sebenta de anotações esparsas, pensamentos ociosos, reflexões cadentes, poemas difusos, introspecções de uma filosofia mais ou menos opaca dos meus dias (ou + reminiscências melómanas, translúcidas, intra e extra-sensoriais, erógenas, esquizofrénicas ou obsessivas dos meus dias)
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cahier de notes éparses, pensées oisives, réflexions filantes, poèmes diffus, introspections d'une philosophie plus ou moins opaque de mes journées (ou + de réminiscences mélomanes, translucides, intra-sensorielles et extra-sensorielles, érogènes, schizophrènes ou obsessionnelles de mes journées)

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Portugal sagt "Ich bin ein Berliner"


 versão portuguesa

 
deutsche fassung

 

english version

Vídeo sobre Portugal proposto por Marcelo Rebelo de Sousa foi recusado na Alemanha 

O filme sobre Portugal que as autoridades alemãs recusaram apresentar em Berlim vai ser exibido na segunda-feira nos painéis do Turismo de Lisboa, acompanhando a visita da chanceler alemã, Angela Merkel, à capital portuguesa, disse hoje o autor. O filme, intitulado "Eu sou um berlinense" ("Ich bin ein Berliner") pretendia apresentar aos alemães alguns dados sobre a realidade portuguesa das últimas quatro décadas, num resumo de quase cinco minutos. Os autores tinham comprado espaço em locais na Alemanha para a exibição do filme durante este fim de semana, antes da visita de Merkel a Portugal, mas a sua difusão não foi autorizada porque as autoridades alemãs consideraram que a mensagem "era politizada". O 'bloguer' Rodrigo Moita de Deus, autor do filme, afirmou que a intenção não é ofender os alemães, mas fazê-los compreender um pouco mais a realidade em que vivem os portugueses. "Como está no filme, trabalhamos mais horas, pagamos mais impostos, temos menos férias", disse, considerando que a recusa do filme "é uma situação insólita, até porque os princípios e os valores da União Europeia falam de solidariedade". Os autores vão ainda insistir para que a mensagem chegue aos destinatários, encontrando outras formas de exibição na Alemanha, nomeadamente através das redes sociais. Para já, "Eu sou um berlinense" vai ser exibido na segunda-feira em Lisboa, nos painéis do Turismo da cidade, enquanto Angela Merkel a visita. Rodrigo Moita de Deus manifestou também o seu protesto numa carta ao embaixador alemão em Portugal, na qual salienta que "todos os dados referidos no filme são factos históricos facilmente comprováveis e dados estatísticos de fontes oficiais". A realização de um filme que informasse os alemães sobre Portugal e os Portugueses foi sugerida há duas semanas por Marcelo Rebelo de Sousa, na sua crónica na TVI. A ideia era projectar o vídeo numa das principais praças de Berlim. Esta recusa levou já os colaboradores de Marcelo Rebelo de Sousa a enviarem um protesto para a embaixada da Alemanha em Portugal. O vídeo de 5 minutos pretendia mostrar a realidade portuguesa ao povo alemão, os sacrifícios que o país está a fazer e as conquistas que o país fez nas últimas décadas.

Lusa

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Quantum leap

Que fique registado para o futuro: Assim que ouvi falar de informática quântica, soube instintivamente que era a resposta para a viagem intergalática à escala humana.

Se eu estiver errado, paciência. Mas se estiver certo, estamos apenas a algumas décadas de viajarmos mais rapidamente que a luz.

A teoria quântica da acção-fantasma das partículas elementares é o nos conduzirá às viagens inter-galáxias (graças à energia quântica) como inter-dimensões (graças ao imbricamento quântico)..

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Um planeta iluminado por 4 sóis


Uma equipa internacional de astrónomos amadores (Planet Hunters) e profissionais (Universidade de Yale) anunciou hoje a descoberta de um planeta num sistema binário duplo (ou quaternário).

Quem desse planeta pudesse observar os céus, veria quatro sóis. Apesar de popularizado em muitas obras de ficção científica, é a primeira vez que um sistema estelar deste tipo é observado.

