bemvindo ao passado
"Tenho noção do mal que fiz
e do meu pecado.
Quero dizer a quem não disse
que estou arrependido.
Tudo passou e hoje sei
que não estou queimado..."
"Bemvindo ao Passado", NBC (de "Revistados", álbum tributo aos 20 anos dos GNR)
<
"Vidas são imperfeitas quando te deitas com o teu rancor"
(idem, ibidem)
terça-feira, 24 de outubro de 2006
segunda-feira, 9 de outubro de 2006
Anna Politkovskaja

in memoriam
Anna Politkovskaja assassinada
A jornalista russa Anna Politkovskaja foi assassinada sábado, dia 7 de Outubro, à porta de casa, em Moscovo. Segundo o jornal em que trabalhava desde 1999, o bissemanário Nóvaya Gazeta, a jornalista estava a preparar uma reportagem sobre as torturas sistemáticas na Chechénia.
Politkovskaja lutava há muito pela (verdadeira) liberdade de imprensa na Rússia, denunciando o que o presidente Valdimir Putin (ex-KGB) continua a apelidar de "democracia à maneira russa". Era uma das jornalistas mais críticas da política do Kremlin. Era perseguida e recebera ameaças de morte pelos serviços secretos russos, pelo exército e por outras agências de segurança de Estado, organismos que tinha criticado fortemente nos artigos que publicou. Escapou em 2005 a uma tentativa de envenenamento, um dos métodos kagebistas soviéticos mais frequentes para eliminar inimigos.
Desde que Putin chegou ao poder, no início de 2000, 12 casos de homicídio de jornalistas ficaram por resolver, segundo a União de Jornalistas da Rússia. O assassinato de Politkovskaja, que foi encontrada morta com quatro tiros à porta de sua casa, no centro da capital russa, foi condenado por todas as forças políticas russas e organizações internacionais como o Repórteres Sem Fronteiras (RSF).
Anna Politkovskaja nasceu em Nova Iorque em 1958. Fez carreira como jornalista de investigação e tornou-se conhecida fora da Rússia pelas reportagens críticas que fez na república separatista da Chechénia, onde escreveu sobre assassínios, torturas e espancamentos civis pelas forças russas. Por essas reportagens, Politkovskaja recebeu vários prémios de jornalismo, entre os quais a Caneta de Ouro (da União de Jornalistas da Rússia), em 2001, o de Pen Club International, em 2003, e o Prémio Jornalismo e Democracia da Organização para a Segurança e Cooperação da Europa (OSCE). A jornalista também escreveu um livro sobre a política de Putin para a Chechénia, no qual apresentava provas dos abusos generalizados cometidos pelas forças governamentais contra civis. O seu mais recente livro chamava-se "A Rússia de Putin".
sexta-feira, 6 de outubro de 2006
folheando a agenda
COM TODAS AS LETRAS
Livros, Autores e Editores em Debate
DATAS: 9 Out; 23 Out; 6 Nov; 20 Nov; 4 Dez
Local: Auditório da SPA (Rua Duque de Loulé, nº 31)
Horário: 18h 30m
Dia 9 de Outubro 2006 – Novos autores: Escrever, Publicar e Vencer
Painel
Rui Herbon, escritor
José Luís Peixoto, escritor
Sofia Monteiro, esfera dos livros
Filipa Melo, jornalista, escritora
.
Dia 23 de Outubro – Banda Desenhada: O Mundo aos Quadradinhos
Painel
Pedro Silva, Vitamina BD, BdMania
Maria José Pereira, Edições ASA
Sara Figueiredo Costa, crítica literária e de BD
António Jorge Gonçalves, autor de BD
.
Dia 6 de Novembro – Poesia e Teatro: Filhos de um Deus Menor?
Painel
Jorge Reis-Sá, Edições Quasi
Eugénia Vasques, Professora-Coordenadora na Escola Superior de Teatro e Cinema, crítica de teatro
Vasco David, Assírio & Alvim
Pedro Mexia, crítico literário, poeta
Ernesto Melo e Castro, poeta, ensaísta
.
Dia 20 de Novembro – Fundos de Catálogo: Velhos são os Trapos
Painel
António Pinheiro, Bertrand
José Pinho, Ler Devagar
Mário Zambujal, escritor
Carlos Veiga Ferreira, Teorema
.
Dia 4 de Dezembro – Best Sellers e Qualidade: Podemos ser amigos?
Painel
Manuel Alberto Valente, Edições ASA
Margarida Rebelo Pinto, escritora
Vasco Santos, Fenda
Maria João Lopo de Carvalho, escritora
Richard Zimler, escritor
quinta-feira, 5 de outubro de 2006
djihad
A noite é bonita neste meridiano,
confunde-se com o oceano,
As pontas das estrelas queimam a lua crescente.
O céu em fogo risca a toalha dos deuses.
De oriente chegam novos reis
magos da palavra, mas nem tudo o que luz é ouro.
Ouço o ruído de lutas que começaram
ainda as águas do dilúvio não tinham secado as terras.
Hoje não secam do sangue.
E eu, entre o temor de novas invasões bárbaras
e as promessas vazias que o poente encerra,
aperto o crucifixo ouro-indigo às minhas novas vestes,
assisto mudo aos loucos que me empurram para o abismo.
A caravana impávida passa, enquanto os cães
não ladram, medram. Já cheira a deserto.
A minha boca sedenta de tangerinas,
prata, marfim, canela, chá de hortelã psicótico, açafrão.
Com as minhas malas aos pontapés,
desço pelas escadas do hotel.
Mas é com os tomates cheios de tesão
que percebo que a mocidade é refém da perfeição,
que a profundidade e a claridade do beco obscuro,
que é o idealismo dogmático acneico,
depende do amor-próprio que já houver brotado,
da tolerância e da luta que deve sempre começar cá dentro
com a minha própria djihad.
Não é erro, nem recuo. É balanço, horizonte mais abrangente,
para saltar mais adiante.
Assoma Sócrates à porta
e repete que nada sabe de nada.
Olho no meu relógio de eon as pontas do holoceno piscarem.
A brisa matutina retarda as suas asas.
A madrugada cinzenta e brumosa ainda vai demorar.
A noite é bonita neste meridiano,
confunde-se com o oceano,
As pontas das estrelas queimam a lua crescente.
O céu em fogo risca a toalha dos deuses.
De oriente chegam novos reis
magos da palavra, mas nem tudo o que luz é ouro.
Ouço o ruído de lutas que começaram
ainda as águas do dilúvio não tinham secado as terras.
