sebenta de anotações esparsas, pensamentos ociosos, reflexões cadentes, poemas difusos, introspecções de uma filosofia mais ou menos opaca dos meus dias (ou + reminiscências melómanas, translúcidas, intra e extra-sensoriais, erógenas, esquizofrénicas ou obsessivas dos meus dias)
-
cahier de notes éparses, pensées oisives, réflexions filantes, poèmes diffus, introspections d'une philosophie plus ou moins opaque de mes journées (ou + de réminiscences mélomanes, translucides, intra-sensorielles et extra-sensorielles, érogènes, schizophrènes ou obsessionnelles de mes journées)

domingo, 28 de janeiro de 2007

BlogDelux Report

O primeiro encontro de bloggers do Luxemburgo e Grande Região teve lugar no sábado, 27 de Janeiro de 2007 no Bar "Autre Part", em Differdange, Sul do Grão-Ducado, a escassos quilómetros da fronteira francesa.
Durante o encontro, que reuniu durante quatro horas cerca de meia centena de bloggers e curiosos, a agência de marketing viral Culture Buzz, sediada há 5 anos no Luxemburgo, inaugurou o portal BlogDelux que repertoria cerca de 150 blogs da região e pretende tornar-se uma plataforma de encontro e intercâmbio entre bloggers do Luxemburgo e Grande Região (zona que compreende o Grão-Ducado do Luxemburgo, província belga da Valónia, os länders alemães da Sarre e da Renânia Palatinato e a região francesa da Lorena).
Reflexo das múltiplas comunidades residentes no Luxemburgo e países vizinhos, no encontro falava-se luxemburguês, francês, alemão, português, inglês, italiano, espanhol, e até romeno, checo e polaco.
Apurou-se que o pioneiro do bloguismo luxemburguês teria sido o Fireball-Where the dragon flies, criado em 2001 numa plataforma alemã por Joel Adami, na altura com 14 anos.
O primeiro blog em português do Luxemburgo, o "Luxemburgo Oficioso", foi aberto em Setembro de 2003 por Hugo Pinto, com a cumplicidade desde a primeira hora de Carlos Roso e Raúl Reis, comparsas de outras cow-boiadas.
Experiências dos internautas da blogosfera: para uns o seu blog é um diário pessoal, para outros uma página onde exprimem opiniões que não podem difundir em mais nenhum outro medium, outros ainda utilizam-no como plataforma comunitária para comunicar com outros bloggers.
Os bloggers falaram entre si das novas tendências de bd-blogues (como o "Trentenaire, marié, deux enfants") e video-blogs (como o do Stephane Tauzied, que até gravou uma reportagem sobre o encontro), foto-blogues (como o do Atryu ou o colectivo Terra de Vida), técnicas para postar fotos, referenciar o blog, em conversas espontâneas num espírito livro e de são convívio.
Desde bloggers com 16 anos de idade, que não conseguiram vencer a timidez para falar do seu blog, até à Phoebe que preferiu guardar o anonimato, a blogosfera não escolhe idades, a prová-lo Jean-Jacques Subrenat, antigo embaixador de França, que falou do seu blog político "Serenidee", ou o germano-luxemburguês Thorben Grosser, o português Oskar, o francês Arnolux e o Cyril das engraçadas e irónicas Chroniques de Luxembourg.
A imprensa não faltou: as reportagens passaram no sábado à noite na France 3 e RTL, as restantes na segunda-feira (29 Janeiro, às 19h15) na TTV, e nas próximas edições dos jornais
Contacto, Wort e Woxx e da revista Télécran.
Novo encontro marcado para breve em Metz, Arlon, Trier ou Sarrebruck.
Até lá, os caminhos virtuais são insondáveis e levam a todo o lado...

sábado, 27 de janeiro de 2007

BlogDelux - 1° encontro de bloggers
do Luxemburgo e
Grande RegiãoAspecto da página de acolhimento do Blogdelux,
a plataforma de bloggers do Luxemburgo

O encontro juntou cerca de meia centena de bloggers e curiosos
no bar "Autre Part" em Differdange

Lola do blog "Lola2luxe" entrevistada
por Franck Colotte (futuro blogger) e Liliana Miranda para a TTVJean-Jacques Subrenat, antigo embaixador de França, do blog político "Serenidee", e o jovem germano-luxemburguês Thorben Grosser do blog where cookie monster commits suicide


Hugo Pinto, Raúl Reis e Carlos Roso do blog colectivo "Luxemburgo Oficioso",
o primeiro em língua portuguesa do burgo (desde Setembro de 2003)

Hugo Pinto e Raúl Reis entrevistados por Michel Thiel do jornal "Wort",
sob o olhar atento de Pavla Vydrzelova.