O planeta, baptizado PH1 (Planet Hunters 1), é seis vezes maior do que a Terra e fica situado a mais de cinco mil anos-luz da Terra. O PH1 orbita em torno de dois sóis, em volta dos quais também evoluem duas estrelas. Até hoje, os astrónomos descobriram apenas 6 planetas que orbitam em sistemas binários e nunca em sistemas binários duplos.

Este sistema estelar binário duplo foi descoberto por dois astrónomos amadores dos EUA, Kian Jek e Robert Gagliano, através do programa Planet Hunters. Este programa reagrupa num site os astrónomos amadores, incentivando-os a descobrirem e identificarem exoplanetas (planetas fora do nosso sistema solar), utilizando os dados recolhidos pelo telescópio espacial Kepler.

Astrónomos profissionais norte-americanos e britânicos efectuaram depois observações e medidas com os telescópios Keck situados no monte Mauna Kea, no Havai. "Os planetas binários representam o que há de mais extremo na formação planetária", diz Meg Schwamb, um investigador da Universidade de Yale, no Estado do Connecticut, principal autor da pesquisa, apresentada hoje na conferência anual da Divisão de Planetologia da Sociedade Americana de Astronomia, reunida em Reno, no Nevada (EUA). "A descoberta de tais sistemas satelitários força-nos a repensar como estes planetas se podem formar e evoluir em tais ambientes", frisou.

Lusa/AFP/Yale

Um mergulho no vazio dos 39 mil metros



O pára-quedista austríaco Felix Baumgartner tornou-se no domingo, 14 de Outubro de 2012, o primeiro homem a saltar em queda livre dos 39 mil metros de altitude, ultrapassando a barreira do som. Durante o salto, o austríaco, de 43 anos, atingiu a velocidade máxima de 1341,9 km/h, ultrapassando 1,24 vezes a barreira do som. Com este salto supersónico , bateu também o recorde do salto mais alto de sempre, pulverizando o recorde estabelecido em 1960 por Joseph Kittinger, que tinha saltado dos 31 mil metros. Kittinger foi, 52 anos depois e hoje com 83 anos, o contacto rádio na Terra durante o salto de Felix. O austríaco saltou de uma cápsula levada por um balão à estratosfera, numa subida que levou 2h30min. Depois, abriu a escotilha e saltou. Um mergulho no vazio que demorou cerca de 10 minutos, dos quais 4m20s em queda livre, sobre Roswell e o deserto do Novo México, nos EUA. O austríaco abriu finalmente o seu pára-quedas a 1.500 metros do solo. Ileso e já em terra firme, Felix afirmou querer “inspirar a próxima geração” com este feito. Mais de oito milhões de pessoas viram o salto pelo Youtube, onde a proeza foi transmitida em directo na página da Red Bull, que patrocinou o projecto.    

domingo, 30 de setembro de 2012

sábado, 29 de setembro de 2012

A irrequieta e irresoluta actividade de ler



Adoro ler, ando sempre com livros, revistas e jornais debaixo do braço ou dentro da mochila ou da bolsa. Leio em qualquer parte, na praia, numa esplanada de café, à beira-mar, à beira-rio, à beira-lago, num banco sossegado na orla de uma floresta...

Mas, bom, quando é aqui por casa, prefiro ler deitado no confortável sofá da sala de estar. O problema é que, assim refastelado, não posso tirar notas. Então mudo-me para a escrivaninha, no escritório, afasto o laptop, as facturas, as lapiseiras desarrumadas, os papéis caóticos, e instalo-me. Quando sentado no escritório passo pelos artigos e nada digno de registo aparece para eu guardar na minha sebenta.

Passados uns minutos, doem-me as costas da posição desconfortável ou da cadeira desengonçada, reconsidero, pego nas revistas e nos jornais e volto à sala. Escolho uma posição cómoda mas, após folhear novamente as mesmas páginas, encontro logo ali um pensamento interessante, uma frase bem torneada, uma expressão bem formulada, quero apontar e o caderno de notas ficou no escritório.

