sebenta de anotações esparsas, pensamentos ociosos, reflexões cadentes, poemas difusos, introspecções de uma filosofia mais ou menos opaca dos meus dias (ou + reminiscências melómanas, translúcidas, intra e extra-sensoriais, erógenas, esquizofrénicas ou obsessivas dos meus dias)
-
cahier de notes éparses, pensées oisives, réflexions filantes, poèmes diffus, introspections d'une philosophie plus ou moins opaque de mes journées (ou + de réminiscences mélomanes, translucides, intra-sensorielles et extra-sensorielles, érogènes, schizophrènes ou obsessionnelles de mes journées)

terça-feira, 18 de setembro de 2007

London calling

London, 18.07.2007, Tower Bridge, looking down on the river Thames and "the City"


London, 18.07.2007, Tower Bridge

London calling 2

London, 18.09.07: looking down from Tower Birdge on the East End and the new financial center, Canary Wharf

London, 18.07.09: Looking down from Tower Bridge to the "old" financial center "the City"

London, 18.09.07: Tower Bridge

18.09.07: Manhattan or London? Noooo...It's Canary Wharf!

London, 18.09.07: Downing Street? Nooo... quiet little houses in Wapping village.

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Crítica de teatro

Teatro: Peça "Com pêlo do mesmo gato", no Castelo de Bettembourg

O mote, o dote e a deixa


Com o mote "Com pêlo do mesmo gato", o Centro Dramático de Viana do Castelo trouxe a peça do mesmo nome à sala de festas do Castelo de Bettembourg, no sábado.

Baseado na peça "Similia, Similibus", de Júlio Dinis (1839-1871), o mote da peça "Com pêlo do mesmo gato", trazido pelo Centro Dramático de Viana do Castelo, no passado sábado, à Sala de Festas do Castelo de Bettembourg, e que vai sendo repetido insistentemente durante todas as cenas, é um velho adágio latino professado por Paracelso (1493-1541). Este acreditava que "semelhante cura semelhante" ("similia similibus curantur").

A história faz-nos viajar até ao ano de 1857. Uma família da alta burguesia portuguesa tem uma filha donzela (Sílvia Santos) de 18 anos por casar. O noivo e primo (Ricardo Simões) está a terminar a formatura em Direito na Universidade de Coimbra. Mais versado em botequins e namoros do que em leis e fidelidades, quando este regressa para casar, o pai da noiva (Tiago Fernandes), furioso com os excessos do sobrinho, decide uni-la com um homeopata (Jorge Filgueiras) que o anda a curar com "copinhos de água", um charlatão mais interessado no dote e na criada (Francisca Lima) do que na virtude intacta da menina rica.

Ainda a meio da primeira cena, o ano de 1857 mistura-se com 2007. O espectador entra na comédia da comédia e é convidado a assistir ao ensaio geral da peça, às peripécias e nervos dos actores em véspera de estreia. O noivo garboso é afinal interpretado por um actor efeminado que não consegue beijar a jovem actriz que desempenha a donzela, uma miúda modernaça e com pouca pachorra para mariquices. Mas lá está a Dona Beta (Elisabete Pinto), a actriz principal e "chefona" do grupo de teatro, para pôr ordem em tudo. "The show must go on!" (o espectáculo tem que continuar!), exclama a "grande actriz" em extâse devoto.

O público, primeiro surpreendido pela volta dada ao texto de Júlio Dinis, deixa-se seduzir muito rapidamente, adere, ri e aplaude. A prova de que o público português no Luxemburgo também gosta de teatro se souber ser seduzido por este.

A ideia de promover este serão cultural nasceu de Orlando Pinto, proprietário da Sopinor, empresa de construção criada no ano de 2002, em Bettembourg. O empresário conta que cada vez que vai de férias a Portugal, a irmã, Elisabete Pinto, o convida sempre para ir ver as suas peças. "A vontade de trazer ao Luxemburgo o grupo de teatro em que ela trabalha existia há muito, mas só agora foi possível concretizá-la!", diz. Um investimento de seis mil euros que "valeu a pena", já que a sala, com capacidade para 280 pessoas, estava praticamente cheia. "Considerando que no dia da peça muitos portugueses ainda não tinham regressado de Portugal e tendo em conta que era um serão de futebol" (n.d.R.: o jogo Portugal-Polónia para as eliminatórias do Europeu de 2008 teve lugar nessa noite), "estou muito contente pela afluência do público", confiou Orlando Pinto, que não exclui a eventualidade de voltar a trazer a companhia ao Grão-Ducado (ver também o artigo em caixa).

