sebenta de anotações esparsas, pensamentos ociosos, reflexões cadentes, poemas difusos, introspecções de uma filosofia mais ou menos opaca dos meus dias (ou + reminiscências melómanas, translúcidas, intra e extra-sensoriais, erógenas, esquizofrénicas ou obsessivas dos meus dias)
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cahier de notes éparses, pensées oisives, réflexions filantes, poèmes diffus, introspections d'une philosophie plus ou moins opaque de mes journées (ou + de réminiscences mélomanes, translucides, intra-sensorielles et extra-sensorielles, érogènes, schizophrènes ou obsessionnelles de mes journées)

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

EDITORIAL: Do bem e do mal

O caso Luxleaks voltou à barra dos tribunais na segunda-feira. Caso para voltarmos a reflectir na legalidade e na moralidade daquilo que o Luxemburgo denomina de “otimização fiscal”.

Quando somos crianças ensinam-nos a diferença entre o bem e o mal e achamos que é fácil fazer a distinção. Quando crescemos, acabamos por entender que por vezes há uma linha ténue que separa as duas noções. Que há muita gente que se torna perita em navegar entre essas linhas e aproveitar os interstícios como se fossem um ’no man’s land’ entre dois continentes. Gente que diz que a definição de bem e de mal depende da moral, da perspetiva, da cultura, da sociedade, da empresa ou do país em que se insere.

A questão do bem e do mal, por muito maniqueísta que seja, tem que ser colocada quando os lançadores de alerta do escândalo Luxleaks são constituídos arguidos e condenados em primeira instância pelos tribunais do Luxemburgo. São inocentes, são culpados? Denunciaram casos de evasão fiscal que o Governo luxemburguês e a PricewaterhouseCoopers consideram ser uma prática legal de otimização fiscal.

Ao revelarem estas operações, os arguidos demonstraram que o Luxemburgo impede muitos países de recuperarem avultadas somas de dinheiro em impostos, que podiam servir para investir nesses países em educação ou na saúde. É legal? É (embora discutível). Mas é moral? Não! Não é!

As empresas que usam a evasão fiscal representam uma perda de pelo menos 100 mil milhões de dólares por ano aos países mais pobres. Nos cofres desses Estados, esse dinheiro seria suficiente para permitir que 124 milhões de crianças fossem à escola ou para salvar a vida a mais de seis milhões de outras crianças através da melhoria dos cuidados de saúde, estima a Oxfam num recente estudo.

Mas ao optarem por refugiar-se fiscalmente no Luxemburgo, essas empresas contribuem para enriquecer o Grão-Ducado, criar mais empregos no país, construir mais infraestruturas, melhorar o nosso nível de vida. Podemos, moralmente, ignorar que o país onde vivemos tem um Produto Interno Bruto (PIB) fictício, dopado pelas práticas nem sempre transparentes de uma praça financeira de que tanto nos orgulhamos, mas que nada tem a ver com a realidade dos recursos do país?

Outros países na Europa e no Mundo também praticam a otimização fiscal. Isso torna-nos menos culpados?

Ingenuamente (talvez) considero que sabemos muito bem quando estamos a praticar o mal porque, como nos ensinaram em miúdos, é simples de identificar: é quando estamos a prejudicar alguém. Fazemo-lo para o nosso, um bem comum, um bem maior? Eu continuo a achar que são desculpas.

José Luís Correia
14/12/2016, in CONTACTO

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Populismo, round 2

O mundo parece deslizar aos poucos, mas perigosamente, no nacionalismo e no populismo. EUA, Itália, França, Luxemburgo (?).

Ainda de ressaca pela vitória de Donald Trump nos EUA, o mundo parece deslizar aos poucos, mas perigosamente, no nacionalismo e no populismo.

A Áustria escapou por pouco. Nas presidenciais de domingo, os austríacos preferiram um filho de refugiados pró-europeu aos slogans fascistas de um neonazi.

Já em Itália, o Governo pode vir a cair nas mãos do antieuropeu Beppe Grillo. Tudo está em suspenso depois de o primeiro-ministro Matteo Renzi ter anunciado na segunda-feira que é demissionário, após o referendo falhado de domingo. A consulta popular propunha reduzir os poderes do Senado e uma “regionalização” das províncias, mas o eleitorado viu uma oportunidade para sancionar Renzi pelo desemprego e a crise económica que alastram.

O referendo nada tinha a ver com a UE, mas os anti-europeístas Berlusconi, Grillo e a Liga do Norte instaram os eleitores a votar não pela “independência e liberdade” (?). Em tempos de crise, os oportunistas exploram os medos do povo para se projetar no palanque do poder.

A primeira a felicitar os defensores do não em Itália foi Marine Le Pen. A presidente da Frente Nacional (FN) já se vê em Maio de 2017 a conquistar o Eliseu numa gloriosa vitória à Trump. O populismo e o nacionalismo têm oportunistas dos dois lados.

Em França, a direita namora perigosamente com a extrema-direita e François Fillon propõe medidas que nem Sarkozy, de quem foi o primeiro-ministro, ousou. Vale tudo para seduzir os eleitores do FN e evitar Le Pen.

À esquerda, o mal-amado François Hollande atirou a toalha, logo apanhada em voo pelo seu “delfim” e ex-primeiro-ministro Michel Valls, que na realidade já não suportava o Presidente. Valls diz que quer “reconciliar toda a esquerda” e recorda 2002, quando Lionel Jospin foi relegado para terceiro e Jacques Chirac venceu para salvar a França de Jean-Marie Le Pen.

Mas antes das presidenciais, Valls vai ter que convencer os socialistas nas primárias de janeiro frente ao seu ex-colega de Governo, Arnaud Montebourg. O “outsider” chama-se Emmanuel Macron, também ex-ministro de Hollande, que é tudo menos de esquerda.

No Luxemburgo, a “musa” populista também seduz, com as autárquicas de 2017 e as legislativas de 2018 na mira. Num post publicado na sexta-feira no Facebook, o presidente do CSV, Marc Spautz, lamenta que certas escolas já não sejam “autorizadas” a festejar o São Nicolau. Hein? Quais escolas? Pois, Spautz não diz quais.

Bastou isso como rastilho para lançar a indignação nas redes sociais, essas novas praças da verdade suprema sempre prontas de facho em punho para mais um auto-de-fé.

José Luís Correia,
07/12/2016, in CONTACTO

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

episodio 1

Chovia ha tres dias e via-se no rosto dos passantes que estavam cansados de tanta agua. Cada passada apressada ou pesada a agua saltava, indiscriminadamente molhava peugas e meias de vidro, sapatos italianos usados e botas de tacao novas em folha. As bainhas das calcas molhadas, os homens de ar sisudo, as mulheres com as maos nas saias leigeiramente puxadas para cima, de rimel carregado e labios em diagonal. 