Volto ao escritório, aponto a frase, trago o bloco-notas comigo para a sala, mas assim deitado não dá mesmo jeito nenhum para tirar apontamentos, e as canetas entram em greve assim que as ponho a fazer o pino.

Regresso ao escritório mais uma meia-dúzia de vezes, aproveito a desculpa para voltar a encher a minha chávena de café, para ir à casa-de-banho, para ver se lá fora já chove, se o Outono começou mesmo, e nisto faço umas incontáveis idas e voltas entre a sala e o escritório.

Quem disse que ler era uma actividade tranquila?

Bom, às tantas, fico franca e fisicamente cansado, já não me doem só as costas, doem-me também as pernas, e o excesso de reabastecimento em cafeína está a pôr-me demasiado nervoso para ficar simplesmente tranquilo e a ler.

Vou voltar a fazer como fazia antes: vou dobrar os cantos das páginas das revistas e dos jornais que me chamaram a atenção, para apontar para mais tarde... o que nunca acontece, porque entretanto a vida continua.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Opinião: Filhos, enteados e súbditos

O ministro da Justiça, François Biltgen, veio anunciar há semanas que quando o grão-duque herdeiro Guillaume casasse com a condessa Stéphanie de Lannoy, esta passaria automaticamente a ser luxemburguesa. Para isso, seria promulgada ainda em Outubro uma lei "especial" que permitiria aplicar essa... excepção.

Além de o anúncio ter indignado uma parte dos luxemburgueses (que nunca viram a condessa expressar o mínimo interesse pelo país e muito menos pela língua) e muitos residentes estrangeiros – já que estes, para terem a nacionalidade luxemburguesa, têm que residir no país há sete anos e passar um teste de língua luxemburguesa –, Biltgen vai obrigar o Parlamento a queimar etapas. Senão vejamos: o Parlamento reabre a 9 de Outubro e tem que votar uma lei que deve entrar em vigor... 11 dias depois!

Mais do que um precedente histórico, que abre uma excepção discriminatória, é um atentado à democracia. Que tempo há para o debate e a promulgação da lei? Ou isso é obsoleto neste caso porque se trata de questões de sangue azul?

É caso para perguntar: afinal que interesses há por detrás desta vontade de naturalizar à pressa a jovem condessa? Nada contra a futura grã-duquesa, à qual desejo muitas felicidades no seu matrimónio. Mas não é caso para perguntar como se vão sentir as milhares de pessoas que trabalham há décadas no Luxemburgo e que não podem pedir a nacionalidade? É que a lei só permite às pessoas que tenham chegado antes de 1984 pedir a nacionalidade sem falar luxemburguês. Ou às que aqui residem há sete anos, caso falem luxemburguês. Alguém que tenha aqui chegado, suponhamos, em 1985, e que ainda não fale a língua, não pode pedir a nacionalidade.

O ministro d(est)a (in)Justiça veio dizer a semana passada, pouco tempo depois do anúncio sobre a condessa, que quer lançar um debate público para rever alguns critérios da lei sobre a nacionalidade.

Que critérios? É que se não for para tornar mais fáceis os testes de língua e diminuir os anos de residência exigidos, não vejo que outros critérios podem ser revistos. É preciso ser belga? Ou ter sangue azul? Ainda há príncipes disponíveis na Casa Grã-Ducal para casar?

É que não vejo bem como se pode pedir a uma população trabalhadora que aceite estes critérios da lei e ao mesmo tempo uma excepção desta natureza e que, ainda por cima, pague os 350 mil euros com que o Estado luxemburguês (ou seja, o dinheiro dos nossos impostos!) se comprometeu em contribuir para as despesas do casamento.

Biltgen apresentou também o balanço sobre a lei da nacionalidade, volvidos quatro anos sobre a sua modificação em 23 de Outubro de 2008. Uma das alterações tornou possível que um cidadão se naturalizasse luxemburguês sem perder a sua nacionalidade de origem (dupla nacionalidade).

