sebenta de anotações esparsas, pensamentos ociosos, reflexões cadentes, poemas difusos, introspecções de uma filosofia mais ou menos opaca dos meus dias (ou + reminiscências melómanas, translúcidas, intra e extra-sensoriais, erógenas, esquizofrénicas ou obsessivas dos meus dias)
-
cahier de notes éparses, pensées oisives, réflexions filantes, poèmes diffus, introspections d'une philosophie plus ou moins opaque de mes journées (ou + de réminiscences mélomanes, translucides, intra-sensorielles et extra-sensorielles, érogènes, schizophrènes ou obsessionnelles de mes journées)

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Editorial no Jornal CONTACTO: "Pot-pourri da silly season"

Conversa de café:
- Então, o nosso Benfica?
 - Nosso? Meu não é. Lá tiveram que ser outra vez levados ao colinho...
 - Colinho, que colinho? Vocês são mesmo maus perdedores.
 - Nós não perdemos, foi empate!

Quando não há nada para conversar na “estação parva”, há sempre o futebol, valor fundamental do “ser bom português”. No entanto, a “silly season” este ano trouxe um rico rol de pérolas de parvoíce.

Primeiro foram os caçadores de Pokémons. Cabeça mergulhada nos seus smartphones, hipnotizados pelos bonecos da realidade aumentada, alguns foram atropelados, causaram acidentes de trânsito, caíram em escadas e rios, outros invadiram jardins e casas privadas. No Luxemburgo, um condutor foi multado por conduzir no boulevard Joseph II, na capital, a 8 km/h, andava a caçar esses monstrinhos. Uma aldeia francesa proibiu os bonecos virtuais da Nintendo e foi festivamente declarada “zona livre de Pokémons”. Em Washington, o director do Museu do Holocausto indignou-se que houvesse Pokémons à solta no memorial dedicado à Shoa.

Depois foi o “burqini”, um fato de banho-burca, que cobre todo o corpo excepto o rosto e que algumas muçulmanas decidiram levar para as praias francesas este Verão. No clima de crescente islamofobia que se vive em França há mais de ano e meio devido aos atentados terroristas, a peça de roupa foi utilizada como um rastilho pelos que surfam na onda fácil da extrema-direita. Felizmente não pegou fogo... ainda. Cannes e Nice proibiram o burqini e algumas banhistas foram mesmo multadas.

O “Zorro do Nicab”, Rachid Nekkaz, um homem de negócios franco-argelino, que se diz contra o burqini, pagou as coimas das autuadas e recordou ao Estado francês que num país que apregoa a torto e a direito ser uma república laica, as liberdades fundamentais devem ser respeitadas, como a de vestir a roupa que se quer. No país dos Direitos Humanos, não aplicar a regra básica do “a minha liberdade acaba onde começa a tua” esta polémica é absurda. A imprensa anglo-saxónica, também em falta de notícias, ri-se dos gauleses. Inventado em 2003 pela estilista australiana de origem libanesa Aheda Zanetti, o fato de banho-burca nunca foi tão popular em França como agora, desde que os seus detractores começaram a denunciá-lo, e quanto mais praias o proíbem mais muçulmanas o vestem.

O Brasil acolheu as piores Olimpíadas de sempre. Os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro ficaram manchados pela instabilidade política do país, a demolição de favelas para construir estádios, as instalações inacabadas ou deficientes, os assaltos aos atletas (e até a um ministro português), a poluição de alguns locais onde decorriam provas, a tocha olímpica que foi roubada e apagada, o virar de costas dos brasileiros aos Jogos, entre outros incidentes.

Enquanto isso, em Portugal... “Ai, Portugal, Portugal/Enquanto ficares à espera/Ninguém te pode ajudar”. Podem vir hidroaviões Canadairs da Rússia e de Espanha, mas a canção de Jorge Palma é a melhor resposta às perguntas que nos angustia a garganta: porque razão o nosso país é dizimado pelas chamas todos os Verões? Como é que num país onde os incêndios florestais grassam anualmente ainda faltam meios para combater o flagelo? O jardim à beira-mar plantado transforma-se, de ano para ano, em ermo de cinzas, uma calamidade. Falta investimento, prevenção, visão e vontade. E sem isso, não há futuro.

Uma prova palpável de que “pode mais quem quer do quem pode” é a conquista histórica por Portugal do título de campeão europeu de futebol. A glória do título iluminou as várias gerações de grandes futebolistas portugueses que tivemos nas últimas décadas mas que nunca ganharam nada internacionalmente, e libertou-nos do sentimento de injustiça que pairava sobre a nossa selecção. Mas não havia maldição alguma, faltava apenas acreditarmos e investirmos em nós. O motor da vitória foi o seleccionador, mas também a vontade, o acreditar. Quando se quer, consegue-se. Porque não aplicar essa tenacidade a tudo, Portugal? O país quer, espera, almeja que os nossos melhores atletas tragam medalhas olímpicas, mas não lhes dá condições?! Depois lamenta-se. Tristezas não pagam dívidas.

Dizia alguém que o final de Agosto é como um longo fim-de-semana antes da segunda-feira de trabalho. Que nos sirva para reflectir: em nós, no país, no futuro. Deixemos de ser “silly” e de nos queixarmos. Façamos!

José Luís Correia
in CONTACTO, 24/08/2016

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Editorial sobre o caso Luxleaks: "Da Desobediência"

José Luís Correia
Os arguidos no processo “Luxleaks”, que começaram a ser julgados na semana passada no Luxemburgo, está a revelar-se um autêntico teatro. Aqui na Redacção já há apostas sobre os actores que vão intrepretar este ou aquele papel quando a história chegar ao cinema.

Senão vejamos, o caso tem tudo dos blockbusters de Hollywood: vilões que se fazem passar por vítimas, maus da fita celebrados como lendas vivas, indivíduos comuns que saem do anonimato para se tornar heróis, depois injustiçados, muitas peripécias pelo meio e um final... Bem, apesar da peça só ir ainda no terceiro acto (será “ata”?), espera-se um final feliz. Mesmo se nesta história cada um queira um desfecho diferente.

Em tribunal os momentos rocambolescos repetem-se: um dos ex-funcionários dos Impostos, peça-chave da defesa, pôs-se de baixa, o superior hierárquico que o substituiu não respondeu a nenhuma pergunta, um responsável da Polícia teceu considerações anti-capitalistas sobre os arguidos, o juiz não o interrompeu mas corta a palavra a outras testemunhas e não entende a pertinência de outros depoimentos, como se tentasse despachar o processo e este fosse um mero caso cível, entre outros episódios vaiados com apupos pelo público que assiste ao julgamento.

Será apenas má fé? Este não é um processo sobre dois empregados que roubaram documentos na loja do patrão. É sobre o Luxemburgo e a sua imagem no mundo, e sobre o que foi (é) um dos seus principais fundos de comércio. Ou não teria a cobertura mediática mundial que está a ter. Dois cidadãos decidiram desobedecer às directivas da empresa para a qual trabalhavam e, seguindo a sua consciência, revelaram à luz do dia práticas de “evasão fiscal” que roçam a ilegalidade, transvestidas de “optimização fiscal”, por considerarem que são imorais e injustas.

E qualquer pessoa que pague impostos devia pensar da mesma forma: porque razão o Fisco se mostra implacável com o contribuinte privado mas brando, por vezes cúmplice mesmo, com as empresas que facturam milhões? Porque se essas companhias não pagarem os seus impostos, acabaremos por pagá-los todos nós.

“São práticas legais? São! Pode fazer-se? Não!” (parafraseando um célebre sketch humorístico que punha em cena um professor bem nosso conhecido que chegou a Presidente).

“A fraca tributação das empresas não corresponde ao conceito de justiça fiscal e às normas éticas e morais geralmente aceites”, disse durante o processo um dos ex-funcionários da PricewaterhouseCoopers (PwC), citando Jean-Claude Juncker, que foi precisamente um dos que incentivou estas práticas no Luxemburgo enquanto era primeiro-ministro. “L’arroseur arrosé!”, diz a expressão francesa.

Outro momento digno do Vaudeville: a defesa pergunta ao responsável da Polícia porque avisou a PwC das buscas à empresa e é o juiz que responde, “A França não faz o mesmo?”

Eis o cerne da questão. O juiz, assumindo-se ou não (sei lá!) representante do Luxemburgo, não entende porque se está a sujar o bom nome do pacato Grão-Ducado quando tantos outros países também utilizam a evasão, heu... a optimização fiscal. Do Reino Unido aos EUA, passando por França e Portugal (Madeira).

E como é a imagem do Luxemburgo que está em jogo neste tabuleiro, o meu palpite para o desenlace deste processo é o seguinte: os arguidos serão condenados pelos “crimes” de que são acusados: roubo e violação do segredo profissional. Estes apresentarão recurso e a sentença será reconfirmada. Depois recorrerão ao Tribunal dos Direitos Humanos, que finalmente condenará o Luxemburgo. Foi assim que aconteceu com o CONTACTO.

Em 2009, um assistente social apresentou uma queixa-crime contra o jornal, por ter sido posto em causa num artigo sobre um menor que este tinha decidido retirar à família. Questionar a decisão de um assistente social deve ser crime de lesa-majestade neste reino porque logo um juiz mandou efectuar buscas policiais à nossa Redacção para apreensão de material e documentos. A queixa-crime foi retirada, sem que fóssemos informados, o material e os documentos devolvidos, sem um pedido de desculpas. O CONTACTO pediu que as buscas fossem consideradas ilegais, mas tanto o Tribunal de Primeira Instância como o Tribunal Superior do Luxemburgo rejeitaram a queixa apresentada pelo jornal por violação da protecção das fontes, prevista na legislação luxemburguesa. O nosso jornal levou o caso para Estrasburgo e o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem condenou em 2013 o Luxemburgo por violar a liberdade de expressão e o direito à vida privada, dando razão à queixa apresentada pelo CONTACTO.

Antoine Deltour e Raphaël Halet decidiram desobedecer às directivas de discrição e de sigilo profissional a que a PwC os obrgava. Falou mais alto a probidade interior. Fizeram-no pelo bem e interesse públicos, disseram. A desobediência é o direito e o dever que assiste ao cidadão para lutar contra situações em que a lei ou o poder são iníquos, injustos ou incorrectos.