Ele estava parado na esquina do Cafe Neruda, o chapeu e a gabardine encharcados a pingar, as maos nos bolsos, os dedos a brincar nervosos com uma moeda, os oculos algo embaciados e escorregadios, o frio no nariz dava-lhe um ar corado e incomodado.  

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

EDITORIAL: Ideocracia e populismo

Donald Trump é um enigma. Sem experiência política e um currículo de empresário astuto mas sem escrúpulos, como agirá no cargo máximo da maior superpotência mundial?

“Ideocracy”, comédia distópica de 2006, conta a história de uma América idiotizada, que se estupidificou moral e intelectualmente, elegendo um imbecil para a Casa Branca. Será uma obra de antecipação?

Sem cair numa comparação fácil com Trump, a verdade é que Donald deixa a impressão de alguém que não sabe onde se foi meter. Parece que se candidatou à Casa Branca por causa de uma aposta. E que nem esperava ganhar, como o prova o discurso de vitória, que destoou logo dos comícios inflamados da campanha.

Num discurso calmo de 15 minutos, dois terços foram dedicados aos agradecimentos, e apenas cinco minutos para resumir sem convicção, carisma, vigor ou a sua pujança habitual duas ou três ideias básicas de campanha.

Nos dias seguintes à eleição, Donald parecia estar a “destrumpizar-se”. Disse que já não ia deportar 11 milhões de indocumentados, mas apenas “dois ou três milhões de criminosos ilegais”, o que soa a rídiculo quando se sabe que Obama expulsou 2,5 milhões de clandestinos entre 2009 e 2016. O muro que prometeu erigir na fronteira mexicana – 3.200 km de comprimento (!) – pode vir a ser apenas “uma vedação”. E até o Obamacare, que prometeu erradicar, afinal “tem coisas boas”. Também já se retraiu em promessas como as de não deixar entrar mais muçulmanos no país, encarcerar Hillary, “rasgar” o acordo nuclear iraniano, taxar em 45% os produtos chineses, reduzir o financiamento na NATO, etc.

Trump parecia estar finalmente a entender os contornos do realismo político e do exequível. Mas Trump e o bom-senso são antónimos. Percebendo que pode perder apoio popular, nomeou Stephen Bannon, um racista supremacista conspiracionista, como seu alto conselheiro. E há mais nomeações discutíveis: Michael Catanzaro, lobista do petróleo, pode vir a ser secretário da Energia, a Agricultura pode ir para Michael Torrey, lobista do sector dos refrigerantes e dos laticíneos, para regulador das telecomunicações Jeffrey Eisenach, consultor da operadora Verizon, e por aí fora. Ele, que prometeu limpar “o pantanal de Washington dos lóbis”, está a fazer... exactamente o contrário!.

Estouvado, inconstante, demagogo? Oportunista, com certeza. Que mais esperar de alguém que age segundo o vento sopra? Alguns generais no Pentágono prometem manter longe de Trump “o botão”, referindo-se ao arsenal nuclear dos EUA.

Na Europa, a vitória de Donald Trump deve interpelar-nos: porque preferiram os eleitores Donald a Hillary? Porque esta representava a elite? Se é assim tão fácil a um bilionário frívolo e de moral volúvel, de vocabulário limitado e vulgar, chegar à Casa Branca graças a slogans simplistas, temos de ter em atenção a tendência, que o Brexit já indicava. O populismo está a alastrar também no seio da UE: Grécia, Hungria, Polónia, França, Alemanha (Luxemburgo?). Onde o deixaremos chegar?

José Luís Correia
16/11/2016, in CONTACTO

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

EDITORIAL no Jornal CONTACTO: "Velhos são os trapos" OU "Este não é um país para velhos...portugueses"

Um estudo da Universidade do Luxemburgo mostra porque há poucos portugueses nos lares da terceira idade no país. E dá pistas para possíveis soluções. 

Há uma coisa estranha que acontece volta e meia no Luxemburgo. De repente, alguém surpreende-se que o país tenha imigrantes e que estes tenham necessidades específicas. Nem parece que a imigração no país começou há 130 anos, tal é por vezes a surpresa de políticos e autoridades. A não ser que seja indiferença, na melhor hipótese, ou um ostracismo latente que se ignora, na pior.

No domingo, um episódio caricato de uma natureza que tem a ver com o choque cultural mais básico ilustrou mais uma vez isso. Um grupo de refugiados, alojados na Luxexpo, recusou-se a comer o rosbife servido ao almoço, por pensarem tratar-se de carne estragada. Simplesmente desconheciam esta forma de cozinhar carne.

Só pode ser insensibilidade e ignorância por parte das autoridades. Não imagino que num jantar entre o Governo e o magnata indiano Lakshmi Mittal fosse servida carne de vaca, um animal sagrado na Índia. Será que o interesse depende do porta-moedas do estrangeiro?

É exatamente isso que diz Maxim Kantor, um artista e escritor russo dissidente que entrevistamos nesta edição, quando se refere ao Brexit e ao sentimento anti-estrangeiros dos britânicos.

O Luxemburgo precisou, e continua a precisar, de mão de obra estrangeira, e o que teima em chegar são... pessoas. Pessoas com tradições religiosas e culturais bem suas, uma alimentação diferente, costumes e festas à sua maneira, filhos que precisam de creches e escolas adaptadas, imigrantes que chegados à velhice precisam, também aí, de cuidados específicos. Como o Luxemburgo parece agora descobrir.

Há uns anos, uma antiga ministra da Família dizia-se preocupada porque não entendia a razão de não haver idosos portugueses nos lares da terceira idade luxemburgueses. As respostas eras múltiplas mas óbvias, como demonstra agora um estudo da Universidade do Luxemburgo.

Apesar de gozarem de bastante conforto (alguns até são luxuosos), os lares no país são caros para as pequenas reformas dos portugueses. Além disso, nos lares estes idosos ficam isolados, já que a maioria dos utentes são luxemburgueses, e tanto uns como outros, falando pouco ou mal o francês, preferem a sua língua materna. O estudo preconiza a criação de estruturas da terceira idade específicas para os imigrantes idosos, mais adaptadas aos estrangeiros.

É o mínimo que estes idosos merecem, depois de terem ajudado o Luxemburgo a crescer e a enriquecer como país e nação. O papel dos filhos nesta etapa da vida dos pais também é importante, mas o Estado luxemburguês não pode continuar a furtar-se às suas responsabilidades.

A primeira geração de imigrantes acaba assim com o mito do regresso à terra natal, mas não abdica do sonho de ter uma velhice tranquila, perto de filhos e netos.

