sebenta de anotações esparsas, pensamentos ociosos, reflexões cadentes, poemas difusos, introspecções de uma filosofia mais ou menos opaca dos meus dias (ou + reminiscências melómanas, translúcidas, intra e extra-sensoriais, erógenas, esquizofrénicas ou obsessivas dos meus dias)
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cahier de notes éparses, pensées oisives, réflexions filantes, poèmes diffus, introspections d'une philosophie plus ou moins opaque de mes journées (ou + de réminiscences mélomanes, translucides, intra-sensorielles et extra-sensorielles, érogènes, schizophrènes ou obsessionnelles de mes journées)

quarta-feira, 1 de abril de 2015

De 24 a 26 de Abril: António Carlos Cortez representa Portugal na Primavera dos Poetas do Luxemburgo

António Carlos Cortez é o representante de Portugal na 8a edição da Primavera dos Poetas, que decorre no Luxemburgo de 24 a 26 de Abril, e que tem como tema este ano a “insurreição poética”. 
António Carlos Cortez

O poeta, ensaísta e crítico de poesia é também colaborador permanente do Jornal de Letras e de revistas como a Colóquio-Letras, da Fundação Calouste Gulbenkian, e Relâmpago, da Fundação Luís Miguel Nava. Cortez nasceu e vive em Lisboa, onde é professor de Literatura Portuguesa no Colégio Moderno. É ainda consultor do Plano Nacional para a Leitura, membro do Clube Unesco para a promoção da leitura em Portugal, membro permanente do júri do Prémio de Poesia Casa de Mateus e membro da direcção do Pen Clube português.

Cortez publicou sete recolhas de poesia: “Ritos de Passagem” (1999), “Um Barco no Rio” (2002), “A Sombra no Limite” (2004), “À Flor da Pele” (2008), “Depois de Dezembro” (2010), que venceu o Prémio da Sociedade Portuguesa de Autores/RTP, “Linha de Fogo” (2012) e “O Nome Negro” (2013). Alguns dos seus textos e poemas foram traduzidos para italiano, francês, alemão, inglês e castelhano, tendo participado ainda na colecção “Poesia e Crítica Portugesa e Brasileira Contemporâneas”, em 2014.

Actualmente, está a preparar uma antologia de poemas seus para o Brasil, “O Tempo Exacto” (Ed. Jaguatirica, Rio de Janeiro) e a trabalhar na obra “Palavra de Poesia”, um volume de textos críticos que escreveu nos últimos 15 anos sobre poetas portugueses e brasileiros, depois de já ter publicado um primeiro volume, “Nos Passos da Poesia – A Pedagogia do Texto Lírico”, em 2005.

António Carlos Cortez é investigador no Centro de Literaturas de Expressão Portuguesa na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (CLEPUL) e no Instituto de Estudos do Modernismo da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Representou Portugal nas duas primeiras edições dos Encontros de Escritores de Língua Portuguesa em Natal (Brasil), em 2010 e 2011.

Em 2012, ministrou um curso sobre Poesia Portuguesa Contemporânea na Universidade Federal Fluminense, sob a coordenação da professora Ida Alves e do poeta Nuno Júdice. Neste momento, Cortez prepara um doutoramento em Literatura Portuguesa Contemporânea sobre a poesia de Gastão Cruz.

15 PAÍSES, 15 POETAS 


Além do poeta português, participam na Primavera dos Poetas quinze autores vindos de outros tantos países: Charles Ducal (Bélgica), Haydar Ergülen (Turquia), Ales Debeljak (Eslovénia), Edith Azam (França), David Castillo (Espanha/Catalunha), Julia Copus (Reino Unido), Milo de Angelis (Itália), Gaia Grandin (Suíça), Judith Herzberg (Holanda), Janos Lackfi (Hungria), Sophie Reyer (Áustria), Arvis Viguls (letónia) e Ilona Witkowska (Polónia).

O Luxemburgo vai estar representado pelo poeta Tom Nisse, que vive em Bruxelas. No primeiro dia do evento (uma sexta-feira), os poetas vão visitar vários liceus para apresentarem o seu trabalho aos alunos. Este ano, associaram-se à Primavera dos Poetas o Lycée des Garçons e o Liceu Aline Mayrisch, na capital, os liceus Hubert Clément e Técnico, de Esch-sur-Alzette, o Liceu Atert, de Rédange, e a Escola Europeia.

Como já é tradição, a abertura oficial acontece na Kulturfabrik, em Esch-sur-Alzette, pelas 19h.

TRÊS DIAS DEDICADOS À POESIA 

A Grande Noite da Poesia acontece a 25 de Abril, no segundo dia do evento, na Abadia Neimënster, no Grund, a partir das 19h30, novamente na presença de todos os autores.

Nessa noite vão estar também presentes os laureados do 4° Concurso dos Jovens Poetas, os três finalistas de cada uma das duas categorias em competição (menores e maiores de 15 anos). Dezenas de jovens do Grão-Ducado participaram, por iniciativa dos professores ou a título individual, e os nomes dos vencedores serão anunciados a 21 de Abril.

A noite fecha com uma “jam session”, poesia à mistura com música. A fechar o evento, dia 26 de Abril (um domingo), a “Primavera” viaja até à galeria Simoncini, na capital, para um ’brunch’ poético, entre as 11h e as 13h.

A Primavera dos Poetas conta com o apoio do Ministério da Cultura e da Educação do Luxemburgo e das Embaixadas dos países participantes (no caso português, o Instituto Camões). A entrada é livre nas três sessões. Mais informações no portal do evento (www.prinpolux.luwww.prinpolux.lu).

José Luís Correia
in CONTACTO, 01/04/2015

quinta-feira, 19 de março de 2015

Dossier: Imigração portuguesa para o Luxemburgo começou há 50 anos (1/4)

Que idade tem a comunidade portuguesa? 

O CONTACTO festeja este ano o seu 45° aniversário. O jornal foi fundado em Janeiro de 1970, para informar a comunidade portuguesa no Luxemburgo. Ao comemorarmos esta data, surgiu-nos uma questão natural. Em que ano exacto situar o início da emigração portuguesa para o Luxemburgo? Esta pergunta levantou outras.

Quisemos saber se algum historiador, alguma entidade associativa, federativa, ou governamental já se debruçou sobre esta questão. Infelizmente, a resposta é não. Como estabelecer uma data para o início da imigração portuguesa no Luxemburgo? Devemos tomar em conta o acordo entre os governos luxemburguês e português para a vinda de mão-de-obra lusa para o Grão-Ducado, que data de 1970? Mas se a peregrinação de portugueses a Wiltz (1968), a fundação da primeira associação lusa – as Amizades Portugal-Luxemburgo (1969) – e até o nascimento do CONTACTO (1970) precedem a data desse acordo, como fixar aí o começo da imigração? Houve outros eventos antes desses, organizados pela comunidade portuguesa? Fomos investigar.

Questionámos historiadores, responsáveis políticos e dirigentes associativos sobre o assunto. Para uns, estabelecer a data exacta não é importante, enquanto outros respondem que o número de portugueses era ínfima e que não se pode falar de comunidade antes de 1970.

O CONTACTO sabe que havia portugueses no Luxemburgo antes de 1965. Há um registo de nascimento de uma menina portuguesa em 1928, filha de um trabalhador português da Arbed, como referido na brochura “Portugueses no Luxemburgo”, da ASTI, de 1992. Em 2010, o CONTACTO entrevistou Maria Augusta Esteves, que chegou ao Grão-Ducado em 1955. Havia pelo menos meia centena de portugueses em 1960, se contarmos aqueles com autorização de trabalho (ver quadro) e os clandestinos, muitos deles a trabalhar nas vinhas do rio Mosela. Outros chegaram em 1962 e 1963. Sabemos que pelo menos um deles trabalhou na construção do porto de Mertert, entre 1963 e 1965. Algumas dezenas de pessoas já constituem uma comunidade?

Segundo a primeira funcionária do Consulado de Portugal (ver entrevista na pág. V), em 1970 já havia, pelo menos, 11 mil portugueses registados no Consulado. O Statec ignora estes números nas suas estatísticas (ver quadro). No livro “Culture portugaise au Luxembourg” (1973), o então cônsul de Portugal, José Mendes-Costa, corrobora o número de 11 mil portugueses, precisando que houve chegadas maciças em 1968 e 1969, cerca de mil num ano e quase três mil no outro.

Em apenas quatro anos, entre 1965 e 1969, chegaram mais de 5.500 portugueses. Depois, num só ano, em 1970, chegaram 5.403. O actual Consulado-Geral de Portugal no Luxemburgo não tem dados sobre as chegadas de portugueses nestes anos. Os portugueses que chegavam ao Luxemburgo e não precisavam de ir ao Consulado, não faziam parte da estatística. Ou seja, o número pode ter sido até muito maior.

Agora, tomemos em consideração apenas o ano de 1965, quando estavam registados mais de 1.500 portugueses no serviço consular (o Consulado só seria inaugurado em Março de 1966), sem contar os clandestinos, que também os havia. Um grupo de um milhar e meio de pessoas já constitui uma comunidade? Sim, dirão alguns. Não, responderão outros, um grupo humano disperso não é uma comunidade organizada, nem sequer existiam ainda associações.

E se tomássemos em conta o primeiro evento organizado por portugueses aqui no Grão-Ducado?

O CONTACTO descobriu que em Junho de 1965 os portugueses celebraram pela primeira vez no Luxemburgo o Dia de Portugal e de Camões, com uma missa na Catedral Notre-Dame. Depois da missa, houve um almoço-convívio e uma festa no restaurante Carrefour, no boulevard Royal, que contou com música, cantores e dançarinos portugueses, luxemburgueses e até cabo-verdianos (os cabo-verdianos de então tinham nacionalidade portuguesa – ver artigo na pág. XI). Os organizadores esperavam uma centena de pessoas, e ficaram surpreendidos quando apareceram cinco vezes mais portugueses (ver artigo na pág. III).
Cerca de 200 pessoas assisitiram à missa celebrada pelo 10 de Junho, Dia de Portugal e de Camões, em 1965. Depois pousram para o objectiva de Carlos de Pina, frente à catedral Notre-Dame do Luxemburgo Foto: Arquivos Família Pina

Podemos assumir esta data como o início da imigração portuguesa no Luxemburgo?