José Luís Correia
in CONTACTO, 04/05/2016

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Ao Amor Antigo

O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede.
Nada espera, mas do destino vão nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.

Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
o antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.

Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 7 de abril de 2016

EDITORIAL no Jornal CONTACTO: Panama Leaks e outras derivas

Um escândalo de proporções mundiais está a varrer o planeta. O nome singelo de “Panama Papers”, como se de meros papéis largados ao vento se tratasse, não deixa vislumbrar só pela designação a amplitude do conteúdo dos documentos, que revelam a mais colossal fuga ao fisco de todos os tempos. Maior do que os casos Wikileaks (2010), Offshoreleaks (2013), Prism (2013), LuxLeaks (2014) ou Swissleaks (2015) juntos.

Um informador anónimo, com o nome de John Doe (o equivalente ao Zé Ninguém, em português), enviou na Primavera de 2015 ao jornal Süddeutsche Zeitung (SDZ) 11,5 milhões de documentos, cerca de 2,6 terabytes de informação, o equivalente a 2.600 gigabytes (ou simplesmente "gigas"), ou seja, a capacidade de armazenamento total de 20 computadores portáteis de 128 gigas ou de 162 telemóveis de 16 gigas. “Dava para encher 700 mil bíblias”, compararam os jornalistas do diário alemão.

As centenas de milhar de dossiers provenientes do escritório de advogados panamiano Mossack Fonseca (cuja filial Mossfon no Luxemburgo se situa na rue des Bains, na capital) mostram como 214 mil empresas dos cinco continentes, celebridades, chefes de Estado, de Governo, políticos, partidos, desportistas, milionários, nomes mais ou menos famosos, de Vladimir Putin ao primeiro-ministro islandês, de Michel Platini a Lionel Messi, mas também muitos anónimos, praticam impunemente há décadas a evasão fiscal.

No Luxemburgo, 405 empresas e instituições bancárias estão envolvidas no escândalo, incluindo o até agora insuspeito banco luxemburguês BIL. Os documentos abrangem 40 anos, de 1975 a 2015, e para poder analisar tudo a SDZ teve que partilhar os dados com uma centena de jornais de 76 países, que puseram 400 jornalistas a cruzar dados e a verificar as informações durante um ano.

A procissão ainda vai no adro e os jornais prometem mais revelações em todas as edições diárias das próximas duas semanas. Todos os números deste escândalo são abismais, mas o que provoca vertigens é o ar fleumático, quase indiferente, com que alguma opinião pública recebeu a notícia.

Na Islândia houve já manifestações a pedir a demissão de membros do Governo, que de “salvadores da crise” passaram a figurar como cúmplices da bancarrota que afundou o país em 2008. A justiça francesa já abriu um inquérito para averiguar as empresas e residentes nacionais envolvidos no caso.

Mas o sentimento geral é que mais uma vez, além de um punhado de nomes que deverão ser largados na praça pública para expiar a pena colectiva, a culpa vai morrer solteira e a maioria dos implicados vai safar-se. Como sempre. Primeiro vai começar a falar-se em democracia, liberdade, livre-comércio, discrição e segredo profissional, que as empresas off-shore embora operem a curta distância do que é ilícito, agem dentro da legalidade. Os dedos reprovadores vão virar-se contra o mensageiro, como aconteceu com Julian Assange (Wikileaks), Edward Snowden (Prism) ou Antoine Deltour (Luxleaks). Bem fez John Doe em assinar Zé Ninguém, não vá a Justiça, que sofre de cegueira, como todos sabemos, mais uma vez enganar-se de réu. Mais cego é quem não quer ver.

Mas não devíamos ficar indolentes perante isto tudo, porque o mais iníquo e criminoso é que quem acaba por ter que pagar esta gigantesca fraude somos todos nós. Se o dinheiro não vem de um lado, vão buscá-lo a outro, sobem os impostos, aumentam as taxas, pagamos todos por tabela.

Coincidência ou não, tudo isto acontece a 24 horas de distância de escutas telefónicas feitas no FMI em que os dirigentes discutem a ideia de ameaçar a Grécia com uma nova crise financeira para garantir que este país pague as suas dívidas mais depressa.

Mas afinal, quem manda? Já entrámos na era do pós-capitalismo anunciado por Colin Crouch (2004), o que Jacques Attali (2006) designa por hiper-capitalismo? São as directivas dos conglomerados comerciais e das agências de notação que, levados pela voracidade dos accionistas, se sobrepõem à vontade dos eleitos e dos Estados? Vivemos em simulacros de democracia se é um grupo de não-eleitos que manda nos eleitos.

Fiquemos pela Grécia, onde nasceu essa tal de democracia. Horas depois de as escutas do FMI serem reveladas, de uma praia grega zarpava o primeiro barco com refugiados deportados para a Turquia, sem uma única garantia de Ancara de que não os reenviará para os seus países, numa clara violação da Carta Europeia dos Direitos Fundamentais e da Convenção de Genebra sobre os Refugiados de 1951, de que a UE e a Turquia são ambas signatárias. Nos artigos 18 e 19 dessa carta europeia, a UE diz-se solenemente contra as “expulsões colectivas”.

O que significa ainda a UE se for esvaziada dos seus valores, o que representa? Se basta a Angela Merkel acertar com o primeiro-ministro turco Ahmet Davutoglu, numa reunião a dois, os termos e a data das deportações dos refugiados, para que servem Jean-Claude Juncker, Herman von Rompuy, Donald Tusk e a própria União Europeia? A UE é a Alemanha e o resto é paisagem.

E será que as escutas do FMI e as deportações ilegais de refugiados vão ter tempo de antena nos media, perante o tsunami de informações dos Panama Papers?

José Luís Correia
in CONTACTO, 06.04.2016

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Editorial no Jornal CONTACTO: "A civilização no retrovisor"

Os acontecimentos dos últimos tempos dão a impressão que estamos a viver um retrocesso civilizacional.

Como é possível que no século XXI ressurjam crenças bacocas de tempos obscuros que julgávamos definitivamente volvidos, como por exemplo a teoria da Terra plana, que põem em causa as descobertas científicas dos últimos séculos? Seria irrisório se não ganhassem cada vez mais adeptos entre cantores, artistas ou gente da televisão que têm uma real influência nos jovens e nas massas. O mais recente é o rapper B.o.b, autor do sucesso “Airplanes”, que tem multiplicado mensagens na sua conta no Twitter de como “a elite” nos anda a “enganar” com a “teoria da Terra redonda”. Hein?

A esfericidade do planeta era já conhecida por matemáticos e filósofos gregos como Pitágoras e Parménides desde o século VI antes de Cristo. Eratóstenes chegou mesmo a medir a circunferência do globo três séculos mais tarde. Até a Bíblia fala da rotundidade do mundo (Isaías 40:22; Provérbios 8:26, etc.). Mais de 2000 anos depois, entre 1966 e 1972, as primeiras “selfies” que os astronautas da NASA fizeram à Terra – berlinde azul pálido suspenso na imensidão do espaço –, maravilharam a Humanidade. Tanto caminho percorrido para nada?

Propaladas nas redes sociais, com vídeos apelativos, sabiamente montados, deixando de lado uns pormenores em detrimento de outros, essas pseudo-teorias vão embalando (endoutrinando) um público preguiçoso em verificar o que lhe dizem, até ao ponto de negarem verdades científicas. Ciência não é opinião!

A internet não é boa nem má, como qualquer ferramenta depende do uso que faz dela o Homem. Por vezes, faz sobressair o pior que há em nós, julgamos no imediato, criticamos, condenamos, maldizemos, insultamos, como se o facto de nos refugiarmos num semi-anonimato nas redes sociais (que não existe, perguntem a Edward Snowden) nos permitisse dizer tudo. Mas esquecemos que não ficamos ao abrigo da nossa própria natureza humana, que é a verdadeira causa do que espalhamos, seja o bem ou o mal. Será que ainda sabemos distinguir entre os dois?

É de de uma tristeza profunda continuar a ver comentários de pura maldade nas redes sociais sobre quem tanto sofre, fugindo da guerra, da fome ou da miséria, refugiados e migrantes, que afinal somos todos, de uma forma ou de outra.

Pior ainda quando a crueldade é institucionalizada, porque se transveste de legítima. Países que costumam ser exemplo de progresso social como a Suécia, a Dinamarca, a Alemanha ou a Suíça, anunciam agora que vão confiscar os bens dos migrantes e refugiados que ali chegaram à procura de asilo, no que é uma clara violação dos mais elementares direitos humanos.

Despir um ser humano dos farrapos que tem para mais tarde o acusar de roubar uma camisa é politicamente correcto? E humanamente, é o quê? Se alguém nos pede ajuda na rua, pedimos-lhe primeiro que esvazie os bolsos antes de decidir socorrê-lo?

Todos os países vivem um recuo das liberdades, um regresso dos nacionalismos, dos proteccionismos, da desconfiança face ao forasteiro. Quanto mais pequena se torna a nossa aldeia global mais suspeitamos do vizinho.

Nos EUA, um dueto que podia parecer cómico – Donald Trump e Sarah Palin – está a preocupar o mundo, ao seduzir milhões com discursos populistas, manipuladores e que se alimentam do medo dos estrangeiros, isto no país do ’melting-pot’. Chegarão à Casa Branca? Imagem aterradora.

Quem somos? O que somos? No que nos tornámos? Não aprendemos nada com os piores episódios da Humanidade no século passado? Ainda há 70 anos, depois de os nazis assassinarem e espoliarem milhões de pessoas, jurámos: “Nunca mais!”. Uma promessa feita a nos próprios, mas já esquecida. Qual é a próxima derrapagem na nossa queda?

O século XX mostrou o melhor e o pior do que somos capazes. Deste século e de nós, o que contarão os nossos filhos e netos?

A verdadeira natureza de um homem vê-se na adversidade. A da Humanidade também. Não é preciso dizer que neste momento não ficamos bem na fotografia.

Ao mesmo tempo que a tecnologia avança parece recuar o nosso bom senso e inteligência. Esta regressão societal e cultural é um sinal de que estamos num momento em que o paradigma civilizacional está a mudar, como o previram (e preveniram) Samuel Huntigton, Francis Fukuyama e até Alvin Toffler.