Com a entrada em vigor desta nova lei, a 1 de Janeiro de 2009, o número de naturalizações aumentou muito. Entre Janeiro de 2009 e 31 de Dezembro de 2011, deram entrada mais de 13 mil pedidos: mais de cinco mil em 2009; 3.745 em 2010; 4.007 em 2011. Nos cinco primeiros meses deste ano já deram entrada mais 2.246 pedidos. Em termos de comparação, houve quatro mil pedidos de naturalizações entre 1950 e 2008! Os portugueses são os que mais pedem a dupla nacionalidade, representando cerca de um terço dos pedidos (31,3 %); 23,2% provêm de cidadãos dos países limítrofes (França, Alemanha, Bélgica), 17,1 % de cidadãos da ex-Jugoslávia e 12,5 % de italianos.

Estes dois mil novos pedidos de naturalização vão ser submetidos a que critérios? Sabendo que a lei que abre a excepção à condessa deve ser votada em Outubro e só depois disso será discutida a lei da nacionalidade, espero, pelo menos, ver depois uma certa abertura por parte do Parlamento e do Governo aos novos pedidos de nacionalidade.

Porque nós, que trabalhamos neste e para este país, que pagamos impostos e contribuímos para pagar casamentos reais, também já mostrámos abertura com esta excepção. A não ser que tenhamos apenas o direito de ficar calados. Já não basta 46 % da população – os estrangeiros – não poderem votar nas legislativas? Quo vadis, Democracia?



José Luís Correia 
in CONTACTO, 26/09/2012

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

tu és a minha nascente e a minha foz, venho de ti e para ti desaguo

"Tu 

és a minha nascente

e a minha foz, 

venho de ti 

e para ti 

desaguo."



JLC19092012

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Ce jeudi, je lis mes poèmes ici


Hoje em Bonnevoie

"Os jogos da vida" é o tema do próximo sarau "Mil Folhas"


O próximo sarau literário "Millefeuilles" ("Mil Folhas") tem lugar esta, quinta-feira, no Club Sénior de Bonnevoie, na cidade do Luxemburgo (n°26, rue du Dernier Sol), às 20h,

Leitura pública por amadores de textos de prosa ou poesia, em qualquer língua (uma versão em francês ou inglês dos textos deve ser fornecida pela organização ou pelo autor), música, dança e convívio entre pessoas de várias nacionalidades, é o que o evento propõe. O tema de amanhã é "Os jogos da vida".

O sarau é organizado nas segundas quintas-feiras do mês pela Casa das Associações, a Confederação da Comunidade Portuguesa no Luxemburgo (CCPL), o Instituto Cultural Luxemburguês-Peruano e o African Women Movement. Iniciado em 2010, o sarau já contou com intervenções em francês, português, luxemburguês, alemão, creolo cabo-verdiano, senegalês, espanhol, catalão, inglês e albanês, entre outras.

Para participar no próximo sarau literário, basta enviar o texto que pretende apresentar por e-mail ( soireeslitteraires@gmail.com ). Mais informações pelo tel. 26 68 31 09 ou 29 00 75.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Regresso à vida doméstica


Começa Setembro, de volta à labuta, regresso ao trabalho, ao business as usual , foram-se as férias grandes e o descanso sano da silly season . No Luxemburgo, a tradição medieva da feira estabelecida por João O Cego prolonga por mais alguns dias a ligeireza e a ludicidade estival.

Inspirados por esse aspecto lúdico ou não tanto, e apesar de o Parlamento luxemburguês só regressar ao trabalho na segunda terça-feira de Outubro, alguns apressam a rentrée política.

Como Robert Kieffer, o presidente da Caixa de Pensões luxemburguesa, que ataca o Governo por este ser demasiado generoso, e propõe o aumento das quotizações sociais e mais cortes nos reembolsos médicos. Para isso, aproveita a deixa do jornal económico alemão Handelsblatt, que acusa o Luxemburgo de poder vir a ser "a próxima Grécia", já que o país terá uma dívida "implícita" de 1.100 % do PIB. Sim, leram bem, mil e cem por cento! Kieffer e o jornal alemão apostrofam assim o modelo social luxemburguês e acusam os residentes grão-ducais de "viverem há demasiado tempo na abundância”.

