sebenta de anotações esparsas, pensamentos ociosos, reflexões cadentes, poemas difusos, introspecções de uma filosofia mais ou menos opaca dos meus dias (ou + reminiscências melómanas, translúcidas, intra e extra-sensoriais, erógenas, esquizofrénicas ou obsessivas dos meus dias)
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cahier de notes éparses, pensées oisives, réflexions filantes, poèmes diffus, introspections d'une philosophie plus ou moins opaque de mes journées (ou + de réminiscences mélomanes, translucides, intra-sensorielles et extra-sensorielles, érogènes, schizophrènes ou obsessionnelles de mes journées)

quinta-feira, 5 de maio de 2005

Heroína de Pina, uma das testemunhas privilegiadas do nascimento do CONTACTO

Heroína de Pina Foto: Teddy Jaans
Heroína de Pina é desde a primeira hora um membro activo das "Amizades Portugal-Luxemburgo" (APL). Enquanto esposa (hoje viúva) de Carlos de Pina, um dos principais fundadores e impulsionadores do CONTACTO, foi testemunha privilegiada do nascimento do jornal, em Janeiro de 1970.

Acompanhou o crescimento e a evolução do jornal até 1987 - altura em que este passou da alçada das APL para a responsabilidade da Imprimerie Saint-Paul (ISP) - partilhando os sonhos, o esforço, o "amor à camisola" do seu marido e de um pequeno grupo de "carolas" que iam dando tudo para que o jornal fosse publicado e chegasse às mãos dos leitores.

O CONTACTO foi falar com Heroína de Pina sobre os inícios dificeis do lançamento do jornal e os primeiros anos, como evoluiu e como o vê hoje, 30 anos depois.

CONTACTO: Enquanto uma das testemunhas privilegiadas do nascimento do jornal CONTACTO, pode dizer-nos um pouco como tudo aconteceu? 

Heroína de Pina: Antes de existir o CONTACTO propriamente dito, existia uma folha policopiada, a "Voz do Imigrante", que foi criada para permitir a comunicação entre portugueses, a passagem da informação, já que não havia imprensa portuguesa, nem meios de comunicação portugueses. Daí o desejo de se criar num primeiro tempo esta folha policopiada, para manter ao corrente os imigrantes do que se ia passando no Luxemburgo, e durou cerca de um ano. Essa folha foi criada essencialmente para ser um elo de ligação entre os portugueses aqui radicados e Portugal. Já na altura o Sindicato Cristão nos ajudava na elaboração dessa folha. Esta folha foi mais tarde substituída pelo jornal CONTACTO, que continuou sob a direcção das "Amizades Portugal-Luxemburgo".

CONT.: Como nasceu a ideia de criarem um verdadeiro jornal? 

H.P.: A folha não tinha uma periodicidade regular, nem grande qualidade gráfica. Fez-se um jornal para sair regularmente todos os meses e com outro tipo de grafismo, imagem e informações mais completas. Sentimos a necessidade de introduzir mais informação. As exigências eram outras, a comunidade portuguesa foi aumentando.

O jornal passou a ser distribuido não só aos sócios das APL (a ficha de inscrição às APL incluia uma assinatura anual), mas também nas igrejas e noutros locais ao público. O jornal tinha nessa altura muita importância para os imigrantes.

Através do CONTACTO os portugueses ficavam informados sobre certas questões administrativas, alterações de certas leis, modificações dos contratos de trabalho, períodos de férias e outras informações de interesse geral.

A nível do governo, existia apenas um Encarregado do Ministério que estava provisoriamente ao serviço da Imigração, só mais tarde foi nomeado um Comissário. Antes disso não havia quase nada e assim era necessário criar algo para informar os portugueses.

No príncipio era dificil, envíávamos os textos daqui para Portugal, depois este era impresso e paginado numa gráfica de lá e só depois regressava para poder ser distribuido aqui no Luxemburgo. Aconteceiam frequentemente atrasos ou por causa da tipografia ou devido aos correios. Os nomes e as moradas eram escritas à mão numa cinta em que eram envoltos os jornais, tudo isto era feito por um grupo de voluntários. Durante muito tempo o jornal esteve a cargo do meu marido.

Em 1976 teve problemas de saúde e deixou de poder continuar à frente do jornal. Sucederam-lhe o Pe. Manuel Fernandes e o sr. Huss.

Quando o meu marido e eu chegámos cá em 1964 não havia cá muitos portugueses, havia talvez cerca de 500 dispersos por todo om país. No príncipio quando ouvíamos falar português era uma coisa extraordinária. O meu marido sempre tentou que os portugueses não estivessem sozinhos, que os luxemburgueses reconhecessem, apreciassem e recompensassem o trabalho dos portugueses. E assim que chegou cá começou logo a pensar em fazer alguma coisa.

Em 1965, o meu marido juntou alguns portugueses que entretanto tinham chegado ao longo desse ano e a primeira coisa que ele fez foi organizar a Festa de Camões, o Dia de Portugal, na qual apareceram mesmo muitos portugueses.

Nos primeiros anos da imigração portuguesa o Dia de Portugal continuou a ser organizado pelas APL, das quais o meu marido foi também um dos fundadores. Multiplicou contactos com alguns luxemburgueses e portugueses e daí nasceram as "Amizades Portugal-Luxemburgo". Foi aliás no seio das APL que nasceram o primeiro grupo folclórico português "Flores de Portugal" e a primeira equipa de futebol portuguesa.

Mas o meu marido não quis ficar-se apenas pelas APL, e criou-se então uma folha informativa que tinha os mesmos objectivos das APL: veicular a informação e comunicação entre imigrantes portugueses do Luxemburgo, não deixar morrer o contacto destes com Portugal, fomentar o diálogo com os luxemburgueses e ajudar os portugueses na sua integração na sociedade de acolhimento. O espírito que levou à criação do CONTACTO é o mesmo espírito que tinha levado à criação das APL.

CONT.: Considera que o CONTACTO contribuiu à integração dos portugueses na sociedade de acolhimento? 

H. P.: O CONTACTO ajudou muito a integração dos portugueses no Luxemburgo. Os portugueses que recebiam o jornal estavam informados sobre o que se passava em Portugal e no Luxemburgo e as dificuldades e problemas que a imigração portuguesa enfrentava no seu dia a dia. A comunicação não era como agora, nem se ia com a mesma facilidade a Portugal como se vai hoje.

CONT.: Como viveu a transição do CONTACTO das APL para a ISP, em 1987 ? 

H.P.: Há muitos anos que se andava a tentar que o CONTACTO fosse tomado a cargo pelo grupo ISP, que edita o principal jornal do país, o “Luxemburger Wort”. Os custos do jornal foram durante 17 anos suportados unicamente pelas APL. O jornal também tinha muito poucos anúncios que pudessem ajudar nas despesas. O jornal tinha-se tornado demasiado dispendioso para poder ser suportado pelas APL e era difícil continuar a sua impressão, publicação e o seu envio de Portugal. As APL também não podiam pagar uma impressora aqui no Luxemburgo. A única e melhor solução era ser retomado por um grupo forte como o da ISP. E o facto do CONTACTO passar a ser publicado pela mesma casa que o “Wort” era afinal o reconhecimento da utilidade pública do próprio jornal.

CONT.: Com que olhos vê/lê hoje um jornal que ajudou a fundar há 30 anos? 

 H.P.: Não fui uma das fundadoras. Mas através do meu marido estive sempre ligada ao jornal de uma forma ou de outra. Participei muitas vezes com textos para a rubrica de culinária ou para a página feminina... Ao olhar hoje para o jornal vejo que houve uma grande evolução e penso naquela “folhinha” policopiada, nos primeiros números do jornal com apenas algumas páginas. Hoje o CONTACTO tem a sua própria Redacção. Antes de passar sob a alçada da ISP a redacção do jornal era constituida unicamente por membros das APL que com muito esforço iam escrevendo e aguentando o jornal. Mas muitas vezes era o meu marido que escrevia vários textos assinando com iniciais diferentes para parecer que o jornal era escrito por muita gente. Guardo em casa todos os jornais, do primeiro de Janeiro de 1970 ao último feito pelas APL, em Dezembro de 1986, e no outro dia passei com os olhos pelos velhos números, e vê-se a grande diferença que existe entre esses números e o jornal hoje em dia. Reparo por exemplo que o conteúdo do jornal mudou. Hoje traz assuntos que não abordava na altura e vice-versa. Percebo que as necessidades dos leitores do jornal nos anos setenta não são as mesmas de hoje, no ano 2000. Mas há problemas que continuam a estar na ordem do dia como os problemas de Ensino, deTtrabalho, etc.

