Cristãos perseguidos e massacrados, mulheres espancadas, apedrejadas até à morte ou abatidas à queima-roupa em plena rua por não estarem “devidamente” cobertas ou simplesmente por vestirem um pulóver de cor vermelha, “infiéis” capturados, torturados, degolados, decapitados, imolados vivos dentro de jaulas, crianças escravizadas, utilizadas como escudo humano ou crucificadas e enterradas vivas. E tudo isso vangloriado, propagandeado, em vídeos ignóbeis e abjectos exibidos na internet.
A barbárie do Estado Islâmico parece não ter limites, é aterradora, brutal, bestial (sem ofensa para os animais, parafreaseando Dostoievski). Não tem ideologias nem credo. Não tem! Que ideologia, que religião, em nome de que deus se praticam estas atrocidades inomináveis? Não! Não é religião nem guerra santa, é apenas vontade de propagar o caos e a selvajaria.
As últimas vítimas do ódio jihadista são obras de arte milenares do museu de Mossul, no Iraque. Estelas babilónicas, um touro androcéfalo alado assírio, estátuas do período helenístico, todos destruídos à marretada, com picaretas, maços e martelos pneumáticos. Uma devastação similar à destruição das obras de arte incas, maias e astecas pelos primeiros conquistadores espanhóis no início do século XV. Mais de dois mil livros, pergaminhos, manuscritos e gravuras, alguns com mais mais de 5 mil anos, foram queimados pelos jihadistas, em Janeiro, num dos maiores autos-da-fé de que há memória desde o incêndio da biblioteca de Alexandria.
Foi ali, no Iraque, que brotaram as mais antigas sociedades humanas, que se redigiram os primeiros códigos de lei, que se elevaram do barro as primevas cidades. São os registos da aurora da civilização que estão a ser reduzidos em pó, num esforço (gorado, esperamos!) de os apagar da face da Terra e das páginas da História.
O Estado Islâmico copiou assim os talibãs do Afeganistão, que em 2001 dinamitaram os budas de Bamiyan, que ali se erguiam há 1.500 anos.
Todas estas obras de arte, património de valor inestimável da Humanidade, foram testemunhas da ascensão e queda de impérios e civilizações, viram passar por eles os séculos e alguns deles os milénios, foram, se não admirados, pelo menos, respeitados por exércitos, conquistadores, reis, imperadores e até ditadores para, finalmente, serem demolidos sem glória por hordas ferozes de extremistas cobardes. Cobardes, porque uma obra de arte não devolve o murro, não se sabe defender. Cobardes porque se escondem atrás de uma religião e de um deus para justificarem os seus crimes e a sua pequenez.
Que ódio é este? Ódio à civilização, ao ser humano? Onde está o Islão tolerante que foi um exemplo civilizacional, intelectual e de coabitação na Idade Média? Que leitura deturpada do Corão leva a actos sórdidos desta índole?
Para o Estado Islâmico todos nós, ocidentais, somos inféis a abater, a exterminar. Como o recordou Steve Duarte, o português que trocou Meispelt, no Luxemburgo, pela Síria, em entrevista à RTP na semana passada. Steve aproveitou para revelar que ele era um dos webmasters que criava as páginas internet e os “gloriosos” vídeos para o Estado Islãmico. Aberrante!
Mas não é só a Europa ou o Ocidente que devem lutar para erradicar este flagelo islâmico, inimigo de toda a Humanidade. Todos os países muçulmanos deveriam empenhar-se mais numa luta sem tréguas contra quem mancha assim a religião de Maomé. Mas quanta conivência, cumplicidade até, da parte de certas organizações e estados muçulmanos, sem falar dos príncipes e emires que financiam, cada vez menos secretamente, os jihadistas! O intuito? Propagar o caos na Europa e no Ocidente. Para quê? Objectivos que nada têm a ver com religião, mas com o desenhar de futuras hegemonias políticas e sobretudo económicas.
Já repararam que a guerra do petróleo entrou numa nova fase, com a exploração em cada vez maior escala do “ouro negro” a partir das jazidas de xisto? Esta é a verdadeira guerra que se trama nas entrelinhas da História e dos jornais. As guerras dos recursos naturais vão marcar o século XXI. A procissão ainda vai no adro, mas já se vislumbra um século tumultuoso.
O conflito que opõe Kiev aos separatistas pró-russos do leste da Ucrânia é uma guerra pelos recursos naturais. Putin, saudosista soviético, sonha com um novo império russo e não admite que o travem na sua “gesta”. Que o diga Boris Nemtsov, conhecido opositor do presidente russo, assassinado na sexta-feira. Mas a UE e os EUA também têm responsabilidades no conflito ucraniano. Podem até agitar-se bandeiras anti-fascistas, pró-democráticas ou pró-europeias, mas são de facto interesses políticos e económicos que germinaram este conflito, que se espera não venha a degenerar em guerra civil ou pior, se propague à UE. Um conflito no qual não há heróis de um lado – Kiev, UE e EUA – e vilões do outro – Donetsk e Moscovo. A UE apoia Kiev para garantir o futuro alargamento da sua influência política a leste e a perenização do fornecimento de gás; Moscovo financia Donetsk para manter o poderio na região e assegurar o acesso ao Mar Negro.
E face a estas novas invasões bárbaras ante portas, o que faz a União Europeia? Os Estados-membros, em vez de falarem a uma só voz, de se apresentarem como um bloco unido e solidário, estão cada vez mais divididos. Em nome de regras económicas dogmáticas, inventadas à pressa no início dos anos 1990, zangam-se por “tostões”, os “bons alunos” apontam e punem os “maus alunos”, que ameaçam de exclusão do “clube”. Por outro lado, intestinamente, outros questionam a própria União, exacerbando os nacionalismos.
“Há o risco cada vez maior de ver os guarda-fronteiras que devem defender a Europa contra a barbárie crescente se tornarem eles próprios fascistas”, advertia em Janeiro, em entrevista ao Le Monde, o Prémio Nobel da Literatura húngaro Imre Kertész.
Quo vadis Europa, quo vadis Orbi? Que século XXI nos espera?
José Luís Correia
in CONTACTO, 04/03/2015
quinta-feira, 5 de março de 2015
sexta-feira, 16 de janeiro de 2015
Comentário a propósito do atentado contra o jornal Charlie Hebdo
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| Foto: Domingos Oliveira |
É a pergunta que todos se colocam em França, o que fazer com a união e a mobilização que se criou em torno dos atentados de Paris? As marchas que juntaram quase 4 milhões de pessoas domingo em toda a França apregoaram uma união que, infelizmente, é apenas uma ilusão política e mediática.
Primeiro internacionalmente. Para muitos, a França conseguiu o "tour de force" de juntar numa só manifestação muitos dirigentes do mundo que nada têm em comum, um G50 improvisado. Teria piada, se não fosse grave. Que nível de hipocrisia se atinge quando Benjamin Netanyahu se expõe de braço dado com o presidente do Mali, quando Israel nem tem relações diplomáticas com esse país africano, ou a desfilar ao lado do presidente da autoridade palestiniana, Mahmoud Abbas? Ou o presidente húngaro Viktor Orban, num cortejo pela liberdade de imprensa, ele que tanto a jugula no seu próprio país? Ou que dizer da presença de príncipes árabes, que são próximos, para não dizer cúmplices e financiadores de alguns grupos jihadistas? Obama, que todos criticaram por não ter estado em Paris, é bem capaz de agradecer um dia quem o aconselhou a não participar neste grupo que encabeçava a marcha republicana.
Depois, a desunião é também óbvia internamente, em França. Nos últimos dias multiplicaram-se ataques a lugares de culto judaicos e muçulmanos. Para evitar a habitual amálgama que se fazem neste tipo de ocasiões, relembremos mais uma vez que os muçulmanos não são todos jihadistas e muito menos terroristas.
E que dizer aos jovens muçulmanos que não se solidarizaram com as vítimas assassinadas no jornal Charlie Hebdo porque consideram que há coisas com as quais não se deve brincar? A estes respondo, parafraseando o humorista francês Pierre Desproges: “Pode rir-se de tudo, mas não com toda a gente”.
Ou poderia dizer-lhes que não se trata de uma guerra santa, nem de um choque de religiões ou de civilizações, nem tão pouco de visões do Mundo diferentes. Os jihadistas são, na sua maioria, manipulados por gente sem lei nem grei que invoca Allah e Maomé (em vão) para que os jovens convertidos lutem até à morte pela sua egoista e obscura causa, espalhando o medo, o caos e um clima de terror. O que ganham com isso? Ora aí está a pergunta que ninguém faz e que tem que ser respondida. Talvez a resposta esteja por detrás de quem os financia.
Apesar da farsa que foi o grupo que encabeçava o desfile, a França soube impôr o seu ideal e fez ouvir o seu clamor. Apesar de ferida e de luto – a nação que tantos já vaticinaram ao sucídio por ser um país dividido em comunidades que vivem em paralelo ignorando-se -, teve um sobressalto, lembrou-se que é tricolor e até multicolor. Aos que a quiseram fazer ajoelhar-se, uniu-se e resistiu, ficou de pé, fincou o pé e disse: Não temos medo!
A França ficou ferida, mas também histérica. O Governo francês promete aprovar rapidamente leis mais repressivas (para quem?), e dar mais meios e poder de acção aos serviços de segurança, que até andavam a seguir os irmãos Kouachi, mas deixaram de os considerar perigosos, alegando tratar-se apenas de fumadores de haxixe e de fazerem tráfico de roupa de contrafacção (!). Os franceses nem querem ouvir falar em algo como o “Patriot Act”, lei que surgiu das cinzas do 11 de Setembro, deu plenos poderes aos serviços de segurança americanos e nos mudou a vida a todos. Gritámos pela liberdade de expressão e vão cortar-nos na liberdade de acção? Há já até quem tenha sugerido suspender os Acordos de Schengen.
Se é verdade que os suspeitos de terrorismo têm que ser melhor vigiados, bem como a “livre circulação” para regiões jihadistas, além dos chefes e lugares de culto coniventes com os extremistas, é necessário também fazer mais prevenção. Como, onde? Nas escolas, por exemplo. Um jovem que se sente à margem da sociedade vai procurar outros valores em que se apoiar. É nessa fase, quando está frágil e é manipulável, que é preciso agir e tentar resgatá-lo. É nessa fase que corre o maior perigo de se marginalizar ainda mais, cair na criminalidade ou pior. Foi o que aconteceu com o jihadista português de Meispelt?
O Luxemburgo não está ao abrigo de um ataque terrorista, apesar de o Governo se mostrar tranquilizador.
O terrorismo também se combate a montante da violência, não apenas a jusante.
José Luís Correia
in CONTACTO, 14/01/2015
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quarta-feira, 7 de janeiro de 2015
Editorial no CONTACTO: "Todos migrantes, todos iguais"
Os portugueses conquistaram Ceuta há exactamente 600 anos. É considerado um feito, tanto que marca o início dos Descobrimentos Portugueses, que deram a Portugal uma era de glória e um lugar na História. Seis séculos depois, no mesmo local, há novas batalhas a serem travadas, novas ameias a serem abalroadas. De novo, a batalha coloca frente a frente europeus e não-europeus, desta vez não são mouros mas subsaarianos, desta vez não somos nós que queremos lá chegar, são eles a quererem chegar até nós.
Seria apenas uma ironia da História, considerando que nos servimos de África e dos africanos durante séculos e agora não os queremos cá deixar entrar, se não fosse mais grave do que isso, uma verdadeira catástrofe humanitária às portas da Europa.
Há várias imagens que me chocaram em 2014. A primeira é uma foto de um ’green’, não sei se em Ceuta ou em Melilla, onde turistas europeus continuam a jogar golfe impassíveis ao sofrimento de um grupo de africanos pendurados numa cerca de arame farpado de sete metros de altura, mesmo ali ao lado, que separa o enclave espanhol de Marrocos.
A sua entrada na Europa foi impedida, mas ficam ali suspensos na ilusão de que enquanto estão lá em cima a polícia não os pode mandar para trás, para uma vida de guerra e de miséria. Podem ficar ali empoleirados horas ou dias, até que caem de cansaço ou de desidratação e a polícia já só tem de os “colher”.
Assaltam a cerca às centenas, na esperança de que nem a polícia espanhola nem marroquina os consiga apanhar todos. Muitos são espezinhados pela confusão, matraqueados ou mesmo abatidos pelos agentes. Os outros, os que conseguem pular a vedação, munidos de pregos nos ténis para se agarrarem melhor à cerca metálica, e fugir num jogo do gato e do rato à polícia, chegam ao centro de acolhimento para imigrantes e sabem que, a partir dali, a Espanha é obrigada a reconhecê-los como imigrantes ilegais.
Em muitos casos, a Espanha tenta repatriá-los, mas como não existem acordos a este nível entre Madrid e a maioria dos países de onde provêm estes clandestinos, alguns acabam por ter uma autorização de estadia em Espanha, ou seja, na Europa.
A outra imagem que me chocou é a de um cruzeiro no Mediterrâneo com três mil turistas a bordo, que passa ao lado de um cargueiro que transporta malianos e costa-marfinenses. Uns viajam em primeira classe, os outros vão trancados no porão. Como há 500 anos. Os primeiros pagaram dois mil euros para se divertir na costa de África, os segundos pagaram seis mil euros para fugir dela. O mare nostrum não é o mesmo para todos.
Talvez a imagem dos dois navios a cruzarem-se apenas exista na minha imaginação, mas com certeza aconteceu na realidade mais do que uma vez. Os primeiros terão fotos e souvenirs das férias, os segundos vão afogar-se às dezenas – homens, mulheres e crianças –, a apenas alguns quilómetros das costas europeias, quando os passadores abandonarem o navio para fugir da polícia marítima grega ou italiana.
Evitar que esta catástrofe humanitária alastre é o desafio crucial da UE. Por exemplo, lutar contra os passadores, na Turquia ou noutros países, que ganham fortunas; condenar os proprietários dos navios, cúmplices deste tráfico; fazer campanhas de sensibilização e de informação nos países de origem dos imigrantes. Mas a UE fecha-se em copas, em fortaleza, e enxota estes imigrantes como moscas e sonha com uma “imigração escolhida”, à canadiana ou à australiana. Mas nem o Canadá nem a Austrália têm um continente inteiro minado pela miséria e pela guerra, muitas vezes alimentadas por interesses europeus, a irromper-lhes porta dentro.
Face a esta imigração não desejada em época de crise económica profunda, assistimos em muitos países ao avanço da extrema-direita. E a um recuo da tolerância.
Como aquilo a que assisti na página Facebook do CONTACTO e que também me chocou, quando um grupo de albaneses e montenegrinos foi expulso do Luxemburgo no final de Novembro. Alguns leitores mostravam-se indignados com o facto de a polícia ter ido buscar uma aluna albanesa dentro do recinto da escola, para a repatriar. Outros pediam mais expulsões e o fecho das fronteiras. Eu vi até portugueses, que justificam estar há décadas no Luxemburgo, para fazer comentários contra os “novos portugueses”, que “ainda agora chegaram” e “já a sabem toda”, e que “deviam era voltar para Portugal”. Há intolerância mais absurda?
Há várias perguntas às quais não consigo responder: o que nos torna a nós portugueses mais legítimos do que outros para podermos estar no Luxemburgo? Não viemos também nós à procura de uma vida melhor, para escapar à guerra e à miséria, primeiro, e à crise, nos últimos anos? O que torna a emigração do meu pai – que fugiu à guerra, deu “o salto” e atravessou ilegalmente a Espanha a pé, também ele escapando aos “carabineros” – mais legítima do que um africano que tenta pular o arame farpado em Ceuta ou Melilla? Não somos todos migrantes?
Espanta-me que o Luxemburgo – cujo Governo integra um primeiro-ministro com origens francesas, russas e polacas, um ministro da Justiça luso-descendente e onde até o primeiro cidadão do país (presidente do Parlamento) é filho de imigrantes italianos, tendo dois terços da população antepassados estrangeiros –, não saiba tratar de forma mais humana esta questão do repatriamento de ilegais.
Se o problema fosse apenas com os recém-chegados. A ferida é mais profunda e se não for sarada, alastrará. Estrangeiro continua a ser, para muita gente, sinónimo de desconfiança, mesmo num país com 46% de não-nacionais. Ninguém imigra porque quer, mas porque é empurrado a isso. Muitos dizem integração mas pensam assimilação e não entendem que na integração os esforços têm de vir de ambos os lados.
