terça-feira, 6 de maio de 2008
Os Contemporâneos
Um dos meus sketchs preferidos de Os Contemporâneos, programa de humor que estreou domingo na RTP, mas que não vi em directo (Nem sei se a RTPi acabou por o difundir ou se está mais uma vez à aguardar "vaga" na programação densa e interessante que o nosso super canal internacional generosamente destila ao Zé Emigrês).
Bom! (com interjeição e tudo, à prof. Martelo), vai daí, andei a iutubar e vi alguns dos momentos do programa.
Este "manual de instruções do programa" pareceu-me um dos melhores num exímio exemplo do que de melhor se faz em Portugal em termos de "stand up comedy", mas também gostei da "conferência de imprensa num clube de futebol", do Buraka Obama a defender que o hino português deveria ser a Kizomba ou o sketch de "como não abordar um actor de comédia na rua".
A "Gripe dos Sousas" pareceu-me demasiado "gato fedorento style", mas penso que as comparações com Os Mestres são inevitáveis quando alguém em Portugal tenta inovar e fazer humor português que não seja: revisteiro, à Herman ou à Fernando Rocha.
Com os Conteporâneos descobri o Bruno Nogueira, confesso que não conhecia, talvez por ele ter trabalhado noutros canais que eu aqui não vejo. E adorei. Natural Born Comedian. Nota-se nos melhores textos o dedo do Nuno Markl. E os melhores, são excelentes. Outros sketchs, achei banais, como o do papa, o do elevador ou o da avaliação de professores. Déjà vu, demasiado rebuscado ou ...simplesmente sem piada.
A Maria Rueff está igual a si mesma. Os outros actores ainda estou a descobrir. Como o Nuno Lopes ou a Carla Vasconcelos. Ou o Gonçalo Waddington, que pessoalmente nunca tinha visto nas lides humorísticas.
Fico à espera que repitam os momentos naturais porque é aí que são mesmo bons, quando interpretam como se improvisassem ou improvisam como se interpretassem. Ou vice-versa, como se diz na gíria futebolística!
domingo, 4 de maio de 2008
my culture
I'm the sum total of my ancestors
I carry their DNA
We are representatives of a long line of people
And we carried them around everywhere
This long line of people
That goes back to the beginning of time
And when we meet, they meet other lines of people
And we say bring together the lines of me
When I look back over the years
At the things that brought tears to my eyes
Papa said we have to be wise to live long lives
Now I recognize what my father said before he dies
Vocalize things I've left unsaid
Left my spirit unfed for too long
I'm coming home to my family
Where I can be strong
Be who I planned to be
Within me, my ancestry
Givin' me continuity
Would it be remiss to continue in this way
Would you rather I quit
Come with the other shit
Making people's hips sway
Lip service I pay, but I'm nervous
I pray for all the mothers who get no sleep
Like a lifeline, I light lines 'cause my compassion is deep
For the people who fashioned me, my soul to keep
And this is who I happen to be
And if I don't see that I'm strong, then I won't be
This is what my Daddy told me
I wished he would hold me
A little more than he did
But he taught me my culture
And how to live positive
I never wanna shame
The blood in my veins and bring pain
To my sweet grandfather's face, in his resting place
I make haste to learn and not waste
Everything my forefathers earned in tears
For my culture
Fall back again
Crawl from the warm water
For my culture
Water to air
You're on your feet again
Your feet again
Hello Dad, remember me?
I'm the man you thought I'd never be
I'm the boy who you reduced to tears
Dad, I'd been lonely for 27 years
Yeah, that's right, my name's Rob
I'm the one who landed the pop stars job
I'm the one who you told, "Look, don't touch"
And the kid who wouldn't amount to much
I believe in the senses out of sound
I have always been too loud
Won't you help me drown it out?
