Está convocada para hoje (2 de Abril), uma manifestação frente ao Consulado de Portugal na cidade do Luxemburgo, para reivindicar mais funcionários e mais meios, de modo a este poder responder de forma mais adequada ao contínuo aumento da comunidade portuguesa no Luxemburgo.
Hoje somos 120 mil. Mas quando éramos 80 mil, no virar do século, a situação era igual, ou 60 mil nos anos 90, ou mesmo 30 mil nos anos 80.
Uma das únicas coisas que não mudou na comunidade portuguesa do Luxemburgo, e que me lembro, é o descontentamento com os serviços consulares.
Nos anos 70 e 80, eram vergonhosas as filas que se formavam diariamente, logo desde madrugada, na Allée Scheffer. Quando o Consulado se mudou para a rue du Fort Rheinsheim (no fim dos anos 80), as filas foram apenas deslocalizadas. E novamente, em 2007, quando o Consulado se mudou para a route de Longwy, as instalações melhoraram, mas os tempos de espera intermináveis voltam de quando em vez. Dependia por vezes de um(a) cônsul, que tentava inovar com este ou aquele sistema de atendimento diferente, ou dos funcionários que aumentavam (magramente) ou diminuiam (drasticamente) consoante o bem querer dos governos que se iam sucededendo na “metrópole”. Recorro propositadamente ao vocabulário salazarento, porque é assim que somos tratados por Lisboa, como uma longíqua colónia, como portugueses de segunda.
Como muito bem fez notar o conselheiro das Comunidades, Eduardo Dias, que convocou a manifestação de hoje, a população portuguesa representa, actualmente no Grão-Ducado, a de um concelho de dimensões médias em Portugal, como Setúbal, Leiria ou Barcelos. Quantos funcionários públicos têm esses concelhos? Setúbal, 1.400, Leiria e Barcelos, 700. E o nosso Consulado? Uma dezena e meia!!! Uma dezena e meia de funcionários para atender 120 mil portugueses?!!
Uma dezena e meia que não podem fazer milagres, que são mal pagos, que viram os seus salários reduzidos com as regras da austeridade impostas por Lisboa, outros que continuam lá, apesar de o Consulado estar na mais pura das ilegalidades ao não lhes conceder os aumentos salariais a que a lei laboral luxemburguesa lhes dá direito.A solução do consulado itinerante foi positiva (apesar dos custos acrescidos que envolve para o utente), mas também já mostrou o seu limite.
A secretaria de Estado das Comunidades desculpa-se com a “austeridade”, mas é apenas uma palavra nova para um conceito que aplica às comunidades desde sempre. Desde os anos 70, do século passado, que os funcionários são insuficientes no Consulado. Além disso, por muitos cortes que sejam impostos por Lisboa, será que não há verbas para uma comunidade que só em 2013 enviou remessas de dinheiro para Portugal no valor de quase 80 milhões de euros?
Esta desconsideração pelas comunidades não se nota apenas nos magros recursos atribuídos às embaixadas e aos consulados. Quando se sabe que os cinco milhões de emigrantes espalhados pelo Mundo são representados por apenas quatro (4!) deputados na Assembleia da República, está tudo dito.
Felizmente nem todos nos fazem sentir cidadãos de segunda. O que faz falta nas relações Governo-Comunidades não são só verbas, são também homens como aquele que desapareceu na sexta-feira, o Dr. Carlos Correia.
Destacado para o Luxemburgo em 2004, como adido social, viu-se “empurrado” a assumir a responsabilidade do Instituto Camões quando o Governo decidiu que já não havia dinheiro para um adido cultural, e exonerou o então director do IC, Luís Gaivão, em 2006. Lisboa nem sequer pagava (e ainda hoje não paga, quem o faz é o Governo luxemburguês) a renda do espaço onde se encontra o IC, mas argumentava que não havia mais dinheiro para promover a cultura junto dos portugueses do Luxemburgo. Tudo isto ainda antes dos anos de ”austeridade”.
Sem aumento de salário, sem meios nem recursos, Carlos Correia e a sua magra equipa, mantiveram o IC a funcionar, e com uma programação que não envergonhou Portugal.
Com o nosso jornal, Carlos Correia foi, como também era para todos os que o conheceram, acessível, disponível, simpático, amistoso no trato, sem tomar ofensa nem agravo mesmo quando criticávamos algo que emanasse do seu próprio serviço. Ao contrário de outros diplomatas que com tudo se melindram e que têm a epiderme sensível à menor crítica. Tivemos até uma diplomata que queria fazer uma “leitura prévia” das cartas à redacção que viéssemos a receber e que falassem do Consulado. Lembrei-lhe que a época do lápis azul tinha acabado, e nunca mais me convidou para almoçar.
Hoje, Joaquim Prazeres (e equipa), responsável pela Coordenação do Ensino, continua o trabalho de Carlos Correia à frente do IC, da mesma forma e do mesmo modo: sem meios nem recursos, mas corajoso e voluntarioso. São homens destes que salvam a imagem de Portugal e da nossa comunidade.
Só mais um exemplo: um outro adido, social e cultural, que a comunidade quis “fazer” cônsul (Rui Dias Costa). Mostrou sempre disponibilidade para as associações, e como respondia aos convites que estas lhe dirigiam para esta ou aquela festa, toda a gente pensava que ele era o cônsul e não o outro. O cônsul (o legítimo), diziam as rábulas radiofónicas que sobre se ele se faziam, não ia em ranchos nem charolas, “não bebia em copos de plástico” e ”gostava de cofiar o bigode novecentista”. “Ele não se mistura com portugueses de segunda”, dizia-se na comunidade.
Os portugueses do Luxemburgo e as comunidades em geral só pedem isso, ser tratados como cidadãos. Nem de primeira, nem de segunda. Cidadãos, ponto.
E isso passa por ter serviços consulares eficientes e adequados à comunidade e por não ter de esperar horas, dias, até que alguém atenda um telefone para poder agendar uma marcação para renovar o passaporte ou o BI.
José Luís Correia
(in CONTACTO, de 02/04/2014)
quarta-feira, 2 de abril de 2014
sábado, 29 de março de 2014
Morreu Carlos Correia, ex-adido social da Embaixada de Portugal no Luxemburgo
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| Foto: Álvaro Cruz |
“Lamento muito ter de informar que o Carlos Correia, meu chefe de gabinete faleceu hoje a meio da tarde, vitima de doença súbita. O Carlos era um grande Amigo com quem tive um percurso comum, de mais de 15 anos, ao serviço da causa das Comunidades. Era, sobretudo, UM HOMEM BOM, leal, generoso e muito dedicado. Paz à sua alma”, escreveu o secretário de Estado das Comunidades na sua página no Facebook, na sexta-feira.
Carlos Correia trabalhava como chefe de gabinete de José Cesário desde 2012, depois de ter estado durante oito anos no Luxemburgo, onde exerceu o cargo de adido social e cultural da Embaixada de Portugal, tendo ainda sido, entre 2006 e 2012, responsável pelo Instituto Camões no Grão-Ducado.
Depois da mensagem de José Cesário no Facebook multiplicaram-se as condolências na página do secretário de Estado, bem como mensagens sentidas em memória de Carlos Correia em páginas pessoais de responsáveis do movimento associativo português no Luxemburgo e de anónimos que privaram com o antigo diplomata.
“Acabei de ter a triste noticia que faleceu um grande amigo pessoal e um homem atento às migrações. O Dr. Carlos Correia, actual chefe de gabinete do secretário de Estado das Comunidades e ex-director do Instituto Camões do Luxemburgo, era um verdadeiro diplomata, sempre atento e sempre disponível. Obrigado Dr. Carlos Correia pelas suas últimas palavras de simpatia da passada terça-feira. Paz à sua alma e até um dia”, escreveu José Coimbra de Matos, presidente da Confederação da Comunidade Portuguesa no Luxemburgo (CCPL), na sua cronologia no Facebook.
Foi também através do Facebook que se exprimiu Eduardo Dias, conselheiro das Comunidades pelo Luxemburgo. “Carlos Correia morreu. Era um diplomata e um homem de terreno. Sempre disponível. Profundamente chocado, recordo um homem dedicado, elegante no trato, sensível. Com todas as contradições, foi um modelo de funcionário, alto funcionário, leal. Tive o prazer de ter convivido com ele, no Luxemburgo e em Portugal. Era um amigo! Morreu cedo e não merecia. Descanse em Paz!”.
Também o deputado do PSD eleito pela Emigração deixou uma mensagem de homenagem a Carlos Correia na sua página Facebook. “O falecimento do Dr. Carlos Pereira Correia é uma grande perda para as comunidades portuguesas. No exercício de funções de chefe de Gabinete de vários secretários de Estado da Emigração e das Comunidades Portuguesas e como conselheiro social em Paris, Luanda e Luxemburgo realizou um trabalho notável e que as comunidades não esquecem. Por onde passou deixou amigos e saudade porque era, antes de tudo, um homem bom. Não esqueço o apoio que me deu no início da minha carreira política pois sempre acreditou em mim e sempre mantive com ele uma relação de amizade, mas também tinha por ele uma enorme admiração. Sempre disponível, sempre pronto a ajudar os outros e, sobretudo, duma honestidade extraordinária. Lembro neste momento em que o Dr. Carlos Correia nos deixa os momentos que muitos de nós passaram com ele em Paris. Momentos inesquecíveis de encontros de amigos que nunca se apagarão. O que é importante na vida é a família e os amigos. Hoje perdemos um amigo e as comunidades portuguesas perderam alguém que era da sua família”, escreveu Gonçalves.
No momento da despedida, em Maio de 2012, ao CONTACTO, Carlos Correia garantia que não iria esquecer a sua passagem pelo Grão-Ducado. “Vivi no Luxemburgo uma experiência muito rica com a comunidade portuguesa, quer com o movimento associativo na sua globalidade – onde fiz muitos amigos –, quer na execução dos programas anuais de actividades do Instituto Camões. Levo a comunidade no coração”.
O funeral de Carlos Correia tem lugar no domingo à tarde na Igreja de Tercena, em Oeiras.
José Luís Correia
(in CONTACTO.LU, 29/03/2014)
quinta-feira, 6 de março de 2014
Putin que o pariu
Uma guerra entre dois estados europeus em pleno século XXI só podia ser parida por um filho da Put(in), um ex-expiãozeco com azia soviética, que depois de se destacar como um medíocre agente secreto, foi relegado a mero funcionário diligente do KGB, e que hoje aspira – bolorento, paranóico e saudosista –, a restabelecer a antiga glória e grandeza da URSS.
Ao recorrer à escalada militar na Crimeia, enviando milhares de soldados russos para a Ucrânia, Vladimir Putin não só violou a integridade territorial de um país europeu, como prova definitivamente que nunca digeriu a queda do muro de Berlim e o consequente colapso da União Soviética, dois acontecimentos históricos que trouxeram mais estabilidade à Europa.
É o que todos nós acreditamos. Putin não! Mas será que ao acenar com a bandeira vermelha de uma guerra na Europa, que acende em nós as piores memórias da nossa história recente, Putin não estará a fazer bluff?
Quando algo acontece na actualidade e cujos contornos ainda permanecem indefinidos, quando os analistas políticos ainda não decifraram claramente as motivações dos quem e dos porquês, por deformação profissional coloco-me sempre a mesma questão: isto beneficia quem?
A resposta a que cheguei, no caso de uma eventual guerra Rússia-Ucrânia, é que não beneficia ninguém: nem a Rússia, que se quer impor como um parceiro sério no xadrez económico e político internacional; nem os EUA, a braços com uma crise económica interna e que não têm interesse em embarcar numa nova guerra, que os seus cidadãos nunca apoiariam; nem a UE, que tem tudo a perder com um conflito armado no seu seio; e muito menos a Ucrânia, que não quer ser palco de um teatro de guerra sangrento.
Mas, destes todos, talvez a Rússia seja o país que realmente mais tem a perder. O valor do rublo nunca esteve tão baixo e desde que a crise com a Ucrânia piorou, ainda se deteriorou mais. Ao lançar-se numa guerra com a Ucrânia, a Rússia arrisca-se a perder o seu lugar no G8, pelo qual tanto lutou nos últimos anos. Perderia também os seus melhores clientes do mercado do gás, cujas condutas atravessam a Ucrânia para chegar à UE. E veria parte da sua economia bloqueada, com as contas bancárias dos seus dirigentes e oligarcas congeladas na UE. Mesmo se graças a este braço-de-ferro com Kiev, Putin nunca esteve melhor nas sondagens domésticas, ao intervir na Crimeia perderia toda a credibilidade internacional, ele que tanto tem defendido a não-ingerência na guerra civil síria.
A Península da Crimeia (dez vezes maior do que o Luxemburgo), no sul da Ucrânia, é para a Rússia um ponto estratégico. Militar primeiro, porque é lá que está estacionada a frota russa do mar Negro, no que é também o seu único acesso ao Mediterrâneo. Político e cultural também, porque os russos são a nacionalidade dominante da região e porque, historicamente, a Crimeia sempre foi russa. A região foi doada por Khrushchev à Ucrânia em 1954. Na altura, o gesto foi simbólico, já que a Ucrânia e a Crimeia faziam parte da URSS.
Mas revelou-se um presente envenenado quando, em 1991, os ucranianos se tornaram independentes, e a Crimeia lutou para ser uma região autónoma, não sem suscitar tensões com Kiev. Para continuar a ter ali a sua frota, Moscovo concordou em pagar uma renda anual à Ucrânia, num acordo benéfico para ambos os países e que expira em 2042. Mas sempre que o Governo de Kiev adopta uma preferência pró-UE (esta não é a primeira vez!), em detrimento da aproximação ancestral com a Rússia, as tensões agudizam-se.
