sebenta de anotações esparsas, pensamentos ociosos, reflexões cadentes, poemas difusos, introspecções de uma filosofia mais ou menos opaca dos meus dias (ou + reminiscências melómanas, translúcidas, intra e extra-sensoriais, erógenas, esquizofrénicas ou obsessivas dos meus dias)
-
cahier de notes éparses, pensées oisives, réflexions filantes, poèmes diffus, introspections d'une philosophie plus ou moins opaque de mes journées (ou + de réminiscences mélomanes, translucides, intra-sensorielles et extra-sensorielles, érogènes, schizophrènes ou obsessionnelles de mes journées)

sábado, 29 de abril de 2017

Nunca dizes nada...

- E achas que eu não tenho ataques de coração? - .... - Há terramotos que não se vêem. - As coisas são como são... - Não! Não, não são. As coisas são como são se não as quiseres mudar. - .... - (E, como sempre, não respondes nada.)

QUERO LER-TE



Quero ler-te
mas por enquanto é só braille à distância.
Quero ler-te
mas não me vires as costas da tua lombada
deixa-me passar os lábios ao de leve
pela seda da tua pele
deixa-me enfiar as mãos nas tuas páginas
senti-las por dentro
deixa toda a tua literatura
encharcar-me os dedos
afastar os teus medos e eu desfolhar-te,
despir-te, ler-te toda, ter-te inteira.

Vem. Agora é hora!
A noite foi-nos concedida
esquece a despedida...
Eu sei, eu sei, quantas vezes te disse adeus
mas hei-de dizer-te adeus e adeus repetidamente
e será sempre mentira porque te quero e este querer não tem fim.

É hora, agora ou nunca.
E eu o nunca rejeito e enjeito.
É hora e é agora, vou despir-te toda do teu preceito,
do teu trejeito e preconceito
vamos esquecer o bem ser e o bem parecer
e simplesmente foder
como se não houvesse amanhã.

É hora de eu correr com a minha boca
todo o teu corpo e sorver o sal do teu suor
lamber o desejo do teu despudor
e a minha língua abrir-te para mim,
meu livro dos desejos
eu quero que os meus beijos
te abram toda para mim,
eu quero segurar-me aos teus cabelos
quando entrar em ti e repetidamente,
em golfadas profundas, mais e mais,
cada vez mais dentro de ti
eu quero que te dobres e grites
apenas para receber mais prazer,
eu quero foder-te como um animal
que fode a sua fêmea
eu quero foder-te como um danado
à espera que o inferno se apague
eu quero possuir-te e dar-me a ti
no mesmo gesto total e completo
dos nossos dois corpos penetrando-se, pertencendo-se.

Vem. É hora! Vem-te!
É a hora da nossa desforra
não há mais destino nem desfado nem desfoda
nem desculpas nem nada.
Agora é hora!
É hora de vires e de nos virmos um no outro,
é hora de atearmos fogo a isto tudo
e de ardermos bem no meio,
os nossos corpos em combustão,
consumindo-se em ânsia, fundindo-se um no outro,
fodendo como deve ser, como sempre foi suposto ser.
Quero-te, desejo-te como nunca
desejo-te e quero-te aqui e agora, é hora!

O nosso sexo há-de deflagrar
chamas intensas pelos oceanos e derreter os pólos
O nosso fogo há-de elevar-se aos céus
como tu sobre as labaredas do meu corpo
e extinguir as nuvens num só sopro.
O chão há-de fugir sob os nossos pés
e a terra desaparecer sob o nosso desejo no vazio sideral
e nós continuaremos um dentro do outro a foder.
E o sol, e todas as luas e todas as estrelas
hão-de ficar abrasadas até rodopiarem,
colapsarem em si e rebentarem em supernovas,
mas os nossos orgasmos serão ainda mais incandescentes
e lançarão filamentos brilhantes de galáxias pelos universos,
e isso serei eu a derramar-me finalmente e à bruta
em ti, em ondas de prazer em catadupa
e o teu corpo contorcendo-se em espasmos de dor,
e prazer e suor
e tesão no meu.

AGW 28042017

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Presidenciais francesas: Lobos vestidos de cordeiros

Os franceses “apuraram” para a segunda volta das presidenciais um ultraliberal amigo da alta finança e uma nacionalista demagoga da extrema-direita. E agora, o que será de França?

Como escrevi aqui na semana passada, a França desbipolarizou-se, e a deserção dos eleitores dos dois grandes partidos tradicionais da esquerda e da direita, que se alternavam no poder há mais de 50 anos, ficou mais patente do que nunca. Para a segunda volta “apuraram” dois candidatos antissistema ou que, pelo menos, assim gostam de apresentar-se.

Marine Le Pen pegou no partido do pai em 2011 e em meia dúzia de anos, literalmente, fez o que o ’pater familias’ não conseguiu em 40 anos: transformou a Frente Nacional em partido que quase passa por respeitável. Ou imita bem. Com um discurso calmo e sem nunca irromper pelos histerismos de ódio racial e negacionista de Jean-Marie, a filha sintonizou as preocupações da FN com a dos franceses do “país real”, os que sofrem de desemprego, os que perderam poder económico nos últimos anos devido à crise financeira, às deslocalizações e à pauperização da província.

As linhas de base da FN não mudaram, note-se bem, continua a ser um partido anti-europeu, anti-estrangeiros, anti-islâmico, racista e nacionalista. Mas numa época em que cada vez mais cidadãos se sentem abandonados pelo Estado e pela UE, no centro da qual deveriam ser a preocupação principal, a FN soube passar o seu arado demagógico e cavar trincheiras cada vez mais profundas entre os que se sentem esquecidos e os que estes consideram as elites. Os resultados de domingo mostram-no claramente: Macron ganhou nas cidades, Le Pen na província.

O mesmo fenómeno, o sentimento de abandono do Estado por parte do cidadão anónimo, em detrimento das elites, levou à eleição de um improvável Donald Trump nos EUA.

Emmanuel Macron não é um candidato antissistema, é talvez o melhor candidato do sistema porque passa por... não sê-lo. Tornou-se inspetor das Finanças em 2004, em 2006 é apresentado a François Hollande, dois anos depois troca a Função Pública por um cargo de banqueiro de negócios da família Rotschild.

Em apenas três datas, que fazem parte da sua biografia oficial, percebemos que a subida fulgurante em meia dúzia de anos de um mero inspetor das Finanças a conselheiro de uma das maiores fortunas do mundo não é anódina.

A inteligência de Macron foi perceber e reagir ao fenómeno do descrédito e da erosão dos partidos tradicionais que outros políticos sentiam mas recusavam ver. Afastando-se a tempo de François Hollande, criou o seu próprio movimento político. Com que dinheiro?, eis a questão.