CONT.:Como vê o futuro do jornal? 

H.P.: Não sou vidente... Mas o que eu desejo para o CONTACTO é que continue por longos anos, tornando-se cada vez melhor, já que este jornal foi um dos sonhos do meu marido. Espero também que o jornal continue aberto a tudo e a todos, foi também sempre algo que defendeu o meu marido.

José-Luís Correia 
in CONTACTO, 05/05/2000

domingo, 1 de maio de 2005

FESTA DO 30°ANIVERSÁRIO DO JORNAL CONTACTO


FESTA DO 30°ANIVERSÁRIO DO JORNAL CONTACTO: (Da esq. para a dta.:) Gaston Roderes, Chefe de Redacção do CONTACTO, o Vice-cônsul, António Martins Antunes, Rui Dias Costa, Conselheiro social e cultural da Embaixada, José Araújo, Conselheiro social e cultural do Consulado, José Luís Correia, redactor no CONTACTO, e Jean Vanolst, membro da direcção do grupo ISP 
Fotos: Tessy Hansen 
in CONTACTO, Maio de 2000


(Da esq. para a dta.:) Isabel Silva, colaboradora da Redacção, Paula Ferreira, redactora, Manuela Geraldes, secretária da Redacçâo, Natália Morais, tradutora/correctora; e José Luís Correia, redactor

quarta-feira, 20 de abril de 2005

Manuel Luís Goucha: "Faz-me uma certa impressão ver portugueses a viverem em circuitos fechados"

Foto: Manuel Dias
O CONTACTO soube que um dos mais populares apresentadores da televisão portuguesa, Manuel Luís Goucha, estava de passagem pelo Luxemburgo. Não quisemos perder a oportunidade de trocar umas breves palavras com a companhia que nos preenche os fins das manhãs na RTPi, de segunda a sexta, em directo da cidade invicta, embora ele seja originário de Lisboa.

CONTACTO: Esta sua passagem pelo Luxemburgo é uma visita de trabalho para o programa „Praça da Alegria“... 

Manuel Luís Goucha: Para enriquecer o programa pensámos fazer uma série de reportagens sobre portugueses de sucesso nos países de acolhimento. Já fizemos umas dez em Paris. Vamos fazer umas quinze aqui no Luxemburgo. São conversas muito curtas, que passarão à razão de uma reportagem por programa.

CONTACTO: : Estão assim a pensar também nos espectadores que vos vêem pela RTP internacional ... 

M.L.G.: A 'Praça da Alegria' é primeiro um programa da RTP, que passa depois na RTP internacional. Os milhões de espectadores espalhados pelo mundo que nos vêem através da RTPi foram ganhando importância no programa. Deles recebemos chamadas diariamente. Mas o programa tem também uma componente muito ligada à cultura popular que é igualmente vocacionada para esse público. Estas rubricas, que estamos agora a fazer, estão, se calhar, até mais vocacionadas para o público que nos está a ver em Portugal continental e nas ilhas, porque estamos a dar a conhecer que há portugueses de sucesso por esse mundo fora nas mais diversas áreas. Não há só portugueses na construção civil e nos serviços de limpeza. É essa ideia que queremos passar para um público alvo, que neste caso é o de Portugal continental e ilhas.

CONTACTO: : Qual é a imagem que tem do Luxemburgo e da comunidade portuguesa aqui residente? 

M.L.G.: É a segunda vez que venho ao Luxemburgo. Passei por aqui uns três ou quatro dias há 25 anos. Fiquei com a ideia que a cidade do Luxemburgo era uma cidade muito bonita, muito verde, com uma grande qualidade de vida, também em termos ambientais. Tinha também uma imagem do Luxemburgo muito ligada a uma segunda geração de emigrantes. A comunidade portuguesa no Luxemburgo supreende-me muito porque na minha opinião é uma comunidade jovem, e os jovens já estão bem integrados neste país. Mas faz-me uma certa impressão ver ainda portugueses a viverem em circuitos fechados: frequentam as associações recreativas e os clubes desportivos portugueses, vão aos restaurantes de cozinha portuguesa ... Eu penso que a integração dos portugueses nos países de acolhimento tem que passar pela atitude que têm face às sociedades de acolhimento. Mas acredito que para a nova geração de portugueses, que já vai falando o luxemburguês, a integração vai ser mais fácil . A integração será plena quando os portugueses tiverem contactos diários com os luxemburgueses e quando fizerem parte de associações culturais luxemburguesas.
José Luís Correia entrevista Manuel Luís Goucha Foto: M. Dias


CONTACTO: Por seu lado, programas como o seu e a RTPi em geral têm dado uma outra imagem de Portugal aos jovens luso-descendentes... 

MLG.: Portugal é um país que evoluiu muito de há 25 anos a esta parte, é um país que se está a modernizar, é um parceiro privilegiado da União Europeia em termos históricos, com 800 anos de história, com muito para dar em termos de cultura. É importante que essa imagem seja passada para as comunidades de acolhimento.

CONTACTO: Como é que se sente a apresentar um dos programas mais populares das manhãs portuguesas? 

MLG: Sinto-me bem. São três horas em directo (mais três horas de preparação), é um programa divertido com muito ritmo, as conversas são muito curtas. É um programa onde me sinto bem, é o meu palco! É um programa que está para durar, vai fazer mil emissões em Setembro, e outras mil virão ...

CONTACTO: Numa carreira tão longa e diversificada como a sua, o que sente que ainda lhe falta fazer? 

M.L.G.: Falta fazer muita coisa ... Eu gasto o meu dinheiro todo em viagens. Eu vivo para viajar. Mas acho que não vou ter tempo de fazer as viagens todas que quero. Em termos profissionais ... não tenho grandes ambições. Vou seguir esta linha porque sei que o que estou a fazer agora é onde me sinto melhor e onde sou eficaz. Vou manter-me fiel a este tipo de programas de „conversa e de afecto“. Acho que encontrei o meu caminho na „Praça da Alegria“. Depois, vou continuar a aceitar outros convites especiais como para apresentar o Festival da Canção, o Natal dos Hospitais ...

CONTACTO: Continua a publicar livros sobre cozinha? 

MLG.: Sim , mas em parcerias. Tenho uma equipa de cozinheiros, de fotógrafos que trabalha comigo, e eu só tenho que fazer a parte de texto. Por isso continuo a sair com livros. Sai à razão de um livro por ano. Recentemente saiu um sobre massas, e já há um outro previsto para o ano ...

CONTACTO: Gostaria de deixar alguma mensagem especial para os portugueses do Luxemburgo? 

M.L.G.: Que se sintam orgulhosos de ser portugueses, mas que se integrem bem nas comunidades de acolhimento. Tem que ser feito um esforço para que se integrem para que não se sintam estranhos num país que não é o deles, e para conseguirem transmitir aos outros a imagem de um Portugal mais moderno e solidário. Têm tudo a ganhar em não viver em ghettos, em circuito fechado. Esta é a grande mensagem que gostaria de deixar ...
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Manuel Luís Goucha e a sua equipa estiverem no Luxemburgo a fazer uma série de reportagens sobre homens de sucesso no Luxemburgo para a „Praça da Alegria“. Estiverem na União Centro Cooperativo com José Trovão, depois passaram pelo Instituto Camões onde falaram com Rui Dias Costa. Visitaram igualmente a Rádio Latina, os Estabelecimentos Primavera, a loja Hugo Boss de Manuel Silva, o Restaurante The Good Friend. Manuel Luís Goucha pode ainda entrevistar „Os Apolos“, por ocasião dos 20 anos deste conjunto musical. Estas pequenas reportagens serão difundidas brevemente, pela RTPi, no programa „Praça da Alegria“ (de segunda a sexta, das 11h às 14 horas).

