António Costa é desde domingo o novo homem forte do PS. Desde a sua eleição em Julho de 2011 como secretário-geral do partido, António José Seguro tentou construir uma oposição sólida contra o Governo PSD/CDS. A tarefa não parecia difícil, até pela impopularidade crescente a que este Governo fez face quase desde a primeira hora.
No entanto, militantes socialistas e portugueses em geral só puderam constatar nestes três anos que Seguro não soube demonstrar o que o faria de diferente de Passos Coelho se estivesse no poder. Nem o infeliz episódio da pseudo-demissão “irrevogável” de Paulo Portas soube aproveitar mediaticamente. Nem tão pouco a vitória que o PS conseguiu nas eleições europeias de Maio último. Como se nestes três anos Seguro estivesse a treinar para um cargo que nunca terá. Afinal, o “inimigo” veio de dentro.
A candidatura de António Costa à liderança do partido foi vivida como um golpe de estado por Seguro, uma “deslealdade”, como o próprio repetiu vezes sem conta nos media. Como se na política houvesse lealdade, ó Tó-Zé, descobriste a pólvora? Em vez de mostrar as garras, choramingou, traído pelo partido. Nem nos debates com Costa convenceu. O que faltou sobretudo a Seguro durante este tempo todo foi segurança. Uma falta que pagou bem caro quando começou a ver quase todos os históricos do partido a apoiarem o contendor.
Incentivado por uns, empurrado por outros (por Sócrates, por exemplo), e levado pela sua própria vontade de poder, Costa apostou e venceu.
Falta um ano para as legislativas e pouco mais para as presidenciais, este era o momento certo. Para Costa e para o PS. Costa percebeu que os militantes querem um PS mais forte, não apenas como oposição figurante, mas sobretudo como um partido capaz de vencer tanto as legislativas de Outubro de 2015 como as presidenciais de Janeiro de 2016. Anunciada a candidatura de António Guterres a Belém, António Costa, até então potencial presidenciável do PS, caiu sobre as quatro patas e deu a volta a situação. Com Belém fora do campo de visão, apontou a S. Bento. É essa a missão de Costa: devolver as chaves do poder ao PS.
Mas será que Costa chega para dar um novo alento ao PS e fazer esquecer seis anos de socratismo, ele que foi durante dois anos o n° 2 do Governo de José Sócrates (2005-2007)?
É preciso entender o seguinte: no domingo, assim que a liderança mudou no PS, começou a campanha para as legislativas e até para as presidenciais.
Costa promete ser uma oposição muito mais dura que Seguro e conta para isso com o apoio dos pesos-pesados do partido. Por outro lado, face a uma vitória do PS nas legislativas, os candidatos presidenciáveis ainda não assumidos da direita vão avançar e as águas vão ficar agitadas no PSD.
É neste ambiente que Portugal vai viver nos próximos 14 meses.
Mas que alternativa têm os portugueses? Mais austeridade à PSD ou o regresso do PS repudiado em 2011? O que pode propor Costa que Seguro não conseguiu? Ou mesmo Passos Coelho? Alguém reteve alguma proposta de Costa na sua campanha das primárias? Seguro prometeu demitir-se se tivesse que aumentar os impostos ao chegar a Governo. É uma promessa que não terá de cumprir. Safou-se dessa! Costa nem isso prometeu. Vai Costa fazer mudar o país do rumo da austeridade, pode sequer fazê-lo neste momento? Lembre-se que foi o PS de Sócrates que chamou a ’troika’ e depois lavou daí as mãos como Pilatos, quando já era quase certo que perderia as eleições.
Para muitos, Costa significa apenas o regresso dos socráticos. Se chegar ao Governo, o que vai definir a governação de Costa é também o tipo de coabitação que terá com o futuro Presidente da República. Se for Guterres, Costa viverá uma coabitação fácil, num pais reconciliado com o PS e com luz verde para governar como entender até, pelo menos, 2019. Poderá, quiçá, fechar o ciclo da austeridade despoletado por Sócrates dez anos antes, graças a isso ser reeleito e governar até 2023. Isso fará de Costa um sucessor quase certo de Guterres como PR (se fizer dois mandatos, Guterres sai em 2026), o que pode vir a abrir um novo ciclo de 20 anos do PS em Belém, já conseguido pela dupla Soares-Sampaio entre 1986 e 2006.
Mas este novo ciclo pode revelar-se mais estável e próspero, porque nao terá de enfrentar uma década de coabitação difícil (Soares/Cavaco, 1986-1996).
Advinham-se então bons tempos para Portugal?
Podíamos aqui conjecturar outras possibilidades de coabitação como Costa/Durão Barroso, Costa/Santana Lopes ou mesmo Costa/Rebelo de Sousa. Mas seria em vão. Santana Lopes não reúne consenso nem dentro nem fora do partido; Rebelo de Sousa goza de popularidade mediática, mas apenas fora do partido; Barroso parece ser a melhor opção do PSD, mas será que reúne os favores dos portugueses? E face a Guterres, todos os outros nomes parecem não conseguir aguentar a distância para a corrida às presidenciais.
A não ser que a ONU não deixe sair Guterres de Nova Iorque! Nesse caso, todas as configurações são possíveis, até uma presidencial Barroso-Sócrates.
Estas conjecturas não são apenas masturbação intelectual. Servem para explicar que o calendário do cidadão comum não é o mesmo dos políticos. Nós pensamos se vamos conseguir pagar a factura ao fim do mês e se vamos ou não ter dinheiro para as férias. Os políticos têm calendários que não vão de Janeiro a Dezembro, mas que vivem ao ritmo das eleições e das nomeações, programados pelos cargos e poder a que aspiram, e são por isso “agendas” bienais, quinquenais e até decenais.
PS e PSD alternam-se no poder há 30 anos, o que para muita gente significa que são irremediavelmente as duas faces da mesma moeda, ou não tivessem ambos contribuído para a crise em que o país caiu. No entanto, nas sondagens, os portugueses continuam a preferir PS ou PSD aos outros partidos. Há maior contradição?
No Luxemburgo, após 60 anos de governação quase ininterrupta do CSV, uma coligação ’tutti-frutti’, que junta liberais, socialistas e verdes chegou ao poder. O seu único ponto comum era não quererem voltar a deixar o Grão-Ducado nas mãos do mesmo partido. Valiam-se de ter mais votos juntos que o CSV, que saiu vencedor das eleições. Nenhuma comissão de eleições nem nenhum Conselho de Estado veio contestar a matemática improvisada e assim alguns desses partidos são pela primeira vez hoje Governo. Os eleitores que neles votaram deram o aval, os outros pouco constestaram.
Poder-se-ia assistir a uma “sublevação”, a uma contestação semelhante em Portugal? Ou as máquinas partidárias é que decidem o que o povo deve pensar e em quem deve votar? O monárquico Alexis de Tocqueville assim o profetizou no século XIX: “Le suffrage universel ne me fait pas peur, les gens voteront comme on leur dira”. Será?
José Luís Correia
in CONTACTO, 01/10/2014
quarta-feira, 1 de outubro de 2014
quarta-feira, 16 de julho de 2014
Editorial de hoje no jornal CONTACTO: "E depois de Juncker"
A notícia recente de que o antigo ministro das Finanças luxemburguês vai trocar a política por um alto cargo na Deutsche Bank (ver pág. 6) provocou uma onda de indignação em todo o Grão-Ducado...
Não, nada disso! Não houve ninguém para questionar o conflito de interesses de alguém que durante 15 anos lidou de perto com a banca e agora vai trabalhar para esse mesmo sector. Minto. Houve uma voz que se indignou (apenas uma).
O deputado Justin Turpel, do Déi Lénk (minoritário no Parlamento, com apenas dois assentos), quer saber se o Governo vai pedir ao Comité da Ética que se pronuncie sobre esta “reorientação profissional”. O artigo 4.3.1. do código de deontologia para antigos membros do Governo estipula que os membros do executivo não podem exercer, num período de dois anos após deixarem o cargo, nenhuma função profissional ligada à sua antiga pasta.
Deve Frieden preocupar-se? Não! Primeiro, porque o Comité da Ética e o código de deontologia, criados em Fevereiro último, emanam do actual Governo e o ex-ministro cristão-social não parece sentir-se minimamente vinculado a nenhum dos dois. Depois, porque os pareceres desse comité são apenas consultivos. O parecer será tornado público, sem mais consequências. A não ser, quiçá, uma opinião pública negativa sobre aquele que chegou a ser considerado o “delfim” de Juncker.
Este caso lembra-me o de Jeannot Krecké, antigo ministro da Economia, sobre quem recaíram suspeitas de andar a preparar nos bastidores a sua “transferência” da vida política para um alto posto na Cargolux, contando com o apoio de fundos árabes, com quem tinha negociado meses antes a entrada como accionista na empresa luxemburguesa. Em 2011, o caso provocou escândalo e o ministro deixou efectivamente o Governo... para se dedicar à vela e não ao frete áereo.
Casos assim são tão frequentes na política portuguesa, europeia e até internacional, que já nem nos indignamos, nem ligamos, assistimos. O Luxemburgo não estava habituado a estas coisas. Até agora. Estarão os luxemburgueses a acostumar-se ao que de mais baixo e vil há na política, o tratar da sua própria vidinha antes de pensar no interesse da população, algo a que estamos tão habituados em Portugal, mas que era raro ver por terras grã-ducais?
O facto de Frieden deixar a vida política lança outras questões para o futuro, e sobretudo o do CSV. Frieden foi durante muito tempo considerado o sucessor de Juncker no partido e até mesmo na chefia do Governo, pelo menos até à derrota do partido nas últimas legislativas.
O CSV, “invisível” no Parlamento desde Dezembro, enfrenta agora o desafio de uma legislatura onde é minoritário e tem cinco anos para se recompor da derrota infligida e para preparar o regresso ao Governo, no próximo sufrágio, em 2018. Tudo isto sem o seu líder carismático, Jean-Claude Juncker, que em Setembro se muda para Bruxelas.
Os militantes do CSV acreditam que só um cabeça-de-lista com o carisma de Juncker (ou quase) conseguirá fazer voltar o partido ao Governo e repetir a sua “longevidade” no executivo, à semelhança do período 1979-2013.
Com a saída de François Biltgen do partido – que foi nomeado para o Tribunal de Contas da UE, em Outubro de 2013 -, que também era um possível candidato a cabeça-de-lista do CSV em 2018, que outras opções restam ao partido?
O actual presidente do CSV? Eleito em Março, Marc Spautz é mecânico de formação, entrou na política comunal em 1994 (Schifflange), foi secretário-geral do LCGB (1998-2009), chegou ao Parlamento em 2004, foi secretário-geral do partido (2009-2012), presidente do grupo parlamentar do CSV (2011-2013) e ministro da Família durante seis meses, em 2013.
E quanto a Claude Wiseler, o novo presidente da bancada parlamentar cristã-social? Foi secretário-geral do CSV (1995-2000), chegou ao Parlamento em 1999, foi vereador da capital (2000-2004), ministro da Função Pública (2004-200) e das Obras Públicas (2004-2013). É casado com a portuguesa Isabel Santos Lima, conselheira comunal da capital.
No entanto, Spautz e Wiseler – pelo pouco que conheço do primeiro e apesar da simpatia que me inspira o segundo -, não têm o carisma nem os apoios que Frieden e Biltgen tinham no partido. Ou será que antes de 2018 assistiremos ao regresso de Biltgen? O seu mandato no Tribunal de Contas termina em 2015, mas pode depois ser reconduzido por seis anos.
Uma outra opção do CSV parece ser Viviane Reding, comissária europeia da Justiça e dos Media, que em Setembro deixa o lugar, já que um outro luxemburguês – Juncker – fará parte da Comissão. Foi aliás graças a esta última pasta dos Media que Reding alcançou notoriedade, pois venceu o braço-de-ferro com as operadoras de telefonia móvel para fazer baixar os preços do ’roaming’. Entre 1978 e 1999, Reding foi jornalista no Luxemburger Wort. Em 1979 foi eleita para a Câmara dos Deputados, onde esteve até ser nomeada para Bruxelas (Comissão Prodi) em 1999, transitando depois para a Comissão Barroso. Como candidata a futura cabeça-de-lista do CSV, Reding tem do seu lado o facto de nunca ter sido ministra, de poder assim vir a protagonizar uma renovação de que o partido tanto precisa, e de contar com o reconhecimento que o seu cargo em Bruxelas lhe deu. O facto de ser uma mulher pode também jogar na vontade de o partido se mostrar mais moderno. Tudo isto depende, obviamente, de Reding querer ou não regressar à política doméstica ou se visa outros horizontes.
Destes nomes, quais são os que realmente vão ter o apoio dos militantes do CSV e quais são os que vão aceitar o desafio, mostrando já a partir de Setembro que preparam a agenda de 2018? A ’rentrée’ política o dirá.
Para já, disfrutemos da ’silly season’, de notícias mais leves e aproveitemos o bom tempo no Luxemburgo, enquanto dura.
José Luís Correia,
in CONTACTO, 16/07/2014
Não, nada disso! Não houve ninguém para questionar o conflito de interesses de alguém que durante 15 anos lidou de perto com a banca e agora vai trabalhar para esse mesmo sector. Minto. Houve uma voz que se indignou (apenas uma).
O deputado Justin Turpel, do Déi Lénk (minoritário no Parlamento, com apenas dois assentos), quer saber se o Governo vai pedir ao Comité da Ética que se pronuncie sobre esta “reorientação profissional”. O artigo 4.3.1. do código de deontologia para antigos membros do Governo estipula que os membros do executivo não podem exercer, num período de dois anos após deixarem o cargo, nenhuma função profissional ligada à sua antiga pasta.
Deve Frieden preocupar-se? Não! Primeiro, porque o Comité da Ética e o código de deontologia, criados em Fevereiro último, emanam do actual Governo e o ex-ministro cristão-social não parece sentir-se minimamente vinculado a nenhum dos dois. Depois, porque os pareceres desse comité são apenas consultivos. O parecer será tornado público, sem mais consequências. A não ser, quiçá, uma opinião pública negativa sobre aquele que chegou a ser considerado o “delfim” de Juncker.
Este caso lembra-me o de Jeannot Krecké, antigo ministro da Economia, sobre quem recaíram suspeitas de andar a preparar nos bastidores a sua “transferência” da vida política para um alto posto na Cargolux, contando com o apoio de fundos árabes, com quem tinha negociado meses antes a entrada como accionista na empresa luxemburguesa. Em 2011, o caso provocou escândalo e o ministro deixou efectivamente o Governo... para se dedicar à vela e não ao frete áereo.