José Luís Correia
in CONTACTO, 09/11/2016

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Entrevista: "O que existe hoje na Rússia são novas formas de feudalismo e de fascismo"

Por José Luís Correia - Maxim Kantor é um artista plástico e dissidente russo. Pintor, escultor, escritor, dramaturgo, filósofo, pensador, mostra-se bastante crítico do “putinismo”, que acusa de favorecer o feudalismo e o fascismo no país. Em França lançou este ano oromance “Feu Rouge” (“Red Light”, em inglês). No Luxemburgo, a sua mostra de pintura “Le nouveau bestiaire” esteve recentemente exposta na Abadia de Neumünster, no Grund.

Maxim Kantor Foto: Alain PIron


(...)
Leia o artigo, na íntegra, na edição do jornal Contacto desta quarta-feira.

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

EDITORIAL: Mundo sustém respiração

Hillary Clinton ou Donald Trump, qual o próximo ocupante da Casa Branca? A resposta chega na terça-feira, 8 de novembro. Entretanto, meio mundo está expectante e anseia pelo mal menor.

A campanha eleitoral para as presidenciais norte-americanas entrou na sua última semana e é seguida há meses por quase todo o planeta, que sustém a respiração e espera pelo cenário menos pior. Hillary Clinton está à frente de Donald Trump nas sondagens. A democrata recolhe 47% das intenções de voto e o opositor 43% (segundo o site RealClearPolitics.com, à hora do fecho da edição).

Mas no dia do sufrágio pode haver surpresas, como em 2000, quando Al Gore era o favorito mas George W. Bush foi eleito. Com as consequências que todos conhecemos. Talvez por isso as presidenciais americanas suscitem tanto interesse em todo o globo.

Trump começou como um ’outsider’ risível, depois conquistou o eleitorado republicano, afastou os candidatos mais sérios e liderou as sondagens durante meses. Mas agora está em recuo, devido a controvérsias relativas a declarações sobre como considera e trata as mulheres, os povos latinos, os afro-americanos e até os seus empregados. Mas também pela falta de transparência das suas finanças. Trump é o seu próprio pior inimigo, autor de disparates, insultos e ofensas que fazem corar qualquer político e sentir-se embaraçado todo o campo republicano, o que lhe tem valido ver cada vez mais apoiantes do ’Grand Old Party’ dizerem abertamente que votarão nos Democratas pela primeira vez.

E, no entanto, Trump tem seguidores que o apoiam cegamente. Como aquele apoiante afro-americano que na semana passada foi a um comício do magnata na Carolina do Norte e acabou sendo expulso por o considerarem um opositor, simplesmente por ser negro. O homem rechaçado admite que vai, mesmo assim, votar em Trump (!?). Um amigo meu diz que Trump só se candidatou para provar que é possível fazer pior que W. Bush.

Com tudo isto, como não preferir Hillary, que se pode tornar na primeira mulher no cargo máximo do poder nos EUA? Pois, mas o que poderia ser, afinal não parece assim tão óbvio. É que Hillary também tem esqueletos no armário. Apesar de gozar de uma relativa boa nota na opinião pública pelos seus papéis de Primeira Dama e senadora, o escândalo Benghazi e o caso que o FBI investiga sobre ter utilizado o seu correio eletrónico privado para tratar de emails estatais pôs em questão o seu desempenho como secretária de Estado. Também o dossier imobiliário Whitewater manchou a sua reputação.

Com o barulho das luzes ninguém viu nada: o teatro das presidenciais nos EUA afastou para segundo plano o acordo de livre comércio CETA, assinado no domingo entre a UE e o Canadá. Um tratado que elimina barreiras alfandegárias, mas parece favorecer mais as multinacionais do que os cidadãos e pode levar à desregulamentação da economia, do mercado do trabalho e ao desmantelamento dos direitos sociais.

José Luís Correia
in Contacto, 02.11.2016

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Ponte Vermelha do Luxemburgo e Ponte sobre o Tejo fazem 50 anos - Duas pontes unidas por destinos comuns


Têm a mesma idade – 50 anos – são feitas da mesma “fibra” – aço luxemburguês –, e têm um destino trágico comum. Construídas para simbolizar o progresso e o futuro das capitais e dos países onde foram edificadas, ambas ficaram, no entanto, desde cedo marcadas pelos suicídios de centenas de pessoas que as escolheram como derradeiro palco no salto para a morte.

A Ponte sobre o Tejo comemorou o seu cinquentenário em 6 de Agosto último e a Ponte Vermelha faz 50 anos no próximo dia 24 de Outubro.

"A cabeça dele tinha explodido e o sapato estava no meio da estrada”, diz uma criança que vivia em 1990 no Pfaffenthal e assistiu ao suicídio de um homem que saltara da ponte Grande-Duchesse Charlotte, no documentário “Le Pont Rouge” (1991), de Geneviève Mersch.

“Não passo sob a ponte sem olhar com alguma apreensão para cima porque sei que tudo me pode cair em cima”, diz uma adolescente no filme. Uma voz de criança enumera o que costuma cair da ponte: “pacotes de batatas fritas, latas, garrafas, blocos de cimento, cães, gatos, uma centena de homens e mulheres”.

 Entre 1966 e 1991, ano em que saiu o documentário, registaram-se uma centena de suicídios na ponte vermelha, avança Mersch no seu filme, ou seja, um em cada três meses durante 26 anos. “Aterravam” sobre os telhados das casas, no rio Alzette, nos passeios e parques infantis do Pfaffenthal. Na película de 20 minutos, os moradores de então contam o pesadelo que era viver no bairro.

Uma reportagem de José Luís Correia 

Leia o artigo na íntegra na edição do Contacto desta quarta-feira, 19 de outubro.

Duas pontes unidas por destinos comuns


Têm a mesma idade – 50 anos – são feitas da mesma “fibra” – aço luxemburguês –, e têm um destino trágico comum.

Construídas para simbolizar o progresso e o futuro das capitais e dos países onde foram edificadas, ambas ficaram, no entanto, desde cedo marcadas pelos suicídios de centenas de pessoas que as escolheram como derradeiro palco no salto para a morte.
“Não passo sob a ponte sem olhar com alguma apreensão para cima porque sei que tudo me pode cair em cima”, diz uma adolescente no filme. Uma voz de criança enumera o que costuma cair da ponte: “pacotes de batatas fritas, latas, garrafas, blocos de cimento, cães, gatos, uma centena de homens e mulheres”. Entre 1966 e 1991, ano em que saiu o documentário, registaram-se uma centena de suicídios na ponte vermelha, avança Mersch no seu filme, ou seja, um em cada três meses durante 26 anos. “Aterravam” sobre os telhados das casas, no rio Alzette, nos passeios e parques infantis do Pfaffenthal. Na película de 20 minutos, os moradores de então contam o pesadelo que era viver no bairro.
A Ponte sobre o Tejo comemorou o seu cinquentenário em 6 de Agosto último e a Ponte Vermelha faz 50 anos no próximo dia 24 de Outubro.

