drive" effects more clearly and simply.

Mathematics of the Alcubierre drive

Using the ADM formalism of general relativity, the spacetime is described by a foliation of space-like hypersurfaces of constant coordinate time t. The general form of the metric described within the context of this formalism is:
ds^2 = -\left(\alpha^2- \beta_i \beta^i\right)\,dt^2+2 \beta_i \,dx^i\, dt+ \gamma_{ij}\,dx^i\,dx^j
where
\alpha is the lapse function that gives the interval of proper time between nearby hypersurfaces,
\beta^i is the shift vector that relates the spatial coordinate systems on different hypersurfaces
\gamma_{ij} is a positive definite metric on each of the hypersurfaces.

The particular form that Alcubierre studied is defined by:
\alpha=1\,
\beta^x=-v_s(t)f\left(r_s(t)\right),
\beta^y = \beta^z =0 \,\!
\gamma_{ij}=\delta_{ij} \,\!

where

v_s(t)=\frac{dx_s(t)}{dt},

r_s(t)=\sqrt{(x-x_s(t))^2+y^2+z^2}

and

f(r_s)=\frac{\tanh(\sigma (r_s + R))-\tanh(\sigma (r_s - R))}{2 \tanh(\sigma R)}

with R > 0 and \sigma > 0 arbitrary parameters. Alcubierre's specific form of the metric can thus be written;

ds^2 =  \left(v_s(t)^2 f(r_s(t))^2 -1\right)\,dt^2 - 2v_s(t)f(r_s(t))\,dx\,dt +dx^2 + dy^2 + dz^2

With this particular form of the metric, it can be shown that the energy density measured by observers whose 4-velocity is normal to the hypersurfaces is given by

-\frac{c^4}{8 \pi G} \frac{v_s^2 (y^2+z^2)}{4 g^2 r_s ^2} \left(\frac{df}{dr_s}\right)^2


where  g\! is the determinant of the metric tensor.
Thus, as the energy density is negative, one needs exotic matter to travel faster than the speed of light. The existence of exotic matter is not theoretically ruled out; however, generating enough exotic matter and sustaining it to perform feats such as faster-than-light travel (and also to keep open the 'throat' of a wormhole) is thought to be impractical. Low has argued that within the context of general relativity, it is impossible to construct a warp drive in the absence of exotic matter.It is generally believed that a consistent theory of quantum gravity will resolve such issues once and for all.

Physics of the Alcubierre drive

For those familiar with the effects of special relativity, such as Lorentz contraction and time dilation, the Alcubierre metric has some apparently peculiar aspects. In particular, Alcubierre has shown that even when the ship is accelerating, it travels on a free-fall geodesic. In other words, a ship using the warp to accelerate and decelerate is always in free fall, and the crew would experience no accelerational g-forces. Enormous tidal forces would be present near the edges of the flat-space volume because of the large space curvature there, but by suitable specification of the metric, these would be made very small within the volume occupied by the ship.
The original warp drive metric, and simple variants of it, happen to have the ADM form which is often used in discussing the initial-value formulation of general relativity. This may explain the widespread misconception that this spacetime is a solution of the field equation of general relativity. Metrics in ADM form are adapted to a certain family of inertial observers, but these observers are not really physically distinguished from other such families. Alcubierre interpreted his "warp bubble" in terms of a contraction of "space" ahead of the bubble and an expansion behind. But this interpretation might be misleading, since the contraction and expansion actually refers to the relative motion of nearby members of the family of ADM observers.
In general relativity, one often first specifies a plausible distribution of matter and energy, and then finds the geometry of the spacetime associated with it; but it is also possible to run the Einstein field equations in the other direction, first specifying a metric and then finding the energy-momentum tensor associated with it, and this is what Alcubierre did in building his metric. This practice means that the solution can violate various energy conditions and require exotic matter. The need for exotic matter leads to questions about whether it is actually possible to find a way to distribute the matter in an initial spacetime which lacks a "warp bubble" in such a way that the bubble will be created at a later time. Yet another problem is that, according to Serguei Krasnikov, it would be impossible to generate the bubble without being able to force the exotic matter to move at locally FTL speeds, which would require the existence of tachyons. Some methods have been suggested which would avoid the problem of tachyonic motion, but would probably generate a naked singularity at the front of the bubble.