Casos assim são tão frequentes na política portuguesa, europeia e até internacional, que já nem nos indignamos, nem ligamos, assistimos. O Luxemburgo não estava habituado a estas coisas. Até agora. Estarão os luxemburgueses a acostumar-se ao que de mais baixo e vil há na política, o tratar da sua própria vidinha antes de pensar no interesse da população, algo a que estamos tão habituados em Portugal, mas que era raro ver por terras grã-ducais?
O facto de Frieden deixar a vida política lança outras questões para o futuro, e sobretudo o do CSV. Frieden foi durante muito tempo considerado o sucessor de Juncker no partido e até mesmo na chefia do Governo, pelo menos até à derrota do partido nas últimas legislativas.
O CSV, “invisível” no Parlamento desde Dezembro, enfrenta agora o desafio de uma legislatura onde é minoritário e tem cinco anos para se recompor da derrota infligida e para preparar o regresso ao Governo, no próximo sufrágio, em 2018. Tudo isto sem o seu líder carismático, Jean-Claude Juncker, que em Setembro se muda para Bruxelas.
Os militantes do CSV acreditam que só um cabeça-de-lista com o carisma de Juncker (ou quase) conseguirá fazer voltar o partido ao Governo e repetir a sua “longevidade” no executivo, à semelhança do período 1979-2013.
Com a saída de François Biltgen do partido – que foi nomeado para o Tribunal de Contas da UE, em Outubro de 2013 -, que também era um possível candidato a cabeça-de-lista do CSV em 2018, que outras opções restam ao partido?
O actual presidente do CSV? Eleito em Março, Marc Spautz é mecânico de formação, entrou na política comunal em 1994 (Schifflange), foi secretário-geral do LCGB (1998-2009), chegou ao Parlamento em 2004, foi secretário-geral do partido (2009-2012), presidente do grupo parlamentar do CSV (2011-2013) e ministro da Família durante seis meses, em 2013.
E quanto a Claude Wiseler, o novo presidente da bancada parlamentar cristã-social? Foi secretário-geral do CSV (1995-2000), chegou ao Parlamento em 1999, foi vereador da capital (2000-2004), ministro da Função Pública (2004-200) e das Obras Públicas (2004-2013). É casado com a portuguesa Isabel Santos Lima, conselheira comunal da capital.
No entanto, Spautz e Wiseler – pelo pouco que conheço do primeiro e apesar da simpatia que me inspira o segundo -, não têm o carisma nem os apoios que Frieden e Biltgen tinham no partido. Ou será que antes de 2018 assistiremos ao regresso de Biltgen? O seu mandato no Tribunal de Contas termina em 2015, mas pode depois ser reconduzido por seis anos.
Uma outra opção do CSV parece ser Viviane Reding, comissária europeia da Justiça e dos Media, que em Setembro deixa o lugar, já que um outro luxemburguês – Juncker – fará parte da Comissão. Foi aliás graças a esta última pasta dos Media que Reding alcançou notoriedade, pois venceu o braço-de-ferro com as operadoras de telefonia móvel para fazer baixar os preços do ’roaming’. Entre 1978 e 1999, Reding foi jornalista no Luxemburger Wort. Em 1979 foi eleita para a Câmara dos Deputados, onde esteve até ser nomeada para Bruxelas (Comissão Prodi) em 1999, transitando depois para a Comissão Barroso. Como candidata a futura cabeça-de-lista do CSV, Reding tem do seu lado o facto de nunca ter sido ministra, de poder assim vir a protagonizar uma renovação de que o partido tanto precisa, e de contar com o reconhecimento que o seu cargo em Bruxelas lhe deu. O facto de ser uma mulher pode também jogar na vontade de o partido se mostrar mais moderno. Tudo isto depende, obviamente, de Reding querer ou não regressar à política doméstica ou se visa outros horizontes.
Destes nomes, quais são os que realmente vão ter o apoio dos militantes do CSV e quais são os que vão aceitar o desafio, mostrando já a partir de Setembro que preparam a agenda de 2018? A ’rentrée’ política o dirá.
Para já, disfrutemos da ’silly season’, de notícias mais leves e aproveitemos o bom tempo no Luxemburgo, enquanto dura.
José Luís Correia,
in CONTACTO, 16/07/2014
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domingo, 13 de julho de 2014
quinta-feira, 10 de julho de 2014
Deolinda regressam a Dudelange a 12 de Julho
Depois de se terem estreado no Grão-Ducado em Outubro de 2010, em Dudelange, os Deolinda regressam à mesma cidade para um novo concerto, desta feita no Parc Leh’, no próximo sábado, 12 de Julho.
Os Deolinda são um quarteto lisboeta de música pop(ular) portuguesa acústica composto por Ana Bacalhau (voz), Pedro Silva Martins (guitarra e composição), Zé Pedro Leitão (contrabaixo e piano) e Luís Silva Martins (guitarra clássica, banjolim e “sinos”).
A música dos Deolinda está entre o fado e qualquer coisa de lisboeta, de vadio, boémio. É uma música que respira bom humor, alegria, vida, que mistura o castiço com a modernidade, tudo servido com sonoridades “roubadas” ao pop, ao jazz, ao samba, à ranchera mexicana e até à música do Haiti. A cereja no topo do bolo é a voz petulante e o gingar de Ana Bacalhau.
Nos últimos seis anos, o grupo dominou os tops de vendas com os multi-platinados álbuns “Canção ao Lado” (2008) e “2 Selos e um Carimbo” (2010), acumulando diversas distinções, tais como dois Globos de Ouro, um prémio Amália Rodrigues, um prémio José Afonso e um Songlines Music Award. Os Deolinda regressam agora ao Luxemburgo para apresentar o seu terceiro álbum de originais, “Mundo Pequenino”. Um dos músicos que participou neste álbum foi o percussionista Sérgio Nascimento. “Mundo Pequenino” foi gravado nos Boomstudios, em Vila Nova de Gaia, e foi produzido pelo britânico Jerry Boys e pela própria banda. O concerto dos Deolinda acontece no âmbito do festival de música “Summerstage”, no Parc Le’h, em Dudelange, e começa às 20h, no dia 12 de Julho. Os bilhetes custam 20 euros em pré-venda e 25 euros na bilheteira.
Os bilhetes para os três dias do festival custam 35 euros. Há ainda uma ementa especial “Summerstage”, disponível por 70 euros (que inclui um bilhete de entrada). Mais informações pelo tel. 51 99 90. ALINE
Aline Frazão também em palco
Aline Frazão é outro dos nomes lusófonos que sobem ao palco do “Summerstage” nessa noite. A cantora e compositora angolana Nasceu em Luanda, em 1988, mas vive actualmente em Barcelona.
Em 2011 lançou o seu primeiro disco de originais, “Clave Bantu”, com produção musical do contra-baixista cubano José Manuel Diaz. O disco conta ainda com duas parcerias com os escritores angolanos José Eduardo Agualusa e Ondjaki. “Movimento”, editado em 2013 pela PontoZurca, é o seu segundo álbum, onde assina a produção musical e a composição de todos os temas. Um deles é uma letra de Carlos Ferreira, jornalista e poeta angolano. Outro é o poema “Ronda”, de Alda Lara.
No palco, acompanham-na neste momento os músicos Marco Pombinho (piano e rhodes), Marcos Alves (bateria e percussão) e Francesco Valente (baixo e contrabaixo).
JLC
in CONTACTO, 09/07/2014
quinta-feira, 3 de julho de 2014
Editorial: Uma nova era
O mundo financeiro fala na “retoma” e no fim de uma ressaca que dura desde 2008. Os indicadores económicos europeus e americanos parecem realmente querer voltar a arrancar. A última grande depressão, de 1929, durou quanto tempo? Cinco, seis, sete anos? Ou só se diluiu realmente sob o impulso económico da II Guerra Mundial?
A História, feita de golpes e contra-golpes, avanços e solavancos, detesta ’replays’. Muitas vezes são os homens que gostam de pensar que esta se repete e que eles – politólogos, historiadores, adivinhos – conseguem prever o que aí vem. A verdade é que nunca nada acontece duas vezes da mesma forma.
2014 não será como 1914 o fim de uma época e o início de uma nova era. No entanto, é curioso verificar que o século XX terminou da mesma forma como começou o seguinte. No pó. “O Século Sangrento” ou “A Era dos Extremos”, como lhe chamou Hobsbawn, findou no pó que ficou depois de o muro ruir em Berlim, o que permitiu reunificar a Alemanha e à UE crescer para leste.
O século XXI iniciou-se da mesma forma, com muros a ruir, os das torres gémeas de Nova Iorque. Mas enquanto o colapso do muro da vergonha permitiu reunir povos, a queda do World Trade Center tornou visível uma muralha que se tinha erguido num silêncio amordaçado por décadas de hegemonia ocidental e separava o eixo EUA/Europa, centrado num crescimento económico exponencial, e uma parte do mundo árabe, que se radicalizara. Este “segundo mundo” recusava continuar a ser explorado e a ser gerador da riqueza do primeiro. A jihad apregoada pelos fundamentalistas islâmicos não é uma guerra santa, mas económica.
Obama venceu duas eleições com a promessa de que marcaria a diferença com os seus predecessores. Externamente, não o tem conseguido, a retirada das tropas do Iraque e do Afeganistão está por cumprir, o petróleo ainda fala mais alto. Mas os EUA têm feito esforços para não continuar a depender tanto do exterior neste sector. Obama tem apostado, mais do que qualquer administração americana anterior, nas energias renováveis.
A “revolução” pode vir do interior mesmo do sector que tem comandado, mais do que qualquer outro, a política externa norte-americana no último meio-século. Os EUA acabam de autorizar os produtores americanos de brent a voltar a exportar petróleo bruto, algo que não acontecia desde o choque petrolífero de 1973. Esta decisão deve-se à exploração das jazidas de petróleo de xisto no seu próprio território, cujas reservas são estimadas em décadas. Esta autonomia energética, com a qual Washington não vivia há mais de 50 anos, pode levar a uma mudança completa da sua política externa e, consequentemente, de todo o xadrez mundial.
E a Europa, vive um novo alento? A Alemanha, a França, o Luxemburgo e até Portugal falam nos indicadores da retoma económica. Politicamente também, o tabuleiro europeu parece (re)compôr-se e anunciar uma nova era: Juncker, ano 1.
Porque será que David Cameron se mostrou tão hostil ao luxemburguês? Talvez porque sabe que aquilo de que a UE dividida e em crise precisa urgentemente é de alguém que federe e não que separe. Para o Reino Unido – que há mais de 30 anos está com um pé dentro, outro fora da UE e um olho em Washington –, uma Europa aos solavancos não prejudica os interesses insulares, muito pelo contrário.
Juncker é dos poucos políticos (senão o único) ainda em exercício a ter estado na negociação e assinatura do Tratado de Maastricht, que prevê uma UE ainda por acontecer. Talvez seja dos poucos também que neste momento saibam mostrar o caminho à UE, aquele para a qual foi pensada e fundada. A UE precisa de sair de dez anos de status quo barrosista, precisa de um representante forte e carismático. Será Juncker esse homem?
Na política nacional, durante 18 anos, Juncker foi o sucessor providencial de Werner e Santer. Com o seu falar franco, por vezes demasiado coloquial, não hesitou em ir a contra-corrente da opinião pública (os luxemburgueses pretendiam votar contra a Constituição Europeia, Juncker ameaçou demitir-se e os resultados do sufrágio desmentiram as intenções de voto) e mesmo dentro do próprio partido.
Claro que há insucessos na sua política – o preço do imobiliário, o voto dos estrangeiros nas legislativas, o insucesso escolar dos alunos estrangeiros, etc. – mas é preciso recordar que foi ele que esteve na origem das leis que permitiram o voto dos estrangeiros nas comunais, a dupla nacionalidade (durante anos o CSV foi contra ambas, mas finalmente adoptou a posição de Juncker), o aborto, a eutanásia e até a lei anti-tabaco (sendo ele próprio um grande fumador), bem como a do casamento homossexual.
Foi nomeado para primeiro presidente do Eurogrupo em 2005, cargo que exerceu de forma exímia durante oito anos. Foi sob o mandato do “Senhor Euro”, como era apelidado, que foram lançados os planos de salvamento dos bancos e dos Estados, e concebidos os mecanismos de socorro que deverão prevenir futuras fragilidades das economias europeias. Foi ainda um dos únicos a opôr-se de forma aberta e veemente à austeridade na Europa, que Merkel pretendia ainda mais rigorosa.
Não sei se Juncker terá remédio para todos os males da Europa. Pessoalmente, tenho a esperança que Juncker encontre uma solução para a calamidade humanitária que se vive diariamente às portas da UE e que constitui uma vergonha perante o exemplo civilizacional europeu que pretendemos dar: milhares de imigrantes africanos, entre eles muitas crianças, atravessam o Mediterrâneo em busca da Europa prometida. Muitos não chegam cá, as embarcações sobrelotadas viram-se e matam sem olhar a religiões, raças e idades. Os que chegam aos nossos portões, deparam-se com a fortaleza que a Frontex montou e são enxotados como moscas de volta para uma vida de miséria.
Quando Juncker era ministro das Finanças, o Luxemburgo apostou numa solução a longo prazo como uma das soluções à imigração: o investimento e a ajuda ao desenvolvimento no país de origem da imigração. O exemplo com Cabo Verde é expressivo: a cooperação ao desenvolvimento neste arquipélago ajudou a diminuir a imigração cabo-verdiana, em geral, e para o Grão-Ducado, em particular.
Para muitos políticos, Juncker tem um grande defeito: tem sempre uma opinião e não a cala, mesmo quando não é politicamente correcta. Um dia respondeu aos jornalistas: “Nós, os políticos, sabemos bem o que é preciso fazer [para resolver a crise financeira]. O que não sabemos é como ser reeleitos!”.
Sem falsos pudores sobre os seus próprios defeitos e qualidades, directo, sem saber falar “politiquês”, pragmático e prático, é de um homem assim que a UE precisa.
José Luís Correia,
in CONTACTO. 02/07/2014
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sexta-feira, 25 de abril de 2014
Commentaire: Les Portugais veulent une nouvelle révolution!
Pour beaucoup de Portugais, le sentiment aujourd’hui est de déception, face à ce que beaucoup d'entre eux considèrent comme une trahison des idéaux du 25 avril 1974.