A preocupação legítima (quero acreditar) de Kieffer é salvar a caixa de pensões da bancarrota. Mas em vez de optar por cortar, podia propor outras soluções. Se é verdade que o número de trabalhadores fronteiriços já não chega para assegurar a viabilidade da caixa de pensões, então certas franjas da sociedade não deviam ter erupções cutâneas nacionalistas à chegada de mais mão-de-obra estrangeira, vinda de Portugal ou de outros países.

O Luxemburgo, com uma população cada vez mais envelhecida, precisa dessa mão-de-obra para assegurar o mesmo nível das suas pensões no futuro. O primeiro-ministro luxemburguês Jean-Claude Juncker bem avisou há 10 anos quando disse que o país precisava de 750 mil habitantes em 2050 para assegurar o sistema de pensões. Já não estamos muito longe disso: acrescente-se aos 510 mil habitantes os 150 mil fronteiriços e, se a população continuar a crescer ao ritmo dos últimos anos – uma média de 10 mil pessoas por ano –, estaremos nos 750 mil antes de 2025, o que nos deixa alguma margem para preparar o futuro. E o que é governar senão prever sabiamente?

Só que em 2002 as mentes pequeninas insurgiram-se com a proposta de Juncker. Mas ou é isso ou é cortar nas pensões, e muito brevemente. E quem quer isso? Agora o que é necessário fazer é agir de forma coerente e não negar evidências, acolhendo essa mão-de-obra condignamente, já que precisamos dela.

Era o que devia ser explicado, por exemplo, aos peticionários contra a instalação de um centro de requerentes de asilo em Junglinster. Se os habitantes da comuna – vamos apenas pegar nos que têm mais de 45 anos, e já são muitos –, considerarem que são os primeiros, caso fiquem no Luxemburgo, que vão pagar a reforma dos segundos, talvez alguns moradores até oferecessem o terreno para construir o tal centro. Não?

Quanto ao tal jornal alemão, o primeiro objectivo é obviamente desviar os ódios europeus da Alemanha, que até agora se soube manter ao abrigo da crise e lida com altivez com os PIGS (Portugal, Itália, Grécia e Espanha), os que chafurdaram na crise. Depois, e com uma cajadada só mata mais um coelho (não o português, que esse se mostra obediente com a cenoura raquítica que obteve do "tutor alemão", como lhe chamou António José Seguro!), atacando Juncker na sua política doméstica para o pôr em questão na sua liderança no Eurogrupo. É que os políticos alemães andam há demasiado tempo a tentar deglutir (engolir) que um líder de um pequeno país dite a política monetária da zona euro, à revelia dos ditames do gigante germânico. Mas falta-lhes o que Juncker tem de sobra: uma verdadeira visão e dimensão europeias.

Na esteira do Verão luxemburguês a já longa "telenovela" que envolve o ministro do Trabalho teve um novo desenvolvimento. Depois de ter sido já acusado de ingerência junto de agentes da autoridade, primeiro para defender o filho e depois a mulher, Nicolas Schmit hesitou muito entre ficar no executivo ou pelo lugar de embaixador em Paris. E ninguém sequer lhe propôs o lugar de Yves Mersch à frente do Banco Central do Luxemburgo?! Então, talvez embaixador? Decisões, decisões… Afinal, na segunda-feira foi anunciado que o executivo escolheu Paul Duhr para Paris. O que faz com que Schmit tenha mesmo que continuar a lidar com mais uma polémica: a troca de director na ADEM. Polémica porque a ex-directora Mariette Scholtus entende recorrer da decisão junto do tribunal administrativo. Será que Scholtus vai utilizar como argumento para se agarrar ao lugar que quando entrou em funções no ano 2000 o desemprego estava nos 2,5 % e agora está nos 6 %? E que muitos "placeurs" (não todos!) pouco mudaram na sua eficiência, altivez e imobilismo (ou será mesmo ausência?) perante os desempregados? Enfim, estes episódios da "telenovela Schmit" mancham aquele que podia ser considerado como uma das mentes mais brilhantes do partido socialista, e mesmo do Governo. Ele que podia ser o Juncker do LSAP é actualmente o membro do executivo menos popular junto do eleitorado.

