sebenta de anotações esparsas, pensamentos ociosos, reflexões cadentes, poemas difusos, introspecções de uma filosofia mais ou menos opaca dos meus dias (ou + reminiscências melómanas, translúcidas, intra e extra-sensoriais, erógenas, esquizofrénicas ou obsessivas dos meus dias)
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cahier de notes éparses, pensées oisives, réflexions filantes, poèmes diffus, introspections d'une philosophie plus ou moins opaque de mes journées (ou + de réminiscences mélomanes, translucides, intra-sensorielles et extra-sensorielles, érogènes, schizophrènes ou obsessionnelles de mes journées)

domingo, 6 de janeiro de 2008

Dos sacerdotes zoroástricos da Pérsia e de como interviram na génese dos cadernos do gaspar

Com o raio de nome com que meus progenitores e minhas tias me deram na pia baptismal, nunca me ocorreu falar do outro meu ilustre homónimo, senão o primeiro Gaspar de uma grande linhagem. A origem de meu digníssimo antecessor é dúbia e a primeira referência que se lhe faz não é na Bíblia, como se possa pensar. O Evangelho de S. Mateus (Mt 2,11) é aliás o único dos quatro evangelhos reconhecidos a evocar uns vagos "magos", sem dizer quantos eram nem revelar nomes. Um outro Evangelho, o texto apócrifo de S. Tiago (séc. II), também se refere a estes, mas sem acrescentar nada de novo ao texto de Mateus.

A primeira referência biográfica aparece num documento escrito por São Beda em inícios do século VIII. É ele quem tece uma biografia de Gaspar e dos seus dois companheiros de viagem. Estes teriam trazido do Oriente mirra, incenso e ouro ao menino Jesus. Talvez daí se tenha depreendido que eram três. É a estas ofertas que se deve a tradição da nossa troca de presentes no Natal.
Gaspar é descrito como o mais moço dos três. Uns textos dizem-no asiático, outros persa. São Beda diz que Gaspar seria originário de uma das regiões montanhosas nas margens do Mar Cáspio. Seria mago ou sacerdote zoroástrico. É ele quem traz o incenso ao menino.

Tenho em comum com esse ancestral homónimo o continente (Os Weytjens são originários de Goa) e o deleite de deixar-me, em serões zen, guiar pelas constelações e seduzir pelas fragrâncias tranquilizadoras desse extracto de terebintácea que é o incenso.

Ah, mas o ponto comum mais importante: mesmo se segundo algumas teorias, não há maior crime do que a libertinagem para a religião de Zaratustra, segundo estudos recentes de investigadores universitários franceses, alguns contos femininos zoroástricos teriam estado na origem dos contos eróticos de Sherazade. E não foram "As Mil e Uma Noites" (que o meu amigo Luís Castro - quando ele ainda morava no Montenegro - guardava entre a televisão e a velha consola Amiga Commodore) os primeiros livros a fazerem-me mergulhar, a puxarem-me, que digo, a sugarem-me para esses fabulosos mundos onde tudo era permitido e os tabus derretiam como neve ao sol.
Eu..., um adolescente borbulhento e intimidado...deparava-me de repente em plenos lupanares assistindo aos faustos e caprichos sexuais desses califas impotentes, por debaixo de clarabóias onde espreitava a lua crescente, os coitos arrebatados nos haréns das alas secretas dos palacetes ou nos jardins interiores floridos, junto à fonte de todos os amores, as princesas sófregas, as odaliscas mouriscas, os alcoices nos oásis perdidos, os prostíbulos nos dédalos dos souks, os eunucos aparentemente inofensivos mas de dedos prodigiosos e línguas hábeis...
Nesses tempos acneicos serviam-me essas leituras, heu, ...voluptuosas, de inspiração para as minhas poluções nocturnas. Nunca pensei eu próprio vir a escrevê-las.
Desenhos: "Point of Eternal Light" de Brian Whelan, "Odalisque Slave" de Dominique Ingres e "Odalisque" de Mariano Fortuny

sábado, 5 de janeiro de 2008

Lisboa-Dakar 2009: optar por outro destino!

Na sequência da anulação do Lisboa-Dakar 2008 e seguindo proposta de um concorrente do ráli e do co-bloguista António do blog Maracujá, venho por este meio publicamente exaltar o génio de improviso português que nos caracteriza para que Portugal lance uma alternativa ao Lisboa-Dakar, que já era uma versão "light" do Paris-Dakar. Porque não antes optar por um upgrading da prova, como o António propõe. António sonha num Costa à Costa: Lisboa-Macau. Eu acrescentaria Costa à Costa à Costa, propondo para 2009 o Ráli Lisboa-Vladivostok-Macau (ou Lisboa-Macau-Vladivostok).

Porque seria Dakar sempre o destino privilegiado deste ráli-aventura? Porque não alterar o itinerário todos os anos, um ráli transcontinental com destinos como a Sibéria, Mongólia, Índia, Tailanda, Vietname, Oman. Infelizmente, os destinos africanos ficam postos em causas pelos conflitos etnicidas que varrem o continente. Seria também uma grande aventura um ráli ligar a Lapónia à Cidade do Cabo, não?

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

assuntos do dia

Mr Nicholas vs Prof Sarko
O Prof. Sarkozy quer anotar como alunos da escolinha os seus ministros. Talvez assim ele encontre um argumento de peso para demitir os ministros que não lhe obedecem. Como a querida e inteligente Rama Yade, secretária de Estado do Ministério dos Negócios Estrangeiros e Assuntos Europeus, encarregada da pasta dos Direitos do Homem, que ousara dizer que "a França não é um capacho", quando criticou a visita do presidente líbio, Khadafi, a Paris, a convite do seu homólogo francês.
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Obama rules!
Destaca-se no pelotão, Barack Obama, candidato democrata que mais votos obteve no conservador Iowa, o primeiro estado norte-americano a proncunciar-se nas primárias das eleições presidenciais norte-americanas, previstas para 4 de Novembro.