Le Portugal fête aujourd’hui les 40 ans de la Révolution des Oeillets. Les esprits devraient être à la fête, pour commémorer une révolution qui est entrée dans l’histoire comme un coup d’Etat pacifique, sans presque aucune effusion de sang, une révolution à la portugaise, menée par le peuple aux “moeurs douces”, fleurs aux fusils. Une révolution pacifique donc, mais dans la détermination à se défaire d'une dictature oppressante et obscurantiste qui a tyrannisé le pays pendant presque un demi-siècle, qui l’a embourbé dans une guerre coloniale le laissant exsangue de ses finances et de sa jeunesse, l’a isolé sur le plan international et a presque éteint l’étincelle de démocratie née avec la Première République (1910-1926).
Cependant, pour beaucoup de Portugais, le sentiment aujourd’hui est de déception, face à ce que beaucoup d'entre eux considèrent comme une trahison des idéaux du 25 avril 1974. L’austérité imposée par la Troïka n'est pas due à la frivolité économique avec laquelle beaucoup de Portugais auraient vécu pendant les années 90 et au début des années 2000, selon l'insinuation du p.d.g. d’un grand groupe économique portugais. L'homme qui a encouragé le crédit irresponsable et à tout crin (même pour passer des vacances en République Dominicaine), c’est Vitor Constâncio, qui fut gouverneur de la Banque Centrale portugaise et est aujourd'hui un des vice-présidents de la BCE.
Le pays se trouve dans l’état qui est le sien aujourd'hui à cause de dérives comme celle-ci et d’autres encore du pouvoir politique des 20 dernières années, qu’il soit de droite ou de gauche (Cavaco Silva, António Guterres et José Socrates). Beaucoup de députés portugais sont bien plus affairés à servir leur propres intérêts, ceux des entreprises et des puissantes études d’avocats pour lesquels ils travaillent parallèlement à leurs fonctions au Parlement, qu’à servir le peuple qu’ils sont appelés à représenter.
Aujourd’hui le peuple est libre, mais beaucoup manquent de pain. “Il n’y aura de vraie liberté que lorsqu'il y aura la paix, du pain, des logements, la santé et l'éducation”, chantait déjà Sérgio Godinho en 1974. La paix seule est acquise... pour l’instant. Pour le reste il s'agit de conquêtes qui souffrent une érosion, et qui échappent à chaque fois à plus de Portugais. La faim et la misère sont à nouveau dans les rues. Dans les rues d’un pays de l’UE, pourtant considérée comme un exemple civilisationnel et politique.
Le peuple s’exaspère et proteste: les trois D du 25 avril 1974 – “démocratiser, développer et décoloniser” – ce peuple les remplace désormais par trois nouveaux “D”: désobéir, “dé-troiker” (sortir de la troika) et démettre (le gouvernement). Le peuple manifeste, mais finit par émigrer. Il n’y avait pas autant d’émigration (plus de 100.000 par an) depuis les années 60. Les Portugais fuyaient alors la dictature et la misère, aujourd’hui ils fuient à la recherche d’un avenir que leur propre pays leur refuse.
José Luis Correia
in "Luxemburger Wort", 25.04.2014
Le Portugal fête aujourd’hui les 40 ans de la Révolution des Oeillets. Les esprits devraient être à la fête, pour commémorer une révolution qui est entrée dans l’histoire comme un coup d’Etat pacifique, sans presque aucune effusion de sang, une révolution à la portugaise, menée par le peuple aux “moeurs douces”, fleurs aux fusils. Une révolution pacifique donc, mais dans la détermination à se défaire d'une dictature oppressante et obscurantiste qui a tyrannisé le pays pendant presque un demi-siècle, qui l’a embourbé dans une guerre coloniale le laissant exsangue de ses finances et de sa jeunesse, l’a isolé sur le plan international et a presque éteint l’étincelle de démocratie née avec la Première République (1910-1926).
Cependant, pour beaucoup de Portugais, le sentiment aujourd’hui est de déception, face à ce que beaucoup d'entre eux considèrent comme une trahison des idéaux du 25 avril 1974. L’austérité imposée par la Troïka n'est pas due à la frivolité économique avec laquelle beaucoup de Portugais auraient vécu pendant les années 90 et au début des années 2000, selon l'insinuation du p.d.g. d’un grand groupe économique portugais. L'homme qui a encouragé le crédit irresponsable et à tout crin (même pour passer des vacances en République Dominicaine), c’est Vitor Constâncio, qui fut gouverneur de la Banque Centrale portugaise et est aujourd'hui un des vice-présidents de la BCE.
Le pays se trouve dans l’état qui est le sien aujourd'hui à cause de dérives comme celle-ci et d’autres encore du pouvoir politique des 20 dernières années, qu’il soit de droite ou de gauche (Cavaco Silva, António Guterres et José Socrates). Beaucoup de députés portugais sont bien plus affairés à servir leur propres intérêts, ceux des entreprises et des puissantes études d’avocats pour lesquels ils travaillent parallèlement à leurs fonctions au Parlement, qu’à servir le peuple qu’ils sont appelés à représenter.
Aujourd’hui le peuple est libre, mais beaucoup manquent de pain. “Il n’y aura de vraie liberté que lorsqu'il y aura la paix, du pain, des logements, la santé et l'éducation”, chantait déjà Sérgio Godinho en 1974. La paix seule est acquise... pour l’instant. Pour le reste il s'agit de conquêtes qui souffrent une érosion, et qui échappent à chaque fois à plus de Portugais. La faim et la misère sont à nouveau dans les rues. Dans les rues d’un pays de l’UE, pourtant considérée comme un exemple civilisationnel et politique.
Le peuple s’exaspère et proteste: les trois D du 25 avril 1974 – “démocratiser, développer et décoloniser” – ce peuple les remplace désormais par trois nouveaux “D”: désobéir, “dé-troiker” (sortir de la troika) et démettre (le gouvernement). Le peuple manifeste, mais finit par émigrer. Il n’y avait pas autant d’émigration (plus de 100.000 par an) depuis les années 60. Les Portugais fuyaient alors la dictature et la misère, aujourd’hui ils fuient à la recherche d’un avenir que leur propre pays leur refuse.
José Luis Correia
in "Luxemburger Wort", 25.04.2014
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Os portugueses querem um novo 25 de Abril!
Portugal festeja hoje os 40 anos da Revolução dos Cravos. O sentimento hoje deveria ser de festa, para comemorar uma revolução que ficou na história como um golpe militar pacífico, em que praticamente não houve efusão de sangue, uma revolução à portuguesa, levada pelo povo dos brandos costumes, feita com flores nos canos das espingardas. Brandos, pacíficos, mas firmes na decisão de retirar do poder a ditadura opressora e obscurantista que tiranizou o país durante quase meio século, o enlameou numa guerra colonial que deixava o país exangue das suas finanças e da sua juventude, o isolou internacionalmente e quase extinguiu a faísca de democracia que tinha nascido com a Primeira República (1910-1926).
No entanto, para muitos portugueses, o sentimento no dia de hoje é de desilusão, perante o que muitos consideram uma traição aos ideais do 25 de Abril de 74. A austeridade imposta pela troika não se deveu à leviandade económica com que muitos portugueses teriam vivido nos anos 90 e início dos anos 2000, como chegou a acusar o gestor de um grande grupo económico português. Quem incentivou o crédito irresponsável a torto e a direito (até para passar férias na República Dominicana) foi Vitor Constâncio, que era governador do Banco de Portugal e é hoje um dos vices-presidentes do BCE.
O país está no estado em que está devido a essas e outras derivas do poder politico nos últimos 20 anos, quer seja de direita como de esquerda (cavaquismo, guterrismo, socratismo). Muitos deputados estão bem mais atarefados a defender os seus próprios interesses, os das empresas e os dos poderosos gabinetes de advogados a que pertencem e para os quais trabalham, paralelamente às suas funções no Parlamento, do que em servir o povo que são suposto representar.
Hoje o povo é livre, mas muitos não têm pão. "Só há liberdade a sério quando houver a paz, o pão, habitação, saúde, educação", já cantava Sérgio Godinho em 1974. A paz é a única que é garantida... para já. As outras conquistas têm vindo a sofrer de erosão, e vão escapando a cada vez mais portugueses. A fome e a miséria voltaram às ruas. Às ruas de um país da UE, que é considerada um exemplo civilizacional e político.
O povo exaspera-se e protesta: os três D - democratizar, desenvolver e descolonizar - do 25 de Abril, os portugueses substituiram-nos por três novos “D”: desobedecer, “destroikar” e demitir [o Governo]. O povo manifesta-se, mas acaba por emigrar. Não havia tanta emigração (mais de 100 mil por ano) desde os anos 60. Fugiam da ditadura e da miséria, hoje fogem em busca de um futuro que o seu próprio país lhes quer negar.
José Luís Correia
in Luxemburger Wort, 25/04/2014 (Der Kommentar, seite 3)
__________________________________________
(version française)
Les portugais veulent un nouvelle révolution!
Le Portugal fête aujourd’hui les 40 ans de la Révolution des Oeillets. Les esprits devraient être à la fête, pour commémorer une révolution qui est entrée dans l’histoire comme un coup d’Etat pacifique, sans presque aucune effusion de sang, une révolution à la portugaise, menée par le peuple aux “moeurs douces”, fleurs aux fusils. Une révolution pacifique donc, mais dans la détermination à se défaire d'une dictature oppressante et obscurantiste qui a tyrannisé le pays pendant presque un demi-siècle, qui l’a embourbé dans une guerre coloniale le laissant exsangue de ses finances et de sa jeunesse, l’a isolé sur le plan international et a presque éteint l’étincelle de démocratie née avec la Première République (1910-1926).
Cependant, pour beaucoup de Portugais, le sentiment aujourd’hui est de déception, face à ce que beaucoup d'entre eux considèrent comme une trahison des idéaux du 25 avril 1974.
L’austérité imposée par la Troïka n'est pas due à la frivolité économique avec laquelle beaucoup de Portugais auraient vécu pendant les années 90 et au début des années 2000, selon l'insinuation du p.d.g. d’un grand groupe économique portugais. L'homme qui a encouragé le crédit irresponsable et à tout crin (même pour passer des vacances en République Dominicaine), c’est Vitor Constâncio, qui fut gouverneur de la Banque Centrale portugaise et est aujourd'hui un des vice-présidents de la BCE.
Le pays se trouve dans l’état qui est le sien aujourd'hui à cause de dérives comme celle-ci et d’autres encore du pouvoir politique des 20 dernières années, qu’il soit de droite ou de gauche (Cavaco Silva, António Guterres et José Socrates).
Beaucoup de députés portugais sont bien plus affairés à servir leur propres intérêts, ceux des entreprises et des puissantes études d’avocats pour lesquels ils travaillent parallèlement à leurs fonctions au Parlement, qu’à servir le peuple qu’ils sont appelés à représenter.
Aujourd’hui le peuple est libre, mais beaucoup manquent de pain. “Il n’y aura de vraie liberté que lorsqu'il y aura la paix, du pain, des logements, la santé et l'éducation”, chantait déjà Sérgio Godinho en 1974. La paix seule est acquise... pour l’instant. Pour le reste il s'agit de conquêtes qui souffrent une érosion, et qui échappent à chaque fois à plus de Portugais. La faim et la misère sont à nouveau dans les rues. Dans les rues d’un pays de l’UE, pourtant considérée comme un exemple civilisationnel et politique. Le peuple s’exaspère et proteste: les trois D du 25 avril 1974 – “démocratiser, développer et décoloniser” – ce peuple les remplace désormais par trois nouveaux “D”: désobéir, “dé-troiker” (sortir de la troika) et démettre (le gouvernement). Le peuple manifeste, mais finit par émigrer. Il n’y avait pas autant d’émigration (plus de 100.000 par an) depuis les années 60. Les Portugais fuyaient alors la dictature et la misère, aujourd’hui ils fuient à la recherche d’un avenir que leur propre pays leur refuse.
José Luís Correia
(in wort.lu/de, 25/04/2014)
No entanto, para muitos portugueses, o sentimento no dia de hoje é de desilusão, perante o que muitos consideram uma traição aos ideais do 25 de Abril de 74. A austeridade imposta pela troika não se deveu à leviandade económica com que muitos portugueses teriam vivido nos anos 90 e início dos anos 2000, como chegou a acusar o gestor de um grande grupo económico português. Quem incentivou o crédito irresponsável a torto e a direito (até para passar férias na República Dominicana) foi Vitor Constâncio, que era governador do Banco de Portugal e é hoje um dos vices-presidentes do BCE.
O país está no estado em que está devido a essas e outras derivas do poder politico nos últimos 20 anos, quer seja de direita como de esquerda (cavaquismo, guterrismo, socratismo). Muitos deputados estão bem mais atarefados a defender os seus próprios interesses, os das empresas e os dos poderosos gabinetes de advogados a que pertencem e para os quais trabalham, paralelamente às suas funções no Parlamento, do que em servir o povo que são suposto representar.
Hoje o povo é livre, mas muitos não têm pão. "Só há liberdade a sério quando houver a paz, o pão, habitação, saúde, educação", já cantava Sérgio Godinho em 1974. A paz é a única que é garantida... para já. As outras conquistas têm vindo a sofrer de erosão, e vão escapando a cada vez mais portugueses. A fome e a miséria voltaram às ruas. Às ruas de um país da UE, que é considerada um exemplo civilizacional e político.
O povo exaspera-se e protesta: os três D - democratizar, desenvolver e descolonizar - do 25 de Abril, os portugueses substituiram-nos por três novos “D”: desobedecer, “destroikar” e demitir [o Governo]. O povo manifesta-se, mas acaba por emigrar. Não havia tanta emigração (mais de 100 mil por ano) desde os anos 60. Fugiam da ditadura e da miséria, hoje fogem em busca de um futuro que o seu próprio país lhes quer negar.
José Luís Correia
in Luxemburger Wort, 25/04/2014 (Der Kommentar, seite 3)
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(version française)
Les portugais veulent un nouvelle révolution!
Le Portugal fête aujourd’hui les 40 ans de la Révolution des Oeillets. Les esprits devraient être à la fête, pour commémorer une révolution qui est entrée dans l’histoire comme un coup d’Etat pacifique, sans presque aucune effusion de sang, une révolution à la portugaise, menée par le peuple aux “moeurs douces”, fleurs aux fusils. Une révolution pacifique donc, mais dans la détermination à se défaire d'une dictature oppressante et obscurantiste qui a tyrannisé le pays pendant presque un demi-siècle, qui l’a embourbé dans une guerre coloniale le laissant exsangue de ses finances et de sa jeunesse, l’a isolé sur le plan international et a presque éteint l’étincelle de démocratie née avec la Première République (1910-1926).