Porque é que esta questão é tão importante para nós? Se a comunidade portuguesa está no Luxemburgo há 50 anos, surpreende que nenhuma associação, federação ou entidade governamental tenha decidido ainda assinalar a data. Os portugueses, que tanto contribuem há já cinco décadas para o crescimento do país, não merecem? Não temos direito a um nome de rua ou de bairro? Os italianos tiveram direito ao seu “quartier Italia”, em Dudelange. Mas hoje, não existe nenhuma rua com o nome de Portugal ou de um português, uma placa comemorativa, uma calçada portuguesa no centro da capital, um mural de azulejos, que assinale o nosso meio-século de presença por estas terras.

A rue de Bragance, na capital, não faz referência à cidade transmontana, mas à luso-austríaca Maria Ana de Bragança (1861-1942), filha de D. Miguel, mulher do grão-duque Guillaume IV, mãe da grã-duquesa Charlotte e bisavó do actual grão-duque Henri.

É verdade que existe um busto de Camões, inaugurado em 2006, na place Léon XIII, em Bonnevoie. Mas é tão discreto que parece um parco reconhecimento da contribuição da comunidade para este país. E nós, preocupamo-nos com isso, ou somos uma comunidade sem memória? Esta reflexão sobre a imigração portuguesa e a memória até podia ir mais longe e estender-se ao país: o Luxemburgo, um país atravessado há séculos por emigrações e imigrações, não teve ainda oportunidade ou vontade política de criar um Museu das Migrações? Somos um país sem memória?

O CONTACTO não pretende responder a todas as perguntas, mas apenas lançar o debate.

Por ocasião do nosso 45° aniversário, neste suplemento especial, falámos com três portuguesas que chegaram ao Luxemburgo antes da grande vaga de imigração (págs IV e V), conversámos com a geógrafa luxemburguesa Aline Schiltz, especializada em migrações humanas, que defende que houve um processo de “lusificação” do Luxemburgo; evocámos também os primórdios da imigração cabo-verdiana para o Grão-Ducado (pág. XI) e prestámos homenagem aos portugueses e luso-descendentes que marcaram a história do desporto luxemburguês (pág. XII).

José Luís Correia
in CONTACTO, 11/03/2015 




Dossier: Imigração portuguesa para o Luxemburgo começou há 50 anos (2/4)

Heroína de Pina, em 2009 Foto: Manuel Dias/Contacto
Heroina de Pina: “A primeira festa do 10 de Junho no Luxemburgo foi ideia do meu marido” 

Heroína de Pina, viúva de Carlos de Pina, fundador do CONTACTO, recorda como emigrou para o Luxemburgo e a primeira festa do 10 de Junho que o seu marido organizou, em 1965. Este terá sido o primeiro evento de que há registo organizado pela comunidade portuguesa no Grão-Ducado.

Carlos de Pina Foto: Arquivos Família Pina
“Em Portugal, o meu marido fazia parte da Acção Católica. Conhecia o padre Plácido Guerné, que vinha frequentemente celebrar missas a Estrasburgo, em França, mas também à Alemanha e ao Luxemburgo. De vez em quando, o meu marido vinha com ele. Numa das viagens ficou a conhecer o Luxemburgo e gostou tanto do país que alguns meses depois já cá estava. Isso foi em Maio de 1964 e eu vim seis meses depois, em Dezembro, com as minhas duas filhas – as duas mais novas já nasceram no Luxemburgo. Eu tinha 28 anos e o meu marido 37”.

Heroína conta que quando o seu marido chegou ao Luxemburgo “não pôde trabalhar na sua profissão”, porque não dominava o luxemburguês nem o alemão. Encontrou assim um primeiro emprego como electricista na empresa de construção Soclair.

“O pai dele tinha uma empresa de instalações eléctricas em Cascais, ele gostava e percebia de electricidade. Mas como não estava habituado àqueles trabalhos, pouco depois de começar a trabalhar, caiu numa obra, partiu um braço e nunca mais ficou bom do punho, o que o impossibilitou de continuar nessa profissão. Foi trabalhar como fiel de armazém para os ‘Grands Magasins Sternberg Frères,’ que ficavam na rue du Curé [na capital]”, conta Heroína.

O primeiro evento organizado pela comunidade portuguesa em terras do Luxemburgo

“Assim que aqui chegou, o meu marido começou logo a organizar coisas para os portugueses. Quando chegámos, só havia um cônsul honorário [Jean Turk, 1919-2013, nomeado consul honorário em 1959]. Depois, já em 1965, veio o cônsul Mendes-Costa, mas ainda não havia Consulado [seria inaugurado em Março de 1966]. Quando queria organizar alguma coisa, o meu marido dirigia-se às autoridades luxemburguesas”, lembra. Foi assim, com a ajuda de Marcel Barnich, do Serviço Social da Mão de Obra Estrangeira (mais tarde rebaptizado Serviço Social da Imigração), que conseguiu organizar a primeira festa do Dia de Camões, em 1965.

Marcel Branich Foto: Arquivo LW
“O meu marido teve a ideia de celebrar uma missa na catedral e depois fazer um almoço-convívio“, conta Heroína. Na fotografia da época (ver artigo aqui), que faz parte dos arquivos da família Pina, podem reconhecer-se Marcel Barnich e o cônsul José Mendes-Costa, em primeiro plano, junto a um grande grupo de pessoas, no adro da catedral.

“O meu marido não está na foto, porque foi ele que a tirou. O cônsul tinha vindo há pouco tempo da Bélgica e só participou na festa”. Heroína mostra-nos o convite que Carlos de Pina enviou para Mendes-Costa a 5 de Maio de 1965, e a resposta deste, dois dias depois, que assina “A bem da Nação, o vice-cônsul gerente, José Mendes-Costa”.

“Quem teve a ideia da festa foi o meu marido, que pediu a ajuda do senhor Barnich para a organizar. O cônsul só apareceu lá para fazer um discurso”, assegura Heroína, que estima terem participado na missa cerca de 200 portugueses [outras fontes referem 500 participantes].

Heroína não se lembra do padre que celebrou a missa, mas segundo um artigo publicado no Luxemburger Wort, em 19 de Junho de 1965 (“Erste ’Journée Portugaise’ in Luxembourg”, pág. 8), foi o padre espanhol Javier, da Missão Católica Espanhola, a celebrar essa missa para os portugueses.

Luxemburger Wort, 19/06/1965 (pág. 8)
As fotos do LW e dos arquivos da família Pina, o relato na primeira pessoa de uma das pessoas ligadas à organização desse primeiro Dia de Portugal em terras grã-ducais, permitem-nos estabelecer este evento como o primeiro organizado pela comunidade portuguesa no Grão-Ducado, que então emergia.

No artigo do Wort, pode ainda ler-se que a missa decorreu na cripta da Catedral Notre-Dame e que depois se seguiu um almoço na sala grande do restaurante Carrefour (que se situava no boulevard Royal), na capital luxemburguesa. “Foram mostrados filmes a cor de Portugal que despertaram no coração dos portugueses saudades da sua terra”, escreve o repórter do jornal luxemburguês. O artigo explica que a festa foi organizada por Marcel Barnich, responsável do Serviço Social da Imigração, mas não faz referência a Carlos de Pina.

Segundo o jornal, Barnich esperava pouco mais de uma centena de participantes e ficou surpreendido por terem aparecido mais de 500. No artigo pode ainda ler-se que nessa altura viviam no Luxemburgo cerca de um milhar de portugueses, sem citar fontes. Na realidade, já viviam quase dois mil portugueses no país (ver quadro).

Numa das duas fotos do artigo, a legenda diz que a festa contou com “cantores e músicos de pele escura das ilhas de Cabo Verde”. A descrição do jornalista, politicamente incorrecta para os nossos dias, deve ser vista à luz dos anos 1960, em que era pouco habitual, para não dizer “exótico”, ver estrangeiros no Luxemburgo, e muito menos de origem africana. Mas isto também revela que assim que houve portugueses no Luxemburgo, houve também cabo-verdianos, na altura com nacionalidade portuguesa (ver artigo na pág. XI).

O repórter do Wort não escreve se foram cantadas mornas, mas diz que se cantou o fado e que duas artistas luxemburguesas participaram na festa. “A jovem bailarina Marie-Claire Winandy, aluna da senhora Stenia Zapalowska [dançarina polaca que vivia no Luxemburgo], e a cantora Maggy Groff, que cantou canções luxemburguesas, provocaram um entusiasmo barulhento, típico do sul” (dixit). Houve assobios efusivos e piropos?

Marcel Barnich fez um pequeno discurso em português, agradeceu aos portugueses por terem vindo em tão grande número, falou na “necessidade do Luxemburgo contar com a emigração, e numa Europa que devia trabalhar por ser cada vez mais unida”, pode ainda ler-se. Pediu ainda aos portugueses para, caso tivessem dificuldades no país, recorrerem aos seus serviços.

O artigo evoca também o discurso de Mendes-Costa, que terá dado como recado aos portugueses “não trabalharem apenas com objectivos materiais, aprenderem os métodos de trabalho do Luxemburgo, especializarem-se nos mais diversos ramos”, para quando regressassem a Portugal “poderem ajudar a construir o país”. O artigo termina referindo que a festa acabou com o hino nacional português.

Em 1966

Luxemburger Wort, 17/06/1966 (pág.11)
Heroína conta-nos ainda que Carlos de Pina também fez parte da segunda festa do 10 de Junho, em 1966, numa comissão de festas já organizada pelo cônsul Mendes-Costa, de que faziam ainda parte a “senhora Rodrigues, os senhores Ferreira, Ventura e Fortunato”, pode ler-se também no Wort, em Junho de 1966. Dessa vez, a missa foi na Igreja Notre-Dame de la Paix, em Bonnevoie, e foi celebrada pelo abade Jos. Molitor. Depois, seguiu-se um almoço no Casino Sindical de Bonnevoie. “Lembro-me que nessa festa estava lá um jovem com um acordeão que se chamava Félix. Eu disse umas poesias, houve música, e comes e bebes”, conta Heroína.

Sobre a sua experiência da imigração, Heroína lembra-se dos primeiros tempos. “Quando chegámos, fomos morar para Niederanven. Lembro-me que quando cheguei ao Luxemburgo havia grandes montes brancos de neve nas bermas das estradas. Eu nunca tinha visto neve. Na noite em que fomos à Missa do Galo, na igreja de Niederanven, tínhamos que andar cerca de um quilómetro a pé, e eu chorei muito porque era o meu primeiro Natal longe da família. Mas quando saímos da igreja, estava tudo branco. Tinha nevado enquanto estávamos na missa. Era lindo. Na manhã seguinte, quando abri as persianas, estava um lindo dia de sol e fiquei maravilhada com a paisagem. É uma das minhas primeiras recordações do Luxemburgo.”

