sebenta de anotações esparsas, pensamentos ociosos, reflexões cadentes, poemas difusos, introspecções de uma filosofia mais ou menos opaca dos meus dias (ou + reminiscências melómanas, translúcidas, intra e extra-sensoriais, erógenas, esquizofrénicas ou obsessivas dos meus dias)
-
cahier de notes éparses, pensées oisives, réflexions filantes, poèmes diffus, introspections d'une philosophie plus ou moins opaque de mes journées (ou + de réminiscences mélomanes, translucides, intra-sensorielles et extra-sensorielles, érogènes, schizophrènes ou obsessionnelles de mes journées)

sábado, 30 de setembro de 2006

les damnés
os poetas malditos acreditam que só a tragédia é a verdadeira musa, que só o inferno conduz ao exorcismo das palavras-vómito, que só a catarse transmuta a alma sangrenta na magia das letras, dando finalmente corpo e sentido ao desequilíbrio dos sentidos.
já experimentei deitar a felicidade exacerbada no papel, em estado de êxtase quase eufóricó-orgásmico. Mas depois de deixar secar a tinta e ver a folha amarelar no outono dos dias, concluo tristemente que tudo o que a pena pingou foi torpe simualcro de literatura

quinta-feira, 14 de setembro de 2006

EXtasy

A minha amante. Desejei-a tanto. Ao fim de muitos dias, ela cedeu. Finalmente. Trouxe-a até este quarto. Veio, dócil, pela minha mão.
A luz que penetrava pela janela recortava-lhe a silhueta perfeita. Deixou cair o vestido, pudicamente, pelo corpo abaixo. Revelou-me os seios redondos, belos, os ombros nus, o delta do sexo aparado, os pêlos, os poros, as rugas, as linhas da pele, as nódoas negras, as cicatrizes, as feridas das balas, o local e a história dos vestígios de fracturas, toda a geografia do seu corpo exposto.
"Não chores, não sou uma vítima!", confessou-me. Falou-me dos seus 250 assassinatos. Por encomenda, por dívida, por crime político, por droga, por diversão, por bebedeira (estrabismo etílico), por engano... Por enforcamento, afogamento, evenenamento, esfaqueamento, com beretta, revólver, à queima-roupa, com silenciador, carabina, espingarda, com objectiva, punhal, corda de pesca, electrocução, explosão, carro armadilhado...
Deu uns passos na minha direcção. Baixou os olhos, acendeu um cigarro, suspendeu-o aos lábios finos e prometeu-me, em voz serena, como se fosse um acto de contrição: "Amo-te! Se te matar, hás-de ser o meu último!"
O copo de uísque permanecia intocado na cómoda velha do quarto 381 quando a pequena morte inundou as veias de todo o meu sangue.

quarta-feira, 30 de agosto de 2006

regresso à rotina

Regresso à rotina

A "Schueberfouer", mercado medieval primeiro, depois feira, tornou-se com a tradição acrescentada dos séculos um dos encontros anuais obrigatórios dos habitantes deste pequeno país. Anunciava as víndimas, marcava o fim do Verão. Do ténue Verão luxemburguês, entenda-se. Sempre demasiado efémero, fugaz, sobretudo para nós, os austrais, quer tenhamos chegado com uma nova cor na pele ou aguentado estoicamente nestas latitudes um mês sem Verão.

Como apenas o estio é desculpa para o ócio, aqui no burgo, entre a meteorologia incerta e o calendário inane, houve quem encontrasse pano para mangas, mesmo num país desertado por parte da população. Provando que hoje em dia isso de rentrée política é coisa ultrapassada, porque afinal o mundo não pára para férias, os partidos ADR e DP, da Oposição, exigiram ao Governo, em Agosto, um debate alargado e profundo sobre a viabilidade do sistema de pensões. O tema é aliás uma preocupação constante. Compreende-se, num país cuja população envelhece rapidamente, com o mito do fim do Estado Providência sempre a espreitar. O propagandeado "Estado Mínimo", que o neoliberalismo radical apregoa, em que a instituição máxima do poder deveria apenas assegurar o "serviço mínimo" da justiça e pouco mais, aparece a muitos como a solução milagrosa para os rombos constantes que as caixas da Segurança Social acusam.

É uma ameaça que não paira (por enquanto) sobre o Grão-Ducado, graças sobretudo à imigração, que tem vindo a colmatar o débil crescimento da demografia dos nacionais. Os números são eloquentes: o número de reformas passou de 80 mil, em 1990, para 120 mil, em 2005, segundo o Statec. O que, numa população com 460 mil habitantes, significa que existem três assalariados para cada reformado. No mesmo período, o número de estrangeiros passou de 113 para 177 mil, enquanto os nacionais aumentaram apenas de seis mil indíviduos (de 271 para 277 mil).

Apesar de este reforço demográfico se ficar a dever em grande parte à imigração comunitária, uma sondagem veio revelar no princípio deste mês que os luxemburgueses (depois dos alemães) são dos que mais se opõem ao futuro alargamento da UE. A posição oficial do Governo luxemburguês e do primeiro-ministro Jean-Claude Juncker sempre foi, em contrapartida, a favor de um cada vez maior alargamento da União. Apesar deste aparente desfasamento entre as duas partes, 65% da população luxemburguesa – ou seja, exactamente a mesma percentagem que se pronuncia contra o alargamento –, diz confiar nas decisões do Governo!

Poderia ser antagónico. Mas atentemos no facto de o Grão-Ducado ser um dos doze países do mundo onde as pessoas são mais felizes, pelo menos a acreditar no estudo recentemente publicado pelo psicólogo social britânico Adrian White, da Universidade de Leicester. A capital luxemburguesa é mesmo uma das três mais prósperas do globo, revela, por seu lado, um inquérito do banco UBS. A única conclusão possível é ter a lição de Voltaire sofrido uma adaptação local: tudo está bem no melhor dos mundos... enquanto o nosso jardim continuar arrumadinho e cultivado.

