sebenta de anotações esparsas, pensamentos ociosos, reflexões cadentes, poemas difusos, introspecções de uma filosofia mais ou menos opaca dos meus dias (ou + reminiscências melómanas, translúcidas, intra e extra-sensoriais, erógenas, esquizofrénicas ou obsessivas dos meus dias)
-
cahier de notes éparses, pensées oisives, réflexions filantes, poèmes diffus, introspections d'une philosophie plus ou moins opaque de mes journées (ou + de réminiscences mélomanes, translucides, intra-sensorielles et extra-sensorielles, érogènes, schizophrènes ou obsessionnelles de mes journées)

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

9/11: Há 8 anos o Mundo acordava com estas imagens


Conspiração ou terrorismo, estas imagens fazem já parte da história.

O que me surpreende é, oito anos depois, no país das equipas super cientificamente apetrechadas tipo CSI, FBI, CIA, NCIS e outras agências com acrónimos que ficam bem nas t-shirts, muita gente continuar a duvidar dos autores que perpetraram verdadeiramente os ataques terroristas.

Nasceu mais um enigma Kennedy, que durante as décadas vindouras suscitará as mais recambolescas teorias da conspiração. É mais um filão inesgotável de dólares para os romancistas e para a indústria de Hollywood.

No "ground zero" nada parece ter mudado, o cratera ainda lá está. Fisicamente. E moralmente. Os projectos imobiliários megalómanos com pretensões de devolver a glória ao país do Tio Sam e à Grande Maçã não saem do chão. A cicatriz que desfigurou Nova Iorque e o orgulho pátrio continua nua e aberta.

Os historiadores, os analistas políticos e os jornalistas (historiadores do presente) dizem que esse novo tipo de guerra foi o sinal que marcou o início do século XXI, já que o século XX havia terminado com a queda do muro de Berlim, em 1989, e que a década de 90 servira apenas de fase de transição para um novo milénio.

Em oito anos, o mundo mudou. Deu uns solavancos para a frente, uns saltos para trás, uns passos hesitantes.

Um negro chegou à Casa Branca, com a esperança de todo um planeta atrás de si, para que fizesse esquecer a pior presidência da história norte-americana, e que tanto afectou negativamente o mundo.

E apesar de muitos radicais, dos mais diversos campos, de ambos os hemisférios, quererem aproveitar o pós-11 de Setembro e esse "sismo humano" para voltar a acordar velhos fantasmas do choque de culturas e civilizações, Obama profetizava: "As nações estão condenadas a colaborar umas com as outras. Não por opção, mas por necessidade. Porque só um futuro comum é um futuro viável!"

Ao mesmo tempo, paradoxalmente, a Rússia, através do saudosista do KGB, Putin, inventava a "democracia à russa", uma ditadura travestida, uma "demokratura", como lhe chama o jornalista do "The Guardian", Timothy Garton Ash, no seu livro "Facts are subversive".

A França não fazia melhor e seguia esses passos imperialistas: de chiraquiana oportunista virava ainda mais à direita, convertendo-se ao sarkozismo napoleónico.

Nesse entretanto, Portugal, sebastianista por vocação - porque a mudança vem forçosamente dos outros, nunca de nós mesmos - deixava-se credulamente entreter por uma política de passes mágicas, socialista apenas no nome.

E quando o país deu por si, estava de ressaca, à crise tinha apenas sucedido outra crise, os 20 anos de dinheiros europeus haviam-se esfumado em políticas pontuais e auto-estradas desertadas (porque, no final de contas, ninguém conseguia pagar as portagens!), apenas alguns parcos tostões haviam chegado à Educação, à Formação e à Saúde, que são afinal as verdadeiras sementeiras do futuro. O fruto nascia seco antes de amadurecer.

Muitos portugueses abanavam a cauda porque cada bom português tinha um "Magalhães", mas, na realidade, viviam todos a crédito, com dinheiro que não tinham, com um futuro hipotecado, com os salários e as reformas mais baixos da Europa, e continuavam no "pelotão dos últimos" em muitos campos, atrás de recém-chegados como ....os eslovenos.

A audácia da esperança


Nem todas as mudanças deixaram esperança. Mas se é verdade que a estupidez, a cretinice e a crueldade humanas têm apenas como limite a imaginação dessa mesma Humanidade, por entre as densas nuvens que pairam há, de vez em quando, rasgos de luz. Porque, afinal, nada é mais humano, igualmente, do que acreditar que melhores dias virão e que a esperança é a última a morrer.

Neste 11 de Setembro, a única mensagem de esperança veio, mais uma vez, do filho mestiço da América. A efeméride vinha carregada de luto mas não trazia vingança no olhar, não era uma infantil vendetta bushiana, uma glorificante cruzada de justiça divina nem tão pouco uma guerra santa contra um eixo qualquer.

Obama veio apenas desejar, pedir, dizer que a melhor maneira de recordar e honrar as vítimas do 9/11 era cada concidadão americano prestar serviço comunitário ou trabalho de voluntariado no seu bairro, cidade ou região.

Hoje apetece-me voltar a citar o que um editorialista do "Le Monde" disse há oito anos: HOJE SOMOS TODOS AMERICANOS! Ou devíamos ser, para acatarmos o pedido de Obama.

A Humanidade, esse ideal que tantas vezes sucumbe aos seus próprios e terríveis pesadelos, é, afinal, capaz de ter e concretizar belos sonhos.

Basta querer/crer.

O estado da Filosofia em Portugal...




Quem melhor analisa a situação ainda são os Gato Fedorento, num sketch de antologia.

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Pecar é natural

"Quando o Homem erra diz-se que é pecado.
Quando Deus erra chama-se-lhe a natureza!"


Jack Nicholson no papel de Daryl Van Horne, em "The Witches of Eastwick", 1987

domingo, 6 de setembro de 2009

Da existência

"É viver e deixar de viver que são soluções imaginárias. A existência está alhures."

André Breton, in "Manifesto do Surrealismo", 1924

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Anacrónicos e Diacrónicos

Estes são os tempos

O Verão está a acabar. É um lugar comum dizê-lo, mas quase um contra-senso se olharmos pela vidraça e observarmos o tempo solarengo que este pequeno burgo nos tem proporcionado nas últimas semanas, contra tudo o que é habitual nestas latitudes e nesta altura do ano. Consequência ou apanágio das alterações climáticas?

Se o Verão, tempo de farniente e de ócio, termina no calendário a 21 de Setembro, não acaba para todos na mesma data. Para os trabalhadores da construção, as férias duraram até 21 de Agosto. Noutros sectores, terminaram no domingo. Para os alunos, o seu último dia de Verão acontecerá dia 14, antes de encetarem um novo período lectivo. Este ano, os mais novos, do pré-primário e do primário, integram o novo regime da escola fundamental. Os parlamentares luxemburgueses recomeçam a trabalhar na segunda terça-feira de Outubro, mas as comissões parlamentares reúnem já em Setembro. Em Portugal, a Assembleia da República retoma os trabalhos na terceira semana deste mês, à semelhança do Parlamento Europeu.

Mas se para muitos as férias estão a findar, para outros nem chegaram a começar e muitos nem descansaram. Os bombeiros da Europa do Sul não puderam resfolgar com os incêndios que lavraram, e alguns ainda lavram, de Portugal à Grécia, em mais uma calamidade ecológica. E se para a maioria de nós o período estival permitiu-nos relaxadamente fazer muita prainha e dourarmo-nos com um belo "bronze", para os soldados da paz esse mesmo mercúrio em alta significou uma verdadeira descida aos infernos.