Difficulties

Significant problems with the metric of this form stem from the fact that all known warp drive spacetimes violate various energy conditions. It is true that certain experimentally verified quantum phenomena, such as the Casimir effect, when described in the context of the quantum field theories, lead to stress-energy tensors which also violate the energy conditions, such as negative mass-energy, and thus one can hope that Alcubierre-type warp drives can be physically realized by clever engineering taking advantage of such quantum effects. However, if certain quantum inequalities conjectured by Ford and Roman hold, then the energy requirements for some warp drives may be absurdly gigantic, e.g. the energy equivalent of -1067 grams might be required to transport a small spaceship across the Milky Way galaxy. This is orders of magnitude greater than the estimated mass of the universe. Counter-arguments to these apparent problems have also been offered.
Chris Van Den Broeck, in 1999, has tried to address the potential issues. By contracting the 3+1 dimensional surface area of the 'bubble' being transported by the drive, while at the same time expanding the 3 dimensional volume contained inside, Van Den Broeck was able to reduce the total energy needed to transport small atoms to less than 3 solar masses. Later, by slightly modifying the Van Den Broeck metric, Krasnikov reduced the necessary total amount of negative energy to a few milligrams.
Krasnikov proposed that, if tachyonic matter cannot be found or used, then a solution might be to arrange for masses along the path of the vessel to be set in motion in such a way that the required field was produced. But in this case, the Alcubierre Drive vessel is not able to go dashing around the galaxy at will. It is only able to travel routes which, like a railroad, have first been equipped with the necessary infrastructure. The pilot inside the bubble is causally disconnected with its walls and cannot carry out any action outside the bubble. Thus, because the pilot cannot place infrastructure ahead of the bubble while "in transit", the bubble cannot be used for the first trip to a distant star. In other words, to travel to Vega (which is 25 light-years from the Earth) one first has to arrange everything so that the bubble moving toward Vega with a superluminal velocity would appear and these arrangements will always take more than 25 years.
Coule has argued that schemes such as the one proposed by Alcubierre are infeasible as matter placed en route of the intended path of a craft has to be placed at superluminal speed. Thus, according to Coule, an Alcubierre Drive is required in order to build an Alcubierre Drive. Since none have been proven to exist already then the drive is impossible to construct, even if the metric is physically meaningful. Coule argues that an analogous objection will apply to any proposed method of constructing an Alcubierre Drive.
A paper by José Natário published in 2002 argued that it would be impossible for the ship to send signals to the front of the bubble, meaning that crew members could not control, steer or stop the ship.
A more recent paper by Carlos Barceló, Stefano Finazzi, and Stefano Liberati makes use of quantum theory to argue that the Alcubierre Drive at FTL velocities is impossible; mostly due to extremely high temperatures caused by Hawking radiation destroying anything inside the bubble at superluminal velocities and leading to instability of the bubble itself. These problems do not arise if the bubble velocity is kept subluminal, but it is still necessary to provide exotic matter for the drive to work.
More difficulties emerge in regards to the amount of exotic matter required for such a propulsion. According to Pfenning and Allen Everett of Tufts, a warp bubble traveling at 10 times light-speed must have a wall thickness of no more than 10−32 meters. This is only slightly longer than the Planck length, 10−35. A bubble macroscopically large enough to enclose a ship 200 meters across would require a total amount of exotic matter equal to 10 billion times the mass of the observable universe. Straining the exotic matter to an extremely thin band of 10−32 meters is considered impractical. Similar constraints apply to Krasnikov's superluminal subway. A modification of Alcubierre's model was recently constructed by Chris van den Broeck of the Catholic University of Louvain in Belgium. It requires much less exotic matter but places the ship in a curved space-time "bottle" whose neck is about 10−32 meters. So-called cosmic strings, hypothesized in some cosmological theories, involve very large energy densities in long, narrow lines. But[clarification needed] all known physically reasonable cosmic-string models have positive (positive space-time warping effects) energy densities. These results seem to make it rather unlikely that one could construct Alcubierre warp drives using exotic matter generated by quantum effects.

The Alcubierre drive and science fiction

Faster-than-light travel is often used in science fiction to denote a wide variety of imaginary propulsion methods, most of which have nothing to do with the Alcubierre drive or any other physical theory. Some science-fiction works, particularly of the 'hard' genre, have explicitly made use of the Alcubierre theory, such as Stephen Baxter's novel Ark.
The Alcubierre drive theory is proposed as a possible reason for events occurring in the graphic novel "Orbiter" by Warren Ellis and Colleen Doran.
The Ian Douglas "Star Carrier" series exclusively uses the Alcubierre drive as the main mode of interstellar travel.
Also, in M. John Harrison's novel Light, the character Ed Chianese, while trying to get a job with the Circus of Pathet Lao, claims that he "rode navigator on Alcubierre ships."