Com a grande feira no Glacis, a vida volta verdadeiramente à capital e ao país, as crianças sabem que o regresso às aulas é para breve e espera-se com mais ou menos ansiedade e interesse a rentrée política. Mesmo quando as novidades não parecem abundar... a não ser que seja apenas uma ilusão de óptica.

O Conselho de Governo reuniu na sexta-feira. Decidiu, entre outros pontos, a participação luxemburguesa na Força Interina das Nações Unidas no Líbano (o envio de três homens!) e a criação, para 2007, de um novo liceu em Dommeldange. Abordaram-se ainda questões como a do desemprego endémico, que voltou a aumentar, depois de tímidas descidas no primeiro semestre do ano; bem como a lei da violência doméstica – apesar de ter sido votada há três anos, os números de mulheres e crianças espancadas continuam a rondar os mesmos valores de então. Os membros do Governo voltaram de férias mas, como ainda vinham de sandálias , limitaram-se a tratar do expediente. Mostraram que fizeram os deveres, mais nada.

Assuntos como a dupla nacionalidade, que deveria ter sido apresentada ainda antes do Verão, ficam relegados para a rentrée parlamentar, no Outono. Nenhum elemento do Executivo achou por bem fazer uma referência à sugestão no mínimo curiosa (para não dizer duvidosa) do círculo de reflexão Joseph Bech (próximo do CSV e do Governo!), que considerou oportuno propor, em pleno Agosto, na ausência da maioria dos estrangeiros (mas é apenas um detalhe!), que a cidadania europeia funcionasse como alternativa à dupla nacionalidade. Como se uma pudesse substituir a outra. Como se a cidadania europeia fosse um facto político consumado e a UE um Estado próprio. Uma proposta infeliz e anacrónica que, espera-se, não atrase (ainda mais!) os futuros debates.

Quando a feira desce à cidade, até os portugueses voltam da sua migração estival para Sul. Repousados, bronzeados, sorridentes, com maresias e saudades no olhar. Trocam a praia pela roda gigante e operam com esta transmutação do lazer o regresso à rotina. Devagarinho! Seria desejável que no acto guardassem o sebastianismo tipicamente luso no bolso, aproveitassem para alargar o seu horizonte, inquirissem sobre o que se passou nesta sua outra "terrinha" durante as semanas em que estiveram fora e participassem mais nas discussões de política e sociedade que se aproximam e que também lhes dizem respeito.

(José Luís Correia, in Contacto, 30.08.06)

quinta-feira, 24 de agosto de 2006

livros lidos este Verão
- "La mémoire et le feu - Portugal: l'envers du décor de l'Euroland", Jorge Valadas. Ensaio político que se resume a apedrejar os recentes governos, da esquerda à direita, dos comunistas aos bloquistas. Ninguém escapa. Não ousa porém tocar na efígie do "el-comadante" Álvaro Cunhal. A leitura que faz da actual política e das politiquices portuguesas é, diga-se em abono da verdade, inteligente e certeira. Mas o discurso sobre a "utopia portuguesa", com que se seduz o leitor na introdução e na contracapa, e que eu debalde esperei, não acontece. Li gato por lebre.
- "Planisfério Pessoal", de Gonçalo Cadilhe. A volta ao Mundo por terra e por mar do antigo jornalista da Grande Reportagem, publicada no Expresso, entre Dezembro de 2002 e Julho de 2004.
- "O cartógrafo do Infante", de Frank G. Slaughter. Romance com um bom enredo e que prende o leitor desde as primeiras páginas e que aproveita os vazios da História para romancear alguns mitos dos Descobrimentos Portugueses. Aventura, sexo, amor, traição, histórias e História. Boy meets girl, boy gets in trouble, girl saves boy. Em paralelo, o cartógrafo veneziano André Bianco, com ligações à família dos Médicis, feito escravo por corsários árabes, navega enquanto tal até aos mares da China e Cipango (Japão), cem anos antes de qualquer europeu lá chegar (os primeiros, os portugueses, chegariam em 1540!), e entra depois ao serviço do Infante D. Henrique, ao mesmo tempo que se apaixona, numa enseada de Sagres, por Leonor Perestrelo, filha do futuro governador da Madeira. Toda e qualquer semelhança com Cristovão Colombo é, evidentemente, pura coincidência.
- "Minto até ao dizer que minto", de José Luis Peixoto. Episódio "blasé" sobre a passagem amorfa das deambulações vagas e desilusórias pós-adolescentes à vida adulta nesta primeira década do século.
- "Um homem sem pátria" de Kurt Vonnegut. O autor de origem alemã, naturalizado norte-americano, que se celebrizou com "Matadouro 5" (sobre o Holocausto), escreve aqui artigos corrosivos (já o foi mais!) e com bastante humor (já também foi melhor!). Entre memórias da sua infância (nos anos 30) e críticas à actual administração Bush, é o regresso de um autor que está a gastar os últimos cartuchos para mostrar que a sua verve ainda vive.
- "A Máquina do Arcanjo", Frederico Lourenço. É o último capítulo de um tríptico, mas pode ser lido separadamente. O amor e o sexo gays no Portugal dos anos 80. Pequenos toques de humor deliciosos.
- "Sete Noites" de Alina Reyes. Pequena história sem muito enredo, escrita noite após noite, na primeira pessoa, com sensualidade tântrica e erotismo feminino.
- "Em Paris" de Ramalho Ortigão. Relatos das impressões e dos encontros do dia-a-dia do literato português na capital francesa em 1868. As comparações do mundo parisiense com uma sociedade portuguesa burra, casmurra, analfabeta, analfabruta e empertigada são inevitáveis e de uma aflitiva actualidade.Ramalho, o irmão-gémeo de Eça.
- "Quatro Gigantes" de Ramalho Ortigão. Textos do autor sobre Camões, Garrett, Camilo Castelo Branco e Eça de Queiroz. O título, pobre de conteúdo, duvido que pertença ao autor e seja antes uma escolha publicitária e infeliz da editora. Isso nota-se aliás pelos textos escolhidos. Enquanto os ensaios sobre Camões e Camilo se revelam bastante interessantes e completos, nota-se que a parca página e meia sobre Garrett não passa de um texto recuperado de uma petição da altura para tresladar o corpo de Garrett para o Panteão Nacional; os textos sobre Eça fazem parte da correspondência privada do autor e que, não obstante o seu interesse inequívoco sobre a vida e obra de Eça, não são biográficos nem completos nem a tal pretendiam.
- "Profecias do Bandarra", de Gonçalo Anes Bandarra. As trovas do Sapateiro de Trancoso. Boa introdução que situa o autor no seu contexto social e histórico.
- "Future Perfect", Ed. Jim Heimann. Cartazes, desenhos, ilustrações de cores berrantes, artigos e capas de revista de ficção científica sobre o que os nossos contemporâneos dos anos 1940-1960 imaginaram sobre um futuro que nunca chegou a acontecer: comboios para a lua, túneis subterrâneos sob o Atlântico, aviões de passageiros de quatro andares, submarinos privados, etc.