Ao criarmos anticorpos na escola e na sociedade contra os estrangeiros, ilegais ou não, é o nosso próprio futuro que estamos a hipotecar.
Em França, os filhos dos aparentemente bem integrados (assimilados!) imigrantes muçulmanos da primeira geração não se identificam com os valores republicanos, sentem-se marginalizados pelo sistema, e muitos optam pela criminalidade ou, pior, pelas fileiras dos terroristas islâmicos. Tivemos recentemente um caso semelhante no Luxemburgo, com um jovem português de Meispelt que aderiu ao Estado Islâmico. O que o fez converter-se ao Islão e depois radicalizar-se? O sistema escolar, uma integração falhada, sentiu-se incompreendido, deixado à margem?
Podem acusar-me de não falar dos exemplos de sucesso na imigração, há muitos, bem sei, e alguns até conheço pessoalmente. Mas não é por sentirmos orgulho desses que não nos devemos preocupar com os que se sentem deixados de parte.
“Migrantes somos todos”, gritavam os mexicanos clandestinos nos EUA contra os brancos que protestavam contra a legalização de cinco milhões de ilegais decidida por Barack Obama. Recordavam-lhes que até os antepassados deles tinham chegado de outros países, e que a América é primeiro dos nativos americanos. Mas até esses atravessaram o estreito de Bering para ali chegar. Quantas gerações é preciso recuar para sermos considerados legítimos numa terra? “A terra não pertence a ninguém”, acreditam os índios americanos. Talvez essa seja parte da resposta. Porque, afinal, nómadas éramos e continuamos a ser. Todos migrantes, todos iguais.
José Luís Correia, in CONTACTO, 07/01/2015
Seria apenas uma ironia da História, considerando que nos servimos de África e dos africanos durante séculos e agora não os queremos cá deixar entrar, se não fosse mais grave do que isso, uma verdadeira catástrofe humanitária às portas da Europa.
Há várias imagens que me chocaram em 2014. A primeira é uma foto de um ’green’, não sei se em Ceuta ou em Melilla, onde turistas europeus continuam a jogar golfe impassíveis ao sofrimento de um grupo de africanos pendurados numa cerca de arame farpado de sete metros de altura, mesmo ali ao lado, que separa o enclave espanhol de Marrocos.
A sua entrada na Europa foi impedida, mas ficam ali suspensos na ilusão de que enquanto estão lá em cima a polícia não os pode mandar para trás, para uma vida de guerra e de miséria. Podem ficar ali empoleirados horas ou dias, até que caem de cansaço ou de desidratação e a polícia já só tem de os “colher”.
Assaltam a cerca às centenas, na esperança de que nem a polícia espanhola nem marroquina os consiga apanhar todos. Muitos são espezinhados pela confusão, matraqueados ou mesmo abatidos pelos agentes. Os outros, os que conseguem pular a vedação, munidos de pregos nos ténis para se agarrarem melhor à cerca metálica, e fugir num jogo do gato e do rato à polícia, chegam ao centro de acolhimento para imigrantes e sabem que, a partir dali, a Espanha é obrigada a reconhecê-los como imigrantes ilegais.
Em muitos casos, a Espanha tenta repatriá-los, mas como não existem acordos a este nível entre Madrid e a maioria dos países de onde provêm estes clandestinos, alguns acabam por ter uma autorização de estadia em Espanha, ou seja, na Europa.
A outra imagem que me chocou é a de um cruzeiro no Mediterrâneo com três mil turistas a bordo, que passa ao lado de um cargueiro que transporta malianos e costa-marfinenses. Uns viajam em primeira classe, os outros vão trancados no porão. Como há 500 anos. Os primeiros pagaram dois mil euros para se divertir na costa de África, os segundos pagaram seis mil euros para fugir dela. O mare nostrum não é o mesmo para todos.
Talvez a imagem dos dois navios a cruzarem-se apenas exista na minha imaginação, mas com certeza aconteceu na realidade mais do que uma vez. Os primeiros terão fotos e souvenirs das férias, os segundos vão afogar-se às dezenas – homens, mulheres e crianças –, a apenas alguns quilómetros das costas europeias, quando os passadores abandonarem o navio para fugir da polícia marítima grega ou italiana.
Evitar que esta catástrofe humanitária alastre é o desafio crucial da UE. Por exemplo, lutar contra os passadores, na Turquia ou noutros países, que ganham fortunas; condenar os proprietários dos navios, cúmplices deste tráfico; fazer campanhas de sensibilização e de informação nos países de origem dos imigrantes. Mas a UE fecha-se em copas, em fortaleza, e enxota estes imigrantes como moscas e sonha com uma “imigração escolhida”, à canadiana ou à australiana. Mas nem o Canadá nem a Austrália têm um continente inteiro minado pela miséria e pela guerra, muitas vezes alimentadas por interesses europeus, a irromper-lhes porta dentro.
Face a esta imigração não desejada em época de crise económica profunda, assistimos em muitos países ao avanço da extrema-direita. E a um recuo da tolerância.
Como aquilo a que assisti na página Facebook do CONTACTO e que também me chocou, quando um grupo de albaneses e montenegrinos foi expulso do Luxemburgo no final de Novembro. Alguns leitores mostravam-se indignados com o facto de a polícia ter ido buscar uma aluna albanesa dentro do recinto da escola, para a repatriar. Outros pediam mais expulsões e o fecho das fronteiras. Eu vi até portugueses, que justificam estar há décadas no Luxemburgo, para fazer comentários contra os “novos portugueses”, que “ainda agora chegaram” e “já a sabem toda”, e que “deviam era voltar para Portugal”. Há intolerância mais absurda?
Há várias perguntas às quais não consigo responder: o que nos torna a nós portugueses mais legítimos do que outros para podermos estar no Luxemburgo? Não viemos também nós à procura de uma vida melhor, para escapar à guerra e à miséria, primeiro, e à crise, nos últimos anos? O que torna a emigração do meu pai – que fugiu à guerra, deu “o salto” e atravessou ilegalmente a Espanha a pé, também ele escapando aos “carabineros” – mais legítima do que um africano que tenta pular o arame farpado em Ceuta ou Melilla? Não somos todos migrantes?
Espanta-me que o Luxemburgo – cujo Governo integra um primeiro-ministro com origens francesas, russas e polacas, um ministro da Justiça luso-descendente e onde até o primeiro cidadão do país (presidente do Parlamento) é filho de imigrantes italianos, tendo dois terços da população antepassados estrangeiros –, não saiba tratar de forma mais humana esta questão do repatriamento de ilegais.
Se o problema fosse apenas com os recém-chegados. A ferida é mais profunda e se não for sarada, alastrará. Estrangeiro continua a ser, para muita gente, sinónimo de desconfiança, mesmo num país com 46% de não-nacionais. Ninguém imigra porque quer, mas porque é empurrado a isso. Muitos dizem integração mas pensam assimilação e não entendem que na integração os esforços têm de vir de ambos os lados.
Ao criarmos anticorpos na escola e na sociedade contra os estrangeiros, ilegais ou não, é o nosso próprio futuro que estamos a hipotecar.
Em França, os filhos dos aparentemente bem integrados (assimilados!) imigrantes muçulmanos da primeira geração não se identificam com os valores republicanos, sentem-se marginalizados pelo sistema, e muitos optam pela criminalidade ou, pior, pelas fileiras dos terroristas islâmicos. Tivemos recentemente um caso semelhante no Luxemburgo, com um jovem português de Meispelt que aderiu ao Estado Islâmico. O que o fez converter-se ao Islão e depois radicalizar-se? O sistema escolar, uma integração falhada, sentiu-se incompreendido, deixado à margem?
Podem acusar-me de não falar dos exemplos de sucesso na imigração, há muitos, bem sei, e alguns até conheço pessoalmente. Mas não é por sentirmos orgulho desses que não nos devemos preocupar com os que se sentem deixados de parte.
“Migrantes somos todos”, gritavam os mexicanos clandestinos nos EUA contra os brancos que protestavam contra a legalização de cinco milhões de ilegais decidida por Barack Obama. Recordavam-lhes que até os antepassados deles tinham chegado de outros países, e que a América é primeiro dos nativos americanos. Mas até esses atravessaram o estreito de Bering para ali chegar. Quantas gerações é preciso recuar para sermos considerados legítimos numa terra? “A terra não pertence a ninguém”, acreditam os índios americanos. Talvez essa seja parte da resposta. Porque, afinal, nómadas éramos e continuamos a ser. Todos migrantes, todos iguais.
José Luís Correia, in CONTACTO, 07/01/2015
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quinta-feira, 23 de outubro de 2014
Luxemburgo, quo vadis?
Luxemburgo, para onde vais? Que futuro está o
actual Governo a desenhar com a sua vontade cega de poupar? Com certeza
há muito por onde desbastar, mas o executivo decidiu começar por cortar
nos rendimentos das famílias.
Qual a consequência do fim do subsídio de maternidade e de educação de que beneficiavam até agora as mães? Com certeza mais mulheres nas filas do desemprego. E, por outro lado, mais crianças em lista de espera por um lugar numa creche, quando o problema já é hoje tão grave. Sem falar nas consequências na demografia, quando a pirâmide etária já grita sufocada que precisa de mais jovens para revitalizar um país a envelhecer.
O Governo argumenta que o fim destes subsídios é a favor das mulheres, que visa incentivá-las a não fazerem uma pausa na carreira, a não ficarem dependentes do cônjuge (leia-se nas entrelinhas “e do Estado”), nem a cairem na precariedade, em caso de divórcio! Hã? Que argumento falacioso. As mulheres e homens (que também os há) que têm decidido fazer esta “pausa” de dois anos optaram em consciência para poderem estar com a sua criança nos primeiros anos de vida, os mais sensíveis de um bebé.Até agora as famílias recebiam um abono pelo pelo primeiro filho (262,48 euros) e à medida que o número de filhos aumentava também os abonos eram maiores. As famílias que no futuro tiverem filhos podem vir a receber menos 773,76 euros por ano para o segundo filho dos que as famílias já com filhos, e o fosso será ainda maior caso a família cresça. É não só nas classes desfavorecidas como nas classes médias que estas medidas se vão ressentir mais, hoje já tão afectadas pela crise.
O Governo liberal–socialista-verde critica tudo o que o CSV fez de errado nos últimos 10 anos, mas não diz que corta precisamente nos subsídios criados nos anos 70 pelos cristãos-sociais (Coincidência?). Não foram conquistas dos socialistas, como seria de esperar, pois também passaram pelo poder nessa altura, já com o DP. Mas o liberalismo do DP acaba sempre por sobrepôr-se aos valores de esquerda, não é, caro LSAP? E que dizer da conivência silenciosa dos Verdes face a estas medidas, eles que sempre se reivindicaram da esquerda? A não ser que o LSAP e os Verdes sejam apenas uma “esquerda caviar”, como aquela que vive o seu apogeu hoje em França. Lá se vão direitos duramente adquiridos e os “sem-dentes” que se lixem, são danos colaterais de uma política pseudo-visionária de um “Plano do Futuro”, como o baptizou Bettel. O corte destes dois subsídios visa poupar 75 milhões de euros. É o nosso futuro vendido ao desbarato.
O Governo diz querer lutar contra os preços altos do imobiliário, ao aumentar o IVA de 3% para 17% para quem comprar casa para habitação secundária ou para arrendar a terceiros. A eficácia da medida é questionável. Será que não vai antes desincentivar os investidores a não criarem mais alojamentos, o que fará subir ainda mais os preços? Seria preferível que o Estado criasse massivamente habitações, para que a oferta se tornasse maior do que a procura. Bettel anunciou querer criar 10 mil novos alojamentos. Parece uma medida grandiosa. Mas o que não disse foi onde e como o vai fazer. E, sobretudo, em quanto tempo? Em dois, três ou quatro anos? Sabendo que são construídos cerca de 3 mil alojamentos por ano no Luxemburgo, quando as necessidades são o dobro, se forem construídos 10 mil alojamentos até ao fim da legislatura em 2018, vai construir-se até menos do que até aqui! Será que é tudo apenas cosmética e política de boas intenções?
Todos sabem como mudar a situação, falta vontade política. Porque razão há tantos apartamentos e casas a acolherem empresas quando deviam ser habitações? Porque a lei o permite. E porque não se muda a lei? Talvez porque uma casa arrendada a uma empresa renda mais do que alugada a um privado, e alterar o estado das coisas iria mexer no bolso de demasiada gente. E, já agora, porque não fiscalizar as construtoras a quem o Governo adjudica obras e que para não empregarem mais mão-de-obra e para “travarem” o ritmo das construções, trabalham uns dias numa obra e outros dias noutra?
O DP tem neste dossier a sua grande oportunidade de mostrar como faz a diferença face ao fracasso do CSV, que deixou durante anos o ministro da Agricultura e da Habitação acumular as duas pastas. Como grande amigo dos proprietários das terras, este último nunca se esforçou em convencê-los a ceder terrenos para habitação às comunas. E as comunas, em vez de cumprirem o Pacto Habitação, fintavam os seus deveres. Nunca nenhuma comuna foi penalizada. Então para que serve este pacto?
O anterior Governo desculpava-se que as autarquias são autónomas em certos pelouros, como na habitação e na educação primária (por isso muitas não cedem salas para as aulas na língua materna, como o Ministério da Educação diz promover), e que não podem impôr nada às comunas nessas matérias, direito que vem consagrado na Constituição. Ora, se estas são realmente prioridades do Governo, altere-se a Constituição. Já foi alterada por menos que isso.
Bettel anunciou ainda uma nova contribuição, de 0,5% sobre todos os rendimentos, e para fazer engolir a pílula, acrescentou que o dinheiro vai servir para construir as tais creches, que vão faltar. Essas creches vão ser gratuitas e as crianças vão aprender línguas (luxemburguês para as estrangeiras, por ex.), o que as preparará melhor para a escola. Mas de que gratuitidade fala Bettel? As despesas que os pais tinham com as creches já eram pagas, quase na totalidade, pelos cheques-serviço. Além disso, não é em todas as creches que as crianças podem aprender a falar luxemburguês, vai então passar a ser obrigatório haver pessoal nas creches que fale a língua nacional?
Bettel diz que todos têm de pagar a factura da dívida pública. Até os funcionários públicos! A sério? Bettel prevê retirar-lhes dois privilégios: o de gozarem o salário durante mais três meses após irem para a reforma e a gratuitidade do estacionamento no local de trabalho. Hã? As medidas são tão frouxas que até o habitualmente exaltado sindicato da Função Pública (CGFP) as criticou baixinho. E que tal tabelar os salários da Função Pública aos do sector privado, para que o funcionalismo não seja o apregado “último baluarte” (dixit CGFP) dos trabalhadores luxemburgueses? Ou flexibilizar os contratos (e os despedimentos) na FP e não só no sector privado, como preconiza o ministro do Trabalho? Isto vindo de um ministro socialista, recorde-se. Qual esquerda?
Acho que com tudo isto fica bem claro qual o paradigma social do Governo para os anos que aí vêm.
José Luís Correia
in CONTACTO, 22/10/2014
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quarta-feira, 1 de outubro de 2014
Começou a campanha para as legislativas e para as presidenciais
António Costa é desde domingo o novo homem forte do PS. Desde a sua eleição em Julho de 2011 como secretário-geral do partido, António José Seguro tentou construir uma oposição sólida contra o Governo PSD/CDS. A tarefa não parecia difícil, até pela impopularidade crescente a que este Governo fez face quase desde a primeira hora.
No entanto, militantes socialistas e portugueses em geral só puderam constatar nestes três anos que Seguro não soube demonstrar o que o faria de diferente de Passos Coelho se estivesse no poder. Nem o infeliz episódio da pseudo-demissão “irrevogável” de Paulo Portas soube aproveitar mediaticamente. Nem tão pouco a vitória que o PS conseguiu nas eleições europeias de Maio último. Como se nestes três anos Seguro estivesse a treinar para um cargo que nunca terá. Afinal, o “inimigo” veio de dentro.
A candidatura de António Costa à liderança do partido foi vivida como um golpe de estado por Seguro, uma “deslealdade”, como o próprio repetiu vezes sem conta nos media. Como se na política houvesse lealdade, ó Tó-Zé, descobriste a pólvora? Em vez de mostrar as garras, choramingou, traído pelo partido. Nem nos debates com Costa convenceu. O que faltou sobretudo a Seguro durante este tempo todo foi segurança. Uma falta que pagou bem caro quando começou a ver quase todos os históricos do partido a apoiarem o contendor. Incentivado por uns, empurrado por outros (por Sócrates, por exemplo), e levado pela sua própria vontade de poder, Costa apostou e venceu.