O CONTACTO também não foi "a banhos", atentos que estamos às mudanças dos comportamentos sociais dos nossos leitores que já não fazem férias apenas no "querido mês de Agosto". Cada vez são mais os que decidem, nesta altura, ficar por cá. Além disso, a informação não "fecha" para férias.

Os políticos portugueses podem até faltar durante o resto do ano às sessões do Parlamento (infelizmente, não chumbam por faltas!), mas no Verão é vê-los, sempre a aparecer nos jornais, na televisão e até nas revistas cor-de-rosa. Como se temessem que passássemos bem sem eles! Como se a política fosse algo que não pudesse tirar (ou dar-nos) férias. Melhor que isso, inventaram as universidades de Verão, que mais não são do que antecâmaras da rentrée política, comícios interpartidários que servem para testar ideias e argumentos em ambiente controlado, e para rodar novos "protegidos" a apresentar em Setembro, como se tudo isso pudesse trazer um pouco de ar fresco aos seus prolixos discursos remastigados e mofentos.

Em Portugal, vive-se já uma verdadeira pré-campanha eleitoral, o mundo político está em polvorosa com as legislativas de 27 de Setembro e as autárquicas de 11 de Outubro. Apesar de uma impopularidade crescente, o Executivo Sócrates recusa-se a exalar o seu último estertor. Mas a oposição não tem propriamente sabido profilar-se nem convencer os eleitores, que não parecem prontos a acreditar numa Ferreira Leite como no Sócrates sebastianista, em 2005. Muitos vêem nela um possível regresso ao Cavaquismo. Ou pior.

No Luxemburgo, o reeleito governo cristão-social/socialista vai debater-se com vários dossiês espinhosos: a reforma do ensino secundário; a legalização do casamento homossexual e do aborto (que o Executivo prometeu legalizar nesta legislatura); e a luta contra a recessão económica. Por enquanto, propostas de solução concretas houve poucas por parte do governo, a oposição criticou isso mesmo, mas o Executivo outorgou-se da maioria obtida nas eleições e disse que saberia dar conta do recado. Resta esperar para ver.

Enquanto que os primeiros assuntos ameaçam dividir a opinião pública num país tradicionalmente conservador, dirigido pelo mesmo partido de direita há 30 anos, a crise, que parece (desta vez?) estar mesmo a chegar ao Grão-Ducado, pode dissolver-se de si mesma. Isto se se confirmar, como alguns analistas desconfiam, que tudo não passou de especulação virtual por parte dos altos líderes da macroeconomia, o que veio minar a confiança das empresas e dos consumidores.

E se é verdade que no Luxemburgo os desempregados aumentaram 40 % num ano, que as falências têm vindo a acontecer em catadupa e muitas empresas têm optado por cortes orçamentais nos projectos e no pessoal, é necessário investigar e sancionar os casos em que a crise serve de alibi aos patrões para "fecharem negócio" ao encerrarem empresas, sem cuidar dos trabalhadores que põem na rua, considerados simples "baixas colaterais" da crise económica mundial.

José Luís Correia, in Contacto, de 2 de Setembro de 2009

sábado, 29 de agosto de 2009

Ode à Humanidade


"(...) Eu canto a Humanidade, esse valor que se espalha pelo Universo, como um raio de sol irradiando uma pétala, como uma gota de água simplificando o deserto, como uma nova essência que tudo transforma à sua passagem, e nunca nada jamais será igual. Um outro valor mais alto se ergue do pó! E se somos realmente apenas pó das estrelas, se algures alguém nos observasse do longíquo espaço, veria que já cintilamos. (...)"


José Luís Correia, in "Ode à Humanidade", 2002

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Trabalhar para o bronze ou como escapar ao rio Lethes

Parafraseando Horácio

Quero erguer "um monumento mais duradouro do que o bronze, mais alto do que as pirâmides dos reis. Nem a chuva cortante nem o vento devastador; nem a sequência inumerável dos anos nem a passagem das eras conseguirão destruí-lo. Não morrerei de todo, pois de Libitina grande parte de mim escapará."

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Facts are subversive - Os factos são subversivos

Presentemente, estou a ler a última recolha das crónicas políticas do talentoso Timothy Garton Ash, jornalista inglês do The Guardian: "Facts are subversive - Political writing from a decade without a name" (Atlantic Books, 2009, London).

A década dos anos 2000 contada com o olho crítico e a pena afiada de alguém que viveu por dentro alguns dos acontecimentos históricos e políticos que marcaram os últimos dez anos na Europa e no Mundo.

Desde a instalação difícil da democracia e da economia de mercado nos países do Leste europeu até a assuntos da política doméstica britânica. (N.B.: Prefiro usar a noção anglo-saxónica de "política doméstica" do que a portuguesa de "política interior" ou "interna". "Doméstico" torna-me a coisa mais ..."familiar" ou mesmo, ...hum, domesticada! Topam?).

TGA evoca todas as questões actuais de sociedade, as das migrações para a Europa-muralha, bem como a do Islão a querer vingar no Mundo e mesmo no coração do velho continente. Mas o jornalista foi também testemunha, enquanto enviado especial do The Guardian, da vida nas favelas de São Paulo ou da eleição de Barack Obama como primeiro presidente afro-americano dos Estados Unidos.

Pequenos excertos (tradução livre):

"A primeira missão do historiador e do jornalista é encontrar factos. Não a única missão, talvez até nem a mais importante, mas a primeira. Os factos são os marcos a partir dos quais construímos estradas de análises, mosaicos de telhas que encaixamos para compor quadros do passado e do presente. Haverá discordâncias sobre onde conduz a estrada ou que realidade ou verdade é revelada pelo quadro. Os próprios factos devem ser verificados com base em todas as provas disponíveis. Mas alguns são duros e redondos - e os líderes mais poderosos do Mundo podem tropeçar neles. O mesmo pode acontecer a escritores, dissidentes e santos.
(...)
Actualmente, as fontes que fixam os factos encontram-se sobretudo na fronteira entre a política e os media. Os políticos têm cada vez mais desenvolvido métodos sofisticados para impor uma narrativa dominante através dos media. A tarefa dos conselheiros políticos (spinmasters) em Londres e Washington, e ainda mais a dos 'tecnolgistas políticos' da Rússia, é sistematicamente desfocar até tornar indistinta a linha entre realidade e realidade virtual. Se suficientemente pessoas acreditarem em algo durante suficientemente tempo, então fica-se no poder. O que mais importa?"

"'O comentário é livre, mas os factos são sagrados", é a mais célebre máxima do lendário chefe de Redacção do Guardian, C.P. Scott. Actualmente, no sector dos media, a máxima variou: 'O comentário é livre, os factos são caros!'"

"O nosso velho continente passou a maior parte destes anos sem nome (os anos 2000-2009) a falhar a consolidação e o alargamento dos seus negócios com um cada vez maior Mundo não-Europeu. E por isso, teve menos importância, para o bem como para o mal, do que nos anos 1980, quando ainda era o teatro central de uma guerra fria global, ou nos anos 1990. A não ser que nós Europeus acordemos para o Mundo do qual fazemos parte - mas não temos feito nada que aponte nesse sentido - ou a nossa influência vai continuar a diminuir nos próximos anos."


Photo from Timothy Garton Ash's official site (will be removed if the author asks so)

sábado, 22 de agosto de 2009

Caminhos

"Perder-me para melhor me reencontrar..." , esta frase tem andado a atormentar-me nestes últimos dias.

Tenho feito como Thoreau, sem pretensões de reescrever o seu "Walden", nos meus tempos perdidos tenho andado deambulando pelas florestas, campos, pradarias, estradas, caminhos e trilhos deste burgo. Para melhor me compreender e compreender tudo o que gira à minha volta. Para tentar encontrar a ideia original, saber quem sou, donde venho, onde quero ir, o que quero contar, o que quero deixar de mim aqui, ir ao fundo de mim e saber o que significa a palavra escrever e o próprio acto em si.