Mas como em todos os reinos deste globo, polvilhe-se q.b. a parte podre do bolo com cerejas e glamour e o povo com o barulho do circo esquece até o pão. E o que há de melhor para dourar o baço brasão da monarquia grã-ducal e o ilustre lustro que o país perdeu nos últimos anos do que um casamento principesco à la Lady Di, que todos aguardam gulosamente a 20 de Outubro? Guillaume é o nosso William, aspira o povo febrilmente.

São estas as aventuras que nos aguardam na rentrée . Esperam-se ansiosamente mais cenas dos próximos capítulos.

José Luís Correia
(In CONTACTO, 05/09/2012)

sábado, 1 de setembro de 2012

Slavoj Žižek: Don't Act. Just Think.



Slavoj Žižek is a Slovenian philosopher and cultural critic. He is a professor at the European Graduate School, International Director of the Birkbeck Institute for the Humanities, Birkbeck College, University of London, and a senior researcher at the Institute of Sociology, University of Ljubljana, Slovenia. His books include Living in the End Times, First as Tragedy, Then as Farce, In Defense of Lost Causes, four volumes of the Essential Žižek, and many more.


Transcript

Slavoj ZizekCapitalism is . . . and this, almost I’m tempted to say is what is great about it, although I’m very critical of it . . . Capitalism is more an ethical/religious category for me.  It’s not true when people attack capitalists as egotists.  “They don't care.”  No!  An ideal capitalist is someone who is ready, again, to stake his life, to risk everything just so that production grows, profit grows, capital circulates.  His personal or her happiness is totally subordinated to this.  This is what I think Walter Benjamin, the great Frankfurt School companion, thinker, had in mind when he said capitalism is a form of religion.  You cannot explain, account for, a figure of a passionate capitalist, obsessed with expanded circulation, with rise of his company, in terms of personal happiness.
I am, of course, fundamentally anti-capitalist.  But let’s not have any illusions here.  No.  What shocks me is that most of the critics of today’s capitalism feel even embarrassed, that's my experience, when you confront them with a simple question, “Okay, we heard your story . . . protest horrible, big banks depriving us of billions, hundreds, thousands of billions of common people's money. . . . Okay, but what do you really want?  What should replace the system?”  And then you get one big confusion. You get either a general moralistic answer, like “People shouldn't serve money.  Money should serve people.”  Well, frankly, Hitler would have agreed with it, especially because he would say, “When people serve money, money’s controlled by Jews,” and so on, no?  So either this or some kind of a vague connection, social democracy, or a simple moralistic critique, and so on and so on.  So, you know, it’s easy to be just formally anti-capitalist, but what does it really mean?  It’s totally open. 