Falta um ano para as legislativas e pouco mais para as presidenciais, este era o momento certo. Para Costa e para o PS. Costa percebeu que os militantes querem um PS mais forte, não apenas como oposição figurante, mas sobretudo como um partido capaz de vencer tanto as legislativas de Outubro de 2015 como as presidenciais de Janeiro de 2016. Anunciada a candidatura de António Guterres a Belém, António Costa, até então potencial presidenciável do PS, caiu sobre as quatro patas e deu a volta a situação. Com Belém fora do campo de visão, apontou a S. Bento. É essa a missão de Costa: devolver as chaves do poder ao PS. Mas será que Costa chega para dar um novo alento ao PS e fazer esquecer seis anos de socratismo, ele que foi durante dois anos o n° 2 do Governo de José Sócrates (2005-2007)?
É preciso entender o seguinte: no domingo, assim que a liderança mudou no PS, começou a campanha para as legislativas e até para as presidenciais. Costa promete ser uma oposição muito mais dura que Seguro e conta para isso com o apoio dos pesos-pesados do partido. Por outro lado, face a uma vitória do PS nas legislativas, os candidatos presidenciáveis ainda não assumidos da direita vão avançar e as águas vão ficar agitadas no PSD.
É neste ambiente que Portugal vai viver nos próximos 14 meses. Mas que alternativa têm os portugueses? Mais austeridade à PSD ou o regresso do PS repudiado em 2011? O que pode propor Costa que Seguro não conseguiu? Ou mesmo Passos Coelho? Alguém reteve alguma proposta de Costa na sua campanha das primárias? Seguro prometeu demitir-se se tivesse que aumentar os impostos ao chegar a Governo. É uma promessa que não terá de cumprir. Safou-se dessa! Costa nem isso prometeu. Vai Costa fazer mudar o país do rumo da austeridade, pode sequer fazê-lo neste momento? Lembre-se que foi o PS de Sócrates que chamou a ’troika’ e depois lavou daí as mãos como Pilatos, quando já era quase certo que perderia as eleições.
Para muitos, Costa significa apenas o regresso dos socráticos. Se chegar ao Governo, o que vai definir a governação de Costa é também o tipo de coabitação que terá com o futuro Presidente da República. Se for Guterres, Costa viverá uma coabitação fácil, num pais reconciliado com o PS e com luz verde para governar como entender até, pelo menos, 2019. Poderá, quiçá, fechar o ciclo da austeridade despoletado por Sócrates dez anos antes, graças a isso ser reeleito e governar até 2023. Isso fará de Costa um sucessor quase certo de Guterres como PR (se fizer dois mandatos, Guterres sai em 2026), o que pode vir a abrir um novo ciclo de 20 anos do PS em Belém, já conseguido pela dupla Soares-Sampaio entre 1986 e 2006.
Mas este novo ciclo pode revelar-se mais estável e próspero, porque nao terá de enfrentar uma década de coabitação difícil (Soares/Cavaco, 1986-1996).
Advinham-se então bons tempos para Portugal? Podíamos aqui conjecturar outras possibilidades de coabitação como Costa/Durão Barroso, Costa/Santana Lopes ou mesmo Costa/Rebelo de Sousa. Mas seria em vão. Santana Lopes não reúne consenso nem dentro nem fora do partido; Rebelo de Sousa goza de popularidade mediática, mas apenas fora do partido; Barroso parece ser a melhor opção do PSD, mas será que reúne os favores dos portugueses? E face a Guterres, todos os outros nomes parecem não conseguir aguentar a distância para a corrida às presidenciais. A não ser que a ONU não deixe sair Guterres de Nova Iorque! Nesse caso, todas as configurações são possíveis, até uma presidencial Barroso-Sócrates.
Estas conjecturas não são apenas masturbação intelectual. Servem para explicar que o calendário do cidadão comum não é o mesmo dos políticos. Nós pensamos se vamos conseguir pagar a factura ao fim do mês e se vamos ou não ter dinheiro para as férias. Os políticos têm calendários que não vão de Janeiro a Dezembro, mas que vivem ao ritmo das eleições e das nomeações, programados pelos cargos e poder a que aspiram, e são por isso “agendas” bienais, quinquenais e até decenais. PS e PSD alternam-se no poder há 30 anos, o que para muita gente significa que são irremediavelmente as duas faces da mesma moeda, ou não tivessem ambos contribuído para a crise em que o país caiu. No entanto, nas sondagens, os portugueses continuam a preferir PS ou PSD aos outros partidos. Há maior contradição?
No Luxemburgo, após 60 anos de governação quase ininterrupta do CSV, uma coligação ’tutti-frutti’, que junta liberais, socialistas e verdes chegou ao poder. O seu único ponto comum era não quererem voltar a deixar o Grão-Ducado nas mãos do mesmo partido. Valiam-se de ter mais votos juntos que o CSV, que saiu vencedor das eleições. Nenhuma comissão de eleições nem nenhum Conselho de Estado veio contestar a matemática improvisada e assim alguns desses partidos são pela primeira vez hoje Governo. Os eleitores que neles votaram deram o aval, os outros pouco constestaram.
Poder-se-ia assistir a uma “sublevação”, a uma contestação semelhante em Portugal? Ou as máquinas partidárias é que decidem o que o povo deve pensar e em quem deve votar? O monárquico Alexis de Tocqueville assim o profetizou no século XIX: “Le suffrage universel ne me fait pas peur, les gens voteront comme on leur dira”. Será?
José Luís Correia
in CONTACTO, 01/10/2014
No entanto, militantes socialistas e portugueses em geral só puderam constatar nestes três anos que Seguro não soube demonstrar o que o faria de diferente de Passos Coelho se estivesse no poder. Nem o infeliz episódio da pseudo-demissão “irrevogável” de Paulo Portas soube aproveitar mediaticamente. Nem tão pouco a vitória que o PS conseguiu nas eleições europeias de Maio último. Como se nestes três anos Seguro estivesse a treinar para um cargo que nunca terá. Afinal, o “inimigo” veio de dentro.
A candidatura de António Costa à liderança do partido foi vivida como um golpe de estado por Seguro, uma “deslealdade”, como o próprio repetiu vezes sem conta nos media. Como se na política houvesse lealdade, ó Tó-Zé, descobriste a pólvora? Em vez de mostrar as garras, choramingou, traído pelo partido. Nem nos debates com Costa convenceu. O que faltou sobretudo a Seguro durante este tempo todo foi segurança. Uma falta que pagou bem caro quando começou a ver quase todos os históricos do partido a apoiarem o contendor. Incentivado por uns, empurrado por outros (por Sócrates, por exemplo), e levado pela sua própria vontade de poder, Costa apostou e venceu.
Falta um ano para as legislativas e pouco mais para as presidenciais, este era o momento certo. Para Costa e para o PS. Costa percebeu que os militantes querem um PS mais forte, não apenas como oposição figurante, mas sobretudo como um partido capaz de vencer tanto as legislativas de Outubro de 2015 como as presidenciais de Janeiro de 2016. Anunciada a candidatura de António Guterres a Belém, António Costa, até então potencial presidenciável do PS, caiu sobre as quatro patas e deu a volta a situação. Com Belém fora do campo de visão, apontou a S. Bento. É essa a missão de Costa: devolver as chaves do poder ao PS. Mas será que Costa chega para dar um novo alento ao PS e fazer esquecer seis anos de socratismo, ele que foi durante dois anos o n° 2 do Governo de José Sócrates (2005-2007)?
É preciso entender o seguinte: no domingo, assim que a liderança mudou no PS, começou a campanha para as legislativas e até para as presidenciais. Costa promete ser uma oposição muito mais dura que Seguro e conta para isso com o apoio dos pesos-pesados do partido. Por outro lado, face a uma vitória do PS nas legislativas, os candidatos presidenciáveis ainda não assumidos da direita vão avançar e as águas vão ficar agitadas no PSD.
É neste ambiente que Portugal vai viver nos próximos 14 meses. Mas que alternativa têm os portugueses? Mais austeridade à PSD ou o regresso do PS repudiado em 2011? O que pode propor Costa que Seguro não conseguiu? Ou mesmo Passos Coelho? Alguém reteve alguma proposta de Costa na sua campanha das primárias? Seguro prometeu demitir-se se tivesse que aumentar os impostos ao chegar a Governo. É uma promessa que não terá de cumprir. Safou-se dessa! Costa nem isso prometeu. Vai Costa fazer mudar o país do rumo da austeridade, pode sequer fazê-lo neste momento? Lembre-se que foi o PS de Sócrates que chamou a ’troika’ e depois lavou daí as mãos como Pilatos, quando já era quase certo que perderia as eleições.
Para muitos, Costa significa apenas o regresso dos socráticos. Se chegar ao Governo, o que vai definir a governação de Costa é também o tipo de coabitação que terá com o futuro Presidente da República. Se for Guterres, Costa viverá uma coabitação fácil, num pais reconciliado com o PS e com luz verde para governar como entender até, pelo menos, 2019. Poderá, quiçá, fechar o ciclo da austeridade despoletado por Sócrates dez anos antes, graças a isso ser reeleito e governar até 2023. Isso fará de Costa um sucessor quase certo de Guterres como PR (se fizer dois mandatos, Guterres sai em 2026), o que pode vir a abrir um novo ciclo de 20 anos do PS em Belém, já conseguido pela dupla Soares-Sampaio entre 1986 e 2006.
Mas este novo ciclo pode revelar-se mais estável e próspero, porque nao terá de enfrentar uma década de coabitação difícil (Soares/Cavaco, 1986-1996).
Advinham-se então bons tempos para Portugal? Podíamos aqui conjecturar outras possibilidades de coabitação como Costa/Durão Barroso, Costa/Santana Lopes ou mesmo Costa/Rebelo de Sousa. Mas seria em vão. Santana Lopes não reúne consenso nem dentro nem fora do partido; Rebelo de Sousa goza de popularidade mediática, mas apenas fora do partido; Barroso parece ser a melhor opção do PSD, mas será que reúne os favores dos portugueses? E face a Guterres, todos os outros nomes parecem não conseguir aguentar a distância para a corrida às presidenciais. A não ser que a ONU não deixe sair Guterres de Nova Iorque! Nesse caso, todas as configurações são possíveis, até uma presidencial Barroso-Sócrates.
Estas conjecturas não são apenas masturbação intelectual. Servem para explicar que o calendário do cidadão comum não é o mesmo dos políticos. Nós pensamos se vamos conseguir pagar a factura ao fim do mês e se vamos ou não ter dinheiro para as férias. Os políticos têm calendários que não vão de Janeiro a Dezembro, mas que vivem ao ritmo das eleições e das nomeações, programados pelos cargos e poder a que aspiram, e são por isso “agendas” bienais, quinquenais e até decenais. PS e PSD alternam-se no poder há 30 anos, o que para muita gente significa que são irremediavelmente as duas faces da mesma moeda, ou não tivessem ambos contribuído para a crise em que o país caiu. No entanto, nas sondagens, os portugueses continuam a preferir PS ou PSD aos outros partidos. Há maior contradição?
No Luxemburgo, após 60 anos de governação quase ininterrupta do CSV, uma coligação ’tutti-frutti’, que junta liberais, socialistas e verdes chegou ao poder. O seu único ponto comum era não quererem voltar a deixar o Grão-Ducado nas mãos do mesmo partido. Valiam-se de ter mais votos juntos que o CSV, que saiu vencedor das eleições. Nenhuma comissão de eleições nem nenhum Conselho de Estado veio contestar a matemática improvisada e assim alguns desses partidos são pela primeira vez hoje Governo. Os eleitores que neles votaram deram o aval, os outros pouco constestaram.
Poder-se-ia assistir a uma “sublevação”, a uma contestação semelhante em Portugal? Ou as máquinas partidárias é que decidem o que o povo deve pensar e em quem deve votar? O monárquico Alexis de Tocqueville assim o profetizou no século XIX: “Le suffrage universel ne me fait pas peur, les gens voteront comme on leur dira”. Será?
José Luís Correia
in CONTACTO, 01/10/2014
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quarta-feira, 16 de julho de 2014
Editorial de hoje no jornal CONTACTO: "E depois de Juncker"
A notícia recente de que o antigo ministro das Finanças luxemburguês vai trocar a política por um alto cargo na Deutsche Bank (ver pág. 6) provocou uma onda de indignação em todo o Grão-Ducado...
Não, nada disso! Não houve ninguém para questionar o conflito de interesses de alguém que durante 15 anos lidou de perto com a banca e agora vai trabalhar para esse mesmo sector. Minto. Houve uma voz que se indignou (apenas uma).
O deputado Justin Turpel, do Déi Lénk (minoritário no Parlamento, com apenas dois assentos), quer saber se o Governo vai pedir ao Comité da Ética que se pronuncie sobre esta “reorientação profissional”. O artigo 4.3.1. do código de deontologia para antigos membros do Governo estipula que os membros do executivo não podem exercer, num período de dois anos após deixarem o cargo, nenhuma função profissional ligada à sua antiga pasta.
Deve Frieden preocupar-se? Não! Primeiro, porque o Comité da Ética e o código de deontologia, criados em Fevereiro último, emanam do actual Governo e o ex-ministro cristão-social não parece sentir-se minimamente vinculado a nenhum dos dois. Depois, porque os pareceres desse comité são apenas consultivos. O parecer será tornado público, sem mais consequências. A não ser, quiçá, uma opinião pública negativa sobre aquele que chegou a ser considerado o “delfim” de Juncker.
Este caso lembra-me o de Jeannot Krecké, antigo ministro da Economia, sobre quem recaíram suspeitas de andar a preparar nos bastidores a sua “transferência” da vida política para um alto posto na Cargolux, contando com o apoio de fundos árabes, com quem tinha negociado meses antes a entrada como accionista na empresa luxemburguesa. Em 2011, o caso provocou escândalo e o ministro deixou efectivamente o Governo... para se dedicar à vela e não ao frete áereo.
Casos assim são tão frequentes na política portuguesa, europeia e até internacional, que já nem nos indignamos, nem ligamos, assistimos. O Luxemburgo não estava habituado a estas coisas. Até agora. Estarão os luxemburgueses a acostumar-se ao que de mais baixo e vil há na política, o tratar da sua própria vidinha antes de pensar no interesse da população, algo a que estamos tão habituados em Portugal, mas que era raro ver por terras grã-ducais?
O facto de Frieden deixar a vida política lança outras questões para o futuro, e sobretudo o do CSV. Frieden foi durante muito tempo considerado o sucessor de Juncker no partido e até mesmo na chefia do Governo, pelo menos até à derrota do partido nas últimas legislativas.
O CSV, “invisível” no Parlamento desde Dezembro, enfrenta agora o desafio de uma legislatura onde é minoritário e tem cinco anos para se recompor da derrota infligida e para preparar o regresso ao Governo, no próximo sufrágio, em 2018. Tudo isto sem o seu líder carismático, Jean-Claude Juncker, que em Setembro se muda para Bruxelas.
Os militantes do CSV acreditam que só um cabeça-de-lista com o carisma de Juncker (ou quase) conseguirá fazer voltar o partido ao Governo e repetir a sua “longevidade” no executivo, à semelhança do período 1979-2013.
Com a saída de François Biltgen do partido – que foi nomeado para o Tribunal de Contas da UE, em Outubro de 2013 -, que também era um possível candidato a cabeça-de-lista do CSV em 2018, que outras opções restam ao partido?
O actual presidente do CSV? Eleito em Março, Marc Spautz é mecânico de formação, entrou na política comunal em 1994 (Schifflange), foi secretário-geral do LCGB (1998-2009), chegou ao Parlamento em 2004, foi secretário-geral do partido (2009-2012), presidente do grupo parlamentar do CSV (2011-2013) e ministro da Família durante seis meses, em 2013.
E quanto a Claude Wiseler, o novo presidente da bancada parlamentar cristã-social? Foi secretário-geral do CSV (1995-2000), chegou ao Parlamento em 1999, foi vereador da capital (2000-2004), ministro da Função Pública (2004-200) e das Obras Públicas (2004-2013). É casado com a portuguesa Isabel Santos Lima, conselheira comunal da capital.
No entanto, Spautz e Wiseler – pelo pouco que conheço do primeiro e apesar da simpatia que me inspira o segundo -, não têm o carisma nem os apoios que Frieden e Biltgen tinham no partido. Ou será que antes de 2018 assistiremos ao regresso de Biltgen? O seu mandato no Tribunal de Contas termina em 2015, mas pode depois ser reconduzido por seis anos.
