sebenta de anotações esparsas, pensamentos ociosos, reflexões cadentes, poemas difusos, introspecções de uma filosofia mais ou menos opaca dos meus dias (ou + reminiscências melómanas, translúcidas, intra e extra-sensoriais, erógenas, esquizofrénicas ou obsessivas dos meus dias)
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cahier de notes éparses, pensées oisives, réflexions filantes, poèmes diffus, introspections d'une philosophie plus ou moins opaque de mes journées (ou + de réminiscences mélomanes, translucides, intra-sensorielles et extra-sensorielles, érogènes, schizophrènes ou obsessionnelles de mes journées)

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Visita guiada ao Museu Nacional de História Militar, em Diekirch + Influências portuguesas no Luxemburgo durante a Segunda Guerra Mundial

"Não glorificamos a guerra, cultivamos o dever de memória"

Visitei um dos espaços museológicos ainda desconhecidos por muitos no Luxemburgo: o Museu Nacional de História Militar, em Diekirch.

O lugar é já muito frequentado por luxemburgueses mas igualmente por estrangeiros (cerca de 30 mil visitantes anuais). Estes últimos fogem, no entanto, às características habituais do turista que o país costuma acolher. Vindos sobretudo da Bélgica, Holanda, Alemanha, e um terço de mais longe ainda, dos Estados Unidos, são soldados veteranos, muitos já octogenários, que num périplo peregrino até ao Grão-Ducado com filhos, netos e até bisnetos, encetam um regresso ao passado comovente e por vezes doloroso. Voltam com o desejo de pisar o solo do país que libertaram entre 1944 e 1945 do jugo nazi, querem ver se reconhecem sítios e lugares, se se cruzam com rostos familiares, ao mesmo tempo que recordam onde caíram irmãos de armas.

Fundado em 1982 por um grupo de amadores, o Museu Militar de Diekirch especializou-se na memória da Batalha das Ardenas (de 16 de Dezembro de 1944 a 25 de Janeiro de 1945), dos aliados libertadores e dos luxemburgueses que a seu lado combateram. E por extensão, com o passar dos anos, a instituição passou a ser a referência em termos de história militar nacional, ou não fosse a cidade ainda hoje dotada de uma guarnição e de uma escola militar no Herrenberg vizinho. A visita a este museu faz aliás parte da formação de base dos recrutas.

Roland Gaul, curador e fundador do museu, começa por esclarecer: "Nas visitas guiadas, sobretudo quando se trata de turmas de jovens, a primeira mensagem que lhes é transmitida é que este não é um lugar para glorificar a guerra, mas para cultivar o dever de memória. Recordamos e contamos às novas gerações o que aconteceu para que a História não se repita". Na visita guiada, somos conduzidos por Roland Gaul e por Daniel Jordão, um jovem luso-descendente, membro e colaborador científico benévolo da instituição (ver artigo infra).

A guerra em tamanho real

Ao entrarmos, algo que logo nos interpela são os "dioramas" – quadros fidedignos de momentos quotidianos da Batalha das Ardenas, com manequins vestidos a rigor, material, máquinas, veículos e armas da época em tamanho real.

Um dos quadros onde os visitantes mais se detêm é o que recria o Dia de Acção de Graças festejado pelas tropas norte-americanas no Luxemburgo no Inverno de 1944 e em que se pode ver um peru recheado a ser assado num fogão improvisado e os soldados a confraternizarem com a população local.

Mais à frente, o maior diorama do museu reconstitui a difícil travessia do rio Sûre para a libertação definitiva de Diekirch, em Janeiro de 1945, operação conduzida num dos Invernos mais rigorosos de que há memória, com temperaturas que chegaram aos 23 graus negativos. Uma recriação apenas possível graças ao generoso donativo, em 1987, de 200 mil dólares por parte de um milionário americano, Harry Gray, ele próprio mobilizado nas Ardenas em 1945 [n.d.R.: Gray foi um dos administradores da "United Technologies Corporation", conglomerado que constrói elevadores (OTIS) mas também helicópteros e motores de avião (para a Boeing e para o exército americano, por exemplo)].

"Os quadros foram conseguidos através de um minucioso trabalho de reconstituição a partir de fotos, documentos e entrevistas com particulares e soldados veteranos", explica-nos Roland Gaul. O responsável faz questão de frisar que estas são sempre "representações ponderadas", ou seja, quer se trate de representar soldados alemães, aliados ou a população civil, "a preocupação é sempre de o fazer com a máxima objectividade possível".

Numa das salas foi recriado um campo de prisioneiros soviético onde as tropas vermelhas haviam detido luxemburgueses que envergavam uniformes nazis, mas que haviam sido alistados à força. "Infelizmente os luxemburgueses eram incapazes de se fazer entender pelos soldados russos e ficaram presos até ao fim da guerra", conta.

"Os visitantes gostam sobretudo de ficar a conhecer as histórias humanas, de saber o que pensava o soldado anónimo, como vivia o dia-a-dia na frente de combate, o que comia, como fazia para sobreviver perante as condições rudes e os ataques inimigos. Interessam-se curiosamente também pelo conteúdo das rações. Por exemplo, gostam de ver exemplares das chicletes, das barras de chocolate e das garrafas de Coca-Cola que faziam parte de algumas das rações dos soldados americanos, produtos que estes partilhavam com os autóctones, que não conheciam ainda alguns desses alimentos", revela.

Reduto da História Militar Nacional

O museu reparte-se sobre quatro andares, num total de 3.200 m2, e tem 28 mil artigos catalogados, distribuídos por diversas exposições temáticas. Patente está, por exemplo, uma colecção de todos os uniformes usados até hoje pelas tropas grã-ducais, desde a Primeira Guerra Mundial até às recentes missões humanitárias e de paz. "O próprio grão-duque Jean, o antigo soberano, doou já uniformes seus ao museu", frisa orgulhoso Roland Gaul. Muito do vasto espólio militar exposto foi aliás doado pelo Exército luxemburguês.

O numeroso material bélico distribui-se não só pelas exposições temáticas mas igualmente num dos primeiros hangares em que o visitante penetra e que mais parece de um armazém militar, o que, desde logo, impressiona. São peças de artilharia ligeira e pesada usadas na Segunda Guerra Mundial, blindados alemães, tanques, jeeps americanos, pára-quedas, um exemplar da máquina "Enigma" (utilizada pelos Alemães para enviar mensagens codificadas durante a guerra), material médico e de transmissão, velhas metralhadoras, bazucas, espingardas, revólveres, munições, obuses, granadas, entre outros.

Estes dois últimos items são aliás dos mais doados pela população civil (depois de o Exército intervir para proceder à sua desactivação, como foi o caso nos últimos dias com bombas da Segunda Guerra Mundial encontradas na estrada CR342, em Hosingen, e no campo de futebol Op Flohr, em Grevenmacher), que ainda hoje, mais de 60 anos depois do fim da guerra, os vão encontrando semi-soterrados em caminhos florestais ou de cada vez que alguém escava fundações para construir uma casa. Segundo o curador, há quase todas as semanas doações de bens familiares da época da guerra, como capacetes, botas militares, fotos, correspondência, etc.

O museu dispõe de 15 mil documentos, entre livros e fotos, que estarão brevemente disponíveis ao público na futura biblioteca e no centro de documentação, as duas novas secções em preparação.

Dado o excesso de material que lhes é trazido, é de bom grado que o responsável direcciona os doadores para os outros três museus que tratam igualmente da Segunda Guerra Mundial, cada um com a sua especificidade: o Museu da Resistência, em Esch/Alzette, o da Deportação, em Hollerich, e Museu o da Segunda Guerra Mundial, propriamente dita, em Ettelbruck.

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Segundo Daniel Jordão, colaborador do Museu Militar
"Estamos a repensar o museu"

Daniel Jordão é um dos colaboradores do Museu Nacional de História Militar de Diekirch (ver artigo principal) e está, em conjunto com o curador Roland Gaul e a restante equipa de voluntários, a repensar a forma de dispor todo o espólio recorrendo a formas mais modernas, suportes audiovisuais, apresentações mais interactivas. "Há demasiado material exposto, é preciso fazer escolhas criteriosas para as visitas não se tornarem fastidiosas", explica.

Informático de profissão, o jovem luso-descendente de 28 anos interessou-se pela Segunda Guerra Mundial durante uma viagem à Normandia, quando viu nomes luxemburgueses inscritos nas placas comemorativas que celebravam o Dia do Desembarque (Dia D: 6 de Junho de 1944).

"Afinal havia luxemburgueses no Desembarque?". Daniel quis saber mais e percebeu que esse aspecto era um dos menos documentados na história luxemburguesa. Contactou o Museu de Diekirch e disponibilizou-se para dar o seu contributo benévolo. Confia que o que o motiva é tentar entender como jovens, como ele, fizeram na altura para "fazer face à situação e resistir ao invasor". Nos seus tempos livres, à noite ou ao fim-de-semana, lê tudo o que pode sobre o assunto. Para o museu, entrevista veteranos, filma testemunhos, recolhe arquivos privados. Além disso, efectua pesquisas precisamente sobre os antigos combatentes luxemburgueses que lutaram ao lado dos aliados, em uniforme francês ou inglês, que pertenciam à Resistência ou que participaram no Desembarque.