José Luís Correia 
in CONTACTO, 20/04/1999

sábado, 9 de abril de 2005

Adesão à UE a 1 de Maio: Eslováquia, optimismo moderado

O redactor do CONTACTO José Luís Correia (o primeiro, em cima, à esquerda), com um grupo de jovens eslovacos: Jana, Viera, Juraj e Daniel (da esq. p/ a dta) Fotos: JLC

Chegamos a Bratislava com a representação luxemburguesa da Comissão Europeia e do Ministério dos Negócios Estrangeiros luxemburguês que têm vindo a promover viagens de imprensa para apresentar os países que se tornarão membros da União Europeia (UE) a partir de 1 de Maio próximo.

Em Bratislava vivem 461.616 mil dos 5,4 milhões de habitantes (dados de 2003) que o país (com 49.035 km2) conta.

A capital, com mais de 2.000 anos de história, é também a cidade com mais jovens do país. Os prédios não muito altos, as charmosas ruas pedonais, os amplos e múltiplos largos e o rio Danúbio dão-lhe um ar de pequena cidade meridional.

A Eslováquia foi o últimos dos dez novos candidatos a provar que estava pronto a aderir à UE, depois de profundas reformas económicas e sociais, algo impopulares. O sistema das pensões foi reformado, a idade da reforma passou a ser mais tardia (aos 62 anos), os abonos familiares foram revistos em baixa, o ensino deixará de ser gratuito a partir de 2005, o custo das consultas médicas vai aumentar, os impostos também, enquanto que o ordenado mínimo continua a rondar os 150 euros/mês (cerca de 6.000 coroas eslovacas) e o ordenado médio não ultrapassa os 400 euros, o que deixa alguns eslovacos cépticos ou de um optimismo moderado quanto à futura adesão à UE.

Os eslovacos mais idosos argumentam que na época soviética não havia desemprego. que hoje ronda os 16%, com picos de 34% no leste do país. 50% dos eslovacos vive no limite da pobreza. Arrendar um apartamento pode custar entre 180 e 300 euros, o que faz com que a maioria dos jovens só saia de casa dos pais, casados. Não há habitações sociais, só casas e apartamentos privados. Quem não os possui, mal consegue pagar a sua renda.

Numa visita até Trnava, uma simpática pequena vila e centro católico do país, e logo à saída da capital, deparamo-nos com o "país real": pequenas aldeias que os jovens abandonam em prol da capital, uma população pobre que vive em casas vetustas e uma agricultura de subsistência marcada por pequenas hortas particulares.

Em Dubová, na planície ao sopé dos pequenos Cárpatos, encontramos Jaroslaw, de 43 anos, que está a cuidar das maçãs na sua horta. Como outros eslovacos com quem conversámos, Jarosloaw queixa-se dos salários baixos e que "na Europa ganha-se mais". Pensa por isso que a a UE "é capaz de ser uma coisa boa", mas não sabe bem o que espera o seu país e a sua gente num futuro próximo.

Mas se os eslovacos se queixam, mais mal ainda vive a minoria húngara (9,7% da população) no sul do país, que se sente discriminada e reivindica a autonomia em matéria de educação e cultura.
Bratislava, uma capital com um ar de pequena cidade meridional




O "problema cigano"

Pior ainda são os 400 mil ciganos, também discriminados no acesso ao emprego pela cor da pele ou porque têm um baixo nível de escolaridade. Segregados desde os anos 70 (pelo governo soviético e pelos que o sucederam) em mais de 600 ghettos urbanos no leste do país, mais de 150 mil ciganos passam fome e vivem na maior miséria (em barracas e casas sem as mínimas condições de higiene e de salubridade), sobretudo depois da reforma das ajudas sociais que foram diminuídas em cerca de um terço desde o início de 2004. Por vezes, a segregação degenera em marginalidade.

Em Fevereiro último houve vagas de pilhagens por parte de ciganos nas lojas de Kosice e Presov, o que fez aumentar ainda mais o forte sentimento anti-cigano dos eslovacos. "Os ciganos não fazem esforços para se adaptar à sociedade, pilham os campos, destroem as florestas para roubar a madeira", acusam.

Para Gunter Verheugen, comissário europeu para o alargamento, esta questão só se pode resolver pela educação e integração da comunidade cigana. Michal Vasecka, director do Instituto dos assuntos públicos, que se ocupa das minorias, denuncia os homens de estado eslovacos que não querem resolver o problema cigano, porque isso seria mal visto pela população e equivaleria a um suicídio político.

Lembra, no entanto, que o Conselho da Europa aprovou uma decisão para que os governos europeus favoreçam a ideia de que os ciganos são sobretudo cidadãos europeus, por forma a evitar que uma eventual futura emancipação identitária desta etnia resulte na reclamação de um espaço territorial no seio da UE.

Entretanto, todos esperam que a futura adesão e os dinheiros de Bruxelas sirvam para a inserção social desta comunidade. Jovens eslovacos optimistas com a UE Zuzana, 16 anos, diz que espera que a UE melhore a situação financeira do país, mas leu na imprensa que só em 2032 o seu país chegará ao nível europeu. Quando acabar os estudos não pensa emigrar, mas procurará trabalho na capital.

Numa esplanada, falamos com Tomas, 22 anos, empregado de mesa. Queixa-se do desemprego e da falta de dinheiro, mas gaba-nos a vida nocturna de Bratislava e "as mulheres mais bonitas da Europa de Leste". Afiança-nos que emigrará assim que puder para a Irlanda ou Reino Unido, únicos países que não impõem restrições à imigração dos novos estados membros de Leste. Os eslovacos emigram sobretudo para a República Checa, em melhor situação económica, Áustria e Canadá. Este último por incarnar o "sonho americano" e porque "continuamos a fornecer as equipas de hóquei em patins canadianas em novos talentos", gostam de lembrar os eslovacos.

Entrosamos conversa com Juraj, 24 anos, à porta da vetusta Universidade "Komenského" de Bratislava, que arbora uma sóbria arquitectura comunista de outros tempos. No átrio encontramos prospectos que gabam a continuação dos estudos na UE e nos Estados Unidos.

O estudante no 4°ano de Filsosofia começa por nos confiar que gostaria de se formar em Oxford. É originário de Tyrdosin (Norte do país) e estuda há sete anos na capital. Até agora, os estudos eram gratuitos, mas a partir de Janeiro próximo chegam as propinas. Juraj não está preocupado, diz simplesmente que terá que trabalhar mais para pagar os estudos, que poderão custar entre 3.000 e 20.000 coroas/ano.

O jovem reconhece que há lados positivos e negativos na adesão à UE. "A economia vai crescer, o desemprego está a baixar constantemente e deverá ainda baixar mais 2% nos próximos dois anos", diz-nos, convicto que não haverá emigração massiça após 1 de Maio.

Apesar de ser a favor da adesão à UE, diz que percebe o sentimento de optimismo moderado dos seus compatriotas, porque "as pessoas não sabem o que a UE vai mudar no seu quotidiano". Apesar de uma identidade milenar, a Eslováquia é independente há apenas 10 anos: a "Revolução de veludo" separou o país da República Checa, em 1993.

O jovem lembra-nos que a Eslováquia já foi húngara, turca, checoeslovaca, soviética, e que as pessoas consideram que, afinal, pertencer à UE é apenas mais um passo e esperam somente que lhes reserve uma vida melhor.

Entretanto chegam alguns amigos seus: Viera (29 anos), Janka e Daniel (27 anos). Janka é professora de Sociologia na mesma universidade, onde ganha pouco mais de 250 euros/mês. Consciente dos problemas que o país enfrenta, esta jovem fala-nos da UE com optimismo, porque acredita que as coisas só podem melhorar.

Surpeende-se pelo nosso interesse no seu país e propõe-nos uma visita guiada. Fala-nos dos cafés da rua Venturska, a Broadway de Bratislava, onde se encontram actores e artistas.

"Bratislava é a cidade mais jovem do país graças aos seus 45 mil estudantes e isso repercute-se na vida cultural e nocturna da cidade", conta.

Daniel, funcionário na administração da Universidade, elogia os bons vinhos brancos do seu país e propõe-nos que provemos a "borovicka" (álcool de genebra). Juraj apresenta-nos a "kofola" (refrigerante eslovaco) e gaba o queijo fresco "bryndza" da sua região, que devemos provar no pão ou com o prato nacional eslovaco, o "bryndzov é halusky", uma mistura de batatas com farinha, acompanhada de queijo de cabra fresco e toucinho frito. Saboroso, mas um tanto ou quanto pesado.

