sebenta de anotações esparsas, pensamentos ociosos, reflexões cadentes, poemas difusos, introspecções de uma filosofia mais ou menos opaca dos meus dias (ou + reminiscências melómanas, translúcidas, intra e extra-sensoriais, erógenas, esquizofrénicas ou obsessivas dos meus dias)
-
cahier de notes éparses, pensées oisives, réflexions filantes, poèmes diffus, introspections d'une philosophie plus ou moins opaque de mes journées (ou + de réminiscences mélomanes, translucides, intra-sensorielles et extra-sensorielles, érogènes, schizophrènes ou obsessionnelles de mes journées)

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

No Luxemburgo, preços dos apartamentos subiram 5,7 por cento num ano

Entre Abril e Junho, os preços dos apartamentos não pararam de subir e aumentaram cerca de 5,7 % em relação ao mesmo período de 2010.

Este aumento deveu-se sobretudo aos preços dos apartamentos mais antigos, que subiram 3,2 % em todas as regiões do país, enquanto que os preços dos apartamentos novos desceram no último trimestre de 2010 e no primeiro deste ano, para voltar a aumentar 2 % a partir de Abril.

Em consequência, verificou-se um ligeiro recuo nas vendas de apartamentos.

É o que conclui o Observatório da Habitação, no seu relatório de Setembro sobre o mercado imobiliário nacional, no qual analisa não só os preços anunciados na imprensa (pequenos anúncios) bem como os declarados nos registos de conservatória predial.

Em comparação com 2010, os preços dos apartamentos antigos subiram 7,6 % e os dos apartamentos novos "apenas" 2,3 %, o que perfaz um aumento médio de 5,7 %.

Entre Janeiro e Junho deste ano, o número de apartamentos vendidos baixou significativamente em relação ao trimestre anterior. Note-se que nos três últimos meses de 2010 as vendas haviam sido "dopadas" (+46 % em vendas de apartamentos!) pela notícia que o governo luxemburguês poderia vir a suprimir o subsídio conhecido como o "Bëllegen Akt" para a aquisição de casa própria, o que permite a quem compra um bem imobiliário para habitação pela primeira vez usufruir de um crédito de imposto sobre o registo de conservatória predial, que pode chegar aos 20 mil euros, concedido pelo Estado luxemburguês.

Em Dezembro do ano passado, e perante a contestação geral no país, o governo voltou atrás na decisão, o que teve como efeito, desde finais de Março, a normalização do número de vendas dos bens imobiliários para os níveis do segundo trimestre de 2010.

A nível nacional, o preço médio de um estúdio antigo, de 50m2, rondava, no segundo trimestre deste ano, os 179.033 euros, enquanto que um novo custava cerca de 202.060 euros O preço médio de um apartamento antigo, entre 90 e 100m2, custava 362.048 euros e um novo 361.960 euros.

O preço do metro quadrado continua a ser mais caro na cidade do Luxemburgo e comunas circundantes. Na capital, o m2 custa cerca de 4.200 euros para um apartamento antigo, enquanto a média nacional se fica pelos 3.799 euros.

As comunas mais baratas para comprar casa são Wiltz e Pétange. Foi na localidade do Norte que, no segundo trimestre do ano, foram praticados os preços médios mais baratos para apartamentos antigos: 2.893 euros/m2. A localidade do sul regista o preço médio mais baixo para um apartamento novo, 3.683 euros/m2.

No lado oposto da tabela, o preço médio mais elevado foi registado em Lorentzweiler, com 4.833 euros/m2, para um apartamento antigo, e na cidade do Luxemburgo, onde o preço médio mais elevado para um apartamento novo rondava os 5.652 euros/m2 .

Quanto às casas, o preço destas casas aumentou 0,73 % em relação ao início do ano e 4,24 % em relação a Junho do ano passado.

A subida dos preços também se reflectiu nos pequenos anúncios imobiliários: as ofertas de venda de casas baixaram 6,75 % e as dos apartamentos 4,59 %, em relação a Junho do ano passado.

Rendas aumentaram 1,92 % desde Abril

As rendas dos apartamentos essas subiram 1,92 % e as das casas 2,02 %, no segundo trimestre deste ano. Analisados os preços entre Junho de 2010 e Junho deste ano, nota-se ainda mais a diferença: +3,98 % para os preços das rendas das casas e +4,48 % para as dos apartamentos.

As rendas dos estúdios, com +8,8 %, e os dos grandes apartamentos, com +6,4 %, foram as que mais aumentaram entre Junho de 2010 e Junho de 2011. A renda média de um apartamento era de 1.155 euros e de uma casa 2.416 euros.

Ao analisar os pequenos anúncios imobiliários na imprensa, o Observatório da Habitação verificou também que, no segundo trimestre deste ano, havia menos casas e apartamentos a arrendar: -23,7 % nas ofertas para arrendar um apartamento e -22,81 % para as casas. As ofertas que mais baixaram, cerca de 25 %, foram as dos apartamentos com um ou dois quartos, que constituem 74 % do mercado imobiliário neste sector.

Cerca de 45 % dos anúncios de apartamentos a arrendar referem-se a bens na cidade do Luxemburgo. É onde as rendas são mais caras: 3.062 euros para uma casa (+7,97 %, em relação aos primeiros três meses do ano) e 1.272 euros para um apartamento (+,4,61 %).

As rendas na região do centro-norte foi as que mais aumentaram entre Abril e Junho, com uma progressão de +26,7 %, enquanto no centro-sul aumentaram "apenas" 9,78 %, concluiu ainda o Observatório da Habitação.

Foto e texto: JLC
(in CONTACTO, 07.09.2011)

terça-feira, 23 de agosto de 2011

A shamefull article in "Foreign Policy" about Luxembourg

A shamefull article in "Foreign Policy" about Luxembourg => Very bad journalism!!! Wrong documented, false informations, false conclusions...

http://www.foreignpolicy.com/articles/2011/08/15/the_lap_of_luxembourgery?page=0,1

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Fim-de-semana de repouso em Gerardmer. Longe do mundo.

Lendo Gore Vidal, no bar do Grand Hotel...
..o melhor lugar de toda a cidade

sexta-feira, 22 de julho de 2011

shadow and light


Foto: José Luís Correia
(location: Parque Dräi Eechelen, Kirchberg, Luxembourg)

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Os escritores portugueses contemporâneos e a difícil relação com "o enredo" e "a narração"

"(...) No palco de Ernestina ou de La Coca [de J. Rentes de Carvalho], encontramos um enredo, essa entidade que é o lince da Malcata da nossa ficção.

A narração e o enredo são raros em Portugal, porque implicam a colocação das personagens num espaço concreto, num cenário social, cultural e político. Ou seja, um enredo implica um certo retrato da realidade. E esse é precisamenteo problema: a ficção portuguesa tem alergia à realidade portuguesa. É como se os portugueses fossem indignos de aparecer na prosa supina dos nossos oráculos literários. Lemos romances portugueses, mas não vemos lá dentro os portugueses, não sentimos lá dentro o cheiro e o pó do Portugal de hoje ou dos Portugais do passado. Onde estão os frescos sobre a Lisboa dos anos 2000? Onde estão os romances sobre os subúrbios?(...)"

Henrique Raposo
(artigo "J. Rentes de Carvalho, o inesperado biógrafo de Portugal", in revista "LER" n°104, Julho/Agosto de 2011)
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quarta-feira, 6 de julho de 2011

A política somos nós

Todos somos ou devíamos ter o dever, pelo menos em sociedade, de sermos "animais políticos". Mas seres racionais políticos. Ou seja, não que se entenda por isto de sermos capazes de tudo para encontrarmos um "poleiro" (mais uma alusão animal?), como infelizmente muitos "maus políticos" (será pleonasmo?) nos têm mostrado o exemplo. Não que os animais sejam capazes de tudo por algo parecido. Os animais só são capazes de tudo para sobreviver, como nos ensinou Miguel Torga.

O ser humano deve ser político por natureza, na participação da gestão e do (bom) governo da cidade e do Estado, na acepção original grega da palavra: a "politiké" como arte e ciência "politikós", dos cidadãos, da cidade (polis).

Mas a política vive hoje dias de infâmia e de descrença generalizada. Muitos cidadãos agem como se a política fosse algo que não lhes pertence, a que não pertencem, nem querem pertencer. Como se não quisessem identificar-se com os maus praticantes dessa arte. Como se participar ou não participar, votar ou não votar, desse no mesmo. De quem a culpa?

Em vez de procurar culpados, procuremos soluções. E a solução está em sermos nós próprios actores da mudança. Votando e/ou sendo eleitos.