Para muitos ucranianos, destituir Ianukovich significou livrar-se de um ditador que servia os interesses de Moscovo e que nem ucraniano falava. Para os pró-russos, o novo regime de Kiev é fascista, aliena-os do estatuto de protectorado da Mãe-Rússia de que gozavam, e a destituição de Ianukovich foi um golpe de Estado, incentivado pela UE e pelos EUA, o que não está longe da verdade.
Como em tudo, aqui há muitas áreas cinzentas e sobretudo muitos interesses económicos. Moscovo teme que os seus interesses sejam prejudicados na Ucrânia, com quem tem acordos económicos, como o do gás russo exportado para a UE. Se a Ucrânia pedir a adesão à UE, Putin terá de desistir da ambicionada "União Euroasiática" – bloco económico e político que Putin almeja constituir face à UE, da qual fazem já parte o Cazaquistão e a Bielorússia (ambos governados por ditadores pró-russos) –, e que sem Kiev não faz sentido.
Tudo isto leva a pensar que Putin está a fazer bluff. Nos últimos dias tem dado uma no cravo, outra na ferradura. No sábado, enviou mais tropas para a Crimeia, no domingo aceitou a mediação de Angela Merkel para dialogar com Kiev, na segunda-feira lançou um ultimato à Ucrânia, na terça mandou os seus soldados na Crimeia regressar às casernas. Quo vadis?
A ser bluff, este serve como mera demonstração de força, que visa provar toda a magnanimidade de Putin quando este propuser outras opções à guerra. Moscovo deverá então propor mais vantagens económicas e políticas à Ucrânia para que esta não se aproxime da UE. Putin pode ainda apresentar-se como salvador da Crimeia, exigindo a independência da região, o que a Ucrânia tem todo em interesse em aceitar, pouco perdendo com essa opção. Putin tem de mostrar que a Rússia é um gigante que não se deixa demover pelos seus vizinhos, nem pela UE, nem pelos EUA, nem por ninguém.
O povo amordaçado da Bielorússia está de olhos postos na crise do vizinho ucraniano. E o ditador pró-russo que dirige o país também. Lukashenko não quer ser outro Ianukovich. Putin tem de ter tudo isto em consideração e não mostrar parte fraca ao que considera uma provocação da Ucrânia. O seu pior pesadelo seria que o afastamento da Ucrânia da órbita de Moscovo contagiasse outras ex-repúblicas soviéticas que continuam, de bom ou mau grado, fiéis servos da Rússia. É um jogo perigoso o de Putin. Perigoso para a Rússia e para todos nós na Europa, afastada que pensávamos a possibilidade de uma nova guerra no nosso continente, onde a UE tem sido o garante de uma paz duradoura entre Estados, outrora inimigos ancestrais durante séculos.
Esperemos que esta crise se resolva e se torne apenas uma linha num parágrafo menor da História da Europa. Esperemos que a Rússia perceba que o reino oligarca de Putin, que dura desde 1999, apenas favorece as elites e não os cidadãos, e o povo russo entenda o seu desígnio europeu, dentro da UE, ou de uma UE diferente, alargada, maior, que poderá até ter uma denominação diferente – porque não "União Euroasiática", estendendo-se de Lisboa a Vladivostok? –, sem uma Rússia dominadora, mas parceira.
Esperemos que o povo e os dirigentes da Rússia futura entendam que é a bem que se constitui uma união e não pela força. Todos os que o tentaram pela força fracassaram, desde Alexandre Magno a Hitler. Há que aprender com a História, para não repetir os erros do passado. Os erros pagam-se caro e custam muitas vidas.
José Luís Correia
(in Jornal CONTACTO, 05/03/2014)
Ao recorrer à escalada militar na Crimeia, enviando milhares de soldados russos para a Ucrânia, Vladimir Putin não só violou a integridade territorial de um país europeu, como prova definitivamente que nunca digeriu a queda do muro de Berlim e o consequente colapso da União Soviética, dois acontecimentos históricos que trouxeram mais estabilidade à Europa.
É o que todos nós acreditamos. Putin não! Mas será que ao acenar com a bandeira vermelha de uma guerra na Europa, que acende em nós as piores memórias da nossa história recente, Putin não estará a fazer bluff?
Quando algo acontece na actualidade e cujos contornos ainda permanecem indefinidos, quando os analistas políticos ainda não decifraram claramente as motivações dos quem e dos porquês, por deformação profissional coloco-me sempre a mesma questão: isto beneficia quem?
A resposta a que cheguei, no caso de uma eventual guerra Rússia-Ucrânia, é que não beneficia ninguém: nem a Rússia, que se quer impor como um parceiro sério no xadrez económico e político internacional; nem os EUA, a braços com uma crise económica interna e que não têm interesse em embarcar numa nova guerra, que os seus cidadãos nunca apoiariam; nem a UE, que tem tudo a perder com um conflito armado no seu seio; e muito menos a Ucrânia, que não quer ser palco de um teatro de guerra sangrento.
Mas, destes todos, talvez a Rússia seja o país que realmente mais tem a perder. O valor do rublo nunca esteve tão baixo e desde que a crise com a Ucrânia piorou, ainda se deteriorou mais. Ao lançar-se numa guerra com a Ucrânia, a Rússia arrisca-se a perder o seu lugar no G8, pelo qual tanto lutou nos últimos anos. Perderia também os seus melhores clientes do mercado do gás, cujas condutas atravessam a Ucrânia para chegar à UE. E veria parte da sua economia bloqueada, com as contas bancárias dos seus dirigentes e oligarcas congeladas na UE. Mesmo se graças a este braço-de-ferro com Kiev, Putin nunca esteve melhor nas sondagens domésticas, ao intervir na Crimeia perderia toda a credibilidade internacional, ele que tanto tem defendido a não-ingerência na guerra civil síria.
A Península da Crimeia (dez vezes maior do que o Luxemburgo), no sul da Ucrânia, é para a Rússia um ponto estratégico. Militar primeiro, porque é lá que está estacionada a frota russa do mar Negro, no que é também o seu único acesso ao Mediterrâneo. Político e cultural também, porque os russos são a nacionalidade dominante da região e porque, historicamente, a Crimeia sempre foi russa. A região foi doada por Khrushchev à Ucrânia em 1954. Na altura, o gesto foi simbólico, já que a Ucrânia e a Crimeia faziam parte da URSS.
Mas revelou-se um presente envenenado quando, em 1991, os ucranianos se tornaram independentes, e a Crimeia lutou para ser uma região autónoma, não sem suscitar tensões com Kiev. Para continuar a ter ali a sua frota, Moscovo concordou em pagar uma renda anual à Ucrânia, num acordo benéfico para ambos os países e que expira em 2042. Mas sempre que o Governo de Kiev adopta uma preferência pró-UE (esta não é a primeira vez!), em detrimento da aproximação ancestral com a Rússia, as tensões agudizam-se.
Para muitos ucranianos, destituir Ianukovich significou livrar-se de um ditador que servia os interesses de Moscovo e que nem ucraniano falava. Para os pró-russos, o novo regime de Kiev é fascista, aliena-os do estatuto de protectorado da Mãe-Rússia de que gozavam, e a destituição de Ianukovich foi um golpe de Estado, incentivado pela UE e pelos EUA, o que não está longe da verdade.
Como em tudo, aqui há muitas áreas cinzentas e sobretudo muitos interesses económicos. Moscovo teme que os seus interesses sejam prejudicados na Ucrânia, com quem tem acordos económicos, como o do gás russo exportado para a UE. Se a Ucrânia pedir a adesão à UE, Putin terá de desistir da ambicionada "União Euroasiática" – bloco económico e político que Putin almeja constituir face à UE, da qual fazem já parte o Cazaquistão e a Bielorússia (ambos governados por ditadores pró-russos) –, e que sem Kiev não faz sentido.
Tudo isto leva a pensar que Putin está a fazer bluff. Nos últimos dias tem dado uma no cravo, outra na ferradura. No sábado, enviou mais tropas para a Crimeia, no domingo aceitou a mediação de Angela Merkel para dialogar com Kiev, na segunda-feira lançou um ultimato à Ucrânia, na terça mandou os seus soldados na Crimeia regressar às casernas. Quo vadis?
A ser bluff, este serve como mera demonstração de força, que visa provar toda a magnanimidade de Putin quando este propuser outras opções à guerra. Moscovo deverá então propor mais vantagens económicas e políticas à Ucrânia para que esta não se aproxime da UE. Putin pode ainda apresentar-se como salvador da Crimeia, exigindo a independência da região, o que a Ucrânia tem todo em interesse em aceitar, pouco perdendo com essa opção. Putin tem de mostrar que a Rússia é um gigante que não se deixa demover pelos seus vizinhos, nem pela UE, nem pelos EUA, nem por ninguém.
O povo amordaçado da Bielorússia está de olhos postos na crise do vizinho ucraniano. E o ditador pró-russo que dirige o país também. Lukashenko não quer ser outro Ianukovich. Putin tem de ter tudo isto em consideração e não mostrar parte fraca ao que considera uma provocação da Ucrânia. O seu pior pesadelo seria que o afastamento da Ucrânia da órbita de Moscovo contagiasse outras ex-repúblicas soviéticas que continuam, de bom ou mau grado, fiéis servos da Rússia. É um jogo perigoso o de Putin. Perigoso para a Rússia e para todos nós na Europa, afastada que pensávamos a possibilidade de uma nova guerra no nosso continente, onde a UE tem sido o garante de uma paz duradoura entre Estados, outrora inimigos ancestrais durante séculos.
Esperemos que esta crise se resolva e se torne apenas uma linha num parágrafo menor da História da Europa. Esperemos que a Rússia perceba que o reino oligarca de Putin, que dura desde 1999, apenas favorece as elites e não os cidadãos, e o povo russo entenda o seu desígnio europeu, dentro da UE, ou de uma UE diferente, alargada, maior, que poderá até ter uma denominação diferente – porque não "União Euroasiática", estendendo-se de Lisboa a Vladivostok? –, sem uma Rússia dominadora, mas parceira.
Esperemos que o povo e os dirigentes da Rússia futura entendam que é a bem que se constitui uma união e não pela força. Todos os que o tentaram pela força fracassaram, desde Alexandre Magno a Hitler. Há que aprender com a História, para não repetir os erros do passado. Os erros pagam-se caro e custam muitas vidas.
José Luís Correia
(in Jornal CONTACTO, 05/03/2014)
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quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014
As duas Leis de Sturgeon
Em 1951, Theodore Sturgeon, autor de ficcao cientifica, escreveu: "Nunca nada é absolutamente assim", que depois resumiu para "Noventa por cento da ficcao cientifica é lixo, como aliás, noventa por cento de tudo é lixo".
Esta máxima ficou conhecida como 1a Lei de Sturgeon.
Um segundo adágio, conhecida como 2a Lei de Sturgeon, é um norma para o pensamento crítico, que se resume na seguinte assumpcao: "Qual a próxima pergunta?". Este adágio vem formulado com um símbolo constituído pela letra Q, atravessada por uma seta.
Esta máxima ficou conhecida como 1a Lei de Sturgeon.
Um segundo adágio, conhecida como 2a Lei de Sturgeon, é um norma para o pensamento crítico, que se resume na seguinte assumpcao: "Qual a próxima pergunta?". Este adágio vem formulado com um símbolo constituído pela letra Q, atravessada por uma seta.
Rótulo :
ficção científica
quinta-feira, 30 de janeiro de 2014
quinta-feira, 14 de novembro de 2013
Soprano Rita Matos Alves afirma: "A ópera conjuga as minhas duas grandes paixões, o canto e o teatro"
| Foto: Manuel Dias |
Um ano e meio depois de ter estado no Luxemburgo integrando o elenco da ópera "A Flauta Mágica" de Mozart, Rita Matos Alves regressou 5 de Novembro para um recital do Foyer Européen que decorreu na sala da loja "Pianos Kléber", na capital.
"O objectivo do recital era dar uma amostra de alguns compositores que foram muito importantes no século XX português como Vianna da Motta ou Francisco de Lacerda, mas também outros menos famosos como António Fragoso, que teve uma vida muito curta, morreu aos 21 anos, mas era já considerado um dos grandes. Escolhi também canções do Croner de Vasconcelos e do Victor Macedo Pinto, que são talvez menos conhecidos mas também são mais recentes e mais modernos".
"A escolha das canções foi minha, mas dependeu sobretudo das pautas que consegui encontrar. Eu queria interpretar canções do Luís de Freitas Branco, mas não consegui encontrar as pautas", lamenta Rita num sorriso. "Há poucas pautas de música editadas em Portugal. Outras canções escolhi porque o poema era de Camões, Pessoa, Almeida Garrett, João de Deus ou Guerra Junqueiro e eu também queria dar a conhecer esses autores ao público", diz.
Rita explica ainda que muitas das canções que trouxe evocam a Belle Époque , foram compostas como música erudita, para voz e piano, mesmo se algumas ficaram depois famosas com arranjos para fado, como algumas dos temas de Fragoso, que se tornaram fados conhecidos na voz de Adriano Correia de Oliveira. No "bis", Rita cantou dois fados, "Foi Deus" e "O Fado da Mariquinhas".
Ao CONTACTO a artista afirma que gosta e que cresceu a ouvir cantar fado, o pai já cantava e ia às casas de fado com ela, e Rita revela mesmo que a primeira vez que cantou em público foi um fado. Portugal perdeu uma grande fadista ou a ópera ganhou uma grande soprano? Rita confia não lamentar não ter sido fadista porque verdadeiramente adora a carreira que seguiu. Até porque a ópera conjuga as suas duas "grandes paixões", o teatro e o canto.
"Eu adoro teatro", diz num sussurro, "e contracenar é o máximo", ri-se. "E o canto clássico permite cantar tantas coisas diferentes, de muitas épocas, em muitas línguas, há tantas possibilidades." Apesar de ainda jovem, a carreira de Rita Matos Alves tem seis anos e já muitas óperas famosas no currículo. No entanto, a soprano revela que gostaria de tentar o "bel canto", em obras de Donizetti, como "Don Pasquale" ou "Elixir do Amor", ou em "A Sonâmbula", de Vincenzo Bellini, "em que há um grande lirismo de que gosto muito".