"Conhecer o passado, os horrores da guerra, para saber dar valor à actual paz em que vivemos", conclui Daniel, recordando palavras do pai. Este esteve quase três anos em Moçambique, durante a guerra colonial portuguesa, integrado na Segunda Companhia de Fuzileiros. Palavras que até podem nem ter sido ditas assim a Daniel, mas que já transportavam uma mensagem importante: a do dever de memória.

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Portugal e o Luxemburgo na Segunda Guerra Mundial

Influências portuguesas

A história do Luxemburgo durante a Segunda Guerra Mundial também se cruz a com destinos portugueses, em pelo menos duas ocasiões: a fuga da Grã-Duquesa Charlotte para o exílio, em 1940, e a promessa feita a Nossa Senhora de Fátima, em 1945, por um grupo de moradores de Wiltz.

Bastante conhecidos são os laços de sangue que unem as casas reais luxemburguesa e portuguesa. O grão-duque Henri é bisneto da sexta filha de D. Miguel I de Portugal, Mariana de Bragança, nascida na Áustria (em 1861) após o pai ter sido exilado pelo irmão D. Pedro I (em 1834). Mariana viria a casar com o grão-duque Guillaume IV do Luxemburgo em 1893, do qual teve duas filhas, ambas grã-duquesas: Adelaïde, soberana de 1912 a 1919, e Charlotte, que reinou de 1919 a 1964.

As famílias permanecem aliás bastante próximas. Ainda em Agosto, os duques de Bragança gozaram uma semana de férias com os primos do Grão-Ducado, na casa de férias que a família grã-ducal tem na Côte d'Azur.

A Grã-Duquesa Charlotte e o cônsul Sousa Mendes

Menos conhecido é o facto de a Grã-Duquesa Charlotte, ao escapar do Luxemburgo em 1940 para não ser capturada pelo ocupante alemão, se ter dirigido ao Consulado de Portugal em Bordéus, na esperança de obter um visto para Lisboa, considerada a única porta de saída na Europa em guerra. O visto foi-lhe emitido pelo cônsul português em posto, Aristides de Sousa Mendes.

Com o visto, a grã-duquesa, o príncipe Jean (futuro grão-duque) e alguns membros do Governo luxemburguês conseguiram chegar à capital portuguesa e dali exilar-se em Londres.

Porque escolheu a grã-duquesa o Consulado português? Teria ouvido o rumor de que aquela chancelaria estava a passar vistos de forma indiscriminada, sem olhar a quem, de maneira a salvar o maior número possível de fugitivos do jugo nazi?

Salazar, preocupado em manter a neutralidade portuguesa, havia dado a Sousa Mendes ordens claras: "não passar vistos a apátridas, judeus (...) e estrangeiros com nacionalidade indefinida". O diplomata teria decidido desde 1939 contrariar a ordem. "Se há que desobedecer, prefiro que seja a uma ordem dos homens do que a uma ordem de Deus", dissera. Atitude que lhe valeu a ira de Salazar e a posterior demissão do posto. O "cônsul injustiçado", como ficou conhecido, é hoje considerado pelo Estado de Israel como um dos "Justos", por ter salvo igualmente a vida de muitos judeus que fugiam aos nazis.

Terá Sousa Mendes chegado a saber que estava a salvar uma descendente da coroa portuguesa, ter-lhe-á a grã-duquesa dito que era neta de D. Miguel ou essa conversa nunca aconteceu? Mais... terão o grão-duque Jean e o Governo luxemburguês pensado nessa "dívida" a Portugal quando decidiram em 1970 assinar um contrato com o Governo português que abria as portas do Grão-Ducado à imigração lusa?

A Promessa

A 13 de Janeiro de 1945, numa das derradeiras operações da Ofensiva das Ardenas (ver artigo principal), Wiltz ocupada pelos nazis viu-se cercada no meio dos combates. Dez pessoas refugiam-se na cave do Presbitério e prometem erigir no sítio "op Bässent" um santuário em honra de Nossa Senhora de Fátima, se escaparem ilesos. As tropas alemães retiram-se sete dias mais tarde, derrotadas pelos aliados.

Em 13 Setembro de 1947, a imagem de Nossa Senhora de Fátima, em visita ao Grão-Ducado, passa por Wiltz. Uma primeira missa é celebrada no alto do monte, na presença de sete mil pessoas: luxemburgueses, franceses e belgas. Nesse dia é colocada a primeira pedra do futuro santuário. Segundo noticiava o Luxemburger Wort da altura, o bispo do Luxemburgo, Joseph Philippe, teria agradecido a vinda da santa ao país, como se fosse o retribuir da visita que a Grã-Duquesa Charlotte fizera a Portugal em 1940, na sua fuga a caminho de Londres. O santuário viria a ser terminado em 1952 e consagrado a 13 de Julho desse ano pelo bispo Léon Lommel.

Mas é só nos anos 60, quando os primeiros imigrantes portugueses chegam ao país, que descobrem a existência do santuário. A primeira peregrinação acontece em 1968. Quatro anos depois, o arcebispo Jean Hengen oferece à paróquia de Niederwiltz uma imagem de Nossa Senhora, o que veio reforçar a devoção dos peregrinos. Desde daí, anualmente, no Dia da Ascensão, Wiltz enche-se de milhares de portugueses vindos dos quatros cantos do Luxemburgo e dos países vizinhos.

José Luís Correia, in Contacto, 03.09.08

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Carta do meu sobrinho ao senhor Vladimir

Carta do meu sobrinho ao senhor Vladimir

Nestas últimas semanas, o meu sobrinho tem- -me feito bastantes perguntas sobre a guerra de que ouve falar na televisão, referindo-se à escalada militar que se tem vivido no Cáucaso.

Comecei por lhe mostrar, num mapa, onde se situavam a Geórgia, a Ossétia do Sul, a Abcásia e a Rússia. Tentei depois explicar-lhe, em termos simples, o que estava em questão. A influência que a Rússia, saudosista da potência da era soviética, não quer perder naquela região, por onde passam oleodutos e gasodutos, pormenores que não o são. O direito de cada povo que se sente nação, como parece ser o caso dos ossetas e dos abecases, de aspirar à independência. A integridade territorial de um país como a Geórgia que não pode ser violada. A diplomacia inteligente a que a UE e os Estados Unidos terão de fazer apelo se se pretendem moderadores numa crise política que pode conduzir, no melhor dos casos, a uma Segunda Guerra Fria, e, no pior dos cenários, a um conflito armado de grande escala, que pode inclusive estender-se ao resto da Europa.

Guerras houve que começaram por menos. Enfim, não é fácil explicar a uma criança uma crise internacional da qual nem os analistas políticos entendem bem todos os contornos e muito menos podem prever o que dali pode advir?

No fim da minha explicação, o meu sobrinho fitava-me com grande olhos e acenou positivamente com a cabeça como se tivesse entendido tudo. Confesso que pensei que o tivesse apenas feito para eu ficar por ali com a minha complicada lição de política internacional. "Coisas de gente grande...", deve ter pensado. Imaginei que para ele a questão estivesse terminada e tivesse voltado às suas ocupações de criança.

Mas não. Dias mais tarde, entregou-me um envelope fechado, pedindo-me para o meter no correio. No lugar do remetente, podia ler-se: "Para o senhor Vladimir Putin, chefe da Rússia". Intrigado, não resisti a abrir a carta, que passo a transcrever:

"Senhor Vladimir,

Eu sempre gostei muito da Rússia porque quero ser cosmonauta pois um dia li num livro que o primeiro homem que foi ao espaço era russo e eu também quero fazer como ele quando for grande.

Mas hoje tou zangado com a Rússia porque não percebo porque o senhor quer fazer guerra com os seus vizinhos e até com nós os europeios
. [dixit]

O meu tio disse que podia haver guerra fria e guerra quente. Eu só percebi que nem uma nem outra são coisas boas porque podem matar muitas pessoas de verdade, pois não é como na playstation em que temos muitas vidas.

Mas compreendi bem que todos querem o petróleo porque é com isso que se faz a gasolina para os carros. Só não entendo porque todas as pessoas se queixam que a gasolina está cara, mas todos continuam a comprar carros a gasolina? Tenho que perguntar ao meu tio...

O senhor não acha que o petróleo chega para toda a gente? O meu pai e a minha mãe dizem-me sempre que é preciso saber partilhar. Um dia, um menino da minha escola esqueceu-se da lancheira e a professora Alice pediu-nos para partilharmos com ele. Se cada um de nós lhe desse um bocadinho da nossa merenda, disse ela, não nos fazia diferença e ele também podia lanchar nesse dia. Eu dei-lhe algumas das minhas bolachas e apesar de nesse dia ter comido menos, sentia-me mais contente.

Por isso não percebo como o senhor, que mora num país tão grande, mais grande que o Luxemburgo e até que a América (eu fui ver ao mapa!), não quer partilhar o petróleo que vem do mar. A professora Alice explicou-nos que a paz no Mundo só será possível quando toda a gente entender que as coisas que a Natureza nos dá, não pertencem a um só país mas a toda a Humanidade. Ou o senhor não gosta da paz?

Eu quero a paz, porque assim posso ser amigo de todos e já não há brigas no recreio e um dia mais tarde todos os cientistas do mundo podem juntar-se e fazer naves mais super-tecnológicas para podermos todos viajar no espaço e descobrir novos mundos a quem podemos ensinar a paz".

