sebenta de anotações esparsas, pensamentos ociosos, reflexões cadentes, poemas difusos, introspecções de uma filosofia mais ou menos opaca dos meus dias (ou + reminiscências melómanas, translúcidas, intra e extra-sensoriais, erógenas, esquizofrénicas ou obsessivas dos meus dias)
-
cahier de notes éparses, pensées oisives, réflexions filantes, poèmes diffus, introspections d'une philosophie plus ou moins opaque de mes journées (ou + de réminiscences mélomanes, translucides, intra-sensorielles et extra-sensorielles, érogènes, schizophrènes ou obsessionnelles de mes journées)

quinta-feira, 24 de agosto de 2006

livros lidos este Verão
- "La mémoire et le feu - Portugal: l'envers du décor de l'Euroland", Jorge Valadas. Ensaio político que se resume a apedrejar os recentes governos, da esquerda à direita, dos comunistas aos bloquistas. Ninguém escapa. Não ousa porém tocar na efígie do "el-comadante" Álvaro Cunhal. A leitura que faz da actual política e das politiquices portuguesas é, diga-se em abono da verdade, inteligente e certeira. Mas o discurso sobre a "utopia portuguesa", com que se seduz o leitor na introdução e na contracapa, e que eu debalde esperei, não acontece. Li gato por lebre.
- "Planisfério Pessoal", de Gonçalo Cadilhe. A volta ao Mundo por terra e por mar do antigo jornalista da Grande Reportagem, publicada no Expresso, entre Dezembro de 2002 e Julho de 2004.
- "O cartógrafo do Infante", de Frank G. Slaughter. Romance com um bom enredo e que prende o leitor desde as primeiras páginas e que aproveita os vazios da História para romancear alguns mitos dos Descobrimentos Portugueses. Aventura, sexo, amor, traição, histórias e História. Boy meets girl, boy gets in trouble, girl saves boy. Em paralelo, o cartógrafo veneziano André Bianco, com ligações à família dos Médicis, feito escravo por corsários árabes, navega enquanto tal até aos mares da China e Cipango (Japão), cem anos antes de qualquer europeu lá chegar (os primeiros, os portugueses, chegariam em 1540!), e entra depois ao serviço do Infante D. Henrique, ao mesmo tempo que se apaixona, numa enseada de Sagres, por Leonor Perestrelo, filha do futuro governador da Madeira. Toda e qualquer semelhança com Cristovão Colombo é, evidentemente, pura coincidência.
- "Minto até ao dizer que minto", de José Luis Peixoto. Episódio "blasé" sobre a passagem amorfa das deambulações vagas e desilusórias pós-adolescentes à vida adulta nesta primeira década do século.
- "Um homem sem pátria" de Kurt Vonnegut. O autor de origem alemã, naturalizado norte-americano, que se celebrizou com "Matadouro 5" (sobre o Holocausto), escreve aqui artigos corrosivos (já o foi mais!) e com bastante humor (já também foi melhor!). Entre memórias da sua infância (nos anos 30) e críticas à actual administração Bush, é o regresso de um autor que está a gastar os últimos cartuchos para mostrar que a sua verve ainda vive.
- "A Máquina do Arcanjo", Frederico Lourenço. É o último capítulo de um tríptico, mas pode ser lido separadamente. O amor e o sexo gays no Portugal dos anos 80. Pequenos toques de humor deliciosos.
- "Sete Noites" de Alina Reyes. Pequena história sem muito enredo, escrita noite após noite, na primeira pessoa, com sensualidade tântrica e erotismo feminino.
- "Em Paris" de Ramalho Ortigão. Relatos das impressões e dos encontros do dia-a-dia do literato português na capital francesa em 1868. As comparações do mundo parisiense com uma sociedade portuguesa burra, casmurra, analfabeta, analfabruta e empertigada são inevitáveis e de uma aflitiva actualidade.Ramalho, o irmão-gémeo de Eça.
- "Quatro Gigantes" de Ramalho Ortigão. Textos do autor sobre Camões, Garrett, Camilo Castelo Branco e Eça de Queiroz. O título, pobre de conteúdo, duvido que pertença ao autor e seja antes uma escolha publicitária e infeliz da editora. Isso nota-se aliás pelos textos escolhidos. Enquanto os ensaios sobre Camões e Camilo se revelam bastante interessantes e completos, nota-se que a parca página e meia sobre Garrett não passa de um texto recuperado de uma petição da altura para tresladar o corpo de Garrett para o Panteão Nacional; os textos sobre Eça fazem parte da correspondência privada do autor e que, não obstante o seu interesse inequívoco sobre a vida e obra de Eça, não são biográficos nem completos nem a tal pretendiam.
- "Profecias do Bandarra", de Gonçalo Anes Bandarra. As trovas do Sapateiro de Trancoso. Boa introdução que situa o autor no seu contexto social e histórico.
- "Future Perfect", Ed. Jim Heimann. Cartazes, desenhos, ilustrações de cores berrantes, artigos e capas de revista de ficção científica sobre o que os nossos contemporâneos dos anos 1940-1960 imaginaram sobre um futuro que nunca chegou a acontecer: comboios para a lua, túneis subterrâneos sob o Atlântico, aviões de passageiros de quatro andares, submarinos privados, etc.

BDs e novelas gráficas
- "Cité de Verre", com textos de Paul Auster, ilustrações de Paul Karasik e David Mazzucchelli. Excelente enredo e desenhos. Adinha-se a dificuldade que os desenhadores tiveram para imaginar as partes mais elípticas e opacas da história. Sairam-se com nota 10.
- "Catálogo de Sonhos", de José Carlos Fernandes (JCF)
- "O Depósito dos Refugos Postais", de JCF
- "Pessoas que usam bonés-com-hélice", de JCF
- "A última obra-prima de Aaron Slobodj", de JCF. Todas as histórias de JCF se desenrolam num mundo paralelo onde os habitantes até se parecem connosco mas o mundo evoluiu prolongando um não-sei-quê négligé e blasé dos anos 40 e 50, como se tivesse sido preservada a nossa ingenuidade pré-Segunda Guerra Mundial. De episódio para episódio, descobrimos uma nova personagem, uma nova cidade, um novo promenor, uma nova história. Histórias deliciosas, humanas, trágicas, delirantes, loucas, tresloucadas, mas tão verdadeiras...mesmo quando são (apenas?) pura ficção e poesia gráfica.

em leitura
- "Contos Satíricos", contos do Oeste de Mark Twain
- "Pobre e Mal Agradecido", ensaios políticos de Rui Tavares
- "Os Livros da Minha Vida", Henry Miller
- "Ninfomaníacas e Outras", Irwing Wallace
- "Os Cento e Vinte Dias de Sodoma", Marquês de Sade
- "Todos os Dias", Jorge Reis-Sá

leitura incidental

- "A noite abre os meus olhos", colectânea poética de José Tolentino Mendonça
- "O Teu Rosto", António Ramos Rosa (foto infra)
- "Mundos Paralelos", teses recentes da Física explicada em miúdos por Michio Kaku

quinta-feira, 20 de julho de 2006

Madredeus na Abadia de Neumünster: 20 anos a cantar a alma portuguesa

É a quarta vez que os Madredeus actuam no Luxemburgo Fotos: Guy Wolff
O grupo português com o maior reconhecimento internacional – os Madredeus – , passou pelo Grão-Ducado, no seu quarto concerto memorável neste país, desta feita no Grund, num lugar de encanto: o adro da Abadia de Neumünster.

Cantam Lisboa, a alma e a poesia portuguesa. Uma guitarra portuguesa alada (José Peixoto), uma viola clássica sublimada (Pedro Ayres Magalhães), um baixo providencial (Fernando Júdice) e teclas inspiradas (Carlos Maria Trindade) enquadram a composição para uma voz única e inconfundível, a de Teresa Salgueiro.

Um domingo ao entardecer, num cenário idílico. Os Madredeus são o grupo português mais internacional de sempre e a prová-lo, mais uma vez, foi o público – 1.200 pessoas das mais diferentes nacionalidades e origens – que assistiu no domingo ao concerto no adro da Abadia de Neumünster, no Grund, no âmbito do Festival OMNI 2006, promovido pelo Centro Cultural de Encontro (CCRN).

É a quarta vez que os Madredeus passam pelo país, do qual guardam a boa recordação do concerto em Wiltz, em 2000, e do primeiro, em 1992, "porque era uma das duas primeiras actuações que faziamos fora de Portugal", conta-nos Pedro Ayres Magalhães, mentor do grupo.

"Do palco, não fazemos distinções entre o público. É normal em Paris ou no Luxemburgo haver mais portugueses do que noutras cidades, mas os portugueses até costumam ser a minoria. A obra do grupo – temos cerca de 120 canções –, continua a ser pouco conhecida, mesmo se o nome é famoso!", lamenta Pedro Ayres, mentor e membro-fundador do grupo.

Lisboa e Teresa

Os Madredeus são uma fantasia musical erudita de raiz genuinamente portuguesa, segundo uma definição de Pedro Ayres. Move o grupo o culto da composição em português. A grande fonte de inspiração é Lisboa. Mas também a própria Teresa Salgueiro.

"Fazemos música para guitarra, para a voz da Teresa e para ser cantada em português", explica o guitarrista. Virtuoso, para quem o soube apreciar no domingo, e que continua a ser, 20 anos depois da criação do grupo, o principal letrista e compositor das canções.

Em 20 anos mudaram muito? "Não mudámos, evoluímos!", corrige. E acrescenta: "Cultivámos um estilo, apurámos, sofisticámos um tipo de encenação, a solenidade nos concertos, a importância da voz, da poesia e da guitarra clássica".


"Madredeus é uma orquestra de bolso", diz Pedro Ayres Magalhães
"Os Madredeus querem estimular o conhecimento da cultura portuguesa através de um reportório musical versátil, familiarizar os povos do mundo com a nossa língua e a nossa nação. Motiva-nos também criar uma expressão da diáspora portuguesa no Mundo. Já o conseguímos de certa maneira, mas devíamos continuar nesse sentido. Ainda não chegámos a essa fase, não sei se vamos conseguir fazê-lo... O que falta também à obra dos Madredeus é criar descendência, outros grupos com uma arte como a nossa. Mas não nos cumpre a nós fazer isso...", diz o líder do grupo, com saudades do futuro.

Esta "orquestra de bolso", como Pedro Ayres lhe costuma chamar, "já atingiu tudo ou quase tudo o que havia para atingir".

"Em termos de popularidade e de reconhecimento internacional conseguimos o que nenhum outro grupo português conseguiu. Fizemos música para cinema (n.d.R.: Wim Wenders e Maria de Medeiros, por exemplo), tocámos com orquestras, em catedrais, em salas das mais prestigiadas do mundo. Em Portugal, somos um dos grupos cujos concertos mais bilhetes vendem e mesmo a nível europeu, somos os únicos no nosso género a tocar em 36 países há 20 anos."