Indústria automóvel aposta no país 

Para muitos estrangeiros, a Eslováquia é um país propício para investimentos, considerado estratégico devido ao triângulo Praga-Viena-Budapeste, do qual é vizinha a capital eslovaca (a 60km de Viena).

Os eslovacos, esses, contam sobretudo com a indústria automóvel para sair o país da situação financeira onde se encontra actualmente. A Volkswagen está já fortemente implementada no país. Quanto ao primeiro automóvel a sair da fábrica Peugeot-Citroën na Eslováquia está previsto para 2006. E a Hyundai também optou pela Eslováquia, chegando em 2007, o que tornará o país o maior produtor de carros do mundo, per capita.

José Luís Correia,
in CONTACTO, 09/04/2004

sexta-feira, 1 de abril de 2005

Com Nuno Gama


José Luís Correia em entrevista com José Campinho e Nuno Gama, por ocasião da abertura da loja do estilista portuense na cidade do Luxemburgo Foto: Anouk Antony
in CONTACTO, Abril de 1997

terça-feira, 22 de março de 2005

Alunos de Grevenmacher visitam o jornal CONTACTO

Os alunos da turma "TOCM" do Liceu Técnico Joseph Bech de Grevenmacher foram recebidos, com os seus dois professores (os primeiros à direita) pelo Responsável da Redacção do CONTACTO, José Luís Correia (o primeiro à esquerda), aquando da sua visita às instalações do grupo "saint-paul", em Gasperich Foto: Á. Cruz

No quadro da iniciativa "Presse à l'Ecole", a Turma "TOCM" de 10e do Liceu Técnico Joseph Bech de Grevenmacher, acompanhada pelos professores Brigitte Pelé e Charles Bauler, visitou no passado dia 11 de Março de 2003, as instalações do grupo "saint-paul", em Gasperich.

Os jovens tiveram assim a oportunidade de visitar a Redacção do jornal diário "Luxemburger Wort", bem como a Rádio DNR e as rotativas da "imprimerie saint-paul".

Por último, e a especial pedido dos alunos portugueses da turma, passaram ainda pela Redacção do CONTACTO, onde puderam conhecer a equipa e onde o Responsável da Redacção, José Luís Correia, lhes falou brevemente sobre o nosso jornal.

in CONTACTO, 21/03/2003

segunda-feira, 21 de março de 2005

Festival das Migrações 2003


Stand do CONTACTO no Festival das Migrações 2003: (da esq. p/ a dta.) Linda Roehm, hospedeira do stand, Marc Willière, Encarregado de Direcção do CONTACTO, Álvaro Cruz, jornalista no CONTACTO, Jasmine Tintinger, hospedeira do stand, José Luís Correia, Redactor Responsável do CONTACTO, Paula Ferreira, jornalista no CONTACTO, Ana Maria Albuquerque e Maria José Freitas, correspondentes na cidade do Luxemburgo e em Diekirch respectivamente, Miguel Faria de Carvalho, cônsul-geral de Portugal no Luxemburgo, Sílvia Pedrosa, hospedeira do stand, e Luís Santos, correspondente desportivo Foto: M. Dias
in CONTACTO, 21/03/2003

quinta-feira, 17 de março de 2005

Opinion: Intégration d'hier et d'aujourd'hui au Luxembourg


Avec une insistance qui s'est accrue au même rythme que la proportion d'immigrés, le Luxembourg considère avoir réussi l'intégration des étrangers sans conflits sociaux.

Ces «non Luxembourgeois», comme maintenant on préfère les appeler à l'abri du politiquement correct, atteignent aujourd'hui 55% au sein de la population active et 37% de la population totale. Pour ce qui est des Portugais (environ 13% de la population active et 13% de la population globale) pendant longtemps ils ont été les bienvenus tant qu'ils travaillaient et consommaient, mais on préférait qu'ils ne se fassent pas trop remarquer pour le reste, et encore aujourd'hui on insiste pour qu'ils ne mettent pas trop en évidence les problèmes qui existent.

L'appel massif à la main- d'oeuvre portugaise s'est déroulé pendant longtemps sans politique d'accueil, de scolarisation et de logement. Politiques qui d'ailleurs laissent toujours à désirer.

La référence à l'intégration réussie des Italiens sert de justification pour l'absence de politique. Si la population luxembourgeoise ne se rend que peu compte de ce qui se passe dans les coulisses de «son» immigration, de nombreux travailleurs portugais en souffrent au quotidien. En fait, on peut se demander si, dans notre cas, intégration ne veut pas simplement dire «coexistence pacifique» de deux nationalités, cultures juxtaposées, sans contacts réels et au fond une certaine indifférence.

Ce mot «intégration» reste souvent un terme au contenu vide, et dans des domaines essentiels, des déficiences considérables subsistent. Dans la pratique, le système scolaire très sélectif en ce qui concerne les langues ne concède que des possibilités limitées d'ascension sociale aux enfants d'étrangers.

Pendant longtemps certains partis politiques établis se sont efforcés de créer des obstacles au droit de participation politique des étrangers, sous prétexte d'une mise en danger de l'identité nationale, ce qui cause de nombreux débats autour de ce sujet, et une certaine psychose de la part de certains Luxembourgeois de voir «déferler» les Portugais – car c'est bien d'eux surtout qu'il s'agit – dans la vie et les décisions politiques du pays.

Mais autant on peut se demander si certains Luxembourgeois refusent cette possibilité, autant la question se pose de savoir si les Portugais y sont intéressés et finalement, donc, si ce serait un bouleversement si complet et dangereux de la vie politique. Rappelons à ce sujet la faible participation des Portugais dans les dernières élections communales. De nombreuses associations prêtent assistance aux Portugais immigrés et organisent une partie de la vie sociale.

Ces associations sont un point d'attache pour les Portugais, un lieu de rencontre avec les compatriotes et de souvenir du pays natal. Mais il est vrai aussi que les Portugais s'y limitent volontiers. Si c'est – presque seulement – à travers ces associations que se font les contacts avec les Luxembourgeois, le plus souvent les manifestations organisées se limitent à une présence portugaise – chacun fait la fête de son côté. Pour en donner un exemple, pendant longtemps le culte de la Vierge Marie, commun aux deux nationalités, a été fêté séparément. Heureusement l'on remarque que chaque fois plus de Portugais fêtent l'Octave et qu'il y a chaque fois plus de Luxembourgeois qui se joignent au pèlerinage de Notre-Dame de Fatima à Wiltz. Mais l'image que ces deux sociétés et cultures ont l'une de l'autre continue d'être caricaturale et superficielle.

Comment se juger et se comprendre vraiment dans ces conditions, sans parler de la barrière que représente trop souvent la langue? L'intolérance n'est-elle pas fille de l'ignorance? Et dans notre cas, ne s'agit il pas d'indifférence? Le problème est de savoir si au moins il y a une volonté des deux parts de briser cette barrière d'indifférence. Les préjugés et les ressentiments se trouvent des deux côtés.

La première génération d'immigrés portugais, même si la durée de leur séjour s'est considérablement prolongée, beaucoup ne vivaient souvent que dans l'attente de l'occasion de repartir au Portugal et ne pensaient pas devoir faire d'efforts pour s'intégrer en apprenant le français ou le luxembourgeois par exemple: ils ne faisaient que s'adapter à un niveau minimum nécessaire.

De plus, le sentiment d'être défavorisés par rapport aux Luxembourgeois (plus riches, mieux logés, etc.) ne suscitait pas forcément la sympathie vis-à-vis de ceux-ci. Aujourd'hui beaucoup pensent rester ici, même après leur pension, puisque c'est à Luxembourg que leurs enfants ont décidé de vivre et de s'établir.

Étrangement, on retrouve le même comportement des premiers immigrés chez les nouveaux-venus qui arrivent du Portugal en pensant rester «quelque temps» par ici, mais voient souvent, eux aussi, leur séjour se prolonger. Les Luxembourgeois, de leur côté, sont aussi complètement isolés de «ces gens» dont ils ne connaissent pas vraiment la mentalité, et leur nature parfois réservée (et parfois «confortabiliste») ne les pousse pas vraiment aux contacts et à s'enquérir du malheur d'autrui.