José Luís Correia
(in Jornal CONTACTO, 13/11/2013)
quarta-feira, 6 de novembro de 2013
Às urnas, trabalhadores!
Na próxima quarta-feira, dia 13 de Novembro, têm lugar as Eleições Sociais no Luxemburgo.
Mas o que são as eleições sociais?
É uma votação através da qual os trabalhadores – todos os trabalhadores, residentes ou fronteiriços, desde que trabalhem no Grão-Ducado –, podem eleger "o seu Parlamento".
Este "Parlamento dos Trabalhadores" chama-se "Chambre des Salariés" (Câmara dos Assalariados) e ao votarem os trabalhadores vão estar a eleger os seus representantes, por sector de actividade, junto desta instituição. Há muitos portugueses candidatos. Nas empresas de construção civil os delegados portugueses ultrapassam mesmo os 80 % dos candidatos.
Composto por 60 membros (à semelhança do Parlamento luxemburguês, mas a comparação acaba aqui!), a Câmara dos Assalariados tem como missão, entre outras, dar pareceres ao Governo sobre legislação laboral e social. Tradução: é um órgão de consulta do Governo e os seus pareceres não são obrigatórios.
Os trabalhadores receberam há semanas, por correio, em casa, os boletins de voto. Nestes, podem votar nas listas e nos representantes que cada sindicato apresenta no sector de actividade em que o trabalhador está empregado. O boletim de voto deve ser reenviado à comissão eleitoral e chegar antes da data do sufrágio.
Em paralelo, decorrem também as eleições para a escolha das delegações de pessoal, mas apenas nas empresas com mais de 15 trabalhadores. Há empresas com mais de 15 trabalhadores e que não possuem delegações que representam os empregados, mas legalmente qualquer trabalhador dessas empresas pode constituir uma delegação do pessoal, se a empresa possuir o número mínimo de trabalhadores.
Porque é que é tão importante participar nas eleições sociais?
Primeiro, porque é um direito que temos e que não devemos deixar extraviado por mãos alheias. Os trabalhadores de outros países não têm a possibilidade de eleger representantes dos trabalhadores para um órgão que pode intervir junto do Governo. E, já que trabalhamos num país que nos dá essa "arma", utilizemo-la então! Não nos queixemos apenas das condições de trabalho, do excesso de horas laborais, do patrão, das leis sociais! Votemos!
Às urnas, trabalhadores!
Quanto mais pesarem os representantes que elegermos, mais temos a possibilidade de fazer ouvir as nossas vozes e as nossas reivindicações laborais e sociais junto de quem decide.
Enquanto estrangeiros, mesmo residentes, não podemos votar para o Parlamento. Das 530 mil pessoas que vivem no Grão-Ducado, apenas 238 mil podiam votar nas últimas legislativas de 20 de Outubro. Ou seja, a 43 % da população ficou vedado o direito de eleger os representantes dos cidadãos no Parlamento, mesmo se as leis que este órgão de soberania aprova se aplicam a todos os cidadãos. Não somos nós cidadãos como os outros?
Talvez com o novo Governo as coisas mudem nesse plano. Ou talvez não mudem!
Utilizemos então a "arma" do voto nestas eleições sociais. Neste sufrágio somos maioritários e temos o direito de participar. Nós, os estrangeiros. Apenas um terço da massa salarial é luxemburguesa. Dos 362 mil trabalhadores que há no Grão-Ducado, 104 mil são nacionais, 87 mil são estrangeiros residentes e 160 mil são fronteiriços. Ou seja, 247 mil trabalhadores são estrangeiros, com os portugueses a representarem um quarto desse número.
É um magro consolo, bem sei, mas temos que aproveitar esta ocasião para participar na sociedade a que pertencemos, já que não o podemos fazer nas legislativas.
Dito isto, não me interpretem de forma errada: não troco um pelo outro, nem o direito de voto nas eleições sociais me demove de pensar que devemos continuar a reivindicar a participação nas legislativas, enquanto cidadãos de pleno direito deste país, que contribuem para a sua riqueza económica, cultural, social e em muitos outros aspectos da vida quotidiana, e que eleger o Parlamento não é um privilégio a que almejamos, mas um direito democrático que nos assiste.
Por último, e talvez a razão mais importante, é vital votarmos nestas eleições sociais porque o futuro que se desenha no Luxemburgo é incerto. O Grão-Ducado já não é uma "ilha" e a crise chegou mesmo a todos os sectores de actividade neste país que muitos consideravam imune às ondas de choque internacionais. Quem vai pegar no leme nesta fase de navegação à vista no mar tenebroso da crise? O tempo da bonança ainda parece longínquo.
O Governo liberal-socialista-verde que se prepara, no preciso momento em que escrevo, e que nos vai governar durante cinco anos, terá contornos mais neoliberais ou mais socialistas? Os Verdes, tradicionalmente à esquerda, vão deixar tingir-se pelos colegas de coligação? Como vai evoluir a carga horária dos trabalhadores, o pagamento das horas extraordinárias, o ordenado mínimo, a indexação dos salários, os abonos de família, os benefícios sociais?
Claro que não sabemos responder a estas questões, mas ter os representantes que elegemos na Câmara dos Assalariados a defender os nossos interesses, nos próximos cinco anos, é uma das formas de assegurarmos que, pelo menos, alguém lutará aí por esses nossos direitos.
José Luís Correia
(Editorial no Jornal CONTACTO, de 06/11/2013)
É uma votação através da qual os trabalhadores – todos os trabalhadores, residentes ou fronteiriços, desde que trabalhem no Grão-Ducado –, podem eleger "o seu Parlamento".
Este "Parlamento dos Trabalhadores" chama-se "Chambre des Salariés" (Câmara dos Assalariados) e ao votarem os trabalhadores vão estar a eleger os seus representantes, por sector de actividade, junto desta instituição. Há muitos portugueses candidatos. Nas empresas de construção civil os delegados portugueses ultrapassam mesmo os 80 % dos candidatos.
Composto por 60 membros (à semelhança do Parlamento luxemburguês, mas a comparação acaba aqui!), a Câmara dos Assalariados tem como missão, entre outras, dar pareceres ao Governo sobre legislação laboral e social. Tradução: é um órgão de consulta do Governo e os seus pareceres não são obrigatórios.
Os trabalhadores receberam há semanas, por correio, em casa, os boletins de voto. Nestes, podem votar nas listas e nos representantes que cada sindicato apresenta no sector de actividade em que o trabalhador está empregado. O boletim de voto deve ser reenviado à comissão eleitoral e chegar antes da data do sufrágio.
Em paralelo, decorrem também as eleições para a escolha das delegações de pessoal, mas apenas nas empresas com mais de 15 trabalhadores. Há empresas com mais de 15 trabalhadores e que não possuem delegações que representam os empregados, mas legalmente qualquer trabalhador dessas empresas pode constituir uma delegação do pessoal, se a empresa possuir o número mínimo de trabalhadores.
Porque é que é tão importante participar nas eleições sociais?
Primeiro, porque é um direito que temos e que não devemos deixar extraviado por mãos alheias. Os trabalhadores de outros países não têm a possibilidade de eleger representantes dos trabalhadores para um órgão que pode intervir junto do Governo. E, já que trabalhamos num país que nos dá essa "arma", utilizemo-la então! Não nos queixemos apenas das condições de trabalho, do excesso de horas laborais, do patrão, das leis sociais! Votemos!
Às urnas, trabalhadores!
Quanto mais pesarem os representantes que elegermos, mais temos a possibilidade de fazer ouvir as nossas vozes e as nossas reivindicações laborais e sociais junto de quem decide.
Enquanto estrangeiros, mesmo residentes, não podemos votar para o Parlamento. Das 530 mil pessoas que vivem no Grão-Ducado, apenas 238 mil podiam votar nas últimas legislativas de 20 de Outubro. Ou seja, a 43 % da população ficou vedado o direito de eleger os representantes dos cidadãos no Parlamento, mesmo se as leis que este órgão de soberania aprova se aplicam a todos os cidadãos. Não somos nós cidadãos como os outros?
Talvez com o novo Governo as coisas mudem nesse plano. Ou talvez não mudem!
Utilizemos então a "arma" do voto nestas eleições sociais. Neste sufrágio somos maioritários e temos o direito de participar. Nós, os estrangeiros. Apenas um terço da massa salarial é luxemburguesa. Dos 362 mil trabalhadores que há no Grão-Ducado, 104 mil são nacionais, 87 mil são estrangeiros residentes e 160 mil são fronteiriços. Ou seja, 247 mil trabalhadores são estrangeiros, com os portugueses a representarem um quarto desse número.
É um magro consolo, bem sei, mas temos que aproveitar esta ocasião para participar na sociedade a que pertencemos, já que não o podemos fazer nas legislativas.
Dito isto, não me interpretem de forma errada: não troco um pelo outro, nem o direito de voto nas eleições sociais me demove de pensar que devemos continuar a reivindicar a participação nas legislativas, enquanto cidadãos de pleno direito deste país, que contribuem para a sua riqueza económica, cultural, social e em muitos outros aspectos da vida quotidiana, e que eleger o Parlamento não é um privilégio a que almejamos, mas um direito democrático que nos assiste.
Por último, e talvez a razão mais importante, é vital votarmos nestas eleições sociais porque o futuro que se desenha no Luxemburgo é incerto. O Grão-Ducado já não é uma "ilha" e a crise chegou mesmo a todos os sectores de actividade neste país que muitos consideravam imune às ondas de choque internacionais. Quem vai pegar no leme nesta fase de navegação à vista no mar tenebroso da crise? O tempo da bonança ainda parece longínquo.
O Governo liberal-socialista-verde que se prepara, no preciso momento em que escrevo, e que nos vai governar durante cinco anos, terá contornos mais neoliberais ou mais socialistas? Os Verdes, tradicionalmente à esquerda, vão deixar tingir-se pelos colegas de coligação? Como vai evoluir a carga horária dos trabalhadores, o pagamento das horas extraordinárias, o ordenado mínimo, a indexação dos salários, os abonos de família, os benefícios sociais?
Claro que não sabemos responder a estas questões, mas ter os representantes que elegemos na Câmara dos Assalariados a defender os nossos interesses, nos próximos cinco anos, é uma das formas de assegurarmos que, pelo menos, alguém lutará aí por esses nossos direitos.
José Luís Correia
(Editorial no Jornal CONTACTO, de 06/11/2013)
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quarta-feira, 23 de outubro de 2013
Sismo político no Luxemburgo
Estaremos a viver um sismo político no Luxemburgo ou simplesmente o fim de uma era?
É o que muitos estarão neste momento a pensar, depois da revelação na segunda-feira à noite de que Xavier Bettel (DP) quer formar com os socialistas e com os Verdes um governo a três, relegando o CSV para a oposição, onde o partido cristão-social só esteve durante um interregno de cinco anos (1974-1979), nos últimos sessenta. Pior para muitos é que isto significa literalmente o "despejo" de Juncker do Governo. É como cair "o Carmo e a Trindade", qualquer que seja a correspondência luxemburguesa desta expressão.
No domingo, o CSV vencia as eleições e muitos ficavam tranquilos, seguros de que Juncker iria prolongar o seu "reinado" de 18 anos. Aqueles para quem CSV e Juncker são sinónimos de estabilidade. Outros mostravam preocupação e desânimo, os que pensam que esse mesmo binómio significa imobilismo e conservadorismo. Visto que o DP tinha crescido, mas que o CSV tinha vencido, para uma maioria de luxemburgueses a questão era apenas saber quem Juncker escolheria para parceiro de coligação.
A mais urbana e democrática das opções era Bettel deixar Juncker vir bater-lhe à porta para negociar. Eufórico com a vitória do seu partido, Bettel decretou logo no domingo à noite que "o futuro Governo não se faria sem o DP".
Juncker fez questão de pôr Xavier no seu lugar, recordando que apesar de os cristãos-sociais terem perdido milhares de votos e três assentos parlamentares, o CSV era o vencedor da noite e continuava a ser a maior força política do país. Juncker reclamou até o papel de formador do governo. Ou seja: o DP podia até festejar, mas cabia ao CSV decidir.
Mas estas equações todas não contavam com a ambição desmedida de Bettel, que surpreendou tudo e todos ao tomar a dianteira de uma coligação pouco provável. A não ser que o jovem estratega liberal já estivesse a preparar esta jogada há muito. Só assim se percebe melhor o ataque cerrado e virulento que DP e Verdes infligiram a Juncker em Julho, no caso que o responsabilizou pelos disfuncionamentos dos serviços secretos. A estocada final veio com a "traição" dos socialistas, parceiros de coligação do CSV, que, no derradeiro momento, alinharam com a oposição e fizeram cair o Governo. Será que os três partidos se concertaram para, qualquer que fosse o resultado das eleições em Outubro, se aliarem, como única forma de retirarem o CSV do poder?
Um governo CSV-DP seria o mais lógico, porque juntaria dois partidos de direita. Mas outras ambições estão aqui em jogo. Bettel sabe que nunca estaria em posição de força num Governo com os cristãos-sociais. E governar na sombra de Juncker, não, obrigado! Choque de carismas?
Com o LSAP e os Verdes, o DP negoceia como líder e pode reivindicar as pastas que quer e até a chefia do Governo. Apesar de o DP ter o mesmo número de assentos parlamentares que o LSAP (13), os socialistas não estão em posição de força, porque tiveram menos votos que os liberais. Quanto aos Verdes, "servem" ao DP e ao LSAP para conseguir a maioria.
Esta coligação pouco provável adivinha-se turbulenta pelas divergências ideológicas dos três partidos. É como misturar água com azeite. Ou será que basta ter um inimigo comum a abater para de repente encontrar amigos na ala oposta? Será que a vontade de destronar Juncker e o CSV são mais fortes do que as diferenças que separam os três partidos?