I'm what I feel
And what I'm feeling is surreal
I'm a massive spinnin' wheel, always digging in my heels
Now I got the faith
Fall back again
Crawl from the warm water
Water to air
You're on your feet again
Your feet again
Ha, lace up your booty
Going back to the roots, continue my interlude
Feed freakin' for loot
And my spell's been to check what your future brings is now
And your forefathers further know how
But now, what happened to the world without the hatred
Use your head, if the needle is wise, be the thread
And weave ancestral wisdom, yours by best
Spreading the Lord's word over this broad Earth
This is what my Daddy told me
I wished he would hold me
A little more than he did
But he taught me my culture
And how to live positive
I never wanna shame
The blood in my veins and bring pain
To my sweet grandfather's face, in his resting place
I make haste to learn and not waste
Everything my forefathers earned in tears
For my culture
Fall back again
Crawl from the warm water
Water to air
You're on your feet again
Your feet again
For my culture
Fall back again
Crawl from the warm water
Water to air
You're on your feet again
Your feet again
For my culture.
One Giant Leap - project with Maxi Jazz (from "Faithless") & Robby Wiliams "My Culture", 2002
terça-feira, 29 de abril de 2008
Of Life and Death
"Depois de algum tempo aprendes a diferença, a subtil diferença entre dar a mão e acorrentar uma alma. E aprendes que amar não significa apoiar-se, e que companhia nem sempre significa segurança. E começas a aprender que beijos não são contratos e presentes não são promessas. Acabas por aceitar as derrotas com a cabeça erguida e olhos adiante, com a graça de um adulto, e não com a tristeza de uma criança. E aprendes a construir todas as tuas estradas de hoje, porque o terreno do amanhã é incerto demais para os planos, e o futuro tem o costume de cair em meio ou em vão.
Depois de algum tempo aprendes que o sol queima se te expuseres a ele por muito tempo. Aprendes que não importa o quanto tu te importas, simplesmente porque algumas pessoas não se importam... E aceitas que apesar da bondade que reside numa pessoa, ela poderá ferir-te de vez em quando e precisas perdoá-la por isso. Aprendes que falar pode aliviar dores emocionais. Descobres que se leva anos para se construir a confiança e apenas segundos para destruí-la, e que poderás fazer coisas das quais te arrependerás para o resto da vida. Aprendes que verdadeiras amizades continuam a crescer mesmo a longas distâncias. E o que importa não é o que tens na vida, mas quem tens na vida. E que bons amigos são a família que nos permitiram escolher. Aprendes que não temos que mudar de amigos se compreendemos que os amigos mudam, percebes que o teu melhor amigo e tu podem fazer qualquer coisa, ou nada, e terem bons momentos juntos. Descobres que as pessoas com quem tu mais te importas são tiradas da tua vida muito depressa, por isso devemos sempre despedirmo-nos das pessoas que amamos com palavras amorosas, pode ser a última vez que as vemos. Aprendes que as circunstâncias e os ambientes têm influência sobre nós, mas nós somos responsáveis por nós mesmos.
Começas a aprender que não te deves comparar com os outros, mas com o melhor que podes ser. Descobres que se leva muito tempo para se controlar os nossos próprios actos ou eles te controlarão e que ser flexível nem sempre significa ser fraco ou não ter personalidade, pois não importa quão delicada e frágil seja uma situação existem sempre dois lados de uma questão.
Aprendes que heróis são pessoas que fizeram o que era necessário fazer, enfrentando as consequências. Aprendes que paciência requer muita prática. Descobres que algumas vezes a pessoa que esperas que te empurre, quando cais, é uma das poucas que te ajuda a levantar. Aprendes que maturidade tem mais a ver com os tipos de experiência que tiveste e o que aprendeste com elas do que com quantos aniversários já comemoraste. Aprendes que há mais dos teus pais em ti do que supunhas. Aprendes que nunca se deve dizer a uma criança que sonhos são disparates, poucas coisas são tão humilhantes e seria uma tragédia se ela acreditasse nisso. Aprendes que quando estás com raiva, tens o direito de estar com raiva, mas isso não te dá o direito de ser cruel. Descobres que só porque alguém não te ama da forma que desejas, não significa que esse alguém não te ama com tudo o que pode, pois existem pessoas que nos amam mas simplesmente não sabem como demonstrar ou viver isso.