Apresentando-se apartidário e centrista, as políticas que conduziu e propôs no Governo Hollande não deixam margens para dúvidas: Macron é um ultraliberal, anti-Estado social, amigo da alta finança, a quem deve provavelmente a sua ascensão, e diz-se europeu convicto (mas convicto de quê?). Tanto

Le Pen como Macron fazem pensar em lobos (trans)vestidos de cordeiros. Mas agora é tarde, já entraram no estábulo.

José Luís Correia
in Contacto, 26 de abril de 2017

terça-feira, 25 de abril de 2017

LIBERDADE

Foste r
evolução em mim,
quero ser abril em ti.
cravo dos ventos
cravo os dentes
com força, um beijo
desabrocha na tua boca
sem temer o tempo
sem temer a idade
sem temer o corpo
grita a tua liberdade.

AGW25042017

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Presidenciais francesas: Venha o diabo e escolha

Nunca se viveu uma campanha eleitoral como esta para a eleição do Presidente da República francês. França parece estar a desbipolarizar-se para se dividir em quatro. Os papéis invertem-se, os protagonistas habituais passam para os papéis secundários e vice-versa, e tudo a que estávamos habituados na política francesa parece estar de pernas para o ar.

Um candidato é indiciado por crime de desvio de fundos públicos – François Fillon –, mas grita que é alvo de uma cabala política engendrada pelos “gabinetes escuros” do Eliseu. Teoria da conspiração? Fillon disse que se fosse indiciado pela justiça, abandonaria a campanha, foi indiciado e não desistiu. Surreal!

Um outro candidato, Marine Le Pen, é também ela alvo de suspeitas de desvio de fundos, mas europeus. Mas esta, ao contrário do que é seu hábito, não se finge de vítima. São os papéis novamente a inverterem-se.

Mas esta campanha é também inédita porque os dois principais partidos do espectro político gaulês – Les Républicains (UDR nos anos 1970, RPR até 2002 sob Chirac, e depois UMP, sob Chirac e Sarkozy) e os Socialistas – são os que têm tido mais dificuldade em convencer os eleitores, como sempre tinha acontecido em todas as eleições legislativas ou presidenciais até hoje.

Fillon, que era suposto ter a missão “fácil” de unir toda a direita e marcar o regresso desta ao poder após a impopular era de Hollande, sofreu uma derrocada e um descrédito tais que nem depois da eleição terá fim à vista. A justiça encarregar-se-á de ditar o ponto final nessa história.

O PS, que deveria renovar-se com um digno sucessor de Hollande, desentendeu-se internamente e dois ex-ministros do executivo cessante concorrem um contra o outro, com Emmanuel Macron a adiantar-se muito a Benoît Hamon.

Num PS dividido, os eleitores mais à direita alinharam com Macron ou mesmo Fillon. Os mais à esquerda apoiam Jean-Luc Mélenchon, um antigo socialista que em 2008 fundou uma espécie de Bloco de Esquerda francês, e que parece estar também a canalizar os eleitores que ainda hesitavam.

Sobra Marine Le Pen na extrema-direita, que com um discurso aparentemente pausado, menos histérico e radical que o seu pai, tem conseguido também ganhar eleitores aos partidos tradicionais.

Com esta deserção dos partidos tradicionais, França parece estar a desbipolarizar-se para se dividir em quatro. Nunca até hoje e a tão poucos dias do sufrágio presidencial, havia tanta hesitação nas intenções de voto, o que possibilita que qualquer um dos quatro candidatos mais à frente nas sondagens possa passar à segunda volta.

O que na segunda volta pode significar que se passarem Mélenchon e Le Pen, o Hexágono vai fazer uma espargata política inacreditável. O que fez François Hollande, pela primeira vez, sair da sua reserva e falar de um dos candidatos, apelando para que os franceses não votem na esquerda radical e anti-europeia de Mélenchon. Inacreditável!

A extrema-esquerda mete mais medo do que a extrema-direita? Já nos anos 1930 os políticos franceses diziam que Hitler era preferível à Frente Popular de esquerda. A História e a sua tendência para se repetir ou seremos simplesmente burros?

José Luís Correia
in Contacto, 19/04/2017

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Os senhores da guerra

Os EUA atacaram posições do regime de Bashar al-Assad na Síria, a primeira vez desde o início da guerra civil naquele país em 2011. Para muitos, isto indica o surgimento de um novo conflito que pode depressa degenerar e envolver as principais potências mundias.

Ventos de guerra. Na Síria. No Mar do Japão. Trump gira o globo nos dedos, como num velho filme de Chaplin, e pensa na melhor forma de desviar a atenção da sua política doméstica ineficaz. Precisa de vitórias. Rápidas. Repara como George W. Bush, de simples filho de presidente, amador de bretzels e de hambúrgueres, se transformou em chefe de guerra de um dia para o outro, numa manhã de setembro, graças a duas torres caídas providencialmente...

Donald afasta a franja laranja e posiciona os seus navios e soldadinhos no mapa geoestratégico global. - Ping-pong-gang, um navio para ali!
- Pyongyang!
- E Home, onde fica?
- Homs, Presidente! No norte da Síria.
- Hã? Há petróleo, passa ali um gaseoduto, há reservas de água doce?

Novos ventos de guerra sopram dos quadrantes da cupidez, há ânsia de domínio e de supremacia. As superpotências sonham em inverter o crepúsculo irreversível da sua hegemonia decadente, as potências emergentes planeiam conquistas. E o oligarca de Moscovo ri, uma nova guerra para vender arsenal militar e alargar o feudo. Paris, Londres, Berlim lamentam, condenam. Mas nas salas escuras dos governos dessas metrópoles irrepreensíveis, sempre prontas para dar lições de moral e mostrar a exemplaridade europeia, os senhores da guerra esfregam as mãos ávidas dos negócios chorudos que aí vêm. Não há como uma boa guerra para relançar a economia.

Para nós, essa guerra parece novidade? Sim, é dali que provêm os refugiados sírios que aqui chegam, fogem da guerra e de uma regime sanguinário. Preferem morrer no caminho tentando sobreviver com a família, ter o Mediterrâneo como cemitério, do que ficarem simplesmente à espera de serem gaseados ou bombardeados pelo seu próprio regime. Os sírios (sobre)vivem assim há seis anos! Na senda da primavera árabe, tentaram derrubar a ditadura de Bashar al-Assad em 2011. Reclamavam a mudança, a esperança prometida pelo mesmo Bashar na “primavera de Damasco”, dez anos antes, quando este chegou ao poder parecendo querer encarnar a modernização e o caminho da democracia no pais. Mas foi sol de pouca dura. Bashar mostrou bem ser o filho do general Hafez el-Assad, que tinha governado com autoritarismo o país durante três décadas. E se herdou o “trono” paterno, hoje, 16 anos depois, está mais do que nunca decidido a guardá-lo. Com o apoio de Moscovo.

A Coreia do Norte é outro teatro de uma guerra do porvir. Outro filho e neto de ditadores obstina-se em manter o povo na miséria e no obscurantismo para perpetuar a dinastia Kim, que se segura ao poder desde 1948! Os senhores da guerra, salvadores do mundo livre, já sabem onde agir a seguir.