Voltar a dourar as vestes rasgadas da política, sem dourar a pílula, vai ser difícil. Mas não impossível. Ainda há quem acredite na política. Basta acreditar no ser humano. Porque ainda há lugares, por ventura ignotos e por vezes inóspitos, onde a política até funciona, onde o nepotismo e as politiquices vis não têm a vida fácil. Mesmo se tentam a todo o custo. Estou a falar do Luxemburgo. Na semana passada dois casos vieram à luz do dia que mostram que a política neste país ainda é bem diferente, felizmente, da praticada noutros países.

O deputado independente Aly Jaerling (ex-ADR) foi condenado a um ano de prisão com pena suspensa e ao pagamento de uma multa de mil euros, acusado de ter reclamado reembolsos fraudulentos à Câmara dos Deputados.

O outro caso diz respeito ao ministro da Economia luxemburguês Jeannot Krecké que, dizia-se, andava nos bastidores a preparar a sua "transferência" (a alusão futebolística é intencional) da vida política para um alto posto na Cargolux, contando com o apoio de fundos árabes, com quem negociou a entrada como accionista na empresa luxemburguesa. O que teria sido, no mínimo, conflito de interesses. Dizia-se que até então só a direcção do seu partido o tinha conseguido travar. A notícia caiu na boca do mundo e o ministro foi obrigado a desmentir que pretendia "trocar" de emprego.

Estas duas notícias causaram-me espanto. Estarei demasiado habituado a ver ex-governantes a serem chorudamente beneficiados com cargos nas empresas que amplamente favoreceram enquanto estavam no governo ou a escaparem ilesos à justiça?

Em Portugal é moeda corrente a culpa morrer sempre solteira, os exemplos dariam para encher várias edições do CONTACTO. Mas até em países como a França ou a Alemanha, sempre prontos a darem lições de moralidade, os casos multiplicam-se. Como o caso, que se arrasta há anos em tribunal, em que o ex-presidente francês Jacques Chirac é acusado de desvio de fundos, tráfico de influências e de até ter feito votar pessoas já falecidas quando era presidente da Câmara de Paris. Alguém acredita que o antigo chefe de Estado cumprirá pena?

Muito criticado foi também o posto que o gigante russo do gás, a Gazprom (que agora quer vir instalar-se no Luxemburgo) ofereceu ao antigo chanceler alemão Gerhard Schröder, quando este deixou a política em 2005. Porque foi precisamente Schröder que negociou o traçado do gasoduto da Gazprom, que deverá ligar a Rússia à Alemanha e ao resto da Europa. Negócio chorudo, portanto. E os dividendos arrecadam-se depois, impunemente, gloriosamente.

Um amigo dizia-me que o Luxemburgo não tem política, que não tem discussões acesas no Parlamento, que tudo não passa de uma política de bolso num país de brincar. Retorqui-lhe que discussões animadas no Parlamento as havia, embora ele talvez não as acompanhasse. Mas que se por falta de discussão se queria referir a um bom senso comum dos governantes desde os anos 1960 quanto ao futuro do país, então respondi-lhe que preferia esse consenso à política disparatada portuguesa dos últimos 37 anos.

Felizmente no Luxemburgo (ainda) há governantes que realmente querem e conseguem governar em prol do bem comum. E vai se separando o trigo do joio, os que procuram poleiros deverão ir pregar noutras freguesias. Quem vem de fora pergunta-me sempre qual o segredo da longevidade política de Juncker. É talvez esta uma das respostas possíveis.

E ainda há aqui homens e mulheres corajosos, muitos deles portugueses, cada vez mais cabo-verdianos e de outras origens, que acreditam na política e por isso se empenham, se inscrevem para votar, para participar na sociedade que os acolhe, que ousam candidatar-se e acreditar que podem mudar as coisas.

José Luís Correia
(Editorial do jornal CONTACTO, 06/07/2011)

domingo, 26 de junho de 2011

Himmelserscheinung über Nürnberg vom 14. April 1561

Na manhã de 4 de Abril de 1561, os moradores de Nuremberga (Alemanha) acordaram com estrondos ensurdecedores no céu que depressa identificaram como "a batalha entre duas facções de deuses ou demónios". A batalha durou cerca de 1 hora e era tão explícita que os moradores até conseguiam perceber qual a facção que estava a vencer.

Centenas de habitantes disseram ter visto "bolas azuis, pretas e vermelhas", "discos" e "cruzes vermelhas" a lutar entre si, e alguns "pareciam entrar e sair de imensos cilindros pretos".

O relato veio no jornal da região da época, hoje conservado numa Biblioteca em Zurique (ver imagem).

Uma situação semelhante foi avistada e relatada em 1566 em Basileia. E os exemplos multiplicam-se em toda a história.

sábado, 25 de junho de 2011

Imagens inexplicáveis: Tríptico da Crucificação (1350) e Pintura da Anunciação (1486) de Crivelli


Tríptico da crucifição (retábulo no Kosovo), datado de 1350

Anunciação a Maria com Santo Emídio, pintura de Carlo Crivelli, datado de 1486

terça-feira, 21 de junho de 2011

Descobertas supernovas superbrilhantes

Astrónomos norte-americanos descobriram recentemente um novo tipo de supernovas, dez vezes mais brilhante do que os outros dois tipos, revela a revista científica Nature.

Até agora, os cientistas pensavam que a radiação electromagnética das supernovas se devia à radioactividade emitida por elementos recém-sintetizados, como o níquel, calor da explosão e interação entre os fragmentos da estrela e hidrogénio.

O novo tipo supernova observado revela indícios de hidrogénio e emite luz ultravioleta, luz esta que é responsável pelo seu brilho mais intenso e por brilhar por períodos de tempo mais longos. Sendo mais visíveis que outras supernovas, este novo tipo permitirá aos cientistas investigarem regiões do universo muito mais distantes.

Foto: NASA/ESA

sexta-feira, 17 de junho de 2011

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Vai uma voltinha de vaivém espacial?



Um astronauta da NASA, Justin Wilkinson, publicou no You Tube um vídeo gravado a bordo do vaivém espacial, em órbita geoestacionária, a 330 kms da Terra.

É quase como se lá estivéssemos...

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Heróis do mar, nobre povo, nação valente, imortal




I
Heróis do mar, nobre povo,
Nação valente, imortal,
Levantai hoje de novo
O esplendor de Portugal!
Entre as brumas da memória,
Ó Pátria sente-se a voz
Dos teus egrégios avós,
Que há-de guiar-te à vitória!

Às armas, às armas!
Sobre a terra, sobre o mar,
Às armas, às armas!
Pela Pátria lutar!
Contra os canhões
marchar, marchar!

II
Desfralda a invicta bandeira
À luz viva do teu céu!
Brade a Europa à terra inteira:
Portugal não pereceu
Beija o solo teu jucundo
O oceano, a rugir d'amor,
E o teu braço vencedor
Deu mundos novos ao Mundo!

Às armas, às armas!
Sobre a terra e sobre o mar,
Às armas, às armas!
Pela Pátria lutar!
Contra os canhões
marchar, marchar!

III
Saudai o Sol que desponta
Sobre um ridente porvir;
Seja o eco de uma afronta
O sinal do ressurgir.
Raios dessa aurora forte
São como beijos de mãe,
Que nos guardam, nos sustêm,
Contra as injúrias da sorte.

Às armas, às armas!
Sobre a terra e sobre o mar,
Ás armas, às armas!
Pela Pátria lutar!
Contra os canhões
marchar, marchar!

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Qual o número mínimo de pessoas que é necessário juntar para encontrar duas que celebrem o aniversário no mesmo dia?

A resposta é ... 23!

A partir do dobro, as probablidades ultrapassam mesmo os 99%.


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O cálculo foi feito pelo matemático teoricista americano de origem húngara, Richard von Mises (1883-1953), com base em equações estatísticas, da teoria dos paradoxos, da teoria das probabilidades e no cálculo "intuitivo".

Von Mises chama-lhe o "paradoxo do aniversário" e trata-se, de facto, de uma verdade matemática "ilógica", ou seja, que contradiz a intuição.

É baseando-se neste paradoxo que os engenheiros informáticos criam códigos criptográficos para evitar ataques de pirataria informática, bem como para os códigos de detecção de erros que asseguram a fiabilidade da memória dos modernos computadores.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Mensagem binária alienígena (extraterrestre)

Exploration (of) Humanity Conti(nuous) For Planetary Advan(ce)

(Exploração da Humanidade Continuação para Avanço Planetário)

52° 09' 42.532" N

13° 13' 12.69" W

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As coordenadas correspondem a uma ilha submersa na costa oeste do Reino Unido, conhecida como a ilha do Brasil (Hy Brasil) ou a lendária Ilha de São Brandão.

(Mensagem obtida em Outubro de 2010, a partir de um código binário que o sargento Jim Penniston teria recebido telepaticamente quando tocou em Dezembro de 1980 na fuselagem do OVNI que avistou na floresta de Rendlesham Forest, na região de Suffolk (leste de Inglaterra).