Aprendes que nem sempre é suficiente ser perdoado por alguém, algumas vezes tens que aprender a perdoar-te a ti mesmo. Aprendes que com a mesma severidade com que julgas poderás ser em algum momento condenado. Aprendes que não importa em quantos pedaços o teu coração foi partido, o mundo não pára para que tu o consertes.
Aprendes que o tempo não é algo que possa voltar para trás. Portanto, planta o teu jardim e decora a tua alma, ao invés de esperares que alguém te traga flores. E aprendes que realmente podes suportar mais, que és realmente forte e que podes ir muito mais longe depois de pensar que não se pode mais. E que realmente a vida tem valor e que tu tens valor diante da vida! As nossas dádivas são traidoras e fazem-nos perder o bem que poderíamos conquistar, se não fosse o medo de tentar."
William Shakespeare
As razões do abismo
Os braços, sem medo, simulando o voo próximo,
Em bicos de pés, fingindo um equilíbrio que já não sei,
Todo o meu corpo balança à beira de um precipício que não procurei…
Considerando se devo ou não jogar-me
Considerando e calculando o tempo que demorará a queda de um corpo como o meu num buraco como estes
Considerando que depois de encontrar a solução da equação, pela prova dos nove, o resultado já não interessará mais
Considerando como será a sensação estranha do ar entrando-me àquela velocidade pelas narinas
Considerando se hei-de ou não fechar os olhos, durante a viagem
Considerando se hei-de ou não descalçar os sapatos, no degrau derradeiro
Considerando que posição majestosa adoptar no sublime mergulho para a eternidade
Considerando, medicalmente, se o meu coração aguentará a pressão da alta dose de adrenalina e de stress que me correrá pelas veias arrepiadas
Considerando, cientificamente, se o meu cérebro se extinguirá ao adivinhar o seu extermínio
Considerando se estarei lúcido no instante antes do impacto
Considerando, pseudo-intelectualmente, no que pensarei no último segundo
Considerando, psico-freudiamente, no que me atravessará o espírito nesse momento final
Considerando o aspecto pouco agradável que terá o meu monte de carne desfeita lá em baixo
Considerando que, pelo menos, os abutres apreciarão
Considerando que, pelo menos assim, servi para alguma coisa
Considerando que já não faço falta cá em cima
Considerando que nunca fiz falta
Considerando que fui um erro da Natureza
Considerando que só assim posso emendar o que Deus errou
Considerando que só assim me salvo de tudo isto
Considerando que só assim escapo ao meu destino
Considerando que só este será um acto que eu terei verdadeiramente decidido
Considerando que está na altura de ser eu a tomar este tipo de decisões, mesmo se é a última
Considerando que, com a minha partida, não se perderá grande coisa
Considerando que ninguém perderá grande coisa
Considerando que até podem, momentaneamente, sentir a minha falta
Considerando que isso depressa lhes passará, ao recordarem o meu mau génio
Considerando que não sou nem nunca fui indispensável a ninguém
Considerando que até o Ozono e a Floresta Amazónica ganharão em eu partir
Considerando que toda a gente passará melhor sem mim
Considerando que o Universo é perfeitamente viável sem mim
Considerando que até o Futuro, - não o meu –, será mais promissor assim
Considerando que só chateio, entristeço, estorvo, atrapalho, empato-fodas
Considerando que, assim, até eu próprio, já não terei de me aturar mais
Considerando que, assim, já não precisarei fingir
Considerando que, assim, já não poderei sentir
Considerando que, assim, já não poderei me dar
Considerando que, assim, já não me deixarei apaixonar
Considerando que, assim, já não poderei desiludir-me
Considerando que, assim, já não não poderão atingir-me
Considerando que, assim, já não sofrerei
Considerando que, assim, já não chorarei
Considerando que tudo continuará, no melhor dos Mundos, sem mim
Considerando, finalmente, que vim apenas para partir assim.