José Luís Correia
in Contacto, 12.04.2017

quarta-feira, 5 de abril de 2017

EDITORIAL no Jornal Contacto: Reforçar laços

Assegurar aos alunos de origem portuguesa no Luxemburgo aulas de língua materna, desde o precoce ao secundário, é o grande objetivo de um acordo que António Costa vem assinar hoje no Grão-Ducado.

O primeiro-ministro português está hoje em visita ao Luxemburgo. António Costa retribui a visita que Xavier Bettel fez a Lisboa em novembro, mas vem sobretudo assinar acordos bilaterais que visam uma colaboração mais estreita dos dois países em diferentes áreas.

O mais importante destes acordos, pelo menos para a comunidade portuguesa, é o “Memorando de Entendimento relativo à Promoção da Língua e da Cultura portuguesas no Luxemburgo”. Com este acordo, os dois países comprometem-se a promover juntos o ensino do português na escola luxemburguesa, do precoce ao secundário, como um “ensino complementar”. O que na prática se deverá traduzir pela substituição das aulas do ensino integrado e paralelo.

No Luxemburgo, as autarquias gozam de autonomia política em vários pelouros, a educação é uma dessas áreas. Assim, se uma comuna o desejar, este acordo permitir-lhe-á optar por uma “ferramenta” pensada para os alunos portugueses e feita para “encaixar” no sistema de ensino nacional, que não é “um corpo estranho”, como podia ser considerado o ensino integrado, ou um “corpo externo”, como podia ser visto o ensino paralelo. Pelo menos, é essa a intenção.

O facto de o acordo envolver docentes portugueses, luxemburgueses e até fazer referência a “professores luxemburgueses de origem portuguesa” é um sinal muito positivo. É como se, pela primeira vez, o Grão-Ducado assumisse que tem docentes de origem portuguesa e que estes são uma mais-valia para responder às necessidades específicas de uma parte da população escolar. Esperemos que o acordo sirva sobretudo os alunos e que comunas, como as de Esch/Alzette, não decidam unilateralmente acabar com as aulas de português. Esch anunciou já, aliás, que vai adotar o novo sistema. Esperemos que outras sigam o exemplo.

Um outro acordo a ser assinado hoje é sobre o setor espacial. O Luxemburgo, que vai criar uma agência espacial nacional e decidiu investir na exploração de mineiro de asteróides, tem atraído empresas do ramo aéreo-espacial para o Grão-Ducado. Portugal pode vir a ser um parceiro estratégico nesta área. Isto se for avante o projeto de transformar a base das Lages nos Açores em base espacial da Nasa, com rampas de lançamento para foguetões low-cost, como está a ser estudado desde junho de 2016.

O interesse do Luxemburgo por Portugal vai muito mais longe porque esta “vontade” abre-lhe as portas do “mundo português”, como aliás se viu aquando do pedido que o Grão-Ducado fez há anos para ser país-observador da CPLP. Estes laços só ganham em ser reforçados, em benefício dos dois países, assim o entendam sempre os governos respetivos. E a comunidade portuguesa do Luxemburgo tem um papel determinante a desempenhar nesse âmbito.

José Luís Correia
in Contacto, 05/04/2017

quarta-feira, 15 de março de 2017

Editorial no Jornal Contacto: O eixo Roterdão-Ancara

Esta é a nova era dos populismos e até o improvável se torna possível.

Sempre defendi a adesão da Turquia à União Europeia, porque sou por uma união federalista, sem fronteiras e intercontinental, uma união que devia ir – e um dia irá, porque é inevitável – muito além da Europa. Mas não sou a favor da adesão de uma Turquia em que o Estado não está separado claramente das autoridades religiosas, e em que as liberdades fundamentais e a democracia são apenas palavras nos cartazes das campanhas eleitorais, cuja cor se esbate menos depressa do que as promessas dos candidatos pseudodemocratas.

Por um lado, parece que a sociedade turca se ocidentalizou muito nas últimas décadas, e reivindica cada vez mais um lugar legítimo na União Europeia. Por outro, as derivas do regime ditatorial de Recep Erdogan são incompatíveis com os valores em que assenta a Europa.

A Europa precisa da Turquia e vice-versa, e cada lado parece fazer compromissos, como no acordo firmado para atenuar a crise dos refugiados e dos migrantes. Mas é cada vez mais difícil aturar o autoritarismo e o nacionalismo de Erdogan, que não permite qualquer contestação política. A mão de ferro com que o golpe de Estado fracassado de julho último foi jugulado não deixa margens para dúvidas. Basta esperar que num país em que nos últimos 40 anos já houve três golpes de Estado e uma tentativa, o movimento anti-Erdogan volte ao contra-ataque. Em prol de uma Turquia laica, europeísta, progressista, como Atatürk a sonhou.

Erdogan não tem nada de Atatürk, mesmo se se vê como o novo paladino da nação. Com ele, tudo é jogo político. E até se dá ao luxo de brincar com a Europa. No sábado, enviou dois ministros a Roterdão para participar num comício pró-Governo de Ancara, em plena campanha para as legislativas holandesas, impregnadas pelo discurso anti-muçulmano de Geert Wilders. Erdogan sabia perfeitamente que a presença dos governantes iria gerar polémica (ou pior). Foi provocação ou reaproveitamento político? Erdogan tão bem usa o populismo interno a seu favor como o populismo externo contra si, para justificar o poder autoritário que exerce.

A Holanda proibiu a entrada dos ministros turcos para não acender o rastilho com que a extrema-direita anda a brincar. Mas a Europa não reagiu.

A Holanda, que vai hoje a votos e onde a extrema-direita de Wilders nunca esteve tão bem nas sondagens. Mas ganhar as eleições parece impossível e fazer parte do próximo Governo ainda mais. Pelo menos, matematicamente. Mesmo se Wilders subiu nas sondagens, num parlamento com 150 assentos, pode vir a conquistar no máximo um quinto, já estimando as últimas sondagens em alta. Mesmo assim será insuficiente para governar sozinho. Os outros partidos que lideram as sondagens podem até obter menos votos que Wilders, mas nenhum deles quer uma aliança com o diabo.

Vai a Holanda, conhecida por ser tolerante, aberta, precursora e defensora das liberdades individuais, intrinsecamente anti-Trump, deixar-se polarizar pela questão da crise dos refugiados e pelo discurso anti-Islão de Wilders, e virar-se para a extrema-direita pró-Trump? Seria contranatura. Mas esta é a nova era dos populismos, em que já percebemos que tudo é possível. Mesmo o improvável e o impensável.

José Luís Correia
in Contacto, 15.03.2017

quarta-feira, 8 de março de 2017

Oito de março

Hoje, 8 de março, assinala-se o Dia Internacional da Mulher. Apesar dos progressos de que tanto nos regozijamos nos países ocidentais, ainda estamos longe da igualdade de direitos.