Se a Hillary ganhar as preferências democratas, também torcerei por ela, mas parece-me que o espectro do Bill ainda paira. Ou talvez os norte-americanos entendam a candidatura dela como uma tentativa de sucessão hereditária dos Clinton no poder. Mas se isso os preocupasse deveras não tinham eleito e reeleito o filho de um ex-presidente.

No campo republicano, é pior a emenda que o soneto: ganhou as preferências do eleitorado iowano um outsider: o pastor ultra-conservador Huckabee. Sem a experiência e recursos financeiros dos seus concorrentes de partido, mas que se pode revelar um perigo por ser orador experimentado e saber tocar no americano médio nos temas sensíveis que mais sensibilizam a opinião pública norte-americana.
Guiliani não quis submeter-se ao voto do Iowa, mas já reiterou que a sua preocupação principal, se for eleito, será a guerra contra o terrorismo. Ou seja: Bush IV, o regresso de um novo Jedi.

Próximas primárias: New Hampshire! A observar com atenção.
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Aqui no burgo
Das manchetes do Essentiel que são cada vez mais no espírito da página 3 do Bild. Hoje, a sulfurosa Kelly Brook (nada a ver com a lindíssima Kelly LeBrook do filme "Woman in Red" de 1985), deu a volta à cabeça dos golden boys aqui da praça. Brook foi considerada, numa sondagem britânica, a mulher tendo as dimensões perfeitas.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Ano Internacional
(da Lógica) da Batata


Quo vadis 2008? Para onde vais 2008? Ou melhor: Para onde nos levas?, poderíamos nós perguntar circunspectos da soleira deste ano bissexto que ainda agora se enceta.

A assembleia geral das Nações Unidas proclamou 2008 Ano Internacional do Planeta Terra, da Batata e das Línguas. Três temas que podem parecer secundários à primeira vista mas que são verdadeiras questões-pano de fundo da actualidade. A ONU pretende sensibilizar a opinião pública mundial para a preservação não só do meio ambiente como do próprio Homem.

A promoção da batata visa lembrar a importância que esta pode desempenhar na luta contra a fome e a pobreza mundiais, como este tubérculo já o havia protagonizado no século XVI, quando espanhóis e portugueses o importaram do Novo Mundo e resolveram – com um legume fácil de produzir e barato de consumir –, os problemas de má nutrição que subsistiam há séculos na velha Europa. E se a solução funcionou há quatro séculos porque não aplicá-la hoje nos países mais pobres? É a "lógica da batata" em todo o seu esplendor! A solução para a fome no Mundo era mais do que óbvia, só que teimávamos em não entender.

Promovendo simultaneamente neste ano as Línguas, a ONU pretende não só salvaguardar o Homem enquanto "sistema físico-químico" (como diria Fernando Pessoa), mas também o seu espírito, pela mais-valia socio-cultural que a diversidade linguística acrescenta ao património que este legará às gerações vindouras.

Na mesma senda, Bruxelas é mesmo mais arrojada, ao declarar 2008 Ano Europeu do Diálogo Intercultural. A União Europeia mostra que o caminho certo não está apenas em defender as línguas e as culturas dos diferentes povos, mas de os pôr a dialogar entre si. Foi este, aliás, um dos princípios que lhe deu origem e a consolidou como espaço de paz duradoura e de cooperação mútua entre os estados que a integram. Pudessem esses valores universalizar-se com os mesmos propósitos.

Na sua declaração "Urbi et Orbi" (à Cidade e ao Mundo), proferida a 25 de Dezembro e em antecipação ao Dia Mundial da Paz (que se assinala a 1 de Janeiro), o papa Bento XVI foi dos primeiros a dar o tom. Denunciando o uso abusivo dos recursos naturais e recordando os desastres ecológicos do passado, o Sumo Pontífice pediu aos governantes mundiais que encontrassem "soluções humanas, justas e duradouras" para os conflitos e crises que afectam o planeta, acrescentando que isso deveria ser conseguido "com sabedoria e coragem".

Mais fácil dizer do que fazer, pensarão muitos. Basta haver homens de boa vontade... política! Porque são fundamentalmente essas as qualidades a que a Humanidade deverá fazer apelo na encruzilhada política decisiva que 2008 prognostica ser.

Em Março, Putin passa o testemunho a Medvedev, mas deverá continuar a ser o marionetista-mor por detrás das grandes linhas directrizes da Rússia.

Em Novembro, as eleições norte-americanas revelarão com quem o pupilo de Putin deverá contar no xadrez político internacional para discutir espinhosos e sensíveis dossiês como o Iraque, o Irão, a Palestina, mas também o aquecimento global (Protocolos de Kioto e a Conferência de Bali).

Se os Estados Unidos voltarem a apostar num republicano (Rudy Giuliani, por exemplo, presidente da Câmara de Nova Iorque durante os ataques do 11 de Setembro de 2001), a linha política de Washington não deverá mudar de um palmo.

Em contrapartida, o mapa político mundial pode alterar-se significativamente se a Casa Branca for ocupada por um democrata (a ex-Primeira Dama, Hillary Clinton, que se tornaria a primeira mulher a ocupar o cargo; ou o mulato Barack Obama, que seria o primeiro cidadão de origem afro-americana a chegar ao gabinete oval). Como mudou quando os americanos catapultaram Bush para o poder, com a série de desencadeamentos políticos e económicos globais que hoje se conhecem. O seu sucessor terá de saber lidar não só com essas questões de política externa que influem directamente nos preços "inflamáveis" do petróleo, mas também com a crise dos empréstimos imobiliários que assola os EUA e ameaça atingir como um tsunami a economia britânica e consequentemente a europeia.