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Recordando um poema de 2002. As coisas, hoje, felizmente mudaram.
sexta-feira, 25 de abril de 2008
quarta-feira, 23 de abril de 2008
valter hugo mãe, "tsunami" da língua
e da literatura portuguesas
valter hugo mãe, vencedor do prémio saramago 2007 esteve este fim-de-semana no luxemburgo para participar na primavera dos poetas. o contacto conversou com aquele que o nobel da literatura 1998 qualifica de "tsunami" da língua e da literatura portuguesas.
chama-se valter hugo lemos mas escolheu o pseudónimo literário valter hugo mãe, assim mesmo, grafado em minúsculas, que é o que não só distingue como define a sua escrita (ver caixilho), seja na poesia, pela qual começou nestas lides ainda adolescente, ou na prosa, à qual quer dedicar cada vez mais espaço e tempo.
com apenas 36 anos tem já mais de uma dezena de livros de poesia e dois romances publicados, "o nosso reino" (temas e debates, 2004) e "o remorso de baltazar serapião" (quid novi, 2006), tendo-lhe valido este último o prestigiado prémio literário josé saramago 2007.
"este livro é um tsunami, não no sentido destrutivo, mas da força. (...) quando foi publicado? e os sismógrafos não deram por nada? oh, que terra insensível: este livro é uma revolução. tem de ser lido, porque traz muito de novo e fertilizará a literatura. por vezes tive a sensação de estar a assistir a um novo parto da língua portuguesa", foram as palavras do próprio josé saramago (prémio nobel da literatura 1998) ao ler o livro.
"sem ser um romance histórico, a acção de baltazar serapião decorre na idade média e fala sobre machismo, sexo e violência, numa língua que se quer rude sem ter sido estudada para ser fiel à que se falava na época. mas a própria forma como a acção é contada faz com que o vocabulário e a construção frásica acabem por ser personagens do livro, ao mesmo título que os protagonistas", explica o autor.
apesar de já ter recebido o prémio garrett em 1999, talvez tenha sido o prémio saramago que o tornou mais conhecido junto do grande público. o poeta era, no entanto, já um nome confirmado no mundo literário e editorial português, tendo sido fundador das editoras quasi (com jorge reis-sá) e objecto cardíaco, projectos que entretanto abandonou.
foi aproveitando essa notoriedade recente que o instituto camões do luxemburgo resolveu convidar o jovem para representar portugal na primavera dos poetas que o grão-ducado acolheu durante o fim de semana.
depois dos rasgados elogios do prémio nobel e da crítica, entre os quais vasco graça moura, que o compara a guimarães rosa, o jovem confiou ao nosso jornal ter ficado "emudecido" com esse reconhecimento. vencer o prémio saramago foi algo de "avassalador", confessa, até porque escolheu viver em vila do conde, longe dos grandes centros urbanos e diz não estar habituado a que se "lembrem" dele. mas, garante, não tem medo das responsabilidades, embora se questione "como fazer para impressionar essa gente toda outra vez". talvez com um novo romance?
o novo romance sobre a imigração e a estreia como cantor
previsto para outubro e tendo como palco bragança, o novo livro de valter hugo mãe "conta a história de um imigrante ucraniano em terras lusas e como este é alvo de discriminação pelos portugueses", revelou o autor ao contacto. ainda sem título, a obra pretende-se uma crítica ao facto de um país de emigração como portugal ter dificuldades em lidar com os seus imigrantes.
grande fã de adolfo luxúria canibal, vocalista dos mão morta, valter hugo mãe está actualmente a gravar um álbum de "jazz-fado-blues", como o próprio conta, com dois elementos daquela banda, na sua primeira incursão como cantor. a saída do álbum está prevista também para outubro com a chancela da editora cobra. Como letrista, valter hugo mãe havia já trabalhado com paulo praça (artista vila-condense), e recentemente chegaram-lhe convites de rui reininho (líder dos gnr), pedro abrunhosa, mundo cão e frei fado d'el rei, o que o está a entusiasmar muito.
na primavera dos poetas, valter hugo mãe também mostrou esses seus dotes musicais. após dizer poemas seus, alguns dos quais do seu último livro de peosia, "pornografia erudita" (cosmorama, 2007), improvisou um excerto de uma canção dos madredeus, mostrando ser dono de um voz forte e lírica, o que lhe valeu a admiração e o espanto do público presente, que não esperava, de todo, a "actuação" expontâna.