Uma outra opção do CSV parece ser Viviane Reding, comissária europeia da Justiça e dos Media, que em Setembro deixa o lugar, já que um outro luxemburguês – Juncker – fará parte da Comissão. Foi aliás graças a esta última pasta dos Media que Reding alcançou notoriedade, pois venceu o braço-de-ferro com as operadoras de telefonia móvel para fazer baixar os preços do ’roaming’. Entre 1978 e 1999, Reding foi jornalista no Luxemburger Wort. Em 1979 foi eleita para a Câmara dos Deputados, onde esteve até ser nomeada para Bruxelas (Comissão Prodi) em 1999, transitando depois para a Comissão Barroso. Como candidata a futura cabeça-de-lista do CSV, Reding tem do seu lado o facto de nunca ter sido ministra, de poder assim vir a protagonizar uma renovação de que o partido tanto precisa, e de contar com o reconhecimento que o seu cargo em Bruxelas lhe deu. O facto de ser uma mulher pode também jogar na vontade de o partido se mostrar mais moderno. Tudo isto depende, obviamente, de Reding querer ou não regressar à política doméstica ou se visa outros horizontes.
Destes nomes, quais são os que realmente vão ter o apoio dos militantes do CSV e quais são os que vão aceitar o desafio, mostrando já a partir de Setembro que preparam a agenda de 2018? A ’rentrée’ política o dirá.
Para já, disfrutemos da ’silly season’, de notícias mais leves e aproveitemos o bom tempo no Luxemburgo, enquanto dura.
José Luís Correia,
in CONTACTO, 16/07/2014
Não, nada disso! Não houve ninguém para questionar o conflito de interesses de alguém que durante 15 anos lidou de perto com a banca e agora vai trabalhar para esse mesmo sector. Minto. Houve uma voz que se indignou (apenas uma).
O deputado Justin Turpel, do Déi Lénk (minoritário no Parlamento, com apenas dois assentos), quer saber se o Governo vai pedir ao Comité da Ética que se pronuncie sobre esta “reorientação profissional”. O artigo 4.3.1. do código de deontologia para antigos membros do Governo estipula que os membros do executivo não podem exercer, num período de dois anos após deixarem o cargo, nenhuma função profissional ligada à sua antiga pasta.
Deve Frieden preocupar-se? Não! Primeiro, porque o Comité da Ética e o código de deontologia, criados em Fevereiro último, emanam do actual Governo e o ex-ministro cristão-social não parece sentir-se minimamente vinculado a nenhum dos dois. Depois, porque os pareceres desse comité são apenas consultivos. O parecer será tornado público, sem mais consequências. A não ser, quiçá, uma opinião pública negativa sobre aquele que chegou a ser considerado o “delfim” de Juncker.
Este caso lembra-me o de Jeannot Krecké, antigo ministro da Economia, sobre quem recaíram suspeitas de andar a preparar nos bastidores a sua “transferência” da vida política para um alto posto na Cargolux, contando com o apoio de fundos árabes, com quem tinha negociado meses antes a entrada como accionista na empresa luxemburguesa. Em 2011, o caso provocou escândalo e o ministro deixou efectivamente o Governo... para se dedicar à vela e não ao frete áereo.
Casos assim são tão frequentes na política portuguesa, europeia e até internacional, que já nem nos indignamos, nem ligamos, assistimos. O Luxemburgo não estava habituado a estas coisas. Até agora. Estarão os luxemburgueses a acostumar-se ao que de mais baixo e vil há na política, o tratar da sua própria vidinha antes de pensar no interesse da população, algo a que estamos tão habituados em Portugal, mas que era raro ver por terras grã-ducais?
O facto de Frieden deixar a vida política lança outras questões para o futuro, e sobretudo o do CSV. Frieden foi durante muito tempo considerado o sucessor de Juncker no partido e até mesmo na chefia do Governo, pelo menos até à derrota do partido nas últimas legislativas.
O CSV, “invisível” no Parlamento desde Dezembro, enfrenta agora o desafio de uma legislatura onde é minoritário e tem cinco anos para se recompor da derrota infligida e para preparar o regresso ao Governo, no próximo sufrágio, em 2018. Tudo isto sem o seu líder carismático, Jean-Claude Juncker, que em Setembro se muda para Bruxelas.
Os militantes do CSV acreditam que só um cabeça-de-lista com o carisma de Juncker (ou quase) conseguirá fazer voltar o partido ao Governo e repetir a sua “longevidade” no executivo, à semelhança do período 1979-2013.
Com a saída de François Biltgen do partido – que foi nomeado para o Tribunal de Contas da UE, em Outubro de 2013 -, que também era um possível candidato a cabeça-de-lista do CSV em 2018, que outras opções restam ao partido?
O actual presidente do CSV? Eleito em Março, Marc Spautz é mecânico de formação, entrou na política comunal em 1994 (Schifflange), foi secretário-geral do LCGB (1998-2009), chegou ao Parlamento em 2004, foi secretário-geral do partido (2009-2012), presidente do grupo parlamentar do CSV (2011-2013) e ministro da Família durante seis meses, em 2013.
E quanto a Claude Wiseler, o novo presidente da bancada parlamentar cristã-social? Foi secretário-geral do CSV (1995-2000), chegou ao Parlamento em 1999, foi vereador da capital (2000-2004), ministro da Função Pública (2004-200) e das Obras Públicas (2004-2013). É casado com a portuguesa Isabel Santos Lima, conselheira comunal da capital.
No entanto, Spautz e Wiseler – pelo pouco que conheço do primeiro e apesar da simpatia que me inspira o segundo -, não têm o carisma nem os apoios que Frieden e Biltgen tinham no partido. Ou será que antes de 2018 assistiremos ao regresso de Biltgen? O seu mandato no Tribunal de Contas termina em 2015, mas pode depois ser reconduzido por seis anos.
Uma outra opção do CSV parece ser Viviane Reding, comissária europeia da Justiça e dos Media, que em Setembro deixa o lugar, já que um outro luxemburguês – Juncker – fará parte da Comissão. Foi aliás graças a esta última pasta dos Media que Reding alcançou notoriedade, pois venceu o braço-de-ferro com as operadoras de telefonia móvel para fazer baixar os preços do ’roaming’. Entre 1978 e 1999, Reding foi jornalista no Luxemburger Wort. Em 1979 foi eleita para a Câmara dos Deputados, onde esteve até ser nomeada para Bruxelas (Comissão Prodi) em 1999, transitando depois para a Comissão Barroso. Como candidata a futura cabeça-de-lista do CSV, Reding tem do seu lado o facto de nunca ter sido ministra, de poder assim vir a protagonizar uma renovação de que o partido tanto precisa, e de contar com o reconhecimento que o seu cargo em Bruxelas lhe deu. O facto de ser uma mulher pode também jogar na vontade de o partido se mostrar mais moderno. Tudo isto depende, obviamente, de Reding querer ou não regressar à política doméstica ou se visa outros horizontes.
Destes nomes, quais são os que realmente vão ter o apoio dos militantes do CSV e quais são os que vão aceitar o desafio, mostrando já a partir de Setembro que preparam a agenda de 2018? A ’rentrée’ política o dirá.
Para já, disfrutemos da ’silly season’, de notícias mais leves e aproveitemos o bom tempo no Luxemburgo, enquanto dura.
José Luís Correia,
in CONTACTO, 16/07/2014
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domingo, 13 de julho de 2014
quinta-feira, 10 de julho de 2014
Deolinda regressam a Dudelange a 12 de Julho
Depois de se terem estreado no Grão-Ducado em Outubro de 2010, em Dudelange, os Deolinda regressam à mesma cidade para um novo concerto, desta feita no Parc Leh’, no próximo sábado, 12 de Julho.
Os Deolinda são um quarteto lisboeta de música pop(ular) portuguesa acústica composto por Ana Bacalhau (voz), Pedro Silva Martins (guitarra e composição), Zé Pedro Leitão (contrabaixo e piano) e Luís Silva Martins (guitarra clássica, banjolim e “sinos”).
A música dos Deolinda está entre o fado e qualquer coisa de lisboeta, de vadio, boémio. É uma música que respira bom humor, alegria, vida, que mistura o castiço com a modernidade, tudo servido com sonoridades “roubadas” ao pop, ao jazz, ao samba, à ranchera mexicana e até à música do Haiti. A cereja no topo do bolo é a voz petulante e o gingar de Ana Bacalhau.
Nos últimos seis anos, o grupo dominou os tops de vendas com os multi-platinados álbuns “Canção ao Lado” (2008) e “2 Selos e um Carimbo” (2010), acumulando diversas distinções, tais como dois Globos de Ouro, um prémio Amália Rodrigues, um prémio José Afonso e um Songlines Music Award. Os Deolinda regressam agora ao Luxemburgo para apresentar o seu terceiro álbum de originais, “Mundo Pequenino”. Um dos músicos que participou neste álbum foi o percussionista Sérgio Nascimento. “Mundo Pequenino” foi gravado nos Boomstudios, em Vila Nova de Gaia, e foi produzido pelo britânico Jerry Boys e pela própria banda. O concerto dos Deolinda acontece no âmbito do festival de música “Summerstage”, no Parc Le’h, em Dudelange, e começa às 20h, no dia 12 de Julho. Os bilhetes custam 20 euros em pré-venda e 25 euros na bilheteira.
Os bilhetes para os três dias do festival custam 35 euros. Há ainda uma ementa especial “Summerstage”, disponível por 70 euros (que inclui um bilhete de entrada). Mais informações pelo tel. 51 99 90. ALINE
Aline Frazão também em palco
Aline Frazão é outro dos nomes lusófonos que sobem ao palco do “Summerstage” nessa noite. A cantora e compositora angolana Nasceu em Luanda, em 1988, mas vive actualmente em Barcelona.
Em 2011 lançou o seu primeiro disco de originais, “Clave Bantu”, com produção musical do contra-baixista cubano José Manuel Diaz. O disco conta ainda com duas parcerias com os escritores angolanos José Eduardo Agualusa e Ondjaki. “Movimento”, editado em 2013 pela PontoZurca, é o seu segundo álbum, onde assina a produção musical e a composição de todos os temas. Um deles é uma letra de Carlos Ferreira, jornalista e poeta angolano. Outro é o poema “Ronda”, de Alda Lara.
No palco, acompanham-na neste momento os músicos Marco Pombinho (piano e rhodes), Marcos Alves (bateria e percussão) e Francesco Valente (baixo e contrabaixo).
JLC
in CONTACTO, 09/07/2014
quinta-feira, 3 de julho de 2014
Editorial: Uma nova era
O mundo financeiro fala na “retoma” e no fim de uma ressaca que dura desde 2008. Os indicadores económicos europeus e americanos parecem realmente querer voltar a arrancar. A última grande depressão, de 1929, durou quanto tempo? Cinco, seis, sete anos? Ou só se diluiu realmente sob o impulso económico da II Guerra Mundial?
A História, feita de golpes e contra-golpes, avanços e solavancos, detesta ’replays’. Muitas vezes são os homens que gostam de pensar que esta se repete e que eles – politólogos, historiadores, adivinhos – conseguem prever o que aí vem. A verdade é que nunca nada acontece duas vezes da mesma forma.
2014 não será como 1914 o fim de uma época e o início de uma nova era. No entanto, é curioso verificar que o século XX terminou da mesma forma como começou o seguinte. No pó. “O Século Sangrento” ou “A Era dos Extremos”, como lhe chamou Hobsbawn, findou no pó que ficou depois de o muro ruir em Berlim, o que permitiu reunificar a Alemanha e à UE crescer para leste.
O século XXI iniciou-se da mesma forma, com muros a ruir, os das torres gémeas de Nova Iorque. Mas enquanto o colapso do muro da vergonha permitiu reunir povos, a queda do World Trade Center tornou visível uma muralha que se tinha erguido num silêncio amordaçado por décadas de hegemonia ocidental e separava o eixo EUA/Europa, centrado num crescimento económico exponencial, e uma parte do mundo árabe, que se radicalizara. Este “segundo mundo” recusava continuar a ser explorado e a ser gerador da riqueza do primeiro. A jihad apregoada pelos fundamentalistas islâmicos não é uma guerra santa, mas económica.
Obama venceu duas eleições com a promessa de que marcaria a diferença com os seus predecessores. Externamente, não o tem conseguido, a retirada das tropas do Iraque e do Afeganistão está por cumprir, o petróleo ainda fala mais alto. Mas os EUA têm feito esforços para não continuar a depender tanto do exterior neste sector. Obama tem apostado, mais do que qualquer administração americana anterior, nas energias renováveis.
A “revolução” pode vir do interior mesmo do sector que tem comandado, mais do que qualquer outro, a política externa norte-americana no último meio-século. Os EUA acabam de autorizar os produtores americanos de brent a voltar a exportar petróleo bruto, algo que não acontecia desde o choque petrolífero de 1973. Esta decisão deve-se à exploração das jazidas de petróleo de xisto no seu próprio território, cujas reservas são estimadas em décadas. Esta autonomia energética, com a qual Washington não vivia há mais de 50 anos, pode levar a uma mudança completa da sua política externa e, consequentemente, de todo o xadrez mundial.
E a Europa, vive um novo alento? A Alemanha, a França, o Luxemburgo e até Portugal falam nos indicadores da retoma económica. Politicamente também, o tabuleiro europeu parece (re)compôr-se e anunciar uma nova era: Juncker, ano 1.
Porque será que David Cameron se mostrou tão hostil ao luxemburguês? Talvez porque sabe que aquilo de que a UE dividida e em crise precisa urgentemente é de alguém que federe e não que separe. Para o Reino Unido – que há mais de 30 anos está com um pé dentro, outro fora da UE e um olho em Washington –, uma Europa aos solavancos não prejudica os interesses insulares, muito pelo contrário.
Juncker é dos poucos políticos (senão o único) ainda em exercício a ter estado na negociação e assinatura do Tratado de Maastricht, que prevê uma UE ainda por acontecer. Talvez seja dos poucos também que neste momento saibam mostrar o caminho à UE, aquele para a qual foi pensada e fundada. A UE precisa de sair de dez anos de status quo barrosista, precisa de um representante forte e carismático. Será Juncker esse homem?
Na política nacional, durante 18 anos, Juncker foi o sucessor providencial de Werner e Santer. Com o seu falar franco, por vezes demasiado coloquial, não hesitou em ir a contra-corrente da opinião pública (os luxemburgueses pretendiam votar contra a Constituição Europeia, Juncker ameaçou demitir-se e os resultados do sufrágio desmentiram as intenções de voto) e mesmo dentro do próprio partido.
Claro que há insucessos na sua política – o preço do imobiliário, o voto dos estrangeiros nas legislativas, o insucesso escolar dos alunos estrangeiros, etc. – mas é preciso recordar que foi ele que esteve na origem das leis que permitiram o voto dos estrangeiros nas comunais, a dupla nacionalidade (durante anos o CSV foi contra ambas, mas finalmente adoptou a posição de Juncker), o aborto, a eutanásia e até a lei anti-tabaco (sendo ele próprio um grande fumador), bem como a do casamento homossexual.
Foi nomeado para primeiro presidente do Eurogrupo em 2005, cargo que exerceu de forma exímia durante oito anos. Foi sob o mandato do “Senhor Euro”, como era apelidado, que foram lançados os planos de salvamento dos bancos e dos Estados, e concebidos os mecanismos de socorro que deverão prevenir futuras fragilidades das economias europeias. Foi ainda um dos únicos a opôr-se de forma aberta e veemente à austeridade na Europa, que Merkel pretendia ainda mais rigorosa.
Não sei se Juncker terá remédio para todos os males da Europa. Pessoalmente, tenho a esperança que Juncker encontre uma solução para a calamidade humanitária que se vive diariamente às portas da UE e que constitui uma vergonha perante o exemplo civilizacional europeu que pretendemos dar: milhares de imigrantes africanos, entre eles muitas crianças, atravessam o Mediterrâneo em busca da Europa prometida. Muitos não chegam cá, as embarcações sobrelotadas viram-se e matam sem olhar a religiões, raças e idades. Os que chegam aos nossos portões, deparam-se com a fortaleza que a Frontex montou e são enxotados como moscas de volta para uma vida de miséria.