E a China? Após a euforia económica chinesa que está preceder os Jogos Olímpicos (que começam a 8 de Agosto), sofrerá o gigante económico um abrandamento conjuntural? Com que consequências para a economia mundial? Serão as Olimpíadas – encaradas este ano como um verdadeiro desafio político – boicotadas pelos defensores dos direitos humanos ou pelos ecologistas, assuntos que Pequim tem "olimpicamente" ignorado de forma arrogante e autista?

Se se souber discutir todas essas e outras matérias com mais "sabedoria e coragem", como preconiza Bento XVI, ficará assegurado o nosso futuro comum. Também isso parece óbvio como a "lógica da batata". A paz, afinal, é como as batatas: cultiva-se!

(José Luís Correia, in "Contacto", 02/01/08)



quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Uma das boas resoluções para 2008



















Pic enviado pela Beta
Sim, a J e eu, aqui no burgo, também tomámos essa boa resolução.
- Eu cá começo uma dieta todas as segundas-feiras.
- Às terças, juro que vou cumprir.
- Às quartas, prometo que a partir da próxima segunda-feira é que é mesmo! ;-)

Imagem: com a devida vénia ao blog www.penelope-jolicoeur.com

segunda-feira, 31 de dezembro de 2007



Feliz Ano 2008
Bonne Année 2008
Happy New Year 2008
Ein gutes neues Jahr 2008
Felice Anno Nuovo 2008
laimīgu Jauno gadu 2008
E gudd neit Joër 2008
Feliz Año Nuevo 2008
Szczęśliwego Nowego Roku 2008
Gelukkig Nieuwjaar 2008
С Новым Годом 2008

domingo, 30 de dezembro de 2007

O x-ufo do meu irmão



O último hobby do meu irmão: um quadricóptero x-ufo que ele próprio construiu. É nisto que passam as suas economias e as horinhas todas dos seus tempos livres. À vista do resultado, valeu a pena. Posso dizer-vos que as emoções da velocidade do aparelho e os loopings fizeram esquecer os graus negativos na pradaria gelada de Belvaux, 25/12/07.

Concepção, montagem e realização: Fred Correia. Eu só filmei.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

EXPLICIT

Gaspar is back. Mentes inocentes e púdicas, abstenham-se!
Avisa-se que este blog pode derivar para extremos a que alguns leitores não estão habituados desde o volume 1.

Há cerca de mil sem-abrigo no Grão-Ducado

127 portugueses sem-abrigo no Luxemburgo,
que sobrevivem com quase nada

Pedro, Sónia e Humberto são alguns dos 127 portugueses sem-abrigo ou a viver em situação precária no Luxemburgo. Sobrevivem com garra, coragem e o apoio de instituições de ajuda aos sem-abrigo. O CONTACTO foi ao seu encontro.

Pedro (*) tem 31 anos. É recém-chegado ao país e à "rua". O seu rabo de cavalo debaixo do gorro amarelo e a barba de três dias encaixam na imagem preconcebida que temos das pessoas que vivem na rua. Ideias preconceituosas que frequentemente estalam como verniz ao primeiro contacto que temos com essas pessoas, seres humanos como nós. É o que acontece quando metemos conversa com o Pedro. Tem um jeito educado, palavras rebuscadas e exprime-se num português correcto. Emigrou há três anos de Santa Comba Dão para o Luxemburgo, com a promessa de um emprego no sector industrial da carne. Mas passado pouco tempo foi despedido.

"Desossava porcos, era um trabalho bem pago, mas difícil. Depois fiquei no desemprego e com tão pouco tempo de trabalho no Luxemburgo, não tive direito ao fundo de desemprego nem ao Rendimento Mínimo Garantido (RMG). Depressa fiquei sem local onde morar", conta ao CONTACTO. Por isso, tem vivido na rua e no centro para sem-abrigo "Abrigado", em Bonnevoie, onde disse que tem recebido "muito apoio".

"Não quero voltar a Portugal, pelo menos, por enquanto. Quero reencaminhar a minha vida por aqui", afirma. Pedro garante que "nunca" enveredou pela droga ou pelo álcool, mas admite que "é verdade que é fácil cair nesses vícios quando se vive na rua".

"É o caminho mais fácil para esquecermos o rumo que a nossa vida tomou. Mas nunca digo que estou mal e hei-de fazer tudo para sair desta situação", garante com garra e coragem no olhar.

De acordo com números da associação luxemburguesa de apoio aos sem-abrigo "Stëmm vun der Strooss" ("A Voz da Rua"), há cerca de um milhar de pessoas sem-abrigo no Luxemburgo, das quais 12,65 % são portugueses (ver artigo infra).

Foi precisamente nas instalações da associação em Bonnevoie que nos encontrámos com alguns sem-abrigo portugueses.

A associação tem uma portuguesa a trabalhar como empregada de limpeza. Maria (*) tem 42 anos, é natural de Mortágua e chegou ao Luxemburgo em 1970. Não gosta de falar dos caminhos que a vida lhe trocou e que a levaram até à "Stëmm". Não tem filhos nem é casada. Com alguma vergonha e timidez conta que chegou ali "simplesmente para combater a solidão". Recebe o RMG – "cerca de mil euros – mais 300 da 'Stëmm'", o que dá menos do que ordenado mínimo luxemburguês, que ronda os 1.503,42 euros mensais para pessoas não qualificadas e os 1.804 para as qualificadas.

Um dos voluntários que ali colabora gosta de ser chamado "Angolano". Tem 44 anos e trabalha no bar da associação desde a Primavera. É electricista de formação e conta orgulhoso ao CONTACTO que em Janeiro vai assinar contrato para exercer a sua profissão.