Heroína diz que as filhas não tiveram problemas de integração, nesses primórdios da imigração portuguesa. “Ao princípio, eram vistas como as estrangeiras, eram as únicas portuguesas. Mas quando chegaram à escola, aos seis anos – na altura não havia ensino precoce nem pré-primário –,elas já sabiam fazer contas e escrever português. Depois aprenderam depressa o luxemburguês e as outras línguas, sempre foram boas alunas. Hoje, duas trabalham na Comissão Europeia, uma na Ajuda Humanitária e a outra nas Estatísticas. As outras duas, uma é educadora para crianças deficientes e a outra jurista no Conselho de Estado. E já tenho quatro netos, um com 23, outro com 20, e dois gémeos com dez”, diz Heroína, com orgulho.

Heroína de Pina foi uma das fundadoras da associação Amizade Portugal-Luxemburgo (APL). Durante as décadas de 1970, 1980 e 1990 colaborou em várias outras associações e ranchos, escreveu dezenas de poemas e canções, nomeadamente para revistas à portuguesa, que redigia, montava e ensaiava, e que andaram em digressão pelo Luxemburgo. Nos últimos anos, colaborou com o Rancho Juventude Portuguesa de Dudelange.

Em 2009, foi agraciada com a Medalha da Ordem do Mérito do Estado português. Hoje tem 78 anos e reside em Mersch.

José Luís Correia 
in CONTACTO, 11/03/2015 

Resposta do cônsul Mendes-Costa ao convite de Carlos de Pina para participar na primeira festa do 10 de Junho no Luxemburgo (1965) Fonte: Arquivos Família Pina

Dossier: Imigração portuguesa para o Luxemburgo começou há 50 anos (3/4)

Maria José Donven Foto: Guy Jallay/LW
Maria José Donven: Primeira funcionária do Consulado chegou ao Luxemburgo em 1963 

A lisboeta Maria José Rodrigues de Abreu Donven foi uma das primeiras portuguesas a chegar ao Grão-Ducado, em 1963. Foi a primeira secretária do Consulado de Portugal, inaugurado em 1966.

“Quando eu era jovem não tinha a noção do que era a emigração. O meu pai era enfermeiro a bordo de um navio, estava sempre fora, e eu meti na cabeça, desde miúda, que também queria ver o mundo. Já adulta, conheci uma americana que tinha estado no Luxemburgo. Eu queria aprender francês e ela disse-me que no Luxemburgo se falava essa língua. Arranjou-me a morada de uma família de cá, que precisava de uma ‘fille-au-pair’ (ama), eu escrevi-lhes e mandaram-me vir. Eu queria voar, não me interessava para onde. Cheguei cá com 19 anos, no dia 5 de Março de 1963. Nevava tanto nesse dia... Eu não gostava de ser ‘fille-au-pair’ e depressa encontrei trabalho no Monopol, como grafista-decoradora. Em 1963, o Luxemburgo estava a celebrar o ’Ano do Milénio’ [o Condado do Luxemburgo foi fundado em 963], e como eu sempre tive jeito para o desenho, o meu primeiro trabalho no Monopol foi desenhar uma centena de cartazes com figuras da Idade Média para decorar as montras das lojas do grupo, que assinalavam a data. Estive lá três anos.”

Perguntamos-lhe como surgiu a oportunidade de trabalhar no Consulado. “Antes de chegar o cônsul José Mendes-Costa, havia um cônsul honorário de Portugal, o senhor Jean Turk [1919-2013], que tinha sido engenheiro da Arbed em Manaus, no Brasil [foi nomeado cônsul honorário em 17 de Agosto de 1959]. Quando começaram a chegar portugueses ao Luxemburgo iam bater-lhe à porta de casa, na rue Michel Lentz, no Limpertsberg, aos fins-de-semana e até de noite, coitado! Ele pediu-me para o ajudar a receber os portugueses. Quando começou realmente a ser muita gente, ele contactou Portugal para resolverem a situação. Foi aí que em 1965 o Mendes-Costa veio destacado de Antuérpia [na Bélgica], mas continuava a depender da Embaixada de Bruxelas. Só em 1966 é que foi nomeado cônsul de Portugal no Luxemburgo. Como eu já tinha trabalhado com o Jean Turk, o Mendes-Costa propôs-me trabalhar no Consulado. Só havia ele e eu, não havia dinheiro para mais [risos]. Bem, na realidade, eu nunca percebi muito bem aquelas contas, porque o Consulado funcionava na residência privada do cônsul, na rue d’Orange [na cidade do Luxemburgo] e eu nunca soube se foi ele que comprou a casa ou se foi o Estado português. O facto é que a casa dele estava muito bem mobilada, com móveis do melhor, como se fosse uma embaixada”, lembra. “Eu nunca compreendi muito bem aquele senhor”, confia Maria José.

“Ele era muito estranho, muito religioso, muito místico. Nem sei se ele era muito ‘Estado Novo’, tinha que representar o Estado português, era o papel dele. Lembro-me que um dia veio cá o embaixador de Portugal em Bruxelas e durante um jantar alguém comentava o problema do analfabetismo em Portugal. O embaixador levantou-se da mesa muito imperioso e disse: ’O povo é analfabeto e que Deus o guarde assim por muito tempo!’. Nós ficámos envergonhadíssimos, mas o cônsul subscreveu o que o embaixador tinha dito”, recorda Maria José.

“Ele era muito inteligente, mas era uma inteligência tortuosa, não sei se devido ao defeito dele – ele era muito vesgo, vesgo divergente, as pessoas não conseguiam olhá-lo nos olhos. Era também muito baixo, o que o complexava muito. Ele achava-se um intelectual e escreveu vários livros, em edições de autor, que depois enviava para todo o lado, incluindo para os ministérios luxemburgueses”. Algumas das obras podem ser encontradas na Biblioteca Nacional do Luxemburgo.

“O Mendes-Costa era natural de Oliveira do Hospital e apesar de haver muita gente aqui dessa região, as relações dele com a comunidade eram distantes. Ele gostava de estar com os portugueses, mas não tinha a empatia necessária. Era uma pessoa que se deixava muito impressionar pelos títulos”, recorda Maria-José, que não resiste a contar-nos um dos episódios que viveu com o diplomata.

“Um dia veio um chinês de Bruxelas, que disse que era mestre de conferências e que era português, porque a mãe tinha nascido em Macau. Mas não falava português, só francês. Não tinha certidão de nascimento porque, disse, a igreja em Macau onde tinha sido baptizado ardera. Eu disse que não o podia ajudar e ele quis falar com o cônsul. Eu não sei o que ele lhe disse, mas o cônsul veio-me dizer para lhe fazer um passaporte para cinco anos. Ora, na altura, quando havia dúvidas sobre a nacionalidade, havia duas testemunhas que diziam que conheciam aquela pessoa, fazia-se um passaporte por três meses, para que a pessoa voltasse a Portugal e regularizasse a situação. Como o ’chinês’ não tinha ninguém que o conhecesse ali, o cônsul foi à sala de espera, pediu a dois portugueses que servissem de testemunhas e depois deu-me o passaporte para eu assinar – porque entretanto ele tinha-me feito chanceler para a ‘casa’ funcionar quando ele se ausentava. Mas eu recusei assinar e disse-lhe: ‘Então, vêm aí portugueses com o passaporte caducado há dois meses e o senhor faz-lhes tantos problemas? E a este homem, que não tem documentos nenhuns, vai dar-lhe um passaporte por cinco anos? Eu não assino isto!‘. E teve que ser ele a assinar”, conta, entre risos, Maria José.
Foto com um grupo de estudantes portugueses, no início dos anos 1970. Maria José Donven (ao centro); ao seu lado direito, o cônsul José Mendes-Costa; atrás deste, o padre Manuel Fernandes (de óculos), o primeiro sacerdote português a vir para o Luxemburgo; em baixo, com um "papillon", Jean Barnich, filho de Marcel Barnich (do Serviço Social da Imigração) Foto: Arquivo Maria José Donven

Apesar de nem sempre se entender com o cônsul, não foi isso que a fez sair do Consulado, em 1970. “Saí porque fiquei grávida e porque casei”. Recorda-se que quando deixou o posto, havia 11 mil portugueses inscritos no Consulado de Portugal no Luxemburgo. Mais tarde, conta, foi uma das principais mobilizadoras da manifestação que pediu a demissão de Mendes-Costa, logo a seguir ao 25 de Abril. O diplomata viria a ser substituído em 31 de Janeiro de 1975 pelo cônsul Manuel Gervásio Martins de Almeida Leite.

Maria José diz que nunca foi muita associativa, mas lembra-se da aventura de ter fundado uma revista com Mili Tasch-Fernandes (ver artigo aqui).

Depois disso, casou e criou dois filhos. Um é bibliotecário, o outro escultor. Ao fim de 52 anos de imigração, Maria José diz que “arranha um pouco o luxemburguês”, “e bëssen“ (um pouco). “Tenho um conhecimento passivo do luxemburguês, consigo responder com frases curtas, mas não consigo desenvolver conceitos”. Hoje, aos 71 anos, o nome de família fá-la passar aos olhos de muitos por luxemburguesa, mas ela, riso largo e aberto, faz questão de os esclarecer.

José Luís Correia
in CONTACTO, 11/03/2015

Dossier: Imigração portuguesa no Luxemburgo começou há 50 anos (4/4)

Mili Tasch-Fernandes: “Já estou no Luxemburgo há 49 anos!” 

Há quase 49 anos no Luxemburgo, Mili Tasch-Fernandes chegou ao Grão-Ducado em Dezembro de 1966, com os pais. Tinha então 17 anos e “ainda” se chamava Mirandolina Fernandes. A vinda para o Luxemburgo surgiu porque os pais conheciam luxemburgueses que tinham “imigrado” de forma forçada para as Caldas da Rainha, de onde a sua família é oriunda.

“Os Lieberman eram judeus que tinham fugido do Luxemburgo e se exilaram nas Caldas durante a Segunda Guerra Mundial. Foi por eles que ouvi falar deste país pela primeira vez”, conta Mili. “A filha dos Liebermann casou com um amigo do meu pai, o Luís Costa e Silva, que foi director do Hospital Termal das Caldas. Em 1965, quando a empresa na qual o meu pai trabalhava foi vendida, o Luís aconselhou-o a emigrar para o Luxemburgo. Foram os sogros do Luís que encontraram um trabalho para o meu pai numa oficina de carros em Gasperich. O meu pai trabalhou ali um ano até nós virmos, em Dezembro de 1966. Mas só nos registámos no Consulado em Janeiro de 1967”, recorda Mili, acrescentando que foi ali que conheceu Maria José Donven (ver artigo aqui).