Vanessa do blog "Vanou Online" e Sandy,
cúmplice de aventuras e prima do famoso Brav in the mix

Emmanuel Vivier, da agência de marketing viral "Culture Buzz"
e Lola, os organizadores do encontro

Luc Caregari, do jornal Woxx, Stéphanie Canonico e o amigo, da Culture Buzz, e Paulo Lobo, do blog "Voyages en suspens", em conversa animada


Filipe dos Santos Oliveira e Barbara Castilho, devoradores crónicos de blogues, o blogger Laurent Kratz e Stephan Schwartz




A empregada do "Autre Part", que tentei desviar para o bloguismo / L'employé de "L'Autre Part" que j'ai essayé "d'attirer" au bloguisme

sexta-feira, 26 de janeiro de 2007

Le blog qui a fait scandale en Chine

Le Livre "Journal sexuel d'une Chinoise sur le net", de Mu Zimei, a été fait a partir d'un blog qui retrace les aventures sexuelles d'une jeune Chinoise et qui a fait scandale en Chine depuis sa publication en 2003. Le livre est sortit en France, chez Albin Michel, en 2005.

La fille: "Tu veux coucher avec moi ce soir?"
Le garçon: "Pas possible. Je fais un blocage."
Elle: "Ah bon, pourquoi?"
Lui: "Tu es trop célèbre. (…) J'ai peur pour ma réputation."
Trop tard! Mu Zimei l'a déjà attrapé dans les filets de sa toile. Son blog ou weblog (journal intime sur le net) est devenu en quelques mois un des plus visités du cyber-espace chinois. Elle y raconte les rencontres et expériences sexuelles dans des soirées branchées de Canton - détails et dialogues croustillants à l'appui. Cela a fait scandale. Ses "performances sexuelles", mais surtout celles de ses amants, plus ou moins reconnaissables selon ses descriptions, sont devenues publiques et thèmes récurrents dans tous les magazines, journaux et émissions télévisées du pays.
Chinoises et Chinois accourraient au site quotidiennement. Curieux d'abord. Intéressés ou choqués ensuite.
La franchise déployée et le langage cru qu'utilise Mu Zimei - pseudonyme de la blogeuse - n'ont pas seulement bouleversé les moeurs religieuses et les traditions du peuple de l’Empire du Milieu, mais ont heurté de plein fouet la génération des anciens où les "non-dits" hantent les familles et finissent par les détruire.
Même l‘ establishment, en bon père de famille, s'en est mêlé. On soupçonna une journaliste d'un magazine branché. La fille fut intimidée, menacée d'être renvoyée, reçut des appels anonymes pendant la nuit pour fermer son blog, "honteuse fenêtre sur la débauche". Rien n'y a fait. Elle était déjà trop célèbre et les demandes d'interviews fusaient. Deux maisons d'éditions proposent de la publier. Elle finit par accepter et devient trop publique pour être la cible des pouvoirs.
Ce livre, qui raconte les aventures et mésaventures sexuelles d'une jeune Chinoise entre juin et novembre 2003, mérite d'être lu comme une radioscopie de toute la société chinoise en ce début de 21e siècle.
Mu Zimei parle de sexualité, sans tabou, si ouvertement que cela fait trembler une société aux moeurs en apparence candides et dociles, mais qui se révèlent vite débridées, parce que refouleés. Une société renfermée sur elle-même et où on ne discute jamais de ces choses-la (le sexe!), et surtout pas en dehors de la maisonnée.
Accompagnons donc les journées, qui se suivent et se ressemblent de cette jeune fille. Elle fume (de tout), boit sans relâche, sort toutes les nuits et plonge dans le monde du sexe pour se sentir à l'abri. Finalement elle se livre sur internet pour vivre, exister et oublier le suicide qui la hante.
Nous n'assistons pas simplement à une tranche de vie. La narratrice ne nous fait pas juste un compte-rendu de son quotidien mais nous rapporte aussi les histoires de ses amis et de sa famille. Ce qui nous permet un regard vu de l’intérieur d'une société qui se sent de plus en plus perdue. Une Chine avec de moins en moins de repères moraux et religieux. Des gens déchirés entre l'héritage lourd des ancêtres qui les contemplent d'un oeil réprobateur et le poids suffocant d'un État omniprésent, moralisateur et régulateur de la vie dans presque tous ses aspects. Le tout se heurtant à la vie moderne à l'occidental, à l'américaine, propagé de manière tapageuse par les magazines, télé, internet, comme seul accès au fameux happiness.
Un malaise qui atteint nos sociétés occidentales aussi. Ne serions nous finalement pas si différents de ces gens-la?...
A être lu sans un a priori voyeuriste. La Chine sur le divan freudien c'est dans le "Journal sexuel d'une Chinoise sur le net", chez Albin Michel.
Tenho saudades...