Hoje não secam do sangue.
E eu, entre o temor de novas invasões bárbaras
e as promessas vazias que o poente encerra,
aperto o crucifixo ouro-indigo às minhas novas vestes,
assisto mudo aos loucos que me empurram para o abismo.
A caravana impávida passa, enquanto os cães
não ladram, medram. Já cheira a deserto.
A minha boca sedenta de tangerinas,
prata, marfim, canela, chá de hortelã psicótico, açafrão.
Com as minhas malas aos pontapés,
desço pelas escadas do hotel.
Mas é com os tomates cheios de tesão
que percebo que a mocidade é refém da perfeição,
que a profundidade e a claridade do beco obscuro,
que é o idealismo dogmático acneico,
depende do amor-próprio que já houver brotado,
da tolerância e da luta que deve sempre começar cá dentro
com a minha própria djihad.
Não é erro, nem recuo. É balanço, horizonte mais abrangente,
para saltar mais adiante.
Assoma Sócrates à porta
e repete que nada sabe de nada.
Olho no meu relógio de eon as pontas do holoceno piscarem.
A brisa matutina retarda as suas asas.
A madrugada cinzenta e brumosa ainda vai demorar.
Rentrée parlamentar: Educação e política social são a preocupação dos socialistas do LSAP
| Alex Bodry, presidente do partido socialista luxemburguês, e Ben Fayot, presidente do grupo parlamentar do LSAP Foto: Guy Wolff |
O presidente do grupo parlamentar do Partido Operário Socialista Luxemburguês (LSAP), Ben Fayot, aproveitou a oportunidade para relembrar os desafios que se apresentam aos membros do Governo e da Câmara dos Deputados (Parlamento) na rentrée parlamentar, marcada para 11 de Outubro próximo.
No encontro, que decorreu em 26 de Setembro, Fayot começou por recordar o repto que o presidente de partido, Alex Bodry, lançara a algumas semanas: o LSAP tem como objectivo desafiar o Executivo a dar provas de que tem uma vontade real de efectuar as reformas que se impõem no país. Reformar aS leiS da nacionalidade, escola e imigração.
Para os socialistas, os projectos-lei mais importantes terão que ser entregues à Câmara dos Deputados o mais tardar até ao final do ano. É o caso dos diplomas sobre a reforma da lei da nacionalidade (que permitirá o acesso à dupla nacionalidade, ver artigo anexo), a reforma da lei de 1912 sobre a escola, a revisão da lei da imigração de 1972 e a lei sobre a formação contínua.
Neste âmbito, Fayot apelou o Executivo a "preparar de forma organizada e conscienciosa" os textos legislativos, de modo a permitir a aprovação mais rapidamente, dentro dos prazos exigidos no Parlamento. O presidente do grupo parlamentar socialista voltou a reiterar o apoio do partido ao projecto-lei sobre a reforma da nacionalidade, tal como esboçado pelo ministro da Justiça, Luc Frieden. Único senão: segundo Fayot, o LSAP gostaria que o Governo também pensasse em promover as vantagens do multilinguismo.
E exemplificou: "Um cidadão chinês que além da sua língua apenas falasse o Luxemburguês, teria dificuldades em viver no nosso país". Uma lei da imigração adaptada às novas realidades sociais e migratórias é uma das etapas no caminho para um Estado moderno, considerou aquele responsável. Em matéria de política educativa, Fayot defendeu a actual ministra da Educação, Mady Delvaux-Stehres, do LSAP, e lembrou que esta herdou muitos problemas da sua antecessora liberal, Anne Brasseur (DP).
O LSAP exige que, neste campo, o grande objectivo continue a ser a igualdade de oportunidades para todos os alunos, independentemente da sua origem nacional ou social. A luta contra o insucesso escolar é outra das prioridades. Fayot exortou ainda o ministro das Obras Públicas, Claude Wiseler, a realizar as construções de escolas previstas no plano director sectorial.
MAIS POLÍTICA SOCIAL
A transposição das medidas da Tripartida é igualmente prioritária aos olhos dos socialistas e um dos cavalos de batalha nas sessões parlamentares que se aproximam. O LSAP anuncia, desde já, que recusará que as decisões tomadas em matéria de política das pensões e reformas seja posta em causa nas discussões sobre o Orçamento de Estado.
Os socialistas também esperam avanços do Governo, em conjunto com os parceiros sociais, na questão do crédito fiscal, bem como na luta contra o desemprego. ...E EUROPEIA Trabalhar por forma a vencer os atrasos de que o país padece na transposição das directivas europeias será outra das preocupações dos socialistas. Fayot solicitou ainda que os deputados se interessem mais pela política europeia. Para o LSAP, os parlamentares deveriam contribuir para converter a política comunitária em tema de discussão no seio da sociedade civil. Sobretudo depois do resultado do referendo sobre a Constituição Europeia, os responsáveis do LSAP consideram que a população espera um maior empenho do Parlamento luxemburguês nas questões comunitárias.
José Luís Correia,
in CONTACTO, 04/10/2006
sábado, 30 de setembro de 2006
les damnés
os poetas malditos acreditam que só a tragédia é a verdadeira musa, que só o inferno conduz ao exorcismo das palavras-vómito, que só a catarse transmuta a alma sangrenta na magia das letras, dando finalmente corpo e sentido ao desequilíbrio dos sentidos.
já experimentei deitar a felicidade exacerbada no papel, em estado de êxtase quase eufóricó-orgásmico. Mas depois de deixar secar a tinta e ver a folha amarelar no outono dos dias, concluo tristemente que tudo o que a pena pingou foi torpe simualcro de literatura
quinta-feira, 14 de setembro de 2006
EXtasy
A minha amante. Desejei-a tanto. Ao fim de muitos dias, ela cedeu. Finalmente. Trouxe-a até este quarto. Veio, dócil, pela minha mão.
A luz que penetrava pela janela recortava-lhe a silhueta perfeita. Deixou cair o vestido, pudicamente, pelo corpo abaixo. Revelou-me os seios redondos, belos, os ombros nus, o delta do sexo aparado, os pêlos, os poros, as rugas, as linhas da pele, as nódoas negras, as cicatrizes, as feridas das balas, o local e a história dos vestígios de fracturas, toda a geografia do seu corpo exposto.
"Não chores, não sou uma vítima!", confessou-me. Falou-me dos seus 250 assassinatos. Por encomenda, por dívida, por crime político, por droga, por diversão, por bebedeira (estrabismo etílico), por engano... Por enforcamento, afogamento, evenenamento, esfaqueamento, com beretta, revólver, à queima-roupa, com silenciador, carabina, espingarda, com objectiva, punhal, corda de pesca, electrocução, explosão, carro armadilhado...