A palavra japonesa “shufu” designa a doméstica, a mulher que casando, renuncia a trabalhar e fica em casa para tratar dos filhos, do marido e do lar. Shufu é cada vez mais na sociedade nipónica sinónimo de “josei”, a palavra japonesa para mulher. A mulher subalterna, obediente e serviçal. Se o Japão é considerado um dos paises mais evoluídos do mundo, então deveríamos reconsiderar o seu grau de civilização pela forma como trata as mulheres. Seria interessante ver o novo ranking do país do sol nascente.

Não caiamos num etnocentrismo fácil e reflitamos no papel das mulheres na nossa sociedade, onde muitas delas trabalham oito horas ou mais por dia, mas depois chegam a casa e têm a lida da casa à sua espera, o jantar, a loiça, a roupa, porque o marido está na “bricola”, no sofá a ver futebol ou no café a relaxar. Porque muita gente ainda pensa assim: o homem trabalha, a mulher trata da casa, é assim desde Matusalém.

Questionemo-nos então se é mais iníquo ser como os japoneses ou condenar a mulher a um “duplo dia”? O Japão é apenas um exemplo, porque infelizmente na maioria dos países as mulheres efetivamente não gozam dos mesmos direitos que os homens. Nem falemos no caso de muitos países muçulmanos, que se apoiam na religião para justificar a forma como a lei (des)trata as mulheres.

Por vezes, a discriminação de que as mulheres são vítimas existe quase de forma velada, senão invisível, nos “territórios” que já parecem conquistados à causa, como nos nossos países ocidentais na questão das tarefas domésticas não partilhadas. Ou na questão da diferença salarial que parece resolvida, depois de tantos países europeus terem legislado na matéria. Mas não.

Portugal foi um dos países onde a diferença salarial entre homens e mulheres mais aumentou na UE entre 2010 e 2015, segundo um estudo do Eurostat divulgado esta terça-feira. O Luxemburgo está no top-3 dos bons alunos neste estudo.

Mas até no Luxemburgo, onde podíamos pensar que a luta das mulheres pela igualdade de tratamento parece evoluir, damo-nos conta que ainda falta percorrer um longo caminho. Sobretudo quando algo tão anódino como o preço de acesso a uma casa de banho pública na estação central dos caminhos de ferros da cidade do Luxemburgo desmente esses progressos e, longe de ser anedótico, se torna sintomático e revelador.

A luta das mulheres pela igualdade de direitos remonta ao século XIX, mas só em 1945 a ONU adotou uma carta de princípios que estabelecem a igualdade entre os géneros. Entretanto, já passaram 72 anos! Setenta e dois! E, infelizmenre, só se continua a falar da igualdade de géneros uma vez por ano, por ocasião do Dia Internacional da Mulher. A verdadeira vitória será quando deixar de haver Dia da Mulher.

José Luís Correia
in Contacto de 08/03/2017

quinta-feira, 2 de março de 2017

O ágora dos estrangeiros

O Festival das Migrações foi no passado o palanque público onde os estrangeiros reivindicavam direitos. Chegou a ser ponto de passagem obrigatório para políticos, representantes de partidos e mesmo do Governo. Agora, já não. Porquê?

O Festival das Migrações já não é o que era. Por um lado, temos de constatar que o certame melhorou materialmente. A casa onde o festival recebe anualmente 30 mil visitantes é mais digna desde que em 2005 o festival se instalou na Luxexpo, em Kirchberg.

Quem se lembra do vetusto e exíguo hall Victor Hugo, onde os então cerca de 80 stands (hoje são 400!) se empoleiravam uns em cima dos outros e o então recém-nascido Salão do Livro e das Culturas (criado em 2001) era relegado para uma tenda no exterior, impedido de crescer.

Sem falar no estacionamento “selvagem” de responsáveis dos stands e dos então 20 mil visitantes que invadia ruas e passeios do Limpertsberg, para indignação dos moradores do bairro e gáudio dos agentes comunais que passavam três dias a emitir multas.

O certame também melhorou na qualidade e na diversificação da oferta. Não só há mais expositores, mas há mais países e associações representados, mais stands gastronómicos, mais artistas e grupos musicais em cima e fora do palco. E o Salão do Livro ganhou em 2013 um irmão mais novo, o Artsmanif, onde artistas plásticos do Grão-Ducado e da Grande Região, que procurem uma montra, podem resgatar as suas obras do anonimato dos seus ateliês.

Mas se o Festival das Migrações ganhou em todos estes campos parece que o CLAE, o Comité de Ligação das Associações de Estrangeiros, que organiza o certame desde o início dos anos 80, parece ter desistido da luta política. Ou pelo menos, afrouxo o ritmo da luta.

O festival, através das associações afiliadas ao CLAE, começou no final da década de 80 por ser um palanque público onde os estrangeiros reivindicavam o direito de voto nas eleições comunais e legislativas. Foi ponto de passagem obrigatório para políticos, representantes de partidos e mesmo do Governo.

Nos anos 90 a luta não desarmou e nos sucessivos festivais dessa década o direito de voto nas comunais era tema recorrente. No festival, as palestras sobre o tema multiplicavam-se, o visitante interessado não conseguia “ir a todas”, os debates eram animados e inflamados. Em 1999, os estrangeiros puderam votar pela primeira vez nas eleições locais.

É essa índole reivindicativa e de espaço público de discussão dos temas atuais, sociais e políticos fraturantes, que tem faltado às recentes edições do festival. É disso que muitos visitantes se queixam, de o certame se contentar em ser apenas “festivaleiro”. Talvez isso seja o reflexo da falta de verbas de que o festival sempre sofreu.

Este ano, o CLAE quer insistir na sensibilização junto dos residentes estrangeiros para que se inscrevam nos cadernos eleitorais por forma a poderem votar nas eleições comunais de outubro próximo. Que ferramentas, que argumentos de sensibilização, que campanha tem o CLAE previsto? Que verba? Só vontade não chega. E o Governo não ajuda.

José Luís Correia
in Contacto, 01/03/2017

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Editorial no Contacto: "Donald, o 'trumpalhão'"

Em política costuma fazer-se o balanço dos 100 dias de um governo no poder para avaliar o estado de graça do mesmo. No caso da Adminisração Trump, no cargo há um mês, só se pode falar em “estado de desgraça”.

Há um mês que os EUA são (des)governados por um milionário excêntrico e trapalhão, e o seu séquito de bobos balofos, que vão acumulando gafe atrás de gafe.

Podíamos rir de tudo isto se se tratasse de uma comédia grosseira de Hollywood. A realidade por vezes ultrapassa mesmo a ficção mais absurda e o mundo assiste incrédulo e perplexo ao teatrinho grotesco das figurinhas da Administração de Donald Trump, sem estatura intelectual nem política para liderar a potência mundial que os EUA ainda são, mas em rápido descalabro e descrédito.