BDs e novelas gráficas
- "Cité de Verre", com textos de Paul Auster, ilustrações de Paul Karasik e David Mazzucchelli. Excelente enredo e desenhos. Adinha-se a dificuldade que os desenhadores tiveram para imaginar as partes mais elípticas e opacas da história. Sairam-se com nota 10.
- "Catálogo de Sonhos", de José Carlos Fernandes (JCF)
- "O Depósito dos Refugos Postais", de JCF
- "Pessoas que usam bonés-com-hélice", de JCF
- "A última obra-prima de Aaron Slobodj", de JCF. Todas as histórias de JCF se desenrolam num mundo paralelo onde os habitantes até se parecem connosco mas o mundo evoluiu prolongando um não-sei-quê négligé e blasé dos anos 40 e 50, como se tivesse sido preservada a nossa ingenuidade pré-Segunda Guerra Mundial. De episódio para episódio, descobrimos uma nova personagem, uma nova cidade, um novo promenor, uma nova história. Histórias deliciosas, humanas, trágicas, delirantes, loucas, tresloucadas, mas tão verdadeiras...mesmo quando são (apenas?) pura ficção e poesia gráfica.

em leitura
- "Contos Satíricos", contos do Oeste de Mark Twain
- "Pobre e Mal Agradecido", ensaios políticos de Rui Tavares
- "Os Livros da Minha Vida", Henry Miller
- "Ninfomaníacas e Outras", Irwing Wallace
- "Os Cento e Vinte Dias de Sodoma", Marquês de Sade
- "Todos os Dias", Jorge Reis-Sá

leitura incidental

- "A noite abre os meus olhos", colectânea poética de José Tolentino Mendonça
- "O Teu Rosto", António Ramos Rosa (foto infra)
- "Mundos Paralelos", teses recentes da Física explicada em miúdos por Michio Kaku

quinta-feira, 20 de julho de 2006

Madredeus na Abadia de Neumünster: 20 anos a cantar a alma portuguesa

É a quarta vez que os Madredeus actuam no Luxemburgo Fotos: Guy Wolff
O grupo português com o maior reconhecimento internacional – os Madredeus – , passou pelo Grão-Ducado, no seu quarto concerto memorável neste país, desta feita no Grund, num lugar de encanto: o adro da Abadia de Neumünster.

Cantam Lisboa, a alma e a poesia portuguesa. Uma guitarra portuguesa alada (José Peixoto), uma viola clássica sublimada (Pedro Ayres Magalhães), um baixo providencial (Fernando Júdice) e teclas inspiradas (Carlos Maria Trindade) enquadram a composição para uma voz única e inconfundível, a de Teresa Salgueiro.

Um domingo ao entardecer, num cenário idílico. Os Madredeus são o grupo português mais internacional de sempre e a prová-lo, mais uma vez, foi o público – 1.200 pessoas das mais diferentes nacionalidades e origens – que assistiu no domingo ao concerto no adro da Abadia de Neumünster, no Grund, no âmbito do Festival OMNI 2006, promovido pelo Centro Cultural de Encontro (CCRN).

É a quarta vez que os Madredeus passam pelo país, do qual guardam a boa recordação do concerto em Wiltz, em 2000, e do primeiro, em 1992, "porque era uma das duas primeiras actuações que faziamos fora de Portugal", conta-nos Pedro Ayres Magalhães, mentor do grupo.

"Do palco, não fazemos distinções entre o público. É normal em Paris ou no Luxemburgo haver mais portugueses do que noutras cidades, mas os portugueses até costumam ser a minoria. A obra do grupo – temos cerca de 120 canções –, continua a ser pouco conhecida, mesmo se o nome é famoso!", lamenta Pedro Ayres, mentor e membro-fundador do grupo.

Lisboa e Teresa

Os Madredeus são uma fantasia musical erudita de raiz genuinamente portuguesa, segundo uma definição de Pedro Ayres. Move o grupo o culto da composição em português. A grande fonte de inspiração é Lisboa. Mas também a própria Teresa Salgueiro.

"Fazemos música para guitarra, para a voz da Teresa e para ser cantada em português", explica o guitarrista. Virtuoso, para quem o soube apreciar no domingo, e que continua a ser, 20 anos depois da criação do grupo, o principal letrista e compositor das canções.

Em 20 anos mudaram muito? "Não mudámos, evoluímos!", corrige. E acrescenta: "Cultivámos um estilo, apurámos, sofisticámos um tipo de encenação, a solenidade nos concertos, a importância da voz, da poesia e da guitarra clássica".