Depois do declínio militar, económico e cultural do Império, os romanos do século V sentiram, com anos de antecedência, a invasão iminente dos germânicos e o fim do seu mundo.

É este o nosso sentimento hoje perante a barbárie dos radicais islâmicos? Esquecermos os nossos valores mais fundamentais face ao medo e à ameaça não é o primeiro passo em falso para nos perdermos? Mas se perdermos isso, eles já venceram.

José Luís Correia,
in CONTACTO, 03/02/2016

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

O Menino Jesus e o São Nicolau

Quando eu eu era pequenino, festejar o São Nicolau era algo novo para mim e para a minha família. Enquanto todos os meus amiguinhos luxemburgueses se alegravam no dia 6 de Dezembro com os brinquedos e chocolates que tinham recebido do santo patrono das crianças, eu voltava triste e cabisbaixo para casa, e perguntava à minha mãe porque razão o São Nicolau me tinha esquecido. Será que eu não tinha sido bem comportado?

A minha mãe explicava-me pacientemente que em Portugal é o Menino Jesus que traz os presentes, mas só depois da noite da Consoada, na manhã do dia 25. E sossegava-me: o Menino Jesus não me esqueceria, mas eu tinha que continuar a portar-me bem.

Com o tempo, os meus pais por certo não resistiram ao olhar abatido com que eu regressava a casa a cada São Nicolau porque, eu devia ter seis ou sete anos, quando comecei a receber chocolates e presentes no dia 6 de Dezembro... e novamente no dia 25. Na altura, lembro-me de ter pensado que o São Nicolau devia ter negociado com o Menino Jesus em meu favor.

Hoje, também eu sou pai e sei que vou ter que explicar ao meu filho quem é o São Nicolau e o Menino Jesus, ou talvez optar durante os primeiros anos por uma “fase de transição”, como os meus pais fizeram antes de mim.

Talvez seja esse uns dos segredos de uma integração bem sucedida: conseguir alcançar um compromisso entre as tradições das nossas origens e os costumes que adoptámos no nosso país de acolhimento.  

José Luís Correia 
 in CONTACTO 23/12/2015

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Entrevista com o astrofísico Nuno Cardoso Santos



A estrela mu Arae e os planetas que orbitam à sua volta podem vir a ser rebaptizados com nomes portugueses numa votação online que termina às 23h59 de 31 de Outubro. O Jornal CONTACTO falou com Nuno Cardoso Santos, astrofísico português que ajudou a descobrir dois desses exoplanetas. 

Pode ler a reportagem completa, clicando aqui 

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

"Regresso ao Futuro 2": Marty McFly chega hoje a 2015

Foto: Universal Pictures / Amblin Entertainment
Hoje, dia 21 de Outubro, é o dia em que Marty McFly viaja até ao ano de 2015, segundo o famoso filme "Regresso ao Futuro 2". Os fãs do filme a nível mundial andam a antecipar esta data há meses nas redes sociais e na internet. Hoje, há mesmo eventos organizados nos quatros cantos do mundo para celebrar este dia e a chegada de Marty ao futuro. O Luxemburgo não escapa a esta "pseudo-efeméride".

O filme de 1989 realizado por Robert Zemeckis é a sequela do grande sucesso de bilheteira do mesmo nome de 1985.

No primeiro filme, Marty viaja até 1955 para visitar os pais a bordo de um DeLorean transformado em máquina do tempo pelo cientiosta Emmett Brown. Marty acaba por perturbar o encontro da mãe com o pai, e põe em risco a sua própria existência, num paradoxo temporal que é o pano de fundo do filme. Pelo caminho, inventa o skate, o rock'n'roll, inspira "Rock Around the Clock" a Bill Halley, e vive uma série de outras peripécias.


No segundo episódio, Michael J. Fox (Marty McFly) e Christophe Lloyd (Doc Emmet Brown) viajam de 1985 até 2015 no mesmo DeLorean, que foi agora transformado em carro voador, cujo combustível é lixo reciclado.

Os dois chegam ao "futuro" precisamente hoje, quarta-feira, 21 de Outubro de 2015, às 16h29, hora da costa oeste dos Estados Unidos, já que o local onde aterram, Hill Valley situa-se, segundo o filme, na Califórnia. Na realidade é uma cidade fictícia.

Ou seja, Marty McFly deverá chegar a 2015 quando forem 1h30 da manhã desta quinta-feira no Luxemburgo.

O skate voador, a Pepsi Perfect e os atacadores automáticos 

No segundo opus de Zemeckis, em 2015 Marty McFly anda de skate voador, passa em frente a um cinema onde estão a exibir o filme "Tubarão 19", utiliza um casaco que se auto-seca depois da chuva, calça ténis Nike com atacadores automáticos, bebe Pepsi Perfect, come pizza de um micro-ondas futurista e vê toda uma série de inovações que não existem em 1985.

Se Steven Spielberg não tenciona relançar a saga "Tubarão" ("Skark", 1975), os fãs de "Regresso ao Futuro" têm nos últimos anos instado algumas marcas, como a Nike e a Pepsi, a transpôr para a realidade as ideias futuristas de Zemeckis.

Foto: Pepsi
A Pepsi aderiu ao movimento e lançou esta semana uma edição limitada da Pepsi Perfect, com uma garrafa que imita o design daquela que aparecia no filme de 1989. A comercialização da bebida está apenas garantida nos EUA.
  
A Nike fabricou em 2012 um modelo de ténis igual ao do filme. O modelo tem as mesmas cores e luzinhas que o par que Marty McFly calça, era para ser utilizado apenas numa campanha de publicidade, mas acabou por ser comercializado em edição limitada... sem os atacadores automáticos. No início de 2015, a Nike prometeu aos clientes lançar ainda este ano o modelo com atacadores automáticos. Aguardemos...


Foto: Nike

Quanto a uma das invenções mais fantásticas do filme, o skate voador, a realidade é que em 2011, uma equipa de investigadores franceses da Universidade Paris-Diderot apresentou um "hoverboard" chamado "Magsurf". O "skate" contém elementos supra-conductores, arrefecidos com azoto, que lhe permitem levitar a alguns centímetros do solo, mas apenas sobre uma plataforma com imans e numa distância de cinco metros. Este ano, em Junho, a empresa japonesa Lexus publicou um vídeo onde demonstrava ter construído um engenho semelhante, com base na mesma tecnologia.

Ainda não é bem o skate que se vê no filme "Regresso ao futuro 2", mas é o primeiro passo para construir um "brinquedo" que pode um dia tornar-se um meio de transporte tão real e prático como o Segway.

Foto: Lexus


O filme mostra toda uma série de outras previsões e inovações tecnológicas que ainda não existem, mas seriam bem práticas nos dias de hoje. Pode revisionar o filme, recordar bons momentos e ver tudo o que filme acertou ou falhou para 2015.

Luxemburgo também festeja chegada de Marty McFly ao futuro 

Hoje, são vários os cafés no Luxemburgo que organizam uma festa especial dedicada à chegada de Marty McFly ao "futuro".

Em Hollerich, o "Decibel Bar" anuncia que vai ter uma máquina do tempo à disposição dos clientes. A noite será animada por DJ Andrew Martin. O Rocas Bar, na rue des Capucins, na capital, também festeja a efeméride com uma noite onde só vão passar músicas do filme e dos anos 1980. Os bares Marx, White House, Hitch e Epic também organizam hoje noites especiais "Regresso ao Futuro 2".

Por seu lado, o cinema Utopolis propõe esta noite, a partir das 19h, uma maratona "Regresso ao Futuro", durante a qual os três filmes da saga vão ser exibidos.

José Luís Correia
in www.contacto.lu, 21/10/2015

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Editorial no Jornal CONTACTO: "Os Portugueses não são masoquistas"

EDITORIAL POR JOSÉ LUÍS CORREIA - Os portugueses decidiram que depois de quatro anos de austeridade, PàF! A coligação PàF-Portugal à Frente venceu as legislativas, reconduzindo PSD e CDS no poder até 2019.

Muitos analistas políticos não entendem este voto. Muitos internautas vestiram os seus perfis de luto nas redes sociais quando foram divulgadas as primeiras projecções no domingo. Para muitos é a incompreensão, a surpresa, a desilusão. Como é que depois de tantas manifestações contra a austeridade, contra este executivo, criticado por cortar cegamente a torto e a direito nos ordenados, nas pensões, nos direitos e subsídios sociais, por empurrar meio milhão de portugueses para a emigração – uma sangria desde 2011 –, acusado de ser ’o pior Governo de sempre’, os portugueses voltam a escolher mais do mesmo?


Portugal passa a ser o único país da UE onde o Governo que pôs em prática a austeridade consegue o “tour de force” de ser reeleito, é o que se podia ler na imprensa europeia, na segunda-feira. Serão os portugueses masoquistas?, pergunta a Europa inteira.

Para mim, não foi surpresa. Também não vejo o voto dos portugueses como masoquismo, mas como uma escolha reflectida, a opção pela solução menos pior. Não disse que concordo, disse que é assim que entendo este resultado.

Para mim o pior mesmo é o desfasamento entre a opinião pública e o resultado das urnas. A opinião pública é o que achamos que a maior parte da sociedade pensa, opinião formada a partir do que se diz, ouve e lê na imprensa, nas redes sociais, dos comentários de jornalistas, politólogos e até de entrevistas de rua com anónimos, opinião essa que é veiculada por nós, os media. Mas os diferentes ângulos sob o qual essas mensagens são devolvidas ao público acabam também por influenciar essa mesma opinião. E o que foi que se viu e ouviu nos últimos quatro anos? Os protestos anti-Governo e anti-austeridade serem presença constante na imprensa e nos telejornais. Os media mostravam um país cansado, farto, exangue e exasperado contra Passos Coelho.


Por definição, notícia é o que acontece, e não o que não acontece, passe a expressão. Faltou, quiçá, olhar para o ângulo morto do país real. Muitos portugueses talvez tenham concordado com as “reformas” de Passos e não eram esses que estavam a ter tempo de antena, nem a ser ouvidos pelos media. Porventura, até foram preteridos a outros, porque ser a favor de um Governo mais ’troikista’ que a troika era mau para as audiências. Ou talvez porque simplesmente essa massa silenciosa não tinha nada a dizer. É conhecido: quem cala, consente.