- da minha tia
- da Mina, da Mariana
- do meu amigo de infância, Pascal Grisius, que nunca mais vi
- do professor Gonzaga que me ensinou a gostar de Literatura e do professor Louro que me fez perceber o que era a poesia
- de construir naves intersiderais com lego
- da Quinta Dimensão e do "Lentes de Contacto" na RTP 2
- das conversas na cantina da escola
- das bicicletas BMX e da pista quebra-ossos que construimos na mata do Pontal
- do tempo em que ainda gostava de bollycaos
- das corridas de caricas na estrada de terra batida
- de cantar "oh, ivone, oh ivone, goodbye my love"
- de namorar as meninas da Quinta do Eucalipto em frente ao Paquete na praia
- da Sylvie me dizer que agora havia uma música nova chamada "acid" que viria a ser o techno
- das discotecas Sherazad, Olympus e Trigonometria
- da rua do Prior quando ainda era a rua do Crime
- da minhas intensas investigações nas bibliotecas e arquivos da cidade para provar que a Atlântida tinha existido
- de brincar ao pião e aos carrinhos no Ciclo D. Afonso III
- da visita de estudos a Santarém e à casa da Joaninha das "Viagens na minha Terra"
- dos concursos de break-dance na escola
- de ler os pregões do Blitz com entusiasmo genunino, às terças-feiras de manhã
- dos Duran Duran, Depeche Mode, Cure, Velvet Underground
- de brincar ao jogo da barra, às escondidas, ao stop no amendoal do Tio Cabrita
- de ver a Bélinha a nadar no tanque atrás da sua casa
- das longas conversas com o Emanuel sobre a vida, o amor e o futuro, enquanto coleccionávamos paus de gelado e tampas de canetas para construirmos naves
- da horta e da cabana que construi com o Luís
- do meu primeiro poema para a Zélia Santos
- do beijo que nunca dei no 7° ano
- do primeiro beijo na praia ao luar (mágico), anos mais tarde
- das aulas de desenho nesse mesmo 7° ano, ao sábado de manhã, que eu detestava por serem de desenho e ao sábado de manhã
- de jogar ao Pacman no ZX-Spectrum do meu irmão e do barulho das cassetes a entrarem o programa
- de juntar a merenda com os amigos e ir almoçar para o Jardim da Alameda
- de faltar às aulas à sexta-feira para ir para a Ilha do Farol
- dos locutores brasileiros nas rádios quando ainda não havia rádios brasileiras
- dos baile de fim de ano na escola a dançar ao som do grupo que viria a ser os "Entre Aspas"
- de comer figos de pita, pernas de pau, sumóis de laranja nas pequenas garrafas de vidro verde - de comprar chicletes Gorila na venda da Dona Bórinha
- da professora Idalécia e das aulas de teatro
- do Edgar Palma, timido, mas fanático por Pink Floyd
- da Coke, do João Pessoa, da Ana Serra, da Dora, do Cláudio (as nossas "filas" na rua de santo antónio!), da Susana Guerreiro, do Cuco, do Fernando Martinheira, da Patrícia Rita, da Kátia Silva, da Verónica Francisco, da Ana Portugal, da Margarete, da Sandra Rocheta e da minha querida, querida Susana Nogueira (kisses on the wind)

- Como a ideia original não é minha, aqui fica a devida reverência à Lis que me deu vontade de pensar em coisas bonitas :-) e que me fez reflectir que afinal é das pessoas de quem mais temos saudades

quarta-feira, 24 de janeiro de 2007

assola-me a noite inane

...são 22h13, um telefone que toca no vazio, não atender, quem será? a sensação de estar noutro lugar, alhures, não sei bem onde e viver uma cena que repudio, mas que adivinho, mais cedo ou mais tarde tudo acaba por acontecer, já sabemos, mas não queremos ver...

Flashback de seis horas. Sol de Inverno, lá fora. Na rádio Kelly Clarkson e eu a tentar concentrar-me no trabalho ao ritmo do teen spirit.
Um telefonema em plena tarde. Do outro lado do mar. Não é o Paulo de Nova Iorque. Uma mulher. Mas não é a Raquel, de Houston, nem tão pouco a Maria do Céu, do Leblon, no Rio. É Toronto. Uma voz do passado. Uma voz triste, apagada, magoada. Percorre-me o sangue o veneno que destilei numa manhã gelada de Janeiro e que apenas basta lembrar para me voltar a acicutar.
- Não leves a mal, já me esqueci da teu disparo, quase não morri, quase não chorei, fugi para outro hemisfério...
Fala-me do Líbano, do Egipto.
- Na Primavera, o México é tão bonito! E Marraquexe... Mas o Cairo... ah, o Cairo! Encruzilhada de rosas dos ventos, rosas do deserto, a Casbah atarefada, as ruelas, a turba dos mercadores, os cheiros mesclados, acafrão, caril e canela, chá de hortelã-pimenta no estio para resfrescar, os cantares alegres das mulheres, a oração, a vigília, o silêncio no deserto, o Nilo à noite, a madrugada sossegada e estrelada...

Foge para a frente. Voltar a quê, para quê? Nada faz sentido do que se faz ou se fez, excepto o que se fez com o sentido de ser. Um ocaso nos Cárpatos já tão longíquo...

- Se soubesses como lamento aquela manhã...
- Não peças desculpa! Se foste sincero no beijo, que mais posso querer?...

O que eu queria não era um perdão, era uma consciência tranquila. Nem no derradeiro momento fui corajoso. E hoje, que faço aqui, aguardando a noite inane? o telefone insiste e eu temendo saber quem é...
- Estou! Quem é?
O mapa cor de Kapuscinski

Faleceu ontem (23 Jan. 2007) de doença grave em Varsóvia o escritor e jornalist a polaco Ryszard Kapuscinski . Tinha 74 anos. Era considerado um dos melhores repórteres de guerra do Mundo e o autor contemporâneo de não-ficção mais corajoso sobre geopolítica, tendo sido diversas premiado com distinções internacionais e prestigiosas, várias vezes nomeado para o Prémio Nobel da Literatura. Em 1999, recebu o Prémio de Melhor Jornalista Polaco do século.