Actualmente, todos os elementos do grupo evoluem noutros projectos colectivos ou a solo. O único a dedicar-se totalmemte aos Madredeus é Pedro Ayres, que foi também quem teve a ideia de criar o grupo em 1986. E lembra a génese, para juntar ao mito do grupo: "Quando eu andava em concerto pelo país (n.d.R.: leia-se, no tempo dos Heróis do Mar), via os teatros fechados e fiquei com vontade de criar um grupo com guitarras acústicas que pudesse tocar nesses sitíos." O resto já faz parte da história oficial. Foi assim que nasceu a ideia. Vinte anos depois está mais do que nunca viva e recomenda-se.

Depois de mais de 120 cidades do mundo, foi a vez do Luxemburgo ficar a conhecer o concerto onde divulgam as músicas dos dois últimos álbuns: "Faluas do Tejo", de 2005 e "Um Amor Infinito", de 2004. Isto porque não há temas novos nem estão a preparar nenhum álbum para celebrar os 20 anos de carreira.

Num incontornável "bis" no final da noite, regressaram ao palco para oferecer ao público temas de álbuns anteriores como "No céu da Mouraria" e "Haja o que houver".

José Luís Correia,
in CONTACTO, 19/07/2006

quinta-feira, 6 de julho de 2006

tous les matins
Tous les matins, douce décevance, j'aspire aux confessions de ton âme, aux céléstes pourpris de ton coeur, mais tu n'a pas écris, mon bel enfant. N'importe, j'attendrais jusq'au petit matin tes lettres d'amour.
"We followed the snake, the endless snake, trough the desert of our commun faith. My pretty child, my lovely child, the blue bus is calling us, where is he taking us?..." (Jim Morrison, The Doors, "The End")

quarta-feira, 5 de julho de 2006

promesse du jour suivant
La promesse m'avait parue absurde, enfantine, obsolète, chimère d'un passé utopique effacé. Il y a des choses importantes que l'on oubli sans trop sans rendre compte, tant le quai de la gare nous semble froid et nous glace les muscles jusq'au os.La nuit paraissait infranchissable, mais j'ai suivi, comme les rois d'antan, les étoiles de l'enfant, mais sans trop y croire.Mais soudain, une pluie d'étoiles s'est deversée sur la voie lactée. La nuit devint pâle d'abord, translucide ensuite. J'ai cru y perdre mes sens. La rosée sucrée s'est posée sur mes lêvres et l'aube inattendue arriva enfin. La lumière finit par m'éclabousser et une merveilleuse et belle journée, comme un nouvel amour, s'est levée.
o interseccionismo segundo Orfeu, antes da chuva oblíqua
Os domingos s.o.s.

Os domingos à tarde,

que costumávamos passar a fazer amor
misturando os nossos corpos insuspeitos e cadentes
deitando a nossa alma insustentável
no cobertor infinito das nossas promessas à flor da pele
maltratando as horas ciumentas e vis
que nos fitavam de soslaio do canto escuro do quarto da mansarda
e nós alheios a esses mecanismos
que teimam em dividir o dia mesmo se ele sempre nasce inteiro,

são indolentes sem ti
são cascas de noz vazias
que estalam na cova da minha mão
e me devolvem o eco fragmentado
dos teus passos no soalho velho do meu passado.

A sós, entregue à turba cruel
das minhas vozes que se amotinam,
deixo-as morderem-me os dedos, roerem a mordaça,
comerem o pano, cravarem-me os dentes nas jugulares
e destilarem-me veneno nas artérias.

Num gesto violento
faço um garrote à minha alma
aperto-o bem
dedilho a veia sediciosa
espeto a seringa
como uma lança de guerra
e injecto afecto no objecto cardíaco.

Sei que para salvar-te basta abraçar-te.
Mas quem me resgata a mim?
A geografia explicada ao amor

Não descures o fogo, amor
que é a verdadeira razão do mundo
e o eixo incandescente desta esfera
e a dorsal atlântica dos meus paralelos.

É o fogo, amor
que atrai os dois pólos opostos
e os sustenta em frágil equilíbrio
e toda a terra em volta.

É o fogo, amor
que mantém este continente
e evita a deriva,
apesar dos tsunamis na minha boca
e dos sismos que me atravessam como cicatrizes.

Mas nem a insistência dos ventos
nem a memória das marés
nem o sopro das águas
hão-de extinguir as chamas
que lavram esta queimada
e preparam a terra prometida.
A floresta virgem foi lá atrás no meu passado.

É o fogo, amor
e precisa arder
como o sol teimoso
agrarrado a este braço de galáxia.

Sou fogo, amor
e preciso arder
e das tuas águas
que lavem as minhas feridas abertas
e dêem de beber ao meu chão em pousio.

E as águas hão-de ser sangue
e penetrar as camadas profundas do meu corpo
e os aluviões da minha alma.

E a alma é fogo, amor
que na rota das tuas mãos
na nebulosa da tua nuca
e na travessia do teu peito
sofre de combustão espontânea
deflagra e perpetua o ciclo.

1

ervas daninhas comendo o chao, derramando seiva na terra arida

2

dança da chuva, céu que não responde por despeito, nuvem arrogante que esqueceu a memória da água, gotas como gumes gelados que se suicidam sobre a minha pele, infiltram os meus poros

meu sangue transvasado, minhas células explodindo como supernovas no vazio sideral do meu corpo, universo do meu verso único em mim, árido e estéril como um deserto de sal, almejo

3

luzes mortas que me penetram, passageiros petrificados, soltos os capuzes e os lábios despertos, espero o vento morno na nuca, virás para alem do mar?, e eu reconhecerei o teu sorriso?, o ganges ainda corre?, e as nuvens atormentadas?

adornos incontornáveis a que tento escapar, tento fugir ao pântano que teima em me atrair, as sombras que me assombram, os teus dedos acalentam-me, cobres-me com o teu corpo, sossegas a minha intranquilidade, terias feito bem ao bernardo

sim, quero acreditar nos dados, no tapete verde, nos números, sai o 9, volto a jogar, o 1 gira até esbarrar contra a tabela, ganhei? tens a certeza? pensas que jogo todos os dias? apenas na tua roleta russa, meu amor!

Fórum "Luxemburgo, terra de acolhimento": Mais apoio aos alunos e um diálogo sistemático entre pais e professores


Marion Bur (La Voix du Luxembourg), Pierre Lorang (Luxemburger Wort), Luís Barreira (Rádio Latina) e José Luís Correia (CONTACTO) moderaram o debate Foto: Guy Jallay
Vários media do grupo saint-paul lançaram um fórum de discussão em torno do desafio escolar dos alunos portugueses no sistema de ensino luxemburguês.

Uma maior participação e incentivo dos pais na carreira escolar do aluno, professores mais sensibilizados para ajudar as crianças em dificuldade e um maior diálogo entre os corpos docentes e os encarregados de educação foram alguns dos principais pontos discutidos num debate livre e aberto promovido pelo CONTACTO, Rádio Latina, "Wort" e "Voix du Luxembourg", que decorreu no edifício-sede do grupo, em Gasperich, em 29 de Junho último.

Neste primeiro fórum "Luxemburgo, terra de acolhimento" sobre a temática dos alunos portugueses que frequentam o sistema de ensino luxemburguês, foram também vários os intervenientes a sublinhar a importância de adaptar melhor a escola luxemburguesa à chegada constante de alunos estrangeiros (e não apenas portugueses!), de forma a não os canalizar inevitavelmente para o insucesso escolar.

Para isso, o Luxemburgo deve definitivamente assumir-se como país de acolhimento, opinaram os participantes, e não apenas com uma terra de imigração e de passagem. Alertou-se ainda para que os pais tomem também consciência de que, ao emigrarem, se torna necessário acompanhar com maior atenção o percurso escolar dos seus filhos.

Para estes, a mudança é vivida, frequentemente, de forma perturbadora. Dependendo da idade, a maior ou menor dificuldade de adaptação ao novo país passa sobretudo pelo sucesso escolar, que continua a ser a melhor garantia de integração, de realização pessoal e de bases sólidas para o futuro.

A questão das línguas na escola luxemburguesa, as turmas de acolhimento, a escola de tronco comum, as aulas integradas de Português, as barreiras culturais e sócio-políticas, foram igualmente abordados. Um suplemento detalhado sobre este debate será publicado brevemente no CONTACTO.

Marcaram presença neste fórum mais de duas dezenas de convidados, entre representantes das autoridades portuguesas no Luxemburgo e do Ministério da Educação luxemburguês, Coordenação do Serviço de Ensino do Português, Centro de Psicologia e de Orientação Escolar (CPOS), associações de pais de alunos portugueses, associações federativas que trabalham com o movimento associativo português (CLAE, ASTI, CASA, APL, etc.), sindicatos, além de outras entidades e colectividades.

Os próximos fóruns "Luxemburgo, terra de acolhimento", previstos para Setembro e Novembro próximos, abordarão a integração sócio-política da comunidade portuguesa e a problemática do movimento associativo português.

in CONTACTO, 05/07/2006

quinta-feira, 29 de junho de 2006

Comentário: Troca de galhardetes

A bandeira é um sinal de pertença à uma nação? Com certeza. Mas há que não descontextualizar os fenómenos da actualidade que os caracterizam.

Só se vêem bandeiras suspensas nas janelas e varandas do Luxemburgo quando acontecem eventos futebolísticos de dimensão internacional: o Euro, há dois anos, ou agora, o Mundial. Porque o futebol é assim mesmo, mexe connosco, faz-nos vibrar, ou não fosse o desporto-rei por excelência. Isso é sinal de não-integração ou de segregacionismo para com o país em que vivo? O fenómeno existe apenas em torno do futebol, senhora!

Não vejo bandeiras nacionais a serem hasteadas noutras ocasiões! Nem durante os muito populares Jogos Olímpicos. E muito menos no dia nacional de uma qualquer comunidade radicada no Grão-Ducado. O que tenho visto muitas vezes é portugueses hasteando bandeiras luxemburguesas a 23 de Junho. Porque as pessoas gostam de estandartes.

Há depois que distinguir entre patriotismo (que se define como amor à pátria), nacionalismo (que é uma preferência, por vezes exclusiva, por tudo o que diz respeito à nação de que se faz parte) e... futebol! E isto, é apenas futebol, senhora!

Em Portugal, por esta altura, vêem-se bandeiras brasileiras, ucranianas, angolanas e francesas, sem que tal choque ninguém. Muito pelo contrário, isso só traz mais cor e alegria à festa do futebol que galvaniza os povos à escala mundial como nenhum outro evento. Em Colónia, Frankfurt, Gelsenkirchen e Nuremberga, onde a selecção portuguesa jogou, havia adeptos japoneses e alemães a envergarem a camisola das quinas sem pejo.

Porque isto é apenas futebol, senhora! O que se suspende nas janelas é paixão pelo futebol, não é chauvinismo recalcado nem gritos de Ipiranga. São bandeiras, senhora!

No fórum aberto pelo site Bomdia.lu em torno desta questão, um dos testemunhos põe o dedo na ferida: "Parece que as bandeiras, as buzinas dos automóveis e os gritos de vitória portugueses incomodam quem tão generosamente permitiu que as nossas mães fizessem limpeza e os nossos pais trabalhassem nas obras nos últimos 30 anos."