Parece que a aritmética oportunista prevalece sobre a política e a democracia. Tudo isto cria uma situação que é inédita no Luxemburgo e, no mínimo, peculiar: o partido com mais votos pode ir parar à oposição.
Será que Bettel já esqueceu o que disse no domingo, após saber o resultados dos votos: "Se o Governo se fizer sem o DP, isso seria desrespeitar os resultados das urnas, e para quê fazer então eleições?". Não é o que a coligação a três está a fazer com os eleitores do CSV, que foi o partido mais votado?
E o que dizer das consequências internacionais do afastamento de Juncker do Governo? Por essa Europa fora muito são os responsáveis políticos, chefes de Estado, economistas e cidadãos que depositam no veterano dos chefes de governo europeus uma confiança e fé só comparável à que dedicam aos pais fundadores da UE. Como será lá fora a imagem do Grão-Ducado governado pela "coligação gambiana" (alcunha que deriva das cores do três partidos que evocam a bandeira da Gâmbia: azul, vermelho e verde)?
José Luís Correia
(Editorial, in Jornal CONTACTO, de 23/10/2013)
É o que muitos estarão neste momento a pensar, depois da revelação na segunda-feira à noite de que Xavier Bettel (DP) quer formar com os socialistas e com os Verdes um governo a três, relegando o CSV para a oposição, onde o partido cristão-social só esteve durante um interregno de cinco anos (1974-1979), nos últimos sessenta. Pior para muitos é que isto significa literalmente o "despejo" de Juncker do Governo. É como cair "o Carmo e a Trindade", qualquer que seja a correspondência luxemburguesa desta expressão.
No domingo, o CSV vencia as eleições e muitos ficavam tranquilos, seguros de que Juncker iria prolongar o seu "reinado" de 18 anos. Aqueles para quem CSV e Juncker são sinónimos de estabilidade. Outros mostravam preocupação e desânimo, os que pensam que esse mesmo binómio significa imobilismo e conservadorismo. Visto que o DP tinha crescido, mas que o CSV tinha vencido, para uma maioria de luxemburgueses a questão era apenas saber quem Juncker escolheria para parceiro de coligação.
A mais urbana e democrática das opções era Bettel deixar Juncker vir bater-lhe à porta para negociar. Eufórico com a vitória do seu partido, Bettel decretou logo no domingo à noite que "o futuro Governo não se faria sem o DP".
Juncker fez questão de pôr Xavier no seu lugar, recordando que apesar de os cristãos-sociais terem perdido milhares de votos e três assentos parlamentares, o CSV era o vencedor da noite e continuava a ser a maior força política do país. Juncker reclamou até o papel de formador do governo. Ou seja: o DP podia até festejar, mas cabia ao CSV decidir.
Mas estas equações todas não contavam com a ambição desmedida de Bettel, que surpreendou tudo e todos ao tomar a dianteira de uma coligação pouco provável. A não ser que o jovem estratega liberal já estivesse a preparar esta jogada há muito. Só assim se percebe melhor o ataque cerrado e virulento que DP e Verdes infligiram a Juncker em Julho, no caso que o responsabilizou pelos disfuncionamentos dos serviços secretos. A estocada final veio com a "traição" dos socialistas, parceiros de coligação do CSV, que, no derradeiro momento, alinharam com a oposição e fizeram cair o Governo. Será que os três partidos se concertaram para, qualquer que fosse o resultado das eleições em Outubro, se aliarem, como única forma de retirarem o CSV do poder?
Um governo CSV-DP seria o mais lógico, porque juntaria dois partidos de direita. Mas outras ambições estão aqui em jogo. Bettel sabe que nunca estaria em posição de força num Governo com os cristãos-sociais. E governar na sombra de Juncker, não, obrigado! Choque de carismas?
Com o LSAP e os Verdes, o DP negoceia como líder e pode reivindicar as pastas que quer e até a chefia do Governo. Apesar de o DP ter o mesmo número de assentos parlamentares que o LSAP (13), os socialistas não estão em posição de força, porque tiveram menos votos que os liberais. Quanto aos Verdes, "servem" ao DP e ao LSAP para conseguir a maioria.
Esta coligação pouco provável adivinha-se turbulenta pelas divergências ideológicas dos três partidos. É como misturar água com azeite. Ou será que basta ter um inimigo comum a abater para de repente encontrar amigos na ala oposta? Será que a vontade de destronar Juncker e o CSV são mais fortes do que as diferenças que separam os três partidos?
Parece que a aritmética oportunista prevalece sobre a política e a democracia. Tudo isto cria uma situação que é inédita no Luxemburgo e, no mínimo, peculiar: o partido com mais votos pode ir parar à oposição.
Será que Bettel já esqueceu o que disse no domingo, após saber o resultados dos votos: "Se o Governo se fizer sem o DP, isso seria desrespeitar os resultados das urnas, e para quê fazer então eleições?". Não é o que a coligação a três está a fazer com os eleitores do CSV, que foi o partido mais votado?
E o que dizer das consequências internacionais do afastamento de Juncker do Governo? Por essa Europa fora muito são os responsáveis políticos, chefes de Estado, economistas e cidadãos que depositam no veterano dos chefes de governo europeus uma confiança e fé só comparável à que dedicam aos pais fundadores da UE. Como será lá fora a imagem do Grão-Ducado governado pela "coligação gambiana" (alcunha que deriva das cores do três partidos que evocam a bandeira da Gâmbia: azul, vermelho e verde)?
José Luís Correia
(Editorial, in Jornal CONTACTO, de 23/10/2013)
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quinta-feira, 3 de outubro de 2013
Enquanto houver Obama há esperança
| Foto: AFP |
Os dois países tinham relações diplomáticas cortadas desde 1979.
Para que este passo histórico fosse dado, um dos mais importantes desde o fim da Guerra Fria, foi necessário a chegada de duas peças fundamentais no xadrez mundial : Obama e Rohani.
O reformista Rohani chegou ao poder em Junho e, em poucos meses, deu mostras de uma real vontade de abrir Teerão ao Ocidente. Uma atitude que contrasta diametralmente com o seu antecessor, o conservador Mahmoud Ahmadinejad.
Rohani multiplicou intervenções e entrevistas na imprensa americana e europeia, nas quais afirma querer fazer avançar o sensível dossier nuclear iraniano, parado há oito anos. Na semana passada anunciou estar já a discutir com a Agência Internacional da Energia Atómica, por forma a provar que o Irão não está a desenvolver armas nucleares.
Sincera ou não, uma tentativa de aproximação entre Teerão e Washington tinha já sido tentada em 2006 por Ahmadinejad, mas George W. Bush nem sequer respondeu à carta do então presidente iraniano, o que acabou por envenenar ainda mais as relações.
Obama, por seu lado, deixou que Rohani multiplicasse as provas de abertura da república islâmica ao mundo e o telefonema histórico que atendeu deixa pensar que uma real aproximação é possível entre Teerão e o Ocidente.
O Prémio Nobel da Paz 2009, que muitos julgavam demasiado enleado na política doméstica, começa finalmente a mostrar a nível internacional que mereceu o galardão que a Academia Sueca lhe atribuiu em 2009.
Obama deu mostras de ser diferente de Bush também numa outra questão internacional recente: a questão da Síria. Obama não se deixou influenciar pela opinião pública mundial nem pelo lobby do sector do armamento americano, que o instigavam a atacar Damasco, para « punir » e destituir o presidente sírio por este ter alegadamente ordenado um ataque a civis com armas químicas.
Obama esperou pelas conversações a nível internacional, tentou a via diplomática e inspectores da ONU passaram pela Síria, o que levou o Conselho de Segurança das Nações Unidas a decidir, esta semana, acabar com todas as armas químicas naquele país.
A resolução da ONU, assinada em conjunto por Rússia e EUA, dita o fim das armas químicas, sem culpar o regime de Al-Assad nem as facções radicais islâmicas, que tinham interesse na entrada de tropas estrangeiras no país que destituissem Al-Assad, como aconteceu com Saddam Hussein no Iraque.
Para quem se dizia há tempos desiludido com Obama, considere apenas isto : tivesse sido o seu opositor republicano a vencer as eleições em 2008 e hoje os EUA, e o mundo (ou uma boa parte dele), estariam em guerra com o Irão e a Síria. E sabe-se lá com que possíveis alastramentos naquela zona do globo.
Claro que é conjectura, mas é baseada em oito anos de « bushismo » e tudo deixa pensar que John McCain, veterano do Vietname, à semelhança de « W », iria seguir a mesma política ou mesmo agudizá-la.
A guerra civil síria, que dura há dois anos, parece ter finalmente um fim à vista, se a comunidade internacional conseguir fazer pressão sobre o regime de Al-Assad e se os EUA e Rússia se mantiverem do mesmo lado do prato da balança, sob a égide da ONU.
Finalmente, o grande perdedor nisto tudo foi o presidente francês François Hollande, que estava decidido a ser visto como um grande líder nesta questão, se mostrou logo muito decidido a fazer justiça na Síria - ao lado dos americanos, ele que tanto criticava Sarkozy por assim agir na cena internacional.
José Luís Correia
(artigo publicado no site www.wort.lu/PT)
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quarta-feira, 2 de outubro de 2013
Os políticos são gente honesta
A afirmação do título pode parecer provocação ou piada, mas não é. É uma realidade. Onde? No Luxemburgo, em Portugal? Sim, em Portugal também.
Vem isto a propósito das eleições autárquicas de domingo em Portugal e da passagem recente pelo Luxemburgo do vice-presidente da associação cívica Transparência e Integridade, Paulo de Morais, que veio falar da corrupção na classe política em Portugal (ver a nossa edição da semana passada).
Portugal foi a votos, o mapa virou cor-de-rosa, mas "continua a dança das cadeiras", diz o povo, porque já não acredita que algo possa mudar enquanto uma parte da classe política for corrupta e quiser chegar ao poder apenas para cuidar do seu próprio interesse e do dos grupos económicos que serve.
Mais do que um cliché, esta é uma realidade atroz que levou o nosso país a chegar à situação impensável a que chegou, sem que esses mesmos políticos corruptos fossem condenados ou sequer responsabilizados pelo que fizeram nos últimos 40 anos à nossa frágil democracia.
Em vez disso, culparam a população por viver acima das suas possibilidades e empurram os jovens para o estrangeiro, precisamente aqueles que podiam mudar alguma coisa. Como os que estão no poder há 40 anos não querem que nada mude (apenas permitem que a cor política mude), esvaziaram o país da sua energia vital para poderem continuar a "trabalhar".
Exagero? Então considerem isto: como é que um país como o Luxemburgo, com recursos ínfimos, se comparados com Portugal, fez para ser hoje um dos países como um dos maiores PIB per capita por mundo?
A resposta não é só uma, mas a forma como se faz e pensa a política no Grão-Ducado é com certeza uma das mais determinantes. Há quem pense que o Luxemburgo tem uma política de algibeira, que não segue as grandes ideologias políticas, um país em que há consenso nacional entre todos os partidos no poder e que o resto "é para luxemburguês ver".
O que eu noto no Luxemburgo é que a política serve o país e não o contrário. Outra das diferenças entre o Luxemburgo e Portugal está na base da pirâmide política, o sistema eleitoral. No Grão-Ducado, os eleitores votam em pessoas e não em listas. Ou seja, é eleito o candidato com mais votos e não aquele, mais os seus boys , que o partido vencedor escolhe.
No Luxemburgo também há casos de corrupção e de conflitos de interesse na política, mas são mais raros. Porque os políticos luxemburgueses são mais honestos do que os portugueses? Não, simplesmente porque aqui temem as consequências.
Em Portugal, os políticos corruptos sabem de antemão que não têm nada a temer, porque nos simulacros de julgamentos a que se assiste, quando os há, a culpa morre sempre solteira. Ou quase sempre.
No meio de tanta corrupção, há um único político corrupto preso em Portugal, Isaltino Morais. Dramático é o facto de Isaltino, mesmo atrás das grades, ter ganho as eleições (ganhou o candidato ligado a Isaltino em Oeiras). É caso para nos perguntarmos como é que políticos como este – a que podemos juntar Alberto João Jardim, Valentim Loureiro e outros que tais – gozam de tanta popularidade junto dos eleitores? É como se os valores tivessem sido invertidos.
É dramático porque generaliza a ideia de que no nosso país só se consegue alguma coisa aldrabando, enganando, roubando, corrompendo. Longos anos de corrupção política não provocaram apenas a quase bancarrota económica do país, perverteram os valores.
Razão tinha Natália Correia quando disse: "Há a cultura, a fé, o amor, a solidariedade. Que será, porém, de Portugal quando deixar de ter dirigentes que acreditem nestes valores?".
No Luxemburgo, são raros os processos em tribunal contra políticos, ou por corrupção ou para apurar responsabilidades. Houve dois ou três nas últimas três décadas, mas com condenação dos envolvidos. Quando os casos não vão a tribunal funciona a censura pública e a sanção na hora do voto, que afastam da vida política os envolvidos.
Como, por exemplo, o burgomestre da capital, que foi sancionado pelo eleitorado nas últimas eleições comunais e teve que ceder o lugar a Xavier Bettel. Terá sido porque os moradores da capital diziam que favorecia amigos e empresas? Num outro caso, um deputado independente foi condenado por apresentar facturas falsas de viagens e desapareceu da vida política. Houve ainda um ministro da Saúde que se demitiu por "disfuncionamentos" no seu ministério e não voltou a concorrer pelo partido. Um outro ministro, da Economia, trocou a política pela "prática de vela". Terá sido por ter zelado mais pelos interesses económicos do Qatar do que os luxemburgueses? E o próprio primeiro-ministro não está imune a suspeitas. As irregularidades ocorridas nos serviços secretos foram consideradas responsabilidade sua, o que levou à queda do Governo.