Deu uns passos na minha direcção. Baixou os olhos, acendeu um cigarro, suspendeu-o aos lábios finos e prometeu-me, em voz serena, como se fosse um acto de contrição: "Amo-te! Se te matar, hás-de ser o meu último!"
O copo de uísque permanecia intocado na cómoda velha do quarto 381 quando a pequena morte inundou as veias de todo o meu sangue.
A minha amante. Desejei-a tanto. Ao fim de muitos dias, ela cedeu. Finalmente. Trouxe-a até este quarto. Veio, dócil, pela minha mão.
A luz que penetrava pela janela recortava-lhe a silhueta perfeita. Deixou cair o vestido, pudicamente, pelo corpo abaixo. Revelou-me os seios redondos, belos, os ombros nus, o delta do sexo aparado, os pêlos, os poros, as rugas, as linhas da pele, as nódoas negras, as cicatrizes, as feridas das balas, o local e a história dos vestígios de fracturas, toda a geografia do seu corpo exposto.
"Não chores, não sou uma vítima!", confessou-me. Falou-me dos seus 250 assassinatos. Por encomenda, por dívida, por crime político, por droga, por diversão, por bebedeira (estrabismo etílico), por engano... Por enforcamento, afogamento, evenenamento, esfaqueamento, com beretta, revólver, à queima-roupa, com silenciador, carabina, espingarda, com objectiva, punhal, corda de pesca, electrocução, explosão, carro armadilhado...
Deu uns passos na minha direcção. Baixou os olhos, acendeu um cigarro, suspendeu-o aos lábios finos e prometeu-me, em voz serena, como se fosse um acto de contrição: "Amo-te! Se te matar, hás-de ser o meu último!"
O copo de uísque permanecia intocado na cómoda velha do quarto 381 quando a pequena morte inundou as veias de todo o meu sangue.
quarta-feira, 30 de agosto de 2006
regresso à rotina
Regresso à rotina
A "Schueberfouer", mercado medieval primeiro, depois feira, tornou-se com a tradição acrescentada dos séculos um dos encontros anuais obrigatórios dos habitantes deste pequeno país. Anunciava as víndimas, marcava o fim do Verão. Do ténue Verão luxemburguês, entenda-se. Sempre demasiado efémero, fugaz, sobretudo para nós, os austrais, quer tenhamos chegado com uma nova cor na pele ou aguentado estoicamente nestas latitudes um mês sem Verão.
Como apenas o estio é desculpa para o ócio, aqui no burgo, entre a meteorologia incerta e o calendário inane, houve quem encontrasse pano para mangas, mesmo num país desertado por parte da população. Provando que hoje em dia isso de rentrée política é coisa ultrapassada, porque afinal o mundo não pára para férias, os partidos ADR e DP, da Oposição, exigiram ao Governo, em Agosto, um debate alargado e profundo sobre a viabilidade do sistema de pensões. O tema é aliás uma preocupação constante. Compreende-se, num país cuja população envelhece rapidamente, com o mito do fim do Estado Providência sempre a espreitar. O propagandeado "Estado Mínimo", que o neoliberalismo radical apregoa, em que a instituição máxima do poder deveria apenas assegurar o "serviço mínimo" da justiça e pouco mais, aparece a muitos como a solução milagrosa para os rombos constantes que as caixas da Segurança Social acusam.
É uma ameaça que não paira (por enquanto) sobre o Grão-Ducado, graças sobretudo à imigração, que tem vindo a colmatar o débil crescimento da demografia dos nacionais. Os números são eloquentes: o número de reformas passou de 80 mil, em 1990, para 120 mil, em 2005, segundo o Statec. O que, numa população com 460 mil habitantes, significa que existem três assalariados para cada reformado. No mesmo período, o número de estrangeiros passou de 113 para 177 mil, enquanto os nacionais aumentaram apenas de seis mil indíviduos (de 271 para 277 mil).
Apesar de este reforço demográfico se ficar a dever em grande parte à imigração comunitária, uma sondagem veio revelar no princípio deste mês que os luxemburgueses (depois dos alemães) são dos que mais se opõem ao futuro alargamento da UE. A posição oficial do Governo luxemburguês e do primeiro-ministro Jean-Claude Juncker sempre foi, em contrapartida, a favor de um cada vez maior alargamento da União. Apesar deste aparente desfasamento entre as duas partes, 65% da população luxemburguesa – ou seja, exactamente a mesma percentagem que se pronuncia contra o alargamento –, diz confiar nas decisões do Governo!
Poderia ser antagónico. Mas atentemos no facto de o Grão-Ducado ser um dos doze países do mundo onde as pessoas são mais felizes, pelo menos a acreditar no estudo recentemente publicado pelo psicólogo social britânico Adrian White, da Universidade de Leicester. A capital luxemburguesa é mesmo uma das três mais prósperas do globo, revela, por seu lado, um inquérito do banco UBS. A única conclusão possível é ter a lição de Voltaire sofrido uma adaptação local: tudo está bem no melhor dos mundos... enquanto o nosso jardim continuar arrumadinho e cultivado.
Com a grande feira no Glacis, a vida volta verdadeiramente à capital e ao país, as crianças sabem que o regresso às aulas é para breve e espera-se com mais ou menos ansiedade e interesse a rentrée política. Mesmo quando as novidades não parecem abundar... a não ser que seja apenas uma ilusão de óptica.
O Conselho de Governo reuniu na sexta-feira. Decidiu, entre outros pontos, a participação luxemburguesa na Força Interina das Nações Unidas no Líbano (o envio de três homens!) e a criação, para 2007, de um novo liceu em Dommeldange. Abordaram-se ainda questões como a do desemprego endémico, que voltou a aumentar, depois de tímidas descidas no primeiro semestre do ano; bem como a lei da violência doméstica – apesar de ter sido votada há três anos, os números de mulheres e crianças espancadas continuam a rondar os mesmos valores de então. Os membros do Governo voltaram de férias mas, como ainda vinham de sandálias , limitaram-se a tratar do expediente. Mostraram que fizeram os deveres, mais nada.