Uma reportagem de José Luís Correia 

Leia o artigo na íntegra na edição do Contacto desta quarta-feira, 19 de outubro.

quinta-feira, 8 de setembro de 2016

A quinta das crianças

A quinta-feira, 15 de Setembro, marca o regresso às aulas, mesmo se muitas escolas já começam a funcionar na segunda-feira e outras ainda antes.

Há semanas que crianças e jovens andam num nervoso miudinho, arrumam pela enésima vez a mochila mais que pronta, procuram no estojo algo que lá faltasse, revêem uma última vez a lista dos livros e manuais. É o ritual anual que antecede o – esperado por uns, temido por outros – regresso às aulas.

No Luxemburgo, o ano lectivo 2016/2017 começa com muitas novidades: uma escola pública nova com um conceito diferente abre portas em Differdange; as aulas de “Vida e Sociedade” substituem as de Religião nos liceus; entra em vigor um novo regime de orientação para o clássico/técnico; na escola primária as crianças com necessidades educativas especiais ou dificuldades de aprendizagem vão passar a ser acompanhadas por equipas especializadas; e as regras mudaram para as bolsas de estudos, subsídios e cheques-serviço. Explicamos tudo nas nossas páginas dedicadas à rentrée escolar.

Se para muitos o regresso às aulas (já) não evoca nada, para muitos ainda mexe connosco, ou porque porque temos filhos em idade escolar e vivemos com eles a azáfama destes dias, ou porque recordamos o nosso próprio frenesim pós-férias de Verão em que, sendo criança ou jovem, sentíamos de forma tangível que uma nova fase da nossa vida estava prestes a começar.

A escola é e continuará a ser algo fundamental, porque é um tempo de aprendizagem, desenvolvimento intelectual, emocional e social único, são anos determinantes que ajudam a forjar a nossa personalidade e força de carácter, a construir o futuro adulto, nos ensinam a tornarmo-nos seres sociais, nos armam para um mercado de trabalho cada vez mais complicado e diverso, mas também nos preparam para a vida “tout court”.

Se é algo tão fundamental deveríamos todos ser iguais perante a escola. Infelizmente, ainda não é o caso. A escola pública luxemburguesa continua a perpetuar um ensino a várias velocidades – modular, técnico, clássico – consoante critérios abstrusos. Se o aluno for bom a francês, mas fraco a alemão, vai para o técnico; se for forte a alemão e mau a francês, pode ir para o clássico. O que é no mínimo bizarro considerando que o clássico exige o mesmo nível nessas duas línguas. Se não tiver nenhum dos níveis exigidos o aluno é “condenado” ao modular, que é suposto ser um ano de preparação para integrar depois o secundário, mas muitas vezes é aí que a criança abandona a escola. Este erro de direccionamento (prefiro pensar que é um erro do que determinismo social, como numa certa Quinta dos Animais em que havia uns mais iguais do que outros!) acontece há décadas e vai mesmo piorar.

Até agora, pais e professores tomavam a decisão juntos. Com a nova forma de orientação escolar, que começa neste ano lectivo, caso não haja acordo, a decisão é tomada por uma comissão de orientação, de que não há recurso. Como é possível dar este poder aos professores quando se sabe que os docentes cometem mais erros de avaliação com alunos estrangeiros do que com os luxemburgueses quando decidem quem vai para o técnico ou para o clássico? Não sou eu que o afirmo, mas um estudo da Universidade do Luxemburgo, divulgado este ano.

Claro que há casos de sucesso, crianças estrangeiras que conseguem não só aceder mas distinguir-se no clássico, ou que seguem o técnico, frequentam a Universidade e chegam mesmo assim à sua profissão de sonho. Mas temos é que nos preocupar com os que não conseguem e cuja taxa ainda continua bastante elevada. Dos cerca de 40% de estrangeiros no ensino, apenas 18% chegam ao clássico, metade dos alunos que entram no clássico são luxemburgueses, apenas 11% são portugueses (“Bildungsbericht 2015”).

Os números têm mudado pouco nos últimos anos. Porque nada se faz. Na pasta da Educação têm-se sucedido nos últimos 25 anos pessoas incompetentes, incapazes de resolver o problema ou com a falta de coragem política para encarar o descontentamento do seu eleitorado caso alterassem algo ao “status quo”.

Veja-se a tempestade que se abateu sobre o actual ministro da Educação com o projecto da Escola Internacional de Differdange, que é apenas um tímido passo na criação de uma escola mais igualitária e que pela primeira vez integra a língua portuguesa no programa do ensino público. Resta aos alunos que não querem seguir o ensino técnico luxemburguês “à força” inscrever-se numa escola na Bélgica ou em França. E assim o Luxemburgo vai perdendo capital humano. Como acontece há décadas.

Compare-se a escola luxemburguesa – em que o aluno tem de dominar o sacro-santo alemão ou parece condenado a uma vida fracassada – à “Ferme des Enfants”, uma escola na região da Ardèche, em França, criada por Sophie Bouquet-Rabhi em 1999. A mentora do projecto preconiza que o mais importante é “dar auto-confiança às crianças” para fazer deles bons alunos, que mais tarde se tornarão adultos realizados.

O paradigma é simples, pudessem entendê-lo todos os professores, orientadores, directores de escola e ministros que nos lêem.

José Luís Correia
in CONTACTO, 07/09/2016

terça-feira, 6 de setembro de 2016

As primeiras frases do Arthur


Com o papá, 20/08/2016:
- "Papá, a bola está aqui!"

Com a mamã, 05/09/2016:
- "Mamã, já chegámos!"
- "Mamã, onde está o cão que me deste no outro dia?"

* (Aos 2 anos e 7 meses. Frases espontâneas, completas e por iniciativa própria)


quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Editorial no Jornal CONTACTO: "Pot-pourri da silly season"

Conversa de café:
- Então, o nosso Benfica?
 - Nosso? Meu não é. Lá tiveram que ser outra vez levados ao colinho...
 - Colinho, que colinho? Vocês são mesmo maus perdedores.
 - Nós não perdemos, foi empate!

Quando não há nada para conversar na “estação parva”, há sempre o futebol, valor fundamental do “ser bom português”. No entanto, a “silly season” este ano trouxe um rico rol de pérolas de parvoíce.

Primeiro foram os caçadores de Pokémons. Cabeça mergulhada nos seus smartphones, hipnotizados pelos bonecos da realidade aumentada, alguns foram atropelados, causaram acidentes de trânsito, caíram em escadas e rios, outros invadiram jardins e casas privadas. No Luxemburgo, um condutor foi multado por conduzir no boulevard Joseph II, na capital, a 8 km/h, andava a caçar esses monstrinhos. Uma aldeia francesa proibiu os bonecos virtuais da Nintendo e foi festivamente declarada “zona livre de Pokémons”. Em Washington, o director do Museu do Holocausto indignou-se que houvesse Pokémons à solta no memorial dedicado à Shoa.