Andar pela floresta é como perder o olhar no céu de estrelas à noite: o espectáculo que se me oferece deixa-me tão maravilhado que as geografias e as dimensões das coisas e dos objectos se alteram, acabo por diluir-me nesse todo que parece infinito e fico reduzido perante mim próprio à (in)significância do meu tamanho cósmico e do impacto que poderei ter ou terei de facto no espaço e no tempo.


Mas reduzir tudo à fracção mais infinitesimal possível, ao mais pequeno denominador comum, no meio do nada, em mim, obriga-me também a reposicionar-me no mundo e em mim mesmo.

Posso até nem ter revelações extácticas, epifanias arrebatadas ou chegar a conclusão alguma, mas sei, tenho essa íntima convicção - e essa é das poucas coisas que realmente sei saber - , que o caminho é por aí, dentro de mim, por mais que erre ou divague, e que, mais cedo ou mais tarde, há-de haver nem que seja uma tímida clareira!

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Tempo de existir



Libri aut liberi
*



* Livros ou filhos (máxima do tempo da antiga Roma)

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Este é o meu corpo

"Chego do ilustre Jardim das Hespérides, mas sou como outro viajante qualquer. Apenas a pedra me interessa. A pedra bruta, os seus contornos, as suas pontas, as suas superfícies ondulosas, passo a língua onde o tempo passou o pó. Lambo calhaus, amolo, chupo-os, aliso-os, talho-os com o ímpeto do meu corpo cadente, dos meus dedos generosos, apaziguadores. Acordo novos mundos a cada lasca, mordo os lábios, jogo a pedra fora. Pego noutra, enterro o meu estoque com pujança, como outro talhador de pedra qualquer."

in "Os Cadernos do Gaspar, vol. 1"

domingo, 16 de agosto de 2009

Bonjour, Monsieur Renard!



Fim-de-semana a deleitar-me com o diário de Jules Renard. Poeta, dramaturgo e romancista francês que viveu entre 1864 e 1910. E apesar de ter deixado vasta obra, a parte desta que sempre mais me interessou foi o seu diário, sobretudo as anotações, pensamentos e aforismos sobre tudo e todos - mesmo sobre artistas amigos, com os quais não foi nada meigo na crítica.

Leio sem cansaço e até à exaustão tudo o que ele escreveu sobre o processo criativo em literatura e sobre a missão desta, se é que esta deve ter/tem um desígnio.

Na semana passada descobri em Paris "Leçons d'écriture et de lecture" das Editions du Sonneur (2009), na livraria "L'Ecume des Pages", em Saint-Germain-des-Prés, mesmo ao lado do Café Flore. E não hesitei. Tinha entre mãos mais um excerto do seu diário.

Aproveitei para desempoeirar da estante o belíssimo romance gráfico que o desenhador francês Fred publicou em 1988 na Flammarion inspirado no diário de Renard. Na obra, Fred não resiste a colocar um trôpego mas mesmo assim brilhante Renard em diálogo surrealista com um corvo, numa alusão à fábula da raposa e do corvo, que faz parte da memória colectiva dos franceses ("renard" em francês significa raposa). Um livro magnífico que me ofereceu em boa hora a Susana Nogueira, ela que, mais do que conhecer os meus gostos literários, sempre soube fazer-me descobrir autores novos e interessantes.

Na época, Renard era sem dúvida novidade para mim. Não tinha ainda lido "Poil de Carotte" nem nenhuma das suas peças. Mas o lápis negro-poético de Fred soube cativar o meu olho e as observações incisivas e acertadas de Renard sobre a sociedade e a literatura tornaram-me adicto imediato do escritor. Eu ficava circunspecto e preso nos lábios de Renard, como o corvo. Eu, que na altura adolescente procurava um sentido a tudo, a mim próprio e à minha suposta e recém-descoberta veia literária.

E passados quase vinte anos, o encanto da escrita (ou "escrítica", como diria Miguel Esteves Cardoso) de Renard continua a ter efeito sobre mim.

Transcrevo alguns dos pensamentos que descobri e outros que redescobri, nesta minha última incursão ao mundo interior de Jules Renard:

"Não há sinónimos. Há apenas palavras necessárias, e o bom escritor conhece-as."

"Se tens talento, imitam-te. Se te imitam, estás na moda. Se estás na moda, passas de moda...Portanto, é melhor não ter talento!"

"O pensador de Rodin tem a cabeça cheia de vazio. Pensar não basta. É preciso pensar em qualquer coisa."

"Um dia poder-se-á construir a casa de felicidade. Mas a maior divisão será mesmo assim a sala de espera."

"Há gente que retira facilmente o que diz como se retira uma espada do ventre do adversário."

"Eles surpreendem-me: escrevem, escrevem! Eu, não posso. Eu não acho nada, ou, melhor, não aceito nada do que encontro. Sim, é isso. Muito simplesmente recuso servir-me de um certo talento que basta aos outros."

"O artista é um homem de talento que crê estar sempre a começar."

"Teria gostado de ser ave, esse fruto nómada da árvore."

"As minha palavras farão fortuna. Eu não! Mas uma boa palavra vale mais do que um mau livro."

"Há homens que são tão asseados que mudam de opinião como mudam de camisa."

"Deus não foi nada mal sucedido com a Natureza. Mas não acertou com o Homem."

"O seu marido não tem nada, mas crê que está doente, disse um dia um médico a uma velha senhora. Alguns dias depois, cheia de confiança neste grande médico, ela vem dizer-lhe: O meu marido crê que está morto!"

"Metade da casca de uma árvore ignora o vento norte."

"Só os cartazes eleitorais guardam durante algum tempo as suas opiniões políticas."


domingo, 9 de agosto de 2009

Paris 2

Corremos meia-Paris, do 7° bairro, onde ficámos alojados, mesmo ao lado da Torre Eiffel, até ao 1°, onde fica o Louvre, as Tulherias e a place Vendôme. Subimos o Champs de Mars até ao Trocadéro, onde tomámos o pequeno-almoço numa brasserie. Passeámos pelos cafés e livrarias de Saint-Germain-des-Prés até à place Solferino. Subimos pelo emaranhado de ruas, da place de Clichy até Montmartre para apenas descansar no Starbucks, em Pigalle, frente ao Moulin Rouge. Tivemos ainda tempo para, moídos da caminhada, descansarmos a vista no Sena, num barco-mosca (bâteau-mouche) e jantarmos no Hard Rock Café.

Petite escapade


Fuga romântica até Paris. Vista do quarto onde dormimos. Cinco para a meia-noite e nós extasiados a bebricar champanhe, a partilhar entre lábios beijos doces e bonbons de chocolate numa varanda, com uma vista espectacular, disfrutando do ar ameno da noite parisiense.

E de repente, a torre do Gustavo, começou a cintilar, como animada de mil pirilampos ou estrelas caídas do céu naquele momento. Ouviu-se um enorme "ohhhhhh..." dos visitantes do primeiro andar da torre, que inusitadamente começaram a disparar flashes na nossa direcção. E nós... fizemos o nosso melhor sorriso-colgate :-))))

Thanx Beta! (ela sabe quem!) ;-)

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

O século das luzes 2.0 ?

Eu até é raro gostar de filósofos! Contemporâneos entenda-se. Bernard-Henri Lévy, só em doses muito terapêuticas. E prefiro José Gil a Eduardo Lourenço. Mas hoje dei por mim a gostar do que dizia o jovem filósofo francês Vincent Cespedes no éter da Radio France Inter.