Assuntos como a dupla nacionalidade, que deveria ter sido apresentada ainda antes do Verão, ficam relegados para a rentrée parlamentar, no Outono. Nenhum elemento do Executivo achou por bem fazer uma referência à sugestão no mínimo curiosa (para não dizer duvidosa) do círculo de reflexão Joseph Bech (próximo do CSV e do Governo!), que considerou oportuno propor, em pleno Agosto, na ausência da maioria dos estrangeiros (mas é apenas um detalhe!), que a cidadania europeia funcionasse como alternativa à dupla nacionalidade. Como se uma pudesse substituir a outra. Como se a cidadania europeia fosse um facto político consumado e a UE um Estado próprio. Uma proposta infeliz e anacrónica que, espera-se, não atrase (ainda mais!) os futuros debates.
Quando a feira desce à cidade, até os portugueses voltam da sua migração estival para Sul. Repousados, bronzeados, sorridentes, com maresias e saudades no olhar. Trocam a praia pela roda gigante e operam com esta transmutação do lazer o regresso à rotina. Devagarinho! Seria desejável que no acto guardassem o sebastianismo tipicamente luso no bolso, aproveitassem para alargar o seu horizonte, inquirissem sobre o que se passou nesta sua outra "terrinha" durante as semanas em que estiveram fora e participassem mais nas discussões de política e sociedade que se aproximam e que também lhes dizem respeito.
(José Luís Correia, in Contacto, 30.08.06)
quinta-feira, 24 de agosto de 2006
livros lidos este Verão
- "La mémoire et le feu - Portugal: l'envers du décor de l'Euroland", Jorge Valadas. Ensaio político que se resume a apedrejar os recentes governos, da esquerda à direita, dos comunistas aos bloquistas. Ninguém escapa. Não ousa porém tocar na efígie do "el-comadante" Álvaro Cunhal. A leitura que faz da actual política e das politiquices portuguesas é, diga-se em abono da verdade, inteligente e certeira. Mas o discurso sobre a "utopia portuguesa", com que se seduz o leitor na introdução e na contracapa, e que eu debalde esperei, não acontece. Li gato por lebre.
- "Planisfério Pessoal", de Gonçalo Cadilhe. A volta ao Mundo por terra e por mar do antigo jornalista da Grande Reportagem, publicada no Expresso, entre Dezembro de 2002 e Julho de 2004.
- "O cartógrafo do Infante", de Frank G. Slaughter. Romance com um bom enredo e que prende o leitor desde as primeiras páginas e que aproveita os vazios da História para romancear alguns mitos dos Descobrimentos Portugueses. Aventura, sexo, amor, traição, histórias e História. Boy meets girl, boy gets in trouble, girl saves boy. Em paralelo, o cartógrafo veneziano André Bianco, com ligações à família dos Médicis, feito escravo por corsários árabes, navega enquanto tal até aos mares da China e Cipango (Japão), cem anos antes de qualquer europeu lá chegar (os primeiros, os portugueses, chegariam em 1540!), e entra depois ao serviço do Infante D. Henrique, ao mesmo tempo que se apaixona, numa enseada de Sagres, por Leonor Perestrelo, filha do futuro governador da Madeira. Toda e qualquer semelhança com Cristovão Colombo é, evidentemente, pura coincidência.
- "Minto até ao dizer que minto", de José Luis Peixoto. Episódio "blasé" sobre a passagem amorfa das deambulações vagas e desilusórias pós-adolescentes à vida adulta nesta primeira década do século.
- "Um homem sem pátria" de Kurt Vonnegut. O autor de origem alemã, naturalizado norte-americano, que se celebrizou com "Matadouro 5" (sobre o Holocausto), escreve aqui artigos corrosivos (já o foi mais!) e com bastante humor (já também foi melhor!). Entre memórias da sua infância (nos anos 30) e críticas à actual administração Bush, é o regresso de um autor que está a gastar os últimos cartuchos para mostrar que a sua verve ainda vive.
- "A Máquina do Arcanjo", Frederico Lourenço. É o último capítulo de um tríptico, mas pode ser lido separadamente. O amor e o sexo gays no Portugal dos anos 80. Pequenos toques de humor deliciosos.
- "Sete Noites" de Alina Reyes. Pequena história sem muito enredo, escrita noite após noite, na primeira pessoa, com sensualidade tântrica e erotismo feminino.
- "Em Paris" de Ramalho Ortigão. Relatos das impressões e dos encontros do dia-a-dia do literato português na capital francesa em 1868. As comparações do mundo parisiense com uma sociedade portuguesa burra, casmurra, analfabeta, analfabruta e empertigada são inevitáveis e de uma aflitiva actualidade.Ramalho, o irmão-gémeo de Eça.
- "Quatro Gigantes" de Ramalho Ortigão. Textos do autor sobre Camões, Garrett, Camilo Castelo Branco e Eça de Queiroz. O título, pobre de conteúdo, duvido que pertença ao autor e seja antes uma escolha publicitária e infeliz da editora. Isso nota-se aliás pelos textos escolhidos. Enquanto os ensaios sobre Camões e Camilo se revelam bastante interessantes e completos, nota-se que a parca página e meia sobre Garrett não passa de um texto recuperado de uma petição da altura para tresladar o corpo de Garrett para o Panteão Nacional; os textos sobre Eça fazem parte da correspondência privada do autor e que, não obstante o seu interesse inequívoco sobre a vida e obra de Eça, não são biográficos nem completos nem a tal pretendiam.
- "Profecias do Bandarra", de Gonçalo Anes Bandarra. As trovas do Sapateiro de Trancoso. Boa introdução que situa o autor no seu contexto social e histórico.
- "Future Perfect", Ed. Jim Heimann. Cartazes, desenhos, ilustrações de cores berrantes, artigos e capas de revista de ficção científica sobre o que os nossos contemporâneos dos anos 1940-1960 imaginaram sobre um futuro que nunca chegou a acontecer: comboios para a lua, túneis subterrâneos sob o Atlântico, aviões de passageiros de quatro andares, submarinos privados, etc.
BDs e novelas gráficas
- "Cité de Verre", com textos de Paul Auster, ilustrações de Paul Karasik e David Mazzucchelli. Excelente enredo e desenhos. Adinha-se a dificuldade que os desenhadores tiveram para imaginar as partes mais elípticas e opacas da história. Sairam-se com nota 10.