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quinta-feira, 12 de abril de 2012

Turbilhão de areia e pó em Marte atinge 20 km de altura

A sonda Mars Reconnaissance Orbiter (MRO) da NASA fotografou a 14 de Março um turbilhão de pó e areia na superfície de Marte (na zona de Amazonis Planitia, Hemisfério Norte) que atingiu os 20 km de altura. Com os clichés, a NASA fez uma montagem animada do turbilhão (ver animação). Na Terra, um tornado não ultrapassa os 16 km em altura e um turbilhão de pó e areia nunca mais de uma centena de metros.



sexta-feira, 6 de abril de 2012

Presentely reading

"The Ends of The Earth - An Anthology of the Finest Writing on The Arctic and The Antarctic", by Elizabeth Kolbert and Francis Spufford (Bloomsbury, 2007).

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Revista cultural francesa "Muze" dedica dossier especial à arte portuguesa

A "Primavera Portuguesa" ou a arte como solução para a crise


A última edição da revista cultural francesa "Muze" dedica 60 páginas à arte portuguesa, não hesitando em chamar à nova vaga de artistas lusos, insubmissos e irreverentes, "A Primavera Portuguesa".

"Face às restrições impostas pelas dificuldades financeiras, Portugal é obrigado a reinventar-se. O reverso da crise pode assim vir a ser o fim de um ancestral recolhimento sobre si mesmo. A cultura toma as dianteiras da mudança e a eterna nostalgia torna-se desejo de futuro".

É com esta introdução do artigo "Novo alento na cultura" da jornalista e escritora Filipa Melo que começa o dossier especial da revista cultural francesa "Muze" (edição de Abril-Maio-Junho).

A publicação que se auto-intitula "a revista trimestral da cultura no feminino", escolhe assim uma perspectiva assumidamente feminina e dá-nos a ver o Portugal de hoje e a arte contemporânea lusa através dos olhos de várias portuguesas: Amália Rodrigues, Agustina Bessa-Luís, Sophia de Mello Breyner Andresen, Paula Rego, Lídia Jorge, Maria de Medeiros, Cristina Branco, Joana Vasconcelos, Filipa Melo, entre outras.

SAUDADE INSUBMISSA


Filipa Melo começa por explicar a origem da saudade, essa palavra tão portuguesa que significa bem mais do que simplesmente nostalgia, pela qual é muitas vezes (mal) traduzida. E do fado (fatum = destino), a canção que é suposto cantar a saudade, mas ao invés a chora.

Socorrendo-se das definições de Teixeira de Pascoaes e de Eduardo Lourenço, a escritora recorda que a saudade "terá nascido" em 1578, no momento em que D. Sebastião desaparece na batalha de Alcácer-Quibir, deixando o país órfão de um futuro glorioso. Dos "Lusíadas" (1572) de Camões, à "Mensagem" (1934) de Fernando Pessoa, a saudade atravessa os séculos portugueses até ao princípio do século XXI, como se Portugal vivesse "numa ficção de império territorial ou espiritual, prisioneiro do passado", e como se apenas sobre as lágrimas do império perdido se pudesse construir um porvir.

Mas, mais importante para Filipa Melo, há hoje artistas portugueses que querem sair desse "labirinto da saudade" (E. Lourenço) e se lançam em epopeias mais pessoais e viradas para o futuro. Os exemplos que dá são Gonçalo M. Tavares e o seu poema-romance épico/anti-épico "Uma Viagem à Índia" (2011), e as obras irreverentes e iconoclastas da artista plástica Joana Vasconcelos (foto supra e foto infra).


Enquanto Gonçalo põe o seu romance "a dialogar em surdina com os Lusíadas", mas narra a busca individual(ista) de uma hiperpersonagem literária e não o destino ultramarino de uma nação, as obras de Joana reciclam objectos tradicionais para lhes dar outra dimensão, numa espécie de "auto-ridicularização" nacional. Nas mãos de Joana Vasconcelos, "a identidade nacional é um jogo lúdico e crítico entre tradição e modernidade". Uma das fundadoras da Muze, Stéphanie Janico, entrevista Joana Vasconcelos, que lhe fala, por exemplo, da génese da sua obra "Carmen Miranda", um sapato de tacão gigante (4 metros!) feito de... panelas em aço inoxidável. Uma obra conceptual que representa "a condição da mulher contemporânea, presa entre a tradição do lar e a tentação da sedução" (foto supra).