Fonte: "Ancient Aliens" (S2E10), Canal História (Difusão: Dezembro de 2010)

sexta-feira, 25 de março de 2011

JLC meets GMT :-)

O momento em que pude trocar dois dedos de conversa com Gonçalo M. Tavares, no Salão do Livro e das Culturas, no sábado, 19 de Março de 2011

Foto: Paulo Lobo

Da dispersão e da contemplação

A momentos tantos do debate com GMT, este falou da dispersão em que hoje em dia nos deixamos ir, falou da falta de tempo para a contemplação e de sermos "reféns e escravos das urgências".

Sobre isto, fez notar que "reparar" significa também "olhar de forma mais atenta", mas para isso é preciso pararmos, pararmos e olharmos, pararmos duas vezes: "re-parar". Para contemplar, temos que parar.

E, acrescento eu:

Reparar também quer dizer "consertar", consertar algo que está partido ou avariado. Hoje em dia, andamos desmotivados, deprimidos, stressados, exaustos, física e mentalmente, porque não paramos, não nos autorizamos o tempo de parar.

Para nos curarmos das novas doenças dos tempos modernos - stress e afins - é preciso parar. Para nos consertarmos, temos que parar. Para nos auto-consertarmos, repararmo-nos, temos de olhar melhor por nós próprios.

sábado, 5 de março de 2011

A porta das novas oportunidades em Rindschleiden (Wahl)







Esta manhã, os meus passos levaram-me até aqui... um lugar tranquilo e cheio de plenitude.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

Frédéric Werst versus Fernando Pessoa

Dans "Ward, Ier-IIe siècles", Frédéric Werst est comme "Hérodote pour l'exhaustivité de la compilation historique, J.R.R. Tolkien pour la faramineuse invention d'un monde, Fernando Pessoa pour le regard poétique sur la langue et ses usages.

in "L'Express"
http://www.lexpress.fr/culture/livre/ward-ier-iie-siecle_958420.html



quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Luxemburgo: Santuário de Nossa Senhora de Fátima vandalizado com cruzes suásticas e portal racista fechado - LUSA cita CONTACTO


Lisboa, 16 fev (Lusa) 15:28 - O Santuário de Nossa Senhora de Fátima de Wiltz, no Luxemburgo, foi alvo de atos de vandalismo no fim-de-semana, que a comunidade portuguesa já considerou como mais um caso de xenofobia de que tem sido alvo.

“A imagem de Nossa Senhora foi desfigurada e vandalizada com desenhos e palavras de ordem satânica e racista”, escreveu Marcel Schweig, um morador naquela localidade, no site de jornalismo cidadão mywort.lu, hoje citado pelo jornal de português no Luxemburgo, Contacto.

De acordo com Marcel Schweig, na imagem da Nossa Senhora foram desenhadas cruzes suásticas e sobre as placas com os nomes das vítimas da última ofensiva nazi naquela cidade durante a II Guerra Mundial foram escritas palavras como “Satanás” e “Morte”.

Mandado edificar nos anos 1950 por um grupo de moradores de Wiltz, o Santuário é hoje um local de culto para a comunidade portuguesa.

Contactado pela Lusa, o presidente da Confederação da Comunidade Portuguesa no Luxemburgo, Coimbra de Matos, sublinhou que “é difícil dizer que estes atos estão diretamente relacionado com a comunidade”.

“Mas o que é certo é que, nos dois últimos anos, a comunidade tem sido alvo de vários (ataques xenófobos)”, afirmou o dirigente associativo, referindo-se aos e-mails, panfletos e mensagens na Internet contra os portugueses que têm sido divulgadas.

“O problema aqui é que parece que as autoridades estão com medo de avançar com processos a sério. Enquanto não houver medidas duras, isto vai continuar”, sublinhou.

“Fazem-se inquéritos, nunca se sabe os resultados, as pessoas continuam a fazer o que sempre fizeram. Quando houver uma punição severa para alguém, penso que tudo se resolverá”, acrescentou.

Afirmando que a comunidade portuguesa está “preocupada” com estes atos de xenofobia, Coimbra de Matos disse ainda estranhar que a “imprensa nacional luxemburguesa não fala do assunto”.

Entretanto, o portal de notícias “Bom Dia Luxemburgo” noticiou hoje que o site que publicou artigos racistas e discriminatórios contra os portugueses foi encerrado.

“Finalmente fez-se justiça”, disse Coimbra de Matos, em declarações ao portal.

LUSA

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

26 de Janeiro - 11 de Fevereiro

18 dias que deram cabo de uma ditadura de 30 anos




Mubarak deixa um país sem partidos! Eleições, sim... mas atenção às derivas dos islamistas radicais!

A demissão do Presidente egípcio Hosni Mubarak “era previsível” mas são poucos os partidos que estão organizados para as eleições e “o único que o está seriamente é a Irmandade Muçulmana”, disse hoje Ângelo Correia à Lusa.

Correia, presidente da Câmara de Comércio Luso-Árabe e especialista em assuntos do Médio Oriente, falou hoje à agência Lusa sobre a demissão de Mubarak, que “era previsível”.

Ângelo Correia considera que o Egito “não tem partidos preparados para eleições”, e aponta “a Irmandade Muçulmana como a única força seriamente organizada para vencer”.

A Constituição egípcia determina eleições em 60 dias, e Correia assevera que não há partidos ou movimentos organizados.

No entanto, aponta a Irmandade Muçulmana, movimento religioso e político “que já tem setenta anos e está sempre organizado”, apesar de a sua representatividade se limitar a “vinte por cento” do eleitorado, sublinha.

“A Irmandade Muçulmana vai ter que fazer melhor” para chegar ao poder, salienta.

Mas no seu ponto de vista e numa atitude meramente pessoal “há uma pessoa que reúne no Egito um enorme sentido de simpatia, respeito e honorabilidade que é Amr Moussa, secretário-geral da Liga Árabe”.

“Amr Moussa é um homem respeitado no Egito e fora dele, quer no Golfo quer no Ocidente”, defende.

Ângelo Correia disse à Lusa que se tivesse que emitir uma opinião, e não um conselho, “seria vantajoso para o Egito um Governo de unidade social”.

"Os problemas são tantos e tão difíceis de superar e com uma necessidade de resolução a longo prazo que é importante, é necessário termos presente que todos os egípcios vão ser necessários", sublinhou o especialista.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Não há só Tangos em Paris



Tema do novo disco de Cristina Branco a editar dentro de um mês, no dia 28 de Fevereiro.
Uma só palavra: Lindíssimo!

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Não se engane no sapatinho!

Sugestões de prendas de Natal:

Para os amigos altruístas: Apadrinhe em nome de um amigo os asilos de animais de Gasperich ou de Esch/Alzette, ou uma associação de solidariedade. Basta enviar um cheque ou depositar a quantia na conta de uma dessas instituições com um valor determinado mas no nome do seu amigo. Esse tipo de instituições agradecem sempre, por carta, todas as ajudas financeiras. A carta que receber, mete-a por sua vez num envelope para dar no dia de Natal ao seu amigo. É a única forma de saber se o seu amigo é mesmo sincero quando se insurge contra o mercantilismo selvagem do Natal e vitupera contra quem gasta dinheiro em prendas fúteis e materialistas. Para si, o presente é, além disso, deduzível nos impostos! Dois em um!

Para os amigos egoístas: Ofereça um iPad! Segundo um estudo feito a 20 mil pessoas pela revista Wired, considerada a bíblia tecnológica da Silicon Valley, os proprietários do mais recente brinquedo tecnológico da Apple são considerados "egoístas", "elitistas", "sofisticados" e "gozando de condições financeiramente confortáveis". Ou seja, em época de crise generalizada, os outros vêem com maus olhos que lhes acene com a sua nova extravagância de 700 euros. Se não se importa com invejas alheias, faz bem, e em vez de oferecer um iPad, compre um para si!

Para a pessoa amada: Oferecer cassetes com compilações está fora de moda, não está? Então faça um upgrade desta ideia dos eighties. Ofereça um iPod à pessoa amada com uma compilação de canções que marcaram este ano ou o tempo que já passaram juntos. Pode até incluir poemas ou mensagens de amor entre as músicas, evocando a que momento se refere a canção e o que representou para si ou para ambos. É uma prenda tecnológica, e íntima ao mesmo tempo. Dois em um! Natal romântico assegurado. Se já comprou prenda, pode usar esta dica para daqui a dois meses, no S. Valentim.

Nota Bene: Não convem é enganar-se ao colocar as prendas no sapatinho, pode dar azo a confusões. Imagine que oferece um iPad à sua namorada. Ora se ela sabe que você é o geek infomático lá em casa e que ela não percebe nada de tecnologia, é como se se estivesse a oferecer uma prenda a si mesmo. Passa por egoísta, avarento e a consoada pode tornar-se bera. Pior ainda se oferecer um iPod com mensagens de amor a um amigo seu. Natal dúbio em perspectiva.