Mais palavras para quê? As crianças têm o dom natural de simplificar o que os adultos teimam em codificar e complicar. Reflexão feita..., e porque não? Colei um selo, corrigi a morada e enfiei a carta num marco de correio.

JLC, in Contacto, 03.09.08

terça-feira, 2 de setembro de 2008

The future of civilization



Theoretical physicist Michio Kaku speculates on the future of civilization. This was downloaded at itunes as a free Discovery channel video pocasts. He talks about the inevitability of a type 1 culture, language, political system and why is our generation the most important to walk the face of earth. I think this clip forms part of the movie "2057".

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Tempête

Tempête

Un crépuscule de juillet. Il pleut comme à la fin du monde.

J’expérimente les eaux et le froid sur mon corps.

De petites mers se déversent en de grandes gorgées dans le caniveau,

le vent fuit les impasses, le tonnerre traverse le ciel hanté et moi ma vie.

Si tu étais ici maintenant, me sentirais-je plus heureux ?

Si tu m’enlaçais en cette heure, aurais-je encore peur ?

Le ciel impénétrable oublie le monde trempé…

Et toi, où es-tu ? Enroulée dans ton gilet en laine, lisant mon livre, à la lumière de l’abat-jour ? As-tu déjà écouté l’eau ?

L’océan s’ouvre à l’envers et chaque goutte cherche le sol comme le salut,

têtes penchées les arbres nettoient lourdement leur visage sur l’asphalte,

des silhouettes dans la pénombre passent comme des fantômes à mes pieds.

Sans défense sous la pluie, le vent cherche mon échine,

la voûte céleste se déchire

sur mes tempes, chaque goutte qui m’atteint à quelle vitesse tombe-t-elle,

à quelle vitesse explose-t-elle sur ma peau ?

La douleur, après le cri. Le nef céleste se tord en convulsion,

une clarté fugace rompt l’arc. Ce n’est pas Dieu agacé,

ne sont pas les nuages qui se déchargent, ce n’est pas le cycle se perpétuant.

C’est le ciel voulant se voir, comme Narcisse, au miroir.

Moi aussi, j’ai découvert le chemin me menant vers toi.

Je ne me suis tout simplement pas encore décidé à le prendre.


JLC/07.2003

Jihad

Jihad

Les pointes des étoiles brûlent la lune rouge qui croît
Le ciel en feu griffe le visage bleu
d'Orient arrivent de nouveaux rois mages du mot,
mais tout ce qui brille n'est pas d'or.
J'entends le vacarme des batailles qui ont commencé
quand les eaux du déluge n'avaient même pas encore séché
les terres. Aujourd'hui, c'est le sang qui ne séche plus.

Et moi, apeuré par les nouvelles invasions barbares
et les promesses vides que le crépuscule renferme
je me cache derrière la croix d'or indigo, j'assiste aux fous sans dire mot
et ils me poussent vers l'abîme.
La caravane impassible passe, pendant que les chiens n'aboient pas,
se préparent. Je sens l'odeur du désert.
Je suis assoiffée de mandarines d'argent, d'ivoire,
de cannelle, de menthe psychotique et de safran.

Avec mes bagages je dégringole
les escaliers de l'hotel
mes burnes bourrés à rabord.
Je comprends enfin que l'enfant est otage de la perfection,
que la sérénité et la clareté de l'impasse sombre,
que sont l'idéalisme dogmatique et acnéique,
dépendent uniquement de l'égotisme, de la tolérance
et de la lutte qui doit toujours commencer du dedans
avec ma propre jihad.

Ce n'est ni une faute, ni un recul.
C'est prendre de l'élan, un horizon plus grand,
pour sauter plus loin.

Socrates pointe son nez à ma porte
et répète qu'il ne sait rien sur rien.
Je regarde ma montre de éon
les flèches de l'Halocène clignotent
la brise du matin retarde ses ailes.
La nuit grise et brumeuse va encore s'attarder.

AGW aka JLC 140807

Bullet proof

Bullet proof

Quand je ferme les yeux

la douleur disparaît

le bruit s’éteint

le monde se tait

j’oublis le corps immonde


je ne vois plus le cratère noir et nauséabond que la balle à laissé sur ma poitrine

le trou putride sur ma nuque par ou on m’a arraché le cœur

les images sordides ne me tourmentent plus le cerveau en décomposition

les vils instants ne grouillent plus sur mes paupières comme des insectes dégueulasses

l’abject venin ne m’immobilise plus le sang souillé dans mes artères


je m’étends sur le drap blanc sur la table de la cuisine

à sang froid, je rebrousse ma peau, je tire les veines,

j’extrait tout le poison qui reste dans les blessures encore ouvertes

dans la bassine le sang averse et haineux dégouline en pus perfide


je secoue l’enveloppe maculée

je l’expose à la lumière du jour

je prends une aguille d’argent

et je recous les trous béants

le corps purifié et prêt

pour d’autres


et si je fermais les yeux à cette vitesse

maintenant sur l’autoroute ?

ni même mil hordes d’anges en furie

accrochés à mes bras

ne me sauverait de moi-même !


AGW aka JLC 140807

échafaud II

échafaud II

quand l’épée te traverse aussi soudainement, tu la sens toujours?

quand la dague s’est plantée tellement profondément que tu ne sais plus si c’est de la douleur , ressens-tu toujours le coup porté?

quand le sang te coule encore chaud des mains, le reconnais-tu comme tien?

quand tu n’entends plus le vaccarme du coup de feu e que tu constates le trou noir sur ta poitrine fumante, est-ce le moment opportun pour savoir que tu dois mourir?

quand le brûlis dévaste une nouvelle fois la terre est qu’elle n’est plus combustible, que reste-t-il à brûler?

quand tu perds pied e que tu sais que la mer va te remplir la gueule et les narines et les orbites des yeux, es-tu encore en vie pour penser à tout celá?

quand le désert te brûle les poumons avec sa poussière, as-tu encore soif?

quand tu passes en vol plané par le dixième étage en fonçant droit sur le sol, sens-tu encore tes veines qui pulsent à l’envers?

quand tu te désintègres en un seul souffle d’explosion, que deviens-tu?

quand le soleil se noircit e il ne fait plus jour ni nuit, où es-tu?

quand tous te disent que tu es un monstre, dois-tu continuer à vivre?

Docilement, tu t’agenouilles devant tes bourreaux,

les yeux bien ouverts tu aperçois la vérité dans les leurs,

tu couches ta tête sur le bout de poutre

tu remets ta nuque à la justice

la foule en délire se taît haletante

le ciel respire une, deux fois,

pendant quelques brefs instants tu as la sensation que tu arrives a entendre le soleil qui brûle.

Soudain, tu n’entends ni ne sens plus rien.

La main de l’ange est-elle intervenue pour toi, stoppant net le dernier instant?

Tu peux lever les yeux?

Si ton sang ne coule pas autour de toi, est-ce bon signe?

S’il n’y a plus de foule, ni de lame, ni de ciel,

et que le soleil est noir e qu’il ne fait plus jour ni nuit, où es-tu?



AGW aka JLC 170807

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Do tabaco

"O tabaco é uma planta carnívora que se alimenta de pulmões!"
(autor anónimo, mas muito sensato!)

"Le tabac est une plante carnivore qui mange les poumons!"

(auteur anonyme, mais très avisé!)

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Petite Planète

Dans la lointaine galaxie de Saint-Exupéry
Bien au-delà de la voie lactée
j’ai vu une étoile filer.
J’ai fermé les yeux et fit un vœu.
Je ne sais pas si Dieu, ou une autre bête,
m’a écouté, mais je découvris une jolie petite planète
improbable et désertée,
un bout de caillou volcanique,
incroyable et unique,
une terre mainte et maintes fois foulée,
par le pied de l’homme, mais qu’il ne sut jamais garder,
ou parce qu’il fut aveugle ou parce qu’il ne compris jamais la vrai beauté.

Un peu à tâtons je parcourus valons et collines dévastés,
désarmé par les plaines inondées,
apeuré par les fleuves en furie,
les jardins enfouis, lá oú le soleil ne brille même plus.

Ah, quel gâchis, toutes ces plages blessées
par tant de navires déchus…
Pendant des jours et des jours,
j’ai erré en parlant au vent,
des mots d’espoir et d’amour,
sans savoir s’il y croyait toujours,
ne sachant même pas s’il m’écoutait…

Au bord de la rivière pierre je me suis assis
et j’ai pleuré, jour et nuit.
Dans la roche endurcie,
mes larmes ont creusé, une faille,
de toute petite taille,
et une fleur, de toutes les couleurs,
a poussée. Je ne l’ai pas cueilli, je l’ai juste embrassée.

Et soudain, le ciel a perdu son rouge et la mer s’est calmée.