O Mundial e o fenómeno das bandeiras teve pelo menos esse mérito: dar visibilidade às comunidades que contribuem esforçadamente para a riqueza económica deste país. Mas assim que ousam mostrar a sua diferença, há quem se julgue no direito de proclamar que devem ser calados e ostracizados. Quem quer segregar quem, afinal, senhora?

José Luís Correia,
in CONTACTO, 28/06/2006

quinta-feira, 15 de junho de 2006

Portugueses têm os níveis de formação mais baixos do Luxemburgo - estudo

Cerca de 62% dos trabalhadores portugueses possuem apenas o ensino primário, vendo-se assim relegados para profissões onde são exigidas menos qualificações Foto: Anouk Antony
Um estudo do CEPS-Instead revela que o nível de formação dos trabalhadores difere segundo a sua nacionalidade. Os portugueses continuam a constituir a população activa com a formação mais baixa no Grão-Ducado.

A comunidade portuguesa representa mais de um terço (quase 40%) da população activa estrangeira residente no Grão-Ducado, mas a maioria dos trabalhadores portugueses continua a ter uma formação baixa. Em 2004, 62% tinham frequentado o ensino primário e apenas 3% eram detentores de um diploma pós-secundário.

Estes dados são avançados no estudo "Formação e nacionalidade no seio da população activa" que o Instead - Centro de Estudos de Populações, Pobreza e de Políticas Sócio-Económicas (CEPS), sediado em Differdange, publicou no seu site , na semana passada.

A análise pode ser considerada negra e nada animadora para a comunidade portuguesa mas, lendo o documento do CEPS, pode verificar-se que a situação melhorou desde 1989. Nesse ano, 89% dos portugueses residentes no país possuíam apenas o ensino primário; em 2004, esse número reduziu-se em 27% em relação há 15 anos. Há dois anos, existiam mais 10% de portugueses com o ensino secundário inferior do que em 1989. E eram mesmo mais 14% a sair do liceu com o ensino secundário superior do que 15 anos antes. Dos 0,1% detentores de um diploma do ensino superior em 1989 passou-se para 2,7% em 2004.

Apesar destes progressos, os trabalhadores portugueses residentes continuam a ter os níveis de formação mais baixos do país.

Formação difere segundo a nacionalidade 

O estudo demonstra que os níveis de formação da população activa no Luxemburgo diferem e muito segundo a nacionalidade e origem dos trabalhadores. Para o constatar, basta comparar os diferentes grupos populacionais.

Em 2004, os trabalhadores imigrantes representavam 44% da população activa. Os trabalhadores alemães, franceses e belgas residentes representavam no seu conjunto 30% da mão de obra residente estrangeira.

Cerca de 22% dos trabalhadores residentes tinham a escola primária, 11% os estudos secundários inferiores, 39% o nível secundário superior e 29% tinham alcançado o ensino superior. Os trabalhadores com melhores qualificações eram incontestavelmente os imigrantes oriundos da França, Bélgica e Alemanha, bem como os estrangeiros da União Europeia (UE), exceptuando italianos e portugueses.

Cerca de 60% dos imigrantes dos países vizinhos do Luxemburgo e da União Europeia (na sua maioria holandeses e britânicos) possuíam formação académica. Pelo contrário, apenas 27% dos trabalhadores luxemburgueses, 19% dos italianos e 21% dos estrangeiros extra-comunitários possuíam um diploma universitário.

A evolução desde 1989

Nos últimos 15 anos, os níveis globais de formação da população activa subiram, mas em proporções diferentes por nacionalidade. Entre 1989 e 2004, os trabalhadores apenas com o ensino primário baixaram de 36 para 22%; os que tinham frequentado o ensino secundário inferior aumentaram de 7 para 11%; os que tinham um nível secundário superior baixaram de 46 para 39%; e os activos com formação universitária passaram de 11 para 29%.

Os activos luxemburgueses seguiram a tendência global da população activa, aumentando em 15% o número dos que têm um diploma pós-secundário e baixando em 18% os que apenas têm o ensino primário. Desde 1989, alemães, belgas e franceses elevaram o seu nível de estudos, sobretudo no ensino superior (de 21 para 62%). Já eram os mais qualificados em 1989 e o fenómeno acentuou-se nos últimos 15 anos. Entende-se assim que continuem ainda hoje a ser a reserva privilegiada de mão de obra qualificada para o Luxemburgo, pode ler-se no estudo do CEPS. E nisto diferem, em substância, da imigração italiana e portuguesa, conclui ainda o estudo.

José Luís Correia 
in CONTACTO, 14/06/2006

sábado, 3 de junho de 2006

Juncker distinguido com Prémio Carlos Magno



Juncker dedicou o prémio ao povo luxemburguês Foto: Marc Wilwert
Credibilidade, competência, tenacidade, trabalho e esforço em prol da construção europeia são as qualidades reconhecidas a Juncker pelos responsáveis da atribuição do "Karlspreis".

O prestigiado Prémio Carlos Magno ("Karlspreis"), anualmente atribuído pela cidade de Aachen (Aix-la-Chapelle, em francês) a personalidades e instituições que se empenham na unificação da Europa, foi este ano atribuído ao primeiro-ministro luxemburguês, Jean-Claude Juncker, por este ser "um europeísta convicto e um motor da integração europeia", segundo disse Jürgen Linden, burgomestre daquela cidade alemã.

A cerimónia decorreu a 25 de Maio na Câmara Municipal de Aachen, na presença de 800 convidados, entre os quais os membros do Governo luxemburguês, o casal grão-ducal e muitos outros grandes vultos do mundo político europeu. Alguns desses são antigos laureados com o galardão, como o antigo chanceler alemão Helmut Kohl, o ex-presidente francês Valérie Giscard d'Estaing, a ex-presidente do Parlamento Europeu Simone Veil, e o político polaco Bronislaw Geremek.

 "Continuarei a lutar pela Constituição europeia" 

No seu discurso, Juncker dedicou o prémio à população do seu país e disse que os europeus devem estar orgulhosos do que realizaram em comum nos últimos 50 anos.

Apelando a uma solidariedade entre os povos e declarando-se contra uma União Europeia que fosse apenas uma "zona económica de livre câmbio", o chefe de governo luxemburguês disse ser necessário "envolver os trabalhadores na [construção europeia], dando-lhes direitos mínimos europeus. (...). Temos que aprender com os sucessos europeus do passado e não deixar este prédio desmoronar-se (...) Enquanto não houver uma declaração de óbito, continuarei a lutar prela Constituição Europeia", afirmou convicto. O Grão-Ducado é o recipiendário deste prémio pela terceira vez.

O primeiro galardoado com esta distinção foi o ministro dos Negócios Estrangeiros Joseph Bech, em 1966. Vinte anos depois, em 1986, foi o próprio povo luxemburguês a ser distinguido pelo seu empenho na causa europeia. O Prémio Carlos Magno foi criado em 1950 e é considerado uma das maiores distinções europeias. Em 2005 premiou o presidente da Itália, Carlo Azeglio Ciampi. O prémio já foi atribuído a personalidades como Jean Monnet (1953), Winston Churchill (1955), Robert Schumann (1958), Rei Carlos de Espanha (1982), Henry Kissinger (1987), François Mitterand (1988), Jacques Delors (1992), Tony Blair (1999) e Bill Clinton (2000).

José Luís Correia 
in CONTACTO, 31/05/2006

sexta-feira, 2 de junho de 2006

Raquel Barreira, definitivamente jazzy

Já cantou rock, depois fado. Hoje, a sua música não tem fronteiras nem complexos Foto: Francisco S.
Num registo de voz cada vez mais maduro, caloroso, definitivamente jazzy, Raquel Barreira assumiu uma postura descontraída na apresentação, em formato acústico, do seu último álbum "Notas Soltas". A cantora convidara ao Teatro de Esch/Alzette, em 21 de Maio, um vasto leque de talentosos músicos amigos.

Além de Georges Urwald (piano) e Al Lenners (percussão) – com quem compôs o álbum que mais se parece consigo –, faziam parte da lista de convidados especiais Marc Demuth (contrabaixo), Lisa Berg (violoncelo), Maurizio Spiridigliozzi (acordeão), Gast Gnad (trombone), Ernie Hammes (trompete), Nadine Kauffmann (saxofone), Vania Lecuit (violino) e Joachim Kruithof (alto).

A noite era de estreias e prometia. Raquel cantou pela primeira vez em francês, "Mémoires", um original escrito por si, à semelhança de quase todos os temas dos seus álbuns. Este aguarda ser incluído no próximo álbum. Como aliás outros novos temas já compostos por si, Urwald e Lenners, mas que o trio ainda não está a apresentar ao vivo, confiou a cantora ao nosso jornal.

Outra novidade: Raquel fez-se acompanhar na lindíssima canção "À luz do dia" por um grupo coral adolescente. Um excelente proposta que, infelizmente nesse dia, não surtiu o efeito desejado. Mas uma ideia, quiçá a reservar para um próximo trabalho.

Do italiano ao inglês, do swing ao fado, passando pelo tango e a valsa, Raquel provou ser uma artista multifacetada que já viajou muito pela música, conseguindo seduzir públicos muito diferentes.

Os espectadores não-portugueses eram aliás numerosos, como sempre nos seus concertos, e foram, mais uma vez, contagiados pelo entusiasmo da cantora que já os conquistou. A prová-lo, consulte-se no site www.raquelbarreira.net a sua agenda de concertos previstos até ao Verão. A próxima actuação é já na sexta-feira, 2 de Junho, às 17h, na Abadia de Neumünster, no Grund.

 No concerto em Esch, Raquel mostrou ainda que não é o xaile que faz a fadista. É a voz. Com a sua, sentida e depurada, e o piano sensível de Urwald, o fado "Ó gente da minha terra" (um dos mais famosos fados cantados por Amália) adquiriu um encanto dramático muito belo, personalizando naquele instante a saudade, mesmo para quem não falava a língua de Camões. Porque há coisas que não se explicam.

José Luís Correia 
in CONTACTO, 31/05/2006

quinta-feira, 1 de junho de 2006

Cow Parade Lisboa 2006: As vacas saíram à rua num dia assim

Fotos: José Luís Correia
Uma estranha transumância, invasão de bovinos mutantes ou uma vacada que escapou do novo Campo Pequeno?

Os lisboetas interrogam-se sobre as vacas bizarras à solta, desde 13 de Maio, pelas ruas, avenidas, praças e pracetas da capital portuguesa. Mas estas não mugem, nem tugem. Nem incomodam ninguém. Muito pelo contrário, divertem os passantes, atraem as crianças e interpelam até o turista menos incauto. Impassíveis e serenas, apesar das suas vestimentas e aparatos coloridos e excêntricos, pastam nas pedras da calçada das sete colinas como se de uma deliciosa e verdejante pradaria se tratasse, alheias aos olhares curiosos, ao vai-vém dos transeuntes e até ao chinfrim poluente dos automóveis.