“Como eu já falava francês, encontrei trabalho como ’fille-au-pair’ (ama) na família que tinha a Boucherie Schmit, onde hoje são os Talhos Ferreira, em Bonnevoie”. Só ficou quatro meses, porque os Schmit confundiam o trabalho de ama com o de mulher de limpezas. Seguiu-se uma experiência similar numa família belga.

Já com 18 anos, concorreu a um lugar de recepcionista na empresa de construção CECO. “A minha mãe queria ir comigo à entrevista de trabalho, mas eu insisti em ir sozinha. Quando lá cheguei e vi que todas as outras candidatas estavam acompanhadas por um dos pais, fiquei desarmada”. Conta que o patrão da CECO era um luxemburguês com modos americanos. “Fez-me a entrevista com as botas em cima da mesa, usava chapéu de cowboy e fumava charuto. Gostou muito de mim, porque apesar de eu não falar luxemburguês, falava inglês. Uns dias mais tarde mandou chamar-me. “You are the girl we want!” [És a rapariga que queremos], “e sabes porquê?”, perguntou. “Porque vieste à entrevista sozinha!”, recorda. A CECO foi uma das empresas que estava na altura a construir as fábricas da Goodyear, da Dupont de Nemours e da Commercial Hydraulics. Mili foi rapidamente promovida a assistente do chefe do pessoal, o que fez com que vivesse a experiência de emitir centenas de contratos de trabalho a portugueses que faziam fila desde manhã cedo à porta da empresa.

“Aí há uns anos, cruzei-me com um senhor que me agradeceu por ter eu lhe ter feito o seu primeiro contrato de trabalho no Luxemburgo. Perguntou-me se eu sabia que nessa altura (final dos anos 60) havia um indivíduo que esperava os portugueses na gare e lhes cobrava 500 francos para os levar a uma empresa onde havia uma menina portuguesa que ’dava’ contratos de trabalho. Não sabia nada dessa história, fiquei chocada”, conta Mili.

Foi nesses anos que conheceu Charles Kraus, que era professor do irmão (que tinha 12 anos) numa ’classe d’accueil’ na escola Aldringen, e a família Pina (ver artigo na pág. IV), ambos fundadores da APL e do CONTACTO. Foi assim que naturalmente começou a colaborar com a APL e com o jornal. “Eu não escrevia só para o CONTACTO, fazia parte da equipa que passava serões a colar as cintas para enviar o jornal”, lembra. E essa aventura jornalística levou-a a outra. Em 1972, com Maria José Donven e um outro investidor, fundou a “Dois Focos”, a primeira revista portuguesa do Luxemburgo, que só durou 11 meses. “A revista era impressa na tipografia do jornal ’L’avenir du Luxembourg’, em Arlon. Os tipógrafos belgas não conheciam o português e nós tínhamos que ir trabalhar três vezes por semana para preparar o jornal”.

Nos anos 1969/70 e 1974/75 trabalhou como funcionária no Consulado de Portugal. Depois casou com um luxemburguês nascido no Congo belga, do qual teve dois filhos. Um é hoje jornalista e o outro realizador de cinema. Trabalhou ainda nos bancos BGL e Kredietbank.

Em 1977 integrou as instituições europeias, onde fez a sua carreira, tendo-se reformado há dois anos e meio. Luxemburguesa pelo casamento, foi “a primeira portuguesa a trabalhar para as instituições europeias, ainda antes de Portugal aderir à CEE”. Foi ali que dinamizou vários grupos culturais, entre outras actividades.

Estudou alemão por correspondência, “um pesadelo”, recorda, mas isso permitiu-lhe aprender luxemburguês sozinha. Durante 20 anos foi formadora do Serviço de Ensino para Adultos do Ministério da Educação e da autarquia do Luxemburgo, onde ensinou luxemburguês a portugueses e português a luxemburgueses.

Foi presidente das Jornadas Literárias de Mondorf, integrou o conselho de administração da Abadia de Neumünster, foi presidente da “Maison des Associations”, entre outras actividades culturais e associativas. Hoje, continua a colaborar activamente com a Confederação da Comunidade Portuguesa no Luxemburgo (CCPL), onde é responsável pelo Pólo de Formação para Adultos. Em 2001, recebeu a comenda do Infante D. Henrique do Estado português pelo seu trabalho na difusão da cultura e da língua portuguesas.

José Luís Correia 
in CONTACTO, 11/03/2015

quinta-feira, 5 de março de 2015

Editorial no jornal CONTACTO: "As novas invasões bárbaras"

Cristãos perseguidos e massacrados, mulheres espancadas, apedrejadas até à morte ou abatidas à queima-roupa em plena rua por não estarem “devidamente” cobertas ou simplesmente por vestirem um pulóver de cor vermelha, “infiéis” capturados, torturados, degolados, decapitados, imolados vivos dentro de jaulas, crianças escravizadas, utilizadas como escudo humano ou crucificadas e enterradas vivas. E tudo isso vangloriado, propagandeado, em vídeos ignóbeis e abjectos exibidos na internet.

A barbárie do Estado Islâmico parece não ter limites, é aterradora, brutal, bestial (sem ofensa para os animais, parafreaseando Dostoievski). Não tem ideologias nem credo. Não tem! Que ideologia, que religião, em nome de que deus se praticam estas atrocidades inomináveis? Não! Não é religião nem guerra santa, é apenas vontade de propagar o caos e a selvajaria.

As últimas vítimas do ódio jihadista são obras de arte milenares do museu de Mossul, no Iraque. Estelas babilónicas, um touro androcéfalo alado assírio, estátuas do período helenístico, todos destruídos à marretada, com picaretas, maços e martelos pneumáticos. Uma devastação similar à destruição das obras de arte incas, maias e astecas pelos primeiros conquistadores espanhóis no início do século XV. Mais de dois mil livros, pergaminhos, manuscritos e gravuras, alguns com mais mais de 5 mil anos, foram queimados pelos jihadistas, em Janeiro, num dos maiores autos-da-fé de que há memória desde o incêndio da biblioteca de Alexandria.

Foi ali, no Iraque, que brotaram as mais antigas sociedades humanas, que se redigiram os primeiros códigos de lei, que se elevaram do barro as primevas cidades. São os registos da aurora da civilização que estão a ser reduzidos em pó, num esforço (gorado, esperamos!) de os apagar da face da Terra e das páginas da História.

O Estado Islâmico copiou assim os talibãs do Afeganistão, que em 2001 dinamitaram os budas de Bamiyan, que ali se erguiam há 1.500 anos.

Todas estas obras de arte, património de valor inestimável da Humanidade, foram testemunhas da ascensão e queda de impérios e civilizações, viram passar por eles os séculos e alguns deles os milénios, foram, se não admirados, pelo menos, respeitados por exércitos, conquistadores, reis, imperadores e até ditadores para, finalmente, serem demolidos sem glória por hordas ferozes de extremistas cobardes. Cobardes, porque uma obra de arte não devolve o murro, não se sabe defender. Cobardes porque se escondem atrás de uma religião e de um deus para justificarem os seus crimes e a sua pequenez.

 Que ódio é este? Ódio à civilização, ao ser humano? Onde está o Islão tolerante que foi um exemplo civilizacional, intelectual e de coabitação na Idade Média? Que leitura deturpada do Corão leva a actos sórdidos desta índole?

Para o Estado Islâmico todos nós, ocidentais, somos inféis a abater, a exterminar. Como o recordou Steve Duarte, o português que trocou Meispelt, no Luxemburgo, pela Síria, em entrevista à RTP na semana passada. Steve aproveitou para revelar que ele era um dos webmasters que criava as páginas internet e os “gloriosos” vídeos para o Estado Islãmico. Aberrante!

Mas não é só a Europa ou o Ocidente que devem lutar para erradicar este flagelo islâmico, inimigo de toda a Humanidade. Todos os países muçulmanos deveriam empenhar-se mais numa luta sem tréguas contra quem mancha assim a religião de Maomé. Mas quanta conivência, cumplicidade até, da parte de certas organizações e estados muçulmanos, sem falar dos príncipes e emires que financiam, cada vez menos secretamente, os jihadistas! O intuito? Propagar o caos na Europa e no Ocidente. Para quê? Objectivos que nada têm a ver com religião, mas com o desenhar de futuras hegemonias políticas e sobretudo económicas.

Já repararam que a guerra do petróleo entrou numa nova fase, com a exploração em cada vez maior escala do “ouro negro” a partir das jazidas de xisto? Esta é a verdadeira guerra que se trama nas entrelinhas da História e dos jornais. As guerras dos recursos naturais vão marcar o século XXI. A procissão ainda vai no adro, mas já se vislumbra um século tumultuoso.

O conflito que opõe Kiev aos separatistas pró-russos do leste da Ucrânia é uma guerra pelos recursos naturais. Putin, saudosista soviético, sonha com um novo império russo e não admite que o travem na sua “gesta”. Que o diga Boris Nemtsov, conhecido opositor do presidente russo, assassinado na sexta-feira. Mas a UE e os EUA também têm responsabilidades no conflito ucraniano. Podem até agitar-se bandeiras anti-fascistas, pró-democráticas ou pró-europeias, mas são de facto interesses políticos e económicos que germinaram este conflito, que se espera não venha a degenerar em guerra civil ou pior, se propague à UE. Um conflito no qual não há heróis de um lado – Kiev, UE e EUA – e vilões do outro – Donetsk e Moscovo. A UE apoia Kiev para garantir o futuro alargamento da sua influência política a leste e a perenização do fornecimento de gás; Moscovo financia Donetsk para manter o poderio na região e assegurar o acesso ao Mar Negro.

 E face a estas novas invasões bárbaras ante portas, o que faz a União Europeia? Os Estados-membros, em vez de falarem a uma só voz, de se apresentarem como um bloco unido e solidário, estão cada vez mais divididos. Em nome de regras económicas dogmáticas, inventadas à pressa no início dos anos 1990, zangam-se por “tostões”, os “bons alunos” apontam e punem os “maus alunos”, que ameaçam de exclusão do “clube”. Por outro lado, intestinamente, outros questionam a própria União, exacerbando os nacionalismos.