José Luís Correia
in CONTACTO (22.12.2010)

domingo, 19 de dezembro de 2010

Ruben A. sobre o perigo da massificação da humanidade (1964)

É preciso viver em estado de prevenção. Não ir na enxurrada do colectivismo e morrer afogado num bairro económico ou numa colónia balnear, resistir às pressões políticas mirabolantes, quer sejam de uma banda ou de outra, manter a condição do homem-artista em luta com o homem-massa foi sempre o que em mim se tornou claro desde que aos poucos tomei posse da minha personalidade. É fatal que se caminhe para a sanidade de vida das classes baixas, é humano que isso se faça, no entanto também é humano, mais talvez, que se lute desesperadamente para que a condição mais sagrada do homem evolua libertando-se das massas satisfeitas com a assistência médica, televisão e funeral pago. Essa massa vai criar um novo espírito animal, vai catalogar-se em Darwin e, convencidos que essa massa está feliz, constatamos ao fim de pouco tempo que esses grandes grupos de populações standardizadas deixaram de pensar e o seu sentir é apenas tactual, sem nada de sublimação em momentos mais íntimos.

O mundo que pensa, do artista e do intelectual, tem de libertar-se do incómodo desses homens que trouxeram como contribuição para a humanidade uma ideia abstracta do colectivo em marcha, que passaram a emitir sons, como pequenas estações emissoras, que não precisam de se articular em palavras, bastando-lhes os gestos. Ao fim e ao cabo aqueles que julgaram ter contribuído para a evolução da humanidade, dessa massa informe, é com tristeza, se ainda forem vivos, que constatam o facto de terem criado mais uma categoria animal, símios aperfeiçoados, em substituição do processo normal e não aflitivo do homem que evolui gradualmente dentro da sua própria missão de homem.

(...)

A tragédia é a cristalização da massa humana, tão perigosa como a estagnação do espírito do homem que se torna académico ou fenece por falta de entusiasmo. Gostava de saber quantas pessoas pensam em macacos durante o correr de um dia? Quantas? O homem-massa, num futuro próximo - em relações antropológicas o próximo leva geralmente centenas de anos - transformar-se-á num novo espectáculo de jardim zoológico. Em vez de jaula e aldeias de símios, ele terá balneários públicos e campos para habilidades desportivas, com ocasionais jogos nocturnos. Dará palmas em delírio ouvindo ainda o som distante da sineta tocada pelo elefante num acto máximo de inteligência paquidérmica. Terá circuitos fechados, com pistas perfeitamente cimentadas, para passear o tédio da família aos domingos, circulará repetidamente em metropolitanos convencido de que cada nova paragem é diferente da anterior.

E estou absolutamente crente que do naufrágio calamitoso apenas se hão-de salvar os que pela porta do cavalo fugirem ao triturar das grandes colectividades humanas, ou os que por força invencível e instintiva se libertarem para uma nova categoria de homem, ou, melhor dizendo, para a sua verdadeira categoria de homem, de homem-pensamento, na linha directa de um Platão, de um Homero, de um Aristófanes, de um Plutarco.
A humanidade dá-nos, assim, um triste espectáculo de andar para trás, melhora em lepra social, colectiviza-se e baixa logo na escala humana, retrocedendo para uma classe entre os antropopitecos e o erectus, a que chamarei Màchomem.
E todos os dias o mundo assiste ao melancólico desfile de milhares de seres que passam a Màchomens, na satisfação plena da sua jaula colectiva sem grades. E como os macacos, os elefantes, os cães e mais bicharia, os Màchomens passam imediatamente a falar a sua língua universal, sem necessidade de tradução, estendendo actividades físicas e associativas desde a Polinésia ao sul de Itália, trocando saudações, mensagens, hinos, desfiles, comícios, e tantas outras indigestões apaixonadas dos grupos de seres que deixaram de ter fronteiras e vocábulos regionais. O cão que ladra nas margens do Danúbio assemelha-se aos poderosos Serra da Estrela, sem distinção de maior que nos faça ter preferências por qualquer um destes ladrares. O Màchomem da Amadora em muito pouco se virá a distinguir do Màchomem de Detroit, Chicago, Manchester, Dusseldorf.

Ruben A. (aliás Ruben Andresen Leitão),
in "O Mundo À Minha Procura I", (1964)

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Carlos Pinto Coelho, 1944-2010 - in memoriam

O jornalista português Carlos Pinto Coelho morreu ontem à noite, aos 66 anos, na sequência de uma intervenção cirúrgica à aorta.

Jornalista desde 1968, depois de ter passado pela imprensa e pela rádio, Pinto Coelho dedicou-se também ao pequeno ecrã onde foi um grande divulgador e vulgarizador da cultura e da literatura.

Entre 1994 e 2003 apresentou o programa "Acontece", na RTP2, que foi durante muito tempo um dos únicos magazines culturais televisivos diários do mundo.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Wikileaks: Urso italiano abatido por não se integrar na cultura alemã

NOTICIA LIDA NO JORNAL "PUBLICO"

A morte do urso alemão

Um dos assuntos a receber atenção dos telegramas vindos da Alemanha em 2006 foi a novela à volta de Bruno, o primeiro urso selvagem a entrar na Alemanha em 170 anos, que acabou morto por caçadores na Baviera, diz a revista alemã “Der Spiegel”. As declarações do governador bávaro, Edmund Stoiber, foram restransmitidas a Washington pelo consulado de Munique. Stoiber discorreu sobre as várias categorias de ursos – “o urso normal, o urso maldoso e o urso problemático”. Disse que a Baviera teria “todo o gosto em acolher” o “urso normal”, “um urso que normalmente vive na floresta, não sai de lá e mata provavelmente uma ou duas ovelhas por ano”. No entanto Stoiber declarou que Bruno, que tinha vindo dos Alpes italianos, era “um urso problemático”. E assim, foi abatido. Análise dos diplomatas: o urso foi abatido porque não estava disposto a “adaptar-se à cultura e tradições alemãs”, como exige aos imigrantes repetidamente o ministro do Interior da Baviera. E os alemães, concluíram , apesar da capa ecológica e “verde”, ainda tem dificuldade em aceitar “natureza não domada”.

in Público 04.12.2010 ver link aqui
(artigo será retirado se o editor assim o solicitar)

Time elege fundador do Facebook para Pessoa do Ano 2010

O fundador da rede social Facebook, Mark Zuckerberg, 26 anos, foi hoje eleito Personalidade do Ano pela revista norte-americana Time, anunciou a direção da publicação.

Entre os finalistas desta escolha anual dos leitores da revista estavam também o fundador da WikiLeaks Julian Assange e a cantora Lady Gaga.

Julian Assange, recentemente detido em Londres e ameaçado de extradição para a Suécia, é o terceiro classificado, surgindo depois do movimento conservador americano ‘Tea Party’.

“A rede social que Mark Zuckerberg criou colocou em contacto 500 milhões de pessoas. O Facebook tornou-se o terceiro maior país do mundo, representando quase um décimo do planeta”, afirmou o diretor da Time, Richard Stengel, que anunciou a escolha no canal de televisão NBC.

Em 2009, a revista Time elegeu o presidente da Reserva Federal norte-americana (Fed), Ben Bernanke, a personalidade do ano.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Estórias de Café 7

Um café e um croissant

- Aqui fazemos o melhor café da Europa!

- Pois, nós em Portugal também dizemos isso, eh eh...

- Mas fomos nós que introduzimos o café na Europa, sabias?

- Foram os turcos, queres tu dizer...

- Sim, mas foi graças a um polaco!

- Como assim?...

- Quando os otomanos foram derrotados às portas de Viena em 1683 e fugiram, deixando para trás acampamentos militares inteiros montados, uma das coisas que lá foi encontrado foram sacos de café, que um polaco que ali morava logo comprou, para vender na sua taberna. E foi a partir de Viena que o café chegou ao resto da Europa. E é por isso que ainda hoje café em polaco se chama kawa, uma palavra muito próxima do árabe qahvah e do turco khave.

Mariusz, o empregado da café onde me refugiei do frio e da neve de Novembro, em Cracóvia, contou-me então como o rei polaco Jan Sobieski e 30 mil homens tinham ajudado o Império Austro-Húngaro e a Europa contra a segunda invasão turca. O que é um facto histórico. Já quanto à história do café, fiquei com as minhas dúvidas, mas achei curiosa a convicção.