"Cheguei ao Luxemburgo em 1986, trabalhei na hotelaria, depois como electricista, e também tive alguns empregos 'a negro'. Passei por situações difíceis, mas nunca quis pedir o RMG. Tenho dois filhos, de 18 e 15 anos, que vivem com os meus pais, em Braga. Enquanto tiver forças, hei-de lutar", garante, mostrando que não baixa os braços apesar dos reversos da vida.

Sónia (*) tem 28 anos e a família é originária de Portimão. Está no Luxemburgo desde muito nova, fala por isso perfeitamente a língua do país. Mora sozinha num pequeno estúdio com o filho. Mãe solteira, viu-se na rua com uma criança nos braços mas mostra-se parca em palavras sobre esses tempos difíceis que viveu e que lhe deixaram marcas, por exemplo, no olhar, que é sempre bonito, mas triste, mesmo quando sorri. Na "Stëmm" faz serviço de voluntariado em regime de reinserção profissional. Entre as tarefas que ali desempenha, a que mais a satisfaz é o trabalho na Redacção da revista da associação.

Humberto (*), de 42 anos e 38 de Luxemburgo, é natural de Lisboa, também tem a nacionalidade luxemburguesa e foi aqui que viveu quase toda a sua vida. Tem dois filhos de 17 e 15 anos, que vivem com a ex-mulher. Explica ao CONTACTO que tinha uma vida normal até há cinco anos, quando um acidente lhe deu a volta à vida.

"Tinha acabado de encontrar emprego como motorista, mas depois de longos meses hospitalizado, fiquei no desemprego e após isso no RMG", lamenta.

"Gostava de encontrar um emprego adequado à deficiência que o acidente me deixou no pulso e que não me permite fazer todo e qualquer trabalho", diz, acrescentando que é pintor.

“Aqui na 'Stëmm' e noutras estruturas de apoio aos sem-abrigo sempre me trataram bem. Os luxemburgueses têm-me tratado melhor do que muitos portugueses. No Consulado português dizem-nos apenas que não podem fazer nada por nós e é para aqui que nos reencaminham”, lança ainda Humberto no final da conversa com os sem-abrigo que aceitaram partilhar as suas experiências de vida e a sua realidade com o CONTACTO.

Alexandra Oxacelay da "Stëem vun der Strooss", estrutura de apoio aos sem-abrigo, diz:

"O Consulado não sabe quantos portugueses estão sem-abrigo?
Nunca nos perguntaram nada!"

Entre Janeiro e Dezembro deste ano, o centro de apoio aos sem-abrigo "Stëmm vun der Strooss" ("A Voz da Rua") registou a passagem pelas suas instalações em Bonnevoie de 1.005 sem-abrigo: 789 homens e 216 mulheres. Desses, 127 (12,65 %) eram portugueses ou de origem portuguesa (mais um caso do quem 2006): 103 homens e 24 mulheres.

Os portugueses sem-abrigo são, segundo Alexandra Oxacelay, que dirige aquela estrutura, sobretudo "desempregados de longa duração ou ex-detidos, mas a maioria são toxicodependentes, entre os 25 e os 40 anos".

Quando confrontada com o facto de os serviços sociais do Consulado de Portugal no Luxemburgo terem declarado na semana passada ao CONTACTO que desconheciam o número de portugueses sem-abrigo que havia no Luxemburgo, Alexandra Oxacelay responde apenas: "Se nos tivessem perguntado, já faziam uma ideia. Mas nunca nos perguntaram nada!"

"É verdade que nunca perguntámos às estruturas de apoio aos sem-abrigo quantos portugueses lá iam. Quando algum se dirige ao Consulado, tentamos resolver o problema pontualmente e encaminhamo-lo para esses centros que possam auxiliar os mais desvalidos", admite José Araújo, adido social do Consulado.

"O Consulado não tem a possibilidade para dar resposta ao problema nem está assim previsto a não ser encaminhando essas pessoas para estruturas locais", acrescenta.

Recorde-se que, na nossa edição da semana passada, José Araújo tinha declarado ao CONTACTO que o serviço que dirige tinha "apenas conhecimento das pessoas com residência legal no Luxemburgo" e que o Consulado não dispunha de números relativamente aos portugueses que "estão em 'trânsito' ou que não têm domicílio fixo no país".

"O problema de alguns dos portugueses sem abrigo é que estão ilegalmente no país e não podem assim accionar todo o arsenal de mecanismos de ajuda que o Grão-Ducado tem à disposição dos mais desfavorecidos, como o Rendimento Mínimo Garantido (RMG) e outros", tinha ainda acrescentado o adido social.

Alexandra Oxacelay refere que o número exacto de sem-abrigo é difícil de determinar, porque não há dados oficiais. O número avançado pela "Stëmm" refere-se apenas à estrutura de Bonnevoie. A responsável admite que talvez existam até mais pessoas nesse caso, mas que passam por outras estruturas da capital como os centros "Abrigado", "Ulysse" e "Nuetseil" ou a "Abrisud" e a antena da "Stëmm" em Esch/Alzette.

"Cada estrutura tem os seus registos, mas não podemos simplesmente adicionar o número dos sem-abrigo de cada uma, porque há pessoas que dormem na Abrigado ou no Ulysse e também passam pela Stëmm. O número é por isso difícil de determinar", explica.

DAR VOZ A QUEM NÃO A TEM

"Cerca de 40 % dos sem-abrigo são luxemburgueses, mas há também muitos cidadãos dos países de Leste, num total de 76 nacionalidades diferentes. São na sua maioria pessoas solteiras e divorciadas, entre os 25 e os 39 anos. Toxicodependentes, alcoólicos, ex-detidos, desempregados de longa duração ou simplesmente pessoas que não foram bafejadas pela sorte.

Todos os anos há 50 % de novos casos, mas não sabemos o que se passa com os outros que não regressam. Voltam para o país deles, encontram emprego, uma vida melhor... ou morrem. Não sabemos!”, conta a responsável.