Em Portugal, muitos deputados e membros dos sucessivos governos têm abertamente interesses nas empresas que favorecem com as políticas que praticam e com as leis que aprovam e continuam impunemente a fazer negócios à custa dos contribuintes e do país.
São vários os livros publicados nos últimos meses, de jornalistas e outros especialistas, que denunciam a corrupção em São Bento, como o de Paulo de Morais, que chama sem pudor "central de negócios" ao Parlamento português. Não é por acaso que estas obras são sucessos de vendas. A população sabe quem são os culpados da crise em Portugal, mas talvez não imaginasse a real dimensão da calamidade.
As eleições autárquicas de domingo são como as anteriores e as próximas, nada mudarão enquanto os políticos corruptos continuarem impunes. O que é preciso fazer para que isto mude? Quais são os exemplos à nossa volta? Os brasileiros apedrejaram o Parlamento, os gregos e os espanhóis não se cansam de se manifestar contra a austeridade, os italianos vão acabar com a imunidade de certos cargos políticos. Ou então, há sempre o exemplo do pacato Luxemburgo.
Em Portugal, emigramos. Pensamos que não podemos lutar contra as elites e deixamos o país entregue à "bicharada". A primeira coisa a mudar é essa mentalidade de que não se pode fazer nada, "eles é que mandam". Não são nada eles que mandam, somos nós que mandamos, nós os eleitores, que os elegemos. Nós, os emigrantes, podemos votar nas autárquicas portuguesas, mas apenas se continuarmos recenseados em Portugal. Mas nós, que vivemos fora do país, sabemos que existem governos que funcionam, mais ou menos honestamente, nos quais a corrupção é residual, e que as riquezas são de facto redistribuídas de forma mais ou menos equitativa. É esse o exemplo, essa a esperança, que nos compete transmitir do lado de cá.
José Luís Correia
in Jornal CONTACTO, 02/10/2013
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Retratos do alter-ego de um fotógrafo em torno de uma galeria de vamps e "femmes fatales"
Paulo Lobo, fotógrafo português residente no Luxemburgo, vestiu a pele de Edouard Allen e convidou no sábado os fãs da fotografia e do cinema para um vernissage que teve lugar no Café Ancien Cinema, em Vianden. Muitos foram os que responderam ao convite para assistir em directo e ao vivo à mutação do Lobo em Allen na exposição a que deu (deram?) o nome de "Viagem tragi-cómica através da filmografia fictícia de um ex-cinéfilo".
"O espaço não podia ter sido outro", garantiu Paulo Lobo ao CONTACTO, sobre o espaço que acolhe a mostra, o antigo cinema de Vianden, hoje um café que recebe exposições, concertos, e outros eventos culturais.
"Ele hoje não pode cá estar, mas eu sei que quando o Edouard Allen lançou o seu projecto, este foi o primeiro lugar em que pensou para o apresentar", diz Paulo Lobo com convicção e sem sinal de "esquizofrenia" aparente.
O antigo cinema voltou a acolher vedetas glamour, mas desta vez não são actrizes de Hollywood, mas as egérias do alter-ego de Paulo Lobo. "Cada fotografia retrata uma personalidade, uma história, um estado de espírito, fruto de várias sessões de fotografias efectuadas ao longo de dois anos", explica Paulo Lobo.
"O Paulo Lobo sempre sonhou ser realizador de cinema e cinéfilo, e isso é algo que está recalcado nele. Eu nasci para exteriorizar esse sentimento", confia-nos por seu lado Edouard Allen.
Neste novo projecto, Paulo juntou os seus dois amores: a fotografia e o cinema. "Sempre fui um amante do cinema, dos clássicos de Hollywood, e os grandes filmes franceses sempre me acompanharam desde criança. Por isso mesmo decidi convidar algumas modelos que, no meu ponto de vista, tinham um certo ar de actrizes desse tempo e que podiam vestir a pele das grandes musas do cinema dos anos 60", confia o fotógrafo ao CONTACTO.
Durante a vernissage foi ainda apresentado a curta-metragem "Mystery girls", do realizador português Nelson Coelho. O filme põe em cena Edouard Allen com as suas musas, as suas modelos, as suas fotografias, e a câmara indiscreta revela os bastidores das sessões fotográficas, erra atrás das personagens, mostra a metamorfose de Paulo em Edouard.
"A minha ideia inicial era filmar eu mesmo os shootings fotográficos, mas devido a vários contratempos não consegui fazê-lo. Já tinha desistido da ideia quando conheci o Nelson e o convidei para participar neste projecto", conta Paulo, que considera o resultado "excelente".
Nelson Coelho, de 28 anos, reside no Luxemburgo há três e diz-se amante da sétima arte desde os dez, altura em que começou a acompanhar o primo na aventura das filmagens. Para Nelson, o convite de Paulo foi muito bom.
"Trabalhar com o Paulo vai ajudar-me a dar a conhecer o meu trabalho e a travar conhecimentos no Luxemburgo", confia o realizador, que garante ter levado a cabo este projecto como muito prazer, embora o seu trabalho – filmar casamentos – continue a ter a sua preferência. As obras do realizador podem ser vistas no seu portal na internet em www.nelsoncoelhofilms.com (e-mail: info@nelsoncoelhofilms.com).
Paulo Lobo aproveitou ainda a vernissage para apresentar o seu mais recente blogue "The Edouard Allen Project". A noite terminou com a actuação da cantora de jazz Sascha Ley, acompanhada pelo contrabaixo do francês Laurent Payfert.
Aleida Vieira/José Luís Correia
in Jornal CONTACTO, 02/10/2013
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sábado, 14 de setembro de 2013
Tecidos de mil cores e padrões quatro vezes por ano no Kirchberg
| Foto: José Luís Correia |
Numa área de 5 mil metros quadrados, a Luxexpo acolhe cerca de uma centena de expositores e stands de vendedores vindos da Holanda, Alemanha, Bélgica e França, que oferecem uma grande variedade de tecidos aos melhores preços.
"Cashemira a 40 euros o metro, 'Madame'", anuncia um vendedor, alemão, a adivinhar pela pronúncia. "No comércio custa mais de 100", avisa. A cliente, belga, deixa-se tentar.
O passeio pelo mercado é um mergulho num universo de mil cores e padrões garridos, são sedas, cetins, tafetás, organzas, tules, brocados, e até ganga a metro.
Aproximamo-nos das bancas e deixamo-nos envolver pelo bom cheiro a lã virgem, a linho, algodão, malha. Há stands onde essa experiência é mais "perigosa": mulheres de todas as idades acotovelam-se e perdem a paciência porque já esperam há demasiado tempo pela sua vez. "A bicha é aqui!", zanga-se uma cliente, em luxemburguês. Os vendedores não têm mãos a medir.
"É espantoso", confia-nos um vendedor holandês, da empresa TST. "Faço 440 km para vir a este mercado, mas vale a pena. Nunca pensei que logo depois das férias vendéssemos tanto. O dia está a correr muito bem."
"Antes, o mercado vinha só três vezes ao Luxemburgo, mas os clientes são tantos que já temos uma quarta data", diz satisfeito. E logo a atenção lhe é exigida por uma cliente portuguesa que pergunta pela origem de um tecido. "É pura lã virgem, da Itália, da melhor qualidade, 24 euros o metro." A cliente manda cortar um metro e meio e confia-nos que é costureira na reforma.
"Nesta feira, a qualidade dos tecidos é muito boa e os preços baixos, em relação aos praticados no comércio. "O 'polar' está a 3,95 euros o metro, já viu, são preços muito bons", diz por seu lado uma cliente francesa.
| Foto: José Luís Correia |
Há tecidos de todos os tipos e para tudo o que se quiser, para interiores, decoração, vestuário, desde cortinados, colchas, toalhas, pijamas, lençóis, saias, blusas, casacos, fatos, calças, vestidos de cocktail e de noiva e até pele para fazer malas de mão.
Há pessoas a comprar para costurar em casa e há costureiras a comprar para as encomendas das clientes.
Há igualmente stands com tudo o necessário para a costura: botões, fitas, fechos "éclair", elásticos, linhas, agulhas, tesouras, fitas, máquinas de costura, acessórios.
Este mercado, que faz a ronda pelos Países Baixos (Maastricht, Gouda, Eindhoven, Roterdão, etc.) França (Mulhouse, Reims, Nancy), Bélgica (Mons, Namur, Louvain, Antuérpia, Gand, Brugges) e Luxemburgo, é uma organização da holandesa "Stoffen Spektakel".
O Mercado dos Tecidos regressa ao Luxemburgo a 16 de Novembro. A entrada é gratuita. O estacionamento no recinto da Luxexpo custa 3 euros. No P&R ao lado é gratuito.
Texto e fotos: José Luís Correia
(Mais fotos em www.wort.lu/pt), site onde este artigo foi originalmente publicado)
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sábado, 29 de junho de 2013
Bailado de Moa Nunes dá corpo e movimento às palavras
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| Foto: Gerry Huberty/Luxemburger Wort |
O bailado, que estreou ontem na Abadia de Neumünster, no Grund, contou com sala cheia. Esta noite há novo espectáculo e ainda há bilhetes.
O bailado é composto por duas dezenas de quadros, cada um transmitindo uma emoção, uma história, uma palavra, num todo plasmado na dança.
São sete os bailarinos em palco, seis mulheres e um homem. São ninfas, são "Petrussides", do rio que ali corre ao lado (Pétrusse)? Não! Os sete são um todo, como vogais e consoantes dos verbos que dançam. Os movimentos são palavras, são ondas, círculos, os olhares seduzem-se, as mãos tocam-se. É dança. É poesia.
Há momentos envolventes, sossegados, cativantes, outros alegres, barulhentos, saltitantes. As palavras em palco não são apenas as do título. O bailado também fala, sobe o tom, acalma-se, fica poético, vira, joga, sobressalta, os bailarinos gritam, ora acabam a discutir, ora a brincar uns com os outros. O espectador deixa-se levar, as canções tranquilas deixam-no introspecto, outras sacodem-no, o mundo gira ao ritmo dos gestos e dos passos dos bailarinos.
As palavras estão também presentes no lindíssimo poema "Self Love Poem", de Charlie Chaplin, dito por Christel Schockmel, entre dois quadros e que fala de autenticidade, respeito, maturidade, auto-confiança, simplicidade, valores pelos quais Moa se quis reger neste bailado.
Num momento o público tem de se conter para não dançar ao som da percussão afro-brasileira de Nyllo Canela e Xuxa Badou. Os bailarinos, esses, parecem possessos. Há também uma dança melancólica com dois véus vermelhos suspensos (do céu?). Ela dança com as nuvens? Num outro quadro, o bailarino dança sozinho em palco com cadeiras (acessório emprestado ao cabaret?), mas o grupo acompanha-o em diferido, em imagens filmadas como pano de fundo.
Todas estas novas linguagens e plasticidades da dança não são para despistar ou confundir o espectador, são para inovar, transmitir novas emoções, outras direcções e inspirações, dar corpo a novas palavras. As palavras estão também presentes nas canções escolhidas para acompanhar os bailarinos. Não são muito habituais para um bailado, onde a música instrumental é a banda sonora mais corrente, mas são prodigiosas, pela sua força e beleza. Com a plástica desenhada pela dança ficam ainda mais sublimadas e emocionam até o espectador mais desatento.
Os géneros fazem-nos viajar da música clássica ao pop, passando pelo jazz, a bossa nova, a música popular brasileira, o samba e até o forró. O leque é impressionante pela sua diversidade e vai desde Keith Jarret ("Köln January 24, 1974") a Elis Regina ("O que tinha de ser", de Tom Jobim), Caetano Veloso ("Sozinho"), Maria Bethânia ("Poema dos Olhos da Amada", lido por Jeanne Moreau, canção de Vinicius de Morais), Mónica Salmaso ("Mortal Loucura", de José Miguel Wisnik/Gregório de Matos Guerra), Tom Zé ("Xiquexique"), Jacques Brel ("Voir un ami pleurer") e I Muvrini, cantando em córsega ("L’emigrante"), até músicas de uma tradição mais clássica como as do anglo-germânico Max Richter ("Sarajevo"), do jovem polaco Abel Korzeniowski ("Stillness of the Mind"), do sino-americano Yo-Yo Ma ("Suite for solo cello"), do italiano Ludovico Einaudi ("Due Tramonti") ou do francês René Aubry ("Steppe").
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| Foto: Gerry Huberty/Luxemburger Wort |
"A palavra é uma ferramenta poderosa"
Este é o terceiro bailado que Moa Nunes compõe e apresenta no Luxemburgo, depois de "Meus Caminhos", em 2010, e "Um Olhar a Dois", em 2011.
"No primeiro [bailado] falei da minha vida, no segundo do Amor, neste é sobre a linguagem que é uma das ferramentas mais poderosas que temos. Mas não é só sobre as palavras, é sobre a palavra do corpo, do olhar, da poesia, a palavra que utilizamos diariamente, a palavra de conforto e de alegria, a palavra da brincadeira", explica Moa.
Sobre a mistura de géneros, musicalidades e plasticidades do bailado, Moa não admite logo, mas adora quebrar os códigos da dança contemporânea.
"Eu trabalho a música contemporânea com o moderno, o neoclássico, o jazz. Não me prendo numa só modalidade, porque venho dessa tradição, na linha de escolas como Martha Graham e Lehman" (n.d.R. escolas de dança americanas muito conceituadas).
"Trabalho para um público europeu e por isso quis incluir todos estes géneros musicais. Quero que entendam a minha história". "Num dos quadros, eu quis mostrar trabalhadores que saem da roça. Vêm sujos e preparam-se para tomar banho. Mas aí pintou a música e o brasileiro é assim mesmo, tem que dançar", explica Moa Nunes, evocando um dos quadros mais divertidos do bailado.
"É talvez difícil que o público entenda cada quadro exactamente, mas a mensagem, a energia, a poesia e a emoção que eu queria transmitir, acho que consegui passar".