Ryszard nasceu em 1932, em Pinsk, na leste da Polónia (hoje situado na Bielorússia), para onde os pais de origem modesta, mas ambos professores do ensino básico, tinham sido enviados. Em 1945, a sua família mudou-se para a capital polaca, onde RK se formou em História. Começou no jornalismo aos 17 anos, tendo trabalhado para agência polaca de imprensa, para o maior diário polaco "Gazeta Wyborzca" e para os jornais e revistas mais prestigiados do Mundo.
A partir dos anos 50, foi correspondente de imprensa na Ásia, Médio Oriente, América Latina e África, tendo calcorreado mundo e meio. Mas foi a África que sempre regressou.

Pôs o pé em África pela primeira vez em 1957. E foi amor à primeira vista. Lá voltou a conforntar-se com a pobreza extrema da sua infância. "Eu sei o que é caminhar descalço, ainda hoje me sinto mal nos hóteis de luxo, prefiro a companhia dos nómadas", repetiu muitas vezes.
A sua grande ligação ao continente negro, onde voltou repetidas vezes, resultou em várias obras famosas como "Negus" e "Heban". Durante quase 40 anos, percorreu África de lés-a-lés, escreve no prefácio do seu livro "Heban" (Ébano), "evitando os intinerários oficiais, os palácios, os homens importantes e a grande política". Repetindo sempre que recusava o jornalismo do quarto de hotel com ar condicionado, lembra na nota introdutória deste livro que sempre preferiu deslocar-se "num camião em segunda mão, correr o deserto com os nómadas, ser o hóspede da savana tropical. A vida destes é um lamento, uma tormenta que suportam com uma resistência e uma serenidade incríveis", descreve.
Fala de África e das suas gentes como um olhar humanista, não de etnólogo frio e distante, mas deixando-se apaixonar pelo que ia descobrindo. As gentes e a terra. Mas detestava os políticos que (des)governam África.
Nas suas póprias palavras, "a África é um continente demasiado vasto para ser descrito. É um verdadeiro oceano, um planeta à parte, um cosmos heterogéneo e muito rico. Dizemos 'África' mas é uma simplificação sumário e cómoda. na realidade, à parte a noção geográfica, a África não existe."
No livro "Heban" assiste à descolonização mas também à vida quotidiana, algo destabilizadora para um europeu. Assistiu a guerras civis e tribais atravessando o Gana, Uganda, Tanzânia, Etiópia, Zanzibar, Libéria, Ruanda, Mali, Sudão, Nigéria e Senegal. Neste livro percebe-se, por exemplo, a origem complexa dos genocídios no Ruanda.
Era um poeta na linha da frente. Em 1981 começou também a fazer fotografias. Via o mundo transformar-se com um olhar de criança. Não um olhar ingénuo e infantil, mas puro e despojado de preconceito.
Recordo um artigo que escreveu há um no "Monde Diplomatique" sobre a tolerância e o nosso comportamento face a outros povos e culturas.
Escreveu mais de 20 livros não apenas sobre África, mas igualmente sobre a União Soviética, o Irão (Shah), a América Latina (The Soccer Wars).
Com 74 anos, planeava ainda escrever vários livros: um sobre a América Latina, outro sobre o Pacífico, bem como uma obra sobre Bronislaw Malinowski, um conterrâneo seu considerado o pai da Etnologia. Chegou a revelar que seria um tentativa de resposta a Huntington, que considera o choque de culturas como um perigo, enquanto que Kapuscinski via nesse encontro uma oportunidade para a Humanidade.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2007

cloud again

Fragment of water
fighting the canyon
shortcuting trough rocks and falls
vain evasion to avoid the dispersion of atoms.

One morning I fell in love with the sedentary dew
of the riverside, but the dream
of a bee around a pomegrenate
broke paradise, teared me apart.

I wanted to go back in the inexorable
time which flows… but the next day
I was in another shore, kissing a different ground.

I’m running against my will
sliding trough the world and trough life.
Once I was pure spring, dissolvent rain,
simple mud in the waterfront.
Now I’im a river
longing for the sea,
my promised homeland.
When I arrive, I know you’ll be waiting for me
so that we can be a cloud again.

080204

"Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos.
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer."

"Ce qui nous importe c'est le lieu oú nous sommes. Il y a assez de beauté a être ici et pas quelconque ailleurs." - Alberto Caeiro (aka Fernando Pessoa)

estar noutra parte


to be elsewhere


être ailleurs



autre part












estar en otra parte

é estar aqui, it's to be here, c'est être ici, es estar aqui!

quarta-feira, 17 de janeiro de 2007

cadafalso

Desta vez, o deserto não há-de vencer,
não há-de engolir-me os pulmões com pó.
O que foi depois daquela tempestade,
quando o rio desfez o convés antes de chegar à foz?
Já não queria lembra-me desse dia de mau augúrio,
o apóstolo mentiu, o fim do mundo voltou.

Avisto da torre de vigia,
as nuvens negras do juízo final
engordarem o céu ao horizonte
e anunciarem a trovoada.
Vale a pena enfunar as velas para salvar o navio?,
ele já viu tantas!

Hoje não sinto medo,
eu sabia que este dia ia chegar,
os meus dedos impávidos ainda cheiram a sangue e pólvora,
fiz demasiado mal para me safar daqui assim,
desta vez é a minha vez.