JLC 180805

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

A verdade sobre o PC Magalhães

Os noticiários abriram há tempos, com pompa e circunstância, anunciando o lançamento do 'Primeiro computador portátil português', Magalhães'. A RTP refere que é 'um projecto português produzido em Portugal', a SIC refere que 'um produto desenvolvido por empresas nacionais e pela Intel' e que a 'concepção é portuguesa e foi desenvolvida no âmbito do Plano Tecnológico.' Na realidade, só com muito boa vontade é que o que foi dito e escrito é verdadeiro. O projecto não teve origem em Portugal, já existe desde 2006 e é da responsabilidade da Intel. Chama-se Classmate PC e é um laptop de baixo custo destinado ao terceiro mundo e já é vendido há muito tempo através da Amazon. As notícias foram cuidadosamente feitas de forma a dar ideia que o 'Magalhães' é algo de completamente novo e com origem em Portugal. Não é verdade. Felizmente, existem alguns blogues atentos. Na imprensa escrita salvou-se, que se tenha dado conta, a notícia do Portugal Diário: 'Tirando o nome, o logótipo e a capa exterior, tudo o resto é idêntico ao produto que a Intel tem estado a vender em várias partes do mundo desde 2006. Aliás, esta é já a segunda versão do produto.' Pelos vistos, o jornalista Filipe Caetano foi o único a fazer um trabalhinho de investigação em vez de reproduzir o comunicado de imprensa do Governo. A ideia é destruir os esforços de Negroponte para o OLPC. O criador do MIT Media Lab criou esta inovação, o portátil de 100 dólares. A Intel foi um dos parcceiros até ver o seu concorrente AND ser escolhida como fornecedor. Saiu do consórcio e criou o Classmate, que está a tentar impor aos países em desenvolvimento. Sócrates acaba de aliar-se, sem concurso, à Intel, para destruir o projecto de Negroponte. A JP Sá Couto, que já fazia os Tsunamis, tem assim, sem concurso, todo o mercado nacional do primeiro ciclo. Tudo se justifica em nome de um número de propaganda política terceiro-mundista. Para os pivots (ex-jornalistas?) Rodrigues dos Santos ou José Alberto Carvalho, o importante é debitar chavões propagandísticos em vez de fazer perguntas. Se não fosse a blogosfera - que o ministro Santos Silva ainda não controla - esta propaganda não seria desmascarada. Os jornalistas da imprensa tradicional têm vindo a revelar-se de uma ignorância, seguidismo e preguiça atroz (c.f.: Arrastão e outros casos que tais).

Por isso, vos digo, nunca acreditem naquilo que vos contam os media e multipliquem sempre as fontes de informação. (o texto foi aqui publicado tal qual recebi numa mailing-list em cadeia que me chegou)

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

JO Beijing: Ouro para Portugal




Nelson Évora sagrou-se campeão olímpico ao vencer esta tarde o triplo salto em comprimento com a marca de 17,67 m. É a primeira medalha de ouro para Portugal nestes JO. Com a medalha de prata de Vanessa Fernandes, estes já são os melhores JO de sempre para Portugal (ouro + prata). Parabéns aos atletas e a Portugal.

Os bons resultados portugueses não me fazem esquecer que estas Olimpíadas decorrem num país imperalista, opressor que não respeito os mais elementares direitos humanos, de liberdade e de imprensa.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Tréguas Olímpicas (3)

Como foi inventado o logo destas Olímpiadas?


Tréguas Olímpicas (2)



Enquanto uns ambicionam por ouro, outros correm pela liberdade!Este é um excelente documentário da France 3 sobre a história e a tragédia do Tibete..

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Tréguas Olímpicas



Isto dá outro sentido à expressão "tréguas olímpicas", não dá?

Erotic Tales, se(x)nsualidade no Cine Utopia, até 28 de Agosto

Um pouco de se(x)nsualidade


Desde 1 de Agosto e até dia 28, o alternativo Cinema Utopia, em Limpertsberg, está a revelar-se ainda mais ousado com a exibição de 30 filmes eróticos de meia hora cada. Os filmes são apresentados em séries de quatro (as exibições duram cerca de duas horas) e passam alternadamente até final deste mês.
Os filmes pertencem a uma série iniciada pela produtora alemã Renate Ziegler que desafiou realizadores de renome a dirigirem e conceberem curtas-metragens eróticas, filmadas em 35 mm. Encontramos no rol de nomes conhecidos realizadores como Susan Seidelman, que conhecemos do filme "Desperately Seeking Susan", de 1985, com Rosanna Arquette, no que era a primeira aparição como actriz de Madonna no cinema. O Utopia traz-nos um filme de Seidelman de 1995, "The Dutch Master", com a famosa e sensual actriz Mira Sorvino (também vista em "Mighty Aphrodite", de Woody Allen, e "Summer of Sam", de Spike Lee).
Podem ainda ser vistas películas sulfurosas de Bob Rafelson, Hal Hartley, Ken Russell, Cinizia Th. Torrini, Jos Stelling, Paul Cox, entre outros.
Os horários e lista dos filmes exibidos em cada semana são consultáveis em www.utopolis.lu, na internet.

JLC, in Contacto, 20.08.08

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

NBC, o melhor rapper português



"Segunda pele", do álbum "Maturidade", editado em Maio/2008



NBC feat. SP & Wilson, "Marceneiro" (homenagem a Alfredo Marceneiro, poeta de rua)

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

crónica de férias de um vadio literário

As férias resumiram-se a alguns dias de Praia, no Algarve, dois dias em Oliveira do Bairro, para ser o padrinho no casamento do meu irmão e meio-dia no Porto, antes do regresso ao exílio. Poucos dias, mas que serviram para a retemperança.

No Algarve, ainda antes de ir para a praia, ida obrigatória à Fnac da Guia, em Albufeira. Com a promessa, feita a mim mesmo e à minha cara metade, de não ceder aos "baixos instintos" e de comprar poucos livros. Até porque depois são esses excendentes de bagagem que pesam na mala e na carteira.


Palavra de ordem: conter-me!


Assim, desta vez, contive-me (coloquei-me mentalmente em posição zen) e só comprei três livros: "o apocalipse dos trabalhadores", de valter hugo mãe; "Quaresma, Decifrador", de F. Pessoa; e "Nos passos de Magalhães", de Gonçalo Cadilhe.
Só três (3!!!), pensei, bom esforço, e dei-me palmadinhas nas costas. Era mal conhecer-me. Dois dias mais tarde, ao passar pelo Fórum Algarve em Faro não resisti a uns livritos numa pilha ao desbarato a 2,99 euros e foram mais três, pela módica quantia de 8,97 euros: "O meu querido Titanic", de Possidónio Cachapa; "Produções Fictícias - 13 anos de insucessos"; e "A Era do Orpheu" (1986), do Nuno Júdice.

Li este último em 24 horas, dada a minha insaciável e ávida gula em consumir (conhecer) tudo o que diz respeito à geração e à época de Orpheu. Deliciei-me com as lutas de convicções e as batalhas verbais e literárias que opuseram os jovens artistas modernistas da revista lisboeta "Orpheu" como Fernando Pessoa, Santa-Rita Pintor, Mário de Sá-Carneiro e Almada Negreiros, entre outros, e os saudosistas da revista A Águia publicada no Porto por escritores e intelectuais um pouco mais velhos e confirmados da geração que eles próprios apelidavam de "Renascença Portuguesa" como Teixeira de Pascoaes, Jaime Cortesão, António Correia d'Oliveira, António Carneiro, Leonardo Coimbra, entre outros. Sobretudo, parti o côco a rir com a polémica que o poema surrealista (surrealismo antes da época, note-se!) de Sá-Carneiro em que aparece um "braço de casaca a valsar até ao palácio do vice-Rei" provocou nos leitores da altura, habituados a uma poesia mais "arrumadinha" e "ortodoxa".


Nova Águia

Na mesma senda, descobri (penso que foi na Livraria Bertrand) a revista semestral "Nova Águia" , em referência directa à da Renascença Portuguesa e que começou a ser publicada este ano em Portugal. Também já a devorei, com penas, garras e tudo. Primeiro fiquei preocupado com a temática escolhida - "A Ideia de Pátria: sua actualidade"- que, confesso, pensei de cariz "nacionalista", na acepção "cutânea" da palavra. Mas, percebi depois que os autores convidados não se tinham ficado a assinalar desfraldados "as armas e os barões" nem se detiveram a exaltar como pítias histéricas o destino profético e messiânico do país em transsubstanciar-se em Quinto Império, numa enésima e onânica manifestação luso-portuguesa, mas que procuraram antes lavrar mais além a ideia (ideal) de pátria nas potencialidades de Portugal, da sua língua, culturas e literaturas portuguesas e lusófonas.
Gostei dos textos que li, não se resumem apenas à literatura, estendem-se às ciências, à política e a outras coisas e artes. Mas preferia, por exemplo, ter lido mais poesia e ver mais contribuições gráficas. Talvez num próximo número. Dois novos poetas que retiveram a minha atenção pela "sinceridade crítica" dos seus textos: Luís Filipe Cristóvão e Manuel Silva Ramos. Imperdível também o inédito de Agustina Bessa-Luís, que a revista conseguiu publicar.

Fui dali, nova investida na Bertrand. Cedi também ao "Dicionário Imperfeito" de Bessa-Luís, numa excelente encadernação e apresentação da nova Guimarães Editores. Projectos destes - em que se nota que quem está por detrás é alguém que gosta de livros e de autores e não tem pejo em assumir que cultura pode rimar com a "vergonhosa" palavra que poucos querem ver a ela associada: "rentabilidade" - auguram tempos melhores para o mundo dos livros em Portugal.