Sob a denominação de "Cow Parade - Lisboa 2006", a manada insólita coloca Portugal no mapa das já célebres manifestações de arte pública com vacas que estiveram patentes em cidades como Chicago, Nova Iorque (EUA), Praga (República Checa), Barcelona (Espanha), Bruxelas (Bélgica), Estocolmo (Suécia), Tóquio (Japão) e São Paulo (Brasil), entre muitas outras.

A ideia nasceu em Zurique em 1998 e estendeu-se praticamente às cidades dos quatro cantos do planeta. Aqui no Luxemburgo,m recorde-se, adoptou o nome de "Art on Cows" (Arte nas Vacas) e coloriu a capital luxemburguesa no Verão de 2000.

A par de Lisboa, onde o evento decorre até Setembro, este ano a exposição acontece igualmente nas cidades europeias de Paris (França) e Edimburgo (Escócia). Do outro lado do Atlântico, em Boston, Denver (EUA) e Belo Horizonte (Brasil). Tendo passado por mais de 25 cidades em todo o mundo, a “Cow Parade” pintou já mais de quatro mil vacas.

Quem pintou a manta às vacas? 



As 101 esculturas bovinas em fibra de vidro e tamanho real foram decoradas e pintadas por artistas locais. Quase sempre com cores berrantes ou psicadélicas, às florzinhas, às listas, às riscas, às pintas, malhadas (tresmalhadas?), aos quadradinhos... de chocolate, com chapéus, luvas de boxe e até camisa com mangas-balão. O bovino que arbora esta renascentista vestimenta responde pelo nome de “Vacamões” e protege com “mão de vaca” o épico poema, pomposamente semi-deitado à entrada da rua do Carmo.

Não confundir com a “Cow-mões”, que conversa, em amena cavaqueira mas surda aos humanos ouvidos, com o seu colega Chiado, no largo do mesmo nome, lugar de artistas, escritores e poetas. Os outros utentes da via pública, engraxadores e cauteleiros que tais, que se acautelem eles também, pois as vacas apoderaram-se igualmente das esplanadas e parques da "cidade branca".

Mesmo os taxistas lisboetas acusam a concorrência nas bandeiradas da “Vaca Táxi”, colocada junto à Praça do Saldanha. Passeando por Lisboa, podem descobrir-se outras vacas fabulosas.

Há as tipicamente portugueses, como a “Vacabarcelos” (Amoreiras), a “Vaca Calçada Portuguesa” (Praça do Município) ou a “Portucow” (Rossio), que veste o lombo com as quinas. As “tecnológicas”, como a “Cowpyright” (Campo Pequeno) e a “CowPuter” (Gare do Oriente). E as francamente extravagantes, como a “Vaca Ilha da Madeira” (Centro Comercial do Colombo), a “Blue Cow” (Estação de Entrecampos), a “Vaca Alada” (Parque das Nações) ou a “Cândida Charneca”, junto ao Marquês de Pombal, que se improvisa do alto palanque em pastor providencial de gado grosso.

Após a exposição, em Setembro, as vacas serão vendidas em leilão público a 30 desse mês, revertendo o valor, distribuído através do Mecenato.net, para a Associação de Cegos e Amblíopes de Portugal (ACAPO), a Assistência Médica Internacional (AMI), a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), o "Chapitô", Cruz Vermelha Portuguesa, Espaço T, Escuteiros de Portugal, Liga dos Bombeiros Portugueses e projectos da SIC Esperança.

José Luís Correia, em Lisboa 
in CONTACTO, 31/05/2006

sábado, 22 de abril de 2006

Job coaching: Arranja-me um emprego!

Cerca de 50 funcionários do sindicato vão passar a ajudar membros e não-membros no desemprego a encontrar um posto de trabalho Foto: Guy Jallay
O LCGB lança o "job coaching", iniciativa que tem como objectivo ajudar membros e não-membros desempregados a reintegrarem o mercado do trabalho.

O sindicato luxemburguês LCGB sempre ajudou pontualmente membros e não membros a encontrarem um emprego, explicou ao CONTACTO Joé Spier, porta-voz da central sindical.

"Foi o que aconteceu o ano passado com 331 pessoas que por intermédio do LCGB encontraram um posto de trabalho no sector privado", recorda o mesmo responsável. "Preocupados com a grave situação do desemprego no Luxemburgo e dado o sucesso dessas acções esporádicas, resolvemos sistematizar o serviço", explica.

 Este serviço, que o LCGB resolveu denominar de "job coaching", lançado oficialmente a 12 de Abril, visa estruturar melhor esse apoio. "Foram nomeados cerca de 50 funcionários do nosso sindicato, que conhecem bem pessoas de contacto nas empresas e têm relações no mundo do trabalho, para ajudarem as pessoas desempregadas, o que facilitará a sua missão", diz Spier. Cada um desses funcionários deverá trabalhar no máximo com três desempregados, de modo a conseguir levar a bem a sua tarefa.

Para o presidente do sindicato, Robert Weber, "não vale a pena criticar a Administração do Emprego (ADEM) e o Ministério do Trabalho. É preciso agir. Os últimos tempos mostraram-nos como é difícil negociar um plano social e como é fácil despedir gente". Weber faz notar que 62,3% das pessoas inscritas na ADEM já perderam o emprego pelo menos três vezes.

O Grão-Ducado conta actualmente cerca de 300 mil assalariados, dos quais 123 mil atravessam diariamente uma das três fronteiras, lembrou. Weber recordou que existem pouco mais de 24 mil empresas no país, das quais 2.500 empregam mais de uma centena de trabalhadores. Ainda segundo Weber, em 2001, 582 dessas empresas contactaram a ADEM à procura de trabalhadores para contratar. No ano passado, o número subiu para 667.

José Luís Correia 
in CONTACTO, 19/04/2006

quarta-feira, 12 de abril de 2006

Estudantes portugueses usam mais a internet que os do Luxemburgo - Eurostat

Portugal está acima da média da UE e ultrapassa mesmo o Luxemburgo na percentagem de estudantes que utilizam a Internet pelo menos uma vez por semana. Mas apenas os estudantes salvam a "honra do convento"...

Cerca de 63% dos portugueses entre os 16 e os 74 anos nunca acedeu à internet, revelam dados divulgados dia 6 de Abril pelo Departamento de Estatísticas das Comunidades Europeias, o Eurostat, sediado no Kirchberg.

No lado oposto da tabela está o Luxemburgo, onde 63% dos inquiridos se conectam à rede, pelo menos, uma vez por semana. São assim quase dois terços os portugueses que nunca utilizaram a internet em casa, no emprego ou noutro local. No Luxemburgo, a percentagem de inquiridos que disse nunca ter usado a internet é de apenas 29%. Um número muito abaixo da média dos 22 países da União Europeia (UE) considerados nos dados do Eurostat, já que são 43% em média que nunca navegaram na rede mundial.

Acedem à Internet pelo menos uma vez por semana 28% dos portugueses entre os 16 e os 74 anos (31% dos homens e 25% das mulheres), o que comparado com o Luxemburgo, onde a percentagem é de 63% (76% dos homens e 51% das mulheres), posiciona os dois países nesta matéria em lados opostos da tabela. A média comunitária que usa com frequência semanal a net é de 43% (49% dos homens e 38% das mulheres).

O Luxemburgo é no entanto comparável a Portugal no que diz respeito ao uso da internet pelos estudantes. Em ambos os países, apenas 4% dos estudantes com mais de 16 anos nunca navegaram na internet (7% de média na UE). Portugal consegue apenas estar acima da média da UE (79-81%) e ultrapassa mesmo o Luxemburgo (87%) na percentagem de estudantes maiores de 16 anos que utilizam a internet pelo menos uma vez por semana (88%).

Os assalariados são os que mais usam a internet no Luxemburgo, depois dos estudantes: 73% acedem à rede global uma vez por semana, havendo, no entanto, 20% que confiam nunca tê-la usado. Em Portugal, o número de assalariados a ligar-se à net é de apenas 34%, e os que nunca usaram a ferramenta cibernáutica atingem mesmo os 68%.

Quanto aos trabalhadores independentes, são 66% no Grão-Ducado a usar a internet pelo menos uma vez por semana, enquanto em Portugal esse número é de apenas 23%. Também os desempregados portugueses são mais numerosos – 70% – a nunca terem utilizado a rede das redes (48% na UE), quando no Luxemburgo a percentagem também é elevada, mas se fica pelos 45%.

A percentagem de mulheres portugueses que nunca usaram a internet atinge os 66% e baixa para 59% entre os homens. No Luxemburgo, apenas 17% dos homens nunca usaram a "grande teia global" e 40% das mulheres. Aliás, em todos os países considerados nestas estatísticas, a percentagem de homens que todas as semanas acedem à internet é maior do que a das mulheres (excepto na Finlândia e Hungria, onde se igualam), e é também maior a percentagem de mulheres que nunca navegou na internet.

José Luís Correia 
in CONTACTO,  12/04/2006

quarta-feira, 29 de março de 2006

Prevenção contra a Sida: "É difícil sensibilizar os portugueses"

 Robert Hemmer, médico e presidente do Comité de Vigilância da Sida e chefe do Departamento de Doenças Infecto-Contagiosas do Centro Hospitalar do Luxemburgo Foto: Marc Wilwert
Dos 63 novos casos de sida registados no ano passado, cerca de dezena e meia são portugueses. A comunidade lusa é aliás uma das "populações-alvo" do Plano de Luta Contra a Sida.

O Dr. Robert Hemmer, presidente do Comité de Vigilância da Sida e chefe do Departamento de Doenças Infecto-Contagiosas do Centro Hospitalar do Luxemburgo, vem mais uma vez confirmar que é difícil sensibilizar a comunidade portuguesa para o problema da sida, numa altura em que o flagelo volta a bater recordes de novos infectados no Grão-Ducado (ver artigo principal). Hemmer lamenta que a gravidade do problema "não esteja a ser entendida pela comunidade portuguesa", considerando-a uma das "populações-alvo" do Plano Nacional de Luta contra a Sida.

Sobre o que o plano prevê exactamente no que diz respeito à comunidade portuguesa, Hemmer explica que os pormenores só serão conhecidos depois do projecto aprovado pelo Conselho de Governo, adiantando, ainda assim que, "como é difícil sensibilizar os portugueses, queremos actuar no terreno onde a comunidade estiver, seja em manifestações culturais ou noutros locais". Insistindo na ideia de não estigmatizar a comunidade portuguesa, o médico revela-nos com alguma relutância que o número de portugueses infectados foi de cerca de 15 em 2005, acrescentando logo em seguida que "existe mais ou menos o mesmo número de luxemburgueses infectados". Instado a pronunciar-se sobre a ideia generalizada na comunidade portuguesa de que a maioria dos novos infectados portugueses são recém-chegados de Portugal, Hemmer desmente categoricamente, explicando que nos casos que foram detectados pelo seu serviço "eram tanto portugueses de cá como recém-chegados ao Grão-Ducado".