Chaque nationalité a donc peur de perdre son identité, et cela peut-être par peur de ce mot d'«intégration», qu'elles assimilent à invasion ou renonciation, selon les cas. Il faut malheureusement constater que cette indifférence est plus hostile que favorable.

Les préjugés sociaux sont trop fortement ancrés pour être ignorés, et les reproches – déjà typiques pour l'immigration – se font entendre toujours plus des deux côtés. Et force est de constater que malheureusement, en 35 ans d'immigration, la situation des immigrés du point de vue social et intégration, a très peu évolué. On constate que les mieux intégrés sont les jeunes d'origine portugaise, encore qu'à la condition qu'ils soient nés ici ou arrivés en très bas âge.

Conclusion, il semblerait donc que la «solution» que l'immigration portugaise représentait pour le Luxembourg il y a 35 ans soit devenue un «problème».

Problème d'intégration surtout, et cela tant du côté portugais que du côté luxembourgeois. Chacun se tourne de son côté. Il est dommage que le Luxembourg qui, grâce à l'immigration, à sa position géographique, à sa situation sociale privilégiée, pourrait profiter de tous ces éléments différents pour bâtir une société multiculturelle, tout en respectant les différentes cultures, ne fasse d'effort visible et profond pour tirer un profit – non plus matériel, mais humain, «spirituel», culturel – de ce mélange si instructif et intéressant de différentes visions du monde, qu'il ne tente pas de le rendre au moins véritablement possible et actif.

En cela, l'effort ne doit pas venir uniquement des gouvernements; il doit venir, en premier lieu, de chaque personne, individuellement, qui vit dans ce pays. L'espoir d'une vraie entente et d'une vraie communication, de contacts spontanés et sans arrière-pensées, réside de ce fait surtout chez les jeunes des deux nationalités qui, espérons-le, sauront avoir l'esprit plus ouvert, plus positivement critique et constructif, plus compréhensif et tolérant que la génération antérieure.

JLCorreia/ECJ
in jornal CONTACTO, 17/03/2000

quinta-feira, 10 de março de 2005


Álvaro Cruz, Claude Ries, Patrick Wollner (Ppetz) e José Luís Correia, 
em plena paginação do CONTACTO, 10/03/2000 Foto: Tessy Hansen


Nas rotativas, Michelangelo Ferraro,
responsável do Layout, e o redactor José Luís Correia  Fotos: A. Matias 



José Luís Correia na Redacção do CONTACTO Foto: M. Dias

in CONTACTO, 20/03/2000

terça-feira, 1 de março de 2005

"Queremos criar um Ministro-Adjunto das Comunidades!", diz Carlos Gonçalves

 Carlos Gonçalves (à direita), entrevistado pelo nosso redactor José Luís Correia Foto: Á. Cruz 

O cabeça-de-lista do Partido Social-Democrata (PSD) pelo Círculo da Europa, Carlos Gonçalves, vai estar esta noite, pelas 20h30, no Foyer Européen, rue Heine, na capital, para a apresentação do Programa do Partido para as Eleições Legislativas do próximo dia 17 de Março, em Portugal.

O CONTACTO teve já oportunidade de falar com Carlos Gonçalves sobre a sua candidatura.

Carlos Gonçalves tem 40 anos, é Técnico de Serviço Social e Cultural em Nogent-sur-Marne (França). É natural de Sarnadas de Rodão (Vila Velha de Rodão, Castelo Branco). Gonçalves é licenciado em Geografia pela Universidade de Paris X e Secretário-Geral Adjunto do Sindicato dos Trabalhadores Consulares e das Missões Diplomáticas no Estrangeiro (STCDE).

Da sua candidatura disse-nos que é uma novidade o facto do PSD apresentar a um lugar de deputado na Assembleia da República um cabeça de lista pela Europa que seja da Emigração.

"Eu sou um quadro político da Emigração, vivo há 20 anos em França, os meus pais são emigrantes, os meus filhos têm as duas nacionalidades. Eu sou alguém que fiz vida e política nas Comunidades. Não quero dizer que eu seja melhor que os outros, mas acho que sendo eu alguém das Comunidades, sou mais sensível a algumas matérias que os outros. Acho que é algo de novo e que vem contrariar tudo o que tem sido feito em Portugal nesta matéria, até pelo meu Partido. Isto é um sinal de querer mudar. É querer ver as Comunidades Portuguesas como um complemento importante para o nosso país" começou por dizer.

CONT.: Pode considerar-se que passou pelo Luxemburgo em campanha? 

Carlos Gonçalves: Eu acho que a campanha se faz pelo trabalho que se teve oportunidade de fazer, durante os últimos tempos. Não vim agora, próximo do acto eleitoral, tentar descobrir quais são os problemas da Comunidade Portuguesa do Luxemburgo. Fizemo-lo atempadamente, já que estabelecemos um programa de trabalho, desde 1999, com o Presidente do meu Partido, de ouvir a estrutura do PSD e a estrutura do Luxemburgo. Viemos várias vezes ao Luxemburgo aquilatar a verdadeira situação da nossa comunidade e, depois, fazer o programa que corresponda não só às necessidades particulares do Luxemburgo, mas no que diz respeito ao conjunto das Comunidades Portuguesas espalhadas pelo Mundo. Acho que temos propostas que são verdadeiras reformas, reformas profundas. Por exemplo, a criação de um Ministro Adjunto das Comunidades, que terá a tutela do apoio às associações portuguesas, o apoio cultural, os Consulados na parte não-diplomática, o Ensino do Português no Estrangeiro, a Comunicação Social.

CONT.: Na sua óptica, quais são os principais problemas das Comunidades Portuguesas no Estrangeiro? 

C. G: O problema das Comunidades Portuguesas é que não temos peso político e tem ficado tudo na mesma, e isto já há muitos anos. O Dr. Durão Barroso e nós achamos que era altura do país virar-se para as Comunidades, perceber que a nossa única matéria prima é o material humano. As Comunidades Portuguesas são 4 milhões de pessoas com um potencial técnico, económico, empresarial e cultural invejável e temos que o aproveitar. O nosso projecto é reformista, queremos alterar tudo isto e damos uma possibilidade aos Portugueses, que aqui estão, de participar cada vez mais na vida política portuguesa, a possibilidade de votar nas Autárquicas e nas Juntas de Freguesia em Portugal, de forma a que os Portugueses tenham mais razões para participar. Estamos com uma situação de poucos recenseados, uma Comunidade pouco participativa no plano cívico. Uns dos grandes culpados de tudo isso somos nós, os políticos, os diferentes governos, os diferentes reponsáveis na área das Comunidades que não responderam às reais necessidades das Comunidades Portuguesas. Verificou-se um afastamento dessas Comunidades em relação ao poder político. Temos que inverter as coisas. O nosso projecto vai permitir aos Portugueses ter alguma pressão e peso político junto da entidade portuguesa que mais contactam, a Câmara Municipal. Há muitos emigrantes que se queixam que o facto de estarem no estrangeiro, o facto de não votarem faz com que muitos autarcas não tomem em consideração os emigrantes.

CONT.: Não acha incompatível votar nas Autárquicas em Portugal e nas "Comunais" no Luxemburgo? E como sensibilizar as Comunidades para isso, quando já há tão poucos Portugueses recenseados e mesmo entre os inscritos nos cadernos eleitorais, são poucos os que vão votar... 

C. G.: Acho que uma coisa pode servir a outra. As pessoas têm que perceber onde é que têm interesses localmente. Em Portugal, quantas autarquias devem o grau de desenvolvimento aos emigrantes? Depois, as decisões que são tomadas nas cúpulas das Câmaras nada têm a ver com os emigrantes. Os emigrantes com a sua participação económica, com investimento local, fazem crescer as suas Freguesias e Concelhos e depois nas decisões da Assembleia Municipal, a política municipal nunca é feita de acordo com os interesses das nossas Comunidades. Temos Câmaras Municpais que devem tudo aos emigrantes, mas não têm nem um só serviço de apoio, de colaboração, de enquadramento em relação às nossas Comunidades. Se os Portugueses entenderem que a participação em Portugal lhes pode trazer ganhos, vão recensear-se no Consulado. O problema da participação cívica tem a ver, muitas vezes, com a consciência que nós temos da importância de participar. O que falta nas Comunidades Portuguesas é razões para ir votar. Não tem havido atractivos, para os Portugueses no estrangeiro, irem votar. Este poderá ser um atractivo importante.