A diferença nestes novos artistas portugueses é que são influenciados por uma estética internacional, que fica cada vez menos a dever algo à saudade. "A europeização do pensamento português desenvolve-se em paralelo com a europeização dos costumes", lembra Filipa Melo, citando os filósofos José Gil e Maria Filomena Molder. E Miguel Real, outro dos novos escritores, que considera que "hoje já não estamos em diálogo com a Europa: agora também somos a Europa". Ou Valter Hugo Mãe, "escritor que fala da realidade social contemporânea", e João Tordo, "o mais anglo-saxónico dos jovens autores portugueses".

Mas não é só na literatura que há novos talentos que quebram com o passado. Para Filipa Melo, "A Marcha dos Implacáveis", do músico portuense JP Simões, ou "Parva que eu sou", dos Deolinda, podiam perfeitamente ser o novo hino nacional, em que a nova geração se mostra insubmissa e revoltada face ao destino que lhe é imposto pelos governantes e a crise.

"A actual música portuguesa fervilha de novidades, desde Tiago Guillul a B Fachada e aos Buraka Som Sistema", aponta Filipa Melo. "Na última década, até o fado foi reinventado, com textos mais contemporâneos (...) e saiu da sombra imponente de Amália".

Lula Pena, Camané e Cristina Branco, "a fadista atípica", são alguns dos exemplos desse renascimento do fado. Mas, embora sejam apologistas da renovação da canção nacional, todos se reivindicam descendentes de Amália. Porque Amália é incontornável. A revista aproveita para fazer um resumo biográfico da Diva, da revelação à consagração, passando pelos anos difíceis do pós-25 de Abril, em que lhe era recriminada a proximidade que tivera com o Estado Novo, até à reabilitação nos anos 90, também muito graças a toda uma nova geração de fadistas.

Filipa Melo não esquece a música clássica e destaca a "originalidade e inventividade" de pianistas como Bernardo Sassetti ou Maria João Pires.

"Portugal é actualmente o país das grandes contradições", diz Filipa Melo. No cinema temos, por exemplo, recorda, Manoel de Oliveira, o realizador mais idoso do mundo (103 anos) ainda em actividade, cujas obras "são mais citadas do que socialmente aceites ou realmente degustadas". Mas Oliveira recebe quase sempre apoio estatal, que continua a escapar a talentos mais jovens, como João Salaviza, que recebeu a Palma de Ouro em Cannes (2009), e outros que, face à falta de apoio financeiro, optam por filmar documentários ou filmes de intervenção social", como "forma de resistência".

Face à situação actual, que parece desesperante e sem saída, Filipa Melo cita JP Simões: "Temos que fazer qualquer coisa. Não podemos simplesmente desaparecer no nevoeiro de Alcácer-Quibir. Era o que faltava. Portugal seria o primeiro país da história a renunciar a si próprio".


A ARTE E A LITERATURA LUSAS NO FEMININO


Nesta sua vontade de transmitir uma perspectiva feminina da arte portuguesa, a Muze não podia deixar de dar destaque a uma das artistas plásticas lusas mais importantes da actualidade: Paula Rego (foto infra).

Para a escritora e historiadora francesa Pascaline Balland (d'Almeida), que também colabora neste número, Paula Rego distingue-se por uma "narração interventiva, a denúncia da dominação masculina, as cenas da vida doméstica, a violência recalcada". A obra de Paula Rego "escapa aos rótulos, e essa é a sua força", escreve a historiadora, que evoca a exposição da artista que esteve recentemente patente na filial da Fundação Gulbenkian em Paris.
A "Primavera Portuguesa" ou a arte como solução para a crise



Pierre Léglise-Costa, conhecido tradutor, historiador de arte, crítico e único homem convidado para escrever neste dossier, fala do papel da mulher na arte e na literatura portuguesas. Começa por recordar que "as canções de amigo, de escárnio e de maldizer têm um narrador feminino, apesar de serem escritas por homens". O homem não escreve, parte para a caça, para o mar, para a guerra, o homem é o ser desejado.

Com D. Manuel (1469-1521), a poesia torna-se a arte nacional e os homens assumem-se poetas. O maior de todos Camões, que escreve às mulheres como lhes fala, ou não lhe fossem atribuídos, além das 1.100 estrofes dos Lusíadas, inúmeros poemas de amor e quase tantas conquistas femininas.