Quando Juncker era ministro das Finanças, o Luxemburgo apostou numa solução a longo prazo como uma das soluções à imigração: o investimento e a ajuda ao desenvolvimento no país de origem da imigração. O exemplo com Cabo Verde é expressivo: a cooperação ao desenvolvimento neste arquipélago ajudou a diminuir a imigração cabo-verdiana, em geral, e para o Grão-Ducado, em particular.
Para muitos políticos, Juncker tem um grande defeito: tem sempre uma opinião e não a cala, mesmo quando não é politicamente correcta. Um dia respondeu aos jornalistas: “Nós, os políticos, sabemos bem o que é preciso fazer [para resolver a crise financeira]. O que não sabemos é como ser reeleitos!”.
Sem falsos pudores sobre os seus próprios defeitos e qualidades, directo, sem saber falar “politiquês”, pragmático e prático, é de um homem assim que a UE precisa.
José Luís Correia,
in CONTACTO. 02/07/2014
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sexta-feira, 25 de abril de 2014
Commentaire: Les Portugais veulent une nouvelle révolution!
Pour beaucoup de Portugais, le sentiment aujourd’hui est de déception, face à ce que beaucoup d'entre eux considèrent comme une trahison des idéaux du 25 avril 1974.
Le Portugal fête aujourd’hui les 40 ans de la Révolution des Oeillets. Les esprits devraient être à la fête, pour commémorer une révolution qui est entrée dans l’histoire comme un coup d’Etat pacifique, sans presque aucune effusion de sang, une révolution à la portugaise, menée par le peuple aux “moeurs douces”, fleurs aux fusils. Une révolution pacifique donc, mais dans la détermination à se défaire d'une dictature oppressante et obscurantiste qui a tyrannisé le pays pendant presque un demi-siècle, qui l’a embourbé dans une guerre coloniale le laissant exsangue de ses finances et de sa jeunesse, l’a isolé sur le plan international et a presque éteint l’étincelle de démocratie née avec la Première République (1910-1926).
Cependant, pour beaucoup de Portugais, le sentiment aujourd’hui est de déception, face à ce que beaucoup d'entre eux considèrent comme une trahison des idéaux du 25 avril 1974. L’austérité imposée par la Troïka n'est pas due à la frivolité économique avec laquelle beaucoup de Portugais auraient vécu pendant les années 90 et au début des années 2000, selon l'insinuation du p.d.g. d’un grand groupe économique portugais. L'homme qui a encouragé le crédit irresponsable et à tout crin (même pour passer des vacances en République Dominicaine), c’est Vitor Constâncio, qui fut gouverneur de la Banque Centrale portugaise et est aujourd'hui un des vice-présidents de la BCE.
Le pays se trouve dans l’état qui est le sien aujourd'hui à cause de dérives comme celle-ci et d’autres encore du pouvoir politique des 20 dernières années, qu’il soit de droite ou de gauche (Cavaco Silva, António Guterres et José Socrates). Beaucoup de députés portugais sont bien plus affairés à servir leur propres intérêts, ceux des entreprises et des puissantes études d’avocats pour lesquels ils travaillent parallèlement à leurs fonctions au Parlement, qu’à servir le peuple qu’ils sont appelés à représenter.
Aujourd’hui le peuple est libre, mais beaucoup manquent de pain. “Il n’y aura de vraie liberté que lorsqu'il y aura la paix, du pain, des logements, la santé et l'éducation”, chantait déjà Sérgio Godinho en 1974. La paix seule est acquise... pour l’instant. Pour le reste il s'agit de conquêtes qui souffrent une érosion, et qui échappent à chaque fois à plus de Portugais. La faim et la misère sont à nouveau dans les rues. Dans les rues d’un pays de l’UE, pourtant considérée comme un exemple civilisationnel et politique.
Le peuple s’exaspère et proteste: les trois D du 25 avril 1974 – “démocratiser, développer et décoloniser” – ce peuple les remplace désormais par trois nouveaux “D”: désobéir, “dé-troiker” (sortir de la troika) et démettre (le gouvernement). Le peuple manifeste, mais finit par émigrer. Il n’y avait pas autant d’émigration (plus de 100.000 par an) depuis les années 60. Les Portugais fuyaient alors la dictature et la misère, aujourd’hui ils fuient à la recherche d’un avenir que leur propre pays leur refuse.
José Luis Correia
in "Luxemburger Wort", 25.04.2014
Le Portugal fête aujourd’hui les 40 ans de la Révolution des Oeillets. Les esprits devraient être à la fête, pour commémorer une révolution qui est entrée dans l’histoire comme un coup d’Etat pacifique, sans presque aucune effusion de sang, une révolution à la portugaise, menée par le peuple aux “moeurs douces”, fleurs aux fusils. Une révolution pacifique donc, mais dans la détermination à se défaire d'une dictature oppressante et obscurantiste qui a tyrannisé le pays pendant presque un demi-siècle, qui l’a embourbé dans une guerre coloniale le laissant exsangue de ses finances et de sa jeunesse, l’a isolé sur le plan international et a presque éteint l’étincelle de démocratie née avec la Première République (1910-1926).
Cependant, pour beaucoup de Portugais, le sentiment aujourd’hui est de déception, face à ce que beaucoup d'entre eux considèrent comme une trahison des idéaux du 25 avril 1974. L’austérité imposée par la Troïka n'est pas due à la frivolité économique avec laquelle beaucoup de Portugais auraient vécu pendant les années 90 et au début des années 2000, selon l'insinuation du p.d.g. d’un grand groupe économique portugais. L'homme qui a encouragé le crédit irresponsable et à tout crin (même pour passer des vacances en République Dominicaine), c’est Vitor Constâncio, qui fut gouverneur de la Banque Centrale portugaise et est aujourd'hui un des vice-présidents de la BCE.
Le pays se trouve dans l’état qui est le sien aujourd'hui à cause de dérives comme celle-ci et d’autres encore du pouvoir politique des 20 dernières années, qu’il soit de droite ou de gauche (Cavaco Silva, António Guterres et José Socrates). Beaucoup de députés portugais sont bien plus affairés à servir leur propres intérêts, ceux des entreprises et des puissantes études d’avocats pour lesquels ils travaillent parallèlement à leurs fonctions au Parlement, qu’à servir le peuple qu’ils sont appelés à représenter.
Aujourd’hui le peuple est libre, mais beaucoup manquent de pain. “Il n’y aura de vraie liberté que lorsqu'il y aura la paix, du pain, des logements, la santé et l'éducation”, chantait déjà Sérgio Godinho en 1974. La paix seule est acquise... pour l’instant. Pour le reste il s'agit de conquêtes qui souffrent une érosion, et qui échappent à chaque fois à plus de Portugais. La faim et la misère sont à nouveau dans les rues. Dans les rues d’un pays de l’UE, pourtant considérée comme un exemple civilisationnel et politique.
Le peuple s’exaspère et proteste: les trois D du 25 avril 1974 – “démocratiser, développer et décoloniser” – ce peuple les remplace désormais par trois nouveaux “D”: désobéir, “dé-troiker” (sortir de la troika) et démettre (le gouvernement). Le peuple manifeste, mais finit par émigrer. Il n’y avait pas autant d’émigration (plus de 100.000 par an) depuis les années 60. Les Portugais fuyaient alors la dictature et la misère, aujourd’hui ils fuient à la recherche d’un avenir que leur propre pays leur refuse.
José Luis Correia
in "Luxemburger Wort", 25.04.2014
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Os portugueses querem um novo 25 de Abril!
Portugal festeja hoje os 40 anos da Revolução dos Cravos. O sentimento hoje deveria ser de festa, para comemorar uma revolução que ficou na história como um golpe militar pacífico, em que praticamente não houve efusão de sangue, uma revolução à portuguesa, levada pelo povo dos brandos costumes, feita com flores nos canos das espingardas. Brandos, pacíficos, mas firmes na decisão de retirar do poder a ditadura opressora e obscurantista que tiranizou o país durante quase meio século, o enlameou numa guerra colonial que deixava o país exangue das suas finanças e da sua juventude, o isolou internacionalmente e quase extinguiu a faísca de democracia que tinha nascido com a Primeira República (1910-1926).
No entanto, para muitos portugueses, o sentimento no dia de hoje é de desilusão, perante o que muitos consideram uma traição aos ideais do 25 de Abril de 74. A austeridade imposta pela troika não se deveu à leviandade económica com que muitos portugueses teriam vivido nos anos 90 e início dos anos 2000, como chegou a acusar o gestor de um grande grupo económico português. Quem incentivou o crédito irresponsável a torto e a direito (até para passar férias na República Dominicana) foi Vitor Constâncio, que era governador do Banco de Portugal e é hoje um dos vices-presidentes do BCE.
O país está no estado em que está devido a essas e outras derivas do poder politico nos últimos 20 anos, quer seja de direita como de esquerda (cavaquismo, guterrismo, socratismo). Muitos deputados estão bem mais atarefados a defender os seus próprios interesses, os das empresas e os dos poderosos gabinetes de advogados a que pertencem e para os quais trabalham, paralelamente às suas funções no Parlamento, do que em servir o povo que são suposto representar.
Hoje o povo é livre, mas muitos não têm pão. "Só há liberdade a sério quando houver a paz, o pão, habitação, saúde, educação", já cantava Sérgio Godinho em 1974. A paz é a única que é garantida... para já. As outras conquistas têm vindo a sofrer de erosão, e vão escapando a cada vez mais portugueses. A fome e a miséria voltaram às ruas. Às ruas de um país da UE, que é considerada um exemplo civilizacional e político.
O povo exaspera-se e protesta: os três D - democratizar, desenvolver e descolonizar - do 25 de Abril, os portugueses substituiram-nos por três novos “D”: desobedecer, “destroikar” e demitir [o Governo]. O povo manifesta-se, mas acaba por emigrar. Não havia tanta emigração (mais de 100 mil por ano) desde os anos 60. Fugiam da ditadura e da miséria, hoje fogem em busca de um futuro que o seu próprio país lhes quer negar.
José Luís Correia
in Luxemburger Wort, 25/04/2014 (Der Kommentar, seite 3)
__________________________________________
(version française)
Les portugais veulent un nouvelle révolution!
Le Portugal fête aujourd’hui les 40 ans de la Révolution des Oeillets. Les esprits devraient être à la fête, pour commémorer une révolution qui est entrée dans l’histoire comme un coup d’Etat pacifique, sans presque aucune effusion de sang, une révolution à la portugaise, menée par le peuple aux “moeurs douces”, fleurs aux fusils. Une révolution pacifique donc, mais dans la détermination à se défaire d'une dictature oppressante et obscurantiste qui a tyrannisé le pays pendant presque un demi-siècle, qui l’a embourbé dans une guerre coloniale le laissant exsangue de ses finances et de sa jeunesse, l’a isolé sur le plan international et a presque éteint l’étincelle de démocratie née avec la Première République (1910-1926).
Cependant, pour beaucoup de Portugais, le sentiment aujourd’hui est de déception, face à ce que beaucoup d'entre eux considèrent comme une trahison des idéaux du 25 avril 1974.
L’austérité imposée par la Troïka n'est pas due à la frivolité économique avec laquelle beaucoup de Portugais auraient vécu pendant les années 90 et au début des années 2000, selon l'insinuation du p.d.g. d’un grand groupe économique portugais. L'homme qui a encouragé le crédit irresponsable et à tout crin (même pour passer des vacances en République Dominicaine), c’est Vitor Constâncio, qui fut gouverneur de la Banque Centrale portugaise et est aujourd'hui un des vice-présidents de la BCE.
Le pays se trouve dans l’état qui est le sien aujourd'hui à cause de dérives comme celle-ci et d’autres encore du pouvoir politique des 20 dernières années, qu’il soit de droite ou de gauche (Cavaco Silva, António Guterres et José Socrates).
Beaucoup de députés portugais sont bien plus affairés à servir leur propres intérêts, ceux des entreprises et des puissantes études d’avocats pour lesquels ils travaillent parallèlement à leurs fonctions au Parlement, qu’à servir le peuple qu’ils sont appelés à représenter.
Aujourd’hui le peuple est libre, mais beaucoup manquent de pain. “Il n’y aura de vraie liberté que lorsqu'il y aura la paix, du pain, des logements, la santé et l'éducation”, chantait déjà Sérgio Godinho en 1974. La paix seule est acquise... pour l’instant. Pour le reste il s'agit de conquêtes qui souffrent une érosion, et qui échappent à chaque fois à plus de Portugais. La faim et la misère sont à nouveau dans les rues. Dans les rues d’un pays de l’UE, pourtant considérée comme un exemple civilisationnel et politique. Le peuple s’exaspère et proteste: les trois D du 25 avril 1974 – “démocratiser, développer et décoloniser” – ce peuple les remplace désormais par trois nouveaux “D”: désobéir, “dé-troiker” (sortir de la troika) et démettre (le gouvernement). Le peuple manifeste, mais finit par émigrer. Il n’y avait pas autant d’émigration (plus de 100.000 par an) depuis les années 60. Les Portugais fuyaient alors la dictature et la misère, aujourd’hui ils fuient à la recherche d’un avenir que leur propre pays leur refuse.
José Luís Correia
(in wort.lu/de, 25/04/2014)
No entanto, para muitos portugueses, o sentimento no dia de hoje é de desilusão, perante o que muitos consideram uma traição aos ideais do 25 de Abril de 74. A austeridade imposta pela troika não se deveu à leviandade económica com que muitos portugueses teriam vivido nos anos 90 e início dos anos 2000, como chegou a acusar o gestor de um grande grupo económico português. Quem incentivou o crédito irresponsável a torto e a direito (até para passar férias na República Dominicana) foi Vitor Constâncio, que era governador do Banco de Portugal e é hoje um dos vices-presidentes do BCE.
O país está no estado em que está devido a essas e outras derivas do poder politico nos últimos 20 anos, quer seja de direita como de esquerda (cavaquismo, guterrismo, socratismo). Muitos deputados estão bem mais atarefados a defender os seus próprios interesses, os das empresas e os dos poderosos gabinetes de advogados a que pertencem e para os quais trabalham, paralelamente às suas funções no Parlamento, do que em servir o povo que são suposto representar.
Hoje o povo é livre, mas muitos não têm pão. "Só há liberdade a sério quando houver a paz, o pão, habitação, saúde, educação", já cantava Sérgio Godinho em 1974. A paz é a única que é garantida... para já. As outras conquistas têm vindo a sofrer de erosão, e vão escapando a cada vez mais portugueses. A fome e a miséria voltaram às ruas. Às ruas de um país da UE, que é considerada um exemplo civilizacional e político.
O povo exaspera-se e protesta: os três D - democratizar, desenvolver e descolonizar - do 25 de Abril, os portugueses substituiram-nos por três novos “D”: desobedecer, “destroikar” e demitir [o Governo]. O povo manifesta-se, mas acaba por emigrar. Não havia tanta emigração (mais de 100 mil por ano) desde os anos 60. Fugiam da ditadura e da miséria, hoje fogem em busca de um futuro que o seu próprio país lhes quer negar.
José Luís Correia
in Luxemburger Wort, 25/04/2014 (Der Kommentar, seite 3)
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(version française)
Les portugais veulent un nouvelle révolution!
Le Portugal fête aujourd’hui les 40 ans de la Révolution des Oeillets. Les esprits devraient être à la fête, pour commémorer une révolution qui est entrée dans l’histoire comme un coup d’Etat pacifique, sans presque aucune effusion de sang, une révolution à la portugaise, menée par le peuple aux “moeurs douces”, fleurs aux fusils. Une révolution pacifique donc, mais dans la détermination à se défaire d'une dictature oppressante et obscurantiste qui a tyrannisé le pays pendant presque un demi-siècle, qui l’a embourbé dans une guerre coloniale le laissant exsangue de ses finances et de sa jeunesse, l’a isolé sur le plan international et a presque éteint l’étincelle de démocratie née avec la Première République (1910-1926).
Cependant, pour beaucoup de Portugais, le sentiment aujourd’hui est de déception, face à ce que beaucoup d'entre eux considèrent comme une trahison des idéaux du 25 avril 1974.
L’austérité imposée par la Troïka n'est pas due à la frivolité économique avec laquelle beaucoup de Portugais auraient vécu pendant les années 90 et au début des années 2000, selon l'insinuation du p.d.g. d’un grand groupe économique portugais. L'homme qui a encouragé le crédit irresponsable et à tout crin (même pour passer des vacances en République Dominicaine), c’est Vitor Constâncio, qui fut gouverneur de la Banque Centrale portugaise et est aujourd'hui un des vice-présidents de la BCE.