This is why, as I always repeat, with all my sympathy for Occupy Wall Street movement, it’s result was . . . I call it a Bartleby lesson.  Bartleby, of course, Herman Melville’sBartleby, you know, who always answered his favorite “I would prefer not to” . . . The message of Occupy Wall Street is, I would prefer not to play the existing game.  There is something fundamentally wrong with the system and the existing forms of institutionalized democracy are not strong enough to deal with problems.  Beyond this, they don't have an answer and neither do I.  For me, Occupy Wall Street is just a signal.  It’s like clearing the table.  Time to start thinking.
The other thing, you know, it’s a little bit boring to listen to this mantra of “Capitalism is in its last stage.”  When this mantra started, if you read early critics of capitalism, I’m not kidding, a couple of decades before French Revolution, in late eighteenth century.  No, the miracle of capitalism is that it’s rotting in decay, but the more it’s rotting, the more it thrives.  So, let’s confront that serious problem here. 
Also, let’s not remember--and I’m saying this as some kind of a communist--that the twentieth century alternatives to capitalism and market miserably failed. . . . Like, okay, in Soviet Union they did try to get rid of the predominance of money market economy.  The price they paid was a return to violent direct master and servant, direct domination, like you no longer will even formally flee.  You had to obey orders, a new authoritarian society. . . . And this is a serious problem: how to abolish market without regressing again into relations of servitude and domination.
My advice would be--because I don't have simple answers--two things: (a) precisely to start thinking.  Don't get caught into this pseudo-activist pressure.  Do something. Let’s do it, and so on.  So, no, the time is to think.  I even provoked some of the leftist friends when I told them that if the famous Marxist formula was, “Philosophers have only interpreted the world; the time is to change it” . . . thesis 11 . . . , that maybe today we should say, “In the twentieth century, we maybe tried to change the world too quickly.  The time is to interpret it again, to start thinking.” 
Second thing, I’m not saying people are suffering, enduring horrible things, that we should just sit and think, but we should be very careful what we do.  Here, let me give you a surprising example.  I think that, okay, it’s so fashionable today to be disappointed at President Obama, of course, but sometimes I’m a little bit shocked by this disappointment because what did the people expect, that he will introduce socialism in United States or what?  But for example, the ongoing universal health care debate is an important one.  This is a great thing.  Why?  Because, on the one hand, this debate which taxes the very roots of ordinary American ideology, you know, freedom of choice, states wants to take freedom from us and so on.  I think this freedom of choice that Republicans attacking Obama are using, its pure ideology.  But at the same time, universal health care is not some crazy, radically leftist notion.  It’s something that exists all around and functions basically relatively well--Canada, most of Western European countries. 
So the beauty is to select a topic which touches the fundamentals of our ideology, but at the same time, we cannot be accused of promoting an impossible agenda--like abolish all private property or what.  No, it’s something that can be done and is done relatively successfully and so on.  So that would be my idea, to carefully select issues like this where we do stir up public debate but we cannot be accused of being utopians in the bad sense of the term.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Perfeitos imperfeitos


PERFEITOS IMPERFEITOS


Capítulo I - Iniciação 

Uma rosa serôdia num terminal de aeroporto,
os aviões aterrando e nós descolando.

O teu vestido azul com um facho na noite,
um beijo roubado e as luzes intermitentes
da auto-estrada no teu rosto constante.

O teu perfume por mim acima
as minhas mãos em desassossego
mas sem medo procurando as tuas.

Os barulhos da cidade finalmente ao longe
absorvidos pela tranquilidade da serra,
a terra prometida, a noite desejada porque a desejámos.


Sintra à beira serra, à beira beijo,
Baía de Cascais, devaneio à beira Tejo.
Cheguei ao meu porto de abrigo e tu ao teu ancoradouro amigo.

E desde o Monte da Lua e do promontório do esteiro
lançámos sonhos ao céu e ao mar com espuma de infinito.


O nosso amor consumado num acto de fé.


Capítulo II - Benção 


Meu amor, venho de longe só para te dizer
que o vento mudou
e que tens de esquecer.

O futuro não pode ser refém
da perfeição, da ilusão
nem do que já passou.

Serás a minha odalisca arisca
e eu o teu beduino de olhos em amêndoa.
Se quiseres.

Serás a minha princesa mourisca
de olhos tristes e coração de leoa.
Se me quiseres.

Não tenho tesouros nem palácios de marfim
mas quero-te no meu harém de ninguém
de púrpura e carmim.

Vem, deixa-me beijar a tua cicatriz
e lamber as tuas feridas
diz-me que desfiz
os teus pesadelos e as promessas traídas
e todo o desengano insano.

Que nada agora te acanhe
minha rosa champanhe
minha Coco Chanel, minha Maria Rapaz
minha Mónica fogosa e audaz
minha poesia, minha prosa,
minha literatura
minha alma velha, minha centelha
meu relâmpago, meu trovão 
minha pimenta, meu açafrão
meu gengibre e meu anis
minha flor dos Cárpatos
minha princesa etérea, minha alma pura,
não me digas que estamos a ser insensatos,
não sejas perfeita, sê feliz!