A associação, subvencionada pelo Estado luxemburguês, acolhe diariamente os sem-abrigo, nas suas instalações em Bonnevoie e Esch/Alzette, propondo-lhes refeições gratuitas, roupa, apoio moral e psicológico. A equipa de cinco pessoas conta com assistentes sociais e psicólogos, além de uma “mãozinha providencial de muitos voluntários", diz a responsável.

A "Stëmm", que existe há 10 anos, edita uma revista de dois em dois meses distribuída gratuitamente e que serve para sensibilizar a opinião pública para esta temática e "dar voz a quem não a tem". A associação dispõe ainda de um serviço de mediação entre os sem-abrigo e os proprietários potenciais de apartamentos por arrendar, assumindo-se como garante para que assim seja mais fácil a um ex-sem-abrigo arrendar um local para morar, o que lhes é muitas vezes negado pelos proprietários.

“Aqui na 'Stëmm' não dispomos de camas para que os sem-abrigo possam pernoitar. Para isso existem outras estruturas com as quais colaboramos. Mas a meia-dúzia de estruturas que existem no país não chegam para oferecer abrigo nocturno ao milhar de pessoas que precisa. O ano passado morreu um jovem durante o Inverno, porque passou a noite numa cabina telefónica. É dramático, sobretudo num país como o Luxemburgo”, lamenta a responsável, adiantando, no entanto, que consciente do problema, o Estado luxemburguês organiza anualmente de Dezembro a Março a “Acção Inverno” distribuindo vales para os sem-abrigo poderem pernoitar em certos hotéis.

”O problema são aqueles que não passam por estes centros, porque não querem respeitar as regras e já se habituaram a viver na rua”, lamenta.

José Luís Correia (in Contacto e Agência Lusa, 24.12.07)

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Ménage à 3 X 2

Sempre gostei de matemática e sobretudo das multiplicações, de tentar novas fórmulas e equações. O Peter, eterno companheiro das minhas aventuras, sabe disso e convidou-me para a resolução de um problema bicudo: ménage à 3 X 2. Orgia em comité restrito portanto. "Uma coisa descontraída", disse-me ele. Para descansar das festas que fazem sempre estremecer a vizinhança e deixam o apartamento dele em estado de zona sinistrada, pensei eu. Convidou o R., que trouxe a Fati e uma amiga, a Barbara, e eu levei a Jen.

O serão começou como sempre, com conversa de chacha, uns filmes pornográficos a desfilar ininterruptamente na tela e uns copitos para quebrar o gelo entre aqueles que não se conheciam ainda, como era o caso de nós e da Barbara, uma italiana de 26 anos, professora no mesmo liceu que a Fati. A Fati, já a conheço demasiado bem (um dia conto!) e o R. também, mas não destas andanças. Mas não foi uma surpresa total encontrá-lo ali.

Música chill-out, acepipes apimentados, de gengibre e canela, chás de ginseng e pau de cabinda, cerveja belga, alcóois anisados para todos os gostos, uma caixa com anéis púbicos, dezenas de preservativos banalizados, às cores e de todos os sabores, a mesa pós-consoada estava bem posta. O Peter perguntou quem queria meio-comprimido de um produto-milagre que ele compra na net (não é viagra, mas parece!), que põe eréctil qualquer bicho morto em 20 minutos.

A única vez que experimentei, fiquei afinal sem dar a queca. Foi há uns dois anos. Uma francesa, que se me escapuliu por entre as mãos depois de me fazer andar atrás dela o serão todo no Marx! Foi com o rabo a dar a dar entre as pernas. Só me apetecia era enfiar o meu Johnny Thursday nem que fosse no buraco de um tijolo. Nem um duche frio e umas masturbanças frenéticas em catadupa me acalmaram...o ânimo. Depois de três horas, aquela porcaria começou mesmo a doer-me. Sentia o coração a bombear como uma locomotiva. Sei lá se sou cardíaco mas depois disso, merdas dessas, não muito obrigado.

"Hoje, passo!", declinei com a mão. O R. também não quis. O Peter engoliu sem hesitar. Depois, olhando para mim, sussurou qualquer coisa à Barbara num gracejo, que eu não ouvi, nem me interessou. Mas a gaja ficou com ela fisgada em mim, foi o que me pareceu. Gostei do olhar dela, do corpito provocante, mas no sorteio, ela afinal calhou ao R. O Peter com a Jen e eu com a Fatinha. Porra! Não é que a gaja não seja boa, mas é uma maluca que detesto aturar. Até durante as fodas nos fode o juizo. Saltou-me literalmente para cima. Calminha, menina!
Não me queixo, a Fati, desta vez, portou-se bem comigo. Quem sofreu com ela, foi o Peter.

Mas, felizmente que, depois das quecas regulamentares, foi tudo ao molho e com fé. A Barbara veio ter comigo. Já há algum tempo que não provava uma italiana. Cabelos pretos longos, corpo maneirinho, seios pequenos, pernas compridas e finas. Uma queca bem conduzida, bem puxada, a gaja era bastante elástica. Sobretudo quando se empalou em mim, numa espargata alucinante e se recostou para trás, os cabelos a roçar no chão. Disse-me que fazia dança. Foi bastante bom, devo admitir, apesar de ter começado por ficar com alguma apreensão quando me deu o primeiro linguado e colidi com o piercing que a gaja tinha na língua, artíficio cosmético metálico que pouco aprecio. No umbigo, ainda vai. Mas lingua, bico ou clitoris perfurado, foda-se, chega para lá! Com ela fiz abstração e, diga-se em abono da verdade, que a coisa se passou bem. A repetir, com certeza!

Melhor momento - Quando as três se ocuparam exclusivamente de mim. Divinal. Indescritível! Ou quando as três se puseram a divertir sozinhas depois de nos deixarem k.o.