- "Catálogo de Sonhos", de José Carlos Fernandes (JCF)
- "O Depósito dos Refugos Postais", de JCF
- "Pessoas que usam bonés-com-hélice", de JCF
- "A última obra-prima de Aaron Slobodj", de JCF. Todas as histórias de JCF se desenrolam num mundo paralelo onde os habitantes até se parecem connosco mas o mundo evoluiu prolongando um não-sei-quê négligé e blasé dos anos 40 e 50, como se tivesse sido preservada a nossa ingenuidade pré-Segunda Guerra Mundial. De episódio para episódio, descobrimos uma nova personagem, uma nova cidade, um novo promenor, uma nova história. Histórias deliciosas, humanas, trágicas, delirantes, loucas, tresloucadas, mas tão verdadeiras...mesmo quando são (apenas?) pura ficção e poesia gráfica.
em leitura
- "Contos Satíricos", contos do Oeste de Mark Twain
- "Pobre e Mal Agradecido", ensaios políticos de Rui Tavares
- "Os Livros da Minha Vida", Henry Miller
- "Ninfomaníacas e Outras", Irwing Wallace
- "Os Cento e Vinte Dias de Sodoma", Marquês de Sade
- "Todos os Dias", Jorge Reis-Sá
leitura incidental
- "A noite abre os meus olhos", colectânea poética de José Tolentino Mendonça
- "O Teu Rosto", António Ramos Rosa (foto infra)
- "Mundos Paralelos", teses recentes da Física explicada em miúdos por Michio Kaku
- "La mémoire et le feu - Portugal: l'envers du décor de l'Euroland", Jorge Valadas. Ensaio político que se resume a apedrejar os recentes governos, da esquerda à direita, dos comunistas aos bloquistas. Ninguém escapa. Não ousa porém tocar na efígie do "el-comadante" Álvaro Cunhal. A leitura que faz da actual política e das politiquices portuguesas é, diga-se em abono da verdade, inteligente e certeira. Mas o discurso sobre a "utopia portuguesa", com que se seduz o leitor na introdução e na contracapa, e que eu debalde esperei, não acontece. Li gato por lebre.
- "Planisfério Pessoal", de Gonçalo Cadilhe. A volta ao Mundo por terra e por mar do antigo jornalista da Grande Reportagem, publicada no Expresso, entre Dezembro de 2002 e Julho de 2004.
- "O cartógrafo do Infante", de Frank G. Slaughter. Romance com um bom enredo e que prende o leitor desde as primeiras páginas e que aproveita os vazios da História para romancear alguns mitos dos Descobrimentos Portugueses. Aventura, sexo, amor, traição, histórias e História. Boy meets girl, boy gets in trouble, girl saves boy. Em paralelo, o cartógrafo veneziano André Bianco, com ligações à família dos Médicis, feito escravo por corsários árabes, navega enquanto tal até aos mares da China e Cipango (Japão), cem anos antes de qualquer europeu lá chegar (os primeiros, os portugueses, chegariam em 1540!), e entra depois ao serviço do Infante D. Henrique, ao mesmo tempo que se apaixona, numa enseada de Sagres, por Leonor Perestrelo, filha do futuro governador da Madeira. Toda e qualquer semelhança com Cristovão Colombo é, evidentemente, pura coincidência.
- "Minto até ao dizer que minto", de José Luis Peixoto. Episódio "blasé" sobre a passagem amorfa das deambulações vagas e desilusórias pós-adolescentes à vida adulta nesta primeira década do século.
- "Um homem sem pátria" de Kurt Vonnegut. O autor de origem alemã, naturalizado norte-americano, que se celebrizou com "Matadouro 5" (sobre o Holocausto), escreve aqui artigos corrosivos (já o foi mais!) e com bastante humor (já também foi melhor!). Entre memórias da sua infância (nos anos 30) e críticas à actual administração Bush, é o regresso de um autor que está a gastar os últimos cartuchos para mostrar que a sua verve ainda vive.
- "A Máquina do Arcanjo", Frederico Lourenço. É o último capítulo de um tríptico, mas pode ser lido separadamente. O amor e o sexo gays no Portugal dos anos 80. Pequenos toques de humor deliciosos.
- "Sete Noites" de Alina Reyes. Pequena história sem muito enredo, escrita noite após noite, na primeira pessoa, com sensualidade tântrica e erotismo feminino.
- "Em Paris" de Ramalho Ortigão. Relatos das impressões e dos encontros do dia-a-dia do literato português na capital francesa em 1868. As comparações do mundo parisiense com uma sociedade portuguesa burra, casmurra, analfabeta, analfabruta e empertigada são inevitáveis e de uma aflitiva actualidade.Ramalho, o irmão-gémeo de Eça.
- "Quatro Gigantes" de Ramalho Ortigão. Textos do autor sobre Camões, Garrett, Camilo Castelo Branco e Eça de Queiroz. O título, pobre de conteúdo, duvido que pertença ao autor e seja antes uma escolha publicitária e infeliz da editora. Isso nota-se aliás pelos textos escolhidos. Enquanto os ensaios sobre Camões e Camilo se revelam bastante interessantes e completos, nota-se que a parca página e meia sobre Garrett não passa de um texto recuperado de uma petição da altura para tresladar o corpo de Garrett para o Panteão Nacional; os textos sobre Eça fazem parte da correspondência privada do autor e que, não obstante o seu interesse inequívoco sobre a vida e obra de Eça, não são biográficos nem completos nem a tal pretendiam.
- "Profecias do Bandarra", de Gonçalo Anes Bandarra. As trovas do Sapateiro de Trancoso. Boa introdução que situa o autor no seu contexto social e histórico.
- "Future Perfect", Ed. Jim Heimann. Cartazes, desenhos, ilustrações de cores berrantes, artigos e capas de revista de ficção científica sobre o que os nossos contemporâneos dos anos 1940-1960 imaginaram sobre um futuro que nunca chegou a acontecer: comboios para a lua, túneis subterrâneos sob o Atlântico, aviões de passageiros de quatro andares, submarinos privados, etc.
BDs e novelas gráficas
- "Cité de Verre", com textos de Paul Auster, ilustrações de Paul Karasik e David Mazzucchelli. Excelente enredo e desenhos. Adinha-se a dificuldade que os desenhadores tiveram para imaginar as partes mais elípticas e opacas da história. Sairam-se com nota 10.