José Luís Correia, in Contacto ,12.09.07

Ana Moura & The Rolling Stones

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

fora de tempo

é cedo? é tarde?
quem estabeleceu regras?
isso não? isso sim?
é inteligente? é alarve?
vens cá? não vens?
ai de nós! ai de mim!
estamos a tomar as decisões certas?
não somos vítimas, apenas reféns
da nossa utopia.
és minha? não queres ser minha?
pouco tempo, pouco tempo...
hoje não, outro dia!
hã, ... outro dia?
não tenho sede, estou sedento...

pouco tempo, pouco tempo...
e o passado a perseguir-nos,
tens de libertar-te dos farrapos,
velhos são os trapos
ainda há tempo
para conseguirmos tudo
os fantasmas estão em ti
acredita em mim
não quero mais ser mudo!
o que foi já não volta a ser
se tu também quiseres ver.

Vem, vamos começar algo de inteiramente novo,
inteiramente bom, inteiramente nós,
pego nos pincéis de cordel,
pegas na pauta de lós,
canta comigo, dança comigo,
olhos meus, lábios de mel,
vamos desenhar uma aurora luminosa,
com cores de ti e de mim,
iguais às manhãs de ouro e de cetim,
queres esquissar comigo a linha recta,
o destino, o futuro, o horizonte e o lume,
em que os outros não quiseram acreditar?
vamos tranformar,
todo este estrume,
em qualquer coisa de concreta,
em qualquer coisa de nós.

é agora? ou nunca?
temos tempo, temos tempo...
esperarei por ti, meu amor!
pensas que já não sei usar este músculo
chamado coração? sabes, fiz musculação ;-)
não morreu, não parou
mirrou, ficou minúsculo,
mas depois cresceu
com os teus olhos, os teus beijos, no teu céu
tomou fôlego, ruborizou
dá-me a tua mão,
devagar, um passo depois do outro,
não queremos que isto nasça torto!

Não tenhas medo
olha em frente
acordámos na aurora nova que resplandece
deixou de ser segredo
se quiseres acreditar
na tua estrela daqui em diante
na flor frágil que luta e cresce
que se agarra serôdia à terra
fora de tempo
como uma bela quimera
que nem a traição nem o vento
hã-de conseguir arrancar.
A nossa alma. O nosso Amor.


JLC310807

domingo, 26 de agosto de 2007

Fado cismado

Eu pensava que o fado
era uma sina torta
na mão de um desgraçado
que um dia te bate à porta
e que tu tens de aceitar calado.
[e que tu tens de receber calado]

Eu pensava que o fado
era apenas um xaile e uma canção
triste sobre a saudade e o passado
mas é o porão da minha alma apagada
e todo o novelo da minha vida magoada.

Eu pensava que o fado
era uma guitarra e uma nau que partem de um cais
[era uma guitarra numa nau que nunca mais regressa ao cais]
mas não o teu coração transviado
de já não me amares mais
de já não seres meu
como as estrelas pertencem ao céu.

Eu pensava que o fado
era sempre escrito pela mão de Deus.
Mas olha como corre no meu sangue,
na minha vida e na minha voz.
Eu cismava, mas agora canto
porque o fado fala-me de nós
do sopro que o teu coração deixou no meu.
[do rasto que a tua mão
deixou no meu coração]

JLC 260807 / Lago de Echternach
Vem comigo

A banda original sonora da minha vida está riscada
passo como um fantasma por ela
como se apenas a assombrasse
como se apenas tivesse dela
o ténue e translúcido retrato
que deixam os dedos suados
numa vidraça entre dois mundos indistintos.

Turista de universos paralelos
passageiro da vida
como se observasse tudo de outro lugar.