José Luís Correia
(excerto da entrevista publicada no CONTACTO, 01/03/2002)

sábado, 29 de janeiro de 2005

Na Redacção

José Luís Correia na Redacção do CONTACTO, Janeiro de 2005 Foto: Á. Cruz

segunda-feira, 24 de janeiro de 2005

CCPL: Uma equipa renovada e com um novo fôlego

Foto: CCPL
"Dado o ânimo em que decorreram o congresso e o início dos trabalhos do conselho, e por proposta da Direcção, achei que devia aceitar a responsabilidade de um segundo mandato". Foi com estas palavras que José António Coimbra de Matos explicou a sua recondução à presidência da Confederação da Comunidade Portuguesa no Luxemburgo (CCPL), decisão tomada por unanimidade dos membros da direcção, realizada a 16 do corrente, em Gasperich.

Os membros da direcção foram nomeados, aquando da primeira reunião do Conselho da CCPL, no passado dia 10 de Janeiro.

Nessa primeira reunião do Conselho estavam presentes a maioria dos conselheiros eleitos no Congresso. Estes começaram por se congratular pelo facto do congresso ter sido, acima de tudo, um "acto político", que provou aos políticos e representantes das autoridades portuguesas e luxemburguesas convidados, que o movimento associativo português no Luxemburgo, não está em degenerescência.

Foi unânime a constatação de que o Programa de Acção é ambicioso para os próximos dois anos, mas que o importante é a definição de linhas directrizes prioritárias.

Um dos objectivos principais, desta nova equipa, deverá ser a mobilização da Comunidade Portuguesa para a sua unidade e, simultaneamente, a sua melhor integração na sociedade luxemburguesa. Este último objectivo passa pela sensibilização e informação dos cidadãos portugueses quanto à importância da sua participação na vida cívica e política do país de acolhimento.

A persistência na continuação do trabalho iniciado com os jovens (segunda e terceira geração) e as mulheres foram outro dos objectivos delimitados para o mandato que agora começa.

A CCPL dispõe agora, tanto ao nível da direcção como do Conselho, de uma equipa renovada, com um número representativo de senhoras e jovens, que contam bem levar a bom porto a sua missão nestas matérias. Ao mesmo tempo que a CCPL deve lutar por ser a voz da Comunidade Portuguesa, junto das autoridades do Grão-Ducado, deve também multiplicar a colaboração com outras associações e comunidades em presença.

A questão de se encontrar uma sede própria é outro dos assuntos que preocupa alguns conselheiros. Lembre-se que as instalações onde funciona a CCPL actualmente, foram gentilmente cedidas pelo CLAE.

A direcção da CCPL ficou composta da seguinte forma: Presidente, Coimbra de Matos; Vice-Presidentes, Joaquina Carvalho e, por inerência, António Silva e Carlos Costa (respectivamente Presidentes da APIL e da Liga Portuguesa de Futebol no Luxemburgo); Relações Públicas, Acácio Pinheiro e Fausto Cardoso; Tesoureiros, Sérgio Cordeiro e Rogério de Oliveira; Grupo de Ensino, Joaquim Prazeres; Grupo de Acção Jovem, José Luís Correia e Manuela Lages; Patrícia Luz; Secretariado, Albina Nogueira, Augusta Camacho e Sandra Jacinto.

in CONTACTO, 24/01/2003

quarta-feira, 19 de janeiro de 2005

Manuel Dias inaugura exposição sobre Família Grã-Ducal


Manuel Dias guia o Cônsul de Portugal, Faria de Carvalho, e sua esposa pela exposição, na companhia dos redactores do CONTACTO, Paula Ferreira e José Luís Correia 
in CONTACTO, 19/01/2001


segunda-feira, 17 de janeiro de 2005

"A 'diplomacia do croquete' não chega!", defende embaixador de Portugal no Luxemburgo, Paulo Couto Barbosa



"Quando solicitados, os diplomatas devem ser facilitadores de contactos e encontros para auxiliar as empresas que desejam implementar-se no estrangeiro ou procuram investidores no exterior" disse o Embaixador de Portugal, Paulo Couto Barbosa (à direita) em entrevista ao nosso redactor José Luís Correia Foto: Guy Jallay 

Apresentar e incentivar os embaixadores portugueses, nomeadamente os que estão colocados na União Europeia e OCDE, a um novo modelo de Diplomacia, centrado na promoção da Economia nacional, foi o tema de um seminário que decorreu, no passado dia 6 de Janeiro, em Lisboa.

Foi o próprio primeiro-ministro Durão Barroso, que começou por se dirigir aos embaixadores presentes, expondo as razões desta nova definição e reorientação dos objectivos políticos da diplomacia portuguesa. Durão Barroso fez notar que é missão do Estado português, em geral e das embaixadas, em particular, promover a Economia Portuguesa no estrangeiro, por forma a atrair mais investimentos exteriores para o país.

Estiveram também presentes, neste seminário, o ministro da Economia, Carlos Tavares, o ministro dos Negócios Estrangeiros, António Martins da Cruz, o representante do Governo Português na Convenção sobre o Futuro da Europa, Hernâni Lopes, bem como o conhecido observador das questões internacionais e europeias, Francisco Sarsfield Cabral, além dos principais responsáveis de algumas das maiores empresas e grupos nacionais.

O embaixador de Portugal no Luxemburgo, Paulo Couto Barbosa, esteve presente neste seminário e falou com o CONTACTO sobre esta nova missão da diplomacia portuguesa.

Para Couto Barbosa, este seminário serviu, sobretudo, para estudar "em que medida a Diplomacia portuguesa pode ajudar a internacionalização das empresas nacionais e a afirmação destas no mundo".

A nível pessoal e profissional, Couto Barbosa considera muito importante estas novas directivas do Governo, já que permite aos diplomatas saberem precisamente qual a sua missão nos países onde estão, para além do que se costuma apelidar, caricaturalmente, de "diplomacia do croquete". (vulgo diplomacia representativa).

A diplomacia enquanto valor acrescentado "A diplomacia representativa é e continua a ser importante, mas não chega, nem deve ser um objectivo em si mesmo. Com estas orientações concretas do Governo, sabemos como devemos utilizar a diplomacia representativa para atingir certos fins, neste caso preciso, promover a economia portuguesa, geograficamente marginalizada e que está a lutar, em termos de competitividade, com um mercado muito grande", disse o embaixador, em jeito de explicação.

Couto Barbosa defende mesmo que "a diplomacia tem que ser um valor acrescentado ao que as empresas portuguesas já fazem no estrangeiro". Esta nova diplomacia económica, na qual o Governo português quer agora apostar para relançar a economia portuguesa era, para o embaixador do Luxemburgo, já corrente.

"Cerca de 90% das diligências que fiz, até hoje, no Luxembugo, foram de ordem económica. Tive vários encontros para falar com o Governo Luxemburguês sobre temas sensíveis para Portugal, como, por exemplo, a questão das Pescas, da Agricultura, das quotas do leite", recorda.

Segundo nos disse Couto Barbosa, esta nova directiva pede aos embaixadores que se tornem, quando solicitados, "não mediadores, mas antes consultores, facilitadores de contactos e encontros" para as empresas que desejam implementar-se no estrangeiro ou procuram investidores no exterior.

"Para auxiliarmos, da forma mais eficiente, os empresários que, por ventura, não conheçam um mercado, foi-nos pedido que tenhamos sempre, tanto quanto possível, um amplo conhecimento das condições e agentes económicos do país onde estamos colocados", revelou.

Para o embaixador e "tendo em conta as características da Economia Portuguesa, esse apoio deveria ser, sobretudo, direccionado às pequenas e médias empresas, que têm, em geral, menos meios e podem vir a precisar das estruturas do Estado Português, na conquista de novos mercados".