Esta é uma leitura possível dos resultados de domingo. Mas há outras em que o culpado é António Costa. Costa é culpado não tanto pelo que disse e fez, mas pelo que não disse nem chegou a fazer. Costa chegou, viu e... PàF, estatelou-se! A onomatopeia escolhida como acrónimo para representar os partidos no poder nestas legislativas foi oportuna, porque soa a estalada, a que levou António Costa, mais dos eleitores do que propriamente do PàF. Costa não soube vencer, convencer nem apresentar-se como “a alternativa”. Não soube descolar-se de Sócrates, não disse como suavizaria a austeridade, não soube ser a opção nem a solução que os portugueses ansiavam. Na falta de melhor, os eleitores escolheram o que já conheciam: “Para pior, já basta assim”, deve ter sido o raciocínio geral (a tal opinião pública).

 O que mostra que os eleitores não são burros nem masoquistas, mas percebem que há mais em comum entre PS e PSD do que entre PS e BE, e que existe até um consenso tácito entre PS e PSD/CDS em como Portugal vai ter que ser governado nos próximos anos: continuar os cortes, a austeridade, dobrar perante a troika, Bruxelas e a finança internacional. Se assim é, para quê eleger um Passos-bis, ou pior, um Sócrates-bis?

Muitos outros optaram pelo voto da contestação, sobretudo à esquerda. A esquerda cresceu no espectro parlamentar como nunca antes, com BE e CDU a conhecerem as maiores progressões de sempre. Até o partido Pessoas-Animais-Natureza (PAN, mais uma onomatopeia!) faz uma entrada histórica no Parlamento.

Muitos dos que votaram à esquerda defendem que o PS devia coligar-se com o BE e a CDU e não viabilizar o Governo. Seria histórico em Portugal uma solução que, se me permitem, apeliderei de “à luxemburguesa”, porque me lembra aquela protagonizada por Xavier Bettel, no Luxemburgo, em Outubro de 2013, quando coligou liberais, verdes e socialistas, partidos que na sua essência nada tinham em comum senão a vontade de tirar do poder o CSV e Juncker. “Não é tradição em Portugal”, dizem-me. Aqui também não era. Ainda hoje, muitos luxemburgueses chamam à manobra de Bettel um “golpe de Estado anti-democrático”. “A esquerda unida não será vencida”, podia ler-se nas redes sociais, na segunda-feira. Era preciso que a esquerda estivesse de facto unida. A começar pelo PS a nível interno.

O que há agora é muitas perguntas: se Costa não se demitir (já disse que não o faria, mas também já se contradisse tantas vezes!), qual será a sua postura perante o Governo? Se for forçado internamente a demitir-se, quem lhe sucederá? O novo líder coligar-se-á com o BE e a CDU para inviabilizar o Governo PSD/CDS? Conseguirá um improvável bloco PS-BE-CDU governar o país? Quererá levar Portugal para um caminho já percorrido pelo Syriza, com o resultado que se conhece? Quais as consequências deste sufrágio nas presidenciais? Com o país maioritariamente pintado de laranja, Rebelo de Sousa é o preferido para Belém? E, Maria de Belém, sai reforçada por ser mais “segurista” do que “costista”? Em Janeiro, os eleitores vão querer um país com um equilíbrio de forças ou completamente laranja?

Por último, lamento que as Comunidades continuem a ser o parente pobre da democracia portuguesa. Apesar de mais de cinco milhões de portugueses viverem no estrangeiro, temos apenas direito a eleger quatro deputados em 230. Dez milhões de portugueses elegem 226 deputados, os outros cinco milhões elegem quatro! Não dá vontade de votar. Talvez por isso, em mais de cinco milhões, apenas 200 mil portugueses estejam inscritos nos círculos eleitorais dos consulados. José Luís Correia

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Editorial no Jornal CONTACTO: "Ainda há estrelas no céu"

EDITORIAL POR JOSÉ LUÍS CORREIA - Na madrugada de segunda-feira, os insomníacos, ou apenas os curiosos, puderam ver no céu luxemburguês, habitualmente nublado, mas que naquela noite estava límpido e claro, o eclipse lunar de uma Super Lua, o que originou uma Lua Vermelha. Um fenómeno astronómico semelhante só voltará a ser observável nas nossas latitudes em 2033.

Mais tarde no mesmo dia, o planeta vermelho roubou a primeira página à Lua Vermelha, quando a NASA anunciou ter encontrado água líquida em Marte.

Já se sabia que o quarto planeta possuía água no estado sólido nas calotas polares, o rover Curiosity descobriu leitos secos de antigos rios e há indícios de que houve até um oceano no hemisfério norte marciano. Mas agora, foi a sonda Mars Reconnaissance Orbiter que detectou sinais espectrais de sais hidratados que aparecem e desaparecem sazonalmente em Marte. Tradução: há zonas do planeta onde existe água salgada líquida na Primavera e no Verão marcianos. Os cientistas pensam que essa água não provém do gelo do subsolo, mas da absorção do vapor de água da atmosfera nas estações quentes.

Porque é que esta descoberta é importante para nós? Porque o facto de haver água líquida em Marte permite pensar que pode existir vida microbiana marinha semelhante à que existe nos mares da Terra.

Em segundo lugar, porque a água é essencial para uma futura missão humana a Marte.

Em terceiro, porque saber se a vida como a conhecemos existe noutros mundos é uma das únicas portas de saída para quem acha, como eu, que nós não vamos conseguir salvar a Terra quando esta ficar exangue de recursos naturais, estéril e poluída.



De Marte para Cabo Verde. Algumas regiões do arquipélago fazem-me pensar nas planícies e montes marcianos, pelo menos as ilhas Sal e Fogo. Não é depreciativo. Os dois lugares têm em comum uma beleza rara, áspera, invulgar... e a falta de água. Apesar do nome, Cabo Verde é um país sem rios, onde chove apenas algumas semanas por ano e a seca extrema tudo ameaça, terras e gentes, e o futuro. Em países como este, a ajuda externa é fundamental.

Nesta edição, temos uma entrevista com o primeiro embaixador de Cabo Verde a residir no Luxemburgo. Já não era sem tempo. A comunidade cabo-verdiana que aqui está desde os anos 1960 (os primeiros vieram com B.I. português) já o justificava e as relações bilaterais entre os dois países também. Além disso, Cabo Verde é desde 1993 o país no qual o Luxemburgo mais tem investido na cooperação ao desenvolvimento.

Em mais de 20 anos, o Grão-Ducado apoiou o país com ajuda alimentar, a criação de habitações, infra-estruturas, saneamento básico e acesso à água. Graças a três Programas Indicativos de Cooperação (PIC), desde 2002 o Luxemburgo já enviou para Cabo Verde 138,5 milhões de euros.  Em Março, o Grão-Duque Henri esteve no arquipélago pela primeira vez para assinar um novo pacote de 45 milhões de euros, a utilizar até 2020 (PIC 4).

Para quem mora no Luxemburgo e visita Cabo Verde vem-nos um sentimento de orgulho por ver aqui e ali casas de saúde, centros de formação profissionais, escolas hoteleiras, escolas primárias e liceus com a menção “construído com o apoio da Cooperação luxemburguesa”. A Cooperação luxemburguesa em Cabo Verde devia ser um ”case study” para a UE e para o Mundo.

Ao exemplo do Luxemburgo contraponho o extremo oposto, o dos EUA. O Grão-Ducado investe no futuro de certos países, os EUA em si próprios. Se em vez de derrubar governos para controlar zonas petrolíferas, os americanos (e outros países como a França e o Reino Unido) tivessem negociado com o poder na Síria e no Iraque, o Estado Islâmico não teria nascido das cinzas e do caos, e não viveríamos hoje um êxodo calamitoso de refugiados.

Se os governos europeus e americano não fossem coniventes com certos ditadores africanos, as ajudas internacionais não seriam desviadas para engordar oligarcas iníquos em detrimento das populações locais. Há países africanos com tantas riquezas naturais que nem necessitariam da ajuda internacional. Mas é precisamente nesses países que o povo morre à fome, vive na miséria, não tem acesso à água e é empurrado a imigrar para a Europa. É investindo em certos países “frágeis” que se evita a imigração massiva.

A ONU propôs nos seus Objectivos do Milénio em 2000 – reafirmados no domingo em Nova Iorque, com a Agenda 2030 – que cada país rico deveria investir 1% do seu PIB para ajudar países pobres. Apenas o Luxemburgo, a Dinamarca, a Noruega, a Holanda e a Suécia cumprem esse objectivo, em mais de 190 países-membros da ONU, quase metade dos quais são considerados países desenvolvidos.

Felizmente, no Luxemburgo o exemplo não vem apenas de cima. Como resposta feliz aos queixumes e protestos nas redes sociais dos que são contra a vinda de refugiados veio a voz, mais alta, dos que logo agiram e reagiram, angariando bens e alimentos, e propondo-se até para acolher requerentes de asilo em casa.

Isto tudo faz-me acreditar no bem. Ainda há estrelas no céu. E na Terra. Valham-nos os homens e as mulheres de boa vontade. Faz mais quem quer do que quem pode.

José Luís Correia
in CONTACTO, 30/09/2015

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

"Estou sem paciência para o fim do Mundo" - Editorial no Jornal CONTACTO

Hoje é o 266° dia do ano. Hoje, o 266° Sumo Pontífice da Igreja Católica inicia a sua visita apostólica aos Estados Unidos, no primeiro dia de uma viagem que se prolonga até domingo e que o levará até Washington, Nova Iorque e Filadélfia. Francisco será o primeiro Papa a exprimir-se perante o congresso norte-americano. Um périplo que se segue a uma visita a Cuba, onde o Santo Padre se avistou com Fidel Castro, que passou décadas a perseguir os católicos.

Hoje, celebra-se também a mais importante festa judaica, o Yom Kipur, que significa “O Grande Perdão”. Amanhã, quinta-feira, tem lugar uma das mais significativas festas do calendário litúrgico muçulmano, o “Aïd al-Adha“, a “festa do sacrifício”. 266 dias é também o tempo da gestação humana, desde a concepção, entenda-se.