Cem anos mais tarde, em França, a "impostura" literária das medievais cantigas de amigo ainda vende. O best-seller de então deve-se à paixão, ao desejo violento, aos sentimentos frustrados e à dor expressas de forma arrebatadora nas cartas da freira portuguesa Sóror Mariana de Alcoforado a um marquês francês. Coligidas em livro em 1669, tornam-se imediatamente um fenómeno de popularidade. Os franceses não acreditam que há em Portugal uma mulher que escreva daquela forma primorosa e o tradutor é tido como o autor. Ainda hoje os críticos disputam a autoria das epístolas: uns defendem que foi Soror Mariana, que realmente viveu em Beja entre 1640 e 1723, outros suspeitam do conde Gabriel de Guilleragues. "Mas", pergunta Léglise-Costa, "como poderia, nessa época, um conde francês conhecer tão bem a vida num convento de Beja?"

Pierre Léglise-Costa fala ainda de outros exemplos de portuguesas que brilharam nas artes: a pintora barroca Josefa de Óbidos (1630-1684); a Infanta Maria-Bárbara (1771-1758), filha de D. João V e que viria depois a ser rainha de Espanha, exímia instrumentista e compositora, e que ainda hoje é considerada a rainha mais culta da história da monarquia espanhola; ou a marquesa de Alorna (1750-1839), que deixou uma vasta obra literária. Para o crítico, cinco mulheres marcaram a literatura do século XX português: a poetisa Sophia de Mello Breyner Andresen, a romancista Agustina Bessa-Luís e as "Três Marias" – Maria Teresa Horta, Maria Velho da Costa e Maria Isabel Barreno. Cada uma, à sua maneira, pôs a mulher contemporânea no centro da acção, num Portugal que tinha dificuldades em arrancar-se ao século XIX. Apesar da sua delicadeza e de ser proveniente de uma família aristocrática, Sophia foi uma firme adversária do regime salazarista. Agustina vem de um meio rural e a sua prosa, onde a mulher tem sempre um papel preponderante, vai tornar-se incontornável. As "Três Marias" lançam uma pedrada no charco literário em 1972 com as suas "Novas Cartas Portuguesas" (em alusão às cartas de Mariana de Alcoforado), em que os estilos, os géneros e os temas se alternam livremente. Demasiado livremente. O livro faz escândalo e as três são presas, só vindo a ser libertadas quando se dá o 25 de Abril.

Os anos 80, que para Léglise-Costa ficam marcados pela "explosão" na cena literária de José Saramago e de António Lobo Antunes, vêem também aparecer nomes como Lídia Jorge. A revista aproveita para publicar nesta edição o seu conto "O marido" (1997), sobre uma mulher vítima de violência conjugal. A escritora algarvia confia em entrevista à Muze que este texto marca dois episódios da realidade portuguesa a que ela própria assistiu, apesar de 25 anos os separarem e uma revolução.

De passagem, a revista recomenda ainda "As palavras poupadas" de Maria Judite de Carvalho e o romance de estreia da actriz e escritora Leonor Baldaque, neta de Agustina, que se lançou este ano pela Gallimard com "Vita (la vie légère)", escrito em francês.

No cinema, as mulheres também começam a fazer-se notar atrás da câmara nos anos 80. Primeiro com Teresa Villaverde e mais tarde com Maria de Medeiros (na foto infra), esta última com a única longa-metragem feita até hoje sobre a Revolução dos Cravos. A filha do maestro Victorino d'Almeida é aliás uma das entrevistadas pela revista, na qual fala da sua actividade como actriz e realizadora, entre Lisboa, Paris e Hollywood (foto infra).






Outros novos talentos das artes visuais portuguesas, que também merecem destaque neste dossier, são Carla Cabanas (n. 1979), conhecida pelas suas fotos, à qual acrescenta desenhos, textos, som ou vídeo, em obras que interrogam a memória privada e colectiva; e o projecto "Diário da República", do colectivo Kameraphoto, que em 2011, pelo Centenário da República Portuguesa, fez um retrato do país e das mudanças sociais que Portugal atravessa.

O design cuidado e os artigos assinados por especialistas na matéria testemunham um interesse genuíno da revista Muze por um Portugal que não pode senão reinventar-se face à crise. A crise, por causa da qual Portugal aparece actualmente e demasiadas vezes vilipendiado na imprensa estrangeira, foi aqui aproveitada para revisitar um país que, afinal, ainda tem muito (t)alento para se voltar a erguer. É uma escolha editorial. Que aprovamos.

A revista Muze pode ser encontrada nas livrarias (preço: 14,90 euros em França, ou 15,70 euros no Luxemburgo).  

Texto: José Luís Correia
Fotos: Anouk Antony
in CONTACTO, 04/04/2012