Rentabilização dos meios existentes 

À semelhança do que tem sido feito noutras áreas da diplomacia, também esta nova directiva deverá contar com "uma maior rentabilização dos meios físicos e humanos já existentes", adianta Couto Barbosa, mais do que propriamente com novos meios. Neste sentido, as delegações do ICEP deverão ser, gradualmente, localizados no mesmo edifício das Embaixadas, isto para evitar "a sobreposição da representação externa do Estado português".

No caso preciso do Luxemburgo haverá apenas uma maior concertação de esforços nesta matéria, entre a Embaixada no Grão-Ducado e o ICEP, localizado em Bruxelas. Pelas dimensões geográficas do país e características do seu mercado, o Luxemburgo não é, actualmente, considerado uma prioridade, em termos de investimento directo estrangeiro, pelo Governo português.

Para Couto Barbosa, existe antes uma certa complementaridade entre os mercados português e luxemburguês e, a nível comercial, as duas Economias não têm uma grande competitividade. Mas, dado a presença de uma numerosa Comunidade Portuguesa no Grão-Ducado, "há uma grande potencialidade para se sair do carácter 'étnico' das relações comerciais entre os dois países", considera. "E a recente iniciativa para a criação de uma Câmara do Comércio e Indústria Luso-Luxemburguesa (CCILL) é bem a prova disso", recordou, elogiando os impulsionadores deste projecto. Segundo o Embaixador, esta Câmara "vai permitir que se reflicta melhor sobre como poderemos trabalhar em conjunto e o que devemos fazer nesta matéria".

Assumindo, desde já, as novas directivas de Lisboa, Couto Barbosa convidou, no dia 16 de Janeiro, – dia da constituição da nova Câmara do Comércio –, uma comitiva desse organismo, bem como representantes da Imprensa, para um jantar na Residência da Embaixada, em Belair, no sentido de estabelecer bases, para um trabalho conjunto no futuro.

José Luís Correia,
in CONTACTO, 17/01/2003

sexta-feira, 7 de janeiro de 2005

O que é feito da nossa Miss Luxemburgo? Entrevista com Natália dos Santos

Foto: Manuel Dias
Nathalie dos Santos ou Natália dos Santos, como é conhecida na comunidade portuguesa foi a primeira portuguesa a ser coroada Miss Luxemburgo, em 1993. O concurso de beleza, que existia desde 1927, contou só mais três edições depois da coroação da portuguesa. Sete anos depois, quisemos saber o que era feita da "nossa" Miss Luxemburgo.


CONTACTO: O que a levou a concorrer a Miss Luxemburgo? 

Natália dos Santos: Houve alguém que me inscreveu, sem me dizer nada. Eu só fiquei a saber que estava inscrita quando a Organização me escreveu. Depois achei que era boa ideia, pois sempre tive curiosidade em conhecer os bastidores de coisas como estas.

CONTACTO: Pensou que concorrer a este concurso lhe abrisse as portas para outras coisas? 

NdS.: Eu nem pensava ganhar. Quando uma pessoa pensa ganhar, faz logo projectos para o futuro e vê logo mais longe. Mas eu primeiro, só pensei em concorrer.

CONTACTO: Quando anunciaram o seu nome, como a grande vencedora, o que sentiu nesse momento? 

NdS: Levei algum tempo a realizar o que me tinha acontecido. Nem queria acreditar. Só dois ou três dias depois, é que eu realizei que tinha ganho e apreciei a minha vitória. Eu até pensava que por ser portuguesa nunca teria hipóteses de ganhar, pois pensava que a organização e o júri queriam que a Miss Luxemburgo fosse, obrigatoriamente, luxemburguesa.

Foto: M. Dias
CONTACTO: O que ganhou quando foi coroada Miss Luxemburgo? 

NdS: A primeira parte do prémio era um automóvel, um Lancia Y10. O prémio não incluia nenhum montante em dinheiro. Recebi igualmente um milhão de francos em vales de compras e alguns vestidos, mas muitos deles tive que ser eu a comprá-los, vestidos que custavam quase sempre mais de cem mil francos. Também era eu quem pagava as sessões nos institutos de beleza e os produtos de tratamento, tudo isto, para poder continuar a representar condignamente o Luxemburgo nos concursos internacionais, para os quais era convidada.

CONTACTO.: Depois de ter sido nomeada Miss Luxemburgo, teve muitos convites para seguir uma carreira de manequim? 

NdS: Ao ser eleita Miss Luxemburgo fiquei ligada por um contrato de exclusividade durante o periodo de um ano com o Casino 2000 de Mondorf, o organizador de então, como previsto na ficha de inscrição. Todos os convites que eu recebia tinham que ter o acordo da Direcção do Casino, que decidia onde eu ia e onde não devia ir, e o que podia fazer ou não. Depois de acabar o contrato, continuei a receber convites e, aí, já era eu que decidia se aceitava ou não.

CONTACTO: E porque não seguiu uma carreira de manequim internacional? 

NdS: Poderia ter seguido, mas foi por opção própria. Na altura dei mais importância à minha vida privada e à família, do que seguir uma carreira. E não estou arrependida, porque assumo a opção que tomei. E não vale a pena pensar no que poderia ter sido, eu não costumo olhar para trás. Se não aconteceu é porque não era para acontecer.

CONTACTO: Representou o Luxemburgo em vários concursos internacionais de grande prestígio, onde obteve muito boas classificações... 

NdS: Sim, depois de ser nomeada Miss Luxemburgo, fui logo convidada para partir para o México, onde participei na eleição de Miss Universo. Em 79 concorrentes fiquei em décimo primeiro lugar. Depois participei na Miss Europa, na Turquia, onde fiquei em sexto lugar. No Japão concorri a Miss Internacional, e classifiquei-me entre as quinze primeiras concorrentes. Em 1994, na Alemanha, participei no concurso de Miss Intercontinental, onde fui eleita 1° Dama de Honor, ficando em segundo lugar. Mas como depois foi notado um erro na pontuação e feita uma nova contagem dos pontos, fui finalmente nomeada Miss Intercontinental. Foi enquanto Miss Intercontinental que, nesse ano, fui convidada para participar na abertura oficial do Festival de Cannes. Em 1995, concorri ainda a Miss Globo.

CONTACTO: Depois de conquistar o título de Miss Luxemburgo, o que mudou na sua vida? 

NdS: Uma experiência como aquelas marcam a vida de uma pessoa. Posso dizer que adquiri mais segurança e confiança em mim mesma. O facto de ter sido enviada para concursos a 10 mil km de distância, completamente sózinha, longe da família, e a própria competição obrigaram-me a ser mais forte e a ter mais auto- confiança. Além dos convites e das viagens, aqui, no Luxemburgo, as pessoas começaram a reconhecer-me na rua e a cumprimentarem-me, o que era bastante agradável. E ainda hoje, passados seis anos, quando passo de vez em quando na rua as pessoas olham e dizem "olha, ali vai a Miss Luxemburgo!". Apesar de eu já não ser Miss Luxemburgo, gosto que me reconheçam como a Miss de 93.

CONTACTO.: Qual é o conselho que dá a todas as jovens que hoje pensam concorrer a concursos de Miss ou seguir uma carreira de manequim ou modelo, já que se trata de uma profissão difícil, onde a concorrência é muito alta e por vezes é cruel para as manequins, que até nem podem contar com uma carreira muito longa? 

NdS: É verdade, é uma profissão interessante mas difícil e é um meio às vezes cruel, mesmo entre raparigas. Neste meio, as coisas acontecem tão depressa, que não temos tempo de realizar o que se está a passar à nossa volta e no que nos estamos a envolver. Nem temos tempo de aproveitar o momento presente que estamos a viver. O meu conselho seria para que as jovens que querem seguir esta profissão aproveitem o momento presente e estejam conscientes do que estão a viver. Nesta profissão há muitos sonhos, criam-se depressa ilusões e esperanças, promessas feitas por vezes em vão, por isso é preciso guardar sempre os pés na terra. Neste meio muitas pessoas querem mudar-nos, e é importante ficarmos sempre nós mesmas. Não mudem, permaneçam vocês mesmas, seria o melhor conselho que eu poderia dar a essas jovens... O que mais me afectou foi o olhar das pessoas cá fora, que também muda.