Falava ele em "egoscópio" e "século das luzes 2.0" para evocar o fenómeno facebook e por extensão todo o tipo de sites como os blogues, os myspaces, os hi-fives e afins.

"O que emana na internet dos jovens não são apenas as suas páginas privadas, a necessidade de terem o seu próprio egoscópio. Há trinta anos eu era obrigado a consumir a televisão que me serviam, sem poder responder.

A internet dá hoje aos jovens a possibilidade de eles próprios criaram conteúdos que os seus pares vão ler e consultar. Claro que há futilidades e engates e bisbilhotices próprios da idade. Mas há o reverso da medalha.

Os jovens, hoje em dia, têm o saber e o conhecimento à disposição na internet, que eu não tinha quando era miúdo. Claro que a net há coisas más. Mas também há coisas boas. Não se pode ser netófobo nem netómano. Mas acreditem que Diderot não teria desperdiçado um meio de comunicação e de divulgação dos saberes como é hoje a internet. Estamos a assistir, ouso dizê-lo, ao nascimento de um novo século das luzes, numa versão 2.0".


Foi mais ou menos isto em traços largos o que dizia este filósofo numa das suas tiradas no programa "Ca vous dérange" de Philippe Bertrand, na France Inter, hoje à hora do meio-dia.

O curioso é haver desde há algum tempo uma séria preocupação em pensar este fenómeno da internet e todos os milhões de tentáculos, da esfera privada à esfera pública, empresarial, institucional, que dela emanam.

"Is Google making us stoopid?"

A frase não é minha. Bem gostava eu. É do jornalista Oliver Jungen, do diário alemão "Frankfurter Allegemeine", citado no n° 7 (Julho/Agosto) de uma nova revista francesa com nome inglês: "Books".

A revista publica um dossiê bastante interessante sobre o mesmo tema com um título no mínimo sugestivo e provocador: "A internet está a tornar-nos mais burros?"

Autores do mundo inteiro, escritores, jornalistas, informáticos, donos de start-ups, alguns mesmo da Sillicon Valley, analisam os fenómenos YouTube, MySpace, Facebook, Google...

No dossiê, há, como sempre, os detractores da coisa, a vociferar de mãos ao céu que "a net vai acabar com o livro" e deixar toda esta geração sem cerebelo. Inteligentemente, a revista foi "pescar" um texto do sociólogo espanhol Joaquin Rodriguez que recorda que "até Sócrates se opôs à evolução, à novidade. No caso dele era a escrita, porque, segundo ele esta nova forma de transmitir o saber chocava com a tradição oral e era prejudicial à memória do homem".

Imaginem!

O espanhol admite que ler na internet não é a mesma coisa que ler um livro ou um jornal, mas há leitura, mesmo se é uma "leitura arborescente".

Muitos outros autores concluem que assim como o cinema não acabou com o teatro, a televisão não acabou com a rádio, a internet não acabará com o livro ou a imprensa. Pode transformá-los, fazê-los evoluir mais rapidamente do que teriam evoluído se esta não existisse, pode vir (já está a fazê-lo) associar-se a eles, ou vice-versa, mas em favor de ambas as partes e não como uma substituição de algo por outro.

E enquanto, pessimista, o filósofo George Steiner fala do "crepúsculo da leitura", o romancista Umberto Eco, diz que a internet e o computador são "a redenção da escrita".

Neste debate, a jornalista Larissa MacFarquhar, do New Yorker, denuncia os "apóstolos da alta cultura" que tanto desprezam a internet e a televisão e apenas juram pelo livro. E recorda esta verdade: "Nem todos os livros merecem ser lidos e nem todas as séries televisivas merecem a nossa indignação".

Mais à frente, Jeneen Interlandi, jornalista do Newsweek, e Sharon Begley, do Wall Street Journal, fazem a critica do mais recente livro de Mark Bauerlein, "The Dumbest Generation". O docente de literatura inglesa na Universidade Emory, em Atlanta (Estados Unidos), vitupera a plenos pulmões que os jovens são todos incultos e prevê mesmo para breve um holocausto civilizacional, intelectual e cívico.

As jornalistas recordam, com humor, que o velho professor foi precedido de alguns séculos pelos admiradores de Ésquilo e Sofócles que na época deploravam "a ignorância e o deserto cutural dos jovens que preferiam Aristófanes".

E lembram mais: "Os eruditos victorianos viam em Charles Dickens um escritor sentimental, que só sabia escrever intriguices e historinhas ligeiras em comparação com outros escritores do século XIX".

E as jornalistas rematam e desferem o golpe final no pobre "Velho do Restelo atlante":

"O que quer dizer Bauerlein com 'a geração mais burra de sempre'? Fala ele na que tem menos saber ? (...) Mas se ser burro significa ser desprovido de faculdades cognitivas fundamentais como a aptidão de pensar de forma crítica e lógica, de analisar um raciocínio, aprender e reter, reconhecer analogias, distinguir um facto de uma opinião (...), então Bauerlein está em terreno movediço. É que o QI (quociente de inteligência) de uma pessoa mediana, em todos os países que reconhecem essa maneira de medir a inteligência, tem vindo a aumentar desde os anos 1930. Porque o QI não mede o saber puro mas a capacidade de pensar, ao que os cientistas chamam a 'inteligência fluída'. Ou seja, a burrice de uma resposta não pode ser imputada à ignorância dos factos!"

Ou seja, o que as jornalistas se esforçam por demonstrar e denunciar é uma concepção antiquada e ultrapassada de saber enciclopédica, da cultura e do conhecimento, preconizada por muitos, como Bauerlein, e opõem-na às novas aptidões da juventude actual que dispõe de um instrumento tão versátil e completo (embora, por natureza, em constante, crescimento) como a internet: Podem até nem ter determinado saber, mas sabem onde procurar esse mesmo saber. E isso é o mais importante!

E eu concordo!

Conclusão


De uma análise de um fenómeno como Facebook, onde é estimulado o culto do EU, chegamos a um debate filosófico/sociológico sobre o saber, a cultura e o conhecimento nos dias de hoje. Porque tudo está afinal ligado e só assim se explica que tanta gente venha opinar (e eu tamém, sim, claro, porque não?) sobre o que a internet está a mudar. Está a mudar-nos a nós, e por extensão a sociedade.

Como meio (medium, media) que é altera a nossa noção de distância. Perante os outros e nós mesmos. Como espelho que é, altera a atitude que temos de nós ao nos vermos reflectidos.

JLC (cadernos do gaspar, vol. 2)

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Jim Harrison ou viajar com um puzzle à procura de si mesmo

"The English Major", de Jim Harrison

Cliff tem 62 anos. A mulher tem 38 e deixa-o por uma antiga paixão de liceu, hoje um ricalhaço bem sucedido. O seu filho homossexual, vedeta da televisão, não o quer ver a viver sozinho na quinta e convida-o a ir morar consigo e com o namorado para a Califórnia. Depois de ter abandonando uma carreira de professor de inglês na Universidade para se dedicar durante mais de 30 anos à agricultura numa quinta pacata do Michigan, Cliff cansa-se dessa vida, da quinta vazia, da vida solitária.

Quando a cadela, sua eterna companheira e a única que ainda restava na sua vida desamparada, morre, Cliff decide deixar a quinta e fazer a tal viagem a todos os estados do país com que sonhara quando jovem.

Parte com um mapa do país em forma de puzzle na bagagem e pelo caminho decide rebaptizar o nome dos estados com o seu nome índio de origem e dar um novo nome aos pássaros da América, atribuindo um pássaro a cada estado.