- "Catálogo de Sonhos", de José Carlos Fernandes (JCF)
- "O Depósito dos Refugos Postais", de JCF
- "Pessoas que usam bonés-com-hélice", de JCF
- "A última obra-prima de Aaron Slobodj", de JCF. Todas as histórias de JCF se desenrolam num mundo paralelo onde os habitantes até se parecem connosco mas o mundo evoluiu prolongando um não-sei-quê négligé e blasé dos anos 40 e 50, como se tivesse sido preservada a nossa ingenuidade pré-Segunda Guerra Mundial. De episódio para episódio, descobrimos uma nova personagem, uma nova cidade, um novo promenor, uma nova história. Histórias deliciosas, humanas, trágicas, delirantes, loucas, tresloucadas, mas tão verdadeiras...mesmo quando são (apenas?) pura ficção e poesia gráfica.
em leitura
- "Contos Satíricos", contos do Oeste de Mark Twain
- "Pobre e Mal Agradecido", ensaios políticos de Rui Tavares
- "Os Livros da Minha Vida", Henry Miller
- "Ninfomaníacas e Outras", Irwing Wallace
- "Os Cento e Vinte Dias de Sodoma", Marquês de Sade
- "Todos os Dias", Jorge Reis-Sá
leitura incidental
- "A noite abre os meus olhos", colectânea poética de José Tolentino Mendonça
- "O Teu Rosto", António Ramos Rosa (foto infra)
- "Mundos Paralelos", teses recentes da Física explicada em miúdos por Michio Kaku
quinta-feira, 20 de julho de 2006
Madredeus na Abadia de Neumünster: 20 anos a cantar a alma portuguesa
| É a quarta vez que os Madredeus actuam no Luxemburgo Fotos: Guy Wolff |
Cantam Lisboa, a alma e a poesia portuguesa. Uma guitarra portuguesa alada (José Peixoto), uma viola clássica sublimada (Pedro Ayres Magalhães), um baixo providencial (Fernando Júdice) e teclas inspiradas (Carlos Maria Trindade) enquadram a composição para uma voz única e inconfundível, a de Teresa Salgueiro.
Um domingo ao entardecer, num cenário idílico. Os Madredeus são o grupo português mais internacional de sempre e a prová-lo, mais uma vez, foi o público – 1.200 pessoas das mais diferentes nacionalidades e origens – que assistiu no domingo ao concerto no adro da Abadia de Neumünster, no Grund, no âmbito do Festival OMNI 2006, promovido pelo Centro Cultural de Encontro (CCRN).
É a quarta vez que os Madredeus passam pelo país, do qual guardam a boa recordação do concerto em Wiltz, em 2000, e do primeiro, em 1992, "porque era uma das duas primeiras actuações que faziamos fora de Portugal", conta-nos Pedro Ayres Magalhães, mentor do grupo.
"Do palco, não fazemos distinções entre o público. É normal em Paris ou no Luxemburgo haver mais portugueses do que noutras cidades, mas os portugueses até costumam ser a minoria. A obra do grupo – temos cerca de 120 canções –, continua a ser pouco conhecida, mesmo se o nome é famoso!", lamenta Pedro Ayres, mentor e membro-fundador do grupo.
Lisboa e Teresa
Os Madredeus são uma fantasia musical erudita de raiz genuinamente portuguesa, segundo uma definição de Pedro Ayres. Move o grupo o culto da composição em português. A grande fonte de inspiração é Lisboa. Mas também a própria Teresa Salgueiro.
"Fazemos música para guitarra, para a voz da Teresa e para ser cantada em português", explica o guitarrista. Virtuoso, para quem o soube apreciar no domingo, e que continua a ser, 20 anos depois da criação do grupo, o principal letrista e compositor das canções.
Em 20 anos mudaram muito? "Não mudámos, evoluímos!", corrige. E acrescenta: "Cultivámos um estilo, apurámos, sofisticámos um tipo de encenação, a solenidade nos concertos, a importância da voz, da poesia e da guitarra clássica".
| "Madredeus é uma orquestra de bolso", diz Pedro Ayres Magalhães |
Esta "orquestra de bolso", como Pedro Ayres lhe costuma chamar, "já atingiu tudo ou quase tudo o que havia para atingir".
"Em termos de popularidade e de reconhecimento internacional conseguimos o que nenhum outro grupo português conseguiu. Fizemos música para cinema (n.d.R.: Wim Wenders e Maria de Medeiros, por exemplo), tocámos com orquestras, em catedrais, em salas das mais prestigiadas do mundo. Em Portugal, somos um dos grupos cujos concertos mais bilhetes vendem e mesmo a nível europeu, somos os únicos no nosso género a tocar em 36 países há 20 anos."
Actualmente, todos os elementos do grupo evoluem noutros projectos colectivos ou a solo. O único a dedicar-se totalmemte aos Madredeus é Pedro Ayres, que foi também quem teve a ideia de criar o grupo em 1986. E lembra a génese, para juntar ao mito do grupo: "Quando eu andava em concerto pelo país (n.d.R.: leia-se, no tempo dos Heróis do Mar), via os teatros fechados e fiquei com vontade de criar um grupo com guitarras acústicas que pudesse tocar nesses sitíos." O resto já faz parte da história oficial. Foi assim que nasceu a ideia. Vinte anos depois está mais do que nunca viva e recomenda-se.
Depois de mais de 120 cidades do mundo, foi a vez do Luxemburgo ficar a conhecer o concerto onde divulgam as músicas dos dois últimos álbuns: "Faluas do Tejo", de 2005 e "Um Amor Infinito", de 2004. Isto porque não há temas novos nem estão a preparar nenhum álbum para celebrar os 20 anos de carreira.
Num incontornável "bis" no final da noite, regressaram ao palco para oferecer ao público temas de álbuns anteriores como "No céu da Mouraria" e "Haja o que houver".
José Luís Correia,
in CONTACTO, 19/07/2006
quinta-feira, 6 de julho de 2006
tous les matins
Tous les matins, douce décevance, j'aspire aux confessions de ton âme, aux céléstes pourpris de ton coeur, mais tu n'a pas écris, mon bel enfant. N'importe, j'attendrais jusq'au petit matin tes lettres d'amour.
"We followed the snake, the endless snake, trough the desert of our commun faith. My pretty child, my lovely child, the blue bus is calling us, where is he taking us?..." (Jim Morrison, The Doors, "The End")
Tous les matins, douce décevance, j'aspire aux confessions de ton âme, aux céléstes pourpris de ton coeur, mais tu n'a pas écris, mon bel enfant. N'importe, j'attendrais jusq'au petit matin tes lettres d'amour.
"We followed the snake, the endless snake, trough the desert of our commun faith. My pretty child, my lovely child, the blue bus is calling us, where is he taking us?..." (Jim Morrison, The Doors, "The End")
quarta-feira, 5 de julho de 2006
promesse du jour suivant
La promesse m'avait parue absurde, enfantine, obsolète, chimère d'un passé utopique effacé. Il y a des choses importantes que l'on oubli sans trop sans rendre compte, tant le quai de la gare nous semble froid et nous glace les muscles jusq'au os.La nuit paraissait infranchissable, mais j'ai suivi, comme les rois d'antan, les étoiles de l'enfant, mais sans trop y croire.Mais soudain, une pluie d'étoiles s'est deversée sur la voie lactée. La nuit devint pâle d'abord, translucide ensuite. J'ai cru y perdre mes sens. La rosée sucrée s'est posée sur mes lêvres et l'aube inattendue arriva enfin. La lumière finit par m'éclabousser et une merveilleuse et belle journée, comme un nouvel amour, s'est levée.