Devolveram-me o rascunho.
Desenha outro!, ordenaram-me.
Mas eu fiz birra, disse que já não queria, era o que faltava!
Desatei aos pontapés com a vida
e com um revés de mão violento
varri do estirador a minha dor
e todos os meus papéis certinhos
misturei o passado ao futuro
porque já não tenho, não estou nem sou presente.

Tinha saudades do que podia ser
procurava incansavelmente o círculo que não existe.
Tudo é apenas alucinação, vertigem
e eu caí na espiral, na miragem.

Preciso escapar de mim mesmo
para sair ileso daqui.
A vida é um caminho
que não vai dar a lugar nenhum,
mas tu gostas de pensar que sim,
porque é isso que te faz correr, pular, dançar, amar,
dar cambalhotas no lençol.

O nosso encontro não foi por acaso.
Acredito que tens de me dar a tua mão.
Eu também estou perdido,
mas juntos vamos conseguir sair daqui,
ou pelo menos não nos vamos perder em nós.

Não olhes para trás, já lá nos fizeram demasiado mal.
Eu sei que tens medo, agarra-te bem a mim.
O nosso encontro não foi por acaso.
Há um caminho que conduz a qualquer lado
não sei bem onde, mas não podemos ficar aqui.

Despe-te!, ouve o que eu te digo.
Retira os trapos que os outros te vestiram
e apontaram e disseram que eras tu.
Eu quero-te só a ti e tu não és assim!
Diante dos teus espelhos tens de estar nua.
Olha para mim, pensas que acredito na perfeição?
Procuro apenas a sinceridade do coração,
uma alma sem anemia, um peito que não teme entregar-se.

Quanto menos sentido o mundo faz
mais procuro um sentido a tudo isto
um caminho que explique o princípio e não o fim.

Não fiques para trás, já nada te espera aqui,
apenas cinzas do passado,
vestígios baços dos dias em que acreditámos,
estrume do que podia ter sido.
De que vale um futuro que não foi,
os sonhos prometidos, arrancados como espinhos
ao coração, um beijo de amor, que já não significa nada?

Vem comigo! Descalça e nua, comigo, até ao fim deste trilho.
Não é um castigo, é uma oportunidade, tens de acreditar!
Não em mim! Em ti!

Este não é o teu fado, o teu destino escolhes tu!
Amor é ferida que não se sente e que arde sem se ver?
Olha as minhas veias abertas, achas que já não sangro?
Repara nas pontas queimadas dos meus dedos,
já brinquei demasiado com o fogo.

Eu sei que estamos perdidos, mas para escaparmos daqui,
temos apenas de seguir em frente,
chega de bifurcações, de desvios,
não olhar mais para trás, mas para diante.

Vais passar quanto tempo aqui,
a contemplar as lágrimas e o sangue do nosso desengano?
Não esperes a noite, que é escura e fria.
Se quiseres o meu abraço, não peço nada em troca,
apenas que venhas comigo.

Não sei por onde vou, mas sigo o instinto da luz,
a fragrância da manhã que há-de nascer,
com a promessa de um novo dia.

Caminha só um pouco comigo,
não me deixes sozinho neste caminho,
eu também tenho medo do desconhecido.

JLC 260807 / Lago de Echternach

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

O que são os Cadernos do Gaspar?

Na minha curta e cometaica carreira literária, assumo-me com o pseudónimo Alexandre Gaspar Weytjens, ou só A. Weytjens ou apenas Gaspar (aka AGW). Foi uma personagem que me nasceu entre as entranhas e o cerebelo (e acreditem que doeu!) por volta de 1994, em pleno 2° ano de faculdade, em Estrasburgo, quando me foi solicitado para participar no jornal literário da Residência Universitária Paul Appel. Ao contrário de outras esquizofrenias benignas (Daniela A. ou F.F. Júnior), esta vingou.

Durante muito tempo, A. Weytjens escreveu para a gaveta ou para um público mais ou menos escolhido a dedo, que sempre o reconfortou com elogios qualitativos que careciam obviamente, como espectadores próximos do objecto que eram, de rigor e objectividade.

Quando começou a ser lido por um público maior do que o seu círculo de amizades, sem quase dar por isso, muito graças ou por causa do sucesso crescente do blog Os Cadernos do Gaspar, passou a responder naturalmente ao nome de... Gaspar.