Uma das mensagens que Hemmer insiste em fazer passar é que a sida diz respeito a pessoas de todas as idades, sexo e origens, ninguém estando ao abrigo da doença se mantiver atitudes de risco com os seus parceiros sexuais ou na partilha de seringas contaminadas. E volta a recomendar o uso do preservativo como forma mais eficaz de protecção durante as relações sexuais (ocasionais ou frequentes) em que não se conhece o parceiro sexual.

José Luís Correia 
in CONTACTO, 29/03/2006

quinta-feira, 23 de março de 2006

Debate "cidadania vs nacionalidade" Ser cidadão de razão ou coração?



Para o filósoofo Hubert Hausemer, ser cidadão significa votar de forma interessada Foto: Tessy Hansen
Cidania e nacionalidade são uma e a mesma coisa? Os dois conceitos comportam em si os mesmos direitos e deveres?

É em torno destas questões que a associação de cidadania "La vie nouvelle", que se define como "pluralista, laica e independente" (composta por 17 membros de sete nacionalidades diferentes), lança o debate em antecipação da lei da dupla-nacionalidade que deverá ser votada ainda este ano na Câmara dos Deputados. Em cena estão personagens-tipo que vão deixando pistas de reflexão no ar sobre a temática.

"A nacionalidade é uma questão de coração e o coração não se pode dividir em dois", diz a personagem que interpreta uma portuguesa. A personagem francesa reivindica querer votar no Luxemburgo e em França.

O luxemburguês-tipo (típico) responde-lhe que se assim tivesse sido permitido durante o referendo sobre a Constituição Europeia o voto dela teria sido expresso com um "sim" no Luxemburgo e um "não" em França.

"O que é, no mínimo, um caso de esquizofrenia", denuncia. O público ri e a mensagem passa. Os resultados de um questionário a 120 visitantes do Festival das Migrações mostra que 47% dos inquiridos considera que para se ser cidadão basta residir há um certo tempo no Grão-Ducado. Mas são 15% a opinar que para se ser cidadão é preciso ter a nacionalidade.

A diferença entre as duas opiniões é grande e revela que cada um de nós tem uma noção diferente dos dois conceitos. Para alguns ser cidadão é aceder a direitos e deveres cívicos mas não aos que possuem os nacionais. Por exemplo, segundo a actual legislação em vigor no Luxemburgo, o cidadão residente não-luxemburguês tem direito de voto nas eleições municipais depois de cinco anos a residir no país, mas não pode votar nas legislativas. É uma questão de vontade política.

Para o filósofo Hubert Hausemer o problema põe-se exactamente nesses termos: pode considerar-se nacionalidade e cidadania conceitos iguais ou diferentes, dependendo do ponto de vista que se quer tomar. Pode-se, por exemplo, ter nacionalidade portuguesa, mas ser cidadão do Luxemburgo, como aliás, já acontece. Mas para Hausemer a cidadania não é apenas um direito de voto, mas uma "democracia participativa", ou seja, "o mais importante é participar de maneira interessada" e tomar "decisões responsáveis".

Do público, o sindicalista Eduardo Dias intervem para se exprimir pela dupla-nacionalidade e contra o direito de voto duplo. Dias considera necessário provar ligações concretas com o país de adopção para se aceder à nacionalidade, argumentando que esta deveria ser um direito para os filhos de estrangeiros que nasceram em solo luxemburguês quando atingem a sua maioridade.

José Luís Correia e Liliana Miranda 
in CONTACTO, 22/03/2006

quarta-feira, 22 de março de 2006

Ministra da Educação reafirma: "É importante conhecer as quatro línguas escolares"


A ministra da Educação admite que a escola luxemburguesa é muito selectiva e quer mudar o estado das coisas Foto: Guy Jallay
A reforma há muito esperada e mesmo reclamada no Ensino vai mesmo acontecer? Pelo menos é o que parece, a avaliar pelas novidades que a ministra da Educação quer introduzir. Dividir o sistema de ensino luxemburguês em ciclos, introduzir um bac (exame de fim de estudos francês) internacional nas escolas públicas, avançar com um novo sistema de avaliação dos alunos e de auto-avaliação das escolas e nomear directores para os estabelecimentos de ensino primário foram as novidades apresentadas este domingo pela ministra da Educação, Mady Delvaux-Stehres, no debate sobre o plurilinguismo proposto pelo Comité de Ligação e Acção de Estrangeiros (CLAE) no Festival das Migrações.

As exigências línguísticas da escola luxemburguesa fazem com que esta seja "efectivamente muito selectiva", admitiu a ministra. "O sistema de avaliação tem que ser mudado," considerou. Delvaux-Stehres adiantou que pensa introduzir brevemente um novo sistema de avaliação dividido em três partes: escrita, oral e compreensão. A ministra pretende também que o Ensino Precoce deixe de ter apenas função de "infantário" e passe a incluir uma componente mais estimulante para as crianças, como, por exemplo, um "despertar para as línguas".

Segundo a titular da pasta da Educação, "o mais importante é os alunos conhecerem as quatro línguas escolares do país: alemão, francês, inglês e luxemburguês. Já o grau de conhecimento de cada língua pode variar consoante a orientação profissional que o aluno pretender seguir". A ministra relembrou que os alunos luxemburgueses também enfrentam dificuldades com o francês. A introdução de ciclos no ensino levaria à seguinte divisão no sistema escolar: Pré-Escolar, um ciclo; Primária, três ciclos de dois anos cada; Secundário, dois ciclos ("7éme"/"8éme" e "9éme"/"10éme").

A ministra diz que desta forma se pode avaliar o aluno por ciclos e não por ano lectivo, podendo cada criança completar o ciclo de acordo com o seu ritmo. Segundo a responsável pela pasta da Educação, estes esforços de mudança visam combater "o drama dos alunos que saem sem formação profissional e sem diploma da escola".

AS PROPOSTAS DO CLAE 

Para o presidente do CLAE, o catalão Antoni Monserrat, apesar de 39,4% do tempo escolar ser dedicado ao estudo das línguas no Primário e 34,4% no Secundário – média muito superior à europeia –, milhares de alunos continuam a matricular-se em escolas belgas e francesas por o seu nível de alemão não corresponder às exigências da escola luxemburguesa, caso decidam seguir determinadas áreas do ensino clássico. Exemplo: as enfermeiras.

Depois de formadas, são cerca de mil a regressarem anualmente ao Luxemburgo, encontrando aqui emprego apesar de não falarem luxemburguês nem alemão. Maria-Luisa Caldognetto, da Comissão Escolar do CLAE, lembrou à ministra e ao público as propostas daquele Comité para o Ensino: é preciso deixar de falar em trilinguismo e preferir o termo pluringuismo, considerando as línguas da imigração uma mais-valia para o país e não um problema; a escola deve ser acessível a todos; aprendizagem da língua materna no Secundário; escolarização precoce e pré-escolar em luxemburguês; reformar os métodos de alfabetização em alemão, adaptando-os a todos, ou alfabetização em luxemburguês; estabelecer níveis de conhecimento; e formação de professores adaptada a estes objectivos, entre outros.

Para que todos os alunos sejam tratados de forma igual no ensino luxemburguês, Monserrat lembrou ainda que o CLAE reivindica uma "via escolar única" e não duas vias, como existem actualmente (clássico e técnico).

José Luís Correia e Liliana Miranda 
in CONTACTO, 22/03/2006

quarta-feira, 15 de março de 2006

No Palácio Grão-Ducal

A entrega do cheque fez-se na presença de colaboradores da obra e de representantes da Fundação Foto: Corte Grã-Ducal
Com as vendas do seu livro "A Família Grã-Ducal" Manuel Dias entrega cheque para ajudar pessoas necessitadas O fotógrafo e correspondente do CONTACTO, Manuel Dias, autor da obra "A Família Grã-Ducal" (editada em português, francês e alemão), entregou um cheque de 5.800 euros, benefício das vendas do livro, à "Fondation du Grand-Duc Henri et de la Grande-Duchesse Maria Teresa".

Por ocasião de uma recepção que se realizou recentemente no palácio grão-ducal, Jean-Jacques Kasel, marechal da Corte e presidente da Fundação, Paul Meyers, vice-presidente, e Aline Schleder-Leuck, membro do conselho de administração, agradeceram em nome da fundação ao fotógrafo português. Os lucros das vendas deste livro editado em 2004 e que vendeu já mais de milhar e meio de exemplares, revertem a favor desta fundação, cujo objectivo é ajudar as pessoas mais necessitadas da nossa sociedade.

"A Família Grã-ducal" reúne cerca de 400 retratos da autoria do emigrante minhoto, encomendados e aprovados pelo Grão-Duque Henri e a Grã-Duquesa Maria Teresa, que revelam aspectos inéditos da intimidade da família real. Colaboraram ainda nesta obra José Luís Correia (aka Alexandre Weytjens, para a tradução), Robert Theisen (redacção), Lucien Hilger (organização) e Manuel Schortgen (edição).

in CONTACTO
15/03/2006

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2006

Directiva Bolkestein "moderada" aprovada em primeira leitura

O texto inicial da directiva "Bolkestein" era acusado de favorecer o "dumping" social dos trabalhadores comunitários Caricatura: Olivier Jaminon
UE/ Supressão do príncípio do "país de origem" na liberalização dos serviços

Uma versão mitigada da polémica directiva sobre a liberalização dos serviços foi aprovada em primeira leitura pelo Parlamento Europeu, apesar da manifestação que levou 35 mil pessoas a Estraburgo, na semana passada. Um acordo entre as principais famílias políticas permitiu que uma maioria de deputados europeus aprovasse a 16 de Fevereiro, em Estrasburgo, um projecto de compromisso da controversa directiva "Bolkestein", que visa a liberalização dos serviços na União Europeia (UE).

 Depois de duas horas de discussões e mais de 400 emendas terem sido votadas, foi aprovada, em primeira leitura, uma versão moderada da directiva "Bolkestein" (elaborada pelo antigo comissário europeu do Mercado Interno, o holandês Frits Bolkestein), por 394 votos a favor, 215 contra e 33 abstenções.

Os eurodeputados decidiram suprimir o princípio do "país de origem", que fora o ponto mais contestado da proposta. Segundo aquele princípio, um fornecedor de serviços estaria sujeito à lei do país de que é oriundo, e não à do país onde vai exercer uma "missão temporária". Recorrendo ao famoso exemplo do "canalizador polaco" – que ilustrou os receios, em vários países, da possibilidade de uma invasão de mão-de-obra barata –, este poderá trabalhar em França com o seu equipamento, mas deve respeitar o direito francês e a protecção do ambiente.

ABERTURA AO MERCADO DE SERVIÇOS 

A nova proposta de directiva mantém a obrigação dos Estados-membros assegurarem o livre acesso no seu território aos fornecedores estrangeiros, nomeadamente através da supressão de barreiras consideradas actualmente discriminatórias e desproporcionadas.