Eram três e meia da tarde, a noite tinha já descido sobre Cracóvia, quando me assolou um intenso desejo de café com xarope de avelãs. Tentando encontrar o meu caminho entre a neblina fina, nem sequer me detive diante dos quadros dos artistas expostos na Porta de São Floriano, e enfiei-me na primeira kawiarnia que encontrei. Os cracovitas gostam de dizer que a sua cidade é conhecida por ter mais igrejas do que dias tem o ano e que só o número de cafés se equipara ao dos templos. Mas enquanto os primeiros são procurados para aquecer a alma, os segundos são-no para acalentarem os corpos.

E com esta conversa, Mariusz conseguiu convencer-me a provar o "café à turca", que os polacos ainda hoje costumam servir, e que é bardzo melhor que essas invenções starbuckianas de café com... avelãs.

A kawiarnia estava instalada numa cave, com paredes em tijolos, e eu tinha escolhido uma mesa num canto, tão pequena que não conseguia arrumar os jornais e os braços em cima do tampo de mogno quadrado. Na parede estavam suspensos velhos capacetes de bombeiros que alguém teve a luminosa ideia de adaptar com uma lâmpada para serem utilizados como candeeiros.

- E foi também graças a essa vitória sobre que nasceram os croissants, ainda hoje chamado viennoiserie. Um pasteleiro de Viena achou graça pôr os viennenses a comerem o símbolo da lua crescente dos turcos", interrompeu Mariusz os meus pensamentos, servindo-me o café e um croissant, "oferta da casa".

- Então é isto a famosa hospitalidade polaca?

- Pois, porque não são só vocês portugueses que têm a fama de serem hospitaleiros.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Estórias de Café 6

Manhã de Inverno 2

Cai a neve, sem querer saber, sobre a multidão absorta, na mais pura indiferença polar. Corro ao acaso, refugio-me do papão chamado solidão, sonhando com um anjo do Daugava que um dia longíquo, na idade da inocência, cantou para mim canções da Primavera.
As pessoas gulosas nas lojas repletas das últimas novidades prepararam gordo o Natal. Querem peúgas pesadas suspensas nas chaminés, querem sapatinhos recheados como perus, querem, como se o querer bastasse e não o crer. Não acreditam nem reparam que a lareira está apagada e fria, que ninguém cuidou de alimentar a chama e que os sapatos há muito estão sem sola.
Casacos grossos e quispos, gorros e luvas de lã para não deixar entrar a realidade. O homem cria bolhas para viver assim, refugiado de tudo, escondido de si. Bolhas de lã, bolhas de lona, bolhas de cabedal, bolhas de seda e poliéster, de cimento e tijolo, de ferro e aço, de vidro e plástico, bolhas de ar, invisíveis, bolhas imaginárias e intocáveis, bolhas que não existem, virtuais, paranóicas e esquizofrénicas... O homem vive num tubo de ensaio a ensaiar-se a si próprio.

Passa uma ambulância, a mãe ralha com o menino que deixou cair o gaufre com creme no chão, um casal discute, outro beija-se, uma rapariga olha-se ao espelho no reflexo da montra de vestidos de noiva, um puto de auscultadores nas orelhas, vestido de baggy-trousers, arrasta os ténis all-stars pelo passeio, fugitivo virtual de um mundo que não o quer e do qual ele foge por não o querer que não o quer por ele fugir dele. De um tímpano ao outro, a grande doses de decibéis, injectando revolta, inventa revoluções que não passarão de grandes teorias e do estado semi-onírico porque é demasiado difícil mudar o mundo, mas ainda é mais difícil mudar-se a si próprio. “Toda a gente pensa em mudar a Humanidade, mas ninguém pensa em mudar-se a si mesmo”, já era assim no tempo de Tolstoi.

Pensar que o erro nunca está em nós é o primeiro erro. Pensar que o erro está sempre em nós é anemia da alma. A virtude está no meio. Algures no meio de nós. Como o coração.

Duas adolescentes de quispos fluorescentes, jeans rebaixados e apertados, botinas cor de rosa berrantes, rimel egípcio nos olhos, conversam sobre pães, emoções, sentimentos, amor e sexo, deitando-se assim de costas sobre a sua infância, tentando ainda escapar-lhe ilesas. Todos nós tentamos sobreviver à nossa infância, à nossa adolescência, à nossa família. A idade adulta chega quando nos voltamos a reconciliar com todos eles e connosco também. Há quem nunca fique adulto. Há quem nem sequer tenha consciência disso.

Pensando na minha vida, cruzando as artérias principais da minha alma. Sorvo o café, como o faço com a vida, amarroto o guardanapo de papel como os meus dias, lambo o colher como a esperança, rasgo aos bocadinhos o pacote do açúcar como a minha alma que espalho sobre a mesa em pó. Sujei o pires e a mesa de mármore preto com migalhas da minha existência.

A empregada adolescente limpa a mesa. Asiática, gira, demasiado magra, tem dentes salientes que lhe estragam os sorrisos demasiado frequentes, como se quisesse sempre agradar. Peço outro cappuccino, numa chávena grande. Ela esmera-se. Demora um minuto e vinte segundos a servir-me, com um largo, rasgado, aberto, inocente, generoso, acolhedor, hospitaleiro, caloroso, servil sorriso. A chávena já não é a mesma. Tem o meu nome estampado. Sorrio da coincidência e da inconsciente clarividência. O que a fez escolher está chávena mais do que outra qualquer? Foram as energias universais que canalizaram as ondas fraquejantes emanando do meu cerebelo ao impulso eléctrico do neurónio que comandou a sua retina e a sua mão na direcção desta xícara? Estas coisas acontecem todos os dias...

Jogado num canto, inventado fins do mundo, como se o mundo lá fora não chegasse, torturo a mão, a caneta e este papel que mais tarde será feixes electrónicos de luz num ecrã de computador, mas merecia melhor sorte, não merecia?, como ser origami ou caderno ordenado de aluno assíduo que ainda acredita que o mundo é redondo. Em vez disso é antro, receptáculo alacre e sedento, baú de inépcias tempestuosas, mundo quadrado e fechado, introspectivo, introvertido, frustrado...
.
“O que transportas aí?...”, interpela-me o divino, com a cabeça fora da máquina e o dedo inquisidor, apontando o meu colo.
Segurando o meu caderninho imbecil contra o meu peito febril, como um idiota, respondo timidamente num orgulho dissimulado e arrogante:
“São letras, Senhor!”
E num gesto grandiloquente e generoso, como o fez ao mar, abre o meu colo e brotam poemas e prosas como rosas.
“É milagre, Senhor!”
“Não idiota, sou Eu que escrevo direito por linhas tortas!”


in blogue "Cadernos do Gaspar, vol.1"
(http://cadernosgaspar2.blogspot.com)

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Estórias de Café 5

"A conversa do costume, no café do costume"

No fim-de-semana, regressei ao café do costume com a Edviges. Apetecia-me uma fatia bem espessa do “Schwarzwälder” que eu lá tinha vislumbrado dias antes. Uma bomba em termos calóricos, mas eu tinha cá coisas a compensar e a Edviges andava a jogar à defesa.

“Désolé, Monsieur, nous n’en avons plus ! Puis-je vous proposer notre tarte aux pommes ?”, anuncia-me despudorado o empregado.

Puije, mas que puije? Eu quero é o meu bolo de chocolate já aqui a saltar do prato para a goela!!! Ó destemperança, aquieta-te em meu palato claudicante, olvida a ignomínia inenarrável, o vitupério arrojado ao teu celeste almejo, abstem-te da ambrósia asteca, cala no teu humano peito a ávida ânsia ardente…

Humpf! Contentei-me com um éclair de limão.

Pus termo a essas diatribes e pedi também um cappuccino italiano, se faz favor! Não essas imitações para gulosos com montanhas indecentes de chantilly povilhados de cacao. Ao longo dos anos extra-muros fui-me libertando do jugo da bica lusitana. Deixei de a tomar em posologia terapêutica - uma vez ao acordar, depois de almoço e ao jantar, e transitei, aos poucos, para o expresso e, com a idade, suavizei a dose de cafeína com macchiato e finalmente com o dolce cappuccino.

"Estás cada vez mais bonita, Edviges!", comecei, para quebrar o gelo.

Ela fala-me do namorado. Diz que gosta muito dele, que estes encontros têm que acabar. Mas depois envereda a falar-me dos defeitos dele, das atenções que ele sempre tinha e agora esquece, dos serões que passa sozinha, dos jantares aborrecidos com os mesmos casais amigos, da rotina que mina. Eu mostro-me compreensivo, digo-lhe que ela pode contar sempre comigo, que sabe muito bem que a nossa amizade conta muito para mim e que...

"Amizade? Tu chamas a isto 'amizade'? É o que isto é para ti? E eu, o que sou para ti? Diz-me, afinal, o que é que os homens querem?", fuzila-me.

Olha a pergunta que vale um milhão. Eu até poderia dizer-te, Edviges, mas acho que não ias gostar da resposta.