À medida que passa pelos estados deixa cair a peça do puzzle que corresponde a esse estado, numa forma simbólica de assinalar a sua passagem. Ou de marcar a perda de um sonho, de um ideal da sua vida antiga. Ou, pelo contrário, de marcar uma terra (re)conquistada (pelos índios), tema sempre presente nos romances de Harrison.

Nesta sua viagem, pautada por imensas pausas para pescarias meditativas mas também muito sexo, Cliff vai encontrando personagens mais ou menos estranhas, outras mais ou menos enfadonhas, outras completamente alucinadas, retrato típico de uma América onde coabitam vários mundos, várias cores e sensibilidades.

Cliff volta a reencontrar uma antiga aluna, 20 anos mais nova, casada, mas que tudo abandona para o acompanhar. Uma chata bipolar, complicada, desvairada, fala-barato, mas... ninfomaníaca maluca com a qual redescobre as loucuras e a ligeireza do sexo. Enquanto se contenta disso, Cliff deixa-a ficar por perto. Quando se farta dela, recambei-a para a sua terrinha para, dias depois, decidir que afinal tem saudades dela.

Redescobrir o amor aos 62 anos? Voltar à vidinha da quinta? Continuar a viagem num itinerário eterno? Eis as questões que se vão colocando a Cliff, que vê a vida com bastante sentido de humor e ironia, mais do que com uma amargura que se podia esperar num homem da sua idade e que foi deixado à beira do precipício de uma vida vazia.

Li esta história como se de uma moderna fábula se tratasse bem à maneira de "Cândido ou o Optimismo" de Voltaire. "There's no place like home" ou "o que é preciso é cultivar o seu próprio jardim", parece ser a conclusão desta história. A não ser que a personagem decida descobrir novos trilhos.

Mais do que um livro de viagem, mais do que se referir ao facto que a personagem era outrora um professor de inglês, o título "The English Major" deixa-nos entender que o que o autor talvez pretendesse com esta história era reflectir sobre a América contemporânea e, no mesmo acto, fazê-la debruçar-se sobre si mesma. É que o termo do título define um grau universitário nos Estados Unidos, mas também se refere a uma cadeira em que os estudantes são chamados não só a estudar literatura inglesa e americana, como a ter uma opinião crítica sobre esta.

Todos (ou quase todos) os escritores norte-americanos vivem com o fantasma do "grande romance americano" a pairar sobre si. "Grande romance americano" na senda de um John dos Passos, de um Hemingway ou de um Kerouac, entenda-se.

A personagem central, Cliff, bem pode ser o alter-ego de Jim Harrison, o autor, ele próprio com 71 anos e natural do Michigan. Cliff tem 62 mas bem poderia ter 22. Uma crise de adolescência é menos borbulhenta do que uma crise da idade madura? A procura do sentido da vida assombra-nos a todos em dado momento da nossa existência. Fazer dessa busca um romance em que a personagem se procura perdendo-se para melhor se reencontrar é apanágio apenas dos grandes escritores.

E se a essa lição de vida vier acrescentada de uma verve despojada de artifícios, simples, directa, mas não plana, pelo contrário, rica no vocabulário, nas histórias, de uma delícia humana fabulosa, então Harrison conseguiu mais um "grande romance americano", ele que é já autor de "Legends of the fall" e "Wolff", para citar apenas estes (ambos adaptados ao cinema, o primeiro com Brad Pitt e Anthony Hopkins, e o segundo com Jack Nicholson).

sábado, 25 de julho de 2009

Adoro receber livros!


Com a correspondência vinha hoje um envelope gordo com três livros dentro. Da Cosmorama. De que sou assinante-leitor+. Whatever that means, mas o que interessa é que recebo um montão de livros durante o ano. E eu adoro receber livros. A encomenda de hoje trazia três recolhas de poesia de dois jovens autores e de uma poetisa já bastante conhecida:

- "A Carvão", de Fernando de Castro Branco
- "disrupção", de Jorge Melícias
- e "Anacrusa - 68 sonhos", de Ana Hatherly

Porque é que gosto da Cosmorama? Porque a sinto uma editora cheia de genica, vontade e ideias, que se vê gostar dos autores e das suas obras, porque aposta em novos autores, nomes desconhecidos, faz até renascer nomes, como o jovem poeta do princípio do séc. XX, Guilherme de Faria (1907-1929), como publica também autores tão confirmados como Agustina Bessa-Luís, Ana Hatherly e valter hugo mãe.

Hoje, o dia começou bem :-))))))

domingo, 19 de julho de 2009

Portugal dissecado

Nas férias aproveitei ainda para ler "Em busca da identidade-o desnorte" (Abril/2009) do nosso filósofo nacional, José Gil.

Nesta obra, o autor farta-se de desancar no Sócrates, analisando não só a sua maneira de governar, como a forma como este comunica e fala ao país, numa atitude sobranceira e quase "messiânica".

O livro retoma onde Gil nos tinha deixado em "Portugal hoje: o medo de existir" (2004). Gil volta a dissecar os comportamentos, as atitudes e as mentalidades do povo português neste princípio de século XXI. Além de considerar que temos identidade a mais, acha-nos neuróticos. E isso impede-nos de avançar, defende.

Gil põe também o dedo numa das maiores feridas abertas de Portugal: o "chico-espertismo".

Esta maneira muito portuguesa de viver pelas regras do sistema D (desenrasca), o cada um por si, o salve-se quem puder, condenada por alguns, praticada por um número cada vez maior, socialmente aceite pela maioria por ser, entretanto, considerada como a única forma de sobrevivência num país à deriva, e que chega ao paroxismo de ser adoptada até pelos governantes, é o verdadeiro "cancro português".

Este "pathos" (paixão/sofrimento) português mina qualquer esperança de um futuro melhor.
Enquanto o individual prevalecer sobre o geral (a sociedade), enquanto o indivíduo pensar que a sociedade (e o poder) só o quer prejudicar e que só lutando contra tudo e contra todos se safará, a sociedade e a(s) mentalidade(s) não poderão progredir em direcção a um futuro comum melhor.

Porque para avançar num determinado sentido, é preciso acreditar que este nos leva a algum lado. Ora os portugueses já não acreditam... desenganados que estão dos sucessivos governos incapazes, corruptos, trapaceiros e cuja gota que fez transbordar o copo foi o sebastianismo oco e roto que depositaram (alguns ainda depositam!) em Sócrates.

Sem perdermos a esperança, verdadeiro motor da vida, não devemos é, enquanto indivíduos, continuar a ser sebastianistas e esperar o profético "Falta cumprir-se Portugal!" pessoano.

Enquanto nação, sim! Como indivíduos, não! Como nação sim, porque só acreditando num amanhã glorioso isso nos galvanizará nas piores horas. Como indíviduo, ser profético significa ficar à espera do que está previsto acontecer, que a mudança vem dos outros, e paralisa por isso qualquer acção.

É preciso que cada um cumpra o seu sonho, o seu projecto de vida... mas sem que seja em detrimento dos outros. E assim, como nas ondas circulares da água, que transmitem movimento umas às outras, o país acabará por cumprir-se.

Enquanto esperamos, a caravana passa. E se ninguém se mexer, o país adormece, amolece, pára e o século passa. É juntos que podemos alcançar uma vida melhor, uma sociedade mais justa, um Portugal melhor.

sábado, 18 de julho de 2009

Gripe mexicana? - excertos de uma conversa surreal com um médico

Hoje fiquei surpreendido, para não dizer chocado, quando consultei um médico (pelo sotaque era alemão!), por me sentir ligeiramente engripado, e este me perguntar se eu tinha estado "em contacto com alguém que tivesse a 'gripe mexicana'".