Os Estados-membros não podem obrigar o prestatário de serviços estrangeiro a abrir uma filial no país onde prestará os serviços, impôr que este esteja inscrito num registo profissional nesse país nem impedi-lo de utilizar equipamentos do seu país de origem. Os governos nacionais vão poder continuar a restringir o acesso por razões de ordem, segurança e saúde pública e de protecção ambiental.

Os Estados-membros deverão fazer aplicar o direito do trabalho e as convenções colectivas em vigor para evitar o dumping social. Uma harmonização ao nível europeu dessas regulamentações está prevista cinco anos após a directiva entrar em vigor.

SERVIÇOS PÚBLICOS EXCLUÍDOS 

Ficaram excluídos do campo de acção da nova directiva muitos dos serviços inicialmente previstos, nomeadamente os serviços públicos não-comerciais, como a educação ou os transportes, mas também o sector audiovisual, a saúde, os jogos, o notariado, as agências de trabalho temporário e o sector social. José Manuel Durão Barroso já anunciou que a Comissão Europeia vai rever e corrigir a proposta inicial o mais depressa possível com base no texto agora adoptado pelos eurodeputados. O projecto será depois examinado pelo Conselho e regressará ao Parlamento Europeu no Outono, para uma segunda leitura. A liberalização dos serviços é considerada uma peça fundamental na criação do "mercado interno", que prevê o fim de todas as barreiras à circulação de pessoas, serviços, capitais e mercadorias entre os 25 estados-membros.

José Luís Correia 
in CONTACTO, 22/02/2006

terça-feira, 20 de dezembro de 2005

V Congresso da CCPL dominado pelo debate em torno da participação política e cívica

Participaram cerca de 80 pessoas neste Congresso, entre representantes do movimento associativo e convidados Foto: M. Dias 

Nada mais, nada menos que nove mulheres, das quais metade são jovens com menos de 25 anos, fazem parte dos 30 membros eleitos para o Conselho da Confederação da Comunidade Portuguesa no Luxemburgo (CCPL), num facto inédito na história deste organismo.

Esta votação foi a grande novidade que marcou o V Congresso da CCPL, que decorreu, no passado domingo, dia 15 de Dezembro, em Strassen.

Para José António Coimbra de Matos, Presidente cessante da CCPL, "este congresso e consequente votação foi um dos poucos actos cívicos e verdadeiramente democráticos que ainda se vêm no mundo associativo no Luxemburgo".

Outra das suspresas deveu-se aos resultados das eleições mostrarem que o candidato mais votado não foi o Presidente cessante, como se poderia prever, mas Maria Joaquina Carvalho, membro da Associação de Pais de Schifflange, bastante activa da CCPL, nomeadamente no Grupo de Ensino.

Para quem "agoirava" o Congresso da dissolução e a falta de interesse de muitos representantes do mundo associativo por este organismo, os resultados vieram provar que as mulheres e a nova geração, em particular, estão apostados em dar continuação a este projecto.

Participaram neste Congresso cerca de 80 pessoas. Além das Autoridades Portuguesas no Luxemburgo, faziam parte dos convidados, Marcel Sauber, Presidente do Conselho de Estado, Christiane Martin, Comissária para os Estrangeiros, Carlos Correia, Chefe de Gabinete do Secretário de Estado das Comunidades (em representação de José Cesário), os deputados portugueses Carlos Gonçalves (PSD) e Carlos Luís (PS), os Burgomestres de Strassen e da Cidade do Luxemburgo, Gaby Leytem e Paul Helminger respectivamente, os Deputados luxemburgueses Claude Wiseler (CSV) e Xavier Bettel (DP), bem como 46 representantes (inscritos) do Movimento Associativo, entre outros.

Na sua intervenção, Helminger defendeu que a CCPL deve continuar a ser o interlocutor privilegiado da Comunidade Portuguesa, não só a nível nacional mas comunal, porque é importante que esta fale a "uma só voz".

O Burgomestre da capital lamentou ainda que muitos não-luxemburgueses não se inscrevam nas listas eleitorais e que, sem isso, nunca conseguirão sensibilizar os partidos luxemburgueses. "Ou então estão tão satisfeitos do país onde vivem que nos deixam decidir tudo sozinhos?", gracejou.

Também o Cônsul-Geral disse considerar que a "Comunidade Portuguesa deve tornar-se parte inteira e integrante da sociedade luxemburguesa, participando não só na vida económica, mas também social e política do país".

O Presidente do Comité de Ligação e de Acção dos Estrangeiros (CLAE), Diogo Quintela, considerou este Congresso o começo de uma "redinamização de um organismo que o CLAE considera muito importante".

Este responsável evocou ainda a possibilidade das duas associações colaborarem juntas, em 2003, numa campanha de sensibilização para a inscrição nas listas eleitorais, já que "é impensável que 30% da população do Luxemburgo continue a ser excluída das decisões do Governo".

Para o Presidente cessante da CCPL, a integração "é o nosso principal objectivo". Na sua alocução, Coimbra de Matos revindicou que o Estado português assuma as suas responsabilidades em relação ao Movimento Associativo e à Juventude, defendeu a inscrição automática nas listas eleitorais e a dupla-nacionalidade.

"Recusamos o paternalismo do Estado Português e os favores do Estado luxemburguês. Queremos apenas aquilo a que temos direito enquanto cidadãos europeus", frisou. Mas, a par da questão da participação política, foram discutidas e abordadas outras de não menos importância, como: o papel das Associações de Pais de Alunos Portugueses, nomeadamente em relação às Associações de Pais luxemburguesas; o Ensino do Português no Luxemburgo; o Sistema Educativo do Grão-Ducado, questão onde Coimbra de Matos insistiu em frisar que considera "inaceitável que a Escola continue a ser um local de segregação e de exclusão!"; bem como a participação das mulheres e jovens na vida associativa, social e política.

Todos os temas discutidos fazem parte de um vasto Projecto de Programa de Acção, aprovado por maioria, neste Congresso e que abrange ainda questões como as estruturas da Comunidade Portuguesa, a representação da Comunidade em Órgãos Consultivos, as relações com as Autoridades Portuguesas, a Formação e questões sociais que preocupam a Comunidade no Grão-Ducado. Este Programa de Acção traça as grandes linhas de orientação da CCPL para os próximos dois anos. O Conselho deverá reunir em Janeiro, para decidir da constituição da Direcção e nomeação de um Presidente.

José Luís Correia, 
in CONTACTO, 20/12/2002

sábado, 3 de dezembro de 2005

Toma lá Luxemburgo! - revista à portuguesa veio até ao Grão-Ducado

Cristina Areia, Fernando Mendes e Carlos Areias Foto: M. Dias
No fim de semana de 20 e 21 de Novembro, o Luxemburgo viveu ao ritmo da revista à portuguesa. "Tomá lá Revista" trouxe-nos de volta aos palcos do Grão-Ducado o inimitável "pequeno" grande actor Fernando Mendes, a provar que os homens, e sobretudo os actores, "não se medem aos palmos".

Do já célebre trio que todos conhecemos da série "Nós, os ricos", apenas Carlos Areias o pôde acompanhar. A vinda de Rosa do Canto estava igualmente prevista, mas a acttiz sofreu um acidente nas vésperas da viagem e não os pôde acompanhar, para seu e nosso desgosto. Quem veio, para nosso prazer, foi a jovem actriz Cristina Areia e a cantora Cândida Branca-Flôr, de quem já tínhamos saudades de ouvir cantar e ver em palco. Apesar de poucos... foram bons!

Um verdadeiro espectáculo de revista à portuguesa com sketches cómicos e canções, ao qual o público se rendeu, desde os primeiros instantes, nos dois dias de espectáculo, tanto na capital, como em Differdange. O nosso Jornal teve a oportunidade de falar com os quatro artistas, sobre as impressões da sua passagem pelo Grão-Ducado. Quisemos também conhecer alguns dos seus novos projectos.

"As pessoas têm saudades deste tipo de espectáculo" Fernando Mendes mostrou-se satisfeito com o acolhimento a que teve direito ao chegar ao Grão-Ducado, dizendo que "o Luxemburgo foi o país da Europa onde fomos mais bem recebidos e onde o público aderiu melhor, com sorrisos, com aplausos e se deslocou em grande massa, para ver o nosso espectáculo". "Sentimos que as pessoas têm saudade deste tipo de espectáculo", disse Fernando Mendes, tentando explicar o sucesso desta "revista à portuguesa", que já levaram aos Estados Unidos, Canadá, Suiça, Alemanha e que brevemente estará em Paris. Fernando Mendes reconhece que a grande afluência a esta revista tem a ver com o grande sucesso da sitcom "Nós, os ricos," que passa regularmente na RTPi e que vai terminar brevemente.

Adiantou-nos, igualmente, que já recebeu convites para outros canais de televisão, para integrar projectos do mesmo género. Enquanto os projectos em televisão não avançam, confessou-nos que gostaria, e já há muito que pensa nisso, montar uma revista no Parque Mayer. "Pano para mangas" Carlos Areias, o actor que interpreta o papel do mordomo em "Nós, os ricos" reconheceu que, apesar de ser um actor sobejamente conhecido em Portugal, a sua carreira deu um salto, nomeadamente junto dos emigrantes, a partir do momento em que esta série começou a ser transmitida pela RTPi.

Carlos Areias lamenta um pouco o fim desta série já que, segundo ele, "há pano para mangas", o que é preciso é pegar bem no casaco. Sobre projectos futuros, disse não saber ainda nada de concreto, mas admitiu que o mesmo elenco da série vai provavelmente continuar junto, mesmo se for noutro projecto, ou noutro canal. "Mais uma novela, e Cinema talvez" Provando que "filho de peixe, sabe nadar", a actriz Cristina Areia, é filha de Carlos Areias e constituía o terceiro elemento deste elenco cómico.

Cristina Areia também não deixou de frisar a maneira carinhosa como foi recebida pelos espectadores portugueses do Luxemburgo. "Os espectáculos, para os nossos emigrantes, são sempre os mais emocionantes, porque nos acolhem com um carinho tão grande, que é quase sempre um público melhor do que o público português, lá em Portugal", disse.

No Luxemburgo o nome de Cristina Areia é pouco conhecido, mas em Portugal é já, apesar de jovem, uma conhecida actriz de revista, teatro e televisão. "Eu trabalho para os canais todos, mas vocês aqui só vêem a RTPi!", disse, como a edesculpar-se, com um sorriso. Foi precisamente na RTPi que a vimos recentemente na telenovela "Os Lobos".

É já em Janeiro, disse-nos, que vai começar a gravar uma nova novela da RTP, que deve estreiar no Verão na RTPi. Confiou ainda, estar à espera de um projecto para cinema, mas que, entretanto, gostaria de continuar a fazer espectáculos com o Fernando Mendes, que já acompanha há vários anos.

"Quero ajudar crianças abandonadas" Cândida Branca-Flôr, esteve pela última vez no Luxemburgo, há cerca de cinco anos. Desta vez regressou, mas trazida por um projecto diferente. Inseriu-se, naturalmente, nesta revista onde alternavam os sketches humorísticos com os seus maiores sucessos, com que nos brindou ao longo de quase duas horas de espectáculo. Adiantou-nos, que está já a trabalhar para o seu próximo álbum, mas que este não deverá sair antes do próximo Verão. Um álbum de originais que contará, igualmente, com alguns dos seus sucessos mais antigos, mas com arranjos novos, e canções de compositores seus favoritos, como é o caso do saudoso Carlos Paião.