Melhor momento II - A Fatinha, estava a ser comida forte e feio pelo Peter, em cima do grande sofá persa. O gajo estava a martelar-lhe com força, porque sabe que ela gosta assim ou por causa do efeito explosivo do comprimido. Só sei que o cio era tanto que a mola do sofá rebentou e espetou a nádega da gaja. Ela mandou um grito estridente que ele, pensando que ela se estava a vir, chamou-a de "grosse pute". A gaja furibunda deu-lhe com os pés, o gajo caiu de cu no chão. Risota geral.

O Peter tem sempre boas ideias para os dias feriados.

A "Neve" segundo os franceses Dionysos



"Neige" do álbum "Monsters in love" (Maio 2006) dos Dionysos. Recentemente este supreendente grupo gaulês lançou o fabuloso "La méchanique du coeur" (Novembro/2007) , adaptação do romance homónimo de Mathias Malzieu.
Todo um universo em que qualquer semelhança com o mundo de Tim Burton não é apenas pura coincidência.

Let it snow

terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Luxemburgueses ajudam a criar Museu Chaplin

A mansão onde morou Charlie Chaplin durante os últimos 25 anos de vida, em Vevey, na Suiça, encontra-se à venda. A pretensão de transformar o local em Museu Chaplin, vai ser possível graças a dois investidores luxemburgueses que entram no projecto com 30 mil euros, foi revelado esta semana na imprensa suiça.

O nome dos investidores, que assinaram um acordo de compromisso a 20 de Dezembro, vai ser conhecido em Fevereiro, depois das autoridades locais analisarem e autorizarem a transacção.

O projecto data de há alguns anos, mas as autarquias locais não tinham conseguido juntar o montante necessário para a transformação do "Manoir du Ban" em Museu Chaplin.

O Museu (na foto em baixo) deverá ter várias salas de exposição sobre a vida e obra do criador de "Charlot" (foto ao lado), além de uma sala de cinema com 200 lugares, um palco exterior, uma loja e uma cervejaria.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

Jen...Tudo o que quero pelo Natal, és tu!



"All I want for Christmas is you", do filme "Love Actually"

A magia do Natal



Canção "What's this" do filme "The Nightmare before Christmas" de Tim Burton.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Friday night: the fuck fucked...by the bell!

Sexta-feira à noite, 22h30.
"Quero mudar o karma da minha cama..." disse a ruiva de O Sexo e a Cidade à amiga e eu cortei o som e insurgi-me comigo próprio: "Foda-se, mas para que é que eu estou a ver uma cretinice destas?"

Bom, talvez porque é sexta-feira à noite e porque por uma vez o Gaspar decidiu ficar em casa, no aconchego do lar, gozando o regaço morno da Jenny, agora que cultivo há três meses a monogamia exclusiva compulsiva. Calma, não é contagioso, queria experimentar... e estou a gostar. Mas, claro que, como cada bela tem o seu senão, esta relação continuada alterou por completo o meu ritmo de vida. Diurno e nocturno.
Mas é por isso que numa sexta-feira à noite estou frente à televisão a ver lamechices destas? Não! O televisor nem estava aceso.
O serão começou com uma refeição ligeira, seguido de um duche sensual. Os beijos e amassos começaram na banheira, na sequência natural das brincadeirinhas com o champô nas partes pudibundas. O piso escorregadio do local fez-nos, no entanto, optar por outra faixa de aterragem. No sofá, enrolada no seu toalhão, a Jenny recostara-se languidamente para trás, na grande almofada e estendera as pernas nuas sobre um pouf. No movimento de as deixar deslizar uma na outra, como uma femme fatale num filme pulp, o tolhão ia descaindo e desvendava ambrósias apetecíveis.
A Jen estava pronta a ser colhida, como um pêssego maduro que só espera que dois lábios sedentos venham primeiro beijar-lhe a pele em flor e depois sugar-lhe a polpa sumarenta. Eu estava a escolher um cd de chill out tango como banda original sonora da dança horizomtal que se anunciava... e o telefone tocou.
É a Mandy, uma amiga da Jen, que precisa u-r-g-e-n-t-e-m-e-n-t-e falar com ela. E a Jen, eterna samaritana das causas perdidas, como sempre com o coração nas mãos, está lá dentro há 50 minutos a ouvir ladainhas.

Vai disto, peguei, mais por automatismo do que por costume (juro!), no telecomando e liguei o televisor no canal 6, como sempre. Estava a passar um milésimo trigésimo sexto episódio de O Sexo e a Cidade. Só não zappei logo porque uma das gajas da série tinha cruzado um gajo na rua que a convidou para ir beber um café e ela não só aceitou logo como no fim ainda lhe deu o n° de telemóvel ...sem que ele tivesse pedido!!!
E, numa deambulação do espírito, puramente sociológica (re-juro!), dei comigo a pensar: "Balelas! Mas quantas vezes é que este tipo de merdas acontece na realidade?" E antes que pudesse responder a mim próprio "Nunca!", lembrei-me da vez em que aquela francesa se meteu comigo no Marx. Em cima da hora de fecho do bar convidou-me para uma cerveja, depois para a seguir até ao (infame) "Tiffany's" em Metz. Duas horas e meia mais tarde estava no marmelanço com ela, no meu carro, frente a casa dos pais, num daqueles arredores residencais que se parecem todos uns com os outros.

Gasparices! Os tempos agora são outros, menos faustos em quantidade mas largamente compensados em qualidade. Que bom estar em casa à sexta-feira à noite, em vez de andar aos empurrões, com um copo de vodka na mão, num bar apinhado, com miúdas anoréxicas ou candidatas a tal, que nos fazem sentir pedófilos aos 34 anos, e com música de martelinhos insistente e enervante a dar a dar nas têmporas.