Com este 45° presidente, o país atingiu um cúmulo trágicómico para o qual já não há superlativos. Trágico porque as decisões e declarações de Trump e da sua equipa podem ter consequências graves e globais. Algumas já tiveram. Cómico porque os deslizes de Donald – desde erros ortográficos crassos nas mensagens que publica no Twitter até às falsas notícias que roçam o incidente diplomático – fazem-nos rir de quão ridículas são, mas também nos fazem sentir uma estranha vergonha alheia pela outrora prestigiosa Casa Branca, que parece agora entregue a um bando de labregos.

A última asneira de Trump foi quando evocou um suposto atentado terrorista que teria ocorrido sexta-feira na Suécia. A declaração foi feita durante um discurso, no sábado, na Flórida, perante milhares dos seus seguidores mais fiéis, a quem explicava a sua firme vontade de levar avante o seu decreto anti-imigração muçulmana.

Os 9,5 milhões de suecos tiveram que rebobinar para confirmar que tinham ouvido bem. De que atentado estaria Donald a falar? A ministra dos Negócios Estrangeiros sueca pediu explicações a Washington e o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros da Suécia não hesitou em tuitar: “Suécia? Ataque terrorista? O que é que ele tem andado a fumar?”, referindo-se a Trump. Os internautas suecos deram largas à sua imaginação para troçar de Donald. Um vídeo mostra um polícia sueco a interrogar um urso branco, principal suspeito do susposto atentado.

Trump explicou mais tarde, também via Twitter, que tinha visto uma reportagem na Fox News sobre o aumento da criminalidade na Suécia e que era a isso que teria feito referência.

Esta não é a primeira vez que Trump ou a sua equipa deturpam a verdade para a adaptar à sua realidade. Até encontraram uma nova fórmula para isso: “factos alternativos”. Infelizmente, quantos seguidores de Trump ouviram a declaração sobre a Suécia e quantos leram o pseudo-desmentido no Twitter? Da totalidade de eleitores que votaram em Trump em novembro, ainda há mais de 80% convictos que ele está a ser um bom Presidente e a levar a cabo tudo o que prometeu, segundo uma recente sondagem.

O mundo atura-o e arma-se de paciência. Ainda só passou um mês. Faltam 47.

José Luís Correia, in Contacto, 22/02/2017

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Editorial no Contacto: "Olhó Robô"

Esta semana, por iniciativa da eurodeputada luxemburguesa Mady Delvaux-Stehres, vai ser discutido em Bruxelas que tipo de legislação criar a nível europeu para regulamentar os robôs e a inteligência artificial.

Quando o luxemburguês Hugo Gernsback, considerado o pai da ficção científica, escreveu em 1911 o romance de antecipação “Ralph 124C 41+”, sobre um andróide no ano de 2660, nunca imaginaria que viria do seu país uma proposta pioneira para legislar sobre os robôs.

O engenheiro luxemburguês “fugira” precisamente da sua Bonnevoie natal sete anos antes por o seu país se recusar a investir numa lâmpada elétrica que ele inventara. Cem anos depois, o Luxemburgo quer-se um país voltado para o futuro, diferente do que era no virar do século XX e até há bem poucos anos. O país investiu muito na investigação e na biotecnologia, lançou-se na exploração de asteróides e vai criar uma agência espacial.

E esta semana, por iniciativa da eurodeputada luxemburguesa Mady Delvaux-Stehres, vai ser discutido em Bruxelas que tipo de legislação criar a nível europeu para regulamentar os robôs. Até que ponto queremos que os robôs facilitem a nossa vida e que regras são necessárias para que vivam e trabalhem no meio de nós? É a este tipo de questões que Bruxelas vai tentar responder. O documento prevê, por exemplo, que os proprietários de robôs sejam taxados para contribuirem para a Segurança Social, e questiona-se sobre a responsabilidade e a personalidade jurídica que deve ou não ter uma máquina.

Não são perguntas de retórica nem a pensar num futuro longíquo, é matéria que nos interpela já hoje, com robôs – uns com rosto humano, outros nem tanto – a não trabalharem apenas na indústria, mas cada vez mais em hospitais e em setores sensíveis, e brevemente no seio do nosso lar, a “pretexto” de ajudarem nas tarefas domésticas, pessoas deficientes ou idosas.

A emergência do carro autónomo, que deverá ser comercializado em grande escala até 2025, apressou os engenheiros de robótica a trabalharem com psicólogos, sociólogos e filósofos sobre os limites das decisões de uma máquina na interação com um ser humano.

Todos estes decisores, desde os engenheiros aos eurodeputados, parecem esquecer que a literatura já refletiu em muitos destes problemas éticos. Considerada um subgénero, a ficção científica foi quase sempre ignorada pela elite. A grande referência do género, o escritor Isaac Asimov, imaginou as leis robóticas num dos seus livros, em 1942, que respondem a algumas destas questões. Por exemplo, uma das leis de Asimov diz que um robô deve ser programado de forma a nunca ferir um humano, nem deixar que este se magoe; a segunda diretiva estipula que uma máquina deve sempre obedecer a um humano, excepto se as ordens entram em conflito com a primeira lei.

Confrontados com um futuro que chegou mais depressa do que imaginávamos, seria útil e instrutivo (e até lúdico) ir hoje beber inspiração onde ela nunca faltou. Um luxemburguês há cem anos e uma luxemburguesa hoje mostram o caminho.

José Luís Correia, in Contacto, 15/02/2017

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Editorial: Pós-Democracia

Face ao “cansaço” e à desconfiança que os eleitores têm da democracia, o belga David Van Reybrouck propõe uma outra forma de regime democrático.

A democracia está a dar cabo da democracia. Ou, pelo menos, com a ideia que temos da democracia. É o que defende o belga David Van Reybrouck em “Tegen Verkiezingen” (“Contras as Eleições”). O livro de 2013 (em francês, na Actes Sud, em 2014), saiu bem antes de Trump ter sido eleito ou do Brexit, sufrágios que vieram recentemente questionar o bem-fundado deste regime considerado “o pior, à exceção de todos os outros” (Winston Churchill).

Para Van Reybrouck, uma das ideias pré-concebidas mais correntes hoje em dia é que as pessoas já não acreditam na política. O que é errado, avisa. As pessoas já não acreditam nos políticos, o que é completamente diferente, diz o belga. ao que apelida de “síndrome do cansaço democrático”. E é o que explica o Brexit ou a eleição de Trump, vitórias que ninguém esperava.

A estas, acrescente-se também as vitórias imprevistas de François Fillon nas primárias da direita francesa, e a de Benoît Hamon (quem? exatamente!) na primeira volta das primárias da esquerda em França, batendo os dois favoritos Manuel Valls e Arnaud Montebourg. Ao ex-primeiro-ministro (Valls) e ex-ministro da Economia (Montebourg), membros muito mediáticos do Governo Hollande, o mais discreto ex-ministro da Economia Solidária (Hamon), que fez parte desse mesmo executivo (!), obteve a preferência dos votos. E tudo indica que o ’outsider’ volte a ser o mais votado na segunda volta, no próximo domingo. 