Cândida Branca-Flor disse querer continuar "ligada à música, independentemente de continuar, ou não, a cantar. Gostava também de ajudar novos valores". "Tenho ainda projectos em relação a crianças portuguesas abandonadas, e tenho um convite para fazer um mega-concerto, em prol das crianças em Angola. Foram só dois dias, mas permanecerão inesquecíveis durante muito tempo, nas mentes de muitos de nós. Entretanto, fica a certeza de que os voltaremos a ver na RTPi.

José Luís Correia 
in jornal CONTACTO, 03/12/1999

sábado, 19 de novembro de 2005

Ramos-Horta em visita ao Luxemburger Wort

Visita do Nobel da Paz José Ramos-Horta ao Luxemburger Wort em 19.11.1998

sábado, 29 de outubro de 2005

Pequeno-almoço com... António-Pedro Vasconcelos: "Jaime" é o meu filme mais redondo, mais equilibrado"

António-Pedro Vasconcelos falou com José Luís Correia, 
em entrevista ao nosso jornal Foto: M. Dias

CONTACTO: Ficou surpreendido e contente por ver na ante-estreia do "Jaime" aqui no Luxemburgo uma sala do Cinema Utopolis completamente cheia? 

António-Pedro Vasconcelos: Fiquei contente, claro. Afinal nós fazemos os filmes para termos estes momentos. Não há nenhum autor que não tenha uma grande ansiedade quando faz um filme ou escreve um livro ao esperar o momento em que o público vai dar o veredicto. Apesar de haver muitos portugueses na sala, constatei que um filme não é necessariamente feito exclusivamente para um público nacional. Já tive essa experiência em Espanha, no Festival de San Sebastian, onde houve uma recepção ao filme idêntica, calorosa e entusiástica. Fazemos filmes sobre aquilo que conhecemos e portanto são filmes que têm a ver com a nossa cultura e que estão enraizados numa determinada realidade, mas podem ser feitos susceptíveis de serem apreciados por toda a gente pelo mundo inteiro, na medida em que falam de sentimentos e transmitem emoções partilhadas por culturas diferentes e pessoas diferentes. É isso que nos gratifica das dificuldades que nós tivemos.

CONTACTO.: Depois de oito anos afastado do cinema como é que resolveu lançar-se neste projecto? 

A.P.V.: Estive afastado durante cerca de quatro anos porque decidi aceitar responsabilidades políticas quer a nível nacional, quer a nível europeu com o Comissário Deus Pinheiro, porque me pareceu que havia qualquer coisa a fazer para tentar dar a volta às dificuldades que um cineasta que tenta fazer cinema encontra num país pequeno como Portugal e mesmo na Europa. Por isso achei que era um desafio quando me propuseram responsabilizar-me pelo audiovisual em Portugal e representar o nosso país nas instâncias europeias, e fazer com o prof. Deus Pinheiro uma reflexão sobre o futuro do audiovisual na Europa. Quando percebi que quer a nível português, quer a nível europeu não há vontade política para mudar as coisas, voltei. Voltei e tentei recomeçar a minha actividade. Tentei fazer vários filmes mas tive imensas dificuldades, sistematicamente os meus projectos foram recusados. O próprio "Jaime" foi "chumbado" por uma Comissão, presidida pelo Dr. Prado Coelho, que achou que o filme não tinha interesse nenhum. E estive assim durante 4 anos sem conseguir montar um único projecto.

CONTACTO: Este filme aborda o problema da exploração do trabalho infantil. Porquê a escolha deste tema? 

A.P.V.: Foi o produtor luxemburguês Jani Thilges, que eu já conhecia há muito tempo, e que conhece muito bem Portugal por já lá ter produzido outros filmes, que me propôs produzir um filme. Eu tinha vários projectos e ele escolheu este por lhe parecer o mais interessante. Escolhi este tema porque achei que o cinema português e europeu falavam muito pouco desta realidade e que era preciso chamar a atenção para isso. A partir daí construí-se uma história...

CONTACTO: Este é mais um da série de filmes feitos em colaboração com o Luxemburgo. O que pensa que esta troca traz tanto a um país como ao outro? 

A.P.V.: É sempre bom juntar mais do que um país, porque multiplicam-se os financiamentos, e um dos problemas que enfrentamos sempre é o dos financiamentos. Por outro lado, dá mais garantias que os filmes sejam estreados e vistos em mais do que um país. Esta co-produção também permitiu que este filme beneficiasse de técnicos muito competentes, nomeadamente no som e na decoração, que eram luxemburgueses, e de um belga na montagem. Foi um encontro feliz que nasceu do facto do Jani Thiltges conhecer muito bem o Luís Galvão Teles, que é um realizador radicado aqui no Luxemburgo, e como eu também conhecia o Luís, foi por essa via que a colaboração se fez. Eles criaram aliás uma sociedade em Lisboa [n.d.e.: trata-se da Fado Filmes] e têm a intenção de continuar a produzir com Portugal. Esta colaboração é muito boa para o cinema português, já que o Luxemburgo está no centro da Europa e irradia pelas suas raízes francófonas para todo o mercado da cultura francesa, o que é excelente para Portugal cujo grande problema histórico é o isolamento geográfico e cultural. Eu sou um cosmopolita e sempre defendi que as culturas têm condições para se universalizar ou então morrem e transformam-se em folclore.

CONTACTO: Como explica o sucesso de «Jaime»? 

A.P.V.: É sempre difícil, mesmo ao próprio autor, explicar um sucesso assim. Mas espero que o sucesso do «Jaime» se deva não tanto ao tema mas à maneira como é tratado, ou seja, ao meu carinho pelos personagens e a melhor maneira de tratar bem os personagens é tratar bem os actores. E penso que o facto dos actores parecerem pessoas, que é uma coisa que nem sempre acontece no cinema português, darem corpo aos personagens, transportarem emoções, sentimentos e viverem conflitos com os quais as pessoas se identificam facilmente, é o que explica o sucesso do filme. Eu gostaria de pensar que não é porque se fala do trabalho infantil ou porque trata de crianças. Os meus filmes de uma maneira geral, com altos e baixos, têm tido um sucesso idêntico – estou–me a lembrar, por exemplo, d' «O Lugar do Morto», que na altura fez até mais espectadores do que o «Jaime». Penso que é o facto de eu fazer personagens de carne e osso e tornar credíveis as situações, e espero não perder a mão nos meus próximos filmes.

CONTACTO: Como é que foi filmar com crianças? 

A.P.V.: Tornou-se fácil porque quer um, quer outro eram muito dotados. O mais difícil eram quando estavam juntos. Eu tenho filhos e sei como é, quando os miúdos estão juntos é sempre mais complicado... Foi fácil sobretudo porque perceberam ambos relativamente depressa o que era ser actor e representar.

CONTACTO: A crítica diz que este filme anuncia uma fase mais madura da sua carreira. Concorda ou pensa que este filme vem numa continuidade lógica e natural do seu trabalho? 

A.P.V.: Vem numa continuidade lógica, mas é lógico que o trabalho amadureça e portanto acho que é um filme mais amadurecido e talvez o meu filme mais bem construído ao nível da história do argumento, que é uma preocupação muito grande que eu tenho. Há outros filmes em que há momentos que eu gosto mais, mas este é talvez o meu filme mais equilibrado, mais redondo, e nesse sentido tem muito a ver com o que eu fiz antes, portanto é um amadurecimento óbvio.

José Luís Correia
in jornal CONTACTO 29/10/2000

quinta-feira, 20 de outubro de 2005

Duas vozes cantam duas cidades: O "fado" de Nápoles e a canção de Lisboa

Consiglia Licciardi e Nuno da Câmara Pereira Foto: M. Dias
Por iniciativa do Instituto Camões e do Istituto Italiano de Cultura, realizou-se, no passado sábado, no Teatro Municipal de Esch/Alzette, um serão dedicado ao Fado e à canção napolitana. Os "actores principais" deste diálogo entre o Fado e a Canção de Nápoles, foram o fadista Nuno da Câmara Pereira e a cantora Consiglia Licciardi, acompanhados pelos músicos Fernando Silva (guitarra portuguesa), Pedro Amendoeira (guitarra portuguesa), Carlos Velez (viola), Fernando Calado (viola), Giuseppe Licciardi (guitarra), Gianni Dell'Aversana (guitarra) e Michele Di Martino (mandolina).

Duas vozes, sete guitarras 

O público deixou-se encantar e rendeu-se, por completo, às vozes dos dois artistas, que interpretaram, cada um, canções das suas cidades respectivas sobre o tempo, a noite, o sentimento, o jardim, o bairro, o passado, o abandono, a tradição, a distância e o amor. Nuno da Câmara Pereira de um lado do palco, Consiglia Licciardi, do outro.

Cada emoção, cada lugar cantado à maneira de Lisboa ou de Napóles, ora na voz bem nossa conhecida de Nuno, ora na voz potentissima de Cristalina de Consiglia. Duas vozes, mas não ao desafio. Antes, numa mútua sedução, como uma serenata consentida.

Muito aplaudido pelo público foram sobretudo os desempenhos dos dois artistas, quando estes se exprimiam na Língua do outro: Consiglia não hesitou mesmo em usar o xaile preto, tipicamente português, para acompanhar Nuno da Câmara Pereira em alguns fados.

Um dos momentos altos do espectáculo foi um dueto da célebre canção italiana "Ó Sole Mio", cantado em Italiano e Português. Também muito apreciado, sobretudo pelo público português, foram alguns fados, que Nuno da Câmara Pereira não pode deixar de cantar, mesmo se não faziam parte do programa, prolongando assim, por mais meia-hora, o espectáculo.

Outro momento que conquistou o público, composto essencialmente por portugueses e italianos, embora houvesse também muitos luxemburgueses, foi quando os sete guitarristas em palco (três italianos e 4 portugueses) interpretaram, num majestoso tema instrumental, o "Interlúdio luso-partenopeu", sob forma de diálogo entre a guitarra portuguesa e a mandolina.

Depois do espectáculo, o CONTACTO falou com o fadista português que se declarou muito contente por estar de novo no Luxemburgo, e que aprecia muito a maneira como é recebido pela comunidade portuguesa aqui radicada.

Um projecto com quatro anos 

Nuno da Câmara Pereira disse-nos como tinha nascido este projecto e a digressão que têm feito pela Europa e Bacia mediterrância.

"Há uns quatro anos, encontrei a Consiglia num Festival de Música Mediterrânica, na ilha de Malta. Eu estava a representar Portugal com o Fado e a Consiglia a Itália, com a Canção napolitana. Sentimos a perfeita sintonia entre as duas canções e daí surgiu a ideia de cantar em dueto. Ambas as canções são bastante homogéneas, nostálgicas, mediterrânicas - a cultura portuguesa, tem, aliás, muito mais de mediterrânico do que possamos imaginar - e há muitos outros pontos comuns entre as duas cidades, Nápoles e Lisboa, e entre os dois povos."