 “Há o risco cada vez maior de ver os guarda-fronteiras que devem defender a Europa contra a barbárie crescente se tornarem eles próprios fascistas”, advertia em Janeiro, em entrevista ao Le Monde, o Prémio Nobel da Literatura húngaro Imre Kertész.

Quo vadis Europa, quo vadis Orbi? Que século XXI nos espera?

José Luís Correia
in CONTACTO, 04/03/2015

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Comentário a propósito do atentado contra o jornal Charlie Hebdo

Foto: Domingos Oliveira
E agora, fazemos o quê? 

É a pergunta que todos se colocam em França, o que fazer com a união e a mobilização que se criou em torno dos atentados de Paris? As marchas que juntaram quase 4 milhões de pessoas domingo em toda a França apregoaram uma união que, infelizmente, é apenas uma ilusão política e mediática.

Primeiro internacionalmente. Para muitos, a França conseguiu o "tour de force" de juntar numa só manifestação muitos dirigentes do mundo que nada têm em comum, um G50 improvisado. Teria piada, se não fosse grave. Que nível de hipocrisia se atinge quando Benjamin Netanyahu se expõe de braço dado com o presidente do Mali, quando Israel nem tem relações diplomáticas com esse país africano, ou a desfilar ao lado do presidente da autoridade palestiniana, Mahmoud Abbas? Ou o presidente húngaro Viktor Orban, num cortejo pela liberdade de imprensa, ele que tanto a jugula no seu próprio país? Ou que dizer da presença de príncipes árabes, que são próximos, para não dizer cúmplices e financiadores de alguns grupos jihadistas? Obama, que todos criticaram por não ter estado em Paris, é bem capaz de agradecer um dia quem o aconselhou a não participar neste grupo que encabeçava a marcha republicana.

Depois, a desunião é também óbvia internamente, em França. Nos últimos dias multiplicaram-se ataques a lugares de culto judaicos e muçulmanos. Para evitar a habitual amálgama que se fazem neste tipo de ocasiões, relembremos mais uma vez que os muçulmanos não são todos jihadistas e muito menos terroristas.

E que dizer aos jovens muçulmanos que não se solidarizaram com as vítimas assassinadas no jornal Charlie Hebdo porque consideram que há coisas com as quais não se deve brincar? A estes respondo, parafraseando o humorista francês Pierre Desproges: “Pode rir-se de tudo, mas não com toda a gente”.

Ou poderia dizer-lhes que não se trata de uma guerra santa, nem de um choque de religiões ou de civilizações, nem tão pouco de visões do Mundo diferentes. Os jihadistas são, na sua maioria, manipulados por gente sem lei nem grei que invoca Allah e Maomé (em vão) para que os jovens convertidos lutem até à morte pela sua egoista e obscura causa, espalhando o medo, o caos e um clima de terror. O que ganham com isso? Ora aí está a pergunta que ninguém faz e que tem que ser respondida. Talvez a resposta esteja por detrás de quem os financia.

Apesar da farsa que foi o grupo que encabeçava o desfile, a França soube impôr o seu ideal e fez ouvir o seu clamor. Apesar de ferida e de luto – a nação que tantos já vaticinaram ao sucídio por ser um país dividido em comunidades que vivem em paralelo ignorando-se -, teve um sobressalto, lembrou-se que é tricolor e até multicolor. Aos que a quiseram fazer ajoelhar-se, uniu-se e resistiu, ficou de pé, fincou o pé e disse: Não temos medo!

A França ficou ferida, mas também histérica. O Governo francês promete aprovar rapidamente leis mais repressivas (para quem?), e dar mais meios e poder de acção aos serviços de segurança, que até andavam a seguir os irmãos Kouachi, mas deixaram de os considerar perigosos, alegando tratar-se apenas de fumadores de haxixe e de fazerem tráfico de roupa de contrafacção (!). Os franceses nem querem ouvir falar em algo como o “Patriot Act”, lei que surgiu das cinzas do 11 de Setembro, deu plenos poderes aos serviços de segurança americanos e nos mudou a vida a todos. Gritámos pela liberdade de expressão e vão cortar-nos na liberdade de acção? Há já até quem tenha sugerido suspender os Acordos de Schengen.

Se é verdade que os suspeitos de terrorismo têm que ser melhor vigiados, bem como a “livre circulação” para regiões jihadistas, além dos chefes e lugares de culto coniventes com os extremistas, é necessário também fazer mais prevenção. Como, onde? Nas escolas, por exemplo. Um jovem que se sente à margem da sociedade vai procurar outros valores em que se apoiar. É nessa fase, quando está frágil e é manipulável, que é preciso agir e tentar resgatá-lo. É nessa fase que corre o maior perigo de se marginalizar ainda mais, cair na criminalidade ou pior. Foi o que aconteceu com o jihadista português de Meispelt?

O Luxemburgo não está ao abrigo de um ataque terrorista, apesar de o Governo se mostrar tranquilizador.

O terrorismo também se combate a montante da violência, não apenas a jusante.

José Luís Correia
in CONTACTO, 14/01/2015

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Editorial no CONTACTO: "Todos migrantes, todos iguais"

Os portugueses conquistaram Ceuta há exactamente 600 anos. É considerado um feito, tanto que marca o início dos Descobrimentos Portugueses, que deram a Portugal uma era de glória e um lugar na História. Seis séculos depois, no mesmo local, há novas batalhas a serem travadas, novas ameias a serem abalroadas. De novo, a batalha coloca frente a frente europeus e não-europeus, desta vez não são mouros mas subsaarianos, desta vez não somos nós que queremos lá chegar, são eles a quererem chegar até nós.

Seria apenas uma ironia da História, considerando que nos servimos de África e dos africanos durante séculos e agora não os queremos cá deixar entrar, se não fosse mais grave do que isso, uma verdadeira catástrofe humanitária às portas da Europa.

Há várias imagens que me chocaram em 2014. A primeira é uma foto de um ’green’, não sei se em Ceuta ou em Melilla, onde turistas europeus continuam a jogar golfe impassíveis ao sofrimento de um grupo de africanos pendurados numa cerca de arame farpado de sete metros de altura, mesmo ali ao lado, que separa o enclave espanhol de Marrocos.

A sua entrada na Europa foi impedida, mas ficam ali suspensos na ilusão de que enquanto estão lá em cima a polícia não os pode mandar para trás, para uma vida de guerra e de miséria. Podem ficar ali empoleirados horas ou dias, até que caem de cansaço ou de desidratação e a polícia já só tem de os “colher”.

Assaltam a cerca às centenas, na esperança de que nem a polícia espanhola nem marroquina os consiga apanhar todos. Muitos são espezinhados pela confusão, matraqueados ou mesmo abatidos pelos agentes. Os outros, os que conseguem pular a vedação, munidos de pregos nos ténis para se agarrarem melhor à cerca metálica, e fugir num jogo do gato e do rato à polícia, chegam ao centro de acolhimento para imigrantes e sabem que, a partir dali, a Espanha é obrigada a reconhecê-los como imigrantes ilegais.

Em muitos casos, a Espanha tenta repatriá-los, mas como não existem acordos a este nível entre Madrid e a maioria dos países de onde provêm estes clandestinos, alguns acabam por ter uma autorização de estadia em Espanha, ou seja, na Europa.

A outra imagem que me chocou é a de um cruzeiro no Mediterrâneo com três mil turistas a bordo, que passa ao lado de um cargueiro que transporta malianos e costa-marfinenses. Uns viajam em primeira classe, os outros vão trancados no porão. Como há 500 anos. Os primeiros pagaram dois mil euros para se divertir na costa de África, os segundos pagaram seis mil euros para fugir dela. O mare nostrum não é o mesmo para todos.

Talvez a imagem dos dois navios a cruzarem-se apenas exista na minha imaginação, mas com certeza aconteceu na realidade mais do que uma vez. Os primeiros terão fotos e souvenirs das férias, os segundos vão afogar-se às dezenas – homens, mulheres e crianças –, a apenas alguns quilómetros das costas europeias, quando os passadores abandonarem o navio para fugir da polícia marítima grega ou italiana.

Evitar que esta catástrofe humanitária alastre é o desafio crucial da UE. Por exemplo, lutar contra os passadores, na Turquia ou noutros países, que ganham fortunas; condenar os proprietários dos navios, cúmplices deste tráfico; fazer campanhas de sensibilização e de informação nos países de origem dos imigrantes. Mas a UE fecha-se em copas, em fortaleza, e enxota estes imigrantes como moscas e sonha com uma “imigração escolhida”, à canadiana ou à australiana. Mas nem o Canadá nem a Austrália têm um continente inteiro minado pela miséria e pela guerra, muitas vezes alimentadas por interesses europeus, a irromper-lhes porta dentro.

Face a esta imigração não desejada em época de crise económica profunda, assistimos em muitos países ao avanço da extrema-direita. E a um recuo da tolerância.

Como aquilo a que assisti na página Facebook do CONTACTO e que também me chocou, quando um grupo de albaneses e montenegrinos foi expulso do Luxemburgo no final de Novembro. Alguns leitores mostravam-se indignados com o facto de a polícia ter ido buscar uma aluna albanesa dentro do recinto da escola, para a repatriar. Outros pediam mais expulsões e o fecho das fronteiras. Eu vi até portugueses, que justificam estar há décadas no Luxemburgo, para fazer comentários contra os “novos portugueses”, que “ainda agora chegaram” e “já a sabem toda”, e que “deviam era voltar para Portugal”. Há intolerância mais absurda?

Há várias perguntas às quais não consigo responder: o que nos torna a nós portugueses mais legítimos do que outros para podermos estar no Luxemburgo? Não viemos também nós à procura de uma vida melhor, para escapar à guerra e à miséria, primeiro, e à crise, nos últimos anos? O que torna a emigração do meu pai – que fugiu à guerra, deu “o salto” e atravessou ilegalmente a Espanha a pé, também ele escapando aos “carabineros” – mais legítima do que um africano que tenta pular o arame farpado em Ceuta ou Melilla? Não somos todos migrantes?

Espanta-me que o Luxemburgo – cujo Governo integra um primeiro-ministro com origens francesas, russas e polacas, um ministro da Justiça luso-descendente e onde até o primeiro cidadão do país (presidente do Parlamento) é filho de imigrantes italianos, tendo dois terços da população antepassados estrangeiros –, não saiba tratar de forma mais humana esta questão do repatriamento de ilegais.

Se o problema fosse apenas com os recém-chegados. A ferida é mais profunda e se não for sarada, alastrará. Estrangeiro continua a ser, para muita gente, sinónimo de desconfiança, mesmo num país com 46% de não-nacionais. Ninguém imigra porque quer, mas porque é empurrado a isso. Muitos dizem integração mas pensam assimilação e não entendem que na integração os esforços têm de vir de ambos os lados.