entretanto, parece que tudo está a acontecer na vida do autor e as cosmorama edições preparam-se para editar em breve uma recolha com toda a sua poesia (incluindo "bruno", que teve apenas edição em espanha).
os curiosos ou os fãs podem consultar o seu blogue em http://casadeosso.blogspot.com/ ou descobrir mais sobre o autor no seu site oficial, em www.valterhugomae.com/, na internet.
abaixo as maiúsculas
durante a entrevista com o poeta e escritor português valter hugo mãe, que esteve no luxemburgo, para participar na primavera dos poetas, durante o passado fim de semana (ver artigo principal) interpelámos o autor sobre as minúsculas omnipresentes na sua escrita.
negando cultivar "a diferença pela diferença", de ir em movimentos de moda ou de o fazer apenas para provocar, o autor confia "detestar" maiúsculas.
"escrevo em minúsculas porque acredito que o meu texto adquire uma tonalidade diferente. coloco numa mesma dignidade e paridade todas as palavras. abdico da convenção prévia de acentuar algumas delas através da maiúscula, elimino essa discriminação. em qualquer obra literária a importância relativa das palavras é afinal decidida pelo leitor. além disso, as minúsculas aceleram a leitura, e na minha narrativa que já é acelerada, é interessante deixar o leitor sem travões", explicou.
josé luís correia
(in jornal "contacto", 23.04.08)
sábado, 19 de abril de 2008
Daqui desta nascente
que é o princípio e o fim de tudo
o alfa e o ómega dos meus sorrisos e do meu sopro
ponto cardeal que me guia e desnorteia
rosa-dos-ventos dos meus sentidos
rosa que desabrocha quando a beijo com a boca
onde sorvo o orvalho doce da manhã que nasce
Vejo matas mansas, dunas erguidas, colinas oprimidas, vulcões em convulsão
e rios desenfreados procurando o mar na minha mão
avisto terras prometidas e rotas de sedas e especiarias
equadores e hemisférios e os paralelos do teu corpo
latitudes latentes que aguardam os meus gestos
E as estrelas eclipsando velhos mundos mortos
a via láctea deleitando-se na almofada branca
as clepsidras segurando o tempo infinito
e tu nos meus braços, encorajando o meu rosto.
Todo o céu se abre num estrondoso vacarme
e o mar desencadeado quer levar-me
sem que eu peça
Para onde tudo acaba e sempre recomeça.
Desta vez, o deserto não há-de vencer,
não há-de engolir-me os pulmões com pó.
O que foi depois daquela tempestade,
quando o rio desfez o convés antes de chegar à foz?
Já não queria lembra-me desse dia de mau augúrio,
o apóstolo mentiu, o fim do mundo voltou.
Avisto da torre de vigia,
as nuvens negras do juízo final
engordarem o céu ao horizonte
e anunciarem a trovoada.
Vale a pena enfunar as velas para salvar o navio?,
ele já viu tantas!
Hoje não sinto medo,
eu sabia que este dia ia chegar,
os meus dedos impávidos ainda cheiram a sangue e pólvora,
fiz demasiado mal para me safar daqui assim,
desta vez é a minha vez.
A onda de choque não me há-de arrancar do chão,
fecho as goelas ao maremoto, os olhos ao tufão,
a electricidade há-de correr-me o corpo,
e eu hei-de ficar de pé,
rindo patibular dos meus algozes e carrascos,
mesmo se a multidão em delírio de espectáculo,
já não escutar as minhas derradeiras palavras:
"25 men on a dead man's chest,
yo ho ho and a bottle of rum!..."