O primeiro volume dos meus cadernos está disponível online em www.cadernosgaspar.blogspot.com e foi escrito num dia-a-dia fictício e extrapolado das minhas próprias vivências e no fim de contas desembocou num pequeno romance "pulp" erótico-romântico-policial. A sua leitura deve ser efectuada seguindo as datas em que foram escritos os cadernos de modo a entender-se o enredo da história.

O segundo volume, inteiramente independente do primeiro, está disponível em www.cadernosgaspar2.blogspot.com , e é, para já, uma sebenta de anotações esparsas, pensamentos ociosos, reflexões cadentes, poemas difusos, introspecções de uma filosofia mais ou menos opaca dos meus dias.

Por vezes, acrescento um clip youtubano ou excertos de livros que estou a ler para proporcionar aos meus leitores férias da minha torpe literatura e da minha não menos ilustre rotina. A sebenta dos cadernos pode ser lida aleatoriamente.

JLC (The Real McCoy)

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

hoje decidi que...

Punkt. Period. Ponto final, parágrafo. Aliás, virar a página. Tourner la page. No more drama. No more pain.

terça-feira, 21 de agosto de 2007

"And what can I tell you my brother, my killer, what can I possibly say?"

(Aaron, "Famous blue raincoat")

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

God zooming on me?


"Todos dizem que Deus é mudo, mas ninguém pensa na surdez dos homens!" / "Tout le monde dit que Dieu est muet, mais personne ne pense que les hommes sont sourds!"

Michel Boujenah (humorista francês/humoriste français)

domingo, 19 de agosto de 2007

domingo inane


Ai que prazer
não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal
como tem tempo, não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto melhor é quando há bruma.
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças,
Nem consta que tivesse biblioteca...

Fernando Pessoa, "Liberdade"

rainy sunday, sleepy afternoon

walk away!

It was cool but it was all pretend
wasn't long till I called you mine
I even fell for that stupid love song
how come i'd never hear you say
I just wanna be with you
guess you never felt that way
but since you been gone
I can breathe for the first time
i'm so moving on
you had your chance, you blew it
I’m looking for attention
not another question
should you stay or should you go
well if you don’t have the answer
why you still standing here?
just walk away!

What you see's not what you get
With you there's just no measurement
No way to tell what's real from what isn't there
Your eyes they sparkled
that 's all changed into lies that drop like acid rain
you washed away the best of me
you don't care
you know you did it
I'm gone
to find someone to live for in this world
there's no light at the end of the tunnel tonight
just a bridge that I gotta burn
you are wrong
if you think you can walk right through my door
that is just so you
coming back when I've finally moved on
Sometimes shattered
Never open
Nothing matters
When you're broken
That was me whenever I was with you
Always ending
Always over
Back and forth, up and down like a rollercoaster
I am breaking
That habit
Today
I'm already gone
there is nothing you can say
sorry doesn't cut it babe
take the hit and walk away
'Cause I'm gone
Doesn't matter what you do
It's what you did that's hurting you
All I needed was the truth
Now I'm gone

I want a love
I want a fire
To feel the burn, my desires
I want a woman by my side
Not a child who runs and hides

(Kelly Clarkson Random Listening - adapté des chansons de Kelly Clarkson, "since you been gone", "gone" et "walk away")

ride the snake

"Preferir o saber dos caminhos à frivolidade do pensamento das sobrancerias, cavalgar a linha branca da estrada. (...) Para um escritor, a única forma de viajar é improvisando, flanando..."

Bernard-Henri Lévy, "American Vertigo"

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

échafaud II

quand l’épée te traverse aussi soudainement, tu la sens toujours?

quand la dague s’est plantée tellement profondément que tu ne sais plus si c’est de la douleur , ressens-tu toujours le coup porté?

quand le sang te coule encore chaud des mains, le reconnais-tu comme tien?

quand tu n’entends plus le vaccarme du coup de feu e que tu constates le trou noir sur ta poitrine fumante, est-ce le moment opportun pour savoir que tu dois mourir?

quand le brûlis dévaste une nouvelle fois la terre est qu’elle n’est plus combustible, que reste-t-il à brûler?

quand tu perds pied e que tu sais que la mer va te remplir la gueule et les narines et les orbites des yeux, es-tu encore en vie pour penser à tout celá?

quand le désert te brûle les poumons avec sa poussière, as-tu encore soif?

quand tu passes en vol plané par le dixième étage en fonçant droit sur le sol, sens-tu encore tes veines qui pulsent à l’envers?

quand tu te désintègres en un seul souffle d’explosion, que deviens-tu?

quand le soleil se noircit e il ne fait plus jour ni nuit, où es-tu?

quand tous te disent que tu es un monstre, dois-tu continuer à vivre?