Como fico calado, ela amua. Quando volto a abrir a boca é para falar por circunstância, de coisas banais, mas o ambiente está minado. Penso em abrir o jogo, mas já é tarde demais. Atolo-me no meu éclair de limão. Num gesto de impaciência, ela esmaga no cinzeiro o quinto cigarro fumado pela metade e despede-se de maneira fria. "Tu lá sabes o que andas a fazer!", e sai, sem um beijo sequer.


in blogue "Cadernos do Gaspar, vol.1"
(http://cadernosgaspar.blogspot.com)

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Estórias de Café 4

José Luís Correia (aka Alexandre G. Weytjens) by Paulo Lobo

"Café aos bocados"

É para isto que serve um café, para repousar do dia, refugiar-me do mundo e atestar-me em jornais e literatura. Ler, ler, ler e bebericar cappuccinos entre páginas. Alguns amigos nunca conseguiram perceber porque perco eu os poucos instantes do dia a ler! Não perco tempo, ganho, ganho anos de vida, amigos, aventuras, viajo. E eles ficam sempre desconcertados a ponderar na minha insanidade.

Enquanto conversa comigo, Peter, o patrão do café prepara-me um capuccino. Numa chávena pré-aquecida deita um espresso dopio, leite quente, com uma capa de espuma de leite. O acabamento é feito com perícia: uma flor desenhada na espuma ao juntar o leite. "Tem que ser à primeira", diz-me, contando-me que a arte do cappuccino lhe foi transmitida por um torrefactor de Florença, que ainda hoje lhe fornece o café.

Provo e compreendo porque aqui regresso. Está delicioso! Um grande, genuíno e generoso cappuccino à italiana, com uma compacta camada de espuma de leite, num café bem encorpado.

"No cappuccino, o importante é dominar os três 'M': Máquina, Mistura e Mão", continua Peter. "É preciso conhecer a máquina e saber manipulá-la para tirar o melhor café. Depois, é preciso saber que quantidades de café e espuma de leite misturar. A mão que prepara tem de saber fazer o resto, a espessura da espuma, por exemplo", mostra-me. A dose de espresso que o cappuccino leva também tem o seu segredo. "As pessoas pensam que espresso quer dizer 'feito à pressa', mas a verdade é que significa feito 'espressamente' [expressamente] para uma pessoa ou ocasião, ao contrário do café, que antigamente era feito em grande quantidades", explica Peter. E mais não quer dizer, ou não fosse o segredo a alma do negócio. Mas deixa escapar que usa sempre água filtrada para o café, nunca demasiada mineralizada, e leite fresco, gordo, sem ser reaquecido. "Tudo isso influencia o sabor", revela. Depois há as preferências: cappuccino polvilhado com pó de cacau, chocolate ou xarope de caramelo, piccolo cappuccino, marocchino e por aí fora, num cardápio que parece nunca mais acabar de variedades de café misturado com tudo o que se possa imaginar de saboroso.

Um dos pecados que costumo cometer quando aqui me perco é o "white moccha", leite quente, espresso, com chocolate branco no fundo do copo, ou o "monte bianco", leite quente, espresso, pó de cacau, servido num cálice. "O Peter faz o melhor mocchaccino da cidade", lança sonora uma loira, de olhos azuis, que interrompe o nosso ritual. Americana, pela pronúncia. Veio sentar-se ao meu lado e mete-se na conversa. Cruza a perna na cadeira alta, ajusta a saia do tailleur vermelho até ao joelho, o lenço no pescoço alvo não desvenda o decote, alisa o cabelo atrás da orelha e sorri-nos: "O café que aqui fazem dá vontade de molhar o dedo e comer aos bocados".

(texto publicado no catálogo da exposição "Coffee Talks", de Paulo Lobo, patente de 17 de Novembro a 20 de Dezembro de 2010, no Instituto Camões, Luxemburgo)

Paulo Lobo by Ricardo Vaz Palma

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Vitral digital


Vitral do séc. XXI? I love it!
______________________

Autor: Daniel J. Skråmestø (aka Daniel Barradas)
in blogue "Actas do pequeno-almoço"

(com a devida vénia ao autor)

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Estórias de Café 3

Café com açúcar

Gostava de escrever como quem pinta, escrever os tampos das mesas em madeira, o negro dos cantos e os círculos concêntricos dos nós, escrever os eflúvios adocicados dos croissants, as línguas misturadas e as papilas seduzidas a estalar, os cafés com leite, os éclairs, o papel de parede a imitar parede (nunca percebi o propósito!), as conversas das pessoas, daquela mãe com a filha, “limpa a boca, querida!”, as duas velhas cabis-baixas a resmungar contra os vizinhos e a vida, o casal que agora chega e partilha um pequeno-almoço romântico, a rapariga na mesa do fundo, na minha diagonal, que nervosamente bebe um café fumante, cabelo castanho claro em rabo-de-cavalo, rosto oval, branco, pequeno, olhos irrequietos e claros, casaco preto, blusa de gola alta bordeaux, peito que tenta passar despercebido. Morde os lábios. Corre os contornos da mesa com a mão. Os dedos finos, alvos, frágeis, hesitantes. Há no seu olhar um apelo, uma procura, uma interrogação. É o que gosto de pensar, sempre que cruzo desconhecidas sozinhas.

Ela observa-me, como perguntando: “É para mim que estás a olhar?” E eu respondo do meu canto, sustentando o seu olhar, esboçando um sorriso. Agora reparou com certeza em mim. Sorri também, disfarçando. Bastou um sorriso meu? Sorvo o café com leite.
.
Uma amiga senta-se à sua frente. Sorrisos, abraços, conversam. Mas o seu olhar regressa sempre ao meu. Eu escrevo, ergo o olhar, voltar a mergulhar o rosto no caderno, e escrevo. Trago a chávena aos lábios e no movimento volto a fitá-la, ela repara, vê, não se mexe, apenas as pupilas tremem como se tivesse ouvido a minha ordem de guardar a posição, os lábios púrpuros semi-abertos e suspensos para a eternidade no gesto da minha mão, na trajectória da minha pupila.

Uma bela desconhecida numa manhã de Inverno.

O pulóver de gola alta escolheu-o esta manhã porque estava frio e a chover. Porque prefere sentir-se confortável a sexy. Sobretudo num dia como estes. Frio. Não tem nada previsto. Uma manhã vazia, como tantas outras. O seu único prazer é o olhar de um estranho, um olhar prescrutador sem ser intimidante e impúdico, o olhar silencioso de um indivíduo com o seu quê de misterioso, que não tem nada de conquistador, antes de familiar e apaziguador. Um olhar estranho de um estranho.

Lá estou eu a confundir desejo e realidade.

Ela levanta-se. Vem na minha direcção. O olhar fixo em mim. Vai abordar-me, dirigir-me a palavra? Vai falar comigo, sentar-se na minha mesa? Vai perguntar se nos conhecemos? Ou perguntar-em o que quero e pedir-me para parar com os meus olhares indecentes? Devo levantar-me, cumprimentá-la? Ela lê a interrogação no meu rosto e sorri ligeiramente. Passa por mim, a amiga segue-a para as traseiras do café e entram na cozinha. Afinal trabalham aqui e a amiga é uma colega. Reaparecem alguns minutos depois com um avental verde. Ela arruma os pratos atrás do balcão, limpa o tampo do balcão, conversa com as outras empregadas, serve alguns clientes. Um capuccino, dois expressos, um pãozinho com chocolate e dois suspiros.

Não me esqueceu. Num passo ligeiro, em elipse, serpenteando como um rio que não quer desaguar no mar, aproxima-se. Deseja saber se, além do seu sorriso aberto e luminoso (é o que percebo, mesmo se ela não proferiu as palavras), desejo mais alguma coisa.

“Mais café?...”
“Heu...sim, pode ser, obrigado!”
Três minutos depois satisfaz-me o desejo. Pede licença para encontrar lugar para a xícara na mesa cheia de revistas abertas, jornais dobrados e cadernos atravessados, mil folhas.
“Cuidado, não quero entornar café nas suas notas. Parece importante...”
Miro-a, olhos nos olhos.
“...o que está a escrever!”, completa, apontando com o queixo para a mnha sebenta.
“Ah...Não estou a escrever!”, acho oportuno rectificar.
Pestaneja como quem olha melhor.
“Heu...não está a escrever?”, insiste, perante o óbvio.
“Não!... Estou a desenhar!”, explico.
O seu olhar perscruta os meus rascunhos, as minhas frases ascendentes e descendentes, as minhas letras ora redondas ora angulosas e hieróglíficas. Resolve não me corrigir (é perigoso contradizer os maluquinhos!, deve pensar agora).
“E já agora, pode saber-se... Está a desenhar o quê?
“Você!”

domingo, 5 de dezembro de 2010

Estórias de Café 2

Não se chora sobre açúcar derramado

O homem de óculos e barba, sentado de perna magra cruzada, bebe café. As suas mãos recusam o açúcar e correm nervosamente o tampo da mesa em madeira antiga. Ajeita o colarinho ensopado em suor, olha-se no espelho velho, cheio de manchas, alisa o fato amarrotado e passa os dedos pelos cabelos em batalha. Parece querer erguer-se e sair, mas fica sentado.