La promesse m'avait parue absurde, enfantine, obsolète, chimère d'un passé utopique effacé. Il y a des choses importantes que l'on oubli sans trop sans rendre compte, tant le quai de la gare nous semble froid et nous glace les muscles jusq'au os.La nuit paraissait infranchissable, mais j'ai suivi, comme les rois d'antan, les étoiles de l'enfant, mais sans trop y croire.Mais soudain, une pluie d'étoiles s'est deversée sur la voie lactée. La nuit devint pâle d'abord, translucide ensuite. J'ai cru y perdre mes sens. La rosée sucrée s'est posée sur mes lêvres et l'aube inattendue arriva enfin. La lumière finit par m'éclabousser et une merveilleuse et belle journée, comme un nouvel amour, s'est levée.
Os domingos s.o.s.
Os domingos à tarde,
que costumávamos passar a fazer amor
misturando os nossos corpos insuspeitos e cadentes
deitando a nossa alma insustentável
no cobertor infinito das nossas promessas à flor da pele
maltratando as horas ciumentas e vis
que nos fitavam de soslaio do canto escuro do quarto da mansarda
e nós alheios a esses mecanismos
que teimam em dividir o dia mesmo se ele sempre nasce inteiro,
são indolentes sem ti
são cascas de noz vazias
que estalam na cova da minha mão
e me devolvem o eco fragmentado
dos teus passos no soalho velho do meu passado.
A sós, entregue à turba cruel
das minhas vozes que se amotinam,
deixo-as morderem-me os dedos, roerem a mordaça,
comerem o pano, cravarem-me os dentes nas jugulares
e destilarem-me veneno nas artérias.
Num gesto violento
faço um garrote à minha alma
aperto-o bem
dedilho a veia sediciosa
espeto a seringa
como uma lança de guerra
e injecto afecto no objecto cardíaco.
Sei que para salvar-te basta abraçar-te.
Mas quem me resgata a mim?
Os domingos à tarde,
que costumávamos passar a fazer amor
misturando os nossos corpos insuspeitos e cadentes
deitando a nossa alma insustentável
no cobertor infinito das nossas promessas à flor da pele
maltratando as horas ciumentas e vis
que nos fitavam de soslaio do canto escuro do quarto da mansarda
e nós alheios a esses mecanismos
que teimam em dividir o dia mesmo se ele sempre nasce inteiro,
são indolentes sem ti
são cascas de noz vazias
que estalam na cova da minha mão
e me devolvem o eco fragmentado
dos teus passos no soalho velho do meu passado.
A sós, entregue à turba cruel
das minhas vozes que se amotinam,
deixo-as morderem-me os dedos, roerem a mordaça,
comerem o pano, cravarem-me os dentes nas jugulares
e destilarem-me veneno nas artérias.
Num gesto violento
faço um garrote à minha alma
aperto-o bem
dedilho a veia sediciosa
espeto a seringa
como uma lança de guerra
e injecto afecto no objecto cardíaco.
Sei que para salvar-te basta abraçar-te.
Mas quem me resgata a mim?
A geografia explicada ao amor
Não descures o fogo, amor
que é a verdadeira razão do mundo
e o eixo incandescente desta esfera
e a dorsal atlântica dos meus paralelos.
É o fogo, amor
que atrai os dois pólos opostos
e os sustenta em frágil equilíbrio
e toda a terra em volta.
É o fogo, amor
que mantém este continente
e evita a deriva,
apesar dos tsunamis na minha boca
e dos sismos que me atravessam como cicatrizes.
Mas nem a insistência dos ventos
nem a memória das marés
nem o sopro das águas
hão-de extinguir as chamas
que lavram esta queimada
e preparam a terra prometida.
A floresta virgem foi lá atrás no meu passado.
É o fogo, amor
e precisa arder
como o sol teimoso
agrarrado a este braço de galáxia.
Sou fogo, amor
e preciso arder
e das tuas águas
que lavem as minhas feridas abertas
e dêem de beber ao meu chão em pousio.
E as águas hão-de ser sangue
e penetrar as camadas profundas do meu corpo
e os aluviões da minha alma.
E a alma é fogo, amor
que na rota das tuas mãos
na nebulosa da tua nuca
e na travessia do teu peito
sofre de combustão espontânea
deflagra e perpetua o ciclo.
Não descures o fogo, amor
que é a verdadeira razão do mundo
e o eixo incandescente desta esfera
e a dorsal atlântica dos meus paralelos.
É o fogo, amor
que atrai os dois pólos opostos
e os sustenta em frágil equilíbrio
e toda a terra em volta.
É o fogo, amor
que mantém este continente
e evita a deriva,
apesar dos tsunamis na minha boca
e dos sismos que me atravessam como cicatrizes.
Mas nem a insistência dos ventos
nem a memória das marés
nem o sopro das águas
hão-de extinguir as chamas
que lavram esta queimada
e preparam a terra prometida.
A floresta virgem foi lá atrás no meu passado.
É o fogo, amor
e precisa arder
como o sol teimoso
agrarrado a este braço de galáxia.
Sou fogo, amor
e preciso arder
e das tuas águas
que lavem as minhas feridas abertas
e dêem de beber ao meu chão em pousio.
E as águas hão-de ser sangue
e penetrar as camadas profundas do meu corpo
e os aluviões da minha alma.
E a alma é fogo, amor
que na rota das tuas mãos
na nebulosa da tua nuca
e na travessia do teu peito
sofre de combustão espontânea
deflagra e perpetua o ciclo.