- "Quer dizer a gripe A?", retorqui eu. "Sabe que Os Estados Unidos já têm mais casos do que o México e que até o Reino Unido e o Canadá têm quase tantos casos como o México", insisti em precisar.

- "Sim, sim, hum, hum...!", remoeu. E encadeou logo perguntando "que profissão é que 'faz'?" (dixit)

- "Sou jornalista!"

- "Ah!, hum... isso faz com que esteja em contacto com muita gente, não é? Tem tido tosse, febre, dores de estômago, viajou para algum país infectado?"

- "Nem por isso, depende dos dias..., não! ...não!,... apenas dores no corpo, um mal-estar físico e perda do apetite desde ontem!, ...se viajei?....O Norte do Luxemburgo conta?"

- "Desculpe, eu estou apenas a fazer-lhe as perguntas obrigatórias que temos que fazer a todos os pacientes que aqui chegam com sintomas gripais!..."

- "Desculpe, e eu estou apenas a responder à sua pergunta. Só que actualmente, todos os países já contam tantos infectados que eu fiquei sem perceber a sua pergunta ...."

- "Pronto, pronto, estou a ver que é mesmo só um princípio de gripe. Vou receitar-lhe quatro Aspégic por dia, durante cinco dias, um spray Strepsils a tomar oito vezes por dia, se lhe vier tosse, e um spray para o nariz Ratiopharm, a usar três vezes por dia, se a gripe piorar e..."

- "Não vai ver se tenho febre?..."

- "Você não tem febre! está a suar porque está calor e tem esse pólo grosso vestido..."

- "Heu...", e enquanto me certifiquei que lá fora estava a chuviscar, como sempre no Luxemburgo, ele rematou a conversa.

- "São 35, 10 euros! Paga com cartão ou em numerário?"

E depois praticamente me empurrou dali para fora, sem me indicar a farmácia de serviço.

Surreal!

Canção inédita de Michael Jackson



Um pequeno excerto de uma canção inédita de Michael Jackson, intitulada " A place with no name" foi hoje revelado pelo site TMZ.com, três semanas depois da morte do "rei do pop".

Segundo o sítio especialista em celebridades, que desconhece a época em que a canção foi gravada, "A place with no name" (Um lugar sem nome), apresenta forte semelhanças com "A Horse with no name" (Um cavalo sem nome), uma canção de 1971 do grupo folk-rock "America".

Mas segundo o agente dos America, citado pelo TMZ.com, a banda estava ao corrente do "plágio " de Michael Jackson e tinha concordado com a gravação.

"O grupo sentiu-se honrado que Michael Jackson escolhesse uma das suas canções e espera agora que todos os seus fãs [de Jackson] a possam entender ", declarou o agente da banda à TMZ.com.

Michael Jackson morreu a 25 de Junho em Los Angeles. As causas da morte, que poderão estar ligadas ao abuso de medicamentos, estão a ser investigadas pela polícia de Los Angeles.

Porque não um álbum póstumo ?

Sugestão às editoras: fico à espera de um "álbum branco" com canções não editadas de Jacko, músicas que nunca sairam da gaveta, remixes que foram postos de lado e outras pérolas que tais. Pelo que conheço de MJ, ainda deve haver aí material para, pelo menos , um álbum póstumo.

Concerto de Marc Demuth com Sofia Ribeiro

O concerto do Quarteto de Marc Demuth com Sofia Ribeiro foi fantástico. Ainda não conhecia os temas do seu último álbum "Orik" e gostei. Gostei eu, a minha doce metade e os quatro amigos que lá encontrámos. Esta aventura luso-luxemburguesa começou quando os dois músicos se encontraram em Barcelona e resolveram começar a trabalhar juntos, jnuma inédita ponte intercultural entre o Luxemburgo e o Porto, onde Sofia vive.
O quadro do concetro - o café-club Ancien Cinéma, em Vianden - prestava-se magnificamente, numa sala de um antigo cinema, com holofotes e cadeirões a condizer
.
Foto: JLC

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Jazz luso-luxemburguês num lounge polaco


Esta noite, o Quarteto do contra-baixista luxemburguês Marc Demuth e da cantora portuense Sofia Ribeiro actua pelas 21h, num sarau cultural no café-club "Ancien Cinema", em Vianden (23, Grand-rue).

A entrada custa 10 euros, 8 euros em pré-venda (no café).

O serão começa com a vernissage da exposição "Transit", do fotógrafo José Paulo Rombo, pelas 18h (entrada livre).

A exposição trata de mobilidade, da roda à bicicleta, meio de transporte pelo qual o artista se diz fascinado.

José Paulo Rombo tem 35 anos, nasceu em Vila Velha de Rodão, é membro do Fotoclube de Diekirch e do grupo "Com entusiasmo" de Trier (Alemanha). Com este grupo participou na exposição "24 Stunden-Ein Tag" (24 horas-Um dia), que esteve patente no Amusem de
Saarburgo, em 2006, e no centro cultural Tufa, em Trier, em 2007.

As obras de José Paulo Rombo estão patentes ao público até 30 de Julho naquele café.
Após décadas dedicadas ao cinema, o local fechou e esteve em obras durante muito tempo. Em Dezembro de 2007 reabriu transformado num moderno café-concerto, lounge, que guardou alguns cadeirões, holofotes do velho cinema e até uma nova tela, onde passam telediscos.

O café é um projecto de dois polacos, Maciej Karczewski (Mac para os amigos), e mulher, Hanna, que após muitos saraus culturais e outros dedicados à música electrónica e dance com DJs convidados, resolveram dedicar um serão a jovens artistas portugueses.



Primeira imagem: Foto do bar, com vista sobre o ecrã, ao fundo/ Segunda imagem: logo do café "Ancien Cinema"

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Livros e leituras de Verão

Comecei a ler a revista "Ler" de Julho (n°82) nas férias e ainda não acabei. O Verão vai ser calmo, por isso vou ter tempo. A "Ler" está cada vez melhor. Gostei da entrevista que Vasco Pulido Valente deu à revista.

Ri-me que me fartei com a descontração com que VPV fala sobre a falta de talento de Saramago (que chama quase de sub-produto latino-americano), Lobo Antunes (que anda a mastigar há demasiado tempo os mesmos repetidos assuntos e deveria era ter publicado menos livros) e até de Agustina (o que ela escreve é "uma pasta"). Segundo VPV, a litertura deste trio (que são, afinal, os grandes escritores portugueses da actualidade) carece de domínio técnico, de filosofia moral, ética e estéca. E "acabrunha"! Lapidar, este VPV.

Mas o que vamos descobrindo ao longo da entrevista é que VPV coloca a faixa do talento tão alta que considera muito poucos como escritores de talento. Sobre si próprio é ainda mais castrador. Diz que é "apenas uma vozinha" e que para escrever romances, grandes romances, sonho que chegou a ter (como todos nós!) em adolescente, é preciso ser-se "um tenor". E assim justifica o seu próprio auto-aniquilamento e imobilismo na literatura.

Sobre o seu recente "Portugal-ensaios de história e de política", que já encetei, VPV aborda a história política portuguesa desde o liberalismo até aos anos 80. Confessa-se amante de alguns períodos em especial, como a Revolução Francesa, a Segunda Guerra Mundial, o nazismo. Mas até como historiador diz que se Portugal não fosse "um país periférico", quiçá, poderia ter sido uma voz maior da disciplina. E mais, que se pertencesse a algum dos países da Europa Central (Ocidental, quererá ele dizer!), então falaria cinco ou seis línguas, condição considerada por ele como sine qua non para dominar os acontecimentos e fenómenos históricos, se não in loco, pelo menos a partir da língua de origem, e assim poderia ter sido realmente um grande historiador. E é assim que justifica a sua "vozinha".