"Madredeus é uma orquestra de bolso", diz Pedro Ayres Magalhães
"Os Madredeus querem estimular o conhecimento da cultura portuguesa através de um reportório musical versátil, familiarizar os povos do mundo com a nossa língua e a nossa nação. Motiva-nos também criar uma expressão da diáspora portuguesa no Mundo. Já o conseguímos de certa maneira, mas devíamos continuar nesse sentido. Ainda não chegámos a essa fase, não sei se vamos conseguir fazê-lo... O que falta também à obra dos Madredeus é criar descendência, outros grupos com uma arte como a nossa. Mas não nos cumpre a nós fazer isso...", diz o líder do grupo, com saudades do futuro.

Esta "orquestra de bolso", como Pedro Ayres lhe costuma chamar, "já atingiu tudo ou quase tudo o que havia para atingir".

"Em termos de popularidade e de reconhecimento internacional conseguimos o que nenhum outro grupo português conseguiu. Fizemos música para cinema (n.d.R.: Wim Wenders e Maria de Medeiros, por exemplo), tocámos com orquestras, em catedrais, em salas das mais prestigiadas do mundo. Em Portugal, somos um dos grupos cujos concertos mais bilhetes vendem e mesmo a nível europeu, somos os únicos no nosso género a tocar em 36 países há 20 anos."

Actualmente, todos os elementos do grupo evoluem noutros projectos colectivos ou a solo. O único a dedicar-se totalmemte aos Madredeus é Pedro Ayres, que foi também quem teve a ideia de criar o grupo em 1986. E lembra a génese, para juntar ao mito do grupo: "Quando eu andava em concerto pelo país (n.d.R.: leia-se, no tempo dos Heróis do Mar), via os teatros fechados e fiquei com vontade de criar um grupo com guitarras acústicas que pudesse tocar nesses sitíos." O resto já faz parte da história oficial. Foi assim que nasceu a ideia. Vinte anos depois está mais do que nunca viva e recomenda-se.

Depois de mais de 120 cidades do mundo, foi a vez do Luxemburgo ficar a conhecer o concerto onde divulgam as músicas dos dois últimos álbuns: "Faluas do Tejo", de 2005 e "Um Amor Infinito", de 2004. Isto porque não há temas novos nem estão a preparar nenhum álbum para celebrar os 20 anos de carreira.

Num incontornável "bis" no final da noite, regressaram ao palco para oferecer ao público temas de álbuns anteriores como "No céu da Mouraria" e "Haja o que houver".

José Luís Correia,
in CONTACTO, 19/07/2006

quinta-feira, 6 de julho de 2006

tous les matins
Tous les matins, douce décevance, j'aspire aux confessions de ton âme, aux céléstes pourpris de ton coeur, mais tu n'a pas écris, mon bel enfant. N'importe, j'attendrais jusq'au petit matin tes lettres d'amour.
"We followed the snake, the endless snake, trough the desert of our commun faith. My pretty child, my lovely child, the blue bus is calling us, where is he taking us?..." (Jim Morrison, The Doors, "The End")

quarta-feira, 5 de julho de 2006

promesse du jour suivant
La promesse m'avait parue absurde, enfantine, obsolète, chimère d'un passé utopique effacé. Il y a des choses importantes que l'on oubli sans trop sans rendre compte, tant le quai de la gare nous semble froid et nous glace les muscles jusq'au os.La nuit paraissait infranchissable, mais j'ai suivi, comme les rois d'antan, les étoiles de l'enfant, mais sans trop y croire.Mais soudain, une pluie d'étoiles s'est deversée sur la voie lactée. La nuit devint pâle d'abord, translucide ensuite. J'ai cru y perdre mes sens. La rosée sucrée s'est posée sur mes lêvres et l'aube inattendue arriva enfin. La lumière finit par m'éclabousser et une merveilleuse et belle journée, comme un nouvel amour, s'est levée.
o interseccionismo segundo Orfeu, antes da chuva oblíqua
Os domingos s.o.s.

Os domingos à tarde,

que costumávamos passar a fazer amor
misturando os nossos corpos insuspeitos e cadentes
deitando a nossa alma insustentável
no cobertor infinito das nossas promessas à flor da pele
maltratando as horas ciumentas e vis
que nos fitavam de soslaio do canto escuro do quarto da mansarda
e nós alheios a esses mecanismos
que teimam em dividir o dia mesmo se ele sempre nasce inteiro,

são indolentes sem ti
são cascas de noz vazias
que estalam na cova da minha mão
e me devolvem o eco fragmentado
dos teus passos no soalho velho do meu passado.

A sós, entregue à turba cruel
das minhas vozes que se amotinam,
deixo-as morderem-me os dedos, roerem a mordaça,
comerem o pano, cravarem-me os dentes nas jugulares
e destilarem-me veneno nas artérias.

Num gesto violento
faço um garrote à minha alma
aperto-o bem
dedilho a veia sediciosa
espeto a seringa
como uma lança de guerra
e injecto afecto no objecto cardíaco.

Sei que para salvar-te basta abraçar-te.
Mas quem me resgata a mim?
A geografia explicada ao amor

Não descures o fogo, amor
que é a verdadeira razão do mundo
e o eixo incandescente desta esfera
e a dorsal atlântica dos meus paralelos.

É o fogo, amor
que atrai os dois pólos opostos
e os sustenta em frágil equilíbrio
e toda a terra em volta.

É o fogo, amor
que mantém este continente
e evita a deriva,
apesar dos tsunamis na minha boca
e dos sismos que me atravessam como cicatrizes.

Mas nem a insistência dos ventos
nem a memória das marés
nem o sopro das águas
hão-de extinguir as chamas
que lavram esta queimada
e preparam a terra prometida.
A floresta virgem foi lá atrás no meu passado.

É o fogo, amor
e precisa arder
como o sol teimoso
agrarrado a este braço de galáxia.

Sou fogo, amor
e preciso arder
e das tuas águas
que lavem as minhas feridas abertas
e dêem de beber ao meu chão em pousio.