Uma coisa não tem nada a ver com outra mas, no entanto, há quem queira ver sinais nestas "confluências".

Uns vêem indícios de esperança, uma cada vez maior abertura do Vaticano ao mundo, pontes e pontos comuns entre as grandes religiões, que mostram que um aprofundar do diálogo interreligioso é possível e até salutar, como preconiza Francisco. Mas, também há, como sempre, os postilhões da “desgraça” a apregoar o fim dos tempos.

Basta percorrer a internet rapidamente para encontrar a lista de todas as catástrofes que nos esperam a partir de hoje e até domingo: a colisão de um asteróide com a Terra (o que a Nasa desmentiu em Julho), um novo colapso de Wall Street e o agravamento da crise financeira, atentados terroristas em catadupa e o caos global, guerra civil nos Estados Unidos, uma nova pandemia planetária, a Terceira Guerra Mundial, a chegada de alienígenas, mais do mesmo, etcêtera e tal.



Outra vez? Mas, esperem lá, o fim do Mundo não foi lá atrás? Não estava agendado para 1999, com o ’bug’ Y2K do milénio a anunciar a queda da estação espacial Mir em cima da Torre Eiffel? Ou estarei a confundir as coisas? A não ser que tivesse acontecido em 2012, e eu não tivesse reparado? Afinal, ainda cá estamos. Paco Rabanne enganou-se, é melhor a desenhar vestidos do que a fazer profecias (ainda bem para nós e para a moda), Nostradamus revelou-se um bom calculador de eclipses e mais nada, e o calendário maia é apenas isso, uma mera agenda hortícola e religiosa.

Depois dos fins dos mundos falhados de 1999, 2000 e 2012 pensei que os paladinos da escatologia apocalíptica tivessem, eles, os dias contados. Afinal, nada há de mais resiliente do que uma ferverosa fobia do fim do mundo.

Acrescente-se a estas coincidências mais uma, a “tétrade lunar” – termo astronómico que de repente comecei a ouvir na boca de pessoas que nem sabem descrever o que é um ecplise, mas que juram a pés juntos que esse é um sinal do Armagedão. Eu cá, que até gosto de astronomia, tive que procurar o significado.

A “tétrade lunar” descreve um fenómeno raro, mas não único (a última ocorreu em 2003-2004), quando quatro ecplises lunares totais acontecem consecutivamente num relativo curto espaço de tempo. Ora, depois dos eclipses lunares de 15 de Abril e 8 de Outubro de 2014, seguidos do de 4 de Abril de 2015, o quarto, em menos de 18 meses, acontece neste próximo domingo, 27 de Setembro. Como nestes eclipses o nosso planeta se interpõe entre o Sol e a Lua, a Terra projecta a sua sombra sobre o nosso satélite, eclipsando-o e dando-lhe uma cor alaranjada, o que popularizou designações como “lua vermelha” ou “lua de sangue”.

Os arautos do apocalipse, dos mitos e dos medos, pegaram nestas coincidências, rebuscaram a Bíblia, do livro da Revelação aos textos apócrifos, retiraram excertos do seu contexto e deturparam-nos para que se ajustassem, bem ou mal, aos seus presságios funestos. Tudo bem misturado num caldeirão grosseiro, com uma pitada de superstição, uma mão cheia de crendice, temperar com mau augúrio a gosto, alguns gramas de pavor néscio e a receita sibilina está no ponto. Aquecer q.b. em lume obscurantista, servir ao povão na internet ou na tv em formato de pseudo-documentário: pânico assegurado!

 Estes Bandarras-aprendizes, que poluem a internet, o pequeno ecrã e a minha caixa de e-mail como pítias pífias patéticas, devem ter muito tempo e paciência para este tipo de hobby, ou estão desempregados, ociosos e desesperados para querer arrastar o resto da Humanidade na sua paranóia depressiva. Eu estou sem paciência para o fim do mundo.

Quanto à chegada dos extraterrestres, que sempre são anunciados nos períodos escatológicos (coitados, eles sabem lá!), devem ter decidido a tempo não desembarcar neste pardieiro. Até consigo imaginar: E.T. phone home –“Está lá? Estes terráqueos são perigosos! Desembarque desconselhado. Estes gajos não se entendem nem entres eles, continuam à paulada desde o tempo das cavernas, não se aceitam entre si, deixam morrer crianças, famílias inteiras nas praias, no mar e no deserto, sem estender a mão. Como é que vão acolher seres de outro planeta? Eles pensam que isto é tudo deles. É melhor adiar o nosso projecto de abrir ali uma feitoria.”

Se por ventura existem, os ETs devem é ter medo de nós, esta região do universo é tóxica para qualquer tipo de vida inteligente. Não são os deuses que devem estar loucos. Nós, humanos, é que damos sinais de loucura e de suicídio colectivos todos os dias. Luz precisa-se!

José Luís Correia,
in CONTACTO, 23/'09/2015

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

A minha relação platónica com a(s) Ciência(s)


Numa próxima vida serei cientista, apetece-me dizer depois de ler estes dois livros do biólogo e entomólogo Edward O. Wilson. Voltei a sentir a mesma paixão pela Ciência do que quando era criança. Não sei como me interessei pela Ciência, se foi gracas à paixão que Carl Sagan me conseguia transmitir no seu magnífico "Cosmos", se às emissões dos irmãos Bogdanov, se à série "Il était une fois...", se aos documentários televisivos que eu via, ou os livros que me ofereciam e eu devorava.

Desisti uma primeira vez de ser cientista quando percebi que a Matemática era uma das chaves obrigatórias para aceder a esse grande templo. Como na disciplina de "Rechnen" eu sempre tinha sido um aluno mediano, percebi que devia optar por outro caminho, talvez a escrita, talvez o ensino. Em caminho, fui seduzido pelo Jornalismo, ao qual também fui ter por acaso.

Matemática: bem me quer, mal me quer

Ao chegar ao liceu, no sétimo, voltei a ter esperança no meu amor renegado pela Ciência quando fui nesse ano lectivo o melhor aluno a Matemática.

O professor de Matemática - acho que se chamava qualquer coisa Cândido de Oliveira -, era um pequeno tirano, muito empertigado, seco e ríspido, ou dava ares de ser para nos intimidar. E funcionava. Todos tinhamos medo dele. Dava as aulas invariavelmente de fato e gravata, azuis como o seu Rover 213, o da bagageira alta, um modelo novo na época. Nós, os putos, para conjurar o medo, chamavamos-lhe 'Pinguim'.

Ele devia ter uns 30 anos, mas parecia mais velho, e não conseguia, ou não queria, mostrar empatia para com os alunos. Destilava a matéria a uma velocidade supersónica, as equações inundavam o quadro negro de uma ponta a outra, e antes que pudéssemos recopiar os hieróglifos, ele apagava tudo e já estava a explicar o que nem tinha começado a escrever no quadro ainda molhado. Aborrecia-se depressa com quem não entendia à primeira e chamava nomes a alguns dos alunos. Tinha sapiência, mas a pedagogia tinha ficado pelo caminho, se alguma vez a teve. A mim, o homem tratava-me bem, talvez por ser o melhor aluno. Não sei o que me aconteceu nesse ano, estávamos a ser iniciados a uma nova matéria e a mim tudo me parecia de repente óbvio e fácil, sentia-me iluminado e não entendia as dificuldades que os outros sentiam. Foi sol de pouca dura.

No oitavo ano, com 14 anos, tive uma paixoneta pela minha professora de Química, uma jovem talvez dez anos mais velha, alta, magrita, frágil, de óculos gigantes, um bocado desajeitada, mas gira, de voz doce e de cabelos à Whitney Houston, que me tresloucavam. Mostrei-me aplicado e interessado, o que me valeu boas notas na disciplina e mais uma vez pensei na Ciência como um futuro possível.

Mas no nono ano tropecei na realidade e o golpe de misericórdia foi-me desferido com a iniciação à Trigonometria. O professor era um antigo Comando, as lições pareciam operações militares, as noções eram ensinadas como se fossem ordens, os paus de giz a voar eram pelotões de fuzilamento, os testes eram teatros de guerra. Comparado com este professor, o 'Pinguim' tinha sido a Madre Teresa de Calcutá. Nesse ano, senti-me completamente perdido para a Matemática e, por conseguinte, para a Ciência.



O que me decidiu também a não seguir um curso científico não foi apenas a barreira da Matemática. Foi igualmente o estado da Ciência em Portugal no fim dos anos 1980, próximo do grau zero. Desde as aulas de Quimica, Fisica e Biologia ministradas sem paixão, em salas não adaptadas de escolas secundárias vetustas, por professores sem vocação, que preferiam estar num laboratório, entre estiletes, tubos de ensaio e amostras, do que a aturar jovens fedelhos, até ao desinteresse completo do Estado em investir neste sector.

Aconselho a este propósito um livro bastante explícito sobre este assunto, "Diálogos sobre Portugal" (1998), escrito a duas mãos por Mariana Pereira e pelo professor de Física e Biofísica Manuel Paiva (então na Faculdade de Medicina da ULB-Universidade Livre de Bruxelas, e que trabalhou com a NASA e a ESA).

Fascínio pela Ciência

Mais tarde, no primeiro ano da faculdade, a cadeira de Estatística voltou a provar-me que a Matemática não era minha amiga. Mas conservei o fascínio pelos números, as equações, a geometria, a teoria das probabilidades. Para mim, que tanto me orgulho de aprender fácil e rapidamente novas línguas, essa linguagem teimava em resistir-me, mostrava-se críptica, permanecia opaca, indecifrável. Afastei-me definitivamente da Matemática.

Mas da Ciência não. Interessei-me pela Astronomia (o céu nocturno do Verão algarvio é irresistível), pela Biologia Marinha (um dos primeiros cursos da então recém-inaugurada Universidade do Algarve), pela Física (a atracção dos corpos), pela Electrotecnia (despiste total), pela Vexologia (pus na cabeça decorar todas as bandeiras do mundo), pela Cartografia (ainda hoje tento coleccionar mapas antigos), pela História, que explorei na Universidade, e até pela Geografia, outra história de amor transviada.