Le pays se trouve dans l’état qui est le sien aujourd'hui à cause de dérives comme celle-ci et d’autres encore du pouvoir politique des 20 dernières années, qu’il soit de droite ou de gauche (Cavaco Silva, António Guterres et José Socrates).
Beaucoup de députés portugais sont bien plus affairés à servir leur propres intérêts, ceux des entreprises et des puissantes études d’avocats pour lesquels ils travaillent parallèlement à leurs fonctions au Parlement, qu’à servir le peuple qu’ils sont appelés à représenter.
Aujourd’hui le peuple est libre, mais beaucoup manquent de pain. “Il n’y aura de vraie liberté que lorsqu'il y aura la paix, du pain, des logements, la santé et l'éducation”, chantait déjà Sérgio Godinho en 1974. La paix seule est acquise... pour l’instant. Pour le reste il s'agit de conquêtes qui souffrent une érosion, et qui échappent à chaque fois à plus de Portugais. La faim et la misère sont à nouveau dans les rues. Dans les rues d’un pays de l’UE, pourtant considérée comme un exemple civilisationnel et politique. Le peuple s’exaspère et proteste: les trois D du 25 avril 1974 – “démocratiser, développer et décoloniser” – ce peuple les remplace désormais par trois nouveaux “D”: désobéir, “dé-troiker” (sortir de la troika) et démettre (le gouvernement). Le peuple manifeste, mais finit par émigrer. Il n’y avait pas autant d’émigration (plus de 100.000 par an) depuis les années 60. Les Portugais fuyaient alors la dictature et la misère, aujourd’hui ils fuient à la recherche d’un avenir que leur propre pays leur refuse.
José Luís Correia
(in wort.lu/de, 25/04/2014)
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quinta-feira, 24 de abril de 2014
Fátima Marinho na Primavera dos Poetas do Luxemburgo, esta sexta e sábado
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| Foto: Primavera dos Poetas |
Fátima Marinho vai estar no Grão-Ducado na sexta e no sábado (25 e 26 de Abril), em três dos eventos da Primavera dos Poetas.
Na sexta-feira, a poetisa tem encontro marcado com alunos num dos liceus associados à edição deste ano do evento. À noite, pelas 19h, a autora vai estar na Kulturfabrik, em Esch-sur-Alzette, na abertura oficial da Primavera dos Poetas, na qual participam alguns dos 14 poetas de 13 países europeus convidados este ano pela edição luxemburguesa deste festival europeu.
No dia seguinte, sábado, há a já habitual “Grande Noite da Poesia”, na Abadia de Neumünster, no Grund, com todos os poetas convidados. O serão, com entrada livre, é animado com música e gastronomia, e divide-se em duas partes: leitura de poemas e “jam session” poética.
Fátima Marinho nasceu em 1966 em Cuba e reside actualmente em Braga. O seu mais recente livro intitula-se “Ama-me sem me suportares!” (Editora Alphabetum). Foi professora e é co-autora com Eduarda Costa da colecção de livros escolares “Magia do Saber” (Porto Editora). Foi ainda adjunta do secretário de Estado da Educação. Dirigiu várias associações culturais e de apoio às crianças e jovens em risco, e desenvolveu projectos contra a violência no meio escolar.
Por tradição, a Primavera dos Poetas no Luxemburgo convida sempre um autor português ou lusófono. Já passaram pelo evento nomes como Vasco Graça Moura, Nuno Júdice, Mário de Carvalho, Rosa Alice Branco, Valter Hugo Mãe ou José Luís Peixoto.
A Primavera dos Poetas é uma iniciativa que nasceu em França e no Quebec (Canadá) em 1999, por iniciativa do então ministro francês da Cultura Jack Lang e do poeta francês Jean-Pierre Siméon.
Logo em 1999, o Luxemburgo organizou também o evento, por iniciativa do poeta italo-luxemburguês Jean Portante. Mas só em 2008 foi criado no Luxemburgo um Comité para a organização da Primavera dos Poetas-Luxemburgo (PPL). Assim, para alguns, esta é a 15a edição da Primavera dos Poetas no Luxemburgo, enquanto para outros é a sétima.
João Tordo a 8 de Maio no Luxemburgo
Também o escritor português João Tordo é um dos autores que a Primavera dos Poetas-Luxemburgo vai trazer este ano ao Grão-Ducado.
Integrado no seu programa “Périphériques du Printemps des Poètes”, o filho de Fernando Tordo vai estar a 8 de Maio no Centro Cultural Camões, na cidade do Luxemburgo, para falar da sua obra e do seu último romance, “Biografia Involuntária dos Amantes”.
João Tordo nasceu em Lisboa em 1975. Licenciou-se em Filosofia e estudou Jornalismo e Escrita Criativa em Londres e Nova Iorque. Em 2001, venceu o Prémio Jovens Criadores na categoria de Literatura. Publicou os romances “O Livro dos Homens sem Luz” (2004), “Hotel Memória” (2007), “As Três Vidas” (2008), que recebeu o Prémio Literário José Saramago e cuja edição brasileira foi, em 2011, finalista do Prémio Portugal Telecom; “O Bom Inverno” (2010), finalista do prémio Melhor Livro de Ficção Narrativa da Sociedade Portuguesa de Autores e do Prémio Literário Fernando Namora, cuja tradução francesa integra as obras seleccionadas para a 6ª edição do Prémio Literário Europeu; e “Anatomia dos Mártires” (2011), finalista do Prémio Literário Fernando Namora.
O seu mais recente romance,”Biografia Involuntária dos Amantes”, saiu há poucas semanas. Os seus livros estão publicados em França, Itália, Brasil, Sérvia e Croácia. João Tordo trabalha ainda como cronista, tradutor e guionista.
José Luís Correia
(in CONTACTO, 02/04/2014)
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quarta-feira, 2 de abril de 2014
Os emigrantes são cidadãos de segunda
Está convocada para hoje (2 de Abril), uma manifestação frente ao Consulado de Portugal na cidade do Luxemburgo, para reivindicar mais funcionários e mais meios, de modo a este poder responder de forma mais adequada ao contínuo aumento da comunidade portuguesa no Luxemburgo.
Hoje somos 120 mil. Mas quando éramos 80 mil, no virar do século, a situação era igual, ou 60 mil nos anos 90, ou mesmo 30 mil nos anos 80. Uma das únicas coisas que não mudou na comunidade portuguesa do Luxemburgo, e que me lembro, é o descontentamento com os serviços consulares.
Nos anos 70 e 80, eram vergonhosas as filas que se formavam diariamente, logo desde madrugada, na Allée Scheffer. Quando o Consulado se mudou para a rue du Fort Rheinsheim (no fim dos anos 80), as filas foram apenas deslocalizadas. E novamente, em 2007, quando o Consulado se mudou para a route de Longwy, as instalações melhoraram, mas os tempos de espera intermináveis voltam de quando em vez. Dependia por vezes de um(a) cônsul, que tentava inovar com este ou aquele sistema de atendimento diferente, ou dos funcionários que aumentavam (magramente) ou diminuiam (drasticamente) consoante o bem querer dos governos que se iam sucededendo na “metrópole”. Recorro propositadamente ao vocabulário salazarento, porque é assim que somos tratados por Lisboa, como uma longíqua colónia, como portugueses de segunda.
Como muito bem fez notar o conselheiro das Comunidades, Eduardo Dias, que convocou a manifestação de hoje, a população portuguesa representa, actualmente no Grão-Ducado, a de um concelho de dimensões médias em Portugal, como Setúbal, Leiria ou Barcelos. Quantos funcionários públicos têm esses concelhos? Setúbal, 1.400, Leiria e Barcelos, 700. E o nosso Consulado? Uma dezena e meia!!! Uma dezena e meia de funcionários para atender 120 mil portugueses?!!
Uma dezena e meia que não podem fazer milagres, que são mal pagos, que viram os seus salários reduzidos com as regras da austeridade impostas por Lisboa, outros que continuam lá, apesar de o Consulado estar na mais pura das ilegalidades ao não lhes conceder os aumentos salariais a que a lei laboral luxemburguesa lhes dá direito.A solução do consulado itinerante foi positiva (apesar dos custos acrescidos que envolve para o utente), mas também já mostrou o seu limite.
A secretaria de Estado das Comunidades desculpa-se com a “austeridade”, mas é apenas uma palavra nova para um conceito que aplica às comunidades desde sempre. Desde os anos 70, do século passado, que os funcionários são insuficientes no Consulado. Além disso, por muitos cortes que sejam impostos por Lisboa, será que não há verbas para uma comunidade que só em 2013 enviou remessas de dinheiro para Portugal no valor de quase 80 milhões de euros?
Esta desconsideração pelas comunidades não se nota apenas nos magros recursos atribuídos às embaixadas e aos consulados. Quando se sabe que os cinco milhões de emigrantes espalhados pelo Mundo são representados por apenas quatro (4!) deputados na Assembleia da República, está tudo dito.
Felizmente nem todos nos fazem sentir cidadãos de segunda. O que faz falta nas relações Governo-Comunidades não são só verbas, são também homens como aquele que desapareceu na sexta-feira, o Dr. Carlos Correia.
Destacado para o Luxemburgo em 2004, como adido social, viu-se “empurrado” a assumir a responsabilidade do Instituto Camões quando o Governo decidiu que já não havia dinheiro para um adido cultural, e exonerou o então director do IC, Luís Gaivão, em 2006. Lisboa nem sequer pagava (e ainda hoje não paga, quem o faz é o Governo luxemburguês) a renda do espaço onde se encontra o IC, mas argumentava que não havia mais dinheiro para promover a cultura junto dos portugueses do Luxemburgo. Tudo isto ainda antes dos anos de ”austeridade”. Sem aumento de salário, sem meios nem recursos, Carlos Correia e a sua magra equipa, mantiveram o IC a funcionar, e com uma programação que não envergonhou Portugal.
Com o nosso jornal, Carlos Correia foi, como também era para todos os que o conheceram, acessível, disponível, simpático, amistoso no trato, sem tomar ofensa nem agravo mesmo quando criticávamos algo que emanasse do seu próprio serviço. Ao contrário de outros diplomatas que com tudo se melindram e que têm a epiderme sensível à menor crítica. Tivemos até uma diplomata que queria fazer uma “leitura prévia” das cartas à redacção que viéssemos a receber e que falassem do Consulado. Lembrei-lhe que a época do lápis azul tinha acabado, e nunca mais me convidou para almoçar.
Hoje, Joaquim Prazeres (e equipa), responsável pela Coordenação do Ensino, continua o trabalho de Carlos Correia à frente do IC, da mesma forma e do mesmo modo: sem meios nem recursos, mas corajoso e voluntarioso. São homens destes que salvam a imagem de Portugal e da nossa comunidade.
Só mais um exemplo: um outro adido, social e cultural, que a comunidade quis “fazer” cônsul (Rui Dias Costa). Mostrou sempre disponibilidade para as associações, e como respondia aos convites que estas lhe dirigiam para esta ou aquela festa, toda a gente pensava que ele era o cônsul e não o outro. O cônsul (o legítimo), diziam as rábulas radiofónicas que sobre se ele se faziam, não ia em ranchos nem charolas, “não bebia em copos de plástico” e ”gostava de cofiar o bigode novecentista”. “Ele não se mistura com portugueses de segunda”, dizia-se na comunidade.
Os portugueses do Luxemburgo e as comunidades em geral só pedem isso, ser tratados como cidadãos. Nem de primeira, nem de segunda. Cidadãos, ponto. E isso passa por ter serviços consulares eficientes e adequados à comunidade e por não ter de esperar horas, dias, até que alguém atenda um telefone para poder agendar uma marcação para renovar o passaporte ou o BI.
José Luís Correia
(in CONTACTO, de 02/04/2014)
Hoje somos 120 mil. Mas quando éramos 80 mil, no virar do século, a situação era igual, ou 60 mil nos anos 90, ou mesmo 30 mil nos anos 80. Uma das únicas coisas que não mudou na comunidade portuguesa do Luxemburgo, e que me lembro, é o descontentamento com os serviços consulares.
Nos anos 70 e 80, eram vergonhosas as filas que se formavam diariamente, logo desde madrugada, na Allée Scheffer. Quando o Consulado se mudou para a rue du Fort Rheinsheim (no fim dos anos 80), as filas foram apenas deslocalizadas. E novamente, em 2007, quando o Consulado se mudou para a route de Longwy, as instalações melhoraram, mas os tempos de espera intermináveis voltam de quando em vez. Dependia por vezes de um(a) cônsul, que tentava inovar com este ou aquele sistema de atendimento diferente, ou dos funcionários que aumentavam (magramente) ou diminuiam (drasticamente) consoante o bem querer dos governos que se iam sucededendo na “metrópole”. Recorro propositadamente ao vocabulário salazarento, porque é assim que somos tratados por Lisboa, como uma longíqua colónia, como portugueses de segunda.
Como muito bem fez notar o conselheiro das Comunidades, Eduardo Dias, que convocou a manifestação de hoje, a população portuguesa representa, actualmente no Grão-Ducado, a de um concelho de dimensões médias em Portugal, como Setúbal, Leiria ou Barcelos. Quantos funcionários públicos têm esses concelhos? Setúbal, 1.400, Leiria e Barcelos, 700. E o nosso Consulado? Uma dezena e meia!!! Uma dezena e meia de funcionários para atender 120 mil portugueses?!!
Uma dezena e meia que não podem fazer milagres, que são mal pagos, que viram os seus salários reduzidos com as regras da austeridade impostas por Lisboa, outros que continuam lá, apesar de o Consulado estar na mais pura das ilegalidades ao não lhes conceder os aumentos salariais a que a lei laboral luxemburguesa lhes dá direito.A solução do consulado itinerante foi positiva (apesar dos custos acrescidos que envolve para o utente), mas também já mostrou o seu limite.
A secretaria de Estado das Comunidades desculpa-se com a “austeridade”, mas é apenas uma palavra nova para um conceito que aplica às comunidades desde sempre. Desde os anos 70, do século passado, que os funcionários são insuficientes no Consulado. Além disso, por muitos cortes que sejam impostos por Lisboa, será que não há verbas para uma comunidade que só em 2013 enviou remessas de dinheiro para Portugal no valor de quase 80 milhões de euros?
Esta desconsideração pelas comunidades não se nota apenas nos magros recursos atribuídos às embaixadas e aos consulados. Quando se sabe que os cinco milhões de emigrantes espalhados pelo Mundo são representados por apenas quatro (4!) deputados na Assembleia da República, está tudo dito.
Felizmente nem todos nos fazem sentir cidadãos de segunda. O que faz falta nas relações Governo-Comunidades não são só verbas, são também homens como aquele que desapareceu na sexta-feira, o Dr. Carlos Correia.
Destacado para o Luxemburgo em 2004, como adido social, viu-se “empurrado” a assumir a responsabilidade do Instituto Camões quando o Governo decidiu que já não havia dinheiro para um adido cultural, e exonerou o então director do IC, Luís Gaivão, em 2006. Lisboa nem sequer pagava (e ainda hoje não paga, quem o faz é o Governo luxemburguês) a renda do espaço onde se encontra o IC, mas argumentava que não havia mais dinheiro para promover a cultura junto dos portugueses do Luxemburgo. Tudo isto ainda antes dos anos de ”austeridade”. Sem aumento de salário, sem meios nem recursos, Carlos Correia e a sua magra equipa, mantiveram o IC a funcionar, e com uma programação que não envergonhou Portugal.
Com o nosso jornal, Carlos Correia foi, como também era para todos os que o conheceram, acessível, disponível, simpático, amistoso no trato, sem tomar ofensa nem agravo mesmo quando criticávamos algo que emanasse do seu próprio serviço. Ao contrário de outros diplomatas que com tudo se melindram e que têm a epiderme sensível à menor crítica. Tivemos até uma diplomata que queria fazer uma “leitura prévia” das cartas à redacção que viéssemos a receber e que falassem do Consulado. Lembrei-lhe que a época do lápis azul tinha acabado, e nunca mais me convidou para almoçar.
Hoje, Joaquim Prazeres (e equipa), responsável pela Coordenação do Ensino, continua o trabalho de Carlos Correia à frente do IC, da mesma forma e do mesmo modo: sem meios nem recursos, mas corajoso e voluntarioso. São homens destes que salvam a imagem de Portugal e da nossa comunidade.