Cependant, pour beaucoup de Portugais, le sentiment aujourd’hui est de déception, face à ce que beaucoup d'entre eux considèrent comme une trahison des idéaux du 25 avril 1974.
L’austérité imposée par la Troïka n'est pas due à la frivolité économique avec laquelle beaucoup de Portugais auraient vécu pendant les années 90 et au début des années 2000, selon l'insinuation du p.d.g. d’un grand groupe économique portugais. L'homme qui a encouragé le crédit irresponsable et à tout crin (même pour passer des vacances en République Dominicaine), c’est Vitor Constâncio, qui fut gouverneur de la Banque Centrale portugaise et est aujourd'hui un des vice-présidents de la BCE.
Le pays se trouve dans l’état qui est le sien aujourd'hui à cause de dérives comme celle-ci et d’autres encore du pouvoir politique des 20 dernières années, qu’il soit de droite ou de gauche (Cavaco Silva, António Guterres et José Socrates).
Beaucoup de députés portugais sont bien plus affairés à servir leur propres intérêts, ceux des entreprises et des puissantes études d’avocats pour lesquels ils travaillent parallèlement à leurs fonctions au Parlement, qu’à servir le peuple qu’ils sont appelés à représenter.
Aujourd’hui le peuple est libre, mais beaucoup manquent de pain. “Il n’y aura de vraie liberté que lorsqu'il y aura la paix, du pain, des logements, la santé et l'éducation”, chantait déjà Sérgio Godinho en 1974. La paix seule est acquise... pour l’instant. Pour le reste il s'agit de conquêtes qui souffrent une érosion, et qui échappent à chaque fois à plus de Portugais. La faim et la misère sont à nouveau dans les rues. Dans les rues d’un pays de l’UE, pourtant considérée comme un exemple civilisationnel et politique. Le peuple s’exaspère et proteste: les trois D du 25 avril 1974 – “démocratiser, développer et décoloniser” – ce peuple les remplace désormais par trois nouveaux “D”: désobéir, “dé-troiker” (sortir de la troika) et démettre (le gouvernement). Le peuple manifeste, mais finit par émigrer. Il n’y avait pas autant d’émigration (plus de 100.000 par an) depuis les années 60. Les Portugais fuyaient alors la dictature et la misère, aujourd’hui ils fuient à la recherche d’un avenir que leur propre pays leur refuse.
José Luís Correia
(in wort.lu/de, 25/04/2014)
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quinta-feira, 24 de abril de 2014
Fátima Marinho na Primavera dos Poetas do Luxemburgo, esta sexta e sábado
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| Foto: Primavera dos Poetas |
Fátima Marinho vai estar no Grão-Ducado na sexta e no sábado (25 e 26 de Abril), em três dos eventos da Primavera dos Poetas.
Na sexta-feira, a poetisa tem encontro marcado com alunos num dos liceus associados à edição deste ano do evento. À noite, pelas 19h, a autora vai estar na Kulturfabrik, em Esch-sur-Alzette, na abertura oficial da Primavera dos Poetas, na qual participam alguns dos 14 poetas de 13 países europeus convidados este ano pela edição luxemburguesa deste festival europeu.
No dia seguinte, sábado, há a já habitual “Grande Noite da Poesia”, na Abadia de Neumünster, no Grund, com todos os poetas convidados. O serão, com entrada livre, é animado com música e gastronomia, e divide-se em duas partes: leitura de poemas e “jam session” poética.
Fátima Marinho nasceu em 1966 em Cuba e reside actualmente em Braga. O seu mais recente livro intitula-se “Ama-me sem me suportares!” (Editora Alphabetum). Foi professora e é co-autora com Eduarda Costa da colecção de livros escolares “Magia do Saber” (Porto Editora). Foi ainda adjunta do secretário de Estado da Educação. Dirigiu várias associações culturais e de apoio às crianças e jovens em risco, e desenvolveu projectos contra a violência no meio escolar.
Por tradição, a Primavera dos Poetas no Luxemburgo convida sempre um autor português ou lusófono. Já passaram pelo evento nomes como Vasco Graça Moura, Nuno Júdice, Mário de Carvalho, Rosa Alice Branco, Valter Hugo Mãe ou José Luís Peixoto.
A Primavera dos Poetas é uma iniciativa que nasceu em França e no Quebec (Canadá) em 1999, por iniciativa do então ministro francês da Cultura Jack Lang e do poeta francês Jean-Pierre Siméon.
Logo em 1999, o Luxemburgo organizou também o evento, por iniciativa do poeta italo-luxemburguês Jean Portante. Mas só em 2008 foi criado no Luxemburgo um Comité para a organização da Primavera dos Poetas-Luxemburgo (PPL). Assim, para alguns, esta é a 15a edição da Primavera dos Poetas no Luxemburgo, enquanto para outros é a sétima.
João Tordo a 8 de Maio no Luxemburgo
Também o escritor português João Tordo é um dos autores que a Primavera dos Poetas-Luxemburgo vai trazer este ano ao Grão-Ducado.
Integrado no seu programa “Périphériques du Printemps des Poètes”, o filho de Fernando Tordo vai estar a 8 de Maio no Centro Cultural Camões, na cidade do Luxemburgo, para falar da sua obra e do seu último romance, “Biografia Involuntária dos Amantes”.
João Tordo nasceu em Lisboa em 1975. Licenciou-se em Filosofia e estudou Jornalismo e Escrita Criativa em Londres e Nova Iorque. Em 2001, venceu o Prémio Jovens Criadores na categoria de Literatura. Publicou os romances “O Livro dos Homens sem Luz” (2004), “Hotel Memória” (2007), “As Três Vidas” (2008), que recebeu o Prémio Literário José Saramago e cuja edição brasileira foi, em 2011, finalista do Prémio Portugal Telecom; “O Bom Inverno” (2010), finalista do prémio Melhor Livro de Ficção Narrativa da Sociedade Portuguesa de Autores e do Prémio Literário Fernando Namora, cuja tradução francesa integra as obras seleccionadas para a 6ª edição do Prémio Literário Europeu; e “Anatomia dos Mártires” (2011), finalista do Prémio Literário Fernando Namora.
O seu mais recente romance,”Biografia Involuntária dos Amantes”, saiu há poucas semanas. Os seus livros estão publicados em França, Itália, Brasil, Sérvia e Croácia. João Tordo trabalha ainda como cronista, tradutor e guionista.
José Luís Correia
(in CONTACTO, 02/04/2014)
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quarta-feira, 2 de abril de 2014
Os emigrantes são cidadãos de segunda
Está convocada para hoje (2 de Abril), uma manifestação frente ao Consulado de Portugal na cidade do Luxemburgo, para reivindicar mais funcionários e mais meios, de modo a este poder responder de forma mais adequada ao contínuo aumento da comunidade portuguesa no Luxemburgo.
Hoje somos 120 mil. Mas quando éramos 80 mil, no virar do século, a situação era igual, ou 60 mil nos anos 90, ou mesmo 30 mil nos anos 80. Uma das únicas coisas que não mudou na comunidade portuguesa do Luxemburgo, e que me lembro, é o descontentamento com os serviços consulares.
Nos anos 70 e 80, eram vergonhosas as filas que se formavam diariamente, logo desde madrugada, na Allée Scheffer. Quando o Consulado se mudou para a rue du Fort Rheinsheim (no fim dos anos 80), as filas foram apenas deslocalizadas. E novamente, em 2007, quando o Consulado se mudou para a route de Longwy, as instalações melhoraram, mas os tempos de espera intermináveis voltam de quando em vez. Dependia por vezes de um(a) cônsul, que tentava inovar com este ou aquele sistema de atendimento diferente, ou dos funcionários que aumentavam (magramente) ou diminuiam (drasticamente) consoante o bem querer dos governos que se iam sucededendo na “metrópole”. Recorro propositadamente ao vocabulário salazarento, porque é assim que somos tratados por Lisboa, como uma longíqua colónia, como portugueses de segunda.
Como muito bem fez notar o conselheiro das Comunidades, Eduardo Dias, que convocou a manifestação de hoje, a população portuguesa representa, actualmente no Grão-Ducado, a de um concelho de dimensões médias em Portugal, como Setúbal, Leiria ou Barcelos. Quantos funcionários públicos têm esses concelhos? Setúbal, 1.400, Leiria e Barcelos, 700. E o nosso Consulado? Uma dezena e meia!!! Uma dezena e meia de funcionários para atender 120 mil portugueses?!!
Uma dezena e meia que não podem fazer milagres, que são mal pagos, que viram os seus salários reduzidos com as regras da austeridade impostas por Lisboa, outros que continuam lá, apesar de o Consulado estar na mais pura das ilegalidades ao não lhes conceder os aumentos salariais a que a lei laboral luxemburguesa lhes dá direito.A solução do consulado itinerante foi positiva (apesar dos custos acrescidos que envolve para o utente), mas também já mostrou o seu limite.
A secretaria de Estado das Comunidades desculpa-se com a “austeridade”, mas é apenas uma palavra nova para um conceito que aplica às comunidades desde sempre. Desde os anos 70, do século passado, que os funcionários são insuficientes no Consulado. Além disso, por muitos cortes que sejam impostos por Lisboa, será que não há verbas para uma comunidade que só em 2013 enviou remessas de dinheiro para Portugal no valor de quase 80 milhões de euros?
Esta desconsideração pelas comunidades não se nota apenas nos magros recursos atribuídos às embaixadas e aos consulados. Quando se sabe que os cinco milhões de emigrantes espalhados pelo Mundo são representados por apenas quatro (4!) deputados na Assembleia da República, está tudo dito.
Felizmente nem todos nos fazem sentir cidadãos de segunda. O que faz falta nas relações Governo-Comunidades não são só verbas, são também homens como aquele que desapareceu na sexta-feira, o Dr. Carlos Correia.
Destacado para o Luxemburgo em 2004, como adido social, viu-se “empurrado” a assumir a responsabilidade do Instituto Camões quando o Governo decidiu que já não havia dinheiro para um adido cultural, e exonerou o então director do IC, Luís Gaivão, em 2006. Lisboa nem sequer pagava (e ainda hoje não paga, quem o faz é o Governo luxemburguês) a renda do espaço onde se encontra o IC, mas argumentava que não havia mais dinheiro para promover a cultura junto dos portugueses do Luxemburgo. Tudo isto ainda antes dos anos de ”austeridade”. Sem aumento de salário, sem meios nem recursos, Carlos Correia e a sua magra equipa, mantiveram o IC a funcionar, e com uma programação que não envergonhou Portugal.
Com o nosso jornal, Carlos Correia foi, como também era para todos os que o conheceram, acessível, disponível, simpático, amistoso no trato, sem tomar ofensa nem agravo mesmo quando criticávamos algo que emanasse do seu próprio serviço. Ao contrário de outros diplomatas que com tudo se melindram e que têm a epiderme sensível à menor crítica. Tivemos até uma diplomata que queria fazer uma “leitura prévia” das cartas à redacção que viéssemos a receber e que falassem do Consulado. Lembrei-lhe que a época do lápis azul tinha acabado, e nunca mais me convidou para almoçar.
Hoje, Joaquim Prazeres (e equipa), responsável pela Coordenação do Ensino, continua o trabalho de Carlos Correia à frente do IC, da mesma forma e do mesmo modo: sem meios nem recursos, mas corajoso e voluntarioso. São homens destes que salvam a imagem de Portugal e da nossa comunidade.
Só mais um exemplo: um outro adido, social e cultural, que a comunidade quis “fazer” cônsul (Rui Dias Costa). Mostrou sempre disponibilidade para as associações, e como respondia aos convites que estas lhe dirigiam para esta ou aquela festa, toda a gente pensava que ele era o cônsul e não o outro. O cônsul (o legítimo), diziam as rábulas radiofónicas que sobre se ele se faziam, não ia em ranchos nem charolas, “não bebia em copos de plástico” e ”gostava de cofiar o bigode novecentista”. “Ele não se mistura com portugueses de segunda”, dizia-se na comunidade.
Os portugueses do Luxemburgo e as comunidades em geral só pedem isso, ser tratados como cidadãos. Nem de primeira, nem de segunda. Cidadãos, ponto. E isso passa por ter serviços consulares eficientes e adequados à comunidade e por não ter de esperar horas, dias, até que alguém atenda um telefone para poder agendar uma marcação para renovar o passaporte ou o BI.
José Luís Correia
(in CONTACTO, de 02/04/2014)
Hoje somos 120 mil. Mas quando éramos 80 mil, no virar do século, a situação era igual, ou 60 mil nos anos 90, ou mesmo 30 mil nos anos 80. Uma das únicas coisas que não mudou na comunidade portuguesa do Luxemburgo, e que me lembro, é o descontentamento com os serviços consulares.
Nos anos 70 e 80, eram vergonhosas as filas que se formavam diariamente, logo desde madrugada, na Allée Scheffer. Quando o Consulado se mudou para a rue du Fort Rheinsheim (no fim dos anos 80), as filas foram apenas deslocalizadas. E novamente, em 2007, quando o Consulado se mudou para a route de Longwy, as instalações melhoraram, mas os tempos de espera intermináveis voltam de quando em vez. Dependia por vezes de um(a) cônsul, que tentava inovar com este ou aquele sistema de atendimento diferente, ou dos funcionários que aumentavam (magramente) ou diminuiam (drasticamente) consoante o bem querer dos governos que se iam sucededendo na “metrópole”. Recorro propositadamente ao vocabulário salazarento, porque é assim que somos tratados por Lisboa, como uma longíqua colónia, como portugueses de segunda.
Como muito bem fez notar o conselheiro das Comunidades, Eduardo Dias, que convocou a manifestação de hoje, a população portuguesa representa, actualmente no Grão-Ducado, a de um concelho de dimensões médias em Portugal, como Setúbal, Leiria ou Barcelos. Quantos funcionários públicos têm esses concelhos? Setúbal, 1.400, Leiria e Barcelos, 700. E o nosso Consulado? Uma dezena e meia!!! Uma dezena e meia de funcionários para atender 120 mil portugueses?!!
Uma dezena e meia que não podem fazer milagres, que são mal pagos, que viram os seus salários reduzidos com as regras da austeridade impostas por Lisboa, outros que continuam lá, apesar de o Consulado estar na mais pura das ilegalidades ao não lhes conceder os aumentos salariais a que a lei laboral luxemburguesa lhes dá direito.A solução do consulado itinerante foi positiva (apesar dos custos acrescidos que envolve para o utente), mas também já mostrou o seu limite.