III - Oração

Sejamos perfeitos imperfeitos,
sem condicionais. E desejemos mais,
desejemos tudo, só tudo pode ser o desejo.
E para além de todos os tempos verbais
sejamos mais que perfeitos!



Capítulo IV - Consagração

És raio de sol
que atravessou o meu caminho,
luz que iluminou a minha vida.
Detive-me e disfrutei
do teu calor no meu rosto e no meu peito.

És clarão na noite escura, na minha noite,
como a gota de chuva se enche de amor
antes de se lançar dos céus para dar vida a um torrão de terra.

És a fragrância fresca nas minhas manhãs, legado delicado
e diafano, como um sopro de vida a acordar-me.
Como pode um raio de luz ter-se extraviado
e agora encontrar-me?

Como pode o teu abraço ser o meu arpejo,
como pode o teu olhar entender-me assim,
como podem os teus lábios terem o desenho do meu beijo
como posso ter tanta sede de ti?

Deus, como tenho sede.

E tu, que devias ser água, és oceano.
Devias ser luz, mas és sol.
Devias ser calor, mas és fogo.
Devias ser sexo, mas és amor.
Devias ser gozo, mas és êxtase.
Devias ser grito, mas és libertação.
Devias ser mito, mas és fé.
Devias ser salto, mas és voo.
Devias ser tontura, mas és queda.
Devias ser vertigem, mas és viagem.
Devias ser o universo todo. E somos.

Como podem os nossos sonhos e as nossas almas
ter-se misturado no infinito
há tantos séculos atrás e os nossos corpos
somente agora no tempo finito deste delito?


Capítulo V - Sacramento

És manhãs de amor e tardes de calor,
horas de desatino, lençóis em desalinho,
noites estreladas, e todas as minhas madrugadas.

És os meus dias e as minhas horas
os meus minutos e os meus segundos
e toda a mecânica do meu coração.

As minhas mãos nos teus seios cheios
o teu rosto em mim
os teus cabelos na cascata da minha boca
quando me olhas assim
as tuas coxas e as tuas pernas cerceando-me sem dano
as tuas costas arqueadas numa alegre semifusa
as tuas gotas de suor num arco-íris profano
e nesse instante supremo quero lá saber da hipotenusa
e até a gramática fica à míngua
quando a duna da tua barriga toca na minha língua
é só o teu esforço no meu
o teu cansaço no meu
e tudo o mais que faço
é no teu regaço, arregaço, amasso, desfaço, trespasso, refaço.

Descanso.
Descansa.

E és finalmente todo o teu corpo a desaguar no meu
como se a tua foz fosse a minha garganta
e o meu peito a tua esperança.

Desagua nos meus braços
e dança na minha boca
segura-te aos meus flancos
escorre pelas minhas margens
como a força das marés.

Que a lua grave
desta atracção nada sabe
nem o teorema de Newton
compreende esta lei.

Um rio não se engana a caminho do mar,
então porque hás-de tu?



Capítulo VI - Comunhão

Acto de fé, auto-de-fé
combustão espontânea dos corpos
e das nossas bocas em rota de colisão
tsunami dos nossos sentidos
e dos nossos sexos comungando a ânsia.

Seja feita à nossa vontade!

E dizendo isto ergueu a taça enrugada aos céus
e disse:  "Esta é a minha vida,
que hei-de derramar em ti e por ti
para salvação do nosso pecado".

E a penitente obediente ajoelhou-se
e aceitou a vida na sua boca e no seu peito.

Depois, pegando novamente no seu cálice,
levantou-o ao alto e fazendo isto disse:
"Este é o meu corpo, que repouso em ti
e no teu coração, para glória do nosso Amor".

E a penitente finalmente sorriu
e beberam os dois do veneno antigo.

Seja feita à nossa vontade!



Capítulo VII - Apocalipse


Einstein tinha razão:
o tempo dilata quando estou longe de ti.



JLC28082012