Docilement, tu t’agenouilles devant tes bourreaux,

les yeux bien ouverts tu aperçois la vérité dans les leurs,

tu couches ta tête sur le bout de poutre

tu remets ta nuque à la justice

la foule en délire se taît haletante

le ciel respire une, deux fois,

pendant quelques brefs instants tu as la sensation que tu arrives a entendre le soleil qui brûle.

Soudain, tu n’entends ni ne sens plus rien.

La main de l’ange est-elle intervenue pour toi, stoppant net le dernier instant?

Tu peux lever les yeux?

Si ton sang ne coule pas autour de toi, est-ce bon signe?

S’il n’y a plus de foule, ni de lame, ni de ciel,

et que le soleil est noir e qu’il ne fait plus jour ni nuit, où es-tu?



AGW

cadafalso II

quando a espada te atravessa tão repentinamente, ainda a sentes?
quando o punhal foi tão fundo que tu já não sabes se é dor que desatina sem doer, ainda é golpe?
quando o sangue te escorre das mãos e ainda está quente, ainda é teu?
quando já não ouves o estrondo do tiro e vês o buraco negro no teu peito fumegante, é a altura certa para saberes que deves morrer?
quando a queimada devasta mais uma vez a terra e ela já não é combustível, o que mais há para arder?
quando perdes pé e sabes que o mar te vai encher as goelas e as narinas e as órbitas dos olhos, ainda estás vivo para pensar nisso tudo?
quando o deserto te queima os pulmões com pó, ainda tens sede?
quando passas a voar pelo 10° andar a caminho do solo, ainda sentes as tuas veias a pulsar arrepiadas?
quando te desintegras num só sopro de explosão, para onde vais?
quando o sol fica negro e já não é dia nem é noite, onde estás?
quando todos te dizem que és um monstro, deves continuar a viver?
...
Docilmente, ajoelhas-te perante os teus carrascos,
de olhos bem abertos vês a verdade nos seus,
deitas a cabeça no madeiro,
entregas a nuca nua à justiça,
a multidão em delírio cala-se ofegante,
o céu respira uma, duas vezes,
durante uns breves instantes tens a sensação que consegues ouvir o sol a arder.
De repente já não ouves, não sentes nada.
A mão do anjo veio intervir por ti e paralisou o derradeiro momento?
Já podes levantar os olhos?
Se o teu sangue não escorre à tua volta, é bom sinal?
Quando já não há multidâo, nem gume, nem céu,
e o sol ficou como bréu e já não é dia nem é noite, onde estás?

AGW

terça-feira, 14 de agosto de 2007

Bullet proof

Quand je ferme les yeux

la douleur disparaît

le bruit s’éteint

le monde se tait

j’oublis le corps immonde


je ne vois plus le cratère noir et nauséabond que la balle à laissé sur ma poitrine

le trou putride sur ma nuque par ou on m’a arraché le cœur

les images sordides ne me tourmentent plus le cerveau en décomposition

les vils instants ne grouillent plus sur mes paupières comme des insectes dégueulasses

l’abject venin ne m’immobilise plus le sang souillé dans mes artères


je m’étends sur le drap blanc sur la table de la cuisine

à sang froid, je rebrousse ma peau, je tire les veines,

j’extrait tout le poison qui reste dans les blessures encore ouvertes

dans la bassine le sang averse et haineux dégouline en pus perfide


je secoue l’enveloppe maculée

je l’expose à la lumière du jour

je prends une aguille d’argent

et je recous les trous béants

le corps purifié et prêt

pour d’autres


et si je fermais les yeux à cette vitesse

maintenant sur l’autoroute ?

ni même mil hordes d’anges en furie

accrochés à mes bras

ne me sauverait de moi-même !


AGW