"Já levámos este espectáculo ao Teatro de la Valleta, a Malta, à Sícilia, a Florença, a Nápoles, e a Tunes (Tunísia)", disse-nos.

Nuno da Câmara Pereira confiou-nos que foi um pouco difícil aprender a cantar em napolitano (diferente da língua italiana). Os dois artistas estão também a pensar imortalizar este espectáculo único num álbum. Para já, há a vontade de multiplicarem os concertos em Portugal e por toda a Europa.

O próximo local, na sua agenda, é o Funchal, onde estarão já esta noite (uma semana depois do Luxemburgo), num espectáculo transmitido em directo pela RTP Madeira. Depois, no fim do mês de Outubro, estarão na Argentina, no primeiro concerto do que será a sua digressão na América Latina, no próximo ano.

 "Uma experiência extraordinária" 

Consiglia Licciardi considera este projecto uma "experiência extraordinária", que o Fado de Lisboa e a Canção napolitana "são duas canções que falam de cidades à beira-mar, que falam dos mesmos sentimentos, da nostalgia, do amor".

Disse-nos que tinha sido muito difícil aprender a cantar em Português e confiou-nos que estava muito ansiosa e desejosa de actuar na Madeira, já que este será o seu primeiro espectáculo em Portugal. Confessou-nos que vai ser um momento forte para si, "como foi, há dois anos, para o Nuno, a primeira vez que ele cantou em Nápoles". Consiglia espera também que o espectáculo seja registado num disco,logo que uma Editora manifeste interresse. Nuno da Câmara Pereira tem novo disco, sem fado

Quanto a projectos a solo, Nuno da Câmara Pereira revelou, em primeira mão ao CONTACTO, que estava prestes a sair, nos próximos dias, um novo álbum seu, mas que não contemplava o Fado. "Este álbum chama-se 'A última noite', é um disco com música de sedução, música de dança em Castelhano e Português, música romântica, "slows", um 'fado dançável', onde contei com a participação de Rui Veloso, dos Tetvocal, do Jorge Fernando, da cubana Lucrécia, da Rosana (Ilhas Canárias), da espanhola Yolanda e até do guitarrista dos Pink Floyd, Snowy White", revelou-nos o fadista. "Já que há tantos cantores da canção ligeira que cantam Fado, porque não fazer o contrário, um fadista cantar música ligeira?", acrescentou.

José Luís Correia
in CONTACTO, 20/10/2000

segunda-feira, 26 de setembro de 2005

Serviço Voluntário Europeu: "Uma experiência única"

Carla Sofia Sousa Miranda em entrevista com o nosso redactor José Luís Correia 
Foto: Tessy Hansen 

Carla Sofia Sousa Miranda tem 22 anos, mora no Bairro da Ameixoeira, em Lisboa, e esteve durante dez meses a fazer o "Serviço Voluntário Europeu" (SVE) no Luxemburgo, no seio da Confederação da Comunidade Portuguesa do Luxemburgo (CCPL).

É formada em Estudos Europeus pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Antes de fazer o programa SVE já fizera o programa "Leonardo da Vinci" em 1998, ficando interessada pelo SVE desde essa altura, mas só se viria a decidir a seguir este programa depois de terminado o curso.

Porquê a CCPL? Carla diz ter-se candidatado a vários projectos do SVE para a França, Inglaterra e Luxemburgo. A motivação das suas escolhas fizeram-se pelo tema do projecto, mas também pela língua do país que a iria acolher. Estabeleceu contactos com outros projectos no Luxemburgo, mas optou pelo da CCPL.

"A maior parte dos outros projectos neste país tinham um âmbito mais social e cultural, com jovens e crianças das 'Maison de Jeunes' e 'Foyers de Jour'. Eu preferi a CCPL porque, além de poder vir a trabalhar com jovens, o projecto era mais abrangente e não se resumia apenas a isso", explica.

A decisão também foi influenciada pelo seu currículo académico. "Este projecto enquadrava-se melhor nos meus projectos futuros e no curso que eu tinha feito. Formei-me em Estudos Europeus, onde abordámos, inclusive, a emigração portuguesa no Mundo. Eu tinha também curiosidade em conhecer essa realidade", conta-nos.

Um país de várias comunidades 

O primeiro contacto com a comunidade portuguesa no Grão-Ducado correspondeu positivamente às suas expectativas.

"O que estudei em termos teóricos adapta-se perfeitamente ao Luxemburgo, embora na prática as coisas se revelassem diferentes. Os portugueses neste país tem características bem específicas e são um caso completamente à parte do resto da emigração portuguesa. Nunca imaginei vir encontrar uma comunidade tão fechada sobre si própria. Pensava que existia uma maior homogeneidade entre a comunidade portuguesa e a sociedade luxemburguesa. O Luxemburgo é um país de várias comunidades, de várias sociedades e é pena que assim seja, porque perde muito!"

"Mas o balanço do estágio é positivo", afiança, "foi bom trabalhar com a comunidade portuguesa, não conhecê-la apenas na teoria, mas saber quais são as suas necessidades, problemas e lutas".

Em termos culturais, profissionais e até pessoais revela-nos que sente que cresceu e evoluiu.

"Este estágio permitiu-me ter as primeiras experiências com o mundo do trabalho. Como se trata de um serviço de voluntariado não tinha um trabalho rígido, tinha flexibilidade horária. Como a CCPL é uma associação onde só colaboram voluntários, por vezes senti que pesavam demasiadas responsabilidades sobre mim, mas, simultaneamente, sentia que me atribuíam crédito para poder trabalhar livremente; que o meu trabalho era útil e que as pessoas confiavam em mim. Graças a isso, hoje tenho mais certezas sobre o que quero fazer, sei o que sei fazer melhor e as formas como gosto de trabalhar. Aprende-se muita coisa a viver num país do centro da Europa, tão parecido com a Alemanha, onde as pessoas são mais frias que em Portugal, mas mais metódicas e rigorosas. Os portugueses tendem a ser mais desorganizados, mas, face a um problema são mais inventivos e improvisam".

Carla admite que nem todos os SVE são como este, mas acredita que constituem sempre "uma experiência única". "É sempre positivo deixar o país, conhecer outras coisas, alargar horizontes", defende.

Segundo Carla, em Portugal uma experiência como estas, no estrangeiro, é considerada uma mais-valia no mercado do trabalho. E ficou tão entusiasmada que, entretanto, conseguiu convencer mais dois jovens do seu curso a trabalharem, este ano, para o projecto da CCPL, integrados no SVE.

Os dois jovens, Filipe Santos e Miriam Mateus já chegaram ao Luxemburgo, onde deverão permanecer até Julho de 2004.

Quanto à Carla, e depois deste projecto, procura algo que se enquadre no curso que fez, seja no âmbito dos assuntos europeus ou no do património e gestão cultural, em Portugal ou no estrangeiro, equacionando, inclusive, voltar para o Luxemburgo ou ir viver para França. Para mais informações sobre o SVE pode consultar, na net o site www.injep.fr/prog/SVE/jeunes.html ou a Agence National luxembourgeoise du Programme Jeunesse, tel. 4786477 (Myriam Putzeys).

José Luís Correia
in CONTACTO, 26/09/2003

sábado, 3 de setembro de 2005

Que lei, para quem? Touros de morte em Barrancos: contra!

Quando uma aldeia inteira apela à tradição para legitimar as práticas mais cruéis e sanguinolentas, pergunto-me afinal em que século estou?!

Esta manhã devo ter acordado na Idade Média ou numa época ainda mais recuada, em que se faziam ainda sacrifícios de animais de oferenda aos deuses. Afinal o homem evoluiu mas a sua bestialidade ficou?

É que esta manhã, fiquei de tal maneira enjoado e enojado que perdi a fome para o resto do dia, ao ler nos jornais e na televisão que a aldeia raiana de Barrancos continua a fincar o pé como um "gaiato teimoso e embirrento", contra todo o país e todas as leis se for preciso, e vai mesmo avançar, novamente, apesar das decisões dos tribunais, com mais uma Corrida de Touros de morte, durante as festas locais dedicadas a Nossa Senhora da Conceição.

Conhecendo bem tudo o que gira em torno da festa brava, por minha mãe ter durante muito tempo servido na casa de uma grande família de toureiros alentejanos, fui percebendo o orgulho alentejano, o gosto pelos cavalos, o respeito pelos touros. Respeito, é esse o sentimento que o toureiro tem pelo touro quando o enfrenta na arena. Depende da pujança e da "raça" do touro que a sua lide seja um espectáculo ou um "flop".

Ao contrário do que muita gente pensa, na "tourada à portuguesa", o touro não é morto ao sair da praça: primeiro retiram-lhe as farpas e é de imediato tratado. Muitos touros voltam às suas ganadarias e aos seus montados, onde poderão ser escolhidos para voltarem a ser toureados; outros são guardados pois a sua estirpe e qualidades de toureio exigem que ele perpetue a sua "raça", multiplicando os novilhos.

O que está aqui em causa, nesta discussão, é a morte gratuita de um animal, para fins puramente de diversão popular. O que nos termos da nossa sociedade dita civilizada é uma aversão, enquanto contrariedade, já que agimos comos animais e não como seres civilizados.

Não estou aqui para defender a tourada à portuguesa, cuja tradição é não matar os touros. Quero é manifestar o meu repúdio à morte gratuita, imputada a um animal, para puro delírio dos homens. Também a tourada à portuguesa tem o seu grau de crueldade. Por isso, sou, hoje, contra qualquer tipo de tourada.

Mas, a haver tourada, a portuguesa ainda pode ser considerada a mais equitável e digna, em relação à espanhola. Na portuguesa, há o toureiro que espicaça o touro de forma a instigá-lo a mostrar a sua fúria e "raça", e há também a figura do forcado que enfrenta o touro de mãos nuas, face a face. Aqui a luta sempre é mais equitável.

Já na tourada à espanhola o touro é picado pelos "picadores" de forma a ficar enfraquecido para que a tarefa do "matador" seja facilitada. Também aqui, o homem enfrenta o touro face a face, mas acaba por matá-lo.

É a superioridade do homem sobre o animal. Não haverá outras formas menos cruéis de exortar a nossa condição de seres "supostamente" superiores? Mais do que estas considerações todas, e sejamos contra ou a favor, há uma lei que fica por cumprir e à qual, um grupo de pessoas, quer fazer ouvidos moucos. A lei é para todos, e não há excepções, é o que nos ensinam.

A tradição não pode ser desculpa para excepções, e para que se continuem a perpetuar acções como estas, que em nada dignificam o ser humano e, neste caso preciso, Portugal e os portugueses. E se algum barranquenho argumentar que mais valia ser espanhol, eu respondo: com portugueses assim, quem precisa de espanhóis?

José Luís Correia 
(in jornal CONTACTO, 03/09/1999)