Ao criarmos anticorpos na escola e na sociedade contra os estrangeiros, ilegais ou não, é o nosso próprio futuro que estamos a hipotecar.

Em França, os filhos dos aparentemente bem integrados (assimilados!) imigrantes muçulmanos da primeira geração não se identificam com os valores republicanos, sentem-se marginalizados pelo sistema, e muitos optam pela criminalidade ou, pior, pelas fileiras dos terroristas islâmicos. Tivemos recentemente um caso semelhante no Luxemburgo, com um jovem português de Meispelt que aderiu ao Estado Islâmico. O que o fez converter-se ao Islão e depois radicalizar-se? O sistema escolar, uma integração falhada, sentiu-se incompreendido, deixado à margem?

Podem acusar-me de não falar dos exemplos de sucesso na imigração, há muitos, bem sei, e alguns até conheço pessoalmente. Mas não é por sentirmos orgulho desses que não nos devemos preocupar com os que se sentem deixados de parte.

“Migrantes somos todos”, gritavam os mexicanos clandestinos nos EUA contra os brancos que protestavam contra a legalização de cinco milhões de ilegais decidida por Barack Obama. Recordavam-lhes que até os antepassados deles tinham chegado de outros países, e que a América é primeiro dos nativos americanos. Mas até esses atravessaram o estreito de Bering para ali chegar. Quantas gerações é preciso recuar para sermos considerados legítimos numa terra? “A terra não pertence a ninguém”, acreditam os índios americanos. Talvez essa seja parte da resposta. Porque, afinal, nómadas éramos e continuamos a ser. Todos migrantes, todos iguais.

José Luís Correia, in CONTACTO, 07/01/2015

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

Luxemburgo, quo vadis?

Luxemburgo, para onde vais? Que futuro está o actual Governo a desenhar com a sua vontade cega de poupar? Com certeza há muito por onde desbastar, mas o executivo decidiu começar por cortar nos rendimentos das famílias.

 Qual a consequência do fim do subsídio de maternidade e de educação de que beneficiavam até agora as mães? Com certeza mais mulheres nas filas do desemprego. E, por outro lado, mais crianças em lista de espera por um lugar numa creche, quando o problema já é hoje tão grave. Sem falar nas consequências na demografia, quando a pirâmide etária já grita sufocada que precisa de mais jovens para revitalizar um país a envelhecer.

O Governo argumenta que o fim destes subsídios é a favor das mulheres, que visa incentivá-las a não fazerem uma pausa na carreira, a não ficarem dependentes do cônjuge (leia-se nas entrelinhas “e do Estado”), nem a cairem na precariedade, em caso de divórcio! Hã? Que argumento falacioso. As mulheres e homens (que também os há) que têm decidido fazer esta “pausa” de dois anos optaram em consciência para poderem estar com a sua criança nos primeiros anos de vida, os mais sensíveis de um bebé.

Até agora as famílias recebiam um abono pelo pelo primeiro filho (262,48 euros) e à medida que o número de filhos aumentava também os abonos eram maiores. As famílias que no futuro tiverem filhos podem vir a receber menos 773,76 euros por ano para o segundo filho dos que as famílias já com filhos, e o fosso será ainda maior caso a família cresça. É não só nas classes desfavorecidas como nas classes médias que estas medidas se vão ressentir mais, hoje já tão afectadas pela crise.

O Governo liberal–socialista-verde critica tudo o que o CSV fez de errado nos últimos 10 anos, mas não diz que corta precisamente nos subsídios criados nos anos 70 pelos cristãos-sociais (Coincidência?). Não foram conquistas dos socialistas, como seria de esperar, pois também passaram pelo poder nessa altura, já com o DP. Mas o liberalismo do DP acaba sempre por sobrepôr-se aos valores de esquerda, não é, caro LSAP? E que dizer da conivência silenciosa dos Verdes face a estas medidas, eles que sempre se reivindicaram da esquerda? A não ser que o LSAP e os Verdes sejam apenas uma “esquerda caviar”, como aquela que vive o seu apogeu hoje em França. Lá se vão direitos duramente adquiridos e os “sem-dentes” que se lixem, são danos colaterais de uma política pseudo-visionária de um “Plano do Futuro”, como o baptizou Bettel. O corte destes dois subsídios visa poupar 75 milhões de euros. É o nosso futuro vendido ao desbarato.

O Governo diz querer lutar contra os preços altos do imobiliário, ao aumentar o IVA de 3% para 17% para quem comprar casa para habitação secundária ou para arrendar a terceiros. A eficácia da medida é questionável. Será que não vai antes desincentivar os investidores a não criarem mais alojamentos, o que fará subir ainda mais os preços? Seria preferível que o Estado criasse massivamente habitações, para que a oferta se tornasse maior do que a procura. Bettel anunciou querer criar 10 mil novos alojamentos. Parece uma medida grandiosa. Mas o que não disse foi onde e como o vai fazer. E, sobretudo, em quanto tempo? Em dois, três ou quatro anos? Sabendo que são construídos cerca de 3 mil alojamentos por ano no Luxemburgo, quando as necessidades são o dobro, se forem construídos 10 mil alojamentos até ao fim da legislatura em 2018, vai construir-se até menos do que até aqui! Será que é tudo apenas cosmética e política de boas intenções?

Todos sabem como mudar a situação, falta vontade política. Porque razão há tantos apartamentos e casas a acolherem empresas quando deviam ser habitações? Porque a lei o permite. E porque não se muda a lei? Talvez porque uma casa arrendada a uma empresa renda mais do que alugada a um privado, e alterar o estado das coisas iria mexer no bolso de demasiada gente. E, já agora, porque não fiscalizar as construtoras a quem o Governo adjudica obras e que para não empregarem mais mão-de-obra e para “travarem” o ritmo das construções, trabalham uns dias numa obra e outros dias noutra?

O DP tem neste dossier a sua grande oportunidade de mostrar como faz a diferença face ao fracasso do CSV, que deixou durante anos o ministro da Agricultura e da Habitação acumular as duas pastas. Como grande amigo dos proprietários das terras, este último nunca se esforçou em convencê-los a ceder terrenos para habitação às comunas. E as comunas, em vez de cumprirem o Pacto Habitação, fintavam os seus deveres. Nunca nenhuma comuna foi penalizada. Então para que serve este pacto?

O anterior Governo desculpava-se que as autarquias são autónomas em certos pelouros, como na habitação e na educação primária (por isso muitas não cedem salas para as aulas na língua materna, como o Ministério da Educação diz promover), e que não podem impôr nada às comunas nessas matérias, direito que vem consagrado na Constituição. Ora, se estas são realmente prioridades do Governo, altere-se a Constituição. Já foi alterada por menos que isso.

Bettel anunciou ainda uma nova contribuição, de 0,5% sobre todos os rendimentos, e para fazer engolir a pílula, acrescentou que o dinheiro vai servir para construir as tais creches, que vão faltar. Essas creches vão ser gratuitas e as crianças vão aprender línguas (luxemburguês para as estrangeiras, por ex.), o que as preparará melhor para a escola. Mas de que gratuitidade fala Bettel? As despesas que os pais tinham com as creches já eram pagas, quase na totalidade, pelos cheques-serviço. Além disso, não é em todas as creches que as crianças podem aprender a falar luxemburguês, vai então passar a ser obrigatório haver pessoal nas creches que fale a língua nacional?

Bettel diz que todos têm de pagar a factura da dívida pública. Até os funcionários públicos! A sério? Bettel prevê retirar-lhes dois privilégios: o de gozarem o salário durante mais três meses após irem para a reforma e a gratuitidade do estacionamento no local de trabalho. Hã? As medidas são tão frouxas que até o habitualmente exaltado sindicato da Função Pública (CGFP) as criticou baixinho. E que tal tabelar os salários da Função Pública aos do sector privado, para que o funcionalismo não seja o apregado “último baluarte” (dixit CGFP) dos trabalhadores luxemburgueses? Ou flexibilizar os contratos (e os despedimentos) na FP e não só no sector privado, como preconiza o ministro do Trabalho? Isto vindo de um ministro socialista, recorde-se. Qual esquerda?

Acho que com tudo isto fica bem claro qual o paradigma social do Governo para os anos que aí vêm.

José Luís Correia
in CONTACTO, 22/10/2014

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Começou a campanha para as legislativas e para as presidenciais

António Costa é desde domingo o novo homem forte do PS. Desde a sua eleição em Julho de 2011 como secretário-geral do partido, António José Seguro tentou construir uma oposição sólida contra o Governo PSD/CDS. A tarefa não parecia difícil, até pela impopularidade crescente a que este Governo fez face quase desde a primeira hora.

No entanto, militantes socialistas e portugueses em geral só puderam constatar nestes três anos que Seguro não soube demonstrar o que o faria de diferente de Passos Coelho se estivesse no poder. Nem o infeliz episódio da pseudo-demissão “irrevogável” de Paulo Portas soube aproveitar mediaticamente. Nem tão pouco a vitória que o PS conseguiu nas eleições europeias de Maio último. Como se nestes três anos Seguro estivesse a treinar para um cargo que nunca terá. Afinal, o “inimigo” veio de dentro.

A candidatura de António Costa à liderança do partido foi vivida como um golpe de estado por Seguro, uma “deslealdade”, como o próprio repetiu vezes sem conta nos media. Como se na política houvesse lealdade, ó Tó-Zé, descobriste a pólvora? Em vez de mostrar as garras, choramingou, traído pelo partido. Nem nos debates com Costa convenceu. O que faltou sobretudo a Seguro durante este tempo todo foi segurança. Uma falta que pagou bem caro quando começou a ver quase todos os históricos do partido a apoiarem o contendor. Incentivado por uns, empurrado por outros (por Sócrates, por exemplo), e levado pela sua própria vontade de poder, Costa apostou e venceu.

Falta um ano para as legislativas e pouco mais para as presidenciais, este era o momento certo. Para Costa e para o PS. Costa percebeu que os militantes querem um PS mais forte, não apenas como oposição figurante, mas sobretudo como um partido capaz de vencer tanto as legislativas de Outubro de 2015 como as presidenciais de Janeiro de 2016. Anunciada a candidatura de António Guterres a Belém, António Costa, até então potencial presidenciável do PS, caiu sobre as quatro patas e deu a volta a situação. Com Belém fora do campo de visão, apontou a S. Bento. É essa a missão de Costa: devolver as chaves do poder ao PS. Mas será que Costa chega para dar um novo alento ao PS e fazer esquecer seis anos de socratismo, ele que foi durante dois anos o n° 2 do Governo de José Sócrates (2005-2007)?