E as águas hão-de ser sangue
e penetrar as camadas profundas do meu corpo
e os aluviões da minha alma.

E a alma é fogo, amor
que na rota das tuas mãos
na nebulosa da tua nuca
e na travessia do teu peito
sofre de combustão espontânea
deflagra e perpetua o ciclo.

1

ervas daninhas comendo o chao, derramando seiva na terra arida

2

dança da chuva, céu que não responde por despeito, nuvem arrogante que esqueceu a memória da água, gotas como gumes gelados que se suicidam sobre a minha pele, infiltram os meus poros

meu sangue transvasado, minhas células explodindo como supernovas no vazio sideral do meu corpo, universo do meu verso único em mim, árido e estéril como um deserto de sal, almejo

3

luzes mortas que me penetram, passageiros petrificados, soltos os capuzes e os lábios despertos, espero o vento morno na nuca, virás para alem do mar?, e eu reconhecerei o teu sorriso?, o ganges ainda corre?, e as nuvens atormentadas?

adornos incontornáveis a que tento escapar, tento fugir ao pântano que teima em me atrair, as sombras que me assombram, os teus dedos acalentam-me, cobres-me com o teu corpo, sossegas a minha intranquilidade, terias feito bem ao bernardo

sim, quero acreditar nos dados, no tapete verde, nos números, sai o 9, volto a jogar, o 1 gira até esbarrar contra a tabela, ganhei? tens a certeza? pensas que jogo todos os dias? apenas na tua roleta russa, meu amor!

Fórum "Luxemburgo, terra de acolhimento": Mais apoio aos alunos e um diálogo sistemático entre pais e professores


Marion Bur (La Voix du Luxembourg), Pierre Lorang (Luxemburger Wort), Luís Barreira (Rádio Latina) e José Luís Correia (CONTACTO) moderaram o debate Foto: Guy Jallay
Vários media do grupo saint-paul lançaram um fórum de discussão em torno do desafio escolar dos alunos portugueses no sistema de ensino luxemburguês.

Uma maior participação e incentivo dos pais na carreira escolar do aluno, professores mais sensibilizados para ajudar as crianças em dificuldade e um maior diálogo entre os corpos docentes e os encarregados de educação foram alguns dos principais pontos discutidos num debate livre e aberto promovido pelo CONTACTO, Rádio Latina, "Wort" e "Voix du Luxembourg", que decorreu no edifício-sede do grupo, em Gasperich, em 29 de Junho último.

Neste primeiro fórum "Luxemburgo, terra de acolhimento" sobre a temática dos alunos portugueses que frequentam o sistema de ensino luxemburguês, foram também vários os intervenientes a sublinhar a importância de adaptar melhor a escola luxemburguesa à chegada constante de alunos estrangeiros (e não apenas portugueses!), de forma a não os canalizar inevitavelmente para o insucesso escolar.

Para isso, o Luxemburgo deve definitivamente assumir-se como país de acolhimento, opinaram os participantes, e não apenas com uma terra de imigração e de passagem. Alertou-se ainda para que os pais tomem também consciência de que, ao emigrarem, se torna necessário acompanhar com maior atenção o percurso escolar dos seus filhos.

Para estes, a mudança é vivida, frequentemente, de forma perturbadora. Dependendo da idade, a maior ou menor dificuldade de adaptação ao novo país passa sobretudo pelo sucesso escolar, que continua a ser a melhor garantia de integração, de realização pessoal e de bases sólidas para o futuro.

A questão das línguas na escola luxemburguesa, as turmas de acolhimento, a escola de tronco comum, as aulas integradas de Português, as barreiras culturais e sócio-políticas, foram igualmente abordados. Um suplemento detalhado sobre este debate será publicado brevemente no CONTACTO.

Marcaram presença neste fórum mais de duas dezenas de convidados, entre representantes das autoridades portuguesas no Luxemburgo e do Ministério da Educação luxemburguês, Coordenação do Serviço de Ensino do Português, Centro de Psicologia e de Orientação Escolar (CPOS), associações de pais de alunos portugueses, associações federativas que trabalham com o movimento associativo português (CLAE, ASTI, CASA, APL, etc.), sindicatos, além de outras entidades e colectividades.

Os próximos fóruns "Luxemburgo, terra de acolhimento", previstos para Setembro e Novembro próximos, abordarão a integração sócio-política da comunidade portuguesa e a problemática do movimento associativo português.

in CONTACTO, 05/07/2006

quinta-feira, 29 de junho de 2006

Comentário: Troca de galhardetes

A bandeira é um sinal de pertença à uma nação? Com certeza. Mas há que não descontextualizar os fenómenos da actualidade que os caracterizam.

Só se vêem bandeiras suspensas nas janelas e varandas do Luxemburgo quando acontecem eventos futebolísticos de dimensão internacional: o Euro, há dois anos, ou agora, o Mundial. Porque o futebol é assim mesmo, mexe connosco, faz-nos vibrar, ou não fosse o desporto-rei por excelência. Isso é sinal de não-integração ou de segregacionismo para com o país em que vivo? O fenómeno existe apenas em torno do futebol, senhora!

Não vejo bandeiras nacionais a serem hasteadas noutras ocasiões! Nem durante os muito populares Jogos Olímpicos. E muito menos no dia nacional de uma qualquer comunidade radicada no Grão-Ducado. O que tenho visto muitas vezes é portugueses hasteando bandeiras luxemburguesas a 23 de Junho. Porque as pessoas gostam de estandartes.

Há depois que distinguir entre patriotismo (que se define como amor à pátria), nacionalismo (que é uma preferência, por vezes exclusiva, por tudo o que diz respeito à nação de que se faz parte) e... futebol! E isto, é apenas futebol, senhora!