Só mais um exemplo: um outro adido, social e cultural, que a comunidade quis “fazer” cônsul (Rui Dias Costa). Mostrou sempre disponibilidade para as associações, e como respondia aos convites que estas lhe dirigiam para esta ou aquela festa, toda a gente pensava que ele era o cônsul e não o outro. O cônsul (o legítimo), diziam as rábulas radiofónicas que sobre se ele se faziam, não ia em ranchos nem charolas, “não bebia em copos de plástico” e ”gostava de cofiar o bigode novecentista”. “Ele não se mistura com portugueses de segunda”, dizia-se na comunidade.
Os portugueses do Luxemburgo e as comunidades em geral só pedem isso, ser tratados como cidadãos. Nem de primeira, nem de segunda. Cidadãos, ponto. E isso passa por ter serviços consulares eficientes e adequados à comunidade e por não ter de esperar horas, dias, até que alguém atenda um telefone para poder agendar uma marcação para renovar o passaporte ou o BI.
José Luís Correia
(in CONTACTO, de 02/04/2014)
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sábado, 29 de março de 2014
Morreu Carlos Correia, ex-adido social da Embaixada de Portugal no Luxemburgo
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| Foto: Álvaro Cruz |
“Lamento muito ter de informar que o Carlos Correia, meu chefe de gabinete faleceu hoje a meio da tarde, vitima de doença súbita. O Carlos era um grande Amigo com quem tive um percurso comum, de mais de 15 anos, ao serviço da causa das Comunidades. Era, sobretudo, UM HOMEM BOM, leal, generoso e muito dedicado. Paz à sua alma”, escreveu o secretário de Estado das Comunidades na sua página no Facebook, na sexta-feira.
Carlos Correia trabalhava como chefe de gabinete de José Cesário desde 2012, depois de ter estado durante oito anos no Luxemburgo, onde exerceu o cargo de adido social e cultural da Embaixada de Portugal, tendo ainda sido, entre 2006 e 2012, responsável pelo Instituto Camões no Grão-Ducado.
Depois da mensagem de José Cesário no Facebook multiplicaram-se as condolências na página do secretário de Estado, bem como mensagens sentidas em memória de Carlos Correia em páginas pessoais de responsáveis do movimento associativo português no Luxemburgo e de anónimos que privaram com o antigo diplomata.
“Acabei de ter a triste noticia que faleceu um grande amigo pessoal e um homem atento às migrações. O Dr. Carlos Correia, actual chefe de gabinete do secretário de Estado das Comunidades e ex-director do Instituto Camões do Luxemburgo, era um verdadeiro diplomata, sempre atento e sempre disponível. Obrigado Dr. Carlos Correia pelas suas últimas palavras de simpatia da passada terça-feira. Paz à sua alma e até um dia”, escreveu José Coimbra de Matos, presidente da Confederação da Comunidade Portuguesa no Luxemburgo (CCPL), na sua cronologia no Facebook.
Foi também através do Facebook que se exprimiu Eduardo Dias, conselheiro das Comunidades pelo Luxemburgo. “Carlos Correia morreu. Era um diplomata e um homem de terreno. Sempre disponível. Profundamente chocado, recordo um homem dedicado, elegante no trato, sensível. Com todas as contradições, foi um modelo de funcionário, alto funcionário, leal. Tive o prazer de ter convivido com ele, no Luxemburgo e em Portugal. Era um amigo! Morreu cedo e não merecia. Descanse em Paz!”.
Também o deputado do PSD eleito pela Emigração deixou uma mensagem de homenagem a Carlos Correia na sua página Facebook. “O falecimento do Dr. Carlos Pereira Correia é uma grande perda para as comunidades portuguesas. No exercício de funções de chefe de Gabinete de vários secretários de Estado da Emigração e das Comunidades Portuguesas e como conselheiro social em Paris, Luanda e Luxemburgo realizou um trabalho notável e que as comunidades não esquecem. Por onde passou deixou amigos e saudade porque era, antes de tudo, um homem bom. Não esqueço o apoio que me deu no início da minha carreira política pois sempre acreditou em mim e sempre mantive com ele uma relação de amizade, mas também tinha por ele uma enorme admiração. Sempre disponível, sempre pronto a ajudar os outros e, sobretudo, duma honestidade extraordinária. Lembro neste momento em que o Dr. Carlos Correia nos deixa os momentos que muitos de nós passaram com ele em Paris. Momentos inesquecíveis de encontros de amigos que nunca se apagarão. O que é importante na vida é a família e os amigos. Hoje perdemos um amigo e as comunidades portuguesas perderam alguém que era da sua família”, escreveu Gonçalves.
No momento da despedida, em Maio de 2012, ao CONTACTO, Carlos Correia garantia que não iria esquecer a sua passagem pelo Grão-Ducado. “Vivi no Luxemburgo uma experiência muito rica com a comunidade portuguesa, quer com o movimento associativo na sua globalidade – onde fiz muitos amigos –, quer na execução dos programas anuais de actividades do Instituto Camões. Levo a comunidade no coração”.
O funeral de Carlos Correia tem lugar no domingo à tarde na Igreja de Tercena, em Oeiras.
José Luís Correia
(in CONTACTO.LU, 29/03/2014)
quinta-feira, 6 de março de 2014
Putin que o pariu
Uma guerra entre dois estados europeus em pleno século XXI só podia ser parida por um filho da Put(in), um ex-expiãozeco com azia soviética, que depois de se destacar como um medíocre agente secreto, foi relegado a mero funcionário diligente do KGB, e que hoje aspira – bolorento, paranóico e saudosista –, a restabelecer a antiga glória e grandeza da URSS.
Ao recorrer à escalada militar na Crimeia, enviando milhares de soldados russos para a Ucrânia, Vladimir Putin não só violou a integridade territorial de um país europeu, como prova definitivamente que nunca digeriu a queda do muro de Berlim e o consequente colapso da União Soviética, dois acontecimentos históricos que trouxeram mais estabilidade à Europa.
É o que todos nós acreditamos. Putin não! Mas será que ao acenar com a bandeira vermelha de uma guerra na Europa, que acende em nós as piores memórias da nossa história recente, Putin não estará a fazer bluff?
Quando algo acontece na actualidade e cujos contornos ainda permanecem indefinidos, quando os analistas políticos ainda não decifraram claramente as motivações dos quem e dos porquês, por deformação profissional coloco-me sempre a mesma questão: isto beneficia quem?
A resposta a que cheguei, no caso de uma eventual guerra Rússia-Ucrânia, é que não beneficia ninguém: nem a Rússia, que se quer impor como um parceiro sério no xadrez económico e político internacional; nem os EUA, a braços com uma crise económica interna e que não têm interesse em embarcar numa nova guerra, que os seus cidadãos nunca apoiariam; nem a UE, que tem tudo a perder com um conflito armado no seu seio; e muito menos a Ucrânia, que não quer ser palco de um teatro de guerra sangrento.
Mas, destes todos, talvez a Rússia seja o país que realmente mais tem a perder. O valor do rublo nunca esteve tão baixo e desde que a crise com a Ucrânia piorou, ainda se deteriorou mais. Ao lançar-se numa guerra com a Ucrânia, a Rússia arrisca-se a perder o seu lugar no G8, pelo qual tanto lutou nos últimos anos. Perderia também os seus melhores clientes do mercado do gás, cujas condutas atravessam a Ucrânia para chegar à UE. E veria parte da sua economia bloqueada, com as contas bancárias dos seus dirigentes e oligarcas congeladas na UE. Mesmo se graças a este braço-de-ferro com Kiev, Putin nunca esteve melhor nas sondagens domésticas, ao intervir na Crimeia perderia toda a credibilidade internacional, ele que tanto tem defendido a não-ingerência na guerra civil síria.
A Península da Crimeia (dez vezes maior do que o Luxemburgo), no sul da Ucrânia, é para a Rússia um ponto estratégico. Militar primeiro, porque é lá que está estacionada a frota russa do mar Negro, no que é também o seu único acesso ao Mediterrâneo. Político e cultural também, porque os russos são a nacionalidade dominante da região e porque, historicamente, a Crimeia sempre foi russa. A região foi doada por Khrushchev à Ucrânia em 1954. Na altura, o gesto foi simbólico, já que a Ucrânia e a Crimeia faziam parte da URSS.
Mas revelou-se um presente envenenado quando, em 1991, os ucranianos se tornaram independentes, e a Crimeia lutou para ser uma região autónoma, não sem suscitar tensões com Kiev. Para continuar a ter ali a sua frota, Moscovo concordou em pagar uma renda anual à Ucrânia, num acordo benéfico para ambos os países e que expira em 2042. Mas sempre que o Governo de Kiev adopta uma preferência pró-UE (esta não é a primeira vez!), em detrimento da aproximação ancestral com a Rússia, as tensões agudizam-se.
Para muitos ucranianos, destituir Ianukovich significou livrar-se de um ditador que servia os interesses de Moscovo e que nem ucraniano falava. Para os pró-russos, o novo regime de Kiev é fascista, aliena-os do estatuto de protectorado da Mãe-Rússia de que gozavam, e a destituição de Ianukovich foi um golpe de Estado, incentivado pela UE e pelos EUA, o que não está longe da verdade.
Como em tudo, aqui há muitas áreas cinzentas e sobretudo muitos interesses económicos. Moscovo teme que os seus interesses sejam prejudicados na Ucrânia, com quem tem acordos económicos, como o do gás russo exportado para a UE. Se a Ucrânia pedir a adesão à UE, Putin terá de desistir da ambicionada "União Euroasiática" – bloco económico e político que Putin almeja constituir face à UE, da qual fazem já parte o Cazaquistão e a Bielorússia (ambos governados por ditadores pró-russos) –, e que sem Kiev não faz sentido.
Tudo isto leva a pensar que Putin está a fazer bluff. Nos últimos dias tem dado uma no cravo, outra na ferradura. No sábado, enviou mais tropas para a Crimeia, no domingo aceitou a mediação de Angela Merkel para dialogar com Kiev, na segunda-feira lançou um ultimato à Ucrânia, na terça mandou os seus soldados na Crimeia regressar às casernas. Quo vadis?
A ser bluff, este serve como mera demonstração de força, que visa provar toda a magnanimidade de Putin quando este propuser outras opções à guerra. Moscovo deverá então propor mais vantagens económicas e políticas à Ucrânia para que esta não se aproxime da UE. Putin pode ainda apresentar-se como salvador da Crimeia, exigindo a independência da região, o que a Ucrânia tem todo em interesse em aceitar, pouco perdendo com essa opção. Putin tem de mostrar que a Rússia é um gigante que não se deixa demover pelos seus vizinhos, nem pela UE, nem pelos EUA, nem por ninguém.
O povo amordaçado da Bielorússia está de olhos postos na crise do vizinho ucraniano. E o ditador pró-russo que dirige o país também. Lukashenko não quer ser outro Ianukovich. Putin tem de ter tudo isto em consideração e não mostrar parte fraca ao que considera uma provocação da Ucrânia. O seu pior pesadelo seria que o afastamento da Ucrânia da órbita de Moscovo contagiasse outras ex-repúblicas soviéticas que continuam, de bom ou mau grado, fiéis servos da Rússia. É um jogo perigoso o de Putin. Perigoso para a Rússia e para todos nós na Europa, afastada que pensávamos a possibilidade de uma nova guerra no nosso continente, onde a UE tem sido o garante de uma paz duradoura entre Estados, outrora inimigos ancestrais durante séculos.
Esperemos que esta crise se resolva e se torne apenas uma linha num parágrafo menor da História da Europa. Esperemos que a Rússia perceba que o reino oligarca de Putin, que dura desde 1999, apenas favorece as elites e não os cidadãos, e o povo russo entenda o seu desígnio europeu, dentro da UE, ou de uma UE diferente, alargada, maior, que poderá até ter uma denominação diferente – porque não "União Euroasiática", estendendo-se de Lisboa a Vladivostok? –, sem uma Rússia dominadora, mas parceira.
Esperemos que o povo e os dirigentes da Rússia futura entendam que é a bem que se constitui uma união e não pela força. Todos os que o tentaram pela força fracassaram, desde Alexandre Magno a Hitler. Há que aprender com a História, para não repetir os erros do passado. Os erros pagam-se caro e custam muitas vidas.
José Luís Correia
(in Jornal CONTACTO, 05/03/2014)
Ao recorrer à escalada militar na Crimeia, enviando milhares de soldados russos para a Ucrânia, Vladimir Putin não só violou a integridade territorial de um país europeu, como prova definitivamente que nunca digeriu a queda do muro de Berlim e o consequente colapso da União Soviética, dois acontecimentos históricos que trouxeram mais estabilidade à Europa.
É o que todos nós acreditamos. Putin não! Mas será que ao acenar com a bandeira vermelha de uma guerra na Europa, que acende em nós as piores memórias da nossa história recente, Putin não estará a fazer bluff?
Quando algo acontece na actualidade e cujos contornos ainda permanecem indefinidos, quando os analistas políticos ainda não decifraram claramente as motivações dos quem e dos porquês, por deformação profissional coloco-me sempre a mesma questão: isto beneficia quem?
A resposta a que cheguei, no caso de uma eventual guerra Rússia-Ucrânia, é que não beneficia ninguém: nem a Rússia, que se quer impor como um parceiro sério no xadrez económico e político internacional; nem os EUA, a braços com uma crise económica interna e que não têm interesse em embarcar numa nova guerra, que os seus cidadãos nunca apoiariam; nem a UE, que tem tudo a perder com um conflito armado no seu seio; e muito menos a Ucrânia, que não quer ser palco de um teatro de guerra sangrento.
Mas, destes todos, talvez a Rússia seja o país que realmente mais tem a perder. O valor do rublo nunca esteve tão baixo e desde que a crise com a Ucrânia piorou, ainda se deteriorou mais. Ao lançar-se numa guerra com a Ucrânia, a Rússia arrisca-se a perder o seu lugar no G8, pelo qual tanto lutou nos últimos anos. Perderia também os seus melhores clientes do mercado do gás, cujas condutas atravessam a Ucrânia para chegar à UE. E veria parte da sua economia bloqueada, com as contas bancárias dos seus dirigentes e oligarcas congeladas na UE. Mesmo se graças a este braço-de-ferro com Kiev, Putin nunca esteve melhor nas sondagens domésticas, ao intervir na Crimeia perderia toda a credibilidade internacional, ele que tanto tem defendido a não-ingerência na guerra civil síria.
A Península da Crimeia (dez vezes maior do que o Luxemburgo), no sul da Ucrânia, é para a Rússia um ponto estratégico. Militar primeiro, porque é lá que está estacionada a frota russa do mar Negro, no que é também o seu único acesso ao Mediterrâneo. Político e cultural também, porque os russos são a nacionalidade dominante da região e porque, historicamente, a Crimeia sempre foi russa. A região foi doada por Khrushchev à Ucrânia em 1954. Na altura, o gesto foi simbólico, já que a Ucrânia e a Crimeia faziam parte da URSS.
Mas revelou-se um presente envenenado quando, em 1991, os ucranianos se tornaram independentes, e a Crimeia lutou para ser uma região autónoma, não sem suscitar tensões com Kiev. Para continuar a ter ali a sua frota, Moscovo concordou em pagar uma renda anual à Ucrânia, num acordo benéfico para ambos os países e que expira em 2042. Mas sempre que o Governo de Kiev adopta uma preferência pró-UE (esta não é a primeira vez!), em detrimento da aproximação ancestral com a Rússia, as tensões agudizam-se.
Para muitos ucranianos, destituir Ianukovich significou livrar-se de um ditador que servia os interesses de Moscovo e que nem ucraniano falava. Para os pró-russos, o novo regime de Kiev é fascista, aliena-os do estatuto de protectorado da Mãe-Rússia de que gozavam, e a destituição de Ianukovich foi um golpe de Estado, incentivado pela UE e pelos EUA, o que não está longe da verdade.
Como em tudo, aqui há muitas áreas cinzentas e sobretudo muitos interesses económicos. Moscovo teme que os seus interesses sejam prejudicados na Ucrânia, com quem tem acordos económicos, como o do gás russo exportado para a UE. Se a Ucrânia pedir a adesão à UE, Putin terá de desistir da ambicionada "União Euroasiática" – bloco económico e político que Putin almeja constituir face à UE, da qual fazem já parte o Cazaquistão e a Bielorússia (ambos governados por ditadores pró-russos) –, e que sem Kiev não faz sentido.
Tudo isto leva a pensar que Putin está a fazer bluff. Nos últimos dias tem dado uma no cravo, outra na ferradura. No sábado, enviou mais tropas para a Crimeia, no domingo aceitou a mediação de Angela Merkel para dialogar com Kiev, na segunda-feira lançou um ultimato à Ucrânia, na terça mandou os seus soldados na Crimeia regressar às casernas. Quo vadis?