Na mesma visita à Bertrand, juntei ao livro azul de Agustina, as biografias dos "Viajantes Solitários", de Fernanda Pratas, e "O Fim dos Tempos", de Jaime Fernandes. As biografias tenho-as lido em ziguezague, seguindo os turistas incidentais que prefiro (Whitman, Rimbaud, Orwell, Nabokov), mas não esperava encontrar Karl Marx, Steve McQueen ou Ayrton Senna na lista. O título indicava viajantes solitários e eu deduzi erroneamente que eram todos escritores... Erro meu!
O segundo livro é de um jovem de 21 anos que se estreia num dos segmentos mais difíceis da literatura: o romance de antecipação (ficção-científica). Quando acabar de ler, digo-vos de minha justiça.

O profeta celta

Na praia, entre um mergulho e um escaldão, acabei de ler, entretanto, "Le huitième prophète: Les aventures extraordinaires d'Amros, le Celte", de Franz-Olivier Giesbert, que tinha começado no avião. Gosto do conto, fluído e interessante, mas nas passagens onde eu esperava que o narrador se detivesse é quando ele salta episódios. O tom e o desafio dados à partida perdem-se um pouco pelo caminho. Preso por soldados gregos, Amros, o Celta vai viajar da sua Gália natal, pela Itália, Grécia, Palestina, Babilónia, Pérsia, e China e terá a oportunidade de visitar os grandes filósofos e guias espirituais da Antiguidade, desde Zaratustra (séc VI. a.C), Pitágoras (569-494 a.C), a Heráclito (séc. VI a.C.), Buda (560-483 a.C.), Confúcio ( 551-479 a.C.) e o profeta Zacarias (séc. VI. a.C.) que eram todos mais ao menos contemporâneos, mesmo se vivendo em regiões diferentes do globo - facto estranho, mas verídico. Esta curiosidade histórica pouco conhecido pela maioria dos leitores é aqui explorada de maneira exímia pelo autor.

Parece que o autor quis fazer mais curto e privilegiou a forma (resumida) ao conteúdo (que deveria ser mais profundo). As aventuras (podiam, mas) também não são assim tão extraordinárias e o leitor não sente o afunilamento da história. Não se sente, por exemplo, reflexão e meditação nos ensinamentos que o protaganista vai adquirindo, tudo parece rápido e episódico, numa sucessão de encadeamentos, com um fim previsível. Enfin, bref! Gostei da ideia, mas penso que foi desperdiçada.

Um dia conto a minha passagem por Oliveira do Bairro e como foi o casamento do meu irmão.

O fim das férias foi no Porto. Na Inbicta, descemos à Baixa, bebemos um café e um frize framboesa no lounge improvisado frente à Câmara Municipal e dali subimos para a rua de Santa Catarina, novo assalto (tímido) à Fnac. No cesto de compras, apenas mais três livros: "Boa Noite, Senhor Soares", do Mário Cláudio (com o expectro do Pessoa a pairar) e que vinha acoplado em promoção com a peça de teatro "Medeia", do mesmo autor; e "Grandes Enigmas da História de Portugal, vol. 1", para juntar à minha colecção maçónica.

No Porto, sê portuense. Assim, o jantar foi francesinha, no famoso Ricardo, em Leça, ventosa nessa noite. Apertados como sardinhas nas mesinhas pequeninas, mas a lamber os dedos todos antes de declinar a sobremesa. Depois, uma voltinha à Ribeira, para esmoer o ovo e as batatas fritas. Chá de hortelã-pimenta para ajudar à digestão na esplanada de um bar marroquino à beira Douro, espojados sem enleio numas almofadas de cetim e tafetá deitadas nas pedras do cais. Uma jovem canadiana, parece-me que se chamava Ashley, veio pedir-nos "fogo, per favore!" e obrigamo-la a pronunciar "i-s-q-u-e-i-r-o", o que podia ter sido traumatizante para uma anglo-saxona, mas a menina achou piada e sentou-se connosco. É de Vancouver e andava com duas amigas numa odisseia europeia. Tinha acabado de chegar do Algarve, como nós, e dentro de dois dias estaria em Barcelona. Queria saber o que se podia fazer no Porto num domingo à noite... A prima da Jess indicou-lhe dois ou três bares e a canadiana foi-se a saltitar de contente.

No regresso ao carro, estanquei diante de uma montra iluminada com livros e que parecia aberta. Eu, que sempre praguejo contra a falta de livrarias abertas à noite, senti-me atraído pela luz como uma libelinha tonta. "Clube Literário do Porto". Do primeiro andar provinha o som de um piano, tocando talvez Berlioz. Penetrámos. Obras de arte, esculturas, pinturas no hall de entrada, livros nas estantes, para consulta e venda. O livro "Canções e Outros Poemas" de António Botto voltou a piscar-me o olho de uma das mesas, andava a assediar-me desde o Algarve e ali, não lhe resisti. "Eu preciso completar a minha colecção dos poetas da época do Orpheu", desculpei-me perante o juiz das minhas próprias vozes.

No final das férias, quando foi o difícil momento de arrumar as malas, não consegui fazer desaparecer os 14 livros entre camisas e calções e tive que me resolver a enviá-los por correio. O que me custou mais 50 euros. Mas... isto para mim é que são férias, é para isto que elas servem: para repousar, refugiar-me do mundo e atestar-me em literatura. Ler, ler, ler... estendido numa toalha na praia, numa espreguiçadeira debaixo do alpendre da minha casa algarvia, numa esplanada de café a bebericar cappuccinos entre páginas, ou em qualquer outro lugar. Alguns amigos nunca conseguiram perceber porque perdia eu os poucos dias que vou de férias a ler! Não perco tempo, ganho, ganho anos de vida, amigos, aventuras, viajo. E eles ficam sempre desconcertados a ponderar na minha insanidade.

"Felizes são os loucos que vivem pouco mas vivem como querem."

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Mensagem


"Beware of the bearers
of false gifts and broken promises.
Much pain but there is still time. Believe There is still good out there. We oppose the decievers. Conduit is closing."

Trad.:
"Cuidado com os portadores de falsas prendas e promessas quebradas. Muito sofrimento, mas ainda há tempo. Acreditem que o bem ainda existe por aí. Nós opomo-nos aos desilusores. O canal está a fechar-se."

Segundo alguns matemáticos e astrónomos é esta a mensagem (em linguagem binária) decifrada nos "crop circles", desenhos gigantes descobertos nos campos de cereais (espigas deitadas = 0, espigas de pé = 1) encontrados nos meses de Agosto de 2000, 2001 e 2002 junto a um radiotelescópio em Chilbolton (a noroeste de Winchester), no Hampshire, no sul do Reino Unido.

Estas três figuras seriam a resposta à mensagem enviada por cientistas em linguagem binária em 1974 desde o rádiotelescópio de Arecibo, em Porto Rico, e que se pretendia uma espécie de cartão de visita da Terra: com a representação do homem, do sistema solar, do sistema decimal usado na nossa matemática, o número de habitantes da Terra (3,4 milhões em 1974; hoje somos pouco mais de 6 milhões), a composição das moléculas, dos açúcares essenciais à vida e do DNA humano, etc.

Uma das figuras encontradas em Chilbolton é o mesmo "cartão" enviado em 1974 mas "corrigido", nomeadamente quanto ao número de planetas habitados: três e não um único no sistema solar; a constituição das moléculas (reposicionamento do silício através do n°14 que não figurava na mensagem inicial) e do próprio DNA humano (com a inclusão da representação de nucleótidos considerados pelos biólogos como neutros ou sem importância na "hélice" humana); lê-se ainda que quem responde são os habitantes do quinto planeta e que os habitantes são 23 milhões.

Mensagem do futuro, de outra galáxia ou gigante falcatrua?
As mensagens apareceram da noite para o dia, ou seja, seria impossível concebê-las numa só noite e sem que ninguém desse por isso, já que se encontram a algumas centenas de metros do rádiotelescópio.

Para mim, o mais estranho é que o grosso desta mensagem já me tinha sido dada/transmitida/confiada em 1983 ... em sonho. Pensei que fosse influência das séries televisivas que eu via na altura.

sábado, 26 de julho de 2008

Chanteuse cherche groupe jazz

Chanteuse recherche musiciens pour jouer de la musique Jazz, Soul, Soft Latino et Bossa Nova en accoustique. Les intéressés peuvent appeler le 621 730 396 ou envoyer un mail à chocolateboxs@gmail.com. Merci.

Cantora procura músicos para formar grupo Jazz, Soul, Soft Latino e Bossa Nova, para concertos em acústico. Os interessados devem ligar para o 621 730 396 ou enviar um mail para chocolateboxs@gmail.com. Obrigado.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

De la tolérance

"Defender a tolerância implica negar qualquer validade analítica ou moral ao conceito de 'comunidade' . Uma democracia liberal é habitada por indivíduos e não por comunidades."

En français: "Défendre la tolérancc implique nier une quelconque validité analytique ou morale au concept de 'communauté'. Une démocratie libérale est habitée par des individus et non par des communautés."

Henrique Raposo
("O Racismo Cor-de-Rosa", Primeiro Caderno, pág.37, jornal Expresso, 10.07.08)

Comentário a propósito de uma certa opinião pública que considerou não dever juntar-se num mesmo bairro "comunidades étnicas com hábitos distintos", isto após o recente tiroteio entre um grupo de jovens ciganos e africanos no bairro Quinta da Fonte, em Lisboa.