A onda de choque não me há-de arrancar do chão,
fecho as goelas ao maremoto, os olhos ao tufão,
a electricidade há-de correr-me o corpo,
e eu hei-de ficar de pé,
rindo patibular dos meus algozes e carrascos,
mesmo se a multidão em delírio de espectáculo,
já não escutar as minhas derradeiras palavras:
"25 men on a dead man's chest,
yo ho ho and a bottle of rum!..."

Tenho sede, mas nem o céu há-de vir em meu auxílio.

17012007

quarta-feira, 10 de janeiro de 2007

O blogger como "influenciador"

1 - Segundo o motor de busca norte-americano Tecnorati e o instituto de sondagem francês Ipsos, os blogs serão considerados, dentro de 10 anos, um meio de comunicação social ao mesmo nível dos outros.
2 - Os dois organismos falam de um novo poder do blogger: ser simultaneamente produtor e consumidor de informação, influenciando pro-activamente não só conhecidos e vizinhos como comunidades mais largas.
3- Segundo o encontro de bloggers Web3, que se realizou em Paris, em Dezembro, existiam 60 milhões de blogs no fim Setembro de 2006.
4- Estimativas do gabinete de estudos Gartner, o número de bloggers deve rondar os 100 milhões em Janeiro de 2007, revela Philippe Thureau-Dangin, director da Redacção do “Courrier International” (edição francesa), na edição de 4 de Janeiro de 2007.
5 - Para o responsável do semanário francês, os bloggers são “jornalistas do seu quotidiano”.
6- São criados 3 milhões de blogs por mês no Mundo
7 - Em 2005, foram criados 13 milhões de blogs, segundo uma crónica publicada em Dezembro de 2006 por Teresa Bouza, da agência espanhola EFE.
8- A revista norte-americana "Time" elegeu o internauta anónimo como "Personalidade do Ano 2006", decisão que se deveu, explicam, ao crescimento explosivo e à influência de conteúdos da internet como blogs, vídeos de sites como o YouTube e redes sociais como o MySpace, Hi5, Meetic.
9- A mui séria agência de imprensa internacional Reuters assinou em Novembro de 2006 uma parceria com a plataforma norte-americana Pluck (http://www.pluck.com/), que administra milhares de blogs. A Reuters começou a propôr, a par das suas notícias em linha, informações que fazem parte do conteúdo de blogues, promovendo o que apelida de “social networking” (teia de contactos e informacão social).

terça-feira, 9 de janeiro de 2007

Blog DeLux
O primeiro encontro de bloggers
do Luxemburgo e da Grande Região


Transmito a mensagem da parte do pessoal do "Blog Delux", que vai organizar uma iniciativa interessante, estreia absoluta no Grão-ducado, e que merece, a meu ver, ampla divulgação:

Com o objectivo de reunir gente em torno de uma paixão comum que é o blogging, uma comunidade de bloggers do Luxemburgo e da Grande Região, convida todos os interessados e curiosos para o primeiro encontro de bloggers do Grão-Ducado. Para dinamizar a comunidade dos blogs e criar o "Blog Delux", associaram-se à "Culture Buzz", uma agência de marketing alternativa.

Este encontro, terá lugar no sábado, 27 de Janeiro, a partir das 14h, no restaurante-bar-lounge "Autre Part" em Differdange, que nos acolherá num quadro elegante e contemporâneo. O primeiro encontro pretende ser um evento de convívio, aberto e animado para travar conhecimento com os bloggers do Luxemburgo e da Grande Região, mas também para todos os curiosos do fenómeno dos blogs. O estabelecimento está equipado com ligação gratuita à internet em modo wireless (sem fios), o que proporcionará a cada visitante participar de forma prática e partilhar esses momentos "ao vivo", de uma maneira interactiva.

O "Blog Delux" não tem vocação comercial e pretende ser uma oportunidade única de trocar, partilhar e comunicar ideias e opiniões sobre o fenómeno crescente dos blogs e do Web 2.0, esse famoso participativo internet de que todos falam... Nesse sentido, dois especialistas da "Culture Buzz" estarão igualmente presentes para fornecer alguns conselhos e responder a todas as eventuais questões.

Numa pequena sala de projecção que o estabelecimento possui, confortável e de livre acesso, terão lugar as discussões que se querem animadas e que serão subordinadas a diferentes temáticas:

- O que representa hoje o fenómeno blog
- Blog e vida profissional
- Como melhorar a visibilidade do seu blog
- Comparação das diferentes plataformas
- Como tornar o seu blog uma plataforma de convívio
- … etc

Para esta ocasião, a "Culture Buzz" criou um blog (http://www.blogdelux.lu) que contém todas as informações práticas e que será regularmente actualizado com informações sobre o país, eventos, blogs, internet... Um banner interactivo foi também já enviado aos primeiros bloggers que desejem juntar-se à iniciativa. Clique no banner na barra do lado para inclui-lo no vosso blog.

A propósito da "Culture Buzz"

A "Culture-Buzz", agência blog, viral e de buzz marketing do Grupo Vanksen, já trabalhou com numerosas marcas como a Warner Bros, Ubisoft, 20th Century Fox, Canal Plus, Sony e Nokia para a criação de acções ou aplicações virais ou aplicações virais online e offline. A "Culture-Buzz" é membro da "Viral & Buzz Marketing Association" (http://www.vbma.net), operando a nível europeu.