Na Geografia sempre fui "aluno muito aplicado, mas de aproveitamento fraco", segundo anotação na minha caderneta do professor António Cerdeira, no oitavo ano. Para não me desanimar confiou-me que tinha sido professor 30 anos antes de um aluno "aplicado, mas de aproveitamento fraco" e que, apesar disso, tinha chegado a primeiro-ministro, o aluno Aníbal António Cavaco Silva, naquela mesma Escola Secundária Tomás Cabreira, em Faro, mas que na altura se chamava Serpa Pinto ou Escola Industrial,

Há dois anos, cruzei-me de novo com ela

Ha dois anos, cruzei-me de novo com ela, a Matemática. Tudo aconteceu quando decidi aprofundar os meus conhecimentos em Astronomia, Física, Física Quântica e Astrofísica, nas pesquisas que tenho de fazer para o romance de ficção científica que estou a escrever.

Fiquei de novo tão fascinado pelas equações dessas disciplinas e pelas ciências em geral, que fui logo a correr comprar, como um alarve, o livro "Gödel, Escher, Bach: An Eternal Golden Braid" (1979) de Douglas Hofstadter. Caí de bem alto. Massudo, compacto, denso, abordando noções e definições complexas, num discurso sábio, mas ininterrupto e nada conciso, o livro revelou-se-me impenetrável, ilegível, codificado, para alguém como eu com tão grandes lacunas a Matemática.

Edward O. Wilson é o Carl Sagan da Biologia

Voltemos a Edward O. Wilson. O primeiro livro que li dele foi "The Meaning of Human Existence" (2014). Comprei um exemplar para ter acesso à integralidade do capítulo intitulado "A Portrait of E.T.".

Eu procurava tudo o que pudesse sobre exobiologia, conjecturas sobre as possibilidades de vida no Sistema Solar e nos cerca de dois mil exoplanetas descobertos até hoje, as últimas notícias sobre os insectos extremófilos que existem nos fundos dos oceanos da Terra, etc. No seu livro, Wilson conjectura sobre as possíveis formas da vida alienígena, desde as mais simples e microbiológicas até a eventuais formas mais complexas ou mesmo inteligentes, responde a algumas das minhas dúvidas e fez até nascer outras, nas quais eu até nem tinha pensado.

No segundo, "Cartas a um Jovem Cientista" (2013, para a edição original em inglês), Wilson conta como despertou para a biologia, para a entomologia, e fala do seu amor pelas formigas. De repente, pareceu-me estar a mergulhar, de novo, com o mesmo fascínio dos meus tempos de juventude, no universo da trilogia "Les fourmis" (1991-96), de Bernard Werber.

Porque razão é que os livros de Wilson me levaram a pensar e a escrever aqui sobre as minhas relações complicadas com as ciências? Porque Wilson é o Sagan da Biologia. Fala com tal amor da sua disciplina, explica com palavras simples os fenómenos mais complexos, que nos seduz, embarca na sua paixão, no seu mundo.

Porque me fascina tanto a Ciência? Porque é, afinal, o caminho infinito para a compreensão do mundo e do universo.

Mas esta minha relação com a Ciência tem sido assim, um bem me quer, mal me quer, um amor renegado a que sempre regresso. Mas no final de cada nova incursão, sou sempre obrigado a admitir que no meu percurso académico, profissional e de vida não adquiri as ferramentas necessárias para poder dominar muitas das disciplinas que me fascinam. E o meu amor pela Ciência fica-se assim, na sua forma platónica, muito perto da estéril.

José Luís Correia
11/09/2015

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

"Refugiados e migrantes, bem-vindos!"

Refugiados e migrantes, sejam bem-vindos! É a voz, humana e humanitária, que começa a sobressair por entre os gritinhos histéricos da turba. A turba dos grupelhos de extrema-direita que ateiam fogo a centros de refugiados; a trupe grotesca dos governos politicamente correctos ’que se comovem, mas não se movem’, como criticou o primeiro-ministro italiano, Mateo Renzi, no domingo; o bloco sisudo, ainda mais grotesco, dos governos politicamente incorrectos, como o Reino Unido, que pensam “Não, vocês não têm a pigmentação suficientemente clara, a religão certa, a nacionalidade autorizada”, mas argumentam “A Europa não vos quer cá!”.

Imaginemos uma ilha, uma ilha pequenina. Um barco naufraga ao largo, centenas de pessoas ao mar em risco de se afogar, homens, mulheres e crianças. Por muito pequena que a ilha seja, como podemos não resgatar os náufragos e depois disso continuar a olharmo-nos ao espelho e a considerarmo-nos seres humanos?

Um continente não mais é do que uma ilha maior. O nosso e os outros continentes já cá estavam quando aqui chegámos e ainda hão-de existir depois de a Humanidade deixar de habitar este planeta. Então o que faz da Europa o nosso continente, a nossa propriedade? Não chegaram os nossos antepassados de África e do Médio Oriente? Sem eles, a Europa não era o que é hoje. Não desce(nde)mos todos da mesma “árvore”? Ou ainda há por aí uns que se acham símios a pulular e a ulular num ramo, “Este é meu, este é meu!”?

Imaginemos uma mão. Se nos derem a escolher, que dedos deixaremos que nos amputem? Pode o médio funcionar sozinho só porque é o maior, ou o polegar porque é o mais gordo? Imaginemos um mundo com cinco continentes. O nosso. Podemos construir muros e cercas de arame farpado para separar o que nem os mares conseguiram apartar? Ou entendemos finalmente que este mundo só avança com todos, ou esta ’dita’ civilização não tem futuro.

 “Não há lugar para toda a gente!”, vociferam-me, vituperam, insultam-me no Facebook, cada vez que defendo uma UE aberta e solidária, e repudio a Europa-fortaleza. O mesmo tipo de gente já dizia na década de 1970 que havia portugueses a mais no Luxemburgo. E, no entanto, foram esses portugueses que ajudaram a construir o Kirchberg, Belval, as torres de marfim da praça financeira e tudo o que faz do Grão-Ducado o país que é hoje. E quase, por certo, foram portugueses que construiram a vivendazinha ou o appartement grand standing onde vive anafada esse tipo de gente que gorgolha agora essas mesmas idiotices primárias e xenófobas.

Hoje, o Luxemburgo, Portugal, e a Europa em geral, precisam dos refugiados e dos migrantes. Toda a Europa tem a sua população a envelhecer. Por muitas campanhas de incentivo à natalidade que promovam neste ou naquele país, em 2030 a população activa da UE não será já suficiente para pagar as reformas ou para assegurar uma segurança social sustentável. O que fazer? Ou aumentamos brutalmente as quotizações sociais (ainda mais?), ou reduzimos os montantes das pensões (menos ainda?), ou deixamos entrar mais trabalhadores, mais migrantes. A matemática é simples. Não há muitos caminhos por onde escolher.

Você está disposto a trabalhar ’uma vida inteira’ e depois ter de abdicar da sua reforma, quando descontou para os outros durante 40 anos? Pois, também me parecia que não. Recusando estes refugiados e estes migrantes agora, é o nosso futuro que estamos a hipotecar. E o dos nossos filhos.

 Ou a Europa sabe agir e reagir, hoje e agora, face à catástrofe humanitária que está a acontecer às suas portas – no que já é considerado o maior movimento de populações desde a Segunda Guerra Mundial –, ou esta tragédia ficará como uma mancha negra e indelével nas páginas da nossa História. Os nossos filhos questionar-nos-ão sobre os dias de hoje. E, por muito que lhes tentarmos explicar que ’tínhamos medo’, que ’não havia lugar’, que ’não havia trabalho para todos’, eles olhar-nos-ão mudos e incrédulos com a nossa desumanidade, e só verão crueldade e cobardia na nossa apatia e indiferença perante o grito desesperado de outros seres humanos a pedir socorro e a morrerem aos milhares na soleira da nossa porta. Não poderemos dizer-lhes, como outros fizeram antes de nós: “Não sabíamos!”. Todos sabemos o que está acontecer.

“Só queremos viver!”, tentam explicar às câmaras de televisão os migrantes, antes de saltar com os seus filhos ao colo o arame farpado na Macedónia, na Hungria ou em Ceuta. Fogem de guerras que não fomentaram nem entendem. Outros tentam escapar da miséria de um continente que foi esquecido depois de ter sido deixado exangue pelos colonizadores. Nós temos a responsabilidade humana, moral e ética de acolher os refugiados. E até a responsabilidade legal, como signatários da Convenção das Nações Unidas relativa ao Estatuto dos Refugiados de 1951. Acima de tudo, eles precisam de nós, e nós precisamos deles.

José Luís Correia
in CONTACTO, 02/09/2015

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Taxista agride cliente "Este tipo de taxistas mancham o bom nome dos outros profissionais", diz presidente da Federação dos Taxistas do Luxemburgo


"Eu acho que foi um desses taxistas ilegais que andam para aí. Não foi nenhum dos meus motoristas, isso tenho a certeza, e não acredito que tenha sido algum de uma empresa credenciada da nossa praça. Este tipo de taxistas mancham o bom nome dos outros profissionais!", diz ao CONTACTO Olivier Gallé, presidente da Federação dos Patrões de Táxis do Luxemburgo e proprietário da Colux Taxis, reagindo à agressão que uma cidadã irlandesa sofreu por parte de um taxista na sexta-feira (14 de Agosto).

"O problema é que as pessoas não sabem ou não se dão ao trabalho de reconhecer os táxis 'verdadeiros', isto é, os que dispõem de licença. Depois são aldrabadas!", lamenta Gallé, que preside desde 2012 a federação que reagrupa cerca de 190 empresas do sector.

"Não basta um veículo ter um sinal amarelo no tejadilho para ser um táxi. Os táxis com licença têm que estar devidamente assinalados como tal, ou seja: ter uma placa comunal, neste caso o veículo devia ter uma placa da cidade do Luxemburgo, e devia ter igualmente, uma placa com um número T. Dentro, o veículo deve estar equipado com um taxímetro, que a lei obriga os motoristas a accionarem durante as viagens", explica Olivier Gallé.

 "E quando um cliente discute o preço, como deve agir o taxista?", perguntamos a Olivier Gallé. "Nunca como aquele taxista agiu!", garante Gallé.