A acreditarmos em Van Reybrouck (na foto, a preto e branco), estas vitórias só surpreendem quem não se tenha apercebido da “fadiga” dos eleitores pelos “políticos/suspeitos do costume”. Alguém que não seja identificado com o “establishment” parte logo com vantagem.

É que a “desconfiança” que os eleitores sentem em relação à elite política contrasta com o interesse cada vez maior que têm pela política, diz o autor flamengo. Preferem assim votar em alguém que incarne a diferença (nem que isso conduza ao caos social ou à extrema-direita no poder, o que é o mesmo!), alguém de fora da esfera política (como Trump) e que não os observe de forma sobranceira como as elites fazem.

Em 2015, no documentário “Demain” (atualmente em exibição no Luxemburgo, ver pág. 14-15), Van Reybrouck fala da ideia senão errada, pelo menos parcial e enviesada, que temos da democracia, preconizando outras formas desse regime. Se com o sufrágio não chegamos a uma forma de governo equilibrado, opte-se por outra solução. O autor propõe uma das mais antigas formas de democracia, testada há quase três mil anos pelos atenienses: o sorteio de cidadãos voluntários para governar (a cidade ou o país) durante o tempo de um mandato, de forma rotativa.

Talvez esta seja a única forma de evitar que (mais) demagogos, populistas, xenófobos e extremistas cheguem ao poder. Talvez seja tempo de pensarmos na pós-democracia.

José Luís Correia, in Contacto, 25/01/2016

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

EDITORIAL no jornal Contacto

“Hay motivo!”

O padre Belmiro Narino deixou-nos na quarta-feira de madrugada. Deixou órfã a comunidade portuguesa do Luxemburgo, que tanto amava e onde viveu quase quarenta anos.

“Hay motivo!” era uma das expressões preferidas do padre Belmiro, que faleceu na quarta-feira. Deixou órfã a comunidade portuguesa do Luxemburgo, que tanto amava e onde viveu quase 40 anos, quase metade da sua vida, e deixou órfão o Contacto, onde desde 1978 acompanhou Carlos de Pina, que morreu em 1986, e Lucien Huss, falecido em 1998, e desde aí foi portador da chama, da herança, da missão e da ambição dos dois fundadores do jornal.

“Hay motivo!” porque para Belmiro havia sempre motivo para rir, conviver e partilhar. Entre jovens e menos jovens era sempre, com a sua alegria de viver, vivacidade intelectual, gosto para a piada inteligente e a citação certeira e oportuna, o mais juvenil, no sentido em que a juventude é o auge da vida.

“Hay motivo!” porque para quem o conhecia, quem com ele privou e trabalhou, sabe que era um homem de causas e convicções, e que era um “facilitador”, sabia falar com as elites e com o mais comum dos seus concidadãos, e conseguia fazer e ser a ponte entre os dois, em prol dos mais nobres projetos.

“Hay motivo!” como um grito de vida, de liberdade, de ação e de expressão, pela qual lutou contra a ditadura. Primeiro, nas aulas que deu no Fundão, na Guarda e em Lisboa, e também através de artigos na imprensa, nomeadamente no Jornal do Fundão. Anos depois, no Contacto, foi com a mesma determinação e verve, do Verbo e do verbo, que escreveu artigos e editoriais pelas cruzadas que travou: o voto dos emigrantes nas presidenciais (na lei desde 1996), o voto dos estrangeiros nas comunais do Luxemburgo (que existe desde 1999), a promoção da língua e da cultura portuguesas como bases fundamentais e sólidas da integração e não da assimilação, o Evangelho, o Concílio Vaticano II, que dizia, estar “por cumprir” em terras grã-ducais.

Defender causas nem sempre consensuais valeram-lhe rivalidades e inimizades. Mas contra estes, Belmiro não enjeitava o em/de-bate. Com a espada do intelecto numa mão e o escudo da fé na outra, argumentava citando filósofos, teólogos, políticos, pensadores, muitos dos quais bebera mesmo fora do campo da religião, porque “da discussão nasce a luz” era o seu credo. Com uma pitada de humor q.b.

Os seus sermões nas missas, primeiro em Santo Afonso e depois em Sandweiler, escrevia-os como “fachos a arder na noite escura”, abordavam religião, política, temas sociais, mais ou menos polémicos, porque para Belmiro não havia tabus.

Os princípios dos Franciscanos, a que se orgulhava de pertencer, são, entre outros, a missão (noutras terras), a humildade de estar à escuta dos outros, a justiça, na verdade e na transparência, a alegria de viver (como Cristo, assim prega o Papa Francisco) e o espírito universalista. Belmiro cumpriu estes princípios, é a obra de vida que nos deixa. Não ficámos mais pobres, ficámos mais ricos porque Belmiro cruzou o nosso caminho.

José Luís Correia in Contacto, 18/01/2017

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Editorial no jornal Contacto: "Os outros"

A globalização aproximou as nações, mas, por outro lado, fez aumentar as desigualdades entre países ricos e países pobres. E há quem utilize isso, com fins políticos, para fomentar o medo e a desconfiança entre os povos.

“A Presidente de França Marine Le Pen celebrou com entusiasmo, no seu discurso de ano novo, a saída do seu país da zona euro, que entrou em vigor a 1 de janeiro. Le Pen prometeu aos franceses que o Novo Franco será ’uma moeda forte que marcará um novo tempo na história de França’. Acrescentou ainda que antes do mês de maio, os franceses serão chamados a pronunciar-se em referendo sobre a permanência na UE. Le Pen recebe, aliás, esta semana o Presidente dos EUA, Donald Trump, para discutir possíveis acordos a firmar quando França deixar ser membro da UE. À margem do seu discurso, Le Pen prometeu ainda apoiar financeiramente o novo partido de extrema direita luxemburguês nas legislativas de outubro próximo no Grão-Ducado, partido que, recorde-se, obteve 7% nas últimas eleições comunais”. 

Isto é o que não quero e espero não ter que escrever em janeiro de 2018. O ano de 2017 nasce com muitos medos. Mas também com boas intenções, que só por si não bastam para alterar a rota de colisão que Trump e Le Pen nos querem fazer seguir.

A UE decretou 2017 ano europeu do património cultural, e a ONU, ano internacional do turismo sustentável para o desenvolvimento. Promovem assim a ideia de um turista com consciência dos valores culturais e humanos dos países que visita. De modo a favorecer, diz a ONU, “a compreensão entre os povos, fazer melhor conhecer a rica herança das diferentes civilizações e apreciar os valores inerentes às diferentes culturas, contribuindo para reforçar a paz mundial”.