Commentaire à-propos d'une certaine opinion publique qui a considéré qu'il ne fallait pas mélanger dans le même quartier des "communautés éthniques avec des habitudes distinctes", et ce aprés la fusillade entre un groupe de jeunes gitans et africains dans le quartier de Quinta da Fonte, à Lisbonne.

Kirchberg 2020

Fundo de urbanização do Kirchberg apresenta relatório de actividades 2007

Kirchberg vai ter 10 mil habitantes
e 30 mil trabalhadores em 2020

O bairro do Kirchberg vai crescer exponencialmente nos próximos anos. Em 2020, deverá acolher 30 mil postos de trabalho, 10 mil habitantes e 5 mil jovens estudantes. Actualmente, trabalham 20 mil pessoas naquele bairro, há dois mil moradores (mas mais de 10 mil habitações estão em construção) e o campus Kirchberg da Universidade do Luxemburgo (Uni.lu) recebe diariamente várias centenas de estudantes (sem contar os alunos da Escola Europeia).

Criado em 1961, o Fundo de Urbanização e de Ordenamento do Kirchberg é a entidade encarregada de gerir o crescimento do bairro e de criar condições para que a zona (constituída por terrenos agrícolas até aos anos 60) pudesse receber as instituições europeias. A 16 de Julho último, aquele organismo apresentou o relatório de actividades e as contas de 2007, mostrando que a situação financeira daquele estabelecimento público é boa, permitindo encarar o futuro com serenidade.

Durante os anos 90, o Fundo Kirchberg e o Estado luxemburguês acharam por bem transformar aquela parte da capital de simples zona de escritórios e instituições europeias e bancárias em verdadeiro bairro com zonas residenciais, comerciais e mistas. Era a maneira de aquela zona da cidade não continuar a ser um "bairro-fantasma" à noite e aos fins-de-semana. O Kirchberg foi assim dividido em cinco quarteirões: o quarteirão europeu sul, o quarteirão europeu norte, a zona do parque central, o Kiem e o Grünewald. Todos sofrem actualmente obras profundas.

Os dois quarteirões europeus agrupam a maioria das instituições europeias e as novas estru turas culturais, como o Museu de Arte Moderna (MUDAM) e a Philharmonie. A praça da Europa deverá estar concluída e ser oficialmente inaugurada no Outono de 2009. No mesmo ano, será inaugurado o Hotel Mélia (do grupo espanhol Sol Mélia), estrutura de quatro estrelas e 160 quartos.

Nas traseiras deste, o Forte Thüngen (futuro Museu da Fortaleza), espera também por uma data para a sua abertura oficial em 2009.

As obras no Centro de Conferências do Kirchberg e a ligação através de uma ponte envidraçada entre este e a Torre Alcide de Gaspéri (Héichaus) deverão estar terminadas em 2012.

Está ainda em fase de projecto a construção de um novo edifício Jean Monnet e de uma quinta extensão do Tribunal de Justiça Europeu, com uma terceira torre (a acrescentar às duas actualmente em construção).

UM BAIRRO À PROCURA DE MAIS MOBILIDADE

Para acolher o eléctrico em 2015, está já a ser redesenhada a intersecção Bricherhaff com a avenida central J.F. Kennedy, por forma a permitir uma melhor circulação entre os bairros vizinhos de Weimershof e Weimerskirch e a conexão transversal entre os quarteirões do Kirchberg.

O parque central destina-se, essencialmente, ao lazer (Coque e complexo K2), com espaços para jogos e com o parque Reimerwee. Durante o Verão, o parque acolhe o "Kiosk" (junto à Coque), pavilhão destinado ao repouso, ao lazer e com possibilidades de restauração rápida.

O quarteirão do Kiem (zona da Luxexpo, Auchan e Utopolis) acolhe centros de comércio e lazer, instituições bancárias e habitações. Em 2007, o Fundo Kirchberg realizou o primeiro estudo de urbanização da zona do Kuebebierg (a norte da Luxexpo) que poderá vir a ser igualmente transformada numa zona residencial. Mas a grande mudança que alterará profundamente o aspecto do quarteirão leste do Kirchberg acontecerá quando for construída a estação periférica comboio/eléctrico, que servirá para ligar a capital ao aeroporto do Findel. Está apenas por decidir se a futura estação ficará junto às instalações da Luxexpo ou no subterrâneo destas, segundo os projectos urbanísticos apresentados pelo gabinete AREP-Ville. A instalação do eléctrico deverá permitir mais facilidade de circulação de moradores e trabalhadores do Kirchberg, uma vez que só na avenue J.F. Kennedy estão previstas sete paragens: Luxexpo, Kennedy, Bricherhaff, Universidade, Coque, Parlamento Europeu e Tribunal de Justiça Europeu).

Ultimamente, a zona do Grünewald (zona do Centro Hospitalar do Kirchberg) conheceu igualmente uma forte expansão. Novas instalações de empresas foram construídas e um concurso público foi lançado em 2007 para o arranjo paisagístico dos espaços verdes daquela zona (regularmente visitados por alunos pela sua variedade botânica) para que se enquadrem com o parque Klosegroendchen, situado atrás do Hospital.

No novo site internet do Fundo Kirchberg (www.kirchbergonline.lu) podem ser encontradas informações mais detalhadas sobre o futuro do bairro .

F.Pinto/JLC, in Contacto, 23.07.08
Todas as imagens provêm do site
Fundo de Urbanização e de Ordenamento do Kirchberg

quinta-feira, 24 de julho de 2008

As 21 melhores lojas e comércios do país

Segunda edição dos prémios "Golden Ticket Awards"

Clientes elegem lojas preferidas

Os turistas incautos, os clientes transfronteiriços e até os habitantes queixam-se recorrentemente da falta de esmero no atendimento e das lacunas de profissionalismo no serviço prestado que dizem sentir em muitos estabelecimentos comerciais do Luxemburgo.

Para lutar contra essa má publicidade imputada aos comércios do país e porque o Governo luxemburguês quer que o Grão-Ducado se torne o principal pólo comercial da Grande Região, a Confederação Luxemburguesa do Comércio (clc), em parceria com a Federação dos Artesãos e a do sector hoteleiro & restauração (Horeca), lançou em 2007 os "Golden Ticket Awards 2008". O concurso visa eleger as lojas, cafés e restaurantes preferidos dos consumidores. Nesta segunda edição, foram distinguidos 21 estabelecimentos comerciais.

O Café Figueirense, situado no Grund, e gerido por Ana Maria Gomes Rodrigues, voltou este ano a ser distinguido na categoria "melhor escolha", prémio que já havia conquistado em 2007.

Os prémios foram entregues a 7 de Julho no novo centro de conferências junto à Sala Filarmónica do Kirchberg, numa cerimónia organizada pelas entidades promotoras do concurso. Durante o mês de Maio, os consumidores podiam encontrar em quase um milhar de pontos do país boletins e cupões em que deviam indicar as suas lojas, restaurantes e cafés preferidos. Participaram nesta segunda edição 17.550 pessoas, mais quatro mil do que na edição inaugural. O número de estabelecimentos comerciais participantes também havia duplicado relativamente a 2007, de cerca de meio milhar para 950.

Segundo a organização, o concurso pretende estimular a concorrência entre os actores económicos com o objectivo de melhor responder às expectativas e necessidades dos consumidores.

Durante a cerimónia de entrega dos prémios foi anunciado a realização do "Shops and Trends" (lojas e marcas), nome do primeiro Salão do Comércio, do Artesanato e da Horeca, a ter lugar na Luxexpo, no Kirchberg, a 20 de Outubro.

As 21 melhores lojas e comércios do país

Cafés e restaurantes:

Melhor decoração
: Foxy, Oberpallen;

Melhor ambiente: Urban, na capital

Melhor escolha: Café Figueirense, Grund;

Melhor relação qualidade/preço: Pizz. San Marino, Peppange;

Amabilidade: Vis-à-Vis, na capital;

As melhores, por zonas do país: Gran Sasso, Schieren (Norte); La Croisette, Remich (Este); Bacchus, capital (Centro); Ondine, Bettembourg (Sul);


Lojas:

Melhor decoração:
Centro Comercial Belle Etoile, Bertrange;

Montra mais bonita: Tapis Hertz, na capital;

Melhor escolha: Asport, Ingeldorf;

Melhor serviço pós-venda: Chaussures Zanni, Rumelange;

Amabilidade: Chaussures Léon, na capital;

Pequenas lojas:

As melhores: Calliste, em Diekirch (Norte); Josée R. Härebuttek, Grevenmacher (Este); Bijouterie Kass-Jentgen, na capital (Centro); Chaussures Haas, Esch/Alzette (Sul).

Grandes lojas:

A melhor: Centro Comercial Pall Center, Oberpallen;

Prémios do júri : Modes Anny Wirth, Rédange; e Auberge du Lac, Bavigne.