É preciso entender o seguinte: no domingo, assim que a liderança mudou no PS, começou a campanha para as legislativas e até para as presidenciais. Costa promete ser uma oposição muito mais dura que Seguro e conta para isso com o apoio dos pesos-pesados do partido. Por outro lado, face a uma vitória do PS nas legislativas, os candidatos presidenciáveis ainda não assumidos da direita vão avançar e as águas vão ficar agitadas no PSD.

É neste ambiente que Portugal vai viver nos próximos 14 meses. Mas que alternativa têm os portugueses? Mais austeridade à PSD ou o regresso do PS repudiado em 2011? O que pode propor Costa que Seguro não conseguiu? Ou mesmo Passos Coelho? Alguém reteve alguma proposta de Costa na sua campanha das primárias? Seguro prometeu demitir-se se tivesse que aumentar os impostos ao chegar a Governo. É uma promessa que não terá de cumprir. Safou-se dessa! Costa nem isso prometeu. Vai Costa fazer mudar o país do rumo da austeridade, pode sequer fazê-lo neste momento? Lembre-se que foi o PS de Sócrates que chamou a ’troika’ e depois lavou daí as mãos como Pilatos, quando já era quase certo que perderia as eleições.

Para muitos, Costa significa apenas o regresso dos socráticos. Se chegar ao Governo, o que vai definir a governação de Costa é também o tipo de coabitação que terá com o futuro Presidente da República. Se for Guterres, Costa viverá uma coabitação fácil, num pais reconciliado com o PS e com luz verde para governar como entender até, pelo menos, 2019. Poderá, quiçá, fechar o ciclo da austeridade despoletado por Sócrates dez anos antes, graças a isso ser reeleito e governar até 2023. Isso fará de Costa um sucessor quase certo de Guterres como PR (se fizer dois mandatos, Guterres sai em 2026), o que pode vir a abrir um novo ciclo de 20 anos do PS em Belém, já conseguido pela dupla Soares-Sampaio entre 1986 e 2006.
Mas este novo ciclo pode revelar-se mais estável e próspero, porque nao terá de enfrentar uma década de coabitação difícil (Soares/Cavaco, 1986-1996).

Advinham-se então bons tempos para Portugal? Podíamos aqui conjecturar outras possibilidades de coabitação como Costa/Durão Barroso, Costa/Santana Lopes ou mesmo Costa/Rebelo de Sousa. Mas seria em vão. Santana Lopes não reúne consenso nem dentro nem fora do partido; Rebelo de Sousa goza de popularidade mediática, mas apenas fora do partido; Barroso parece ser a melhor opção do PSD, mas será que reúne os favores dos portugueses? E face a Guterres, todos os outros nomes parecem não conseguir aguentar a distância para a corrida às presidenciais. A não ser que a ONU não deixe sair Guterres de Nova Iorque! Nesse caso, todas as configurações são possíveis, até uma presidencial Barroso-Sócrates.

Estas conjecturas não são apenas masturbação intelectual. Servem para explicar que o calendário do cidadão comum não é o mesmo dos políticos. Nós pensamos se vamos conseguir pagar a factura ao fim do mês e se vamos ou não ter dinheiro para as férias. Os políticos têm calendários que não vão de Janeiro a Dezembro, mas que vivem ao ritmo das eleições e das nomeações, programados pelos cargos e poder a que aspiram, e são por isso “agendas” bienais, quinquenais e até decenais. PS e PSD alternam-se no poder há 30 anos, o que para muita gente significa que são irremediavelmente as duas faces da mesma moeda, ou não tivessem ambos contribuído para a crise em que o país caiu. No entanto, nas sondagens, os portugueses continuam a preferir PS ou PSD aos outros partidos. Há maior contradição?

No Luxemburgo, após 60 anos de governação quase ininterrupta do CSV, uma coligação ’tutti-frutti’, que junta liberais, socialistas e verdes chegou ao poder. O seu único ponto comum era não quererem voltar a deixar o Grão-Ducado nas mãos do mesmo partido. Valiam-se de ter mais votos juntos que o CSV, que saiu vencedor das eleições. Nenhuma comissão de eleições nem nenhum Conselho de Estado veio contestar a matemática improvisada e assim alguns desses partidos são pela primeira vez hoje Governo. Os eleitores que neles votaram deram o aval, os outros pouco constestaram.

Poder-se-ia assistir a uma “sublevação”, a uma contestação semelhante em Portugal? Ou as máquinas partidárias é que decidem o que o povo deve pensar e em quem deve votar? O monárquico Alexis de Tocqueville assim o profetizou no século XIX: “Le suffrage universel ne me fait pas peur, les gens voteront comme on leur dira”. Será?

José Luís Correia
in CONTACTO, 01/10/2014

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Editorial de hoje no jornal CONTACTO: "E depois de Juncker"

A notícia recente de que o antigo ministro das Finanças luxemburguês vai trocar a política por um alto cargo na Deutsche Bank (ver pág. 6) provocou uma onda de indignação em todo o Grão-Ducado...

Não, nada disso! Não houve ninguém para questionar o conflito de interesses de alguém que durante 15 anos lidou de perto com a banca e agora vai trabalhar para esse mesmo sector. Minto. Houve uma voz que se indignou (apenas uma).

O deputado Justin Turpel, do Déi Lénk (minoritário no Parlamento, com apenas dois assentos), quer saber se o Governo vai pedir ao Comité da Ética que se pronuncie sobre esta “reorientação profissional”. O artigo 4.3.1. do código de deontologia para antigos membros do Governo estipula que os membros do executivo não podem exercer, num período de dois anos após deixarem o cargo, nenhuma função profissional ligada à sua antiga pasta.

Deve Frieden preocupar-se? Não! Primeiro, porque o Comité da Ética e o código de deontologia, criados em Fevereiro último, emanam do actual Governo e o ex-ministro cristão-social não parece sentir-se minimamente vinculado a nenhum dos dois. Depois, porque os pareceres desse comité são apenas consultivos. O parecer será tornado público, sem mais consequências. A não ser, quiçá, uma opinião pública negativa sobre aquele que chegou a ser considerado o “delfim” de Juncker.

Este caso lembra-me o de Jeannot Krecké, antigo ministro da Economia, sobre quem recaíram suspeitas de andar a preparar nos bastidores a sua “transferência” da vida política para um alto posto na Cargolux, contando com o apoio de fundos árabes, com quem tinha negociado meses antes a entrada como accionista na empresa luxemburguesa. Em 2011, o caso provocou escândalo e o ministro deixou efectivamente o Governo... para se dedicar à vela e não ao frete áereo.

Casos assim são tão frequentes na política portuguesa, europeia e até internacional, que já nem nos indignamos, nem ligamos, assistimos. O Luxemburgo não estava habituado a estas coisas. Até agora. Estarão os luxemburgueses a acostumar-se ao que de mais baixo e vil há na política, o tratar da sua própria vidinha antes de pensar no interesse da população, algo a que estamos tão habituados em Portugal, mas que era raro ver por terras grã-ducais?

O facto de Frieden deixar a vida política lança outras questões para o futuro, e sobretudo o do CSV. Frieden foi durante muito tempo considerado o sucessor de Juncker no partido e até mesmo na chefia do Governo, pelo menos até à derrota do partido nas últimas legislativas.

O CSV, “invisível” no Parlamento desde Dezembro, enfrenta agora o desafio de uma legislatura onde é minoritário e tem cinco anos para se recompor da derrota infligida e para preparar o regresso ao Governo, no próximo sufrágio, em 2018. Tudo isto sem o seu líder carismático, Jean-Claude Juncker, que em Setembro se muda para Bruxelas.

Os militantes do CSV acreditam que só um cabeça-de-lista com o carisma de Juncker (ou quase) conseguirá fazer voltar o partido ao Governo e repetir a sua “longevidade” no executivo, à semelhança do período 1979-2013.

Com a saída de François Biltgen do partido – que foi nomeado para o Tribunal de Contas da UE, em Outubro de 2013 -, que também era um possível candidato a cabeça-de-lista do CSV em 2018, que outras opções restam ao partido?

O actual presidente do CSV? Eleito em Março, Marc Spautz é mecânico de formação, entrou na política comunal em 1994 (Schifflange), foi secretário-geral do LCGB (1998-2009), chegou ao Parlamento em 2004, foi secretário-geral do partido (2009-2012), presidente do grupo parlamentar do CSV (2011-2013) e ministro da Família durante seis meses, em 2013.

E quanto a Claude Wiseler, o novo presidente da bancada parlamentar cristã-social? Foi secretário-geral do CSV (1995-2000), chegou ao Parlamento em 1999, foi vereador da capital (2000-2004), ministro da Função Pública (2004-200) e das Obras Públicas (2004-2013). É casado com a portuguesa Isabel Santos Lima, conselheira comunal da capital.

No entanto, Spautz e Wiseler – pelo pouco que conheço do primeiro e apesar da simpatia que me inspira o segundo -, não têm o carisma nem os apoios que Frieden e Biltgen tinham no partido. Ou será que antes de 2018 assistiremos ao regresso de Biltgen? O seu mandato no Tribunal de Contas termina em 2015, mas pode depois ser reconduzido por seis anos.

Uma outra opção do CSV parece ser Viviane Reding, comissária europeia da Justiça e dos Media, que em Setembro deixa o lugar, já que um outro luxemburguês – Juncker – fará parte da Comissão. Foi aliás graças a esta última pasta dos Media que Reding alcançou notoriedade, pois venceu o braço-de-ferro com as operadoras de telefonia móvel para fazer baixar os preços do ’roaming’. Entre 1978 e 1999, Reding foi jornalista no Luxemburger Wort. Em 1979 foi eleita para a Câmara dos Deputados, onde esteve até ser nomeada para Bruxelas (Comissão Prodi) em 1999, transitando depois para a Comissão Barroso. Como candidata a futura cabeça-de-lista do CSV, Reding tem do seu lado o facto de nunca ter sido ministra, de poder assim vir a protagonizar uma renovação de que o partido tanto precisa, e de contar com o reconhecimento que o seu cargo em Bruxelas lhe deu. O facto de ser uma mulher pode também jogar na vontade de o partido se mostrar mais moderno. Tudo isto depende, obviamente, de Reding querer ou não regressar à política doméstica ou se visa outros horizontes.