Com 700 artigos e 165.000 páginas consultadas/mês, o blog Culture-buzz.com tornou-se o primeiro portal francófono sobre temas urbanos, descodificando semanalmente o blog, o buzz e o marketing viral bem como todas as tendências alternativas: guerrilla e street marketing. "BuzzParadise" é a nossa plateforma internacional de relações entre as marcas e os "influenciadores".

Para mais informações:
http://www.blogdelux.lu
http://www.culture-buzz.com
http://lolastheme.typepad.com/

segunda-feira, 8 de janeiro de 2007

Pensamento do dia para não-bloggers:

"Uma pessoa que não tem diário está numa posição errada para com o diário de outra!",

Franz Kafka, a propósito de falsas considerações que os leitores poderiam tecer do diário de Goethe (in "Diários", 29 de Setembro de 1911).


----
Nota: blog é um diário íntimo cibernético (em linha na internet), palavra que deriva da contracção de "web-log" (internet e diário de bordo).
----

quarta-feira, 3 de janeiro de 2007

Juncker quer fazer omoletes sem ovos

Apesar de o primeiro-ministro, Jean-Claude Juncker, ter declarado no seu discurso sobre o Estado da Nação, em 2 de Maio de 2006, que pretende que o Grão-Ducado se torne, a breve trecho, o pólo comercial principal da Grande Região, mais uma vez foi pródigo em grandes ideias, mas revela-se parco em acções na hora de dar forma às promessas, como acontece há anos com a questão da penúria de alojamentos e a consequente inflação dos preços da habitação (!).

Juncker partilha da mesma opinião do ministro das Classes Médias, Fernand Boden (ver artigo principal), ou seja, que para que o Luxemburgo se torne um centro de passagem obrigatório para os onze milhões de consumidores que vivem no país e regiões fronteiriças, não é necessário alargar as horas de abertura do comércio (!).

Não será o mesmo que pedir para fazer omeletes sem ovos?

Enquanto se discute "abre? não abre?" e o lobby das lojas familiares e tradicionais impede a implantação de grandes multinacionais, como a FNAC e outras, as megastores de grandes marcas e as galerias comerciais crescem como cogumelos do outro lado da fronteira luxemburguesa, sitiando de olho guloso o poder de compra abastado do pequeno burgo.

E os consumidores luxemburgueses não se fazem rogados ao embater na porta de uma loja luxemburguesa encerrada depois das 18h ou ao domingo. Rumam cada vez mais frequentemente aos shoppings da periferia do país, com horários mais flexíveis e cosmopolitas.

Face a isso, Juncker – durante um dos seus habituais encontros com a imprensa, após o Conselho de Governo de 8 de Dezembro último – dizia que o Grão-Ducado dispõe de outros argumentos para se diferenciar dos seus concorrentes, avançando como exemplos o IVA, mais baixo no Luxemburgo do que nos países vizinhos. E supondo o alargamento de horários, avisava que este não deverá acontecer em detrimento das condições de trabalho dos empregados.

Mas horários mais flexíveis e menos provincianos não permitiriam criar mais postos de trabalho e combater o desemprego que tantas dores de cabeça tem dado ao ministro Biltgen, além de tornar a capital e o país mais atraentes para os consumidores da Grande Região e os turistas?

José Luís Correia, in Contacto, 03.01.2007

quarta-feira, 20 de dezembro de 2006

espuma psicadélica
O cheiro misturado dos nossos corpos suados pairava no quarto frio. A neblina surreal da noite esbatia-se indefesa contra a vidraça. Os meus dedos instintivamente percorreram todos os recantos do teu corpo antes dos meus lábios lhes seguirem o trilho traçado. Dançaste na minha boca acariciada pela luz indistinta da lua. Semi-ocultos na penumbra do quarto. Um no outro, num movimento brando.
Rasgos de luz vermelha, do néon lá fora, "rooms", transfiguravam-te o rosto, recortavam-te os ombros e os braços nus, os seios cheios, lambiam-te a duna morna da barriga, as coxas doces. Os meus dedos ledos desenhavam o aparado perfeito do triângulo isósceles, quero lá saber dos catetos de Pitágoras agora, como um geógrafo mapeando os continentes da utopia. Os teus seios na minha boca.
Fiz-me ao mar, em vagas sucessivas, a nau emproada, os lençóis enfunados, vencendo marés vivas e neptunos ferozes, dobrando cabos e promontórios, subindo estreitos e peninsulas, contornando ilhas, desbravando as terras prometidas, todas as atitudes e longitudes do teu corpo salgado.
As minhas mãos à deriva.
Os sóis ardendo, as constelações pulsando e desenhando nas estrelas o caminho sem astrolábio.
Abalroei na baía desejada inda não era madrugada, fundeei os meus flancos antigos, semelhantes às coxas cansadas de zeus em rhodes, no teu porto de abrigo. Beijaste as minhas cicatrizes de mar dos sargaços.
Num cansaço milenar, como se navegasse desde magalhães, num derrame rouco de boas esperanças, adormeci ancorado a ti. A espuma dos nossos dias.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2006


Palestina
por Adalberto Alves

Podem pisar-te como à erva ruim
E dizer que essa terra não é tua,
Podem matar os teus, sacrificar-te,
Pretendendo que o teu reino é o da lua,
Podem forças obscuras conjurar-se
P'ra roubar o que desde sempre te cabia,
Podem queimar-te e arrasar-te
Mas não negar a luz do dia.
Podem erguer um muro de mentira
Para deter os ventos do deserto
Mas eles amam-te e são teus
Sempre voltarão e hão-de ficar perto.
Teus filhos hão-de saber salvar-te,
Terra mártir, altiva e beduína,
E a meiga pomba da paz e da alegria
Pousará, de novo, em ti, Ó Palestina.