Os seus olhos colidem com os meus. Espero que seja ele a desviar o olhar, intimidado no seu acto de me observar. Finalmente, baixo eu os olhos, e concentro toda a minha atenção na delicada tarefa de dissolver o açúcar no café.

Quando volto a ele, o gajo ainda está a olhar para mim. Perscruta-me, como se o seu itinerário apenas dependesse de mim. Não estou para aturar isto. Quem é que ele pensa que é. Vou até lá. Enfrento-o e digo-lhe: "O que é que foi? Para onde estás a olhar? Estás mal, muda-te! Eu estava aqui primeiro. O melhor é pores-te daqui para fora! Há um de nós que aqui estás a mais..."

Ele fita-me. Como se não entendesse, um nada preocupado, e encolhe os ombros. "Vai!", quase grito, fosse ele surdo.
"Vai, sai daqui, estás à espera de quê?" Ele sorri de braços bambos e encolhe os ombros novamente. Acha-me graça, o idiota?
Enfureço. Chego-me a ele, pego-lhe num braço violentamente, levanto-o como uma marioneta e arrasto-o até à porta. "Vá, põe-te daqui para fora, tratante…". Prescruta-me intrigado. Sem animosidade, com ar de asno, fica especado na soleira da porta olhando-me. Olhos nos olhos.

Sinto uma tontura, como se ele me possuisse. De onde está, sem se mover, puxa-me até ao seu lugar. Como se me sugasse. Não é humano. Desincorpora-se. Transfigura-se. Olho-o mas já não sei que vejo. A mim. Clonou-me? É como um espelho?
Reconheço-me enfim. Este palerma esquizófrénico sou eu. Sou eu, violentando-me para me extrair de mim mesmo, para ir apanhar ar lá fora, fora de mim. E o açúcar derramado na mesa do café.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

NASA descobre bactérias em arsénico e abre novas possibilidades na investigação de vida extraterrestre

A conferência de imprensa que a NASA convocou para hoje e que começou às 20h (hora do Luxemburgo) e terminou agora serviu para anunciar que os cientistas da NASA encontraram num lago na Califórnia, nos EUA, bactérias que vivem em arsénico, uma descoberta que irá ter impacto na investigação de formas de vida extraterrestre..

A descoberta foi precedida de muitas especulações em blogues ligados a temas da tecnologia, como o Gawker e o PC World, que nos últimos dias falavam na possibilidade de a agência norte-americana anunciar hoje que teria encontrado vida fora da Terra.

Estas especulações resultaram, sobretudo, da própria convocatória da conferência de imprensa, em que a NASA anunciava “uma descoberta astrobiológica” que teria impacto na pesquisa de vida extraterrestre.

A descoberta, mesmo não sendo histórica, mudará as investigações nesta área da NASA, que até agora só procurou vida em planetas com os elementos que os cientistas acreditavam serem os únicos que podiam acolhê-la.

As formas de vida até agora conhecidas são compostas por seis elementos: carbono, hidrogénio, nitrogénio, oxigénio, enxofre e fósforo.

“Ainda que estes seis elementos componham os ácidos nucleicos, as proteínas e os lípidos e, portanto, a maior parte da matéria viva, é possível, teoricamente, que outros elementos da tabela periódica possam cumprir as mesmas funções”, refere o estudo, que foi dirigido por Felisa Wolfe Simon, do Instituto de Astrobiologia da NASA.

Os investigadores descobriram nas águas tóxicas e salubres do lago Mono, na Califórnia, uma bactéria que pode substituir o fósforo por arsénio, ao ponto de incorporar este elemento no seu ADN.

Os investigadores explicaram que esta descoberta abre a possibilidade de existirem formas de vida em planetas que não têm fósforo na sua atmosfera.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

NASA convoca conferência de imprensa para falar de vida extraterrestre, esta quinta-feira

A agência espacial norte-americana NASA convocou para esta quinta-feira, 2 de Dezembro, às 20h (GMT + 1, 14 horas em Washington) uma conferência de imprensa onde disse que fará um anúncio sobre uma descoberta que fez no ramo da exobiologia e que, segundo o site da agência, "vai ser de grande impacto na busca de vida extraterrestre".

A Exobiologia estuda a origem e evolução da vida fora da Terra.

Vida numa das luas de Saturno?

Especula-se que a conferência vai falar do que a sonda Cassini detectou na semana passada: uma tênue atmosfera com oxigénio e dióxido de carbono em Reia, uma das luas de Saturno. É a primeira vez que uma sonda terrestre descobre uma atmosfera com oxigénio fora da Terra.

Outros garantem que a NASA vai falar da descoberta de arsénico em Titã, maior satélite de Saturno, e sobre as bactérias que se alimentam deste elemento para efectuar a fotossíntese. Além disso, Titã pode possuir lagos de hidrocarbonetos, vulcões gelados, e os cientistas pensam que o metano se comporta nesse astro como a água na Terra, evaporando e chovendo, em ciclos.

Uma resposta à nossa mensagem?

Em Janeiro de 2005, foi lançada a sonda Huygens que tirou as primeiras fotografias da superfície de Titã, mas devido ao nevoeiro, e mesmo com fotografias muito ficou por saber. Esta sonda levou consigo um milhão de mensagens de pessoas à volta do mundo. As mensagens foram enviadas pela internet, gravadas num cd-rom e lançadas com a sonda. Será que a NASA obteve uma resposta às nossas mensagens?

Vida ARN em vez de ADN?

Outros rumores evocam a possibilidade de a NASA vir anunciar que descobriu vida com base no ARN em vez do ADN.

O ARN ou ácido ribonucleico é o responsável pela síntese de proteínas da célula. O ARN é um polímero de nucleótidos, geralmente em cadeia simples, e não em dupla hélice como o ADN (ver imagem), mas pode, por vezes, ser dobrado. As moléculas formadas por RNA possuem dimensões muito inferiores às formadas pelo ADN. Na sua essência uma vida com base no ARN seria uma vida exactamente contrária à nossa, baseada no ADN.

A conferência de imprensa será transmitida em directo e ao vivo desde o auditório da NASA em Washington, pela NASA TV e pelo site da agência http://www.nasa.gov

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Insouciante Insomnie

Insouciante Insomnie
fille bâtarde de Morphée
qui vient sans même être invitée
c'est sur ton sein que je me confie
quand le marchand de sable n'est point passé...

Luxembourg, 23 novembre 2010, 3h54

domingo, 14 de novembro de 2010

José e Pilar - Retrato de uma relação



Trailer do filme "José e Pilar. Retrato de uma relação", realizado por Miguel Gonçalves Mendes, co-produzido por Pedro Almodóvar e que retrata a relação de José Saramago e Pilar del Río.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Um café e um croissant

- Aqui fazemos o melhor café da Europa!

- Pois, nós em Portugal também dizemos isso, eh eh...

- Mas fomos nós que introduzimos o café na Europa, sabias?

- Foram os turcos, queres tu dizer...

- Sim, mas foi graças a um polaco!

- Como assim?...

- Quando os otomanos foram derrotados às portas de Viena em 1683 e fugiram, deixando para trás acampamentos militares inteiros montados, uma das coisas que lá foi encontrado foram sacos de café, que um polaco que ali morava logo comprou, para vender na sua taberna. E foi a partir de Viena que o café chegou ao resto da Europa. E é por isso que ainda hoje café em polaco se chama kawa, uma palavra muito próxima do árabe qahvah e do turco khave.

Mariusz, o empregado da café onde me refugiei do frio e da neve de Novembro, em Cracóvia, contou-me então como o rei polaco Jan Sobieski e 30 mil homens tinham ajudado o Império Austro-Húngaro e a Europa contra a segunda invasão turca. O que é um facto histórico. Já quanto à história do café, fiquei com as minhas dúvidas, mas achei curiosa a convicção.

Eram três e meia da tarde, a noite tinha já descido sobre Cracóvia, quando me assolou um intenso desejo de café com xarope de avelãs. Tentando encontrar o meu caminho entre a neblina fina, nem sequer me detive diante dos quadros dos artistas expostos na Porta de São Floriano, e enfiei-me na primeira kawiarnia que encontrei. Os cracovitas gostam de dizer que a sua cidade é conhecida por ter mais igrejas do que dias tem o ano e que só o número de cafés se equipara ao dos templos. Mas enquanto os primeiros são procurados para aquecer a alma, os segundos são-no para acalentarem os corpos.