2
dança da chuva, céu que não responde por despeito, nuvem arrogante que esqueceu a memória da água, gotas como gumes gelados que se suicidam sobre a minha pele, infiltram os meus porosmeu sangue transvasado, minhas células explodindo como supernovas no vazio sideral do meu corpo, universo do meu verso único em mim, árido e estéril como um deserto de sal, almejo
3
luzes mortas que me penetram, passageiros petrificados, soltos os capuzes e os lábios despertos, espero o vento morno na nuca, virás para alem do mar?, e eu reconhecerei o teu sorriso?, o ganges ainda corre?, e as nuvens atormentadas?
adornos incontornáveis a que tento escapar, tento fugir ao pântano que teima em me atrair, as sombras que me assombram, os teus dedos acalentam-me, cobres-me com o teu corpo, sossegas a minha intranquilidade, terias feito bem ao bernardo
sim, quero acreditar nos dados, no tapete verde, nos números, sai o 9, volto a jogar, o 1 gira até esbarrar contra a tabela, ganhei? tens a certeza? pensas que jogo todos os dias? apenas na tua roleta russa, meu amor!
adornos incontornáveis a que tento escapar, tento fugir ao pântano que teima em me atrair, as sombras que me assombram, os teus dedos acalentam-me, cobres-me com o teu corpo, sossegas a minha intranquilidade, terias feito bem ao bernardo
sim, quero acreditar nos dados, no tapete verde, nos números, sai o 9, volto a jogar, o 1 gira até esbarrar contra a tabela, ganhei? tens a certeza? pensas que jogo todos os dias? apenas na tua roleta russa, meu amor!
Fórum "Luxemburgo, terra de acolhimento": Mais apoio aos alunos e um diálogo sistemático entre pais e professores
| Marion Bur (La Voix du Luxembourg), Pierre Lorang (Luxemburger Wort), Luís Barreira (Rádio Latina) e José Luís Correia (CONTACTO) moderaram o debate Foto: Guy Jallay |
Uma maior participação e incentivo dos pais na carreira escolar do aluno, professores mais sensibilizados para ajudar as crianças em dificuldade e um maior diálogo entre os corpos docentes e os encarregados de educação foram alguns dos principais pontos discutidos num debate livre e aberto promovido pelo CONTACTO, Rádio Latina, "Wort" e "Voix du Luxembourg", que decorreu no edifício-sede do grupo, em Gasperich, em 29 de Junho último.
Neste primeiro fórum "Luxemburgo, terra de acolhimento" sobre a temática dos alunos portugueses que frequentam o sistema de ensino luxemburguês, foram também vários os intervenientes a sublinhar a importância de adaptar melhor a escola luxemburguesa à chegada constante de alunos estrangeiros (e não apenas portugueses!), de forma a não os canalizar inevitavelmente para o insucesso escolar.
Para isso, o Luxemburgo deve definitivamente assumir-se como país de acolhimento, opinaram os participantes, e não apenas com uma terra de imigração e de passagem. Alertou-se ainda para que os pais tomem também consciência de que, ao emigrarem, se torna necessário acompanhar com maior atenção o percurso escolar dos seus filhos.
Para estes, a mudança é vivida, frequentemente, de forma perturbadora. Dependendo da idade, a maior ou menor dificuldade de adaptação ao novo país passa sobretudo pelo sucesso escolar, que continua a ser a melhor garantia de integração, de realização pessoal e de bases sólidas para o futuro.
A questão das línguas na escola luxemburguesa, as turmas de acolhimento, a escola de tronco comum, as aulas integradas de Português, as barreiras culturais e sócio-políticas, foram igualmente abordados. Um suplemento detalhado sobre este debate será publicado brevemente no CONTACTO.
Marcaram presença neste fórum mais de duas dezenas de convidados, entre representantes das autoridades portuguesas no Luxemburgo e do Ministério da Educação luxemburguês, Coordenação do Serviço de Ensino do Português, Centro de Psicologia e de Orientação Escolar (CPOS), associações de pais de alunos portugueses, associações federativas que trabalham com o movimento associativo português (CLAE, ASTI, CASA, APL, etc.), sindicatos, além de outras entidades e colectividades.
Os próximos fóruns "Luxemburgo, terra de acolhimento", previstos para Setembro e Novembro próximos, abordarão a integração sócio-política da comunidade portuguesa e a problemática do movimento associativo português.
in CONTACTO, 05/07/2006
Rótulo :
actu_lux,
Luxembruger Wort
quinta-feira, 29 de junho de 2006
Comentário: Troca de galhardetes
Só se vêem bandeiras suspensas nas janelas e varandas do Luxemburgo quando acontecem eventos futebolísticos de dimensão internacional: o Euro, há dois anos, ou agora, o Mundial. Porque o futebol é assim mesmo, mexe connosco, faz-nos vibrar, ou não fosse o desporto-rei por excelência. Isso é sinal de não-integração ou de segregacionismo para com o país em que vivo? O fenómeno existe apenas em torno do futebol, senhora!
Não vejo bandeiras nacionais a serem hasteadas noutras ocasiões! Nem durante os muito populares Jogos Olímpicos. E muito menos no dia nacional de uma qualquer comunidade radicada no Grão-Ducado. O que tenho visto muitas vezes é portugueses hasteando bandeiras luxemburguesas a 23 de Junho. Porque as pessoas gostam de estandartes.
Há depois que distinguir entre patriotismo (que se define como amor à pátria), nacionalismo (que é uma preferência, por vezes exclusiva, por tudo o que diz respeito à nação de que se faz parte) e... futebol! E isto, é apenas futebol, senhora!
Em Portugal, por esta altura, vêem-se bandeiras brasileiras, ucranianas, angolanas e francesas, sem que tal choque ninguém. Muito pelo contrário, isso só traz mais cor e alegria à festa do futebol que galvaniza os povos à escala mundial como nenhum outro evento. Em Colónia, Frankfurt, Gelsenkirchen e Nuremberga, onde a selecção portuguesa jogou, havia adeptos japoneses e alemães a envergarem a camisola das quinas sem pejo.
Porque isto é apenas futebol, senhora! O que se suspende nas janelas é paixão pelo futebol, não é chauvinismo recalcado nem gritos de Ipiranga. São bandeiras, senhora!
No fórum aberto pelo site Bomdia.lu em torno desta questão, um dos testemunhos põe o dedo na ferida: "Parece que as bandeiras, as buzinas dos automóveis e os gritos de vitória portugueses incomodam quem tão generosamente permitiu que as nossas mães fizessem limpeza e os nossos pais trabalhassem nas obras nos últimos 30 anos."
O Mundial e o fenómeno das bandeiras teve pelo menos esse mérito: dar visibilidade às comunidades que contribuem esforçadamente para a riqueza económica deste país. Mas assim que ousam mostrar a sua diferença, há quem se julgue no direito de proclamar que devem ser calados e ostracizados. Quem quer segregar quem, afinal, senhora?
José Luís Correia,
in CONTACTO, 28/06/2006
Rótulo :
actu_mundo,
bandeiras
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