Depois foi o “burqini”, um fato de banho-burca, que cobre todo o corpo excepto o rosto e que algumas muçulmanas decidiram levar para as praias francesas este Verão. No clima de crescente islamofobia que se vive em França há mais de ano e meio devido aos atentados terroristas, a peça de roupa foi utilizada como um rastilho pelos que surfam na onda fácil da extrema-direita. Felizmente não pegou fogo... ainda. Cannes e Nice proibiram o burqini e algumas banhistas foram mesmo multadas.

O “Zorro do Nicab”, Rachid Nekkaz, um homem de negócios franco-argelino, que se diz contra o burqini, pagou as coimas das autuadas e recordou ao Estado francês que num país que apregoa a torto e a direito ser uma república laica, as liberdades fundamentais devem ser respeitadas, como a de vestir a roupa que se quer. No país dos Direitos Humanos, não aplicar a regra básica do “a minha liberdade acaba onde começa a tua” esta polémica é absurda. A imprensa anglo-saxónica, também em falta de notícias, ri-se dos gauleses. Inventado em 2003 pela estilista australiana de origem libanesa Aheda Zanetti, o fato de banho-burca nunca foi tão popular em França como agora, desde que os seus detractores começaram a denunciá-lo, e quanto mais praias o proíbem mais muçulmanas o vestem.

O Brasil acolheu as piores Olimpíadas de sempre. Os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro ficaram manchados pela instabilidade política do país, a demolição de favelas para construir estádios, as instalações inacabadas ou deficientes, os assaltos aos atletas (e até a um ministro português), a poluição de alguns locais onde decorriam provas, a tocha olímpica que foi roubada e apagada, o virar de costas dos brasileiros aos Jogos, entre outros incidentes.

Enquanto isso, em Portugal... “Ai, Portugal, Portugal/Enquanto ficares à espera/Ninguém te pode ajudar”. Podem vir hidroaviões Canadairs da Rússia e de Espanha, mas a canção de Jorge Palma é a melhor resposta às perguntas que nos angustia a garganta: porque razão o nosso país é dizimado pelas chamas todos os Verões? Como é que num país onde os incêndios florestais grassam anualmente ainda faltam meios para combater o flagelo? O jardim à beira-mar plantado transforma-se, de ano para ano, em ermo de cinzas, uma calamidade. Falta investimento, prevenção, visão e vontade. E sem isso, não há futuro.

Uma prova palpável de que “pode mais quem quer do quem pode” é a conquista histórica por Portugal do título de campeão europeu de futebol. A glória do título iluminou as várias gerações de grandes futebolistas portugueses que tivemos nas últimas décadas mas que nunca ganharam nada internacionalmente, e libertou-nos do sentimento de injustiça que pairava sobre a nossa selecção. Mas não havia maldição alguma, faltava apenas acreditarmos e investirmos em nós. O motor da vitória foi o seleccionador, mas também a vontade, o acreditar. Quando se quer, consegue-se. Porque não aplicar essa tenacidade a tudo, Portugal? O país quer, espera, almeja que os nossos melhores atletas tragam medalhas olímpicas, mas não lhes dá condições?! Depois lamenta-se. Tristezas não pagam dívidas.

Dizia alguém que o final de Agosto é como um longo fim-de-semana antes da segunda-feira de trabalho. Que nos sirva para reflectir: em nós, no país, no futuro. Deixemos de ser “silly” e de nos queixarmos. Façamos!

José Luís Correia
in CONTACTO, 24/08/2016

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Editorial sobre o caso Luxleaks: "Da Desobediência"

José Luís Correia
Os arguidos no processo “Luxleaks”, que começaram a ser julgados na semana passada no Luxemburgo, está a revelar-se um autêntico teatro. Aqui na Redacção já há apostas sobre os actores que vão intrepretar este ou aquele papel quando a história chegar ao cinema.

Senão vejamos, o caso tem tudo dos blockbusters de Hollywood: vilões que se fazem passar por vítimas, maus da fita celebrados como lendas vivas, indivíduos comuns que saem do anonimato para se tornar heróis, depois injustiçados, muitas peripécias pelo meio e um final... Bem, apesar da peça só ir ainda no terceiro acto (será “ata”?), espera-se um final feliz. Mesmo se nesta história cada um queira um desfecho diferente.

Em tribunal os momentos rocambolescos repetem-se: um dos ex-funcionários dos Impostos, peça-chave da defesa, pôs-se de baixa, o superior hierárquico que o substituiu não respondeu a nenhuma pergunta, um responsável da Polícia teceu considerações anti-capitalistas sobre os arguidos, o juiz não o interrompeu mas corta a palavra a outras testemunhas e não entende a pertinência de outros depoimentos, como se tentasse despachar o processo e este fosse um mero caso cível, entre outros episódios vaiados com apupos pelo público que assiste ao julgamento.

Será apenas má fé? Este não é um processo sobre dois empregados que roubaram documentos na loja do patrão. É sobre o Luxemburgo e a sua imagem no mundo, e sobre o que foi (é) um dos seus principais fundos de comércio. Ou não teria a cobertura mediática mundial que está a ter. Dois cidadãos decidiram desobedecer às directivas da empresa para a qual trabalhavam e, seguindo a sua consciência, revelaram à luz do dia práticas de “evasão fiscal” que roçam a ilegalidade, transvestidas de “optimização fiscal”, por considerarem que são imorais e injustas.

E qualquer pessoa que pague impostos devia pensar da mesma forma: porque razão o Fisco se mostra implacável com o contribuinte privado mas brando, por vezes cúmplice mesmo, com as empresas que facturam milhões? Porque se essas companhias não pagarem os seus impostos, acabaremos por pagá-los todos nós.

“São práticas legais? São! Pode fazer-se? Não!” (parafraseando um célebre sketch humorístico que punha em cena um professor bem nosso conhecido que chegou a Presidente).

“A fraca tributação das empresas não corresponde ao conceito de justiça fiscal e às normas éticas e morais geralmente aceites”, disse durante o processo um dos ex-funcionários da PricewaterhouseCoopers (PwC), citando Jean-Claude Juncker, que foi precisamente um dos que incentivou estas práticas no Luxemburgo enquanto era primeiro-ministro. “L’arroseur arrosé!”, diz a expressão francesa.

Outro momento digno do Vaudeville: a defesa pergunta ao responsável da Polícia porque avisou a PwC das buscas à empresa e é o juiz que responde, “A França não faz o mesmo?”