A secretaria de Estado das Comunidades desculpa-se com a “austeridade”, mas é apenas uma palavra nova para um conceito que aplica às comunidades desde sempre. Desde os anos 70, do século passado, que os funcionários são insuficientes no Consulado. Além disso, por muitos cortes que sejam impostos por Lisboa, será que não há verbas para uma comunidade que só em 2013 enviou remessas de dinheiro para Portugal no valor de quase 80 milhões de euros?
Esta desconsideração pelas comunidades não se nota apenas nos magros recursos atribuídos às embaixadas e aos consulados. Quando se sabe que os cinco milhões de emigrantes espalhados pelo Mundo são representados por apenas quatro (4!) deputados na Assembleia da República, está tudo dito.
Felizmente nem todos nos fazem sentir cidadãos de segunda. O que faz falta nas relações Governo-Comunidades não são só verbas, são também homens como aquele que desapareceu na sexta-feira, o Dr. Carlos Correia.
Destacado para o Luxemburgo em 2004, como adido social, viu-se “empurrado” a assumir a responsabilidade do Instituto Camões quando o Governo decidiu que já não havia dinheiro para um adido cultural, e exonerou o então director do IC, Luís Gaivão, em 2006. Lisboa nem sequer pagava (e ainda hoje não paga, quem o faz é o Governo luxemburguês) a renda do espaço onde se encontra o IC, mas argumentava que não havia mais dinheiro para promover a cultura junto dos portugueses do Luxemburgo. Tudo isto ainda antes dos anos de ”austeridade”. Sem aumento de salário, sem meios nem recursos, Carlos Correia e a sua magra equipa, mantiveram o IC a funcionar, e com uma programação que não envergonhou Portugal.
Com o nosso jornal, Carlos Correia foi, como também era para todos os que o conheceram, acessível, disponível, simpático, amistoso no trato, sem tomar ofensa nem agravo mesmo quando criticávamos algo que emanasse do seu próprio serviço. Ao contrário de outros diplomatas que com tudo se melindram e que têm a epiderme sensível à menor crítica. Tivemos até uma diplomata que queria fazer uma “leitura prévia” das cartas à redacção que viéssemos a receber e que falassem do Consulado. Lembrei-lhe que a época do lápis azul tinha acabado, e nunca mais me convidou para almoçar.
Hoje, Joaquim Prazeres (e equipa), responsável pela Coordenação do Ensino, continua o trabalho de Carlos Correia à frente do IC, da mesma forma e do mesmo modo: sem meios nem recursos, mas corajoso e voluntarioso. São homens destes que salvam a imagem de Portugal e da nossa comunidade.
Só mais um exemplo: um outro adido, social e cultural, que a comunidade quis “fazer” cônsul (Rui Dias Costa). Mostrou sempre disponibilidade para as associações, e como respondia aos convites que estas lhe dirigiam para esta ou aquela festa, toda a gente pensava que ele era o cônsul e não o outro. O cônsul (o legítimo), diziam as rábulas radiofónicas que sobre se ele se faziam, não ia em ranchos nem charolas, “não bebia em copos de plástico” e ”gostava de cofiar o bigode novecentista”. “Ele não se mistura com portugueses de segunda”, dizia-se na comunidade.
Os portugueses do Luxemburgo e as comunidades em geral só pedem isso, ser tratados como cidadãos. Nem de primeira, nem de segunda. Cidadãos, ponto. E isso passa por ter serviços consulares eficientes e adequados à comunidade e por não ter de esperar horas, dias, até que alguém atenda um telefone para poder agendar uma marcação para renovar o passaporte ou o BI.
José Luís Correia
(in CONTACTO, de 02/04/2014)
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sábado, 29 de março de 2014
Morreu Carlos Correia, ex-adido social da Embaixada de Portugal no Luxemburgo
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| Foto: Álvaro Cruz |
“Lamento muito ter de informar que o Carlos Correia, meu chefe de gabinete faleceu hoje a meio da tarde, vitima de doença súbita. O Carlos era um grande Amigo com quem tive um percurso comum, de mais de 15 anos, ao serviço da causa das Comunidades. Era, sobretudo, UM HOMEM BOM, leal, generoso e muito dedicado. Paz à sua alma”, escreveu o secretário de Estado das Comunidades na sua página no Facebook, na sexta-feira.
Carlos Correia trabalhava como chefe de gabinete de José Cesário desde 2012, depois de ter estado durante oito anos no Luxemburgo, onde exerceu o cargo de adido social e cultural da Embaixada de Portugal, tendo ainda sido, entre 2006 e 2012, responsável pelo Instituto Camões no Grão-Ducado.
Depois da mensagem de José Cesário no Facebook multiplicaram-se as condolências na página do secretário de Estado, bem como mensagens sentidas em memória de Carlos Correia em páginas pessoais de responsáveis do movimento associativo português no Luxemburgo e de anónimos que privaram com o antigo diplomata.
“Acabei de ter a triste noticia que faleceu um grande amigo pessoal e um homem atento às migrações. O Dr. Carlos Correia, actual chefe de gabinete do secretário de Estado das Comunidades e ex-director do Instituto Camões do Luxemburgo, era um verdadeiro diplomata, sempre atento e sempre disponível. Obrigado Dr. Carlos Correia pelas suas últimas palavras de simpatia da passada terça-feira. Paz à sua alma e até um dia”, escreveu José Coimbra de Matos, presidente da Confederação da Comunidade Portuguesa no Luxemburgo (CCPL), na sua cronologia no Facebook.
Foi também através do Facebook que se exprimiu Eduardo Dias, conselheiro das Comunidades pelo Luxemburgo. “Carlos Correia morreu. Era um diplomata e um homem de terreno. Sempre disponível. Profundamente chocado, recordo um homem dedicado, elegante no trato, sensível. Com todas as contradições, foi um modelo de funcionário, alto funcionário, leal. Tive o prazer de ter convivido com ele, no Luxemburgo e em Portugal. Era um amigo! Morreu cedo e não merecia. Descanse em Paz!”.
Também o deputado do PSD eleito pela Emigração deixou uma mensagem de homenagem a Carlos Correia na sua página Facebook. “O falecimento do Dr. Carlos Pereira Correia é uma grande perda para as comunidades portuguesas. No exercício de funções de chefe de Gabinete de vários secretários de Estado da Emigração e das Comunidades Portuguesas e como conselheiro social em Paris, Luanda e Luxemburgo realizou um trabalho notável e que as comunidades não esquecem. Por onde passou deixou amigos e saudade porque era, antes de tudo, um homem bom. Não esqueço o apoio que me deu no início da minha carreira política pois sempre acreditou em mim e sempre mantive com ele uma relação de amizade, mas também tinha por ele uma enorme admiração. Sempre disponível, sempre pronto a ajudar os outros e, sobretudo, duma honestidade extraordinária. Lembro neste momento em que o Dr. Carlos Correia nos deixa os momentos que muitos de nós passaram com ele em Paris. Momentos inesquecíveis de encontros de amigos que nunca se apagarão. O que é importante na vida é a família e os amigos. Hoje perdemos um amigo e as comunidades portuguesas perderam alguém que era da sua família”, escreveu Gonçalves.
No momento da despedida, em Maio de 2012, ao CONTACTO, Carlos Correia garantia que não iria esquecer a sua passagem pelo Grão-Ducado. “Vivi no Luxemburgo uma experiência muito rica com a comunidade portuguesa, quer com o movimento associativo na sua globalidade – onde fiz muitos amigos –, quer na execução dos programas anuais de actividades do Instituto Camões. Levo a comunidade no coração”.
O funeral de Carlos Correia tem lugar no domingo à tarde na Igreja de Tercena, em Oeiras.
José Luís Correia
(in CONTACTO.LU, 29/03/2014)
quinta-feira, 6 de março de 2014
Putin que o pariu
Uma guerra entre dois estados europeus em pleno século XXI só podia ser parida por um filho da Put(in), um ex-expiãozeco com azia soviética, que depois de se destacar como um medíocre agente secreto, foi relegado a mero funcionário diligente do KGB, e que hoje aspira – bolorento, paranóico e saudosista –, a restabelecer a antiga glória e grandeza da URSS.
Ao recorrer à escalada militar na Crimeia, enviando milhares de soldados russos para a Ucrânia, Vladimir Putin não só violou a integridade territorial de um país europeu, como prova definitivamente que nunca digeriu a queda do muro de Berlim e o consequente colapso da União Soviética, dois acontecimentos históricos que trouxeram mais estabilidade à Europa.
É o que todos nós acreditamos. Putin não! Mas será que ao acenar com a bandeira vermelha de uma guerra na Europa, que acende em nós as piores memórias da nossa história recente, Putin não estará a fazer bluff?
Quando algo acontece na actualidade e cujos contornos ainda permanecem indefinidos, quando os analistas políticos ainda não decifraram claramente as motivações dos quem e dos porquês, por deformação profissional coloco-me sempre a mesma questão: isto beneficia quem?
A resposta a que cheguei, no caso de uma eventual guerra Rússia-Ucrânia, é que não beneficia ninguém: nem a Rússia, que se quer impor como um parceiro sério no xadrez económico e político internacional; nem os EUA, a braços com uma crise económica interna e que não têm interesse em embarcar numa nova guerra, que os seus cidadãos nunca apoiariam; nem a UE, que tem tudo a perder com um conflito armado no seu seio; e muito menos a Ucrânia, que não quer ser palco de um teatro de guerra sangrento.
Mas, destes todos, talvez a Rússia seja o país que realmente mais tem a perder. O valor do rublo nunca esteve tão baixo e desde que a crise com a Ucrânia piorou, ainda se deteriorou mais. Ao lançar-se numa guerra com a Ucrânia, a Rússia arrisca-se a perder o seu lugar no G8, pelo qual tanto lutou nos últimos anos. Perderia também os seus melhores clientes do mercado do gás, cujas condutas atravessam a Ucrânia para chegar à UE. E veria parte da sua economia bloqueada, com as contas bancárias dos seus dirigentes e oligarcas congeladas na UE. Mesmo se graças a este braço-de-ferro com Kiev, Putin nunca esteve melhor nas sondagens domésticas, ao intervir na Crimeia perderia toda a credibilidade internacional, ele que tanto tem defendido a não-ingerência na guerra civil síria.
A Península da Crimeia (dez vezes maior do que o Luxemburgo), no sul da Ucrânia, é para a Rússia um ponto estratégico. Militar primeiro, porque é lá que está estacionada a frota russa do mar Negro, no que é também o seu único acesso ao Mediterrâneo. Político e cultural também, porque os russos são a nacionalidade dominante da região e porque, historicamente, a Crimeia sempre foi russa. A região foi doada por Khrushchev à Ucrânia em 1954. Na altura, o gesto foi simbólico, já que a Ucrânia e a Crimeia faziam parte da URSS.
Mas revelou-se um presente envenenado quando, em 1991, os ucranianos se tornaram independentes, e a Crimeia lutou para ser uma região autónoma, não sem suscitar tensões com Kiev. Para continuar a ter ali a sua frota, Moscovo concordou em pagar uma renda anual à Ucrânia, num acordo benéfico para ambos os países e que expira em 2042. Mas sempre que o Governo de Kiev adopta uma preferência pró-UE (esta não é a primeira vez!), em detrimento da aproximação ancestral com a Rússia, as tensões agudizam-se.
Para muitos ucranianos, destituir Ianukovich significou livrar-se de um ditador que servia os interesses de Moscovo e que nem ucraniano falava. Para os pró-russos, o novo regime de Kiev é fascista, aliena-os do estatuto de protectorado da Mãe-Rússia de que gozavam, e a destituição de Ianukovich foi um golpe de Estado, incentivado pela UE e pelos EUA, o que não está longe da verdade.
Como em tudo, aqui há muitas áreas cinzentas e sobretudo muitos interesses económicos. Moscovo teme que os seus interesses sejam prejudicados na Ucrânia, com quem tem acordos económicos, como o do gás russo exportado para a UE. Se a Ucrânia pedir a adesão à UE, Putin terá de desistir da ambicionada "União Euroasiática" – bloco económico e político que Putin almeja constituir face à UE, da qual fazem já parte o Cazaquistão e a Bielorússia (ambos governados por ditadores pró-russos) –, e que sem Kiev não faz sentido.
Tudo isto leva a pensar que Putin está a fazer bluff. Nos últimos dias tem dado uma no cravo, outra na ferradura. No sábado, enviou mais tropas para a Crimeia, no domingo aceitou a mediação de Angela Merkel para dialogar com Kiev, na segunda-feira lançou um ultimato à Ucrânia, na terça mandou os seus soldados na Crimeia regressar às casernas. Quo vadis?
A ser bluff, este serve como mera demonstração de força, que visa provar toda a magnanimidade de Putin quando este propuser outras opções à guerra. Moscovo deverá então propor mais vantagens económicas e políticas à Ucrânia para que esta não se aproxime da UE. Putin pode ainda apresentar-se como salvador da Crimeia, exigindo a independência da região, o que a Ucrânia tem todo em interesse em aceitar, pouco perdendo com essa opção. Putin tem de mostrar que a Rússia é um gigante que não se deixa demover pelos seus vizinhos, nem pela UE, nem pelos EUA, nem por ninguém.
O povo amordaçado da Bielorússia está de olhos postos na crise do vizinho ucraniano. E o ditador pró-russo que dirige o país também. Lukashenko não quer ser outro Ianukovich. Putin tem de ter tudo isto em consideração e não mostrar parte fraca ao que considera uma provocação da Ucrânia. O seu pior pesadelo seria que o afastamento da Ucrânia da órbita de Moscovo contagiasse outras ex-repúblicas soviéticas que continuam, de bom ou mau grado, fiéis servos da Rússia. É um jogo perigoso o de Putin. Perigoso para a Rússia e para todos nós na Europa, afastada que pensávamos a possibilidade de uma nova guerra no nosso continente, onde a UE tem sido o garante de uma paz duradoura entre Estados, outrora inimigos ancestrais durante séculos.
Esperemos que esta crise se resolva e se torne apenas uma linha num parágrafo menor da História da Europa. Esperemos que a Rússia perceba que o reino oligarca de Putin, que dura desde 1999, apenas favorece as elites e não os cidadãos, e o povo russo entenda o seu desígnio europeu, dentro da UE, ou de uma UE diferente, alargada, maior, que poderá até ter uma denominação diferente – porque não "União Euroasiática", estendendo-se de Lisboa a Vladivostok? –, sem uma Rússia dominadora, mas parceira.
Esperemos que o povo e os dirigentes da Rússia futura entendam que é a bem que se constitui uma união e não pela força. Todos os que o tentaram pela força fracassaram, desde Alexandre Magno a Hitler. Há que aprender com a História, para não repetir os erros do passado. Os erros pagam-se caro e custam muitas vidas.