Estou a ficar entradote? Que se lixe. Assumo completamente os meus serões cocooning.

Voltei a devolver o pio à Carrie Bradshaw, a quem alguém dizia naquele preciso instante: "Não é que eu não tenha vontade de fazer amor. Mas tenho a impressão que as gerações antes de mim vulgarizaram tanto o sexo que banalizaram o acto!"


01h30 da manhã -

Mas como tão contrário a si é o próprio homem... quando o episódio estava no seu melhor - uma das amigas de Carrie ia começar um threesome - a Jen apareceu em lingerie sugestiva e veio sussurrar-me ao ouvido que queria compensar o tempo perdido.
Penitente, ajoelhou-se diante de mim, massajou-me os boxers, extraiu de lá o meu sexo que se fazia difícil, e prodigou-me uma convidativa felação. Eu até já nem queria. Não, não estava nada distraído com a série!!!... Mas a natureza teve razão de mim. O sangue subiu-me à cabeça e a coisa continuou com um 69 já no quarto. Não aguentando mais, ela ajustou-se em cima de mim para a grande cavalgada. Ouvi a generala Chester ordenar a carga e o tropel deflagrar sobre mim. Depois de ela se vir, pu-la de quatro para algumas investidas selváticas caninas, momento em que deixamos o bárbaro primitivo regressar a nós. Mas foi só depois de ela ficar deitada de costas, com as pernas por cima dos meus ombros e de mais algumas estocadas bem mandadas que consegui por fim também chegar à pequena morte e desfalecer afundado nela.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Luxemburgo versus Bommeleeër (Bombista)

Limpar o pó debaixo do tapete

A expressão pertence a um dos deputados luxemburgueses, reagindo em catadupa face às últimas (r)evoluções que conheceu o caso Bommeleeër , na semana passada.

Depois de dissipado o rumor que envolvia um dos membros da família grã-ducal nos atentados bombistas, os investigadores voltaram a interessar-se por uma das velhas teorias – a do insider [fonte interna, neste caso, "causa interna"]. Dois polícias são agora os principais suspeitos, revelava na semana passada o Procurador de Estado, que já se insurgiu várias vezes contra as negligências cometidas pela polícia ao longo da investigação. A defesa tomada em favor dos dois suspeitos pelo director-geral da Polícia, Pierre Reuland, valeu-lhe uma reprimenda por parte de Luc Frieden. Desconfortável na sua posição de ministro da Justiça e da Defesa (abrangendo esta última o Exército e a Polícia), Frieden sancionou Reuland, admoestando-o a não mais se pronunciar sobre o dossiê. Desconfortável porque Frieden sente que poderá perder a gestão das duas pastas se deixar intensificar o braço-de-ferro entre a polícia e o sistema judicial.

Depois de alguns lamentáveis episódios (tentativas de evasão, suicídios, etc) na prisão de Schrassig, Frieden não pode deixar que mais um dossiê manche o seu mandato.

As investigações sobre os atentados apontam cada vez mais para um ou mais bombistas saídos efectivamente das fileiras da polícia, que conheciam bem as idas e vindas das forças da ordem e os locais que não estavam sob vigilância policial, tendo assim a oportunidade de cometerem 19 atentados sem serem incomodados. Além disso, uma arma pertencente a um polícia havia sido encontrada num dos locais dos atentados, pormenor que, estranhamente, nem sequer constara, até recentemente, no dossiê. Entre outros esquecimentos e desleixos (intencionais?).

A questão é: quem beneficiou com os erros e negligências cometidos durante a investigação? Não é estranho que nem as colaborações do FBI e da polícia científica alemã tenham ajudado na investigação?

Se não for resolvido este espinhoso e opaco caso, em que dominou a falta de transparência voluntária ou involuntária por parte dos investigadores ao longo de mais de duas décadas, quem mais perde é, sem dúvida, o ministro Frieden. Muito mais do qualquer outro responsável da pasta antes dele. A própria polícia e justiça luxemburguesas ficarão profundamente desacreditadas. Se não o estão já! É que a população diz à boca fechada que os verdadeiros culpados nunca serão capturados, mesmo se todos sentem que nunca se esteve tão próximo do desenlace. O mesmo povo que cicia a meia-voz que a brigada encarregada de conduzir as investigações e que fora criada há pouco tempo na altura dos acontecimentos tinha dificuldades em canalizar verbas e efectivos para o seu serviço, reivindicações que foram largamente atendidas após o início dos atentados.

Nesta verdadeira crise de duas das mais importantes instituições luxemburguesas, só a verdade pode evitar que caia "a Gëlle Fra e o Palácio Grão-Ducal" (adaptação livre da expressão portuguesa o "Carmo e a Trindade"). Apenas a verdade, confortavelmente varrida para debaixo do tapete, acabará com os rumores. Mesmo que depois provoque algumas errupções cutâneas ou alergias colectivas.

José Luís Correia (in Contacto, 05.12.07)

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

the two reasons of my good mood

Spricket24...


Spricket24, (aka Karen) lives in Minneapolis (USA) and posts very funny videos. She's allready becoming a star in the US and i can't spend a day whitout watching one of her hilarious videos...and feel in a good mood. She 's very talented and funny...oh, I think I allready said that ;-) Look at her videos on youtube or on her site.


... and Terra Naomi


Terra Naomi is amazing. I believe she's to be next big thing in the independent pop-rock scene. Her debut album is coming out on December but I don't resist to put again here this song ("say it's possible"), my favourite (i allready had posted another version of this song in April on my blog). Until June of this year, she was living in the state of New York, when she was discovered on Youtube, where she posted her songs on video. She's now based, since July, in London, and finished yesterday her first UK tour. Terra Naomi's site here

terça-feira, 30 de outubro de 2007

carvão anacoreta



Desenho de Karla D. Jean (Carvão, 2004) (do site: The Lens Flare)

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

scream



"Je longeais le chemin avec deux amis - c'est alors que le soleil se coucha - le ciel devint tout à coup rouge couleur de sang - je m'arrêtai, m'adossai épuisé à mort contre une barrière - le fjord d'un noir bleuté et la ville étaient inondés de sang et ravagés par des langues de feu - mes amis poursuivirent leur chemin, tandis que je tremblais encore d'angoisse – et je sentis que la nature était traversée par un long cri infini".