JLC, Contacto, 23.07.08

quarta-feira, 23 de julho de 2008

Indexação dos salários: crónica de uma morte anunciada

Durante o congresso dos cristão-socais em Hesperange, Juncker pessimista

Indexação dos salários:
crónica de uma morte anunciada
Para o primeiro-ministro luxemburguês, Jean-Claude Juncker, o Governo só poderá restabelecer a indexação automática dos salários ("index") após 2010, dada a conjuntura económica do país e do mundo.
Juncker considera ser possível "voltar a aplicar o 'index'", mas só depois de 2010, e na condição de a inflação descer abaixo dos 2%", ressalvou (actualmente esta situa-se nos 4,3%).
No congresso do CSV (Partido Cristão-Social), que teve lugar a 16 de Julho, em Hesperange, durante o qual fez estas declarações, Juncker chegou mesmo a aconselhar o seu partido a não usar o "index" como argumento de campanha eleitoral para as Legislativas de Junho de 2009. Preconizando "prudência" nas promessas e nos prazos a anunciar para a reintrodução da indexação, o chefe de Governo foi claro com os militantes e líderes do CSV: "Devemos dizer a verdade às pessoas, e a verdade é que teremos de nos habituar a viver com preços altos".
Juncker fez notar que a situação financeira do país já conheceu tempos mais faustos: o crescimento económico desceu de 6,1 para 3 % entre 2006 e 2008 e as receitas provenientes dos impostos ou de taxas, como as do tabaco, foram inferiores a anos anteriores. Acrescente-se a subida constante da inflação e os inflamáveis preços do petróleo, e "nada é menos certo do que o Orçamento de 2009 seja positivo", alertou.
Jean-Claude Juncker criticou ainda sindicatos e organismos que reclamam, a todo o custo, o regresso da indexação.
É preciso saber ler entre as linhas neste pessimismo de Juncker: caso a economia mundial continue na mesma senda e a inflação no Luxemburgo não desça abaixo dos 2 %, nem em 2010 nem nos anos seguintes, então estamos a assistir à morte anunciada da indexação.

Comentário:
O "joker" (de) Juncker
Juncker não disse claramente se seria candidato às Legislativas de 2009, mas todos os membros do partido cristão-social (CSV) conhecem já a resposta...Foto: Anouk AntonyDurante o congresso do CSV (ver artigo principal), o primeiro-ministro Jean-Claude Juncker não disse claramente se seria candidato pelo partido às eleições legislativas de Junho de 2009.
Como habitualmente, Juncker gosta de deixar pairar o "ténue mistério" e no momento derradeiro sabe que o partido lhe outorga liberdade suficiente para tomar uma decisão.
Desta vez, Juncker limitou-se a afirmar lacónico: "Farei tudo para que o meu partido vença as eleições". Eu traduzo: se as sondagens efectuadas semanas antes do sufrágio indicarem que sem um chefe-de-fila carismático o CSV se arrisca a perder as eleições (o partido está no Governo desde 1979!), então Juncker assumir-se-á claramente como cabeça-de-lista.
Caso contrário, Juncker terá liberdade de pensar noutros horizontes. Bruxelas parece cada vez menos uma opção, com o posto de presidente da União Europeia, a que almejava, seriamente comprometido (depois do "não" irlandês ao Tratado de Lisboa, que previa a criação desse cargo em 2010) e com Durão Barroso sucessor ao seu próprio lugar como presidente da Comissão Europeia (cargo para o qual Juncker chegou a ser apontado).
Mas como Juncker está habituado a guardar sempre um "joker" na mão, esperemos então pelas cenas dos próximos capítulos.

José Luís Correia, in Contacto, 23.07.08

terça-feira, 22 de julho de 2008

26.07.08, 20h00 - Trifolion Echternach: O Fado sensual de Telmo Pires

Telmo Pires, o fadista dos pés descalços

O jovem fadista Telmo Pires actua no Centro Cultural Trifolion de Echternach no sábado, 26 de Julho, às 20h.
O artista costuma apresentar-se de pés descalços no palco, e quem o viu associa-o à postura do toureiro na arena, numa atitude assumidamente sensual e erótica. As suas actuações caracterizam-se por serem verdadeiras performances físicas.
O artista nasceu em Lisboa, e cresceu entre Berlim e Paris, mas foi na Alemanha que começou a carreira artística. Hoje, aos 36 anos, faz parte da nova geração de fadistas portugueses que cantam a canção nacional com paixão e sensualidade, rompendo com o lugar comum do fado triste e melancólico.
As vivências urbanas que foi recolhendo entre Lisboa, Paris e Berlim, as raízes lusitanas que sempre cultivou e as influências dos músicos berlinenses que cruzou produzem um fado único, um "fado ibérico", um "fado-mundo", mesclado de elementos da esfera do jazz, do blues, do tango e do flamenco.
Telmo Pires gravou em 2004 um primeiro trabalho discográfico intitulado "Passos" e, dois anos depois, "Atravez do fado" [SIC], álbum que apresentará no Luxemburgo.

José Luís Correia, in Contacto, 16.07.08

sábado, 19 de julho de 2008

As primeiras compras feitas no Festival da BD de Contern

















Sábado:
Pequeno-almoço na pastelaria Fournée Dorée, em Esch, a tempo de recuperar numa costureira um casaco ao qual tinha mandado refazer as mangas.
Comprar uns ténis novos na Asport onde estão a fazer super-promoções. Almoço: uma mettwurst e uma cerveja; sobremesa: gelado e crepe com chocolate. O dia está parvo, ora chove, ora rompe o sol. Welcome to Luxembourg!
Uma voltinha ao Festival de BD de Contern, hesitei nos pósteres, nas figurinas do Charlie Brown (4 euros cada uma!), decidi-me por duas BD e a Jess por outras duas.
Jantar: no Restaurante Algarve com dois casais amigos.
Night: Festival Blues&Jazz no Grund.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Luxemburgo: o impacto do crescimento da população nos preços imobiliários

Jovens cristãos-sociais da capital reivindicam

Crescimento da população não deve afectar subida dos preços imobiliários

A secção da capital dos Jovens Cristãos-Sociais (CSJ/Stad) teme que o crescimento da população previsto para a cidade do Luxemburgo leve ao aumento dos preços imobiliários.

A preocupação da juventude partidária da capital baseia-se em números avançados pelo estudo que prevê reformar o Plano de Ordenamento da cidade do Luxemburgo (PAG) e que indica que a população da principal urbe do país deverá crescer cerca de 39 % até 2020, notam em comunicado. O que significa que os habitantes da cidade do Luxemburgo, actualmente calculados em cerca de 85.500 (dados de 2008 do Statec), passariam a ser cerca de 120 mil em pouco mais de uma década (c. + 34 mil pessoas).

Para o CSJ/Stad, a previsão prova a "atracção que a cidade exerce sobre novos moradores, bem como a sua robustez económica", mas, ressalva aquela secção, "este crescimento coloca a questão da repartição demográfica no território da autarquia e do desequilíbrio já existente entre vários bairros". Nos últimos anos, fazem notar os jovens, enquanto se assiste a uma "redução da população na parte alta da cidade e no Pfaffenthal", bairros como "Eich, Cents, Kirchberg e Neudorf têm-se desenvolvido de forma constante".

Apesar de o plano de ordenamento da cidade prever uma melhor repartição da população no território desta, por forma a evitar precisamente este tipo de discrepâncias, a juventude cristã-social teme que o plano não resolva o problema dos preços da habitação, o que em termos imobiliários se traduz por a capital do Grão-Ducado ser hoje a segunda cidade mais cara da Europa – o primeiro lugar é detido por Londres! –, recordam.

Desafiando todos os responsáveis políticos a reagirem face à subida dos preços da habitação, a secção dos jovens cristãos-sociais apela sobretudo a autarquia da capital a disponibilizar mais terrenos para a construção de casas e apartamentos a preços moderados e acessíveis.

JLC, in Contacto, 09.07.08

quarta-feira, 16 de julho de 2008

XV Festival BD de Contern: 19 e 20 Julho

19 e 20 de Julho: 15° Festival de BD em Contern

E se bonecos evadidos de mundos fantásticos ou heróis multicolores de capa ao vento de repente invadissem a sua rua? Pode parecer ficção, mas é o que os habitantes de Contern vivem anualmente, em Julho. E não parecem traumatizados. Antes pelo contrário. O Festival de Banda Desenhada (BD), que acontece pela décima-quinta vez, a 19 e 20 de Julho, rejuvenesce a pacata localidade durante dois dias por ano. Para alegria de grandes e pequenos, dos 7 aos 77 anos, que acorrem ao evento.

Contern (situada a poucos quilómetros a leste da capital) transforma-se em aldeia da nona arte. Durante todo o fim-de-semana, a aldeia é fechada ao trânsito e os visitantes são convidados a deambular a pé entre centena e meia de expositores, cruzando-se com bonecos e heróis de BD, folheando as suas obras preferidas, descobrindo colecções raras, cavaqueando com autores tão conhecidos como Bédu, Daniel Hulet ou Raoul Cauvin, mas também com os luxemburgueses Lucien Czuga, Roger Leiner, Fern Weirich e até o promissor e jovem ND (Andy Genen), de 26 anos. As sessões de autógrafos decorrem no hall desportivo da localidade.

Horários: sábado e domingo, das 10 às 19h. Entrada: 3 euros/adultos; livre para crianças até aos 12 anos. Acesso ao local: em autocarro gratuito desde a gare de Sandweiler. Estacionamento gratuito possível numa pradaria à entrada da aldeia.