José Luís Correia
(in Jornal CONTACTO, 05/03/2014)
Ao recorrer à escalada militar na Crimeia, enviando milhares de soldados russos para a Ucrânia, Vladimir Putin não só violou a integridade territorial de um país europeu, como prova definitivamente que nunca digeriu a queda do muro de Berlim e o consequente colapso da União Soviética, dois acontecimentos históricos que trouxeram mais estabilidade à Europa.
É o que todos nós acreditamos. Putin não! Mas será que ao acenar com a bandeira vermelha de uma guerra na Europa, que acende em nós as piores memórias da nossa história recente, Putin não estará a fazer bluff?
Quando algo acontece na actualidade e cujos contornos ainda permanecem indefinidos, quando os analistas políticos ainda não decifraram claramente as motivações dos quem e dos porquês, por deformação profissional coloco-me sempre a mesma questão: isto beneficia quem?
A resposta a que cheguei, no caso de uma eventual guerra Rússia-Ucrânia, é que não beneficia ninguém: nem a Rússia, que se quer impor como um parceiro sério no xadrez económico e político internacional; nem os EUA, a braços com uma crise económica interna e que não têm interesse em embarcar numa nova guerra, que os seus cidadãos nunca apoiariam; nem a UE, que tem tudo a perder com um conflito armado no seu seio; e muito menos a Ucrânia, que não quer ser palco de um teatro de guerra sangrento.
Mas, destes todos, talvez a Rússia seja o país que realmente mais tem a perder. O valor do rublo nunca esteve tão baixo e desde que a crise com a Ucrânia piorou, ainda se deteriorou mais. Ao lançar-se numa guerra com a Ucrânia, a Rússia arrisca-se a perder o seu lugar no G8, pelo qual tanto lutou nos últimos anos. Perderia também os seus melhores clientes do mercado do gás, cujas condutas atravessam a Ucrânia para chegar à UE. E veria parte da sua economia bloqueada, com as contas bancárias dos seus dirigentes e oligarcas congeladas na UE. Mesmo se graças a este braço-de-ferro com Kiev, Putin nunca esteve melhor nas sondagens domésticas, ao intervir na Crimeia perderia toda a credibilidade internacional, ele que tanto tem defendido a não-ingerência na guerra civil síria.
A Península da Crimeia (dez vezes maior do que o Luxemburgo), no sul da Ucrânia, é para a Rússia um ponto estratégico. Militar primeiro, porque é lá que está estacionada a frota russa do mar Negro, no que é também o seu único acesso ao Mediterrâneo. Político e cultural também, porque os russos são a nacionalidade dominante da região e porque, historicamente, a Crimeia sempre foi russa. A região foi doada por Khrushchev à Ucrânia em 1954. Na altura, o gesto foi simbólico, já que a Ucrânia e a Crimeia faziam parte da URSS.
Mas revelou-se um presente envenenado quando, em 1991, os ucranianos se tornaram independentes, e a Crimeia lutou para ser uma região autónoma, não sem suscitar tensões com Kiev. Para continuar a ter ali a sua frota, Moscovo concordou em pagar uma renda anual à Ucrânia, num acordo benéfico para ambos os países e que expira em 2042. Mas sempre que o Governo de Kiev adopta uma preferência pró-UE (esta não é a primeira vez!), em detrimento da aproximação ancestral com a Rússia, as tensões agudizam-se.
Para muitos ucranianos, destituir Ianukovich significou livrar-se de um ditador que servia os interesses de Moscovo e que nem ucraniano falava. Para os pró-russos, o novo regime de Kiev é fascista, aliena-os do estatuto de protectorado da Mãe-Rússia de que gozavam, e a destituição de Ianukovich foi um golpe de Estado, incentivado pela UE e pelos EUA, o que não está longe da verdade.
Como em tudo, aqui há muitas áreas cinzentas e sobretudo muitos interesses económicos. Moscovo teme que os seus interesses sejam prejudicados na Ucrânia, com quem tem acordos económicos, como o do gás russo exportado para a UE. Se a Ucrânia pedir a adesão à UE, Putin terá de desistir da ambicionada "União Euroasiática" – bloco económico e político que Putin almeja constituir face à UE, da qual fazem já parte o Cazaquistão e a Bielorússia (ambos governados por ditadores pró-russos) –, e que sem Kiev não faz sentido.
Tudo isto leva a pensar que Putin está a fazer bluff. Nos últimos dias tem dado uma no cravo, outra na ferradura. No sábado, enviou mais tropas para a Crimeia, no domingo aceitou a mediação de Angela Merkel para dialogar com Kiev, na segunda-feira lançou um ultimato à Ucrânia, na terça mandou os seus soldados na Crimeia regressar às casernas. Quo vadis?
A ser bluff, este serve como mera demonstração de força, que visa provar toda a magnanimidade de Putin quando este propuser outras opções à guerra. Moscovo deverá então propor mais vantagens económicas e políticas à Ucrânia para que esta não se aproxime da UE. Putin pode ainda apresentar-se como salvador da Crimeia, exigindo a independência da região, o que a Ucrânia tem todo em interesse em aceitar, pouco perdendo com essa opção. Putin tem de mostrar que a Rússia é um gigante que não se deixa demover pelos seus vizinhos, nem pela UE, nem pelos EUA, nem por ninguém.
O povo amordaçado da Bielorússia está de olhos postos na crise do vizinho ucraniano. E o ditador pró-russo que dirige o país também. Lukashenko não quer ser outro Ianukovich. Putin tem de ter tudo isto em consideração e não mostrar parte fraca ao que considera uma provocação da Ucrânia. O seu pior pesadelo seria que o afastamento da Ucrânia da órbita de Moscovo contagiasse outras ex-repúblicas soviéticas que continuam, de bom ou mau grado, fiéis servos da Rússia. É um jogo perigoso o de Putin. Perigoso para a Rússia e para todos nós na Europa, afastada que pensávamos a possibilidade de uma nova guerra no nosso continente, onde a UE tem sido o garante de uma paz duradoura entre Estados, outrora inimigos ancestrais durante séculos.
Esperemos que esta crise se resolva e se torne apenas uma linha num parágrafo menor da História da Europa. Esperemos que a Rússia perceba que o reino oligarca de Putin, que dura desde 1999, apenas favorece as elites e não os cidadãos, e o povo russo entenda o seu desígnio europeu, dentro da UE, ou de uma UE diferente, alargada, maior, que poderá até ter uma denominação diferente – porque não "União Euroasiática", estendendo-se de Lisboa a Vladivostok? –, sem uma Rússia dominadora, mas parceira.
Esperemos que o povo e os dirigentes da Rússia futura entendam que é a bem que se constitui uma união e não pela força. Todos os que o tentaram pela força fracassaram, desde Alexandre Magno a Hitler. Há que aprender com a História, para não repetir os erros do passado. Os erros pagam-se caro e custam muitas vidas.
José Luís Correia
(in Jornal CONTACTO, 05/03/2014)
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quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014
As duas Leis de Sturgeon
Em 1951, Theodore Sturgeon, autor de ficcao cientifica, escreveu: "Nunca nada é absolutamente assim", que depois resumiu para "Noventa por cento da ficcao cientifica é lixo, como aliás, noventa por cento de tudo é lixo".
Esta máxima ficou conhecida como 1a Lei de Sturgeon.
Um segundo adágio, conhecida como 2a Lei de Sturgeon, é um norma para o pensamento crítico, que se resume na seguinte assumpcao: "Qual a próxima pergunta?". Este adágio vem formulado com um símbolo constituído pela letra Q, atravessada por uma seta.
Esta máxima ficou conhecida como 1a Lei de Sturgeon.
Um segundo adágio, conhecida como 2a Lei de Sturgeon, é um norma para o pensamento crítico, que se resume na seguinte assumpcao: "Qual a próxima pergunta?". Este adágio vem formulado com um símbolo constituído pela letra Q, atravessada por uma seta.
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quinta-feira, 30 de janeiro de 2014
quinta-feira, 14 de novembro de 2013
Soprano Rita Matos Alves afirma: "A ópera conjuga as minhas duas grandes paixões, o canto e o teatro"
| Foto: Manuel Dias |
Um ano e meio depois de ter estado no Luxemburgo integrando o elenco da ópera "A Flauta Mágica" de Mozart, Rita Matos Alves regressou 5 de Novembro para um recital do Foyer Européen que decorreu na sala da loja "Pianos Kléber", na capital.
"O objectivo do recital era dar uma amostra de alguns compositores que foram muito importantes no século XX português como Vianna da Motta ou Francisco de Lacerda, mas também outros menos famosos como António Fragoso, que teve uma vida muito curta, morreu aos 21 anos, mas era já considerado um dos grandes. Escolhi também canções do Croner de Vasconcelos e do Victor Macedo Pinto, que são talvez menos conhecidos mas também são mais recentes e mais modernos".
"A escolha das canções foi minha, mas dependeu sobretudo das pautas que consegui encontrar. Eu queria interpretar canções do Luís de Freitas Branco, mas não consegui encontrar as pautas", lamenta Rita num sorriso. "Há poucas pautas de música editadas em Portugal. Outras canções escolhi porque o poema era de Camões, Pessoa, Almeida Garrett, João de Deus ou Guerra Junqueiro e eu também queria dar a conhecer esses autores ao público", diz.
Rita explica ainda que muitas das canções que trouxe evocam a Belle Époque , foram compostas como música erudita, para voz e piano, mesmo se algumas ficaram depois famosas com arranjos para fado, como algumas dos temas de Fragoso, que se tornaram fados conhecidos na voz de Adriano Correia de Oliveira. No "bis", Rita cantou dois fados, "Foi Deus" e "O Fado da Mariquinhas".
Ao CONTACTO a artista afirma que gosta e que cresceu a ouvir cantar fado, o pai já cantava e ia às casas de fado com ela, e Rita revela mesmo que a primeira vez que cantou em público foi um fado. Portugal perdeu uma grande fadista ou a ópera ganhou uma grande soprano? Rita confia não lamentar não ter sido fadista porque verdadeiramente adora a carreira que seguiu. Até porque a ópera conjuga as suas duas "grandes paixões", o teatro e o canto.
"Eu adoro teatro", diz num sussurro, "e contracenar é o máximo", ri-se. "E o canto clássico permite cantar tantas coisas diferentes, de muitas épocas, em muitas línguas, há tantas possibilidades." Apesar de ainda jovem, a carreira de Rita Matos Alves tem seis anos e já muitas óperas famosas no currículo. No entanto, a soprano revela que gostaria de tentar o "bel canto", em obras de Donizetti, como "Don Pasquale" ou "Elixir do Amor", ou em "A Sonâmbula", de Vincenzo Bellini, "em que há um grande lirismo de que gosto muito".
José Luís Correia
(in Jornal CONTACTO, 13/11/2013)
quarta-feira, 6 de novembro de 2013
Às urnas, trabalhadores!
Na próxima quarta-feira, dia 13 de Novembro, têm lugar as Eleições Sociais no Luxemburgo.
Mas o que são as eleições sociais?
É uma votação através da qual os trabalhadores – todos os trabalhadores, residentes ou fronteiriços, desde que trabalhem no Grão-Ducado –, podem eleger "o seu Parlamento".
Este "Parlamento dos Trabalhadores" chama-se "Chambre des Salariés" (Câmara dos Assalariados) e ao votarem os trabalhadores vão estar a eleger os seus representantes, por sector de actividade, junto desta instituição. Há muitos portugueses candidatos. Nas empresas de construção civil os delegados portugueses ultrapassam mesmo os 80 % dos candidatos.
Composto por 60 membros (à semelhança do Parlamento luxemburguês, mas a comparação acaba aqui!), a Câmara dos Assalariados tem como missão, entre outras, dar pareceres ao Governo sobre legislação laboral e social. Tradução: é um órgão de consulta do Governo e os seus pareceres não são obrigatórios.
Os trabalhadores receberam há semanas, por correio, em casa, os boletins de voto. Nestes, podem votar nas listas e nos representantes que cada sindicato apresenta no sector de actividade em que o trabalhador está empregado. O boletim de voto deve ser reenviado à comissão eleitoral e chegar antes da data do sufrágio.
Em paralelo, decorrem também as eleições para a escolha das delegações de pessoal, mas apenas nas empresas com mais de 15 trabalhadores. Há empresas com mais de 15 trabalhadores e que não possuem delegações que representam os empregados, mas legalmente qualquer trabalhador dessas empresas pode constituir uma delegação do pessoal, se a empresa possuir o número mínimo de trabalhadores.
Porque é que é tão importante participar nas eleições sociais?
Primeiro, porque é um direito que temos e que não devemos deixar extraviado por mãos alheias. Os trabalhadores de outros países não têm a possibilidade de eleger representantes dos trabalhadores para um órgão que pode intervir junto do Governo. E, já que trabalhamos num país que nos dá essa "arma", utilizemo-la então! Não nos queixemos apenas das condições de trabalho, do excesso de horas laborais, do patrão, das leis sociais! Votemos!
Às urnas, trabalhadores!
Quanto mais pesarem os representantes que elegermos, mais temos a possibilidade de fazer ouvir as nossas vozes e as nossas reivindicações laborais e sociais junto de quem decide.
Enquanto estrangeiros, mesmo residentes, não podemos votar para o Parlamento. Das 530 mil pessoas que vivem no Grão-Ducado, apenas 238 mil podiam votar nas últimas legislativas de 20 de Outubro. Ou seja, a 43 % da população ficou vedado o direito de eleger os representantes dos cidadãos no Parlamento, mesmo se as leis que este órgão de soberania aprova se aplicam a todos os cidadãos. Não somos nós cidadãos como os outros?
Talvez com o novo Governo as coisas mudem nesse plano. Ou talvez não mudem!
Utilizemos então a "arma" do voto nestas eleições sociais. Neste sufrágio somos maioritários e temos o direito de participar. Nós, os estrangeiros. Apenas um terço da massa salarial é luxemburguesa. Dos 362 mil trabalhadores que há no Grão-Ducado, 104 mil são nacionais, 87 mil são estrangeiros residentes e 160 mil são fronteiriços. Ou seja, 247 mil trabalhadores são estrangeiros, com os portugueses a representarem um quarto desse número.
É um magro consolo, bem sei, mas temos que aproveitar esta ocasião para participar na sociedade a que pertencemos, já que não o podemos fazer nas legislativas.