Quem mora no Luxemburgo (onde realmente é fácil um aluno falar cinco ou seis línguas, graças ao trilinguismo inicial que a escola imprime) e conhece minimamente o resto da Europa, sabe que fora destas estreitas fronteiras grã-ducais em muitos poucos países as pessoas, e até os mais jovens, dominam mais do que duas, no máximo três, línguas.

Não se sente porém amargura na "vozinha" de VPV, antes uma resignação dissimulada e que é extraordinariamente compensada por rasgos de arrogância e auto-derisão. E desculpa-se com a sua condição humana. Mas até isso é uma opção que respeito e entendo. É que, ao contrário de Pessoa, VPV sempre preferiu a vida à escrita. Excerto: quando Carlos Vaz Marques (CVM) lhe pergunta se ele sente que passou ao lado de alguma coisa, VPV atira (irritado?, hilariante?, o entrevistador não o precisa!): "Por amor de Deus, isso é uma pergunta extraordinária. Se eu fosse capado e rico é possível que tivesse escrito melhor História". "Capado, porquê?", inquire CVM. "Para não ter tido distracções com mulheres. Se eu fosse capado e rico ou se fosse um monge. Se calhar, sei lá...".

Hilariante, esta entrevista. Excelente. Quase tão épica como a que CVM fez há tempos à Margarida Rebelo Pinto, em que, a dada altura, quando o entrevistador lhe pergunta se a sua literatura é "light" (cor-de-rosa), a entrevistada ameaça dar à sola. CVM tem esse talento raro dos grandes entrevistadores: de a entrevista fluir como uma boa conversa e de, palavra puxa palavra (e as palavras são como as cerejas!), conseguir levar os seus interlocutores para terrenos onde se teriam até, por ventura, previamente prometido, não ir. Excelente!

Na "Ler", a minha predilecção vai para os textos do Rogério Casanova, que aposto ser o alter-ego de de Francisco José Viegas; do Jorge Reis-Sá, para além do bem e do mal; do Pedro Mexia, no estilo a que me habituou nos seus livros de crónicas através dos quais o conheci, que eu não era leitor dos jornais em que escrevia; do José Eduardo Águalusa, convertido em necro(ro)mântico literário; das entrevistas do Carlos Vaz Marques; do sofá vermelho da "Ler"; do "turismo de biblioteca" à casa dos escritores.

Neste, gostei também particularmente da entrevista ao valter hugo mãe. Depois dos amores e desventuras de duas mulheres de limpeza em "o apocalipse dos trabalhadores" (2008), valter revela que está a preparar um livro que conta a história do sr. silva, de 84 anos, cuja esposa acabou de falecer após 50 anos de vida comum.

Outras leituras

O "Ulisses" do James Joyce é actualmente o meu livro de cabeceira e ando a lê-lo esporadicamente, antes de deitar, quase em doses terapêuticas.

Estou ainda a ler, intercalarmente, "À Espera de Godinho: Quando o Futuro existia". Quatro iminentes portugueses (personagens reais), uns cientistas fora de Portugal, outros que ocupam ou ocuparam altos postos na Comissão Europeia, reúnem-se em Bruxelas para jantar com um tal Godinho, "português de Portugal", que se faz esperar e nunca mais aparece. O tempo de espera é usado para que cada um deles conte a sua história: de como ali chegaram depois de nascerem num Portugal ainda mergulhado em pleno salazarismo. Podem ler um excerto, aqui

Por fim, ando ainda a ler um romance histórico delicioso: "A Lenda de Martim Regos" de Pedro Canais. Aventuras de um português nas quatro partes do mundo no séc. XV, contado à maneira de Quinhentos, mas numa ortografia moderna. A alma gémea de Fernão Mendes Minto! Martim Regos ou Pedro Canais, perguntam-me? Os dois.

Ah, e aproveitei para trazer de Portugal o meu carregamento habitual de livros.

- "Meninos de Ninguém", de Ana Cristina Pereira; amiga minha, jornalista do Público, as reportagens sobre os dramas humanos que vivem os meninos e adolescentes nas ruas de Portugal, que a jornalista escreveu para aquele jornal, agora reunidos em livro
- "O que faço eu aqui", de Bruce Chatwin, brilhante jornalista e escritor de viagens do séc. XX
- "Aprender a rezar na Era da Técnica", de Gonçalo M. Tavares, mais um para a colecção dos "livros pretos"
- "Os sofrimentos do jovem Werther", de J.W. Goethe, que ainda não tinha em versão portuguesa
- "Um Outro-Crónica de uma metamorfose", de Imre Kertész, porque quero conhecer melhor o autor
- "Contos", de Virgílio Ferreira, que ainda não tinha na minha colecção VF
- "Onde crescem limas não nascem laranjas", de Amanda Smyth, para descobrir uma nova autora com origens irlandesas e portuguesas
- "O caderno do algoz", de Sandro William Junqueira; mais um jovem autor algarvio por descobrir
- "No bosque do espelho: uma viagem fantástica ao mundo dos livros", de Alberto Manguel, por gostar de perder-me no universo paralelo do autor e admirar a sua adoração (quase orgásmica, que partilho) pelos livros
- "O livro das citações", de Eduardo Giannetti, porque gosto de livros de citações
- "Citações e pensamentos de Fernando Pessoa", org. por Paulo Neves da Silva, para a minha colecção pessoana
- "Reduto quase final", de Dinis Machado, porque quero conhecer melhor o autor
- "Vocabulário: as palavras que mudam com o Acordo Ortográfico", porque é necessário e porque a contagem decrescente afunila-se
- "Barroco Tropical", de José Eduardo Águalusa, porque me apeteceu!
- "História da Primeira República Portuguesa", de Fernando Rosas e Maria Fernanda Rollo, como obra de consulta

Bons livros e bom Verão!

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Álbum de férias I - Porto

Manhã de domingo num Porto ensolarado (21.06.09): ponto de encontro, a esplanada da Casa da Música. Planeamos uma visita a Serralves e uma francesinha no Rest. Ricardo em Leça

Primeira paragem obrigatória: Livraria Lello, na rua das Carmelitas, uma das mais bonitas em que já estive e que segundo o The Guardian é a terceira mais bela do mundo. Compro a minha primeira remessa de livros, tento conter-me, mas sinto-me como um guloso à solta numa pastelaria.

A melhor maneira de descobrir uma cidade é a pé. Todas as vezes que lá vou, descubro um novo Porto.

Descansamos no Majestic, na rua de Santa Catarina, um dos cafés mais emblemáticos da Invicta. Dizem que JK Rawling teria começado a escrever o Harry Potter nestas mesas. À nossa volta sentam-se turistas, idosos abastados ou artistas locais, mas cujos rostos não me dizem nada. À noite, levam-nos até ao Piolho, tasca estudantina que acaba de celebrar os seus cem anos. Jantamos por ali, numa das tascas da Cordoaria. O último copo é tomado entre o "Era uma vez" e o mar de gente em que alegremente mergulhamos na rua Galerias de Paris madrugada fora.

Álbum de férias II - Algarve

Praia do Barril, 26.06.09. Uma das minhas praias preferidas, pela tranquilidade do mar. E por ser uma praia onde, após duzentos ou trezentos metros ficamos com o areal deserto só para nós. Chega-se lá num pequeno comboio, depois de passar uma ponte flutuante sobre a ria Formosa, a partir do aldeamento de Pedras d'el Rei, perto de Santa Luzia (Tavira).