Este poema foi lido pela primeira vez durante a Exposição Cultural Palestiniana levada a cabo em Beja, pela respectiva Câmara Municipal e pela Representação da OLP em Portugal, em 11 de Julho de 1986. O autor é poeta tendo-se dedicado ao estudo e tradução da poesia árabe clássica.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2006

6° Congresso da CCPL: Lutar por uma reforma do ensino e promover a participação política

Coimbra de Matos deverá ser reconduzido à frente da CCPL Foto: Guy Wolff
Foi sob estes lemas que decorreu o sexto congresso da Confederação da Comunidade Portuguesa do Luxemburgo (CCPL, criada em 1991 e que reúne mais de metade das associações portuguesas do país), que contou com a presença de representantes das autoridades luxemburguesas e portuguesas, representantes de partidos políticos, além de uma meia centena de participantes.

Um dos cavalos de batalha da CCPL tem sido lutar por uma reforma do ensino luxemburguês de modo a que este favoreça a igualdade de oportunidades para todos, diminuindo as desigualdades de base, sejam elas sociais ou culturais. Durante o congresso foi ainda reafirmada a vontade de abrir o acesso à função pública por parte dos residentes estrangeiros comunitários.

A CCPL quer também continuar a promover o reconhecimento das associações lusas para que estas usufruam do acesso aos mesmo subsídios, apoios e infra-estruturas que são facultados a todas as outras colectividades luxemburguesas. Da mesma forma, a organização quer fomentar o reforço de relações entre a comunidade portuguesa e as outras comunidades e a sociedade luxemburguesa, sensibilizando simultaneamente os portugueses para uma maior participação cívica e política.

A CCPL mostrou ainda uma posição forte em relação à questão da recente exoneração do director do Instituto Camões considerando-a „incomprensível e absurda“ e exigindo uma resposta do governo português quanto ao futuro daquele centro.

O papel da CCPL foi definido, hoje mais do que nunca, como preponderante, face ao crescimento da comunidade portuguesa nos últimos anos, passando de 60.000 no fim dos anos 90 para os 80.000 em 2005 e diante do surto migratório contínuo e crescente proveniente de Portugal em direcção ao Grão-Ducado.

O presidente e a nova direcção serão eleitos nos próximos dias pelos 26 conselheiros eleitos durante o congresso.

José Luís Correia 
in CONTACTO, 13/12/2006

terça-feira, 12 de dezembro de 2006

encontro de bloggers do Luxemburgo,
Bar-Lounge "Autre Part", Differdange, 27 Janeiro 2007


- acontecimento: encontro de bloggers do luxemburgo e grande região,
- participantes: bloggers profissionais, amadores, curiosos, qualquer que seja a sua língua
- data: sábado, 27 de Janeiro de 2007
- hora: a partir das 14h30
- local: restaurante bar-lounge "Autre Part" (tel : 26 58 65-1, fax : 26 58 65-2) 8, place du marché, differdange, sul do luxemburgo
- objectivo: travar conhecimento com outros bloggers, num ambiente descontraído e simpático, falar do novo fenómeno de sociedade que é o blogging (e actividades associadas como mlogging, flogging, vlogging, i-logging), trocar opiniões sobre aspectos pertinentes deste novo modo de comunicação moderna, falar de cultura, de informação, abrir o diálogo e os horizontes
- oportunidades: projectar em grande ecrã excertos de blogs do luxemburgo e grande região, iniciar os curiosos na aventura do blogging
- inscrições e informações: Lola

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

da perfeição

quem concebeu os homens à sua imagem
e lhes deu uma cor diferente
quem dividiu as águas e apartou os oceanos ?
que ninguém una o que deus separou

as naus rebeldes da subsistência
inventaram um outro hemisfério
romperam ventos e cabos
fundearam em praias, deram baías aos santos
todos do calendário e nomes ao xadrez dos dias

quem riscou o mundo
quem recortou as terras e os mares em gomos de laranja
quem foi buscar o tempo da gaveta universal
e dividiu o dia que sempre nasce inteiro
quem empurrou o mundo para o regaço da via láctea,
quem pôs tudo isto a rodopiar
quem puxou o cordel original
do insondável pião galático
quem perdeu todos os berlindes coloridos na toalha negra imensa ?

novas naus cruzam os céus
em busca do sentido de tudo isto
para explorar as migalhas que restam do piquenique original
como se uma explicação fosse precisa
para a perfeição que não existe.

sábado, 25 de novembro de 2006

Porto sentido, sentado no Grund

Chove há quantos dias? O Outono, que eu sempre idealizara romântico e ameno, em cores de auriverde, como num filme piroso com a Winona Ryder e o Richard Gere, destila-se em cheias e aguaceiros, em rajadas e trovoadas, escorre pelas paredes do mundo e pelas sarjetas da minha rua. “Água que Deus amanda”, oiço a minha mãe explicar-me, junto ao velho fogão a lenha, nas noites de tempestade em que eu não conseguia dormir a não ser no seu colo morno, como se a benignidade da benção divina servisse apenas para fertilizar a terra e não para assustar os homens.