Em Portugal, por esta altura, vêem-se bandeiras brasileiras, ucranianas, angolanas e francesas, sem que tal choque ninguém. Muito pelo contrário, isso só traz mais cor e alegria à festa do futebol que galvaniza os povos à escala mundial como nenhum outro evento. Em Colónia, Frankfurt, Gelsenkirchen e Nuremberga, onde a selecção portuguesa jogou, havia adeptos japoneses e alemães a envergarem a camisola das quinas sem pejo.

Porque isto é apenas futebol, senhora! O que se suspende nas janelas é paixão pelo futebol, não é chauvinismo recalcado nem gritos de Ipiranga. São bandeiras, senhora!

No fórum aberto pelo site Bomdia.lu em torno desta questão, um dos testemunhos põe o dedo na ferida: "Parece que as bandeiras, as buzinas dos automóveis e os gritos de vitória portugueses incomodam quem tão generosamente permitiu que as nossas mães fizessem limpeza e os nossos pais trabalhassem nas obras nos últimos 30 anos."

O Mundial e o fenómeno das bandeiras teve pelo menos esse mérito: dar visibilidade às comunidades que contribuem esforçadamente para a riqueza económica deste país. Mas assim que ousam mostrar a sua diferença, há quem se julgue no direito de proclamar que devem ser calados e ostracizados. Quem quer segregar quem, afinal, senhora?

José Luís Correia,
in CONTACTO, 28/06/2006

quinta-feira, 15 de junho de 2006

Portugueses têm os níveis de formação mais baixos do Luxemburgo - estudo

Cerca de 62% dos trabalhadores portugueses possuem apenas o ensino primário, vendo-se assim relegados para profissões onde são exigidas menos qualificações Foto: Anouk Antony
Um estudo do CEPS-Instead revela que o nível de formação dos trabalhadores difere segundo a sua nacionalidade. Os portugueses continuam a constituir a população activa com a formação mais baixa no Grão-Ducado.

A comunidade portuguesa representa mais de um terço (quase 40%) da população activa estrangeira residente no Grão-Ducado, mas a maioria dos trabalhadores portugueses continua a ter uma formação baixa. Em 2004, 62% tinham frequentado o ensino primário e apenas 3% eram detentores de um diploma pós-secundário.

Estes dados são avançados no estudo "Formação e nacionalidade no seio da população activa" que o Instead - Centro de Estudos de Populações, Pobreza e de Políticas Sócio-Económicas (CEPS), sediado em Differdange, publicou no seu site , na semana passada.

A análise pode ser considerada negra e nada animadora para a comunidade portuguesa mas, lendo o documento do CEPS, pode verificar-se que a situação melhorou desde 1989. Nesse ano, 89% dos portugueses residentes no país possuíam apenas o ensino primário; em 2004, esse número reduziu-se em 27% em relação há 15 anos. Há dois anos, existiam mais 10% de portugueses com o ensino secundário inferior do que em 1989. E eram mesmo mais 14% a sair do liceu com o ensino secundário superior do que 15 anos antes. Dos 0,1% detentores de um diploma do ensino superior em 1989 passou-se para 2,7% em 2004.

Apesar destes progressos, os trabalhadores portugueses residentes continuam a ter os níveis de formação mais baixos do país.

Formação difere segundo a nacionalidade 

O estudo demonstra que os níveis de formação da população activa no Luxemburgo diferem e muito segundo a nacionalidade e origem dos trabalhadores. Para o constatar, basta comparar os diferentes grupos populacionais.

Em 2004, os trabalhadores imigrantes representavam 44% da população activa. Os trabalhadores alemães, franceses e belgas residentes representavam no seu conjunto 30% da mão de obra residente estrangeira.

Cerca de 22% dos trabalhadores residentes tinham a escola primária, 11% os estudos secundários inferiores, 39% o nível secundário superior e 29% tinham alcançado o ensino superior. Os trabalhadores com melhores qualificações eram incontestavelmente os imigrantes oriundos da França, Bélgica e Alemanha, bem como os estrangeiros da União Europeia (UE), exceptuando italianos e portugueses.

Cerca de 60% dos imigrantes dos países vizinhos do Luxemburgo e da União Europeia (na sua maioria holandeses e britânicos) possuíam formação académica. Pelo contrário, apenas 27% dos trabalhadores luxemburgueses, 19% dos italianos e 21% dos estrangeiros extra-comunitários possuíam um diploma universitário.

A evolução desde 1989

Nos últimos 15 anos, os níveis globais de formação da população activa subiram, mas em proporções diferentes por nacionalidade. Entre 1989 e 2004, os trabalhadores apenas com o ensino primário baixaram de 36 para 22%; os que tinham frequentado o ensino secundário inferior aumentaram de 7 para 11%; os que tinham um nível secundário superior baixaram de 46 para 39%; e os activos com formação universitária passaram de 11 para 29%.

Os activos luxemburgueses seguiram a tendência global da população activa, aumentando em 15% o número dos que têm um diploma pós-secundário e baixando em 18% os que apenas têm o ensino primário. Desde 1989, alemães, belgas e franceses elevaram o seu nível de estudos, sobretudo no ensino superior (de 21 para 62%). Já eram os mais qualificados em 1989 e o fenómeno acentuou-se nos últimos 15 anos. Entende-se assim que continuem ainda hoje a ser a reserva privilegiada de mão de obra qualificada para o Luxemburgo, pode ler-se no estudo do CEPS. E nisto diferem, em substância, da imigração italiana e portuguesa, conclui ainda o estudo.

José Luís Correia 
in CONTACTO, 14/06/2006

sábado, 3 de junho de 2006

Juncker distinguido com Prémio Carlos Magno



Juncker dedicou o prémio ao povo luxemburguês Foto: Marc Wilwert
Credibilidade, competência, tenacidade, trabalho e esforço em prol da construção europeia são as qualidades reconhecidas a Juncker pelos responsáveis da atribuição do "Karlspreis".