Eis o cerne da questão. O juiz, assumindo-se ou não (sei lá!) representante do Luxemburgo, não entende porque se está a sujar o bom nome do pacato Grão-Ducado quando tantos outros países também utilizam a evasão, heu... a optimização fiscal. Do Reino Unido aos EUA, passando por França e Portugal (Madeira).

E como é a imagem do Luxemburgo que está em jogo neste tabuleiro, o meu palpite para o desenlace deste processo é o seguinte: os arguidos serão condenados pelos “crimes” de que são acusados: roubo e violação do segredo profissional. Estes apresentarão recurso e a sentença será reconfirmada. Depois recorrerão ao Tribunal dos Direitos Humanos, que finalmente condenará o Luxemburgo. Foi assim que aconteceu com o CONTACTO.

Em 2009, um assistente social apresentou uma queixa-crime contra o jornal, por ter sido posto em causa num artigo sobre um menor que este tinha decidido retirar à família. Questionar a decisão de um assistente social deve ser crime de lesa-majestade neste reino porque logo um juiz mandou efectuar buscas policiais à nossa Redacção para apreensão de material e documentos. A queixa-crime foi retirada, sem que fóssemos informados, o material e os documentos devolvidos, sem um pedido de desculpas. O CONTACTO pediu que as buscas fossem consideradas ilegais, mas tanto o Tribunal de Primeira Instância como o Tribunal Superior do Luxemburgo rejeitaram a queixa apresentada pelo jornal por violação da protecção das fontes, prevista na legislação luxemburguesa. O nosso jornal levou o caso para Estrasburgo e o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem condenou em 2013 o Luxemburgo por violar a liberdade de expressão e o direito à vida privada, dando razão à queixa apresentada pelo CONTACTO.

Antoine Deltour e Raphaël Halet decidiram desobedecer às directivas de discrição e de sigilo profissional a que a PwC os obrgava. Falou mais alto a probidade interior. Fizeram-no pelo bem e interesse públicos, disseram. A desobediência é o direito e o dever que assiste ao cidadão para lutar contra situações em que a lei ou o poder são iníquos, injustos ou incorrectos.

José Luís Correia
in CONTACTO, 04/05/2016

quarta-feira, 13 de abril de 2016

Ao Amor Antigo

O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede.
Nada espera, mas do destino vão nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.

Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
o antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste? Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.

Carlos Drummond de Andrade

quinta-feira, 7 de abril de 2016

EDITORIAL no Jornal CONTACTO: Panama Leaks e outras derivas

Um escândalo de proporções mundiais está a varrer o planeta. O nome singelo de “Panama Papers”, como se de meros papéis largados ao vento se tratasse, não deixa vislumbrar só pela designação a amplitude do conteúdo dos documentos, que revelam a mais colossal fuga ao fisco de todos os tempos. Maior do que os casos Wikileaks (2010), Offshoreleaks (2013), Prism (2013), LuxLeaks (2014) ou Swissleaks (2015) juntos.

Um informador anónimo, com o nome de John Doe (o equivalente ao Zé Ninguém, em português), enviou na Primavera de 2015 ao jornal Süddeutsche Zeitung (SDZ) 11,5 milhões de documentos, cerca de 2,6 terabytes de informação, o equivalente a 2.600 gigabytes (ou simplesmente "gigas"), ou seja, a capacidade de armazenamento total de 20 computadores portáteis de 128 gigas ou de 162 telemóveis de 16 gigas. “Dava para encher 700 mil bíblias”, compararam os jornalistas do diário alemão.

As centenas de milhar de dossiers provenientes do escritório de advogados panamiano Mossack Fonseca (cuja filial Mossfon no Luxemburgo se situa na rue des Bains, na capital) mostram como 214 mil empresas dos cinco continentes, celebridades, chefes de Estado, de Governo, políticos, partidos, desportistas, milionários, nomes mais ou menos famosos, de Vladimir Putin ao primeiro-ministro islandês, de Michel Platini a Lionel Messi, mas também muitos anónimos, praticam impunemente há décadas a evasão fiscal.

No Luxemburgo, 405 empresas e instituições bancárias estão envolvidas no escândalo, incluindo o até agora insuspeito banco luxemburguês BIL. Os documentos abrangem 40 anos, de 1975 a 2015, e para poder analisar tudo a SDZ teve que partilhar os dados com uma centena de jornais de 76 países, que puseram 400 jornalistas a cruzar dados e a verificar as informações durante um ano.

A procissão ainda vai no adro e os jornais prometem mais revelações em todas as edições diárias das próximas duas semanas. Todos os números deste escândalo são abismais, mas o que provoca vertigens é o ar fleumático, quase indiferente, com que alguma opinião pública recebeu a notícia.

Na Islândia houve já manifestações a pedir a demissão de membros do Governo, que de “salvadores da crise” passaram a figurar como cúmplices da bancarrota que afundou o país em 2008. A justiça francesa já abriu um inquérito para averiguar as empresas e residentes nacionais envolvidos no caso.

Mas o sentimento geral é que mais uma vez, além de um punhado de nomes que deverão ser largados na praça pública para expiar a pena colectiva, a culpa vai morrer solteira e a maioria dos implicados vai safar-se. Como sempre. Primeiro vai começar a falar-se em democracia, liberdade, livre-comércio, discrição e segredo profissional, que as empresas off-shore embora operem a curta distância do que é ilícito, agem dentro da legalidade. Os dedos reprovadores vão virar-se contra o mensageiro, como aconteceu com Julian Assange (Wikileaks), Edward Snowden (Prism) ou Antoine Deltour (Luxleaks). Bem fez John Doe em assinar Zé Ninguém, não vá a Justiça, que sofre de cegueira, como todos sabemos, mais uma vez enganar-se de réu. Mais cego é quem não quer ver.

Mas não devíamos ficar indolentes perante isto tudo, porque o mais iníquo e criminoso é que quem acaba por ter que pagar esta gigantesca fraude somos todos nós. Se o dinheiro não vem de um lado, vão buscá-lo a outro, sobem os impostos, aumentam as taxas, pagamos todos por tabela.

Coincidência ou não, tudo isto acontece a 24 horas de distância de escutas telefónicas feitas no FMI em que os dirigentes discutem a ideia de ameaçar a Grécia com uma nova crise financeira para garantir que este país pague as suas dívidas mais depressa.

Mas afinal, quem manda? Já entrámos na era do pós-capitalismo anunciado por Colin Crouch (2004), o que Jacques Attali (2006) designa por hiper-capitalismo? São as directivas dos conglomerados comerciais e das agências de notação que, levados pela voracidade dos accionistas, se sobrepõem à vontade dos eleitos e dos Estados? Vivemos em simulacros de democracia se é um grupo de não-eleitos que manda nos eleitos.