Um passeio no Grund ou no Cais das Barcas, debaixo da ponte vermelha ou da ponte D. Luiz, uma Guinness no Scott's, atravessando o Alzette e a Pétrusse, ou um Calém Reserva, a caminho do Taylor's, como “quem vem e atravessa o rio, junto à serra do Pilar, vê um velho casario, que se estende até ao mar”.

A luz foge à manhã, que se esvai taciturna, moribunda e inane. Aqui, nas terras vermelhas, do promontório deste burgo ou na Foz do Douro... Não suporto crepúsculos a meio da tarde. Ou que as sombras comam os dias como os que eu quisera ledos em Wroclaw e Zakopane. Quero exorcizar de mim os velhos amores que me assombram, a depressão de Inverno, que sinto chegar por uma escada oculta. Escrevo à menina. Assedia-me o travo perfumado, a lembrança da sua língua, dos meus gestos antes tímidos, da linguagem muda das nossas bocas querendo deflagrar o Outono, dos nossos corpos hesitantes, que finalmente mergulham de olhos bem abertos um no outro, num hotel sem nome, junto a um aeroporto, cais moderno das novas partidas, que nos lembra com insistência que o nosso voo também será breve e que os amantes se deverão apartar. Para mais tarde se juntar, quis acreditar.


nova babel


Fui ver o filme “Babel” de Alejandro González Iñárritu (“Amores Perros”, 1999; “21 Grams”, 2003). A torre não chegou ao céu, mas mundializou-se. Uma espingarda norte-americana, comprada por um japonês viúvo, pai de uma jovem em plena crise de adolescência, é usada por uma criança marroquina que brinca nos planaltos do Atlas para alvejar uma turista americana, que correu meio-mundo atrás do marido, depois deste fugir da morte súbita do recém-nascido de ambos, enquanto os filhos do casal são levados pela baby-sitter mexicana, ilegal há 16 anos nos Estados Unidos, para uma casamento muy tipico para além do novo muro da vergonha.

Globalizou-se também a confusão das línguas e das culturas. É o que nos querem fazer querer, desde os deturpadores de Samuel Huntington aos seguidores de Alvin Toffler. Mas entre homens de boa vontade, a língua pode ser diferente, a linguagem é perceptível, a mensagem passa. Neste filme, entre a criada mexicana e os filhos do casal americano, entre o marido da turista americana e o jovem marroquino que o acolhe na sua aldeia perdida, ou entre a surda-muda e o polícia que não precisa de gestos para entender o pedido de socorro da jovem.

(Sempre pensei que os casos em que os pais falam aos filhos em árabe, berbere, italiano ou português e estes respondem em francês ou que quando eu falava à minha namorada em algarvio e ela me respondia, por graça, em luxemburguês, isto fosse uma caracterísitica que apenas existia em França ou no Luxemburgo. Na minha ingenuidade etnocentrista, esqueci que todas as comunidades emigradas, em qualquer que seja o país onde se encontram, tendem a reproduzir os mesmos mecanismos de integração na sociedade e cultura de acolhimento. Que rima, em maior ou menor grau, com assimilação, consoante o sistema social e educativo do país onde chegaram e do envolvimento dos pais na educação (no sentido lato) dos seus filhos.
Fechar parêntesis.)

No sentido inverso, nem sempre a mesma língua é uma condição sine qua non para que os homens se percebam, levantando a desentendimentos, depressões, brigas, confusões, mortes. No filme: o marido da turista e os outros turistas americanos e europeus (ocidentais!), pai e filha no Japão, esta e os outros jovens japoneses, a polícia marroquina e os aldeões, tia e sobrinho mexicanos.

Assim sendo, devemos atribuir à torre de Babel, a origem da confusão das línguas ou aos homens de má vontade?

A morte e o seu espectro pairam durante toda a história. Não sabemos quando acontecerá, mas presentimo-lo. Acaba por abater-se sobre um inocente. Uma morte ligada à compra de uma arma. Mesmo se o realizador escolheu (propositadamente?) um cenário do outro lado do mundo, acaba por ser um piscar de olhos ao porte de arma permissivo nos Estados Unidos, que diz respeito a muitos jovens que são vítimas do “first amendement”, estejam do lado de cá ou do lado de lá do gatilho.

A torre de Babel, esta aldeia global na qual vivemos, está longe de chegar ao céu!
Se Fernando Pessoa disse que a sua pátria era a língua portuguesa, para o realizador mexicano, a "pátria" ou mesma a "mátria" (do latim "mãe") é... a mensagem. A mensagem é mais importante que a língua. As crianças, que vejo nos infantários e escolas luxemburgueses rirem e brincarem entre si sem falarem uma mesma língua, são as que no-lo ensinam melhor.