O prestigiado Prémio Carlos Magno ("Karlspreis"), anualmente atribuído pela cidade de Aachen (Aix-la-Chapelle, em francês) a personalidades e instituições que se empenham na unificação da Europa, foi este ano atribuído ao primeiro-ministro luxemburguês, Jean-Claude Juncker, por este ser "um europeísta convicto e um motor da integração europeia", segundo disse Jürgen Linden, burgomestre daquela cidade alemã.

A cerimónia decorreu a 25 de Maio na Câmara Municipal de Aachen, na presença de 800 convidados, entre os quais os membros do Governo luxemburguês, o casal grão-ducal e muitos outros grandes vultos do mundo político europeu. Alguns desses são antigos laureados com o galardão, como o antigo chanceler alemão Helmut Kohl, o ex-presidente francês Valérie Giscard d'Estaing, a ex-presidente do Parlamento Europeu Simone Veil, e o político polaco Bronislaw Geremek.

 "Continuarei a lutar pela Constituição europeia" 

No seu discurso, Juncker dedicou o prémio à população do seu país e disse que os europeus devem estar orgulhosos do que realizaram em comum nos últimos 50 anos.

Apelando a uma solidariedade entre os povos e declarando-se contra uma União Europeia que fosse apenas uma "zona económica de livre câmbio", o chefe de governo luxemburguês disse ser necessário "envolver os trabalhadores na [construção europeia], dando-lhes direitos mínimos europeus. (...). Temos que aprender com os sucessos europeus do passado e não deixar este prédio desmoronar-se (...) Enquanto não houver uma declaração de óbito, continuarei a lutar prela Constituição Europeia", afirmou convicto. O Grão-Ducado é o recipiendário deste prémio pela terceira vez.

O primeiro galardoado com esta distinção foi o ministro dos Negócios Estrangeiros Joseph Bech, em 1966. Vinte anos depois, em 1986, foi o próprio povo luxemburguês a ser distinguido pelo seu empenho na causa europeia. O Prémio Carlos Magno foi criado em 1950 e é considerado uma das maiores distinções europeias. Em 2005 premiou o presidente da Itália, Carlo Azeglio Ciampi. O prémio já foi atribuído a personalidades como Jean Monnet (1953), Winston Churchill (1955), Robert Schumann (1958), Rei Carlos de Espanha (1982), Henry Kissinger (1987), François Mitterand (1988), Jacques Delors (1992), Tony Blair (1999) e Bill Clinton (2000).

José Luís Correia 
in CONTACTO, 31/05/2006

sexta-feira, 2 de junho de 2006

Raquel Barreira, definitivamente jazzy

Já cantou rock, depois fado. Hoje, a sua música não tem fronteiras nem complexos Foto: Francisco S.
Num registo de voz cada vez mais maduro, caloroso, definitivamente jazzy, Raquel Barreira assumiu uma postura descontraída na apresentação, em formato acústico, do seu último álbum "Notas Soltas". A cantora convidara ao Teatro de Esch/Alzette, em 21 de Maio, um vasto leque de talentosos músicos amigos.

Além de Georges Urwald (piano) e Al Lenners (percussão) – com quem compôs o álbum que mais se parece consigo –, faziam parte da lista de convidados especiais Marc Demuth (contrabaixo), Lisa Berg (violoncelo), Maurizio Spiridigliozzi (acordeão), Gast Gnad (trombone), Ernie Hammes (trompete), Nadine Kauffmann (saxofone), Vania Lecuit (violino) e Joachim Kruithof (alto).

A noite era de estreias e prometia. Raquel cantou pela primeira vez em francês, "Mémoires", um original escrito por si, à semelhança de quase todos os temas dos seus álbuns. Este aguarda ser incluído no próximo álbum. Como aliás outros novos temas já compostos por si, Urwald e Lenners, mas que o trio ainda não está a apresentar ao vivo, confiou a cantora ao nosso jornal.

Outra novidade: Raquel fez-se acompanhar na lindíssima canção "À luz do dia" por um grupo coral adolescente. Um excelente proposta que, infelizmente nesse dia, não surtiu o efeito desejado. Mas uma ideia, quiçá a reservar para um próximo trabalho.

Do italiano ao inglês, do swing ao fado, passando pelo tango e a valsa, Raquel provou ser uma artista multifacetada que já viajou muito pela música, conseguindo seduzir públicos muito diferentes.

Os espectadores não-portugueses eram aliás numerosos, como sempre nos seus concertos, e foram, mais uma vez, contagiados pelo entusiasmo da cantora que já os conquistou. A prová-lo, consulte-se no site www.raquelbarreira.net a sua agenda de concertos previstos até ao Verão. A próxima actuação é já na sexta-feira, 2 de Junho, às 17h, na Abadia de Neumünster, no Grund.

 No concerto em Esch, Raquel mostrou ainda que não é o xaile que faz a fadista. É a voz. Com a sua, sentida e depurada, e o piano sensível de Urwald, o fado "Ó gente da minha terra" (um dos mais famosos fados cantados por Amália) adquiriu um encanto dramático muito belo, personalizando naquele instante a saudade, mesmo para quem não falava a língua de Camões. Porque há coisas que não se explicam.

José Luís Correia 
in CONTACTO, 31/05/2006

quinta-feira, 1 de junho de 2006

Cow Parade Lisboa 2006: As vacas saíram à rua num dia assim

Fotos: José Luís Correia
Uma estranha transumância, invasão de bovinos mutantes ou uma vacada que escapou do novo Campo Pequeno?

Os lisboetas interrogam-se sobre as vacas bizarras à solta, desde 13 de Maio, pelas ruas, avenidas, praças e pracetas da capital portuguesa. Mas estas não mugem, nem tugem. Nem incomodam ninguém. Muito pelo contrário, divertem os passantes, atraem as crianças e interpelam até o turista menos incauto. Impassíveis e serenas, apesar das suas vestimentas e aparatos coloridos e excêntricos, pastam nas pedras da calçada das sete colinas como se de uma deliciosa e verdejante pradaria se tratasse, alheias aos olhares curiosos, ao vai-vém dos transeuntes e até ao chinfrim poluente dos automóveis.