Um turista consciente é o quê? Um alemão que quer encontrar wienerschnitzel em todas as ementas dos hóteis de Ibiza? Um russo que arma zaragata se o ’all inclusive’ em Jerba não compreender todos os tipos de vodca? Um português que acha que a República Dominicana é “riquíssima e maravilhosa” mas nunca saiu do enclave protegido do seu hotel? Hoje, visitamos os quatro cantos do mundo como quem vai de Lisboa ao Algarve, mas esquecemo-nos muitas vezes de descobrir a cultura e os autóctones desses locais. A ignorância é mãe de todos os medos e o desconhecimento fomenta a desconfiança.

Além disso, “a globalização fez aumentar as desigualdades”, disse António Guterres no seu discurso de tomada de posse como secretário-geral da ONU. Essas desigualdades são uma das causas de muitos conflitos, entre os que se sentem explorados e os que estes consideram os privilegiados da aldeia global. Devemos “trabalhar juntos para passarmos de ter medo uns dos outros, para confiar uns nos outros”, disse ainda Guterres.

Para essa compreensão mútua entre os povos em nada contribuem políticos como Le Pen ou Trump, que veem nos outros a origem de todos os males, os árabes são terroristas e os mexicanos violadores. São atalhos perigosos que fomentam apenas o medo. Não é disso que o Mundo precisa. Nem em 2017, nem em 2018. Nunca.

José Luís Correia, in Contacto, 04.01.2017

quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

EDITORIAL: Isto foi 2016!

O ano de 2016 foi bom. O ano de 2016 foi mau. Para Portugal foi positivo. A nível internacional nem por isso.

Portugal sofria de duas ressacas consecutivas, Sócrates e Passos Coelho, mas a azia começa a passar. Os fatores são vários. Depois de dez anos de um Segundo Cavaquismo, os portugueses elegeram um chefe de Estado nas antípodas do anterior, mais próximo do povo, mais claro e direto nos propósitos e na política, e intervindo com inteligência quando deve intervir. Hoje, os portugueses têm um Presidente de que se orgulham e que sentem que os representa.

Embora eleito em 2015, este foi o ano de António Costa, que fez funcionar uma “geringonça” improvável e conseguiu até melhores resultados que Bruxelas esperava.

Uma outra vitória de Portugal, senão política pelo menos diplomática, foi a eleição de António Guterres para secretário-geral da ONU. Aos desafios todos que o ex-primeiro-ministro português já sabia que teria de enfrentar naquele cargo – Síria, Iraque, Coreia do Norte, guerras em África, crise dos migrantes, falta de reconhecimento da ONU – juntou-se na sexta-feira a condenação por parte das Nações Unidas da construção de colonatos israelitas na Palestina. Apoiado por Trump, Israel já rejeitou a resolução, o que deixa adivinhar um excelente 2017!

Portugal sagrou-se também campeão europeu de futebol. Os portugueses provaram o doce sabor da desforra que aguardavam há 32 anos, desde a derrota de 1984 frente a Platini, e uma suave vingança sobre o título “roubado” pela Grécia em 2004. Celebraram a vitória que lhes tinha sido prometida pela Geração de Ouro. A glória fez-se esperar, mas aconteceu graças a Cristiano Ronaldo e Fernando Santos.

O mundo pula, mas não avança sempre, por vezes dá saltos para trás. Este foi também o ano do Brexit, da eleição de Trump para a Casa Branca, do avanço de duas forças que dependem uma da outra – o terrorismo e o populismo. Enquanto isso, mais de cinco mil migrantes morreram ao tentarem atravessar o Mediterrâneo, um novo recorde. Sonham com uma terra prometida que não existe, que não os quer, que é uma miragem de tolerância e prosperidade. Mas para eles, sempre é melhor do que a miséria e a guerra que essa mesma Europa fomenta nos seus países.

A música ficou de luto com a morte de Bowie, Prince, Leonard Cohen e George Michael. Deus deve querer montar uma banda no céu. Por seu lado, a literatura atingiu um novo paradigma com Bob Dylan.

No Luxemburgo, país onde não se gosta de fazer ondas, a praça financeira tremeu. É o sigilo bancário com os dias contados e o caso Luxleaks a manchar a reputação do Grão-Ducado, que procura nos céus novos recursos e um rosto ’liftado’ para vender ao exterior os asteróides que ainda não capturou. 2017 promete.

José Luís Correia
in CONTACTO, 28/12/2016

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

EDITORIAL : Paz na Terra aos homens

Quinze anos após o início da guerra contra o terrorismo, este não só não foi erradicado como alastrou.

O eixo do mal traçou na segunda-feira uma linha entre Alepo, Ancara, Berlim e com Zurique formou um triângulo de morte. Quinze anos após o início da guerra contra o terrorismo, este não só não foi erradicado como alastrou.


No final da tarde desse dia, o embaixador russo na Turquia foi morto por um terrorista durante uma exposição em Ancara. Antes de ser abatido pela polícia, o homem gritou “Allahu Akbar” (Deus é Grande, em árabe), “Alepo”, “vingança” e entoou o cântico do Estado Islâmico: “Nós somos os que juraram fidelidade a Maomé pela jihad até à nossa última hora”.

Horas depois, um camião abalroava mais de meia centena de pessoas no mercado de Natal em Berlim, fazendo 12 mortos e 48 feridos. Até à hora do fecho desta edição o ataque não tinha sido reivindicado mas o modo operatório – semelhante ao atentado de Nice, em julho, que fez 86 mortos e 434 feridos – levou as autoridades alemãs a afirmar tratar-se de um acto terrorista.

Este é o nono atentado de carácter islâmico radical em quinze meses na Alemanha, sem contar os que foram desmontados a tempo pelas autoridades.

Ainda na segunda-feira, um tiroteio junto a uma mesquita em Zurique fez um morto e três feridos.

Três ocorrências que surgem um dia após o Conselho de Segurança da ONU ter aprovado o envio de observadores internacionais para acompanhar a evacuação de milhares de civis da zona leste de Alepo, no norte da Síria. Um voto decidido por unanimidade – EUA, UE e Rússia incluídos –, num acordo histórico na guerra civil síria, na qual americanos e europeus têm apoiado uma facção, a das forças anti-regime, e Moscovo a outra, a de Bashar al-Assad. Um compromisso frágil e que estes três ataques podem fazer perigar.

O ’eixo do mal’ – expressão inventada há 15 anos por George W. Bush, nas cinzas ainda fumegantes do 11 de Setembro, para designar países como o Irão e o Iraque – tem vindo a deslocar-se, chegou à Síria, com tentáculos que nos atingem na Europa.

Quinze anos depois do início da guerra contra o terrorismo, que trazia uma injeção de democracia para vacinar os bárbaros, o resultado não foi mais liberdade nem mais paz. O efeito secundário é uma erupção cutânea desastrosa – alastramento do terrorismo como um vírus –, o que demonstra que diagnóstico e tratamento estavam errados. O mundo não está melhor.