Moa Nunes e os sete bailarinos
Quisemos também falar com alguns dos bailarinos, que têm as mais diversas origens e nacionalidades: há uma portuguesa, uma brasileira, três belgas, uma luxemburguesa e um italiano.
A brasileira Grazi Furtado, que já trabalhou com Moa Nunes noutros bailados, explica onde nasce a energia que o grupo demonstra em palco. "É muito importante passar a emoção que temos em palco para o público. Essa emoção vem do Moa, mas como grupo essa energia vem de todos, e acabamos por conseguir transformá-la em algo muito belo e passer isso para o público através da dança".
A portuguesa Guida Maurício mora em Bruxelas e foi aí que Grazi lhe apresentou o coreógrafo. Guida concorda, "a dança é uma linguagem universal, as músicas falam muito e transmitem muito do que ele quis fazer passar".
"Conheço bem o Moa, a sua maneira de fazer, de pensar, de exprimir as coisas pela dança e isso ajudou-me a transmitir ao público o que ele queria. Dançar música contemporânea sobre canções brasileiras é muito envolvente e enérgico", diz por seu lado a belga Cathy Crols, que trabalhou com o coreógrafo em todos os seus bailados e o conhece desde quando este era seu professor de dança.
Também Govanni Zazzera, italiano residente no Luxemburgo e único homem do grupo de bailarinos, trabalhou com Moa em todos os seus espectáculos. "Somos todos de origens diferentes mas, na dança, não é preciso compreender as palavras, isso exprime-se pelos gestos, pelos movimentos e até pelo olhar. O que eu gosto no facto de trabalhar com Moa, é que ele se adapta aos bailarinos e procura as nossas qualidades e competências para saber como nos encaixar no que quer fazer. Dançar ao som de música brasileira é um mimo, pode ser muito enérgico e cativante, e depois muito poético e suave".
Christelle Renard também é belga, gere a companhia de dança Zoïa, e é a primeira vez que trabalha com Moa. "Este espectáculo fala da dificuldade de nos exprimirmos e isso é comum a todos nós. Por isso, penso que o público gostou e entendeu a mensagem".
"O Moa sabe muito bem dirigir os bailarinos, os movimentos são dele, a composição é dele, ele explica-nos exactamente o que espera de nós e o que o público tem de reconhecer na nossa dança, mas deixa que a nossa personalidade sobressaia também. Esta mistura entre música brasileira e dança contemporânea, com influências jazz, é mesmo muito gira. Muitas vezes, a dança contemporânea fica no cliché, é demasiado conceptual, por vezes já nem sequer há dança. Este tipo de bailado e o estilo do Moa Nunes podem reconciliar o público e a dança contemporânea".
Uma das bailarinas mais novas, Noelle Gerin, é luxemburguesa, mas também já trabalha há três anos com o coreógrafo. "Todos os espectáculos são muito pessoais, descobrimos mais sobre o Moa através de cada novo bailado. Nós, depois, é que tentamos contar ao público o que ele nos transmite".
"Uma das suas grandes qualidades é que vê a nossa personalidade e utiliza isso no espectáculo para nos valorizar. Ele não olha apenas o bailarino, mas interessa-se pela pessoa que somos. Faz-nos escutar a música, muitas vezes brasileira, depois faz a tradução da canção e explica-nos o que quer transmitir através da dança que compôs para essa música. Pode ser melancolia ou alegria, mas pede-nos acima de tudo para sermos sinceros na dança. Adoro trabalhar com ele". Esta paixão no olhar e nas palavras, quando falam de Moa, sentimo-la em cada bailarino com quem falámos.
E o público de ontem à noite, a julgar pela efusiva e barulhenta standing ovation no final, também. O próximo bailado deste coreógrafo brasileiro que mora no Luxemburgo desde 1997 (com um intervalo entre 2002 e 2009) chama-se "L’Autre Côté", revelou-nos ainda Moa Nunes, e deverá estrear em Outubro ou Novembro de 2014. Para o espectáculo de logo à noite ainda há bilhetes.
Mais informações pelo tel. 691 204 999. Bilhetes : 29 euros (palavras.tickets@hotmail.com) ou no site do CCRN-Abbaye de Neumünster (www.ccrn.lu).
José Luís Correia
(Mais fotos em www.wort.lu/pt, site onde este artigo foi originalmente publicado)
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quarta-feira, 12 de junho de 2013
O CONTACTO no Castelo de Berg com os Grão-Duques Henri e Maria Teresa e os Grão-Duques herdeiros Guillaume e Stéphanie
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| Fotos: Corte Grã-Ducal/Charles Caratini |
| Os Grão-Duques herdeiros, Guillaume e Stéphanie |
| O Grão-Duque Henri, Claude Feyereisen (Luxemburger Wort), José Luís Correia (Contacto) e Marc Thill (LW) |
| O Grão-Duque Henri, Claude Feyereisen (LW), José Luís Correia (Contacto) e Marc Thill (LW) |
| Claude Feyereisen (LW), José Luís Correia (Contacto), Marc Thill (LW), Paul Meyers (LW) |
| O Grão-Duque Henri,Claude Feyereisen (LW), José Luís Correia (Contacto), Marc Thill, Raphael Zwank e Paul Meyers (LW) |
O jornal CONTACTO fez-se representar pelo chefe de Redacção, José Luís Correia, e pelos jornalistas Paula Telo Alves e Domingos Martins. Numa manhã ensolarada, a família grã-ducal convidou jornalistas de vários meios de comunicação social do Luxemburgo, na sua já habitual Recepção à Imprensa, que acontece uma ou duas vezes por década.
O CONTACTO não quis deixar de estar presente nesta recepção. Durante a recepção, a grã-duquesa Maria Teresa aproximou-se dos jornalistas portugueses presentes e quebrou o gelo dizendo também ser "uma latina". Em amena cavaqueira, disse aos jornalistas do CONTACTO que apreciou muito o filme "O Cônsul de Bordéus", que viu durante a inauguração da Quinzena de Cinema Português, na semana passada, onde esteve presente com o marido, o grão-duque.
Maria Teresa contou aos jornalistas que o realizador João Corrêa lhe ofereceu o filme em DVD para ver com o sogro, o grão-duque Jean, uma das pessoas a quem o então cônsul de Portugal em Bordéus, Aristides de Sousa Mendes, passou um visto, permitindo-lhe chegar a Lisboa para escapar ao regime nazi.
O grão-duque Henri também disse ter apreciado muito o filme e falou das relações que a sua família ainda mantém com a família Espírito Santo, que acolheu o pai, o grão-duque Jean, e a avó, a grã-duquesa Charlotte, em Cascais, quando chegaram a Portugal como refugiados, graças ao visto de Sousa Mendes. Mas o Grão-Duque ainda tinha uma grande revelação a fazer: "Esta casa foi construída por uma portuguesa, sabiam?", revelou o grão-duque aos jornalistas do CONTACTO, explicando que o Castelo de Berg foi construído pela sua bisavó, Mariana de Bragança (filha do rei D. Miguel de Portugal), casada com o então grão-duque do Luxemburgo, Guillaume IV. O castelo de Berg, residência oficial dos soberanos do Grão-Ducado, foi mandado construir pelos então soberanos entre 1906 e 1911, e é uma obra do arquitecto alemão Max Ostenrieder e do arquitecto luxemburguês Pierre Funck-Eydt. O grão-duque herdeiro Guillaume comentou, por seu lado, que o castelo tem "um aspecto muito alemão", o que se explica não só pela origem dos arquitectos, mas pelo facto de a sua tetravó, Mariana de Bragança, ter ascendência não só lusa, como alemã.
JLC
in CONTACTO, 12/06/2013
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quarta-feira, 5 de junho de 2013
(in)Tolerante
Vivemos tempos de tolerância, vivemos tempos de intolerância. Humanidade esquizofrénica. Parece que cada vez que damos um passo no sentido de nos sentirmos cada vez mais como uma só raça, a humana, mais certas franjas desse corpo se arrepiam e se retraem sobre si mesmas.
Vem isto a propósito de vários momentos que me marcaram nos últimos dias e semanas.
Primeiro, o julgamento de um grupo de jovens cabo-verdianos na semana passada, acusados de atacarem e roubarem um passageiro num comboio em 2011, na linha Luxemburgo-Rodange. Ao juiz, a vítima disse que os jovens tinham intenções de o assaltar assim que entraram na carruagem. Os jovens testemunharam que o homem os expulsou da carruagem de primeira classe e que isso desencadeou os insultos e a agressão. Quem provocou quem e porquê? E isso justifica uma tal violência?
Enquanto isto decorria, a primeira-ministra do Ontario, Kathleen Wynne, assinalava os 60 anos da imigração portuguesa no Canadá, considerando "vital" o reconhecimento dos imigrantes "que adicionaram a sua distinção ao nosso tecido multicultural”. A ministra recomendava ainda que a comunidade portuguesa do Ontário perpetuasse a sua identidade e costumes.
"A nossa província é a soma total das suas diversas comunidades, os canadianos portugueses podem ter um grande orgulho em saber que ajudaram a moldar a nossa identidade colectiva e única”, disse a ministra canadiana.
A palavra-chave aqui é reconhecimento e não identidade.
Estivesse o Canadá ainda ligado à França e talvez o discurso fosse outro. Sem se aperceberam da sua arrogância, os franceses continuam a vangloriar-se de ser uma "excepção cultural" e a elogiar a assimilação cultural dos filhos dos imigrantes, considerando exemplar só esse tipo de integração. Por isso a segunda e terceira geração de portugueses em França é culturalmente invisível.
O país da igualdade e da fraternidade parece cada vez menos igualitário e fraterno. A violência dos protestos da extrema-direita e dos anti-casamento gay na semana passada em Paris, nos Champs-de-Mars (campos de Marte, Deus da Guerra! – por vezes, a História escolhe bem os seus teatros), provocaram-me arrepios. Seja-se a favor ou contra a lei do casamento para todos, isso justifica uma tal violência?
Sopram ventos xenófobos não só contrários aos estrangeiros mas a tudo o que é diferente, os extremismos e as intolerâncias exacerbam-se e muitos grupos e populações retraem-se, bacocos e primários, sobre si ou, pior, degeneram na violência.
Na Suécia, a morte "acidental" há duas semanas de um português pela polícia – que recebeu os agentes com um machado, quando estes bateram à porta de sua casa, onde o imigrante se tinha fechado com a companheira – provocou a fúria dos jovens do bairro, onde moram muitos estrangeiros, que atacaram a polícia e incendiaram carros. Em resposta, grupos de extrema-direita manifestaram-se contra os manifestantes e tiveram confrontos também com a polícia. A vaga de violência provocou um debate no país sobre a integração dos imigrantes, que representam 15 % da população (muito longe dos 46 % do Luxemburgo).
Não é o primeiro incidente deste tipo na habitualmente tranquila Suécia. Distúrbios semelhantes ocorreram em 2010 e 2008 naquele país, após o encerramento de um centro cultural islâmico. A reacção do Reino Unido e dos EUA aos distúrbios na Suécia foi desaconselharem os seus cidadãos a viajar para as zonas de conflito. Como se as ruas de Londres não tivessem sido dois dias antes palco de um degolamento em plena luz do dia de um soldado britânico por dois nigerianos jihadistas.
E que dizer dos EUA, onde menores desatam semana sim, semana não, aos tiros nas escolas, e o terrorismo "doméstico" faz mais de 9 mil mortos por ano, só com armas de fogo? Para fazer baixar estas estatísticas, Obama tentou fazer passar uma lei que obrigasse os vendedores de armas a verificar os antecedentes criminais dos compradores. Por escassos seis votos, a lei foi rejeitada no Senado, no que foi considerado por Obama como "um dia de vergonha para Washington".
Nem um Prémio Nobel da Paz consegue salvar uma nação-suicida. O poderoso lóbi norte-americano das armas argumentou que a lei "feria" a segunda emenda da constituição, que autoriza qualquer cidadão a ter uma arma, mas esquecem-se que data de uma remota época em que pistoleiros faziam a lei em povoações sem policiamento. Salve-se então a segunda emenda, mesmo que isso mate crianças inocentes e o país.
O nosso pacato e pequeno Grão-Ducado tem muitos defeitos e também destas intolerâncias internas. Mas gosto de pensar que são erupções cutâneas isoladas, de elementos enfermos da sociedade, e que nunca se converterão em movimentos de massa como em França ou na Suécia.
Ou será que essa violência está apenas latente, por eclodir? Ele há indícios que nos preocupam. Por enquanto, a paz social e a tolerância vão sendo alimentadas pela prosperidade e estabilidade do país. Mas se um dia esse frágil equilíbrio for rompido, a nossa sociedade continuará tão tolerante como diz ser?
José Luís Correia
in Jornal Contacto, 05/06/2013
Vem isto a propósito de vários momentos que me marcaram nos últimos dias e semanas.
Primeiro, o julgamento de um grupo de jovens cabo-verdianos na semana passada, acusados de atacarem e roubarem um passageiro num comboio em 2011, na linha Luxemburgo-Rodange. Ao juiz, a vítima disse que os jovens tinham intenções de o assaltar assim que entraram na carruagem. Os jovens testemunharam que o homem os expulsou da carruagem de primeira classe e que isso desencadeou os insultos e a agressão. Quem provocou quem e porquê? E isso justifica uma tal violência?
Enquanto isto decorria, a primeira-ministra do Ontario, Kathleen Wynne, assinalava os 60 anos da imigração portuguesa no Canadá, considerando "vital" o reconhecimento dos imigrantes "que adicionaram a sua distinção ao nosso tecido multicultural”. A ministra recomendava ainda que a comunidade portuguesa do Ontário perpetuasse a sua identidade e costumes.
"A nossa província é a soma total das suas diversas comunidades, os canadianos portugueses podem ter um grande orgulho em saber que ajudaram a moldar a nossa identidade colectiva e única”, disse a ministra canadiana.