"Os bons profissionais não agem assim. Normalmente, nem sequer há este tipo de altercações porque, como a lei estipula, o taxímetro, que afixa a tarifa, tem que ser visível pelo cliente, e por isso este sabe quanto vai pagar."

Dez euros por 500 metros 

A cliente, Maya Magdy diz que foi agredida e retida no táxi quando se recusou a pagar os 10 euros que o motorista lhe reclamava pelos 500 metros que tinha feito com ela, até ao boulevard Napoléon Ier, na cidade do Luxemburgo.

Maya contou ao wort.lu em francês que na sexta-feira foi de autocarro até ao estádio Josy Barthel, mas deu-se conta, através do GPS do seu smartphone, que ainda estava a 500 metros do local de uma festa para a qual tinha sido convidada.

Estava a chover muito e o seu smartphone não estava a funcionar bem. A mulher diz que resolveu então acenar a um táxi e pedir-lhe para a levar até à morada indicada.

Maya conta que o taxista não sabia onde ficava a rua e que demorou bastante a procurar a morada no seu smartphone, apesar de o veículo ter GPS. O taxista só viria a ligar o GPS do veículo depois de Maya insistir muito. Quando finalmente chegaram à morada indicada, aconteceu a agressão.

Maya conta que mostrou indignação pelo montante pedido e propôs pagar metade. O taxista furioso teria saído do lugar do condutor, abrido a porta de trás, dando-lhe um murro no ombro. Maya conta ainda que tentou fugir pela outra porta, mas esta estaria trancada. O homem ter-se-ia depois sentado a seu lado e exigido que ela lhe pagasse os 10 euros.

"Um casal que passava nesse momento na rua e que também ia à festa tentou intervir, mas o taxista não quis saber e só me deixou sair quando lhe dei os 10 euros", recorda a irlandesa.

Antes de arrancar, o taxista ainda ameaçou que iria fazer queixa dela à Polícia. Finalmente, foi Maya que apresentou queixa na comissariado central da cidade do Luxemburgo, ainda no fim-de-semana.

Maya veio viver para o Luxemburgo há mês e meio para integrar a empresa de consultoria Deloitte, e diz que nunca viveu este tipo de situação "humilhante" e "chocante" em lugar nenhum.

JLC, com wort.lu/fr
(in contacto.lu, 18/08/2015)

terça-feira, 21 de julho de 2015

Vida

"Muitas vezes esperamos, ansiamos, que a vida se concretize, aconteça. Não nos damos conta que a vida é tudo o que acontece, e tudo o que acontece é a vida."

JLC, 21.07.2015

terça-feira, 30 de junho de 2015

Passeio por Lausanne, Morges, Vidy

30.06.2015

Um calor insuportável. Pequeno-almoço no Hôtel des Pierrettes, em Saint-Suplice. Passeio até ao centro de Lausanne, e depois pelas margens de Vidy e o Parque Olímpico, com muitas paragens à sombra.

Lausanne não é uma cidade bonita nem feia, há algumas casas históricas interessantes, um centro banal, ruas que sobem e que descem, sente-se que os tempos áureos já passaram. A beira-rio é o lugar mais interessante, ou cómodo, pelo menos no Verão. O parque olímpico é muito sujo, vínhamos com ideias preconcebidas sobre a imaculada Suíça, o Luxemburgo faz melhor neste campo.

Sente-se a miscigenação de culturas variadas, passamos ao lado da sede da Associação Portuguesa de Morges e numa rua onde as hortas se sucedem, as bandeiras das quinas não deixam dúvidas, os portugueses estão em todo o lado.

M. não resiste a ir molhar os pés na praia de Vidy. A. estranha e choraminga no seu primeiro contacto com a areia de praia. Do outro lado do lago, as silhuetas ténues das montanhas, tornadas quase azul-translúcidas pela luz da manhã, parecem nuvens sobre um oceano sem ondas. Faço duas, três fotos, posto no Facebook e meto ao desafio quem descobrir onde estou.

A Suíça é um país caro. Um café expresso custa 3,70 francos à beira-rio. No Luxemburgo varia entre 1,80 e 2,50 euros. Um almoço para dois, 70 euros, sem vinho. No Luxemburgo, 40 euros chegavam. Uma pizza, 24 euros, no Luxemburgo, máximo 16. O franco suiço está actualmente em valores muito semelhantes ao euro.

Ao almoço num restaurante-snack de Vidy temos vista sobre o maior lago de água doce da Europa, imenso, brilhante, um espelho que abarca o olhar e tranquiliza a vista. Nesta margem, uma caloraça, lá, na outra, os Alpes e as suas neves permanentes.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Lausanne

29.06.15

Chegamos ao hotel pour volta das 18h. O caminho foi rápido e sem stress. Mas com muito calor. Junho numa auto-estrada rumo ao sul, mercúrio perto dos 40, M. estica os pés descalços no tablier. A. dorme, brinca com os dois brinquedos que lhe comprámos para a viagem, zanga-se, atira-os fora, chora, fica rabugento, pede água, pede pão, bolachas, queixa-se do sol, paro o carro, instalo um protector com duas ventosas na janela para tapar o sol, quilómetros mais à frente ele continua a queixar-se, volto a parar, mas desta vez opto por prender uma toalha na janela do carro, como a minha mãe fazia nos anos 1970, por vezes os truques mais antigos são os melhores.

Luxemburgo, Metz, Estrasburgo, Basileia, Lausana. Para nós Basileia, Basel, Bâle significa fronteira, e uma teia emaranhada de auto-estradas, tunéis, nós rodoviários, vias de entrada e de saída, placas de direcção com todos os nomes das poucas cidades suíças que conhecemos, Berna, Genebra, Zurique, Montreux, Luzerna,..

Espalhamos as coisas pelo quarto, tomamos um duche frio, o corpo acorda da dormência das sete horas da posição sentada, entreabro a janela de sacada, espojamo-nos na cama de lençóis frescos.

Vou até à pequena varanda, onde M. fuma um cigarro reparador. Sento-me numa das duas cadeiras em metal velho e rabisco estas linhas num caderno tosco, para mais tarde transcrever para um blogue, que já nem eu leio. No quarto, A. brinca com um gancho de papel que diz "Ne pas deranger, svp!" de um lado e do outro "Nettoyez ma chambre, svp!". Torce e retorce o gancho, como o afinco de quem está a fazer uma coisa muito séria. O gancho não cede, é de papel plastificado. Mas A. não desiste.

Pelas 19h30 temos encontro combinado com R. e a mulher no restaurante do parque de campismo de Morges, ao lado de Lausana. Estamos cansados mas sem muito fome, pedimos ambos uma salada. Os velhotes pedem um gratinado de queijo e vinho tinto. Pesado. Têm apetite e estômago. Estimo a idade do R. nos 70 e tal, pergunto-lhe se tem filhos. Ri-se com uma gargalhada franca. Nasceu no início dos anos 1930, casou em 1952, tem três filhos, seis netos e não sei quantos bisnetos... Engulo em seco, enquanto ele devora o gratinado como se fosse uma nesga de pão.

Atravessou um dos piores séculos no melhor país do mundo, não sofreu guerras nem crises, foi ferroviário, viajou, trabalhou, amou, viveu, está há mais tempo na reforma que alguns de nós na vida. Eu olho-o com respeito e já alguma admiração. Como resolveu retribuir o bem que a vida lhe deu? No fim dos anos 1970 resolveu ajudar as crianças de um dos países mais pobres da Europa da então. Hoje, uma inteira geração deve-lhe o ter tido uma quase infância e adolescência normais, não ter passado frio ou fome, estar simplesmente viva.

Como comparar este grande homem, que apesar de tudo o que fez não ficará na História da Roménia, com o medíocre e cruel Ceaucescu. Dou-me conta que um ferroviário da classe média suiça com o pouco que fez, fez mais por muitas crianças romenas do que o líder máximo que prometeu ser o guia do seu povo, mas que só o agrilhoou e arruinou ainda mais, de Bucareste a Piatr Niamt, de Sibiu a Constança, para ele e a mulher poderem viver numa opulência nojenta, e enquanto as crianças do seu povo morriam à fome, ele e a sua puta cagavam em retretes banhadas a ouro.

O restaurante do parque de campismo é de um português de Bragança e a empregada fica surpreendida com o falarmos português. Há mais portugueses na Suíça do que no Luxemburgo, mas não estão tão concentrados, o que me faz concluir que não se fale abertamente a língua de Camões como no Grão-Ducado.

Anoiteceu depressa, nem demos pelo pôr-do-sol. Depois do jantar, os velhotes voltam para casa, moram em Tolochenaz, a poucos quilómetros dali. Nós regressamos ao hotel, mas não resistimos a fazer uma caminhada nocturna pelas margens do lago Léman. A. ainda está bem desperto e o passeio também lhe vai fazer bem a ele.

As lâmpadas dos barcos ao longe criam caminhos de luz na superfície do lago, a lua deixa-se ondular nas águas, o massiço majestuoso na outra margem recorta-se na escuridão. Uma tranquilidade apaziguadora. Já sentimos saudades deste lugar que acabámos de descobrir...



quarta-feira, 10 de junho de 2015

La communauté portugaise au Luxembourg - une présence depuis 50 ans

En quelle année l’immigration portugaise a commencé, comment établir une date? Doit-on prendre en compte la date du premier pélerinage des portugais au sanctuaire de Notre-Dame de Fatima à Wiltz, qui a débuté en 1968? Ou la création de la première association portugaise, les Amitiés Portugal-Luxembourg (APL), en 1969? Ou encore la date des accords de 1971 entre les gouvernements du Luxembourg et du Portugal pour la venue de main-d’oeuvre portugaise? Est-ce qu’il y a eu d’autres évenements avant ceux-lá qui pourraient fixer le début de l’immigration portugaise? 

Dans la brochure “Les Portugais au Luxembourg”, l’ASTI publiait en 1992 l’acte de naissance d’une jeune fille portugaise née en 1928 au Grand-Duché, enfant d’un travailleur de l’Arbed. Au CONTACTO nous avons interviewé en 2010 Mme Maria Augusta Esteves, qui habite la région de la Moselle depuis 1955, et qui est venue au pays après s’être mariée avec un Luxembourgeois.