E pior, como não aprende com os erros, os suspeitos do costume intervieram também na Síria, levando a uma guerra civil que dura há cinco anos.

Numa semana em que devíamos estar a celebrar o espírito do Natal e a “Paz na Terra aos homens de boa vontade” (Lucas 2,10-14), é a boa época para nos questionarmos a que tipo de espécie pertencemos e que futuro tem.

José Luís Correia
21/12/2016 in CONTACTO

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

EDITORIAL: Do bem e do mal

O caso Luxleaks voltou à barra dos tribunais na segunda-feira. Caso para voltarmos a reflectir na legalidade e na moralidade daquilo que o Luxemburgo denomina de “otimização fiscal”.

Quando somos crianças ensinam-nos a diferença entre o bem e o mal e achamos que é fácil fazer a distinção. Quando crescemos, acabamos por entender que por vezes há uma linha ténue que separa as duas noções. Que há muita gente que se torna perita em navegar entre essas linhas e aproveitar os interstícios como se fossem um ’no man’s land’ entre dois continentes. Gente que diz que a definição de bem e de mal depende da moral, da perspetiva, da cultura, da sociedade, da empresa ou do país em que se insere.

A questão do bem e do mal, por muito maniqueísta que seja, tem que ser colocada quando os lançadores de alerta do escândalo Luxleaks são constituídos arguidos e condenados em primeira instância pelos tribunais do Luxemburgo. São inocentes, são culpados? Denunciaram casos de evasão fiscal que o Governo luxemburguês e a PricewaterhouseCoopers consideram ser uma prática legal de otimização fiscal.

Ao revelarem estas operações, os arguidos demonstraram que o Luxemburgo impede muitos países de recuperarem avultadas somas de dinheiro em impostos, que podiam servir para investir nesses países em educação ou na saúde. É legal? É (embora discutível). Mas é moral? Não! Não é!

As empresas que usam a evasão fiscal representam uma perda de pelo menos 100 mil milhões de dólares por ano aos países mais pobres. Nos cofres desses Estados, esse dinheiro seria suficiente para permitir que 124 milhões de crianças fossem à escola ou para salvar a vida a mais de seis milhões de outras crianças através da melhoria dos cuidados de saúde, estima a Oxfam num recente estudo.

Mas ao optarem por refugiar-se fiscalmente no Luxemburgo, essas empresas contribuem para enriquecer o Grão-Ducado, criar mais empregos no país, construir mais infraestruturas, melhorar o nosso nível de vida. Podemos, moralmente, ignorar que o país onde vivemos tem um Produto Interno Bruto (PIB) fictício, dopado pelas práticas nem sempre transparentes de uma praça financeira de que tanto nos orgulhamos, mas que nada tem a ver com a realidade dos recursos do país?

Outros países na Europa e no Mundo também praticam a otimização fiscal. Isso torna-nos menos culpados?

Ingenuamente (talvez) considero que sabemos muito bem quando estamos a praticar o mal porque, como nos ensinaram em miúdos, é simples de identificar: é quando estamos a prejudicar alguém. Fazemo-lo para o nosso, um bem comum, um bem maior? Eu continuo a achar que são desculpas.

José Luís Correia
14/12/2016, in CONTACTO

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Populismo, round 2

O mundo parece deslizar aos poucos, mas perigosamente, no nacionalismo e no populismo. EUA, Itália, França, Luxemburgo (?).

Ainda de ressaca pela vitória de Donald Trump nos EUA, o mundo parece deslizar aos poucos, mas perigosamente, no nacionalismo e no populismo.

A Áustria escapou por pouco. Nas presidenciais de domingo, os austríacos preferiram um filho de refugiados pró-europeu aos slogans fascistas de um neonazi.

Já em Itália, o Governo pode vir a cair nas mãos do antieuropeu Beppe Grillo. Tudo está em suspenso depois de o primeiro-ministro Matteo Renzi ter anunciado na segunda-feira que é demissionário, após o referendo falhado de domingo. A consulta popular propunha reduzir os poderes do Senado e uma “regionalização” das províncias, mas o eleitorado viu uma oportunidade para sancionar Renzi pelo desemprego e a crise económica que alastram.

O referendo nada tinha a ver com a UE, mas os anti-europeístas Berlusconi, Grillo e a Liga do Norte instaram os eleitores a votar não pela “independência e liberdade” (?). Em tempos de crise, os oportunistas exploram os medos do povo para se projetar no palanque do poder.

A primeira a felicitar os defensores do não em Itália foi Marine Le Pen. A presidente da Frente Nacional (FN) já se vê em Maio de 2017 a conquistar o Eliseu numa gloriosa vitória à Trump. O populismo e o nacionalismo têm oportunistas dos dois lados.

Em França, a direita namora perigosamente com a extrema-direita e François Fillon propõe medidas que nem Sarkozy, de quem foi o primeiro-ministro, ousou. Vale tudo para seduzir os eleitores do FN e evitar Le Pen.

À esquerda, o mal-amado François Hollande atirou a toalha, logo apanhada em voo pelo seu “delfim” e ex-primeiro-ministro Michel Valls, que na realidade já não suportava o Presidente. Valls diz que quer “reconciliar toda a esquerda” e recorda 2002, quando Lionel Jospin foi relegado para terceiro e Jacques Chirac venceu para salvar a França de Jean-Marie Le Pen.

Mas antes das presidenciais, Valls vai ter que convencer os socialistas nas primárias de janeiro frente ao seu ex-colega de Governo, Arnaud Montebourg. O “outsider” chama-se Emmanuel Macron, também ex-ministro de Hollande, que é tudo menos de esquerda.

No Luxemburgo, a “musa” populista também seduz, com as autárquicas de 2017 e as legislativas de 2018 na mira. Num post publicado na sexta-feira no Facebook, o presidente do CSV, Marc Spautz, lamenta que certas escolas já não sejam “autorizadas” a festejar o São Nicolau. Hein? Quais escolas? Pois, Spautz não diz quais.

Bastou isso como rastilho para lançar a indignação nas redes sociais, essas novas praças da verdade suprema sempre prontas de facho em punho para mais um auto-de-fé.

José Luís Correia,
07/12/2016, in CONTACTO

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

episodio 1

Chovia ha tres dias e via-se no rosto dos passantes que estavam cansados de tanta agua. Cada passada apressada ou pesada a agua saltava, indiscriminadamente molhava peugas e meias de vidro, sapatos italianos usados e botas de tacao novas em folha. As bainhas das calcas molhadas, os homens de ar sisudo, as mulheres com as maos nas saias leigeiramente puxadas para cima, de rimel carregado e labios em diagonal. 

Ele estava parado na esquina do Cafe Neruda, o chapeu e a gabardine encharcados a pingar, as maos nos bolsos, os dedos a brincar nervosos com uma moeda, os oculos algo embaciados e escorregadios, o frio no nariz dava-lhe um ar corado e incomodado.