Fiquemos pela Grécia, onde nasceu essa tal de democracia. Horas depois de as escutas do FMI serem reveladas, de uma praia grega zarpava o primeiro barco com refugiados deportados para a Turquia, sem uma única garantia de Ancara de que não os reenviará para os seus países, numa clara violação da Carta Europeia dos Direitos Fundamentais e da Convenção de Genebra sobre os Refugiados de 1951, de que a UE e a Turquia são ambas signatárias. Nos artigos 18 e 19 dessa carta europeia, a UE diz-se solenemente contra as “expulsões colectivas”.

O que significa ainda a UE se for esvaziada dos seus valores, o que representa? Se basta a Angela Merkel acertar com o primeiro-ministro turco Ahmet Davutoglu, numa reunião a dois, os termos e a data das deportações dos refugiados, para que servem Jean-Claude Juncker, Herman von Rompuy, Donald Tusk e a própria União Europeia? A UE é a Alemanha e o resto é paisagem.

E será que as escutas do FMI e as deportações ilegais de refugiados vão ter tempo de antena nos media, perante o tsunami de informações dos Panama Papers?

José Luís Correia
in CONTACTO, 06.04.2016

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Editorial no Jornal CONTACTO: "A civilização no retrovisor"

Os acontecimentos dos últimos tempos dão a impressão que estamos a viver um retrocesso civilizacional.

Como é possível que no século XXI ressurjam crenças bacocas de tempos obscuros que julgávamos definitivamente volvidos, como por exemplo a teoria da Terra plana, que põem em causa as descobertas científicas dos últimos séculos? Seria irrisório se não ganhassem cada vez mais adeptos entre cantores, artistas ou gente da televisão que têm uma real influência nos jovens e nas massas. O mais recente é o rapper B.o.b, autor do sucesso “Airplanes”, que tem multiplicado mensagens na sua conta no Twitter de como “a elite” nos anda a “enganar” com a “teoria da Terra redonda”. Hein?

A esfericidade do planeta era já conhecida por matemáticos e filósofos gregos como Pitágoras e Parménides desde o século VI antes de Cristo. Eratóstenes chegou mesmo a medir a circunferência do globo três séculos mais tarde. Até a Bíblia fala da rotundidade do mundo (Isaías 40:22; Provérbios 8:26, etc.). Mais de 2000 anos depois, entre 1966 e 1972, as primeiras “selfies” que os astronautas da NASA fizeram à Terra – berlinde azul pálido suspenso na imensidão do espaço –, maravilharam a Humanidade. Tanto caminho percorrido para nada?

Propaladas nas redes sociais, com vídeos apelativos, sabiamente montados, deixando de lado uns pormenores em detrimento de outros, essas pseudo-teorias vão embalando (endoutrinando) um público preguiçoso em verificar o que lhe dizem, até ao ponto de negarem verdades científicas. Ciência não é opinião!

A internet não é boa nem má, como qualquer ferramenta depende do uso que faz dela o Homem. Por vezes, faz sobressair o pior que há em nós, julgamos no imediato, criticamos, condenamos, maldizemos, insultamos, como se o facto de nos refugiarmos num semi-anonimato nas redes sociais (que não existe, perguntem a Edward Snowden) nos permitisse dizer tudo. Mas esquecemos que não ficamos ao abrigo da nossa própria natureza humana, que é a verdadeira causa do que espalhamos, seja o bem ou o mal. Será que ainda sabemos distinguir entre os dois?

É de de uma tristeza profunda continuar a ver comentários de pura maldade nas redes sociais sobre quem tanto sofre, fugindo da guerra, da fome ou da miséria, refugiados e migrantes, que afinal somos todos, de uma forma ou de outra.

Pior ainda quando a crueldade é institucionalizada, porque se transveste de legítima. Países que costumam ser exemplo de progresso social como a Suécia, a Dinamarca, a Alemanha ou a Suíça, anunciam agora que vão confiscar os bens dos migrantes e refugiados que ali chegaram à procura de asilo, no que é uma clara violação dos mais elementares direitos humanos.

Despir um ser humano dos farrapos que tem para mais tarde o acusar de roubar uma camisa é politicamente correcto? E humanamente, é o quê? Se alguém nos pede ajuda na rua, pedimos-lhe primeiro que esvazie os bolsos antes de decidir socorrê-lo?

Todos os países vivem um recuo das liberdades, um regresso dos nacionalismos, dos proteccionismos, da desconfiança face ao forasteiro. Quanto mais pequena se torna a nossa aldeia global mais suspeitamos do vizinho.

Nos EUA, um dueto que podia parecer cómico – Donald Trump e Sarah Palin – está a preocupar o mundo, ao seduzir milhões com discursos populistas, manipuladores e que se alimentam do medo dos estrangeiros, isto no país do ’melting-pot’. Chegarão à Casa Branca? Imagem aterradora.

Quem somos? O que somos? No que nos tornámos? Não aprendemos nada com os piores episódios da Humanidade no século passado? Ainda há 70 anos, depois de os nazis assassinarem e espoliarem milhões de pessoas, jurámos: “Nunca mais!”. Uma promessa feita a nos próprios, mas já esquecida. Qual é a próxima derrapagem na nossa queda?

O século XX mostrou o melhor e o pior do que somos capazes. Deste século e de nós, o que contarão os nossos filhos e netos?

A verdadeira natureza de um homem vê-se na adversidade. A da Humanidade também. Não é preciso dizer que neste momento não ficamos bem na fotografia.

Ao mesmo tempo que a tecnologia avança parece recuar o nosso bom senso e inteligência. Esta regressão societal e cultural é um sinal de que estamos num momento em que o paradigma civilizacional está a mudar, como o previram (e preveniram) Samuel Huntigton, Francis Fukuyama e até Alvin Toffler.

Depois do declínio militar, económico e cultural do Império, os romanos do século V sentiram, com anos de antecedência, a invasão iminente dos germânicos e o fim do seu mundo.

É este o nosso sentimento hoje perante a barbárie dos radicais islâmicos? Esquecermos os nossos valores mais fundamentais face ao medo e à ameaça não é o primeiro passo em falso para nos perdermos? Mas se perdermos isso, eles já venceram.

José Luís Correia,
in CONTACTO, 03/02/2016

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

O Menino Jesus e o São Nicolau

Quando eu eu era pequenino, festejar o São Nicolau era algo novo para mim e para a minha família. Enquanto todos os meus amiguinhos luxemburgueses se alegravam no dia 6 de Dezembro com os brinquedos e chocolates que tinham recebido do santo patrono das crianças, eu voltava triste e cabisbaixo para casa, e perguntava à minha mãe porque razão o São Nicolau me tinha esquecido. Será que eu não tinha sido bem comportado?

