O ser humano deve ser político por natureza, na participação da gestão e do (bom) governo da cidade e do Estado, na acepção original grega da palavra: a "politiké" como arte e ciência "politikós", dos cidadãos, da cidade (polis).
Mas a política vive hoje dias de infâmia e de descrença generalizada. Muitos cidadãos agem como se a política fosse algo que não lhes pertence, a que não pertencem, nem querem pertencer. Como se não quisessem identificar-se com os maus praticantes dessa arte. Como se participar ou não participar, votar ou não votar, desse no mesmo. De quem a culpa?
Em vez de procurar culpados, procuremos soluções. E a solução está em sermos nós próprios actores da mudança. Votando e/ou sendo eleitos.
Voltar a dourar as vestes rasgadas da política, sem dourar a pílula, vai ser difícil. Mas não impossível. Ainda há quem acredite na política. Basta acreditar no ser humano. Porque ainda há lugares, por ventura ignotos e por vezes inóspitos, onde a política até funciona, onde o nepotismo e as politiquices vis não têm a vida fácil. Mesmo se tentam a todo o custo. Estou a falar do Luxemburgo. Na semana passada dois casos vieram à luz do dia que mostram que a política neste país ainda é bem diferente, felizmente, da praticada noutros países.
O deputado independente Aly Jaerling (ex-ADR) foi condenado a um ano de prisão com pena suspensa e ao pagamento de uma multa de mil euros, acusado de ter reclamado reembolsos fraudulentos à Câmara dos Deputados.
O outro caso diz respeito ao ministro da Economia luxemburguês Jeannot Krecké que, dizia-se, andava nos bastidores a preparar a sua "transferência" (a alusão futebolística é intencional) da vida política para um alto posto na Cargolux, contando com o apoio de fundos árabes, com quem negociou a entrada como accionista na empresa luxemburguesa. O que teria sido, no mínimo, conflito de interesses. Dizia-se que até então só a direcção do seu partido o tinha conseguido travar. A notícia caiu na boca do mundo e o ministro foi obrigado a desmentir que pretendia "trocar" de emprego.
Estas duas notícias causaram-me espanto. Estarei demasiado habituado a ver ex-governantes a serem chorudamente beneficiados com cargos nas empresas que amplamente favoreceram enquanto estavam no governo ou a escaparem ilesos à justiça?
Em Portugal é moeda corrente a culpa morrer sempre solteira, os exemplos dariam para encher várias edições do CONTACTO. Mas até em países como a França ou a Alemanha, sempre prontos a darem lições de moralidade, os casos multiplicam-se. Como o caso, que se arrasta há anos em tribunal, em que o ex-presidente francês Jacques Chirac é acusado de desvio de fundos, tráfico de influências e de até ter feito votar pessoas já falecidas quando era presidente da Câmara de Paris. Alguém acredita que o antigo chefe de Estado cumprirá pena?
Muito criticado foi também o posto que o gigante russo do gás, a Gazprom (que agora quer vir instalar-se no Luxemburgo) ofereceu ao antigo chanceler alemão Gerhard Schröder, quando este deixou a política em 2005. Porque foi precisamente Schröder que negociou o traçado do gasoduto da Gazprom, que deverá ligar a Rússia à Alemanha e ao resto da Europa. Negócio chorudo, portanto. E os dividendos arrecadam-se depois, impunemente, gloriosamente.
Um amigo dizia-me que o Luxemburgo não tem política, que não tem discussões acesas no Parlamento, que tudo não passa de uma política de bolso num país de brincar. Retorqui-lhe que discussões animadas no Parlamento as havia, embora ele talvez não as acompanhasse. Mas que se por falta de discussão se queria referir a um bom senso comum dos governantes desde os anos 1960 quanto ao futuro do país, então respondi-lhe que preferia esse consenso à política disparatada portuguesa dos últimos 37 anos.
Felizmente no Luxemburgo (ainda) há governantes que realmente querem e conseguem governar em prol do bem comum. E vai se separando o trigo do joio, os que procuram poleiros deverão ir pregar noutras freguesias. Quem vem de fora pergunta-me sempre qual o segredo da longevidade política de Juncker. É talvez esta uma das respostas possíveis.
E ainda há aqui homens e mulheres corajosos, muitos deles portugueses, cada vez mais cabo-verdianos e de outras origens, que acreditam na política e por isso se empenham, se inscrevem para votar, para participar na sociedade que os acolhe, que ousam candidatar-se e acreditar que podem mudar as coisas.
José Luís Correia
(Editorial do jornal CONTACTO, 06/07/2011)
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