A palavra-chave aqui é reconhecimento e não identidade.
Estivesse o Canadá ainda ligado à França e talvez o discurso fosse outro. Sem se aperceberam da sua arrogância, os franceses continuam a vangloriar-se de ser uma "excepção cultural" e a elogiar a assimilação cultural dos filhos dos imigrantes, considerando exemplar só esse tipo de integração. Por isso a segunda e terceira geração de portugueses em França é culturalmente invisível.
O país da igualdade e da fraternidade parece cada vez menos igualitário e fraterno. A violência dos protestos da extrema-direita e dos anti-casamento gay na semana passada em Paris, nos Champs-de-Mars (campos de Marte, Deus da Guerra! – por vezes, a História escolhe bem os seus teatros), provocaram-me arrepios. Seja-se a favor ou contra a lei do casamento para todos, isso justifica uma tal violência?
Sopram ventos xenófobos não só contrários aos estrangeiros mas a tudo o que é diferente, os extremismos e as intolerâncias exacerbam-se e muitos grupos e populações retraem-se, bacocos e primários, sobre si ou, pior, degeneram na violência.
Na Suécia, a morte "acidental" há duas semanas de um português pela polícia – que recebeu os agentes com um machado, quando estes bateram à porta de sua casa, onde o imigrante se tinha fechado com a companheira – provocou a fúria dos jovens do bairro, onde moram muitos estrangeiros, que atacaram a polícia e incendiaram carros. Em resposta, grupos de extrema-direita manifestaram-se contra os manifestantes e tiveram confrontos também com a polícia. A vaga de violência provocou um debate no país sobre a integração dos imigrantes, que representam 15 % da população (muito longe dos 46 % do Luxemburgo).
Não é o primeiro incidente deste tipo na habitualmente tranquila Suécia. Distúrbios semelhantes ocorreram em 2010 e 2008 naquele país, após o encerramento de um centro cultural islâmico. A reacção do Reino Unido e dos EUA aos distúrbios na Suécia foi desaconselharem os seus cidadãos a viajar para as zonas de conflito. Como se as ruas de Londres não tivessem sido dois dias antes palco de um degolamento em plena luz do dia de um soldado britânico por dois nigerianos jihadistas.
E que dizer dos EUA, onde menores desatam semana sim, semana não, aos tiros nas escolas, e o terrorismo "doméstico" faz mais de 9 mil mortos por ano, só com armas de fogo? Para fazer baixar estas estatísticas, Obama tentou fazer passar uma lei que obrigasse os vendedores de armas a verificar os antecedentes criminais dos compradores. Por escassos seis votos, a lei foi rejeitada no Senado, no que foi considerado por Obama como "um dia de vergonha para Washington".
Nem um Prémio Nobel da Paz consegue salvar uma nação-suicida. O poderoso lóbi norte-americano das armas argumentou que a lei "feria" a segunda emenda da constituição, que autoriza qualquer cidadão a ter uma arma, mas esquecem-se que data de uma remota época em que pistoleiros faziam a lei em povoações sem policiamento. Salve-se então a segunda emenda, mesmo que isso mate crianças inocentes e o país.
O nosso pacato e pequeno Grão-Ducado tem muitos defeitos e também destas intolerâncias internas. Mas gosto de pensar que são erupções cutâneas isoladas, de elementos enfermos da sociedade, e que nunca se converterão em movimentos de massa como em França ou na Suécia.
Ou será que essa violência está apenas latente, por eclodir? Ele há indícios que nos preocupam. Por enquanto, a paz social e a tolerância vão sendo alimentadas pela prosperidade e estabilidade do país. Mas se um dia esse frágil equilíbrio for rompido, a nossa sociedade continuará tão tolerante como diz ser?
José Luís Correia
in Jornal Contacto, 05/06/2013
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terça-feira, 4 de junho de 2013
Novo bailado de brasileiro Moa Nunes na Abadia de Neumünster, sexta e sábado
A nova coreografia do brasileiro Moa Nunes sobe ao palco da sala Robert Krieps da Abadia de Neumünster (no Grund), na capital, esta sexta-feira e sábado (28 e 29 de Junho), pelas 20h.
Intitulado "Palavras e Palavras", este espectáculo "nasceu do desejo de explorar a linguagem e a necessidade humana de ser ouvido", segundo Moa Nunes.
"As palavras são geralmente consideradas como aquelas que são faladas ou escritas", diz o coreógrafo. Mas para Moa Nunes, coreógrafo brasileiro residente no Luxemburgo há 16 anos, as palavras são muito mais do que isso. "As palavras são preciosas: podem curar, podem magoar, podem ser verdadeiras e dóceis, podem mentir, podem ser destrutivas e traiçoeiras, podem ser vazias, mas também inspiradoras. Elas criam mundos e mudam a realidade", diz Moa Nunes.
Nesta obra, o coreógrafo brasileiro vai além das palavras e permite que a linguagem do corpo fale. Depois das obras "Um olhar a dois" e "Meus caminhos", Moa explora neste novo opus o poder das mesmas e como são utilizadas para construir ideias, emoções e memórias, e para contar uma história.
As reservas para ver este espectáculo devem ser feitas pelo tel. 691 204 999.
Mais informações sobre os projectos de Moa Nunes na internet (www.moadance.com).
JLC
Este artigo foi igualmente publicada no site www.wort.lu/pt
Intitulado "Palavras e Palavras", este espectáculo "nasceu do desejo de explorar a linguagem e a necessidade humana de ser ouvido", segundo Moa Nunes.
"As palavras são geralmente consideradas como aquelas que são faladas ou escritas", diz o coreógrafo. Mas para Moa Nunes, coreógrafo brasileiro residente no Luxemburgo há 16 anos, as palavras são muito mais do que isso. "As palavras são preciosas: podem curar, podem magoar, podem ser verdadeiras e dóceis, podem mentir, podem ser destrutivas e traiçoeiras, podem ser vazias, mas também inspiradoras. Elas criam mundos e mudam a realidade", diz Moa Nunes.
Nesta obra, o coreógrafo brasileiro vai além das palavras e permite que a linguagem do corpo fale. Depois das obras "Um olhar a dois" e "Meus caminhos", Moa explora neste novo opus o poder das mesmas e como são utilizadas para construir ideias, emoções e memórias, e para contar uma história.
As reservas para ver este espectáculo devem ser feitas pelo tel. 691 204 999.
Mais informações sobre os projectos de Moa Nunes na internet (www.moadance.com).
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Este artigo foi igualmente publicada no site www.wort.lu/pt
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segunda-feira, 27 de maio de 2013
sexta-feira, 17 de maio de 2013
Redacção do CONTACTO
sábado, 11 de maio de 2013
Edição portuguesa da revista Granta nas bancas a 24 de Maio
O primeiro número da edição portuguesa da revista literária Granta, que irá publicar inéditos de Fernando Pessoa, é colocado à venda no dia 24 de Maio, revelou a editora Tinta da China, que a publica.
No dia 25 realiza-se um debate sobre a revista, às 17h, na praça Laranja da Feira do Livro de Lisboa, no parque Eduardo VII, entre Carlos Vaz Marques, director da Granta portuguesa, e John Freeman, director da Granta internacional e ex-presidente da associação britânica de Críticos Literários.
Segundo Carlos Vaz Marques, a revista tem o interesse de publicar um inédito de um autor desaparecido por cada número, mas a própria revista vai encomendar textos originais a autores de língua portuguesa.
A publicação de cinco sonetos de Fernando Pessoa, apresentados pelos investigadores pessoanos Jerónimo Pizarro e Carlos Pitella-Leite, insere-se no primeiro objectivo da revista, que “é o de publicar bons textos literários inéditos”, diz Vaz Marques.
Referindo-se à publicação dos sonetos de Pessoa, Vaz Marques afirmou tratar-se de “uma revelação absoluta” que “já justificaria, por si só, este primeiro número da edição portuguesa da Granta”.
Um outro objectivo desta nova publicação, que vai ter periodicidade semestral, “é o de publicar em português os textos de grandes escritores, escritos para a Granta de língua inglesa, e nunca editados em Portugal”.
“O baú da Granta é imenso e de grande qualidade, com autores tão importantes como Salman Rushdie ou Martin Amis, Saul Bellow ou Ryszard Kapuscinski”, acrescentou o director.
Vaz Marques falou ainda num terceiro objectivo, “mais ambicioso”, que é o de “dar a conhecer e de conseguir abrir portas noutros países a alguns dos autores que vão publicar na edição portuguesa”.
“Sendo a Granta, cada vez mais, uma família literária global, com edições em diversas línguas, temos esta ambição”, lança.
A Granta Portuguesa vai incluir, “em todos os números, um portfolio fotográfico, que, nesta primeira edição, vai ter a assinatura do fotógrafo Daniel Blaufuks”.
A Granta portuguesa, publicada pela editora Tinta da China, vai “seguir o modelo original da Granta, que já deu provas de grande qualidade”, disse Vaz Marques, que sublinhou que “será, acima de tudo, uma revista virada para a criação literária, na qual se tentará juntar nomes consagrados e novos talentos”.
À nova revista, Carlos Vaz Marques quer “chamar autores de todo o espaço de língua portuguesa”.
Questionado sobre qual a ortografia escolhida, seguindo ou não o Acordo, Vaz Marques afirmou: “A Granta não vai ater-se a pequenas polémicas de circunstância. Será publicada na forma ortográfica escolhida por cada um dos autores que escrever para ela”. A Granta não deverá ter uma edição online.
No dia 25 realiza-se um debate sobre a revista, às 17h, na praça Laranja da Feira do Livro de Lisboa, no parque Eduardo VII, entre Carlos Vaz Marques, director da Granta portuguesa, e John Freeman, director da Granta internacional e ex-presidente da associação britânica de Críticos Literários.
Segundo Carlos Vaz Marques, a revista tem o interesse de publicar um inédito de um autor desaparecido por cada número, mas a própria revista vai encomendar textos originais a autores de língua portuguesa.
A publicação de cinco sonetos de Fernando Pessoa, apresentados pelos investigadores pessoanos Jerónimo Pizarro e Carlos Pitella-Leite, insere-se no primeiro objectivo da revista, que “é o de publicar bons textos literários inéditos”, diz Vaz Marques.
Referindo-se à publicação dos sonetos de Pessoa, Vaz Marques afirmou tratar-se de “uma revelação absoluta” que “já justificaria, por si só, este primeiro número da edição portuguesa da Granta”.
Um outro objectivo desta nova publicação, que vai ter periodicidade semestral, “é o de publicar em português os textos de grandes escritores, escritos para a Granta de língua inglesa, e nunca editados em Portugal”.“O baú da Granta é imenso e de grande qualidade, com autores tão importantes como Salman Rushdie ou Martin Amis, Saul Bellow ou Ryszard Kapuscinski”, acrescentou o director.
Vaz Marques falou ainda num terceiro objectivo, “mais ambicioso”, que é o de “dar a conhecer e de conseguir abrir portas noutros países a alguns dos autores que vão publicar na edição portuguesa”.
“Sendo a Granta, cada vez mais, uma família literária global, com edições em diversas línguas, temos esta ambição”, lança.
A Granta Portuguesa vai incluir, “em todos os números, um portfolio fotográfico, que, nesta primeira edição, vai ter a assinatura do fotógrafo Daniel Blaufuks”.
A Granta portuguesa, publicada pela editora Tinta da China, vai “seguir o modelo original da Granta, que já deu provas de grande qualidade”, disse Vaz Marques, que sublinhou que “será, acima de tudo, uma revista virada para a criação literária, na qual se tentará juntar nomes consagrados e novos talentos”.
À nova revista, Carlos Vaz Marques quer “chamar autores de todo o espaço de língua portuguesa”.
Questionado sobre qual a ortografia escolhida, seguindo ou não o Acordo, Vaz Marques afirmou: “A Granta não vai ater-se a pequenas polémicas de circunstância. Será publicada na forma ortográfica escolhida por cada um dos autores que escrever para ela”. A Granta não deverá ter uma edição online.
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sexta-feira, 10 de maio de 2013
Ana Moura encantada do fado
No domingo, a fadista pisou os palcos do Luxemburgo pela quarta vez.
Depois de ter actuado na place Guillaume II, na cidade do Luxemburgo, em
directo na emissão "Portugal no Coração", em 2005, e de um espectáculo
no Trifolion de Echternach, em 2009, passou pelo palco da Philharmonie
em 2011. Agora regressou para apresentar o seu último álbum, "Desfado".
Os músicos são os primeiros a chegar ao palco. São cinco, todos bastante jovens. Que não engane a idade, vão revelar-se de uma estirpe tão talentosa que até assusta. À média luz do palco do Conservatório de Música da cidade do Luxemburgo, esperam por Ana Moura.
Segundos depois, a cantora entra, de vestido negro deslumbrante, com franjas que lembram o xaile das antigas fadistas das tabernas lisboetas, mas a sobriedade é ofuscada pelo colar de brilhantes, que realça o peito nu ilustre lusitano que canta. "Vestido negro cingido, cabelo negro comprido" é o que cantará minutos depois na sua música "A Fadista". Fala de si mesma?
Mas chamar-lhe fadista é redutor. Aos 33 anos, mais do que simplesmente marcar presença no fado há dez – o seu primeiro álbum saiu em 2003 –, Ana Moura tem-se revelado uma verdadeira força viva do fado em evolução e mesmo em revolução. E foi o que nos veio mostrar na apresentação do seu mais recente álbum.
A guitarra portuguesa dá a nota da primeira música: "Eu hei-de inventar um fado novo..." canta Ana Moura, e reconhecemos a canção "Havemos de acordar". E acorda-nos mesmo, depois de uma tarde solarenga de domingo. "Gudden Owend" [Boa noite] lança a coruchense num luxemburguês perfeito. Pede apoio ao público português para comunicar em francês com os outros espectadores: há luxemburgueses, franceses, alemães, ingleses, americanos, polacos e até um casal japonês. Porque, afinal, o fado é património da Humanidade.