Marina de Vilamoura, 28.06.09, 9h da manhã. Os turistas ainda não invadiram o local, o arzinho fresco que sopra do barlavento é agradável. Reservamos um barco.

Passeio pela costa algarvia, até Portimão. Desembarcamos para almoçar na praia do Ferragudo, 28.06.09

Farniente na praia do Garrão, 30.06.09, entre as Dunas Douradas, Ancão e Vale do Lobo. Almoço: Espetada de Camarão e Salada de Frango no Izzy's. Em vez de molhar os pés, aposto tudo no bronze. No acto, aprovieto para devorar as últimas páginas da "Ler" de Junho e enceto "A Lenda de Martim Regos", de Pedro Canais. Férias, afinal, é fazer aquilo que me apetecer!

Pôr-do-sol na Ilha de Faro, 01.07.09. O crepúsculo é lindo, visto daqui. Quase que se ouve o sol quando toca finalmente o oceano. A noite cai, as luzes dos barcos dos pescadores começam a piscar desde o alto mar, o farol da ilha vizinha bate o compasso ao embate das ondas, a Via Láctea espreguiça-se no comprimento de todo o arco celeste.
Jantar no bar O Forte, junto ao parque de campismo: tosta mista gigante de galinha com alho, a nossa preferida. Faríamos quilómetros para vir comer esta bomba de calorias. Felizmente, moramos aqui ao lado. Ou tragicamente... para mal dos nossos quilos extras.

III - Alentejo

Praça do Giraldo, Évora, 02.07.09, 12h10. Sol a pino, calor abrasador. Para desmoer damos uma volta à cidade, desde a Sé, passando pelo Templo de Diana, até à Universidade, onde nos levam até ao centro do Mundo.

IV- Costa Azul

São Pedro de Moel, 03.07.09. O lugar é majestoso, lindo. O mar aumenta tamanho ao país.


A Nazaré, vista desde O Sítio, 03.07.09. Vista de cortar a respiração. As pessoas lá em baixo com os seus fatos de banho e guarda-sóis coloridos parecem confettis.

Praia de Vieira de Leiria, ao crepúsculo, 03.07.09. No mesmo lugar em que os pescadores várias vezes ao dia desembarcaram a pesca da faina, as gaivotas vêm, quase antes da noitinha, em busca de uma derradeira sobremesa. A não ser que..."Gaivotas em terra,..."

terça-feira, 7 de julho de 2009

Michael Jackson Memorial

Teve hoje lugar no Staples Center, em Los Angeles, às 10h locais (19h no Luxemburgo), uma homenagem (memorial) a Michael Jackson, falecido a 25 de Junho.
Aproveito para publicar aqui o artigo que escrevi na edição de 1 de Julho do jornal CONTACTO.
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Morre o Rei, nasce o mito

Como não falar de Michael Jackson (MJ) nesta rubrica musical apenas alguns dias após a sua morte, quando a passagem desta super-estrela pela constelação da cultura pop no último meio-século tantos artistas influenciou, deixando uma marca indelével na história da música, só comparável a vultos como Elvis Presley e The Beatles.

Tentarei não repetir o que todas as emissões especiais e reportagens já disseram ou escreveram nos últimos dias, mas uma coisa é certa: quer se gostasse ou não da pessoa ou da sua música, MJ não deixava ninguém indiferente. Pela forma como cantava, dançava e vivia a sua vida. Deixo as polémicas que o rodearam de parte, desde a sua despigmentação às acusações de pedofilia, temas exaustivamente explorados pela imprensa sensacionalista, até porque havia dois MJ. A sua timidez, delicadeza e amabilidade na vida privada, o que testemunham todos os que o conheceram, davam lugar a um animal de palco indomável nos espectáculos, que eram puro «entretainement», mais do que simples concertos. Mais do que um artista, ele era um «showman». Influenciou nisso estrelas como Britney Spears, Rhianna, Puff Daddy ou Justin Timberlake, e dezenas de outros, não só na maneira como hoje compõem e cantam, mas sobretudo na forma como «habitam» o palco.

Dono de uma voz singular, era um exímio dançarino, coreógrafo , compositor, letrista, artista ímpar e completo, viajou por quase todos os géneros musicais (disco, pop, funk, soul, r&b, rock, dance, heavy-metal, new-jack), além de ser um homem de negócios, um benfeitor e um perfeccionista persistente em tudo o que fazia. Poucos artistas viram singles seguidos dos seus álbuns chegarem em catadupa aos tops, como aconteceu com «Thriller» (1982), «Bad» (1987), «Dangerous» (1991) e «HIStory» (1995), quatro dos seis álbuns que marcaram a sua carreira pós-«Jackson 5».

Se não inventou o «moonwalk», atribuído a Bill Bailey, que já o usava em 1955 (ou, segundo outros, aos «break-dancers» dos anos 80), popularizou-o mundialmente. O mesmo fez com a formação em pirâmide na dança, usada em «Thriller» e que posteriormente foi adoptada por muitos grupos. Estava sempre à tentar inovar e sobretudo ultrapassar-se. Muitos dos passos de dança que conhecia de estilos como o sapateado, o music-hall (venerava Fred Astaire!), o swing, a música negra, o break-dance, adaptou-os à pop. No clip «Black &White» (1991) dança ao estilo indiano de «bollywood» encandeando logo de seguida dança
s africanas e russas. Nesse mesmo clip é o primeiro artista a investir no «morphing», técnica de televisão que consiste em diluir um rosto noutro.

MJ gostava acima de tudo de ser o primeiro em tudo. É o primeiro músico negro a passar na MTV com o mega-sucesso «Billie Jean» (1982). Foi graças a MJ que os músicos afro-americanos começaram a merecer «airplay» na MTV. O mais curioso é que o próprio sucesso do canal de televisão musical, que anteriormente se fechava a artistas negros, s
e ficou a dever a «Thriller» (1984), expoente máximo da era dos telediscos que então começava. Quando o clip foi lançado, o público da MTV exigia que este fosse passado duas vezes por hora! O clip de «Thriller» tinha 14 minutos (a canção pouco mais de cinco minutos) e os contornos de um mini-filme de terror. Os seus produtores não acreditavam sequer que as televisões passassem o teledisco, considerado «gore». Tornar-se-á a sua canção mais emblemática e o álbum venderá cem milhões de cópias, record que o Guinness regista como nunca igualado por nenhum artista desde então. No total, MJ vendeu mais de 750 milhões de álbuns. Depois de morrer na quinta-feira, a corrida às lojas de discos recomeçou e os descarregamentos online também. O Guinness vai ter que rever as suas contas.

Em 1995, autoproclama-se «Rei da Pop». E se alguns denunciaram na altura a apropriação, uma década mais tarde já ninguém a contestava. Preparava um regresso q
ue lhe foi negado. Quem sabe o que tinha ainda para dar ao mundo da música.

MJ desaparece aos 50 anos, 45 dos quais dedicados à música. Pisou um palco pela primeira vez em 1963. Nos «Jackson 5» (1969-1984), ao lado dos irmãos, são a sua voz e presença que fazem a diferença. Em 1971, lança-se a solo, interpretando «covers» e canções dos Jacksons. Oito anos mais tarde lança o primeiro álbum com temas escritos e compostos por si próprio: «Off the Wall» marca a separação do estilo «Jackson 5». É a partir daí q
ue deixa de ser uma estrela para passar a brilhar num firmamento que poucos alcançaram. A lenda começava. Eu era fã!

Agradeço à Jessica Lobo ter-me cedido este espaço nesta ocasião especial.


José Luís Correia
publicado in Contacto (01.07.2009) na rubrica musical Expresso Musical de Jessica Lobo e no blogue do mesmo nome