Tenho sede, mas nem o céu há-de vir em meu auxílio.
quando a espada te atravessa tão repentinamente, ainda a sentes?
quando o punhal foi tão fundo que tu já não sabes se é dor que desatina sem doer, ainda é golpe?
quando o sangue te escorre das mãos e ainda está quente, ainda é teu?
quando já não ouves o estrondo do tiro e vês o buraco negro no teu peito fumegante, é a altura certa para saberes que deves morrer?
quando a queimada devasta mais uma vez a terra e ela já não é combustível, o que mais há para arder?
quando perdes pé e sabes que o mar te vai encher as goelas e as narinas e as órbitas dos olhos, ainda estás vivo para pensar nisso tudo?
quando o deserto te queima os pulmões com pó, ainda tens sede?
quando passas a voar pelo 10° andar a caminho do solo, ainda sentes as tuas veias a pulsar arrepiadas?
quando te desintegras num só sopro de explosão, para onde vais?
quando o sol fica negro e já não é dia nem é noite, onde estás?
quando todos te dizem que és um monstro, deves continuar a viver?
docilmente, ajoelhas-te perante os teus carrascos,
de olhos bem abertos vês a verdade nos seus,
deitas a cabeça no madeiro,
entregas a nuca nua à justiça,
a multidão em delírio cala-se ofegante,
o céu respira uma, duas vezes,
durante uns breves instantes tens a sensação que consegues ouvir o sol a arder.
De repente já não ouves, não sentes nada.
A mão do anjo veio intervir por ti e paralisou o derradeiro momento?
Já podes levantar os olhos?
Se o teu sangue não escorre à tua volta, é bom sinal?
Quando já não há multidâo, nem gume, nem céu,
e o sol ficou como bréu e já não é dia nem é noite, onde estás?
desfazer os teus cabelos por sobre os teus tímidos seios
forrar o teu peito sedento de beijos molhados
lamber o sal do teu corpo até à última gota de suor
devorar a tua língua e os teus lábios de menina
mergulhar os teus olhos negros no meu ventre em fogo
penetrar-te docemente como um pôr-do-sol fendendo o mar
[ que se deixa fecundar pela luz
morder os teus ombros alvos de tanto te querer
elevar-te ao mais alto altar do meu corpo
conter os teus espasmos nos meus braços
oferecer-te a minha alma nua como a nenhuma outra mulher.
o homem do café
O homem de óculos e bigode, sentado de perna magra cruzada, bebe café. As suas mãos recusam o açúcar e correm nervosamente o tampo da mesa em madeira antiga. Ajeita o colarinho ensopado em suor, olha-se no espelho do bar, alisa o fato amarrotado e o cabelo em batalha. Parece querer erguer-se e sair, mas permanence sentado.
Os seus olhos colidem com os meus. Espero que seja ele a desviar o olhar, intimidado no seu acto de me observar. Finalmente, baixo eu os olhos, para dissolver o açúcar no meu café. Mas, quando lá volto, o gajo ainda está a olhar para mim. Perscruta-me, como se o seu itinerário apenas dependesse de mim. Não estou para aturar isto. Quem é que ele pensa que é. Vou lá. Enfrento-o e digo-lhe: "Vai!"
Fita-me, como se não entendesse, um nada preocupado, e encolhe os ombros. "Vai!", quase grito, fosse ele surdo. "Vai, sai daqui, estás à espera de quê?"
Ele sorri de braços bambos e encolhe os ombros novamente. Acha-me graça, o idiota?
Enfureço. Chego-me a ele, pego-lhe num braço violentamente, levanto-o como uma marioneta e arrasto-o até à porta. "Vá, sai. Põe-te daqui para fora…".
Prescruta-me intrigado. Sem animosidade, com ar de asno, fica especado na soleira da porta olhando-me. Olhos nos olhos, sinto uma tontura, como se ele me possuisse. De onde está, sem se mover, puxou-me até ao seu lugar. Como se me sugasse. Não é humano. Desincorpora-se. Transfigura-se. Olho-o mas já não sei que vejo. A mim. Clonou-me? É como um espelho?
Reconheço-me enfim. Esse palerma esquizófrénico sou eu. Sou eu, violentando-me para me extrair de mim mesmo, para ir apanhar ar lá fora, fora de mim, trazer oxigénio fresco, regenerado, cá para dentro, para esta taverna com cheiro a mofo, este antro soterrado em banalidades e inépcias, este ventre pantanoso e estéril donde não consigo atingir a luz, de onde grito mudo. Naufrago em placenta, estrangulo-me com o meu próprio cordão umbilical, afogo-me, sufoco em mim… Preciso nascer, explodir!
sexta-feira, 18 de abril de 2008
O que estou a ler / Ce que je suis en train de lire:

"Bad Monkeys", de Matt Ruff: toda e qualquer semelhança com um universo paralelo ao nosso é, evidentemente, pura coincidência.