Ana explica que o álbum "Desfado" tem influências do jazz, da música do norte de Portugal, mas não esquece o fado tradicional, em canções como "Com a cabeça nas nuvens" e "A Fadista". Da linha mais tradicional, Ana cantará ainda nessa noite dois fados de anteriores álbuns, "Porque teimas nesta dor" ("Guarda-me a Vida na Mão", 2003) e "Búzios" ("Para além da Saudade", 2007).
A surpresa boa (muito boa!) vai ser a canção que dá nome ao álbum, assinada por Pedro Silva Martins, dos Deolinda (que também compôs "Havemos de acordar"). Ter convidado o mentor dos Deolinda para este álbum prova o rumo insubmisso que Ana quer dar ao fado.
A cantora convidou ainda outros nomes da cena portuguesa, músicos da sua geração, que para ela compuseram "Fado Alado" e "Quando o sol espreitar de novo". São temas de dois insuspeitos fadistas: Pedro Abrunhosa e Manel Cruz (Pluto, Supernada, Foge Foge Bandido, ex-Ornatos Violetas). As letras são muito bonitas, algumas canções ficam longe do fado tradicional, mas a alma continua portuguesa.
A voz de Ana Moura seduz, parece rouca mas é grave, forte, firme, potente, quente, intensa. Amália aqui tão perto. As canções intimistas, como "Amor afoito", são cantadas à flor da pele. "A minha estrela" termina com Ana a tocar numa caixa de música a melodia de "La vie en rose", de Edith Piaf. Noutras, como em "Despiu a saudade", o jazz é não só patente como omnipresente.
A cumplicidade com os músicos instala um ambiente de clube nova-iorquino. Como em "Case of you", um lindíssimo original de Joni Mitchell, um dos ícones do jazz e do folk norte-americanos. fado novo Com Ana Moura, o fado viaja até Nova Iorque, passa por Braga e regressa a Alfama.
Há canções introspectivas, circunspectas e logo de seguida explosões de alegria. Numa canção, Ana quer seduzir-nos com voz sensual e na seguinte quer dançar connosco de mãos dadas. Os espectadores aderem. O fado também é festa. Como em "E tu gostavas de mim", o público acompanha a cantora com palmas. A canção é uma pérola, a meio caminho entre o fado bailado e o folclore, da autoria do talentoso e bem humorado Miguel Araújo, que conhecemos de canções como "Os maridos das outras", "Capitão Fantástico" ou "Fizz Limão". Mas será que o público se apercebe da letra?
Miguel Araújo é hoje o único músico português com coragem para fazer rimar "foguetões" com "neutrões", e de falar de cães em naves espaciais, microondas em Plutão, da banda larga em Arganil e do ciberespaço em Contumil, tudo isto... num fado! É ainda mais genial na voz de Ana Moura.
Nestas ousadias, no humor, nas incursões em outros géneros sente-se o fado a evoluir, a crescer, à nossa frente. Já não são os álbuns experimentais de Paulo Bragança ou de Mísia do início dos anos 1990, nem as influências dos Madredeus, que nem todos os fadistas assumiam. O fado de Ana Moura, como o de alguns dos jovens fadistas, é um fado definitivamente novo, que se assume com o seu q.b. de saudoso e tradicional, mas já não quer ser apenas isso, agora é planetário, transgride as regras, bem à portuguesa, com um sorriso, descomplexadamente, mas só graças a esse impulso espontâneo de libertação pode dar-se ao mundo e recordar-nos que foi assim que nasceu, rufião.
Num interlúdio musical, sem Ana, os cinco músicos – André Moreira (baixo), Pedro Soares (guitarra), João Gomes (teclas), Márcio Costa (bateria) e Ângelo Freire (guitarra portuguesa) – vão mostrar as razões porque a cantora os escolheu para a acompanharem desde Janeiro nesta digressão. Ângelo Freire, de apenas 21 anos, vai mesmo destacar-se e provar que é o virtuoso da guitarra portuguesa de que todos falam.
No encore, Ana vai cantar "Sou do fado" (Fado Loucura) e "Fado Serrano", temas que a ligam a Amália. E vai mesmo ousar acrescentar ao Fado Serrano uma sonora introdução luxemburguesa, "Gudd Nuecht Lëtzebuerg, muito boa noite, senhoras e senhores...", ao qual se rendem os últimos irredutíveis autóctones que estão na sala.
No final do concerto, nas poucas declarações que deu, Ana Moura disse-se contente por ter tanto público jovem aqui no Luxemburgo. "Alguns vierem dar-me os parabéns pela coragem e arrojo de ter feito este disco", diz lisonjeada.
A cantora confessa que estava um pouco "receosa" pela forma como os portugueses cá fora, talvez mais familiares do fado tradicional, reagiriam ao seu novo álbum. Mas, "curiosamente, têm reagido muito bem", garante , "talvez porque o álbum também integra fados mais tradicionais e uma vertente inspirada na música do norte de Portugal".
"Da última vez que vim ao Luxemburgo, trouxe um repertório um pouco mais tradicional. Este disco é realmente muito diferente. Fico muito feliz que os portugueses gostem destas nossas aventuras. É que para além de sermos fadistas, temos o nosso próprio percurso natural. Este disco fazia muito sentido neste momento da minha carreira, pelas colaborações que tenho feito nos últimos anos. Eu queria partilhar isso com o meu público". E explica o seu afecto ao jazz: "o fado e o jazz assemelham-se muito, porque se cantam ambos com a alma, são um canto muito mais interior do que exterior".
Ana Moura é uma voz do fado no jazz ou do jazz no fado? Na noite do concerto, demos por nós, por vezes, a ouvir uma cantora de jazz que se terá extraviado no fado, primo tão próximo da canção lusitana. A guitarra portuguesa entrava sem ser convidada, mas a viagem era tão natural que a canção só podia ser adoptada pelo público, que se deixava embalar. Noutras canções, era assumidamente um fado-jazz, mesmo quando cantado em inglês. Mas como explicar o fado em inglês? Escutar as canções de Ana Moura dispensam qualquer explicação.
Texto: José Luís Correia
Foto: Tania Feller
(in jornal CONTACTO, 08/05/2013)
Os músicos são os primeiros a chegar ao palco. São cinco, todos bastante jovens. Que não engane a idade, vão revelar-se de uma estirpe tão talentosa que até assusta. À média luz do palco do Conservatório de Música da cidade do Luxemburgo, esperam por Ana Moura.
Segundos depois, a cantora entra, de vestido negro deslumbrante, com franjas que lembram o xaile das antigas fadistas das tabernas lisboetas, mas a sobriedade é ofuscada pelo colar de brilhantes, que realça o peito nu ilustre lusitano que canta. "Vestido negro cingido, cabelo negro comprido" é o que cantará minutos depois na sua música "A Fadista". Fala de si mesma?
Mas chamar-lhe fadista é redutor. Aos 33 anos, mais do que simplesmente marcar presença no fado há dez – o seu primeiro álbum saiu em 2003 –, Ana Moura tem-se revelado uma verdadeira força viva do fado em evolução e mesmo em revolução. E foi o que nos veio mostrar na apresentação do seu mais recente álbum.
A guitarra portuguesa dá a nota da primeira música: "Eu hei-de inventar um fado novo..." canta Ana Moura, e reconhecemos a canção "Havemos de acordar". E acorda-nos mesmo, depois de uma tarde solarenga de domingo. "Gudden Owend" [Boa noite] lança a coruchense num luxemburguês perfeito. Pede apoio ao público português para comunicar em francês com os outros espectadores: há luxemburgueses, franceses, alemães, ingleses, americanos, polacos e até um casal japonês. Porque, afinal, o fado é património da Humanidade.
Ana explica que o álbum "Desfado" tem influências do jazz, da música do norte de Portugal, mas não esquece o fado tradicional, em canções como "Com a cabeça nas nuvens" e "A Fadista". Da linha mais tradicional, Ana cantará ainda nessa noite dois fados de anteriores álbuns, "Porque teimas nesta dor" ("Guarda-me a Vida na Mão", 2003) e "Búzios" ("Para além da Saudade", 2007).
A surpresa boa (muito boa!) vai ser a canção que dá nome ao álbum, assinada por Pedro Silva Martins, dos Deolinda (que também compôs "Havemos de acordar"). Ter convidado o mentor dos Deolinda para este álbum prova o rumo insubmisso que Ana quer dar ao fado.
A cantora convidou ainda outros nomes da cena portuguesa, músicos da sua geração, que para ela compuseram "Fado Alado" e "Quando o sol espreitar de novo". São temas de dois insuspeitos fadistas: Pedro Abrunhosa e Manel Cruz (Pluto, Supernada, Foge Foge Bandido, ex-Ornatos Violetas). As letras são muito bonitas, algumas canções ficam longe do fado tradicional, mas a alma continua portuguesa.
A voz de Ana Moura seduz, parece rouca mas é grave, forte, firme, potente, quente, intensa. Amália aqui tão perto. As canções intimistas, como "Amor afoito", são cantadas à flor da pele. "A minha estrela" termina com Ana a tocar numa caixa de música a melodia de "La vie en rose", de Edith Piaf. Noutras, como em "Despiu a saudade", o jazz é não só patente como omnipresente.
A cumplicidade com os músicos instala um ambiente de clube nova-iorquino. Como em "Case of you", um lindíssimo original de Joni Mitchell, um dos ícones do jazz e do folk norte-americanos. fado novo Com Ana Moura, o fado viaja até Nova Iorque, passa por Braga e regressa a Alfama.
Há canções introspectivas, circunspectas e logo de seguida explosões de alegria. Numa canção, Ana quer seduzir-nos com voz sensual e na seguinte quer dançar connosco de mãos dadas. Os espectadores aderem. O fado também é festa. Como em "E tu gostavas de mim", o público acompanha a cantora com palmas. A canção é uma pérola, a meio caminho entre o fado bailado e o folclore, da autoria do talentoso e bem humorado Miguel Araújo, que conhecemos de canções como "Os maridos das outras", "Capitão Fantástico" ou "Fizz Limão". Mas será que o público se apercebe da letra?
Miguel Araújo é hoje o único músico português com coragem para fazer rimar "foguetões" com "neutrões", e de falar de cães em naves espaciais, microondas em Plutão, da banda larga em Arganil e do ciberespaço em Contumil, tudo isto... num fado! É ainda mais genial na voz de Ana Moura.
Nestas ousadias, no humor, nas incursões em outros géneros sente-se o fado a evoluir, a crescer, à nossa frente. Já não são os álbuns experimentais de Paulo Bragança ou de Mísia do início dos anos 1990, nem as influências dos Madredeus, que nem todos os fadistas assumiam. O fado de Ana Moura, como o de alguns dos jovens fadistas, é um fado definitivamente novo, que se assume com o seu q.b. de saudoso e tradicional, mas já não quer ser apenas isso, agora é planetário, transgride as regras, bem à portuguesa, com um sorriso, descomplexadamente, mas só graças a esse impulso espontâneo de libertação pode dar-se ao mundo e recordar-nos que foi assim que nasceu, rufião.
Num interlúdio musical, sem Ana, os cinco músicos – André Moreira (baixo), Pedro Soares (guitarra), João Gomes (teclas), Márcio Costa (bateria) e Ângelo Freire (guitarra portuguesa) – vão mostrar as razões porque a cantora os escolheu para a acompanharem desde Janeiro nesta digressão. Ângelo Freire, de apenas 21 anos, vai mesmo destacar-se e provar que é o virtuoso da guitarra portuguesa de que todos falam.
No encore, Ana vai cantar "Sou do fado" (Fado Loucura) e "Fado Serrano", temas que a ligam a Amália. E vai mesmo ousar acrescentar ao Fado Serrano uma sonora introdução luxemburguesa, "Gudd Nuecht Lëtzebuerg, muito boa noite, senhoras e senhores...", ao qual se rendem os últimos irredutíveis autóctones que estão na sala.
No final do concerto, nas poucas declarações que deu, Ana Moura disse-se contente por ter tanto público jovem aqui no Luxemburgo. "Alguns vierem dar-me os parabéns pela coragem e arrojo de ter feito este disco", diz lisonjeada.
A cantora confessa que estava um pouco "receosa" pela forma como os portugueses cá fora, talvez mais familiares do fado tradicional, reagiriam ao seu novo álbum. Mas, "curiosamente, têm reagido muito bem", garante , "talvez porque o álbum também integra fados mais tradicionais e uma vertente inspirada na música do norte de Portugal".
"Da última vez que vim ao Luxemburgo, trouxe um repertório um pouco mais tradicional. Este disco é realmente muito diferente. Fico muito feliz que os portugueses gostem destas nossas aventuras. É que para além de sermos fadistas, temos o nosso próprio percurso natural. Este disco fazia muito sentido neste momento da minha carreira, pelas colaborações que tenho feito nos últimos anos. Eu queria partilhar isso com o meu público". E explica o seu afecto ao jazz: "o fado e o jazz assemelham-se muito, porque se cantam ambos com a alma, são um canto muito mais interior do que exterior".
Ana Moura é uma voz do fado no jazz ou do jazz no fado? Na noite do concerto, demos por nós, por vezes, a ouvir uma cantora de jazz que se terá extraviado no fado, primo tão próximo da canção lusitana. A guitarra portuguesa entrava sem ser convidada, mas a viagem era tão natural que a canção só podia ser adoptada pelo público, que se deixava embalar. Noutras canções, era assumidamente um fado-jazz, mesmo quando cantado em inglês. Mas como explicar o fado em inglês? Escutar as canções de Ana Moura dispensam qualquer explicação.
Texto: José Luís Correia
Foto: Tania Feller
(in jornal CONTACTO, 08/05/2013)
segunda-feira, 6 de maio de 2013
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