Dito isto, não me interpretem de forma errada: não troco um pelo outro, nem o direito de voto nas eleições sociais me demove de pensar que devemos continuar a reivindicar a participação nas legislativas, enquanto cidadãos de pleno direito deste país, que contribuem para a sua riqueza económica, cultural, social e em muitos outros aspectos da vida quotidiana, e que eleger o Parlamento não é um privilégio a que almejamos, mas um direito democrático que nos assiste.
Por último, e talvez a razão mais importante, é vital votarmos nestas eleições sociais porque o futuro que se desenha no Luxemburgo é incerto. O Grão-Ducado já não é uma "ilha" e a crise chegou mesmo a todos os sectores de actividade neste país que muitos consideravam imune às ondas de choque internacionais. Quem vai pegar no leme nesta fase de navegação à vista no mar tenebroso da crise? O tempo da bonança ainda parece longínquo.
O Governo liberal-socialista-verde que se prepara, no preciso momento em que escrevo, e que nos vai governar durante cinco anos, terá contornos mais neoliberais ou mais socialistas? Os Verdes, tradicionalmente à esquerda, vão deixar tingir-se pelos colegas de coligação? Como vai evoluir a carga horária dos trabalhadores, o pagamento das horas extraordinárias, o ordenado mínimo, a indexação dos salários, os abonos de família, os benefícios sociais?
Claro que não sabemos responder a estas questões, mas ter os representantes que elegemos na Câmara dos Assalariados a defender os nossos interesses, nos próximos cinco anos, é uma das formas de assegurarmos que, pelo menos, alguém lutará aí por esses nossos direitos.
José Luís Correia
(Editorial no Jornal CONTACTO, de 06/11/2013)
É uma votação através da qual os trabalhadores – todos os trabalhadores, residentes ou fronteiriços, desde que trabalhem no Grão-Ducado –, podem eleger "o seu Parlamento".
Este "Parlamento dos Trabalhadores" chama-se "Chambre des Salariés" (Câmara dos Assalariados) e ao votarem os trabalhadores vão estar a eleger os seus representantes, por sector de actividade, junto desta instituição. Há muitos portugueses candidatos. Nas empresas de construção civil os delegados portugueses ultrapassam mesmo os 80 % dos candidatos.
Composto por 60 membros (à semelhança do Parlamento luxemburguês, mas a comparação acaba aqui!), a Câmara dos Assalariados tem como missão, entre outras, dar pareceres ao Governo sobre legislação laboral e social. Tradução: é um órgão de consulta do Governo e os seus pareceres não são obrigatórios.
Os trabalhadores receberam há semanas, por correio, em casa, os boletins de voto. Nestes, podem votar nas listas e nos representantes que cada sindicato apresenta no sector de actividade em que o trabalhador está empregado. O boletim de voto deve ser reenviado à comissão eleitoral e chegar antes da data do sufrágio.
Em paralelo, decorrem também as eleições para a escolha das delegações de pessoal, mas apenas nas empresas com mais de 15 trabalhadores. Há empresas com mais de 15 trabalhadores e que não possuem delegações que representam os empregados, mas legalmente qualquer trabalhador dessas empresas pode constituir uma delegação do pessoal, se a empresa possuir o número mínimo de trabalhadores.
Porque é que é tão importante participar nas eleições sociais?
Primeiro, porque é um direito que temos e que não devemos deixar extraviado por mãos alheias. Os trabalhadores de outros países não têm a possibilidade de eleger representantes dos trabalhadores para um órgão que pode intervir junto do Governo. E, já que trabalhamos num país que nos dá essa "arma", utilizemo-la então! Não nos queixemos apenas das condições de trabalho, do excesso de horas laborais, do patrão, das leis sociais! Votemos!
Às urnas, trabalhadores!
Quanto mais pesarem os representantes que elegermos, mais temos a possibilidade de fazer ouvir as nossas vozes e as nossas reivindicações laborais e sociais junto de quem decide.
Enquanto estrangeiros, mesmo residentes, não podemos votar para o Parlamento. Das 530 mil pessoas que vivem no Grão-Ducado, apenas 238 mil podiam votar nas últimas legislativas de 20 de Outubro. Ou seja, a 43 % da população ficou vedado o direito de eleger os representantes dos cidadãos no Parlamento, mesmo se as leis que este órgão de soberania aprova se aplicam a todos os cidadãos. Não somos nós cidadãos como os outros?
Talvez com o novo Governo as coisas mudem nesse plano. Ou talvez não mudem!
Utilizemos então a "arma" do voto nestas eleições sociais. Neste sufrágio somos maioritários e temos o direito de participar. Nós, os estrangeiros. Apenas um terço da massa salarial é luxemburguesa. Dos 362 mil trabalhadores que há no Grão-Ducado, 104 mil são nacionais, 87 mil são estrangeiros residentes e 160 mil são fronteiriços. Ou seja, 247 mil trabalhadores são estrangeiros, com os portugueses a representarem um quarto desse número.
É um magro consolo, bem sei, mas temos que aproveitar esta ocasião para participar na sociedade a que pertencemos, já que não o podemos fazer nas legislativas.
Dito isto, não me interpretem de forma errada: não troco um pelo outro, nem o direito de voto nas eleições sociais me demove de pensar que devemos continuar a reivindicar a participação nas legislativas, enquanto cidadãos de pleno direito deste país, que contribuem para a sua riqueza económica, cultural, social e em muitos outros aspectos da vida quotidiana, e que eleger o Parlamento não é um privilégio a que almejamos, mas um direito democrático que nos assiste.
Por último, e talvez a razão mais importante, é vital votarmos nestas eleições sociais porque o futuro que se desenha no Luxemburgo é incerto. O Grão-Ducado já não é uma "ilha" e a crise chegou mesmo a todos os sectores de actividade neste país que muitos consideravam imune às ondas de choque internacionais. Quem vai pegar no leme nesta fase de navegação à vista no mar tenebroso da crise? O tempo da bonança ainda parece longínquo.
O Governo liberal-socialista-verde que se prepara, no preciso momento em que escrevo, e que nos vai governar durante cinco anos, terá contornos mais neoliberais ou mais socialistas? Os Verdes, tradicionalmente à esquerda, vão deixar tingir-se pelos colegas de coligação? Como vai evoluir a carga horária dos trabalhadores, o pagamento das horas extraordinárias, o ordenado mínimo, a indexação dos salários, os abonos de família, os benefícios sociais?
Claro que não sabemos responder a estas questões, mas ter os representantes que elegemos na Câmara dos Assalariados a defender os nossos interesses, nos próximos cinco anos, é uma das formas de assegurarmos que, pelo menos, alguém lutará aí por esses nossos direitos.
José Luís Correia
(Editorial no Jornal CONTACTO, de 06/11/2013)
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quarta-feira, 23 de outubro de 2013
Sismo político no Luxemburgo
Estaremos a viver um sismo político no Luxemburgo ou simplesmente o fim de uma era?
É o que muitos estarão neste momento a pensar, depois da revelação na segunda-feira à noite de que Xavier Bettel (DP) quer formar com os socialistas e com os Verdes um governo a três, relegando o CSV para a oposição, onde o partido cristão-social só esteve durante um interregno de cinco anos (1974-1979), nos últimos sessenta. Pior para muitos é que isto significa literalmente o "despejo" de Juncker do Governo. É como cair "o Carmo e a Trindade", qualquer que seja a correspondência luxemburguesa desta expressão.
No domingo, o CSV vencia as eleições e muitos ficavam tranquilos, seguros de que Juncker iria prolongar o seu "reinado" de 18 anos. Aqueles para quem CSV e Juncker são sinónimos de estabilidade. Outros mostravam preocupação e desânimo, os que pensam que esse mesmo binómio significa imobilismo e conservadorismo. Visto que o DP tinha crescido, mas que o CSV tinha vencido, para uma maioria de luxemburgueses a questão era apenas saber quem Juncker escolheria para parceiro de coligação.
A mais urbana e democrática das opções era Bettel deixar Juncker vir bater-lhe à porta para negociar. Eufórico com a vitória do seu partido, Bettel decretou logo no domingo à noite que "o futuro Governo não se faria sem o DP".
Juncker fez questão de pôr Xavier no seu lugar, recordando que apesar de os cristãos-sociais terem perdido milhares de votos e três assentos parlamentares, o CSV era o vencedor da noite e continuava a ser a maior força política do país. Juncker reclamou até o papel de formador do governo. Ou seja: o DP podia até festejar, mas cabia ao CSV decidir.
Mas estas equações todas não contavam com a ambição desmedida de Bettel, que surpreendou tudo e todos ao tomar a dianteira de uma coligação pouco provável. A não ser que o jovem estratega liberal já estivesse a preparar esta jogada há muito. Só assim se percebe melhor o ataque cerrado e virulento que DP e Verdes infligiram a Juncker em Julho, no caso que o responsabilizou pelos disfuncionamentos dos serviços secretos. A estocada final veio com a "traição" dos socialistas, parceiros de coligação do CSV, que, no derradeiro momento, alinharam com a oposição e fizeram cair o Governo. Será que os três partidos se concertaram para, qualquer que fosse o resultado das eleições em Outubro, se aliarem, como única forma de retirarem o CSV do poder?
Um governo CSV-DP seria o mais lógico, porque juntaria dois partidos de direita. Mas outras ambições estão aqui em jogo. Bettel sabe que nunca estaria em posição de força num Governo com os cristãos-sociais. E governar na sombra de Juncker, não, obrigado! Choque de carismas?
Com o LSAP e os Verdes, o DP negoceia como líder e pode reivindicar as pastas que quer e até a chefia do Governo. Apesar de o DP ter o mesmo número de assentos parlamentares que o LSAP (13), os socialistas não estão em posição de força, porque tiveram menos votos que os liberais. Quanto aos Verdes, "servem" ao DP e ao LSAP para conseguir a maioria.
Esta coligação pouco provável adivinha-se turbulenta pelas divergências ideológicas dos três partidos. É como misturar água com azeite. Ou será que basta ter um inimigo comum a abater para de repente encontrar amigos na ala oposta? Será que a vontade de destronar Juncker e o CSV são mais fortes do que as diferenças que separam os três partidos?
Parece que a aritmética oportunista prevalece sobre a política e a democracia. Tudo isto cria uma situação que é inédita no Luxemburgo e, no mínimo, peculiar: o partido com mais votos pode ir parar à oposição.
Será que Bettel já esqueceu o que disse no domingo, após saber o resultados dos votos: "Se o Governo se fizer sem o DP, isso seria desrespeitar os resultados das urnas, e para quê fazer então eleições?". Não é o que a coligação a três está a fazer com os eleitores do CSV, que foi o partido mais votado?
E o que dizer das consequências internacionais do afastamento de Juncker do Governo? Por essa Europa fora muito são os responsáveis políticos, chefes de Estado, economistas e cidadãos que depositam no veterano dos chefes de governo europeus uma confiança e fé só comparável à que dedicam aos pais fundadores da UE. Como será lá fora a imagem do Grão-Ducado governado pela "coligação gambiana" (alcunha que deriva das cores do três partidos que evocam a bandeira da Gâmbia: azul, vermelho e verde)?
José Luís Correia
(Editorial, in Jornal CONTACTO, de 23/10/2013)
É o que muitos estarão neste momento a pensar, depois da revelação na segunda-feira à noite de que Xavier Bettel (DP) quer formar com os socialistas e com os Verdes um governo a três, relegando o CSV para a oposição, onde o partido cristão-social só esteve durante um interregno de cinco anos (1974-1979), nos últimos sessenta. Pior para muitos é que isto significa literalmente o "despejo" de Juncker do Governo. É como cair "o Carmo e a Trindade", qualquer que seja a correspondência luxemburguesa desta expressão.
No domingo, o CSV vencia as eleições e muitos ficavam tranquilos, seguros de que Juncker iria prolongar o seu "reinado" de 18 anos. Aqueles para quem CSV e Juncker são sinónimos de estabilidade. Outros mostravam preocupação e desânimo, os que pensam que esse mesmo binómio significa imobilismo e conservadorismo. Visto que o DP tinha crescido, mas que o CSV tinha vencido, para uma maioria de luxemburgueses a questão era apenas saber quem Juncker escolheria para parceiro de coligação.
A mais urbana e democrática das opções era Bettel deixar Juncker vir bater-lhe à porta para negociar. Eufórico com a vitória do seu partido, Bettel decretou logo no domingo à noite que "o futuro Governo não se faria sem o DP".
Juncker fez questão de pôr Xavier no seu lugar, recordando que apesar de os cristãos-sociais terem perdido milhares de votos e três assentos parlamentares, o CSV era o vencedor da noite e continuava a ser a maior força política do país. Juncker reclamou até o papel de formador do governo. Ou seja: o DP podia até festejar, mas cabia ao CSV decidir.
Mas estas equações todas não contavam com a ambição desmedida de Bettel, que surpreendou tudo e todos ao tomar a dianteira de uma coligação pouco provável. A não ser que o jovem estratega liberal já estivesse a preparar esta jogada há muito. Só assim se percebe melhor o ataque cerrado e virulento que DP e Verdes infligiram a Juncker em Julho, no caso que o responsabilizou pelos disfuncionamentos dos serviços secretos. A estocada final veio com a "traição" dos socialistas, parceiros de coligação do CSV, que, no derradeiro momento, alinharam com a oposição e fizeram cair o Governo. Será que os três partidos se concertaram para, qualquer que fosse o resultado das eleições em Outubro, se aliarem, como única forma de retirarem o CSV do poder?
Um governo CSV-DP seria o mais lógico, porque juntaria dois partidos de direita. Mas outras ambições estão aqui em jogo. Bettel sabe que nunca estaria em posição de força num Governo com os cristãos-sociais. E governar na sombra de Juncker, não, obrigado! Choque de carismas?
Com o LSAP e os Verdes, o DP negoceia como líder e pode reivindicar as pastas que quer e até a chefia do Governo. Apesar de o DP ter o mesmo número de assentos parlamentares que o LSAP (13), os socialistas não estão em posição de força, porque tiveram menos votos que os liberais. Quanto aos Verdes, "servem" ao DP e ao LSAP para conseguir a maioria.
Esta coligação pouco provável adivinha-se turbulenta pelas divergências ideológicas dos três partidos. É como misturar água com azeite. Ou será que basta ter um inimigo comum a abater para de repente encontrar amigos na ala oposta? Será que a vontade de destronar Juncker e o CSV são mais fortes do que as diferenças que separam os três partidos?
Parece que a aritmética oportunista prevalece sobre a política e a democracia. Tudo isto cria uma situação que é inédita no Luxemburgo e, no mínimo, peculiar: o partido com mais votos pode ir parar à oposição.