Destes nomes, quais são os que realmente vão ter o apoio dos militantes do CSV e quais são os que vão aceitar o desafio, mostrando já a partir de Setembro que preparam a agenda de 2018? A ’rentrée’ política o dirá.

Para já, disfrutemos da ’silly season’, de notícias mais leves e aproveitemos o bom tempo no Luxemburgo, enquanto dura.

José Luís Correia,
in CONTACTO, 16/07/2014

quinta-feira, 10 de julho de 2014

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Deolinda regressam a Dudelange a 12 de Julho


Depois de se terem estreado no Grão-Ducado em Outubro de 2010, em Dudelange, os Deolinda regressam à mesma cidade para um novo concerto, desta feita no Parc Leh’, no próximo sábado, 12 de Julho.

Os Deolinda são um quarteto lisboeta de música pop(ular) portuguesa acústica composto por Ana Bacalhau (voz), Pedro Silva Martins (guitarra e composição), Zé Pedro Leitão (contrabaixo e piano) e Luís Silva Martins (guitarra clássica, banjolim e “sinos”).

A música dos Deolinda está entre o fado e qualquer coisa de lisboeta, de vadio, boémio. É uma música que respira bom humor, alegria, vida, que mistura o castiço com a modernidade, tudo servido com sonoridades “roubadas” ao pop, ao jazz, ao samba, à ranchera mexicana e até à música do Haiti. A cereja no topo do bolo é a voz petulante e o gingar de Ana Bacalhau.

Nos últimos seis anos, o grupo dominou os tops de vendas com os multi-platinados álbuns “Canção ao Lado” (2008) e “2 Selos e um Carimbo” (2010), acumulando diversas distinções, tais como dois Globos de Ouro, um prémio Amália Rodrigues, um prémio José Afonso e um Songlines Music Award. Os Deolinda regressam agora ao Luxemburgo para apresentar o seu terceiro álbum de originais, “Mundo Pequenino”. Um dos músicos que participou neste álbum foi o percussionista Sérgio Nascimento. “Mundo Pequenino” foi gravado nos Boomstudios, em Vila Nova de Gaia, e foi produzido pelo britânico Jerry Boys e pela própria banda. O concerto dos Deolinda acontece no âmbito do festival de música “Summerstage”, no Parc Le’h, em Dudelange, e começa às 20h, no dia 12 de Julho. Os bilhetes custam 20 euros em pré-venda e 25 euros na bilheteira.

Os bilhetes para os três dias do festival custam 35 euros. Há ainda uma ementa especial “Summerstage”, disponível por 70 euros (que inclui um bilhete de entrada). Mais informações pelo tel. 51 99 90. ALINE

Aline Frazão também em palco

Aline Frazão é outro dos nomes lusófonos que sobem ao palco do “Summerstage” nessa noite. A cantora e compositora angolana Nasceu em Luanda, em 1988, mas vive actualmente em Barcelona.

Em 2011 lançou o seu primeiro disco de originais, “Clave Bantu”, com produção musical do contra-baixista cubano José Manuel Diaz. O disco conta ainda com duas parcerias com os escritores angolanos José Eduardo Agualusa e Ondjaki. “Movimento”, editado em 2013 pela PontoZurca, é o seu segundo álbum, onde assina a produção musical e a composição de todos os temas. Um deles é uma letra de Carlos Ferreira, jornalista e poeta angolano. Outro é o poema “Ronda”, de Alda Lara.

No palco, acompanham-na neste momento os músicos Marco Pombinho (piano e rhodes), Marcos Alves (bateria e percussão) e Francesco Valente (baixo e contrabaixo).

JLC
in CONTACTO, 09/07/2014

quinta-feira, 3 de julho de 2014

Editorial: Uma nova era

O ano de 2014 parece psicológica, económica e politicamente favorável a ser um ponto de recomeço e de renovação.

O mundo financeiro fala na “retoma” e no fim de uma ressaca que dura desde 2008. Os indicadores económicos europeus e americanos parecem realmente querer voltar a arrancar. A última grande depressão, de 1929, durou quanto tempo? Cinco, seis, sete anos? Ou só se diluiu realmente sob o impulso económico da II Guerra Mundial?

A História, feita de golpes e contra-golpes, avanços e solavancos, detesta ’replays’. Muitas vezes são os homens que gostam de pensar que esta se repete e que eles – politólogos, historiadores, adivinhos – conseguem prever o que aí vem. A verdade é que nunca nada acontece duas vezes da mesma forma.

2014 não será como 1914 o fim de uma época e o início de uma nova era. No entanto, é curioso verificar que o século XX terminou da mesma forma como começou o seguinte. No pó. “O Século Sangrento” ou “A Era dos Extremos”, como lhe chamou Hobsbawn, findou no pó que ficou depois de o muro ruir em Berlim, o que permitiu reunificar a Alemanha e à UE crescer para leste.

O século XXI iniciou-se da mesma forma, com muros a ruir, os das torres gémeas de Nova Iorque. Mas enquanto o colapso do muro da vergonha permitiu reunir povos, a queda do World Trade Center tornou visível uma muralha que se tinha erguido num silêncio amordaçado por décadas de hegemonia ocidental e separava o eixo EUA/Europa, centrado num crescimento económico exponencial, e uma parte do mundo árabe, que se radicalizara. Este “segundo mundo” recusava continuar a ser explorado e a ser gerador da riqueza do primeiro. A jihad apregoada pelos fundamentalistas islâmicos não é uma guerra santa, mas económica.

Obama venceu duas eleições com a promessa de que marcaria a diferença com os seus predecessores. Externamente, não o tem conseguido, a retirada das tropas do Iraque e do Afeganistão está por cumprir, o petróleo ainda fala mais alto. Mas os EUA têm feito esforços para não continuar a depender tanto do exterior neste sector. Obama tem apostado, mais do que qualquer administração americana anterior, nas energias renováveis.

A “revolução” pode vir do interior mesmo do sector que tem comandado, mais do que qualquer outro, a política externa norte-americana no último meio-século. Os EUA acabam de autorizar os produtores americanos de brent a voltar a exportar petróleo bruto, algo que não acontecia desde o choque petrolífero de 1973. Esta decisão deve-se à exploração das jazidas de petróleo de xisto no seu próprio território, cujas reservas são estimadas em décadas. Esta autonomia energética, com a qual Washington não vivia há mais de 50 anos, pode levar a uma mudança completa da sua política externa e, consequentemente, de todo o xadrez mundial.

E a Europa, vive um novo alento? A Alemanha, a França, o Luxemburgo e até Portugal falam nos indicadores da retoma económica. Politicamente também, o tabuleiro europeu parece (re)compôr-se e anunciar uma nova era: Juncker, ano 1.

Porque será que David Cameron se mostrou tão hostil ao luxemburguês? Talvez porque sabe que aquilo de que a UE dividida e em crise precisa urgentemente é de alguém que federe e não que separe. Para o Reino Unido – que há mais de 30 anos está com um pé dentro, outro fora da UE e um olho em Washington –, uma Europa aos solavancos não prejudica os interesses insulares, muito pelo contrário.

Juncker é dos poucos políticos (senão o único) ainda em exercício a ter estado na negociação e assinatura do Tratado de Maastricht, que prevê uma UE ainda por acontecer. Talvez seja dos poucos também que neste momento saibam mostrar o caminho à UE, aquele para a qual foi pensada e fundada. A UE precisa de sair de dez anos de status quo barrosista, precisa de um representante forte e carismático. Será Juncker esse homem?

Na política nacional, durante 18 anos, Juncker foi o sucessor providencial de Werner e Santer. Com o seu falar franco, por vezes demasiado coloquial, não hesitou em ir a contra-corrente da opinião pública (os luxemburgueses pretendiam votar contra a Constituição Europeia, Juncker ameaçou demitir-se e os resultados do sufrágio desmentiram as intenções de voto) e mesmo dentro do próprio partido.

Claro que há insucessos na sua política – o preço do imobiliário, o voto dos estrangeiros nas legislativas, o insucesso escolar dos alunos estrangeiros, etc. – mas é preciso recordar que foi ele que esteve na origem das leis que permitiram o voto dos estrangeiros nas comunais, a dupla nacionalidade (durante anos o CSV foi contra ambas, mas finalmente adoptou a posição de Juncker), o aborto, a eutanásia e até a lei anti-tabaco (sendo ele próprio um grande fumador), bem como a do casamento homossexual.

Foi nomeado para primeiro presidente do Eurogrupo em 2005, cargo que exerceu de forma exímia durante oito anos. Foi sob o mandato do “Senhor Euro”, como era apelidado, que foram lançados os planos de salvamento dos bancos e dos Estados, e concebidos os mecanismos de socorro que deverão prevenir futuras fragilidades das economias europeias. Foi ainda um dos únicos a opôr-se de forma aberta e veemente à austeridade na Europa, que Merkel pretendia ainda mais rigorosa.

Não sei se Juncker terá remédio para todos os males da Europa. Pessoalmente, tenho a esperança que Juncker encontre uma solução para a calamidade humanitária que se vive diariamente às portas da UE e que constitui uma vergonha perante o exemplo civilizacional europeu que pretendemos dar: milhares de imigrantes africanos, entre eles muitas crianças, atravessam o Mediterrâneo em busca da Europa prometida. Muitos não chegam cá, as embarcações sobrelotadas viram-se e matam sem olhar a religiões, raças e idades. Os que chegam aos nossos portões, deparam-se com a fortaleza que a Frontex montou e são enxotados como moscas de volta para uma vida de miséria.

Quando Juncker era ministro das Finanças, o Luxemburgo apostou numa solução a longo prazo como uma das soluções à imigração: o investimento e a ajuda ao desenvolvimento no país de origem da imigração. O exemplo com Cabo Verde é expressivo: a cooperação ao desenvolvimento neste arquipélago ajudou a diminuir a imigração cabo-verdiana, em geral, e para o Grão-Ducado, em particular.

Para muitos políticos, Juncker tem um grande defeito: tem sempre uma opinião e não a cala, mesmo quando não é politicamente correcta. Um dia respondeu aos jornalistas: “Nós, os políticos, sabemos bem o que é preciso fazer [para resolver a crise financeira]. O que não sabemos é como ser reeleitos!”.

Sem falsos pudores sobre os seus próprios defeitos e qualidades, directo, sem saber falar “politiquês”, pragmático e prático, é de um homem assim que a UE precisa.

José Luís Correia,
in CONTACTO. 02/07/2014