A minha mãe explicava-me pacientemente que em Portugal é o Menino Jesus que traz os presentes, mas só depois da noite da Consoada, na manhã do dia 25. E sossegava-me: o Menino Jesus não me esqueceria, mas eu tinha que continuar a portar-me bem.

Com o tempo, os meus pais por certo não resistiram ao olhar abatido com que eu regressava a casa a cada São Nicolau porque, eu devia ter seis ou sete anos, quando comecei a receber chocolates e presentes no dia 6 de Dezembro... e novamente no dia 25. Na altura, lembro-me de ter pensado que o São Nicolau devia ter negociado com o Menino Jesus em meu favor.

Hoje, também eu sou pai e sei que vou ter que explicar ao meu filho quem é o São Nicolau e o Menino Jesus, ou talvez optar durante os primeiros anos por uma “fase de transição”, como os meus pais fizeram antes de mim.

Talvez seja esse uns dos segredos de uma integração bem sucedida: conseguir alcançar um compromisso entre as tradições das nossas origens e os costumes que adoptámos no nosso país de acolhimento.  

José Luís Correia 
 in CONTACTO 23/12/2015

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Entrevista com o astrofísico Nuno Cardoso Santos



A estrela mu Arae e os planetas que orbitam à sua volta podem vir a ser rebaptizados com nomes portugueses numa votação online que termina às 23h59 de 31 de Outubro. O Jornal CONTACTO falou com Nuno Cardoso Santos, astrofísico português que ajudou a descobrir dois desses exoplanetas. 

Pode ler a reportagem completa, clicando aqui 

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

"Regresso ao Futuro 2": Marty McFly chega hoje a 2015

Foto: Universal Pictures / Amblin Entertainment
Hoje, dia 21 de Outubro, é o dia em que Marty McFly viaja até ao ano de 2015, segundo o famoso filme "Regresso ao Futuro 2". Os fãs do filme a nível mundial andam a antecipar esta data há meses nas redes sociais e na internet. Hoje, há mesmo eventos organizados nos quatros cantos do mundo para celebrar este dia e a chegada de Marty ao futuro. O Luxemburgo não escapa a esta "pseudo-efeméride".

O filme de 1989 realizado por Robert Zemeckis é a sequela do grande sucesso de bilheteira do mesmo nome de 1985.

No primeiro filme, Marty viaja até 1955 para visitar os pais a bordo de um DeLorean transformado em máquina do tempo pelo cientiosta Emmett Brown. Marty acaba por perturbar o encontro da mãe com o pai, e põe em risco a sua própria existência, num paradoxo temporal que é o pano de fundo do filme. Pelo caminho, inventa o skate, o rock'n'roll, inspira "Rock Around the Clock" a Bill Halley, e vive uma série de outras peripécias.


No segundo episódio, Michael J. Fox (Marty McFly) e Christophe Lloyd (Doc Emmet Brown) viajam de 1985 até 2015 no mesmo DeLorean, que foi agora transformado em carro voador, cujo combustível é lixo reciclado.

Os dois chegam ao "futuro" precisamente hoje, quarta-feira, 21 de Outubro de 2015, às 16h29, hora da costa oeste dos Estados Unidos, já que o local onde aterram, Hill Valley situa-se, segundo o filme, na Califórnia. Na realidade é uma cidade fictícia.

Ou seja, Marty McFly deverá chegar a 2015 quando forem 1h30 da manhã desta quinta-feira no Luxemburgo.

O skate voador, a Pepsi Perfect e os atacadores automáticos 

No segundo opus de Zemeckis, em 2015 Marty McFly anda de skate voador, passa em frente a um cinema onde estão a exibir o filme "Tubarão 19", utiliza um casaco que se auto-seca depois da chuva, calça ténis Nike com atacadores automáticos, bebe Pepsi Perfect, come pizza de um micro-ondas futurista e vê toda uma série de inovações que não existem em 1985.

Se Steven Spielberg não tenciona relançar a saga "Tubarão" ("Skark", 1975), os fãs de "Regresso ao Futuro" têm nos últimos anos instado algumas marcas, como a Nike e a Pepsi, a transpôr para a realidade as ideias futuristas de Zemeckis.

Foto: Pepsi
A Pepsi aderiu ao movimento e lançou esta semana uma edição limitada da Pepsi Perfect, com uma garrafa que imita o design daquela que aparecia no filme de 1989. A comercialização da bebida está apenas garantida nos EUA.
  
A Nike fabricou em 2012 um modelo de ténis igual ao do filme. O modelo tem as mesmas cores e luzinhas que o par que Marty McFly calça, era para ser utilizado apenas numa campanha de publicidade, mas acabou por ser comercializado em edição limitada... sem os atacadores automáticos. No início de 2015, a Nike prometeu aos clientes lançar ainda este ano o modelo com atacadores automáticos. Aguardemos...


Foto: Nike

Quanto a uma das invenções mais fantásticas do filme, o skate voador, a realidade é que em 2011, uma equipa de investigadores franceses da Universidade Paris-Diderot apresentou um "hoverboard" chamado "Magsurf". O "skate" contém elementos supra-conductores, arrefecidos com azoto, que lhe permitem levitar a alguns centímetros do solo, mas apenas sobre uma plataforma com imans e numa distância de cinco metros. Este ano, em Junho, a empresa japonesa Lexus publicou um vídeo onde demonstrava ter construído um engenho semelhante, com base na mesma tecnologia.

Ainda não é bem o skate que se vê no filme "Regresso ao futuro 2", mas é o primeiro passo para construir um "brinquedo" que pode um dia tornar-se um meio de transporte tão real e prático como o Segway.

Foto: Lexus


O filme mostra toda uma série de outras previsões e inovações tecnológicas que ainda não existem, mas seriam bem práticas nos dias de hoje. Pode revisionar o filme, recordar bons momentos e ver tudo o que filme acertou ou falhou para 2015.

Luxemburgo também festeja chegada de Marty McFly ao futuro 

Hoje, são vários os cafés no Luxemburgo que organizam uma festa especial dedicada à chegada de Marty McFly ao "futuro".

Em Hollerich, o "Decibel Bar" anuncia que vai ter uma máquina do tempo à disposição dos clientes. A noite será animada por DJ Andrew Martin. O Rocas Bar, na rue des Capucins, na capital, também festeja a efeméride com uma noite onde só vão passar músicas do filme e dos anos 1980. Os bares Marx, White House, Hitch e Epic também organizam hoje noites especiais "Regresso ao Futuro 2".

Por seu lado, o cinema Utopolis propõe esta noite, a partir das 19h, uma maratona "Regresso ao Futuro", durante a qual os três filmes da saga vão ser exibidos.

José Luís Correia
in www.contacto.lu, 21/10/2015