Será que Bettel já esqueceu o que disse no domingo, após saber o resultados dos votos: "Se o Governo se fizer sem o DP, isso seria desrespeitar os resultados das urnas, e para quê fazer então eleições?". Não é o que a coligação a três está a fazer com os eleitores do CSV, que foi o partido mais votado?
E o que dizer das consequências internacionais do afastamento de Juncker do Governo? Por essa Europa fora muito são os responsáveis políticos, chefes de Estado, economistas e cidadãos que depositam no veterano dos chefes de governo europeus uma confiança e fé só comparável à que dedicam aos pais fundadores da UE. Como será lá fora a imagem do Grão-Ducado governado pela "coligação gambiana" (alcunha que deriva das cores do três partidos que evocam a bandeira da Gâmbia: azul, vermelho e verde)?
José Luís Correia
(Editorial, in Jornal CONTACTO, de 23/10/2013)
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quinta-feira, 3 de outubro de 2013
Enquanto houver Obama há esperança
| Foto: AFP |
Os dois países tinham relações diplomáticas cortadas desde 1979.
Para que este passo histórico fosse dado, um dos mais importantes desde o fim da Guerra Fria, foi necessário a chegada de duas peças fundamentais no xadrez mundial : Obama e Rohani.
O reformista Rohani chegou ao poder em Junho e, em poucos meses, deu mostras de uma real vontade de abrir Teerão ao Ocidente. Uma atitude que contrasta diametralmente com o seu antecessor, o conservador Mahmoud Ahmadinejad.
Rohani multiplicou intervenções e entrevistas na imprensa americana e europeia, nas quais afirma querer fazer avançar o sensível dossier nuclear iraniano, parado há oito anos. Na semana passada anunciou estar já a discutir com a Agência Internacional da Energia Atómica, por forma a provar que o Irão não está a desenvolver armas nucleares.
Sincera ou não, uma tentativa de aproximação entre Teerão e Washington tinha já sido tentada em 2006 por Ahmadinejad, mas George W. Bush nem sequer respondeu à carta do então presidente iraniano, o que acabou por envenenar ainda mais as relações.
Obama, por seu lado, deixou que Rohani multiplicasse as provas de abertura da república islâmica ao mundo e o telefonema histórico que atendeu deixa pensar que uma real aproximação é possível entre Teerão e o Ocidente.
O Prémio Nobel da Paz 2009, que muitos julgavam demasiado enleado na política doméstica, começa finalmente a mostrar a nível internacional que mereceu o galardão que a Academia Sueca lhe atribuiu em 2009.
Obama deu mostras de ser diferente de Bush também numa outra questão internacional recente: a questão da Síria. Obama não se deixou influenciar pela opinião pública mundial nem pelo lobby do sector do armamento americano, que o instigavam a atacar Damasco, para « punir » e destituir o presidente sírio por este ter alegadamente ordenado um ataque a civis com armas químicas.
Obama esperou pelas conversações a nível internacional, tentou a via diplomática e inspectores da ONU passaram pela Síria, o que levou o Conselho de Segurança das Nações Unidas a decidir, esta semana, acabar com todas as armas químicas naquele país.
A resolução da ONU, assinada em conjunto por Rússia e EUA, dita o fim das armas químicas, sem culpar o regime de Al-Assad nem as facções radicais islâmicas, que tinham interesse na entrada de tropas estrangeiras no país que destituissem Al-Assad, como aconteceu com Saddam Hussein no Iraque.
Para quem se dizia há tempos desiludido com Obama, considere apenas isto : tivesse sido o seu opositor republicano a vencer as eleições em 2008 e hoje os EUA, e o mundo (ou uma boa parte dele), estariam em guerra com o Irão e a Síria. E sabe-se lá com que possíveis alastramentos naquela zona do globo.
Claro que é conjectura, mas é baseada em oito anos de « bushismo » e tudo deixa pensar que John McCain, veterano do Vietname, à semelhança de « W », iria seguir a mesma política ou mesmo agudizá-la.
A guerra civil síria, que dura há dois anos, parece ter finalmente um fim à vista, se a comunidade internacional conseguir fazer pressão sobre o regime de Al-Assad e se os EUA e Rússia se mantiverem do mesmo lado do prato da balança, sob a égide da ONU.
Finalmente, o grande perdedor nisto tudo foi o presidente francês François Hollande, que estava decidido a ser visto como um grande líder nesta questão, se mostrou logo muito decidido a fazer justiça na Síria - ao lado dos americanos, ele que tanto criticava Sarkozy por assim agir na cena internacional.
José Luís Correia
(artigo publicado no site www.wort.lu/PT)
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quarta-feira, 2 de outubro de 2013
Os políticos são gente honesta
A afirmação do título pode parecer provocação ou piada, mas não é. É uma realidade. Onde? No Luxemburgo, em Portugal? Sim, em Portugal também.
Vem isto a propósito das eleições autárquicas de domingo em Portugal e da passagem recente pelo Luxemburgo do vice-presidente da associação cívica Transparência e Integridade, Paulo de Morais, que veio falar da corrupção na classe política em Portugal (ver a nossa edição da semana passada).
Portugal foi a votos, o mapa virou cor-de-rosa, mas "continua a dança das cadeiras", diz o povo, porque já não acredita que algo possa mudar enquanto uma parte da classe política for corrupta e quiser chegar ao poder apenas para cuidar do seu próprio interesse e do dos grupos económicos que serve.
Mais do que um cliché, esta é uma realidade atroz que levou o nosso país a chegar à situação impensável a que chegou, sem que esses mesmos políticos corruptos fossem condenados ou sequer responsabilizados pelo que fizeram nos últimos 40 anos à nossa frágil democracia.
Em vez disso, culparam a população por viver acima das suas possibilidades e empurram os jovens para o estrangeiro, precisamente aqueles que podiam mudar alguma coisa. Como os que estão no poder há 40 anos não querem que nada mude (apenas permitem que a cor política mude), esvaziaram o país da sua energia vital para poderem continuar a "trabalhar".
Exagero? Então considerem isto: como é que um país como o Luxemburgo, com recursos ínfimos, se comparados com Portugal, fez para ser hoje um dos países como um dos maiores PIB per capita por mundo?
A resposta não é só uma, mas a forma como se faz e pensa a política no Grão-Ducado é com certeza uma das mais determinantes. Há quem pense que o Luxemburgo tem uma política de algibeira, que não segue as grandes ideologias políticas, um país em que há consenso nacional entre todos os partidos no poder e que o resto "é para luxemburguês ver".
O que eu noto no Luxemburgo é que a política serve o país e não o contrário. Outra das diferenças entre o Luxemburgo e Portugal está na base da pirâmide política, o sistema eleitoral. No Grão-Ducado, os eleitores votam em pessoas e não em listas. Ou seja, é eleito o candidato com mais votos e não aquele, mais os seus boys , que o partido vencedor escolhe.
No Luxemburgo também há casos de corrupção e de conflitos de interesse na política, mas são mais raros. Porque os políticos luxemburgueses são mais honestos do que os portugueses? Não, simplesmente porque aqui temem as consequências.
Em Portugal, os políticos corruptos sabem de antemão que não têm nada a temer, porque nos simulacros de julgamentos a que se assiste, quando os há, a culpa morre sempre solteira. Ou quase sempre.
No meio de tanta corrupção, há um único político corrupto preso em Portugal, Isaltino Morais. Dramático é o facto de Isaltino, mesmo atrás das grades, ter ganho as eleições (ganhou o candidato ligado a Isaltino em Oeiras). É caso para nos perguntarmos como é que políticos como este – a que podemos juntar Alberto João Jardim, Valentim Loureiro e outros que tais – gozam de tanta popularidade junto dos eleitores? É como se os valores tivessem sido invertidos.
É dramático porque generaliza a ideia de que no nosso país só se consegue alguma coisa aldrabando, enganando, roubando, corrompendo. Longos anos de corrupção política não provocaram apenas a quase bancarrota económica do país, perverteram os valores.
Razão tinha Natália Correia quando disse: "Há a cultura, a fé, o amor, a solidariedade. Que será, porém, de Portugal quando deixar de ter dirigentes que acreditem nestes valores?".
No Luxemburgo, são raros os processos em tribunal contra políticos, ou por corrupção ou para apurar responsabilidades. Houve dois ou três nas últimas três décadas, mas com condenação dos envolvidos. Quando os casos não vão a tribunal funciona a censura pública e a sanção na hora do voto, que afastam da vida política os envolvidos.
Como, por exemplo, o burgomestre da capital, que foi sancionado pelo eleitorado nas últimas eleições comunais e teve que ceder o lugar a Xavier Bettel. Terá sido porque os moradores da capital diziam que favorecia amigos e empresas? Num outro caso, um deputado independente foi condenado por apresentar facturas falsas de viagens e desapareceu da vida política. Houve ainda um ministro da Saúde que se demitiu por "disfuncionamentos" no seu ministério e não voltou a concorrer pelo partido. Um outro ministro, da Economia, trocou a política pela "prática de vela". Terá sido por ter zelado mais pelos interesses económicos do Qatar do que os luxemburgueses? E o próprio primeiro-ministro não está imune a suspeitas. As irregularidades ocorridas nos serviços secretos foram consideradas responsabilidade sua, o que levou à queda do Governo.
Em Portugal, muitos deputados e membros dos sucessivos governos têm abertamente interesses nas empresas que favorecem com as políticas que praticam e com as leis que aprovam e continuam impunemente a fazer negócios à custa dos contribuintes e do país.
São vários os livros publicados nos últimos meses, de jornalistas e outros especialistas, que denunciam a corrupção em São Bento, como o de Paulo de Morais, que chama sem pudor "central de negócios" ao Parlamento português. Não é por acaso que estas obras são sucessos de vendas. A população sabe quem são os culpados da crise em Portugal, mas talvez não imaginasse a real dimensão da calamidade.
As eleições autárquicas de domingo são como as anteriores e as próximas, nada mudarão enquanto os políticos corruptos continuarem impunes. O que é preciso fazer para que isto mude? Quais são os exemplos à nossa volta? Os brasileiros apedrejaram o Parlamento, os gregos e os espanhóis não se cansam de se manifestar contra a austeridade, os italianos vão acabar com a imunidade de certos cargos políticos. Ou então, há sempre o exemplo do pacato Luxemburgo.
Em Portugal, emigramos. Pensamos que não podemos lutar contra as elites e deixamos o país entregue à "bicharada". A primeira coisa a mudar é essa mentalidade de que não se pode fazer nada, "eles é que mandam". Não são nada eles que mandam, somos nós que mandamos, nós os eleitores, que os elegemos. Nós, os emigrantes, podemos votar nas autárquicas portuguesas, mas apenas se continuarmos recenseados em Portugal. Mas nós, que vivemos fora do país, sabemos que existem governos que funcionam, mais ou menos honestamente, nos quais a corrupção é residual, e que as riquezas são de facto redistribuídas de forma mais ou menos equitativa. É esse o exemplo, essa a esperança, que nos compete transmitir do lado de cá.
José Luís Correia
in Jornal CONTACTO, 02/10/2013
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Retratos do alter-ego de um fotógrafo em torno de uma galeria de vamps e "femmes fatales"
Paulo Lobo, fotógrafo português residente no Luxemburgo, vestiu a pele de Edouard Allen e convidou no sábado os fãs da fotografia e do cinema para um vernissage que teve lugar no Café Ancien Cinema, em Vianden. Muitos foram os que responderam ao convite para assistir em directo e ao vivo à mutação do Lobo em Allen na exposição a que deu (deram?) o nome de "Viagem tragi-cómica através da filmografia fictícia de um ex-cinéfilo".
"O espaço não podia ter sido outro", garantiu Paulo Lobo ao CONTACTO, sobre o espaço que acolhe a mostra, o antigo cinema de Vianden, hoje um café que recebe exposições, concertos, e outros eventos culturais.
"Ele hoje não pode cá estar, mas eu sei que quando o Edouard Allen lançou o seu projecto, este foi o primeiro lugar em que pensou para o apresentar", diz Paulo Lobo com convicção e sem sinal de "esquizofrenia" aparente.
O antigo cinema voltou a acolher vedetas glamour, mas desta vez não são actrizes de Hollywood, mas as egérias do alter-ego de Paulo Lobo. "Cada fotografia retrata uma personalidade, uma história, um estado de espírito, fruto de várias sessões de fotografias efectuadas ao longo de dois anos", explica Paulo Lobo.
"O Paulo Lobo sempre sonhou ser realizador de cinema e cinéfilo, e isso é algo que está recalcado nele. Eu nasci para exteriorizar esse sentimento", confia-nos por seu lado Edouard Allen.
Neste novo projecto, Paulo juntou os seus dois amores: a fotografia e o cinema. "Sempre fui um amante do cinema, dos clássicos de Hollywood, e os grandes filmes franceses sempre me acompanharam desde criança. Por isso mesmo decidi convidar algumas modelos que, no meu ponto de vista, tinham um certo ar de actrizes desse tempo e que podiam vestir a pele das grandes musas do cinema dos anos 60", confia o fotógrafo ao CONTACTO.
Durante a vernissage foi ainda apresentado a curta-metragem "Mystery girls", do realizador português Nelson Coelho. O filme põe em cena Edouard Allen com as suas musas, as suas modelos, as suas fotografias, e a câmara indiscreta revela os bastidores das sessões fotográficas, erra atrás das personagens, mostra a metamorfose de Paulo em Edouard.
"A minha ideia inicial era filmar eu mesmo os shootings fotográficos, mas devido a vários contratempos não consegui fazê-lo. Já tinha desistido da ideia quando conheci o Nelson e o convidei para participar neste projecto", conta Paulo, que considera o resultado "excelente".
Nelson Coelho, de 28 anos, reside no Luxemburgo há três e diz-se amante da sétima arte desde os dez, altura em que começou a acompanhar o primo na aventura das filmagens. Para Nelson, o convite de Paulo foi muito bom.
"Trabalhar com o Paulo vai ajudar-me a dar a conhecer o meu trabalho e a travar conhecimentos no Luxemburgo", confia o realizador, que garante ter levado a cabo este projecto como muito prazer, embora o seu trabalho – filmar casamentos – continue a ter a sua preferência. As obras do realizador podem ser vistas no seu portal na internet em www.nelsoncoelhofilms.com (e-mail: info@nelsoncoelhofilms.com).
Paulo Lobo aproveitou ainda a vernissage para apresentar o seu mais recente blogue "The Edouard Allen Project". A noite terminou com a actuação da cantora de jazz Sascha Ley, acompanhada pelo contrabaixo do francês Laurent Payfert.
Aleida Vieira/José Luís Correia
in Jornal CONTACTO, 02/10/2013
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