Quando fui Miss Luxemburgo sofri muito do olhar das pessoas, com o que pensavam de mim. Antes de ser eleita Miss Luxemburgo e de me tornar conhecida, muitas pessoas não me ligavam, e de um momento para o outro passei a existir para essas pessoas, mas apenas enquanto Miss Luxemburgo. Eu sofri ao sentir que para certas pessoas só viam em mim a Miss Luxemburgo. Perdi muitas amigas nessa altura. Só gostavam de sair comigo para me apresentarem como Miss Luxemburgo, a Natália dos Santos já não contava, já não existia. E às vezes as pessoas são mesquimnhas e julgam-nos pelo aspecto exterior e não pelo que somos... Mas como em todas as experiências, há sempre um lado negativo e um lado positivo. As jovens que querem seguir a profissão de manequins têm que perceber que nesta profissão o mais difícil é continuar a ter uma vida privada normal. Na altura eu trabalhava em decoração e trabalhava no papel de Miss Luxemburgo para o Casino e para os luxemburgueses, mas também para associações portuguesas. E quase que não tinha tempo para a minha vida privada. Mas, apesar de tudo, foram bons tempos...

José Luís Correia 
in jornal CONTACTO, 07/01/2000

A Miss Luxemburgo 1993 com a Miss Portugal 1993 Foto: M. Dias

segunda-feira, 3 de janeiro de 2005

O que é a Grande Região? E para que serve? - entrevista com Carlos Guedes


Carlos Guedes em entrevista com o nosso redactor José Luís Correia Foto: Tessy Hansen 

Carlos Guedes é o Representante do Luxemburgo na "Maison de la Grande Region". O jovem, de 29 anos, formou-se em Ciências Políticas e Relações Internacionais, optou pela nacionalidade luxemburguesa, mas não esqueceu as suas raízes portuguesas (os seus pais são do Gerês).

Começou por trabalhar no Parlamento Europeu, depois no Ministério do Estado, onde foi Assistente da Conselheira Diplomática do Primeiro Ministro. E foi o próprio Jean-Claude Juncker que o nomeou, em 1999, para o posto que agora ocupa. Guedes diz que, para ele, esta nomeação foi um novo desafio que aceitou com prazer, além de lhe proporcionar trabalhar ao nível inter-regional, quando já o tinha feito a nível nacional e internacional.

É, aliás, na "Maison de la Grande Region" (14, rue Zithe, na capital), que está sob a tutela dos Ministérios do Interior e de Estado, que Carlos Guedes nos acolheu para falarmos deste conceito que é a Grande Região, do qual fazemos parte, geográfica e economicamente, mas que, muitos de nós, ainda conhece mal, tanto nos objectivos, como na sua influência na nossa vida de todos os dias.

A "Grande Região" (GR) é uma cooperação transfronteiriça, que existe há cerca de 22 anos, entre as regiões alemãs da Sarre e de Trier/Renânia-Palatinato Oeste, a Lorena (França), a Valónia, incluindo a Comunidade Germanófona da Bélgica, e o Grão-Ducado do Luxemburgo. Um acordo assinado em 1980 entre as Embaixadas de França e Luxemburgo em Bona (Alemanha) estabeleceu as regras dessa cooperação e as liberdades para as colectividades territoriais.
Fonte: "L'Entrepreneuriat dans la Grande Région"

Segundo nos disse Guedes, historicamente, há mais de 1200 anos que existe um sentimento de pertença a uma região comum nestas latitudes, "mas o elemento que despoletou a cooperação transfronteiriça destes territórios foi a crise da siderurgia nos anos 70.

Em conjunto, começaram a pensar na melhor maneira de conversão da sua indústria comum. Enquanto que na Sarre e na Lorena os pólos fabris se converteram na indústria automóvel, o Luxemburgo optou por apostar no sector terciário .

"O interesse do Luxemburgo na GR é precisamente ter notado que se essa cooperação funcionou numa altura de crise, então há que continuar a desenvolvê-la para garantir o futuro", defende Guedes.

Guedes explica o conceito: "Os 100.000 trabalhadores que nos chegam, diariamente, do outro lado da fronteira, são fruto dessa colaboração: o Luxemburgo precisa dessa mão-de-obra, essas regiões fronteiriças vêem o seu desemprego baixar e, simultaneamente, aumenta o nível de vida de ambos os lados."

"Entre 1997 e 2002 foram criados 60.800 empregos no Luxemburgo, dos quais cerca de 63% foram ocupados por fronteiriços, 26,5% por residentes não-nacionais e 7,2% por luxemburgueses. Se não houvesse esses fronteiriços, onde iríamos encontrar a mão-de-obra necessária a esse crescimento?", pergunta.

Contrariando quem pensa que já são demasiados os trabalhadores fronteiriços no Luxemburgo, Guedes afirma mesmo que o "stock" de mão-de-obra da GR está a esgotar-se e a população a envelhecer.

"Uma das soluções", diz, é "a região, o Grão-Ducado incluído, ter que, num futuro próximo, 'importar' mão-de-obra extra-comunitária". Guedes revela mesmo que, no caso específico do Luxemburgo, se fala (ainda que muito oficiosamente) em favorecer a vinda de trabalhadores da Polónia. Porquê da Polónia? "Pessoalmente penso que por se tratar de um país católico e que isso poderá facilitar a integração dessa população na sociedade luxemburguesa", considera Guedes, acrescentando que isso seria, muito naturalmente, numa sequência da lógica do que o Governo luxemburguês já tinha feito com a imigração italiana e portuguesa.

A Grande Região foi, de certa maneira, precursora do que hoje se convencionou chamar "a Europa das Regiões". Regiões transfronteiriças europeias que cooperam entre si existem igualmente entre a Bélgica e a Holanda, entre a França, a Alemanha e a Itália.

"A GR não é a maior, mas é que vai mais longe a nível institucional", revela Guedes, adiantando até que a GR é vista em Bruxelas como podendo servir de modelo para outras cooperações inter-regionais na Europa", provando "que a UE se consolida não só a nível nacional, mas também ao nível das regiões", afirma o cidadão europeu convicto, Carlos Guedes.

E acrescenta: "Em conjunto, as entidades geográficas da GR, podem também ter mais peso na UE, nomeadamente junto do Comité das Regiões. E como o Luxemburgo é o único Estado soberano da GR, torna-se naturalmente o porta-voz junto de Bruxelas e mesmo a nível mundial".

Resumindo, Carlos Guedes enumerou, para nós, as vantagens de pertencer à GR: estabilidade e desenvolvimento económica, fluxo de mão-de-obra transfronteiriça, oportunidades comerciais, possibilidades turísticas, intercâmbios culturais (no caso da GR, aproveitando a sua situação geográfica na confluência das culturas latina e germânica), entre muitas outras.

"Queremos uma GR que pense 'panem et circens' para a sua população", remata Guedes. E aproveita para nos dar uma boa notícia: Em 2007, o Luxemburgo será, pela segunda vez, Capital Europeia da Cultura e, nesse ano, por iniciativa de Juncker, o título será alargado à Grande Região, estando, desde já, todas as Cidades dentro dessa área convidadas a participar no evento. Uma ideia, no mínimo, original de Juncker, mas que passa pela vontade assumida de promover uma imagem forte da GR.

"Uma região que se projecta culturalmente, também terá projecção económica", afiança Guedes, acrescentando que "o objectivo da GR também é promover-se como uma cooperação-modelo, e desenvolver políticas a todos os níveis, por forma a fortalecer as políticas locais, de modo a que estas se insiram numa política global. Enquanto GR queremos, acima de tudo, situarmo-nos no coração da Europa como uma região produtiva, economicamente viável, onde haja um bom nível de vida, bem estar social e intercâmbios culturais", concluiu Guedes.

o ano passado, os chefes do Executivo das entidades membros da GR concluiram que se devia encontrar uma nova denominação para esta, "um nome dinâmico, mas baseando-se nas características geográficas das entidades parceiras". No dia 1 do corrente, os representantes da GR escolheram entre 32 propostas e o nome definitivo deverá ser revelado durante a 7a Cimeira da Grande Região, em Junho de 2003. Para mais informações, consulte o site internet da Grande Região (em www.grande-region.net).

José Luís Correia,
in CONTACTO, 03/01/2003