JLC, in Contacto, 16.07.08

terça-feira, 15 de julho de 2008

In memoriam: Bronislaw Geremek

Bronislaw Geremek morreu domingo num trágico acidente de viação, a oeste da Polónia, perto de Lubień. Tinha 76 anos. A Polónia e a Europa perderam um democrata.

Para perceber quem foi Geremek, é preciso fazer uma breve leitura aos últimos anos da história política daquele país.

O universo político polaco: da direita liberal à extrema direita

Depois do despertar difícil nos anos 90-pós muro de Berlim, a Polónia começou a dividir-se em duas alas ditas da direita, embora politicamente tenha surgido uma multiplicidade de partidos políticos das mais variadas sensibilidades, num cenário idêntico e por vezes mais multifacetado até do que em alguns dos paises da Europa Ocidental. Mas, em traços largos, há sobretudo duas grandes tendências políticas. De um lado, os "progressistas", da direita liberal, distribuídos por vários partidos, onde militam jovens, população urbana e alguns ex-Solidarność, ávidos de fazer avançar o país nos passos da democracia, de Bruxelas, do capitalismo, da inovação tecnológica. Exemplo disso foi o boom dos media e da tecnologia da informação que o país viveu. Algumas etapas foram inclusive queimadas nesta fuga para a frente e grande parte da população teve dificuldades em aprender a lidar com a mentalidade e as liberdades de uma economia de mercado.

Do outro lado, o mundo rural, que naquele imenso país ainda é parte substancial da população e que se tem deixado ingenuamente levar nas "cantigas" dos conservadores, muitos deles ex-comunistas, nomes inclusive conhecidos do antigo apparatchik polaco, mas que, de um súbito, assim como antes defendiam com unhas e dentes a velha senhora comunista (oficialmente, já não há comunistas na Polónia!), com a mesma ferocidade advogam hoje políticas ditas da "direita dura", quando não são descaradamente de extrema direita: desde a "defesa da moral patriótica" ao proteccionismo, passando por atitudes totalmente anti-UE. Exemplo disso, são os irmãos Lech e Jarosław Kaczyński, do partido ironicamente apelidado de "Direito e Justiça" ("Prawo i Sprawiedliwość"- PiS). O primeiro é o actual presidente da Polónia e tem-se pronunciado publicamente contra: a Constituição Europeia, o Tratado de Lisboa, os direitos dos homossexuais, o aborto, a eutanásia, etc. Em 2006, chegou mesmo a nomear como primeiro-ministro o seu próprio irmão gémeo, Jarosław, num exemplo de democracia vergonhoso para Varsóvia.

Na ala da direita, ainda mais à direita (sim, é possível!), é preciso não descurar demogogos "perigosos" como Andrzej Lepper, do partido "Samobroona" (literalmente: auto-defesa), populista, nacionalista e extremista que chegou a fazer parte do Governo Kaczyński, felizmente não o tempo suficiente para fazer demasiados estragos.

A "consciência" da Polónia

E Geremek nisto tudo? Geremek situava-se no justo meio que caracteriza o bom senso e o equilíbrio que a Polónia necessita há muito. Membro do partido liberal de centro-direita "União das Liberdades" ("Unia Wolnosci "-UW, que nasceu como uma das variantes do movimento operário Solidarność, nos anos 90), Geremek era assim eurodeputado do partido mais pró-europeu da esfera política polaca, o que era simplesmente a continuação natural de todo o seu percurso político no seu país.

Geremek foi um dos sobreviventes do gueto de Varsóvia durante a II Guerra Mundial. Militante comunista desde cedo, entrou em dissidência com Moscovo quando a URSS decidiu endurecer a sua linha política a partir de 1968. Foi um dos fundadores de um dos primeiros partidos "democráticos" polacos em 1976. Em 1980, juntou-se à luta de Lech Wałęsa no Solidarność, chegando a ser preso por Jaruzelski em 1981. Depois da queda do muro de Berlim, fez parte do Parlamento polaco (Sejm), foi ministro dos Negócios Estrangeiros entre 1997 e 2000, tendo sido a pessoa que negociou a entrada da Polónia na NATO. Foi eleito em 2004 para o Parlamento Europeu. No mesmo ano, quase derrotou Josep Borrell na eleição para a presidência daquela instituição.

Licenciado em História, escreveu diversas obras sobre a história cultural do seu país ou sobre a história social francesa, entre muitos outros livros e artigos publicados na imprensa internacional (Washington Post, Le Monde Diplomatique, Gazeta Wyborcza, etc). Foi ainda docente na Sorbonne e no Colégio da Europa de Bruges.

Foi acima de tudo um grande defensor da democracia antes e depois da queda do muro de Berlim, dentro e fora do seu país, um humanista e um intelectual de grande vulto, e um europeísta convicto. Houve quem chegasse a apelidá-lo de "a consciência da Polónia".

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Ingrid Betancourt proposta para o Prémio Sakharov

Libertada a 2 de Julho das mãos dos guerrilheiros das FARC

Ingrid Betancourt proposta para o Prémio Sakharov

Ingrid Betancourt, antiga candidata presidencial dos Verdes colombianos, foi libertada a 2 de Julho na sequência de uma operação militar contra a guerrilha das FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), ao fim de mais de seis anos de cativeiro. Já foi, entretanto, proposta para ser candidata ao Prémio Sakharov.

A mais famosa refém de sempre, como chegou a ser chamada pela imprensa, a senadora franco-colombiana Ingrid Betancourt, foi libertada pelo exército colombiano a 2 de Julho, em conjunto com o luso-americano Marc Gonçalves, dois norte-americanos e 11 militares colombianos sequestrados pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). A operação militar sem precedentes foi minuciosamente preparada ao longo de quatro meses e contou com a colaboração, pelo menos logística, do exército israelita e norte-americano, embora ainda se desconheçam todos os pormenores do envolvimento dos dois países nesta libertação.

"Quero primeiro dar graças a Deus e aos soldados da Colômbia", declarou Ingrid à rádio Caracol, algumas horas depois da sua libertação, acrescentando que "a operação foi absolutamente impecável".

"Acredito (que estas libertações) são um sinal de paz para a Colômbia", afirmou ainda.

Ingrid Betancourt, 46 anos, estava refém da guerrilha marxista das FARC desde 23 de Fevereiro de 2002. A então candidata ecologista pelo partido Oxigénio Verde à presidência da Colômbia aventurara-se no território da guerrilha para tentar conversações com esta, mas acabou sequestrada durante mais de seis anos.

Ingrid foi deputada, depois senadora, tendo-se destacado por ser um líder político sem cedências. Lutando pela democracia na Colômbia, activa defensora da ecologia, demonstrou desde sempre a sua feroz oposição contra as FARC, a corrupção política e o narcotráfico, e era já, antes de ser raptada, um símbolo de resistência e luta no seu país. Tentou escapar por cinco vezes, e apesar de, nos últimos tempos, estar fisicamente debilitada, nunca baixou os braços durante os 2.321 dias de penoso cativeiro.

Comovente foi o encontro de Ingrid Betancourt, na quinta-feira, com as mãe e os filhos, que não via há mais de seis anos. Mélanie (21 anos) e Lorenzo (19 anos) chegaram a Bogotá, vindos de Paris, acompanhados pelo pai, num avião especialmente fretado pelo Eliseu, a pedido do presidente francês Nicolas Sarkozy.

Ao longo de mais de seis anos, Mélanie e Lorenzo revelaram-se verdadeiros "Filhos Coragem". Sensibilizando incansavelmente políticos e a opinião pública para o rapto da mãe e para os sequestros das FARC, casos que até aí haviam sido marginalizados pela imprensa europeia e internacional, multiplicaram-se em conferências, marchas e comités de apoio. Foram várias vezes recebidos por Sarkozy, enquanto ministro, no anterior Executivo francês, e depois, já como presidente.

Sarkozy, que se comprometera pessoalmente aquando da sua eleição em fazer tudo pela libertação da franco-colombiana, tentara um salvamento da refém, através de uma certa "diplomacia à força", em Abril, após notícias de que Betancourt estaria tão debilitada fisicamente que se temia pela sua vida. A operação viria a fracassar.

Finalmente reunida com os seus filhos, Ingrid demonstrou vontade de vir para França, onde chegou no sábado. A família foi acolhida por Sarkozy, a quem a ex-refém agradeceu "tudo o que o presidente francês fez" por ela e a quem chamou de "homem extraordinário". Ainda em Bogotá, Betancourt tinha declarado dever muito à sua "douce France" (querida França), o seu país de adopção (Ingrid adquiriu a nacionalidade francesa quando casou em 1981 com Fabrice Delloye, pai dos seus dois filhos, tendo-se divorciado deste em 1990).

A 4 de Julho, a delegação do PSD ao Parlamento Europeu propôs Ingrid Betancourt como candidata ao Prémio Sakharov 2008, considerando que a ex-refém franco-colombiana é daqui para a frente "uma das faces mais visíveis do combate pela liberdade de expressão".

Por seu lado, a Amnistia Internacional (AI) congratulou-se com o resgate dos 15 reféns, mas exigiu a libertação "imediata e incondicional" dos restantes sequestrados na posse das FARC, que se estimam em cerca de três mil, segundo várias organizações humanitárias internacionais.

José Luís Correia (com agências)
in Contacto, 09.07.08
Fonte da foto: wikipedia