Les tous premiers Portugais sont arrivés au Luxembourg au début des années 1960. Selon la même brochure de l’ASTI, il y avait 26 portugais en 1960 au Luxembourg, mais ce chiffre ne reflète que ceux qui étaient ici officiellement, pas les clandestins. Leur nombre était sûrement beaucoup plus grand. Ces premiers temps, les portugais venaient surtout comme travailleurs saisonniers dans les vignobles de la Moselle. Mais nous savons, par exemple, que certains ont également aidés à la construction du port de Mertert, entre 1963 et 1965.

Est-ce qu’une demi-centaine de personnes dispersées constituent déjà une communauté? Dans son livre “Culture portugaise au Luxembourg” (1973), José Mendes-Costa, le premier consul portugais au Luxembourg, fait l’état des lieux du moment où il est arrivé au Grand-Duché, en 1965. Il écrit qu’avant 1965 il y avait déjà 758 portugais au Luxembourg et qu’en cette seule année de 1965 sont arrivés encore 740. Il parle également d’arrivés massives entre 1968 et 1969, entre 1.000 et 3.000 personnes. Entre 1965 et 1969 seraient donc arrivés au Luxembourg plus de 5.500 portugais, selon les registres de l’époque du Consulat du Portugal, comme Mendes-Costa mentionne dans son livre.

L’actuel Consulat portugais ne dispose malheureusement plus de ces archives. Toutefois, nous avons pu parler avec la première secrétaire du Consulat du Portugal au Luxembourg, Maria José Donven, qui confirme ces chiffres. “Quand j’ai quitté le Consulat en 1970, il y avait déjà près de 11.000 inscrits”, se rappelle Mme Donven - née Maria José Rodrigues de Abreu -, qui est arrivé au Luxembourg en 1963 et a aujourd’hui 71 ans.

Maria José a été recruté comme première secrétaire du Consulat du Portugal, car elle avait déjà était entre 1963 et 1965, l’assistante du consul-honoraire du Portugal à Luxembourg, M. Jean Turk [1919-2013], nommé à ce titre le 17 août 1959.

Le livre du consul Mendes-Costa nous révéle qu’à peu-près la moité - 5.400 portugais - seraient arrivés en cette année de 1970. Cependant, ce chiffre ne reflète pas la réalité, car tant qu’un citoyen portugais n’avait pas besoin d’aller au Consulat, il ne faisait, par consequent, pas partie du registre. Lá encore, le nombre a du être beaucoup plus conséquent. Ce qui est curieux ce sont les chiffres du Statec, qui font état de 1.913 portugais en 1970!

Revenons à 1965. C’est en cette année que nous trouvons la trace du premier évenement organisé par des Portugais. Le dimanche 13 juin 1965 a eu lieu la première Fête du Portugal au Luxembourg. Traditionnellement, le jour de la fête nationale portugaise est célébrée le 10 juin, jour de la mort du poète national, Luiz Vaz de Camões (~1524-10/06/1580).

Cette première fête fut célébrée lors d‘une messe à la cathédrale Notre-Dame de Luxembourg. La date va d’ailleurs être célébrée para la Mission Catholique Portugaise dimanche prochain, 14 juin 2015, à 17 heures, à l’eglise Sacré-Coeur, à Luxembourg-ville.

La messe à la Cathédrale a été suivi d’un déjeuner à la salle de fêtes Carrefour, qui à l’époque se trouvait au boulevard Royal. Nous retrouvons dans le Luxemburger Wort du 19 juin 1965 un article qui en parle. Sous le titre „Erste ‘Journée Portugaise’ in Luxemburg“, l’article explique que la fête a été organisé par M. Marcel Barnich, responsable du Service Social de la Main d’Oeuvre Etrangère (future Service Social de l’Immigration). Ce que le Luxemburger Wort ne dit pas, mais nous pouvons l’affirmer, c’est que M. Barnich a été aidé par M. Carlos de Pina, fondateur du journal CONTACTO.

Mme Heroína de Pina, veuve de M. Carlos de Pina, se souvient: “Mon mari est arrivé en mai 1964 au Luxembourg. Il connaissait déjà le pays car au Portugal il collaborait avec l’Action Catholique et il était déjà venu avec le père Plácido Guerné visiter le Grand-Duché. Il a travaillé comme éléctricien chez Soclair et après au grands magasins Sternberg Frères. Pendant son temps libre, il organisait des activités pour les Portugais. Il a été un des fondateurs des Amitiés Portugal-Luxembourg (1969) et du journal CONTACTO (1970). Et en 1965, c’est lui qui a eu l’idée d’organiser cette première Fête du Portugal. Il a demandé l’aide de M. Barnich, qui a tout de suite dit oui!”

Mme de Pina, qui a aujourd’hui 79 ans et vit à Mersch, nous montre une des photo de ses archives familiales.

“La seule photo qui existe devant la cathédrale avec les Portugais qui ont participé à cette messe a été faite par mon mari. C’est lui qui a envoyé une invitation pour la fête du 10 juin à l’ambassade du Portugal à Bruxelles et c’est Mendes-Costa, qui était à l’époque encore vice-consul à Anvers, qui est venu!”, nous explique M. de Pina, en nous montrant une copie de l’invitation et la réponse de Mendes-Costa. José Mendes-Costa sera nommé consul du Portugal à Luxembourg en 1966 et inaugurera le premier Consulat portugais au Grand-Duché en mars de la même année.

Dans l’article du Wort du 19 juin, nous lisons: “Pendant la fête furent montrés de films en couleur du Portugal, qui ont reveillés dans les coeurs des portugais des souvenirs de leur patrie. Il y a eu de la musique, des chanteurs et des danseurs portugais, luxembourgeois et cap-verdiens”. Ces derniers, à l’époque, avaient encore la nationalité portugaise, le Cap-Vert n’étant devenu indépendant qu’en 1975. Sur une des deux photos de l’article du Wort, la légende, qui serait aujourd’hui considérée politiquement incorrecte, dit qu’il y avait des “chanteurs à la peau sombre des îles du Cap Vert”.

Selon le Wort, les organisateurs espéraient une centaine de personnes et ont été surpris de voir arriver cinq fois plus de monde! L’article dit qu’à ce moment vivaient au Luxembourg peut-être 1.000 portugais, sans pour autant citer de source. Rappelons que dans son livre, Mendes-Costa dénombre en 1965 quelques 1.500 portugais au Grand-Duché.

L’article du Wort parle aussi de deux jeunes luxembourgeoises, la danseuse Melle Marie-Claire Winandy (élève de Mme Stenia Zapalowska, danseuse polonaise qui vivait à Luxembourg) et la chanteuse Melle Maggy Groff, qui ont reçu des “aplaudissements bruyants du public portugais”. Le journaliste du Wort nous livre également les propos de M. Barnich en s’adressant à ses convives: Il a remercié les Portugais d‘être venus si nombreux à la fête et au Luxembourg. Il a parlé du vrai besoin que le Luxembourg a en main d’oeuvre étrangère, et il a terminé en souhaitant la construction d’une Europe plus unie. La fête s’est terminé avec l’hymne national portugais”, conclut l’article.

Pouvons-nous assumer cette date comme le début de l’immigration portugaise au Luxembourg? Nous aimerions l’affirmer. En tout cas, une chose est sûre, les Portugais sont bel et bien lá depuis un demi-siècle et ont contribué d’une manière significative au développement du Grand-Duché.

José Luís CORREIA, chef d’édition au journal CONTACTO 
in Luxemburger Wort (pages 16-17), 10/06/2015

(version complète du texte qui est paru aujourd'hui dans le Wort)

Mon "Commentaire" aujourd'hui dans le Luxemburger Wort: "Après 50 ans d'immigration portugaise, 'intégration' reste le mot-clef"


Les premiers Portugais sont arrivés il y a un peu près 50 ans au Luxembourg. Après cinq decénnies d'immigration, il y a beaucoup à fêter: une bonne cohabitation, une assez bonne intégration des deuxièmes et troisièmes générations, un modèle de société qui permet une cohésion et une paix social uniques en Europe.

Si leur parents ont surtout travaillé dans les secteurs du bâtiment et du nettoyage, les Portugais d'aujourd'hui sont présents dans tous les secteurs d'activités: de la restauration à la grande distribution, des affaires aux professions libérales, jusque dans les administrations locales et nationales.

En décembre 2013, le premier ministre d'origine portugaise est entré au Gouvernement: Félix Braz. Pour beaucoup, il reste Portugais, pour d'autres il est tout à fait Luxembourgeois. C'est peut-être ça l'intégration réussie: être accepté comme égal par le pays d'accueil aussi bien que par la communauté d'origine.

L'ascenseur sociale ne fonctionne malheurseuement pas pour tous. Si les enfants portugais naissent ou arrivent en bas âge au pays, ils sont plus à même de réussir à l'école et, par conséquent, plus tard dans le monde du travail. Une vie réussie rime avec reconnaissance. Ceux qui arrivent plus tard rencontrent plus souvent des difficultés avec l'apprentissage des langues à l'école. L'échec scolaire ou le fait de devoir choisir un métier autre que celui dont on révait peuvent vite devenir synonyme d'échec personnel. Ce qui peux entraîner un rejet de la société ou le sentiment de vivre en marge. Ce ressentiment ne profite ni à la société, ni au jeune. Malheureusement, en 50 ans, nous n'avons pas encore su résoudre ce problème.

Il y a beaucoup d'autres chantiers, comme celui-ci, à défricher. Un autre a peut-être été ouvert dimanche dernier, avec le référendum.

Le "non" massif sur le droit de vote des étrangers a peut-être ouvert une plaie, qu'il ne faut pas laisser béante. Les uns se sont exprimer comme nation qui veut préserver sa langue et son identité. Les autres se sont senti rejetés, alors qu'ils vivent ici depuis des années. Des sentiments légitimes des deux côtés.

Après 50 ans, "intégration" reste le mot-clef pour maintenir la cohésion sociale, qui se fragilise. Mais l'intégration doit être perçu comme un effort que les deux côtés doivent fournir. Ne vivons pas dos à dos. Ce qui nous unit est plus fort que ce qui nous sépare.


José Luís Correia, chef d'édition du journal CONTACTO
in Luxemburger Wort, 10/05/2015 

(texte complet de celui publié aujourd'hui dans le Luxemburger Wort)