E com esta conversa, Mariusz conseguiu convencer-me a provar o "café à turca", que os polacos ainda hoje costumam servir, e que é bardzo melhor que essas invenções starbuckianas de café com... avelãs.

A kawiarnia estava instalada numa cave, com paredes em tijolos, e eu tinha escolhido uma mesa num canto, tão pequena que não conseguia arrumar os jornais e os braços em cima do tampo de mogno quadrado. Na parede estavam suspensos velhos capacetes de bombeiros que alguém teve a luminosa ideia de adaptar com uma lâmpada para serem utilizados como candeeiros.

- E foi também graças a essa vitória que nasceram os croissants, ainda hoje chamados viennoiserie. Um pasteleiro de Viena achou graça pôr os viennenses a comerem o símbolo da lua crescente dos turcos, interrompeu Mariusz os meus pensamentos, servindo-me o café e um croissant, "oferta da casa".

- Então é isto a famosa hospitalidade polaca?

- Pois, porque não são só vocês portugueses que têm a fama de serem hospitaleiros.

Alexandre Weytjens
(foto e texto)

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Deolinda ou "quando o fado é cantado a rir"

Ana Bacalhau entra em palco com o seu vestido rosa choque, com folhos e rendilhados, cabelo apanhado, brincos grandes, ar gingão, sorriso aberto e generoso. Os que que só conhecem as canções de as ouvir passar na rádio confundem Ana Bacalhau com Deolinda, mas o projecto é um quarteto composto pelos seus primos – os irmãos Pedro Silva Martins (viola) e Luís José Martins (viola) –, e o seu marido, Zé Pedro Leitão (contrabaixo).

Para o concerto de estreia no Luxemburgo, a 26 de Outubro, no Centro Opderschmelz, em Dudelange, os Deolinda fizeram viajar o público durante mais de hora e meia pelos seus dois álbuns, com momentos que alternaram entre o espírito mais tradicional do fado e as canções mais marialvas e boémias. Desde "Fado Toninho", dedicado aos machões, a "Mal por Mal", "Canção ao Lado", "Ai Rapaz", e o obrigatório "Fon-Fon-Fon", o público acompanhava os Deolinda com palmas, reconhecendo os sucessos cheios de humor que fizeram a fama da banda.

Ana Bacalhau bamboleia, dança, mete-se com o público, canta com gestos largos de varina e palavras debitadas à pressa, conta histórias de amores, desamores, namoricos e mexericos. Intercala canções dos dois álbuns e o público rende-se a "Um Contra o Outro", sorri com "Não Tenho Mais Razões", diverte-se com o "Fado Notário". Ana Bacalhau consegue mesmo pôr a sala toda a cantar "o maior mastro do mundo é português", na marcha popular "A Problemática Colocação De Um Mastro", no que foi um dos momentos mais hilariantes da noite.

Canções como "Não Sei Falar De Amor", "Há Dias Que Não São Dias" e "Clandestino" revelam o lado mais intimista da banda. E é curiosamente na letra de "Passou Por Mim E Sorriu", uma das canções mais belas do segundo álbum, que os Deolinda revelam a sua essência: para eles "o fado é cantado a rir", como se face ao destino ou às fatalidades da vida, devêssemos apenas... gingar.

O público não os deixa ir sem um "encore", e eles fecham com o divertido "Movimento Perpétuo Associativo", canção que critica a tendência dos portugueses em serem grandiloquentes em palavras e parcos em acções. Na internet, circula aliás uma petição para que a canção substitua "A Portuguesa" como hino nacional. "Porque o tempo dos 'heróis do mar' já lá vai, porque na nação reina o conformismo e não é possível fingir que está tudo bem, acenar a bandeirinha e o cravo, enquanto no dia-a-dia nada fazemos para que as coisas melhorem", lê-se na petição.
Uma iniciativa que também revela que o grande sucesso dos Deolinda reside no facto de cantarem a realidade de forma autocrítica e caricatural, na melhor tradição portuguesa.

No final, os Deolinda prestaram-se com agrado a uma sessão de autógrafos e conversa com os muitos fãs que os tinham vindo ver. Mercê de uma agenda muito carregada, foi a caminho da Holanda que responderam, via e-mail, às perguntas do nosso jornal.CONTACTO: Como surgiu o convite para vir ao Luxemburgo?
Deolinda: A oportunidade de tocar pela primeira vez no Luxemburgo surgiu através da nossa agência para o Benelux, a World Connection.

C.: Como viveram a vossa estreia no Grão-Ducado?
D.: Com uma enorme expectativa em ver como iria o público reagir. Ficámos muito felizes por ver que a comunidade portuguesa lá estava em peso e por sentir o seu apoio durante e após o concerto (já que costumamos sempre fazer uma pequena sessão de autógrafos após os concertos). Pudemos falar melhor com as pessoas e saber o que tinham achado e sentimos que tínhamos agradado ao público que nos foi ver.

C.: A banda é um projecto em família. Mas, afinal... quem é o pai da Deolinda? E como nasceu?
D.: Provavelmente, o tocarmos juntos era uma ideia que tínhamos desde que começámos a trabalhar a música de uma forma mais profissional. Todos tínhamos outros projectos e só em 2005 é que decidimos finalmente juntar-nos, uma tarde, para experimentar umas músicas que o Pedro havia escrito. Assim foi o início de uma banda, que depois se viria a chamar Deolinda.

C.: Como estão a viver este sucesso repentino, que "deflagrou" assim que lançaram o primeiro tema, "Fon-Fon-Fon", em 2008? Quando é que sentiram que tinham um sucesso entre mãos?
D.: Penso que a primeira vez que percebemos que havia muita gente a conhecer as nossas músicas foi no Festival Sudoeste de 2008. Esse concerto ficará nas nossas memórias como um dos melhores concertos das nossas vidas e aquele em que vimos pela primeira vez as pessoas a cantar em coro canção atrás de canção. No entanto, podemos dizer que sentimos que este sucesso não foi tão repentino quanto isso, na medida em que tivemos de trabalhar muito para que as coisas nos acontecessem. E ainda há muita coisa para fazer e muito caminho a trilhar.

C.: Quando lançaram o projecto Deolinda, que revisita e reinventa o fado e a música portuguesa em geral, a adesão do público foi imediata. Mas houve resistência por parte da indústria discográfica em apostar num novo estilo musical ou mesmo por parte das rádios em passarem as vossas canções?
D.: Da nossa experiência com as outras bandas que tivemos, aquilo que é mais importante é defendermos o nosso projecto e teimarmos naquilo que achamos ser o melhor para o mesmo. Obviamente, no início, tivemos de lutar bastante para convencer algumas pessoas de que tínhamos um projecto válido e com pernas para andar. Mas com bastante trabalho e determinação fomos mostrando que este era um projecto que acreditava em si e que chamava a si muita gente. Nós gostamos de desafios e somos bastante persistentes, por isso, quando nos dizem "Não", não descansamos até ouvirmos um "Sim", ou até provarmos que aquele "Não" estava completamente errado.

C.: O segundo álbum "Dois Selos e Um Carimbo" deixa-nos a impressão de um trabalho mais intimista e introspectivo. Foi a Deolinda que amadureceu ou a Deolinda é uma romântica que se ignora?
D.: Este segundo álbum continua algumas das soluções do "Canção ao Lado", mas, no entanto, também se impõe procurar novos caminhos, novos arranjos para um "ensemble" de duas guitarras, um contrabaixo e voz. Gostamos de experimentar e foi isso que tentámos fazer. O resultado final foi um trabalho mais maduro, mais complexo, mas que sela definitivamente aquilo ao que vimos: na soma dos dois álbuns se encontra a essência da Deolinda.

C.: A digressão que passou pelo Luxemburgo vai levar-vos ainda até onde?
D.: Esta digressão, para além do Luxemburgo, tem-nos levado à Bélgica, à Holanda e ir-nos-á levar ainda à Suécia, Áustria e França.

C.: Um álbum de dois em dois anos, a Deolinda é uma rapariga com genica! Mas é um ritmo para manter, quer dizer, vamos ter direito a novo álbum em 2012? E para quando um regresso ao Luxemburgo?

D.:
Ainda não estamos a pensar gravar novo álbum, o "dois selos e um carimbo" é ainda muito recente e tem muitos palcos a pisar. No entanto, o Pedro tem trazido canções novas e entre um "soundcheck" e outro, lá vamos trabalhando novo material. Quando sentirmos que as canções já nos estão a pedir para serem gravadas, voltaremos ao estúdio.

Quanto ao regresso ao Luxemburgo, pensamos voltar para o ano, se cá nos quiserem, claro está!

Texto:José Luís Correia/JNL
Fotos: Laurent Blum
in CONTACTO, 03.11.2010