Depois, conto mais.
porque te amo?
Estás sempre a perguntar,
"Sabes Zé, porque me amas?"
Se eu não soubesse, meu amor,
Ia já comprar um coração novo, porque é ele, o
Coração, que sabe porque te
Amo tanto assim.
...amo-te por seres o meu acordar mais delicioso,
o meu abraço mais carinhoso
porque me sorris em cada olhar
como o céu que se espelha no mar
porque a carícia é o teu último gesto antes de adormeceres
porque a tua mão procura a minha durante a noite sem saberes
e o teu corpo se cola ao meu como se a Terra assim girasse
amo-te por seres o sol e a lua
que nunca minguasse
por seres o meu desejo de sempre te ver nua
entre as minhas mãos e no meu peito
por seres assim desse teu jeito
e tudo o mais e todas razões sem razão
que o meu pobre coração
ignora, e por aí fora...
quinta-feira, 17 de abril de 2008
Diz-me, Amor
onde estão o Afonso, a Inês, o Telmo e o Samuel
os quatro cavaleiros de génio do meu genesis
e o professor, o astronauta, o arquitecto,
o balde de legos, o carnaval dos pobres,
e todo o rancho da minha infância de redoma
e todo o séquito de heróis dos mundos que me inventei
transviei-me nas viagens que não fiz
nem pelo equador nem pela via láctea,
nem pelo meu quarto?...
Onde paira o marinheiro do Ó
para que lado fica o crespúsculo no montado deitado
o apartamento novo de grandes janelas indiscretas
que deixavam o sol penetrar o teu vestido
onde estão as tuas canções, as promessas vãs,
o futuro do fruto do teu ventre bom
hoje são estrume amontoado pelo chão
folhas velhas que aprodeceram
no paço vazio e sombrio do meu Outono temporão?
Diz-me amor,
se o Amor é como os figos
doce, frágil, colorido e pegajoso
mas que não consegues parar de comer
lambuzando mãos, lábios, queixo e tudo
mas pedes mais e nunca te sentes enfastiado?
Diz-me Amor,
porque me falas das mulheres que me desejam
se me lembro apenas das que me traíram,
efeitos secundários da brisa que já sopra do Lethes?
JLC
quarta-feira, 16 de abril de 2008
valter hugo mãe no burgo

o poeta, romancista e editor (da ed. objecto cardíaco) valter hugo mãe (o autor costuma grafar o seu nome em minúsculas e assim deve ser respeitado) vai estar no luxemburgo no âmbito da quarta edição luxemburguesa da primavera dos poetas, que decorre de 18 a 21 de abril.
além de encontros com alunos da escola europeia, o poeta vai estar
sexta-feira, a partir das 19h, na fundação da arquitectura, em hollerich;
sábado, a partir das 20h, na abadia de neumünster, no grund;
a primavera dos poetas conta este ano com a presença de mais duas dezenas de autores vindos dos quatros cantos da europa.
(foto extraída, com a devida vénia, do site do fotógrafo nelson d'aires)
Estudo sobre os altos rendimentos no Luxemburgo revela
Cerca de 10 % dos habitantes do Luxemburgo têm rendimentos anuais que ultrapassam, em média, os 56.280 euros, segundo um estudo recente do Centro de Estudos das Populações, Pobreza e Políticas Sócio-Económicas do Luxemburgo (CEPS/Instead).
Por categoria profissional, estes altos rendimentos pertencem a, por ordem decrescente: funcionários europeus e de outras instituições internacionais (35 %); funcionários públicos luxemburgueses (20 %); independentes (16 %); e "employés privés", ou empregados por conta de outrem (14 %).