A ser bluff, este serve como mera demonstração de força, que visa provar toda a magnanimidade de Putin quando este propuser outras opções à guerra. Moscovo deverá então propor mais vantagens económicas e políticas à Ucrânia para que esta não se aproxime da UE. Putin pode ainda apresentar-se como salvador da Crimeia, exigindo a independência da região, o que a Ucrânia tem todo em interesse em aceitar, pouco perdendo com essa opção. Putin tem de mostrar que a Rússia é um gigante que não se deixa demover pelos seus vizinhos, nem pela UE, nem pelos EUA, nem por ninguém.
O povo amordaçado da Bielorússia está de olhos postos na crise do vizinho ucraniano. E o ditador pró-russo que dirige o país também. Lukashenko não quer ser outro Ianukovich. Putin tem de ter tudo isto em consideração e não mostrar parte fraca ao que considera uma provocação da Ucrânia. O seu pior pesadelo seria que o afastamento da Ucrânia da órbita de Moscovo contagiasse outras ex-repúblicas soviéticas que continuam, de bom ou mau grado, fiéis servos da Rússia. É um jogo perigoso o de Putin. Perigoso para a Rússia e para todos nós na Europa, afastada que pensávamos a possibilidade de uma nova guerra no nosso continente, onde a UE tem sido o garante de uma paz duradoura entre Estados, outrora inimigos ancestrais durante séculos.
Esperemos que esta crise se resolva e se torne apenas uma linha num parágrafo menor da História da Europa. Esperemos que a Rússia perceba que o reino oligarca de Putin, que dura desde 1999, apenas favorece as elites e não os cidadãos, e o povo russo entenda o seu desígnio europeu, dentro da UE, ou de uma UE diferente, alargada, maior, que poderá até ter uma denominação diferente – porque não "União Euroasiática", estendendo-se de Lisboa a Vladivostok? –, sem uma Rússia dominadora, mas parceira.
Esperemos que o povo e os dirigentes da Rússia futura entendam que é a bem que se constitui uma união e não pela força. Todos os que o tentaram pela força fracassaram, desde Alexandre Magno a Hitler. Há que aprender com a História, para não repetir os erros do passado. Os erros pagam-se caro e custam muitas vidas.
José Luís Correia
(in Jornal CONTACTO, 05/03/2014)
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quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014
As duas Leis de Sturgeon
Em 1951, Theodore Sturgeon, autor de ficcao cientifica, escreveu: "Nunca nada é absolutamente assim", que depois resumiu para "Noventa por cento da ficcao cientifica é lixo, como aliás, noventa por cento de tudo é lixo".
Esta máxima ficou conhecida como 1a Lei de Sturgeon.
Um segundo adágio, conhecida como 2a Lei de Sturgeon, é um norma para o pensamento crítico, que se resume na seguinte assumpcao: "Qual a próxima pergunta?". Este adágio vem formulado com um símbolo constituído pela letra Q, atravessada por uma seta.
Esta máxima ficou conhecida como 1a Lei de Sturgeon.
Um segundo adágio, conhecida como 2a Lei de Sturgeon, é um norma para o pensamento crítico, que se resume na seguinte assumpcao: "Qual a próxima pergunta?". Este adágio vem formulado com um símbolo constituído pela letra Q, atravessada por uma seta.
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quinta-feira, 30 de janeiro de 2014
quinta-feira, 14 de novembro de 2013
Soprano Rita Matos Alves afirma: "A ópera conjuga as minhas duas grandes paixões, o canto e o teatro"
| Foto: Manuel Dias |
Um ano e meio depois de ter estado no Luxemburgo integrando o elenco da ópera "A Flauta Mágica" de Mozart, Rita Matos Alves regressou 5 de Novembro para um recital do Foyer Européen que decorreu na sala da loja "Pianos Kléber", na capital.
"O objectivo do recital era dar uma amostra de alguns compositores que foram muito importantes no século XX português como Vianna da Motta ou Francisco de Lacerda, mas também outros menos famosos como António Fragoso, que teve uma vida muito curta, morreu aos 21 anos, mas era já considerado um dos grandes. Escolhi também canções do Croner de Vasconcelos e do Victor Macedo Pinto, que são talvez menos conhecidos mas também são mais recentes e mais modernos".
"A escolha das canções foi minha, mas dependeu sobretudo das pautas que consegui encontrar. Eu queria interpretar canções do Luís de Freitas Branco, mas não consegui encontrar as pautas", lamenta Rita num sorriso. "Há poucas pautas de música editadas em Portugal. Outras canções escolhi porque o poema era de Camões, Pessoa, Almeida Garrett, João de Deus ou Guerra Junqueiro e eu também queria dar a conhecer esses autores ao público", diz.
Rita explica ainda que muitas das canções que trouxe evocam a Belle Époque , foram compostas como música erudita, para voz e piano, mesmo se algumas ficaram depois famosas com arranjos para fado, como algumas dos temas de Fragoso, que se tornaram fados conhecidos na voz de Adriano Correia de Oliveira. No "bis", Rita cantou dois fados, "Foi Deus" e "O Fado da Mariquinhas".
Ao CONTACTO a artista afirma que gosta e que cresceu a ouvir cantar fado, o pai já cantava e ia às casas de fado com ela, e Rita revela mesmo que a primeira vez que cantou em público foi um fado. Portugal perdeu uma grande fadista ou a ópera ganhou uma grande soprano? Rita confia não lamentar não ter sido fadista porque verdadeiramente adora a carreira que seguiu. Até porque a ópera conjuga as suas duas "grandes paixões", o teatro e o canto.
"Eu adoro teatro", diz num sussurro, "e contracenar é o máximo", ri-se. "E o canto clássico permite cantar tantas coisas diferentes, de muitas épocas, em muitas línguas, há tantas possibilidades." Apesar de ainda jovem, a carreira de Rita Matos Alves tem seis anos e já muitas óperas famosas no currículo. No entanto, a soprano revela que gostaria de tentar o "bel canto", em obras de Donizetti, como "Don Pasquale" ou "Elixir do Amor", ou em "A Sonâmbula", de Vincenzo Bellini, "em que há um grande lirismo de que gosto muito".
José Luís Correia
(in Jornal CONTACTO, 13/11/2013)
quarta-feira, 6 de novembro de 2013
Às urnas, trabalhadores!
Na próxima quarta-feira, dia 13 de Novembro, têm lugar as Eleições Sociais no Luxemburgo.
Mas o que são as eleições sociais?
É uma votação através da qual os trabalhadores – todos os trabalhadores, residentes ou fronteiriços, desde que trabalhem no Grão-Ducado –, podem eleger "o seu Parlamento".
Este "Parlamento dos Trabalhadores" chama-se "Chambre des Salariés" (Câmara dos Assalariados) e ao votarem os trabalhadores vão estar a eleger os seus representantes, por sector de actividade, junto desta instituição. Há muitos portugueses candidatos. Nas empresas de construção civil os delegados portugueses ultrapassam mesmo os 80 % dos candidatos.
Composto por 60 membros (à semelhança do Parlamento luxemburguês, mas a comparação acaba aqui!), a Câmara dos Assalariados tem como missão, entre outras, dar pareceres ao Governo sobre legislação laboral e social. Tradução: é um órgão de consulta do Governo e os seus pareceres não são obrigatórios.
Os trabalhadores receberam há semanas, por correio, em casa, os boletins de voto. Nestes, podem votar nas listas e nos representantes que cada sindicato apresenta no sector de actividade em que o trabalhador está empregado. O boletim de voto deve ser reenviado à comissão eleitoral e chegar antes da data do sufrágio.
Em paralelo, decorrem também as eleições para a escolha das delegações de pessoal, mas apenas nas empresas com mais de 15 trabalhadores. Há empresas com mais de 15 trabalhadores e que não possuem delegações que representam os empregados, mas legalmente qualquer trabalhador dessas empresas pode constituir uma delegação do pessoal, se a empresa possuir o número mínimo de trabalhadores.
Porque é que é tão importante participar nas eleições sociais?
Primeiro, porque é um direito que temos e que não devemos deixar extraviado por mãos alheias. Os trabalhadores de outros países não têm a possibilidade de eleger representantes dos trabalhadores para um órgão que pode intervir junto do Governo. E, já que trabalhamos num país que nos dá essa "arma", utilizemo-la então! Não nos queixemos apenas das condições de trabalho, do excesso de horas laborais, do patrão, das leis sociais! Votemos!
Às urnas, trabalhadores!
Quanto mais pesarem os representantes que elegermos, mais temos a possibilidade de fazer ouvir as nossas vozes e as nossas reivindicações laborais e sociais junto de quem decide.
Enquanto estrangeiros, mesmo residentes, não podemos votar para o Parlamento. Das 530 mil pessoas que vivem no Grão-Ducado, apenas 238 mil podiam votar nas últimas legislativas de 20 de Outubro. Ou seja, a 43 % da população ficou vedado o direito de eleger os representantes dos cidadãos no Parlamento, mesmo se as leis que este órgão de soberania aprova se aplicam a todos os cidadãos. Não somos nós cidadãos como os outros?
Talvez com o novo Governo as coisas mudem nesse plano. Ou talvez não mudem!
Utilizemos então a "arma" do voto nestas eleições sociais. Neste sufrágio somos maioritários e temos o direito de participar. Nós, os estrangeiros. Apenas um terço da massa salarial é luxemburguesa. Dos 362 mil trabalhadores que há no Grão-Ducado, 104 mil são nacionais, 87 mil são estrangeiros residentes e 160 mil são fronteiriços. Ou seja, 247 mil trabalhadores são estrangeiros, com os portugueses a representarem um quarto desse número.
É um magro consolo, bem sei, mas temos que aproveitar esta ocasião para participar na sociedade a que pertencemos, já que não o podemos fazer nas legislativas.
Dito isto, não me interpretem de forma errada: não troco um pelo outro, nem o direito de voto nas eleições sociais me demove de pensar que devemos continuar a reivindicar a participação nas legislativas, enquanto cidadãos de pleno direito deste país, que contribuem para a sua riqueza económica, cultural, social e em muitos outros aspectos da vida quotidiana, e que eleger o Parlamento não é um privilégio a que almejamos, mas um direito democrático que nos assiste.
Por último, e talvez a razão mais importante, é vital votarmos nestas eleições sociais porque o futuro que se desenha no Luxemburgo é incerto. O Grão-Ducado já não é uma "ilha" e a crise chegou mesmo a todos os sectores de actividade neste país que muitos consideravam imune às ondas de choque internacionais. Quem vai pegar no leme nesta fase de navegação à vista no mar tenebroso da crise? O tempo da bonança ainda parece longínquo.
O Governo liberal-socialista-verde que se prepara, no preciso momento em que escrevo, e que nos vai governar durante cinco anos, terá contornos mais neoliberais ou mais socialistas? Os Verdes, tradicionalmente à esquerda, vão deixar tingir-se pelos colegas de coligação? Como vai evoluir a carga horária dos trabalhadores, o pagamento das horas extraordinárias, o ordenado mínimo, a indexação dos salários, os abonos de família, os benefícios sociais?
Claro que não sabemos responder a estas questões, mas ter os representantes que elegemos na Câmara dos Assalariados a defender os nossos interesses, nos próximos cinco anos, é uma das formas de assegurarmos que, pelo menos, alguém lutará aí por esses nossos direitos.
José Luís Correia
(Editorial no Jornal CONTACTO, de 06/11/2013)
É uma votação através da qual os trabalhadores – todos os trabalhadores, residentes ou fronteiriços, desde que trabalhem no Grão-Ducado –, podem eleger "o seu Parlamento".
Este "Parlamento dos Trabalhadores" chama-se "Chambre des Salariés" (Câmara dos Assalariados) e ao votarem os trabalhadores vão estar a eleger os seus representantes, por sector de actividade, junto desta instituição. Há muitos portugueses candidatos. Nas empresas de construção civil os delegados portugueses ultrapassam mesmo os 80 % dos candidatos.
Composto por 60 membros (à semelhança do Parlamento luxemburguês, mas a comparação acaba aqui!), a Câmara dos Assalariados tem como missão, entre outras, dar pareceres ao Governo sobre legislação laboral e social. Tradução: é um órgão de consulta do Governo e os seus pareceres não são obrigatórios.
Os trabalhadores receberam há semanas, por correio, em casa, os boletins de voto. Nestes, podem votar nas listas e nos representantes que cada sindicato apresenta no sector de actividade em que o trabalhador está empregado. O boletim de voto deve ser reenviado à comissão eleitoral e chegar antes da data do sufrágio.
Em paralelo, decorrem também as eleições para a escolha das delegações de pessoal, mas apenas nas empresas com mais de 15 trabalhadores. Há empresas com mais de 15 trabalhadores e que não possuem delegações que representam os empregados, mas legalmente qualquer trabalhador dessas empresas pode constituir uma delegação do pessoal, se a empresa possuir o número mínimo de trabalhadores.
Porque é que é tão importante participar nas eleições sociais?
Primeiro, porque é um direito que temos e que não devemos deixar extraviado por mãos alheias. Os trabalhadores de outros países não têm a possibilidade de eleger representantes dos trabalhadores para um órgão que pode intervir junto do Governo. E, já que trabalhamos num país que nos dá essa "arma", utilizemo-la então! Não nos queixemos apenas das condições de trabalho, do excesso de horas laborais, do patrão, das leis sociais! Votemos!
Às urnas, trabalhadores!
Quanto mais pesarem os representantes que elegermos, mais temos a possibilidade de fazer ouvir as nossas vozes e as nossas reivindicações laborais e sociais junto de quem decide.
Enquanto estrangeiros, mesmo residentes, não podemos votar para o Parlamento. Das 530 mil pessoas que vivem no Grão-Ducado, apenas 238 mil podiam votar nas últimas legislativas de 20 de Outubro. Ou seja, a 43 % da população ficou vedado o direito de eleger os representantes dos cidadãos no Parlamento, mesmo se as leis que este órgão de soberania aprova se aplicam a todos os cidadãos. Não somos nós cidadãos como os outros?
Talvez com o novo Governo as coisas mudem nesse plano. Ou talvez não mudem!
Utilizemos então a "arma" do voto nestas eleições sociais. Neste sufrágio somos maioritários e temos o direito de participar. Nós, os estrangeiros. Apenas um terço da massa salarial é luxemburguesa. Dos 362 mil trabalhadores que há no Grão-Ducado, 104 mil são nacionais, 87 mil são estrangeiros residentes e 160 mil são fronteiriços. Ou seja, 247 mil trabalhadores são estrangeiros, com os portugueses a representarem um quarto desse número.
É um magro consolo, bem sei, mas temos que aproveitar esta ocasião para participar na sociedade a que pertencemos, já que não o podemos fazer nas legislativas.
Dito isto, não me interpretem de forma errada: não troco um pelo outro, nem o direito de voto nas eleições sociais me demove de pensar que devemos continuar a reivindicar a participação nas legislativas, enquanto cidadãos de pleno direito deste país, que contribuem para a sua riqueza económica, cultural, social e em muitos outros aspectos da vida quotidiana, e que eleger o Parlamento não é um privilégio a que almejamos, mas um direito democrático que nos assiste.
Por último, e talvez a razão mais importante, é vital votarmos nestas eleições sociais porque o futuro que se desenha no Luxemburgo é incerto. O Grão-Ducado já não é uma "ilha" e a crise chegou mesmo a todos os sectores de actividade neste país que muitos consideravam imune às ondas de choque internacionais. Quem vai pegar no leme nesta fase de navegação à vista no mar tenebroso da crise? O tempo da bonança ainda parece longínquo.
O Governo liberal-socialista-verde que se prepara, no preciso momento em que escrevo, e que nos vai governar durante cinco anos, terá contornos mais neoliberais ou mais socialistas? Os Verdes, tradicionalmente à esquerda, vão deixar tingir-se pelos colegas de coligação? Como vai evoluir a carga horária dos trabalhadores, o pagamento das horas extraordinárias, o ordenado mínimo, a indexação dos salários, os abonos de família, os benefícios sociais?
Claro que não sabemos responder a estas questões, mas ter os representantes que elegemos na Câmara dos Assalariados a defender os nossos interesses, nos próximos cinco anos, é uma das formas de assegurarmos que, pelo menos, alguém lutará aí por esses nossos direitos.
José Luís Correia
(Editorial no Jornal CONTACTO, de 06/11/2013)
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