Sob a denominação de "Cow Parade - Lisboa 2006", a manada insólita coloca Portugal no mapa das já célebres manifestações de arte pública com vacas que estiveram patentes em cidades como Chicago, Nova Iorque (EUA), Praga (República Checa), Barcelona (Espanha), Bruxelas (Bélgica), Estocolmo (Suécia), Tóquio (Japão) e São Paulo (Brasil), entre muitas outras.

A ideia nasceu em Zurique em 1998 e estendeu-se praticamente às cidades dos quatro cantos do planeta. Aqui no Luxemburgo,m recorde-se, adoptou o nome de "Art on Cows" (Arte nas Vacas) e coloriu a capital luxemburguesa no Verão de 2000.

A par de Lisboa, onde o evento decorre até Setembro, este ano a exposição acontece igualmente nas cidades europeias de Paris (França) e Edimburgo (Escócia). Do outro lado do Atlântico, em Boston, Denver (EUA) e Belo Horizonte (Brasil). Tendo passado por mais de 25 cidades em todo o mundo, a “Cow Parade” pintou já mais de quatro mil vacas.

Quem pintou a manta às vacas? 



As 101 esculturas bovinas em fibra de vidro e tamanho real foram decoradas e pintadas por artistas locais. Quase sempre com cores berrantes ou psicadélicas, às florzinhas, às listas, às riscas, às pintas, malhadas (tresmalhadas?), aos quadradinhos... de chocolate, com chapéus, luvas de boxe e até camisa com mangas-balão. O bovino que arbora esta renascentista vestimenta responde pelo nome de “Vacamões” e protege com “mão de vaca” o épico poema, pomposamente semi-deitado à entrada da rua do Carmo.

Não confundir com a “Cow-mões”, que conversa, em amena cavaqueira mas surda aos humanos ouvidos, com o seu colega Chiado, no largo do mesmo nome, lugar de artistas, escritores e poetas. Os outros utentes da via pública, engraxadores e cauteleiros que tais, que se acautelem eles também, pois as vacas apoderaram-se igualmente das esplanadas e parques da "cidade branca".

Mesmo os taxistas lisboetas acusam a concorrência nas bandeiradas da “Vaca Táxi”, colocada junto à Praça do Saldanha. Passeando por Lisboa, podem descobrir-se outras vacas fabulosas.

Há as tipicamente portugueses, como a “Vacabarcelos” (Amoreiras), a “Vaca Calçada Portuguesa” (Praça do Município) ou a “Portucow” (Rossio), que veste o lombo com as quinas. As “tecnológicas”, como a “Cowpyright” (Campo Pequeno) e a “CowPuter” (Gare do Oriente). E as francamente extravagantes, como a “Vaca Ilha da Madeira” (Centro Comercial do Colombo), a “Blue Cow” (Estação de Entrecampos), a “Vaca Alada” (Parque das Nações) ou a “Cândida Charneca”, junto ao Marquês de Pombal, que se improvisa do alto palanque em pastor providencial de gado grosso.

Após a exposição, em Setembro, as vacas serão vendidas em leilão público a 30 desse mês, revertendo o valor, distribuído através do Mecenato.net, para a Associação de Cegos e Amblíopes de Portugal (ACAPO), a Assistência Médica Internacional (AMI), a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV), o "Chapitô", Cruz Vermelha Portuguesa, Espaço T, Escuteiros de Portugal, Liga dos Bombeiros Portugueses e projectos da SIC Esperança.

José Luís Correia, em Lisboa 
in CONTACTO, 31/05/2006

sábado, 22 de abril de 2006

Job coaching: Arranja-me um emprego!

Cerca de 50 funcionários do sindicato vão passar a ajudar membros e não-membros no desemprego a encontrar um posto de trabalho Foto: Guy Jallay
O LCGB lança o "job coaching", iniciativa que tem como objectivo ajudar membros e não-membros desempregados a reintegrarem o mercado do trabalho.

O sindicato luxemburguês LCGB sempre ajudou pontualmente membros e não membros a encontrarem um emprego, explicou ao CONTACTO Joé Spier, porta-voz da central sindical.

"Foi o que aconteceu o ano passado com 331 pessoas que por intermédio do LCGB encontraram um posto de trabalho no sector privado", recorda o mesmo responsável. "Preocupados com a grave situação do desemprego no Luxemburgo e dado o sucesso dessas acções esporádicas, resolvemos sistematizar o serviço", explica.

 Este serviço, que o LCGB resolveu denominar de "job coaching", lançado oficialmente a 12 de Abril, visa estruturar melhor esse apoio. "Foram nomeados cerca de 50 funcionários do nosso sindicato, que conhecem bem pessoas de contacto nas empresas e têm relações no mundo do trabalho, para ajudarem as pessoas desempregadas, o que facilitará a sua missão", diz Spier. Cada um desses funcionários deverá trabalhar no máximo com três desempregados, de modo a conseguir levar a bem a sua tarefa.

Para o presidente do sindicato, Robert Weber, "não vale a pena criticar a Administração do Emprego (ADEM) e o Ministério do Trabalho. É preciso agir. Os últimos tempos mostraram-nos como é difícil negociar um plano social e como é fácil despedir gente". Weber faz notar que 62,3% das pessoas inscritas na ADEM já perderam o emprego pelo menos três vezes.

O Grão-Ducado conta actualmente cerca de 300 mil assalariados, dos quais 123 mil atravessam diariamente uma das três fronteiras, lembrou. Weber recordou que existem pouco mais de 24 mil empresas no país, das quais 2.500 empregam mais de uma centena de trabalhadores. Ainda segundo Weber, em 2001, 582 dessas empresas contactaram a ADEM à procura de trabalhadores para contratar. No ano passado, o número subiu para 667.

José Luís Correia 
in CONTACTO, 19/04/2006