Por nacionalidade, são os cidadãos da União Europeia os que dispõem, na sua grande maioria, dos mais altos rendimentos do país. A grande excepção são os portugueses e os italianos, tendo em conta a sua sobre-representatividade no resto da população com ordenados baixos e médios relativamente aos dos funcionários europeus dessas nacionalidades. Os luxemburgueses estão representados timidamente nos altos rendimentos, mas constituem a grande maioria da classe média superior, mostra o estudo.
A maioria dos altos rendimentos pertencem a pessoas com idades compreendidas entre os 50 e os 65 anos, no auge ou praticamente no término da sua carreira profissional, e que residem, maioritariamente (60 %), na capital ou em Capellen, onde o preço dos terrenos e das habitações também são os mais elevados, quando apenas 30 % da população total do país reside nesses cantões (distritos). Inversamente, o cantão de Esch/Alzette, que reagrupa 34 % da população total, conta apenas 16 % de moradores com rendimentos altos.
Os rendimentos da maior parte das pessoas consideradas "ricas" provêm de um trabalho remunerado. São 75 % neste caso. Os restantes "afortunados" têm rendimentos pessoais que provêm de investimentos (5 %), transferências privadas (1 %) e reformas ou pensões (11 %).
Ainda segundo o CEPS/Instead, os 10 % mais ricos do Luxemburgo auferem ordenados ou dispõem de rendimentos três vezes e meia superiores aos 10 % mais pobres.
Os rendimentos das pessoas mais pobres do país rondam os 16.100 euros/ano, enquanto a maior parte da população tem, em média, rendimentos que chegam aos 29.680 euros anuais, 1,8 vezes superior aos rendimentos mais modestos.
Mais estudos = melhor ordenado
José Luís Correia (in Contacto, 16.04.08)
terça-feira, 15 de abril de 2008
segunda-feira, 14 de abril de 2008
Autor do "Arrastão" passou pelo Grund
(foto do site Fórum Nacional)
domingo, 13 de abril de 2008
a execução das lâmpadas
Instruções:
Todas as outras constantes subtraem-se à variável
mas não como o núcleo do potássio instável
que se reduz à curva que declina e ao produto que elimina.
Modo:
Fuzilo o carbono
executo as lâmpadas
e acarianos penetrantes
escavam a minha pele.
Terra de mim mesmo em ocioso
pousio claudicante
o verbo é um músculo perigoso
navalha, cicuta no meu sangue.
Sabre oxidado e torto
giz desmoronado em pó
barro quadrado e morto
cem metros dominó.
Vértice desfocada, lente obnubilada
traço descontínuo fora de mão
no sublime firmamento da razão
a simplicidade seria dizer:
não sei escrever!
sábado, 12 de abril de 2008
Un crépuscule de juillet. Il pleut comme à la fin du monde.
J’expérimente les eaux et le froid sur mon corps.
De petites mers se déversent en de grandes gorgées dans le caniveau,
le vent fuit les impasses, le tonnerre traverse le ciel hanté et moi ma vie.
Si tu étais ici maintenant, me sentirais-je plus heureux ?
Si tu m’enlaçais en cette heure, aurais-je encore peur ?
Le ciel impénétrable oublie le monde trempé…
Et toi, où es-tu ? Enroulée dans ton gilet en laine, lisant mon livre, à la lumière de l’abat-jour ? As-tu déjà écouté l’eau ?
L’océan s’ouvre à l’envers et chaque goutte cherche le sol comme le salut,
têtes penchées les arbres nettoient lourdement leur visage sur l’asphalte,
des silhouettes dans la pénombre passent comme des fantômes à mes pieds.
Sans défense sous la pluie, le vent cherche mon échine,
la voûte céleste se déchire
sur mes tempes, chaque goutte qui m’atteint à quelle vitesse tombe-t-elle,
à quelle vitesse explose-t-elle sur ma peau ?
La douleur, après le cri. Le nef céleste se tord en convulsion,
une clarté fugace rompt l’arc. Ce n’est pas Dieu agacé,
ne sont pas les nuages qui se décharge, ce n’est pas le cycle se perpétuant.
C’est le ciel voulant se voir, comme Narcisse, au miroir.
Moi aussi, j’ai découvert le chemin me menant vers toi.
Je ne me suis tout simplement pas encore décidé à la prendre.