"Seguia pelo caminho com dois amigos - foi então que o sol se pôs - o céu ficou de repente vermelho cor de sangue - detive-me, encostei-me esgotado contra o portão - o fiord negro-azul e a cidade estavam inundadas de sangue e lavradas por línguas de fogo - os meus amigos continuaram a caminhar, enquanto eu ainda estremecia de angústia - e sentia que a Natureza estava a ser atravessada por um longo grito infinito."


Edvard Munch: Le_Cri (O Grito), 1893, Nordstrand, Norvège (Noruega)

terça-feira, 23 de outubro de 2007

How To Cope With Depression



"How To Cope With Depression" in Tales Of Mere Existence from the very talented Lev Yilmaz

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

mélancolie


le désir de vie m'ennuie,
l'ivresse des moments m'étouffe,
je ne suis ni le bateau ni le rivage
mais la rivière et je mes sens couler malgré moi
vers un immense destin certain qui m'engloutira
et je ne serais plus rivière ni fleuve ni rien
je hais la destinée, la mer, les nuages, la terre,
ce cycle inévitable, je fais du surplace
et n'arrive pas à m'arracher de mon lit,
à m'évaporer vers d'autres cieux,
à me laisser emporter par d'autres vents,
à me laisser dégouliner dans d'autres gueules,
à me laisser boire par d'autres gorges
je voudrais me tranformer en veines
et en sang et marcher et courir et m'enfuir

A. Weytjens 191007

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

nos meandros da dispersão

Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
(...)
...nem dei pela minha vida...

Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem.

(...)

Não sinto o espaço que encerro
Nem as linhas que projecto:
Se me olho a um espelho, erro-
Não me acho no que projecto.

Regresso dentro de mim,
Mas nada me fala, nada!
Tenho a alma amortalhada,
Sequinha, dentro de mim.

Não perdi a minha alma,
Fiquei com ela, perdida.
Assim eu choro, da vida,
A morte da minha alma.

(...)

E sinto que a minha morte -
Minha dispersão total -
Existe lá longe, ao norte,
Numa grande capital.

Vejo o meu último dia
Pintado em rolos de fumo,
E todo azul-de-agonia
Em sombra e além me sumo.

(...)

E tenho pena de mim,
Pobre menino ideal...
Que me faltou afinal?
Um elo? Um rastro?...Ai de mim!...

Desceu-me n'alma o crepúsculo;
Eu fui alguém que passou.
Serei, mas já não sou;
Não vivo, durmo o crepúsculo.

Álcool dum sono outonal
Me penetrou vagamente
A difundir-me dormente
Em uma bruma outonal.

Perdi a morte e a vida,
E louco, não enlouqueço...
A hora foge vivida,
Eu sigo-a mas permaneço...

(...)

excertos de "Dispersão", de Mário de Sá-Carneiro, Maio de 1913 (Paris)

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

terça-feira, 18 de setembro de 2007

London calling

London, 18.07.2007, Tower Bridge, looking down on the river Thames and "the City"


London, 18.07.2007, Tower Bridge

London calling 2

London, 18.09.07: looking down from Tower Birdge on the East End and the new financial center, Canary Wharf

London, 18.07.09: Looking down from Tower Bridge to the "old" financial center "the City"

London, 18.09.07: Tower Bridge

18.09.07: Manhattan or London? Noooo...It's Canary Wharf!

London, 18.09.07: Downing Street? Nooo... quiet little houses in Wapping village.

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Crítica de teatro

Teatro: Peça "Com pêlo do mesmo gato", no Castelo de Bettembourg

O mote, o dote e a deixa


Com o mote "Com pêlo do mesmo gato", o Centro Dramático de Viana do Castelo trouxe a peça do mesmo nome à sala de festas do Castelo de Bettembourg, no sábado.

Baseado na peça "Similia, Similibus", de Júlio Dinis (1839-1871), o mote da peça "Com pêlo do mesmo gato", trazido pelo Centro Dramático de Viana do Castelo, no passado sábado, à Sala de Festas do Castelo de Bettembourg, e que vai sendo repetido insistentemente durante todas as cenas, é um velho adágio latino professado por Paracelso (1493-1541). Este acreditava que "semelhante cura semelhante" ("similia similibus curantur").

A história faz-nos viajar até ao ano de 1857. Uma família da alta burguesia portuguesa tem uma filha donzela (Sílvia Santos) de 18 anos por casar. O noivo e primo (Ricardo Simões) está a terminar a formatura em Direito na Universidade de Coimbra. Mais versado em botequins e namoros do que em leis e fidelidades, quando este regressa para casar, o pai da noiva (Tiago Fernandes), furioso com os excessos do sobrinho, decide uni-la com um homeopata (Jorge Filgueiras) que o anda a curar com "copinhos de água", um charlatão mais interessado no dote e na criada (Francisca Lima) do que na virtude intacta da menina rica.

Ainda a meio da primeira cena, o ano de 1857 mistura-se com 2007. O espectador entra na comédia da comédia e é convidado a assistir ao ensaio geral da peça, às peripécias e nervos dos actores em véspera de estreia. O noivo garboso é afinal interpretado por um actor efeminado que não consegue beijar a jovem actriz que desempenha a donzela, uma miúda modernaça e com pouca pachorra para mariquices. Mas lá está a Dona Beta (Elisabete Pinto), a actriz principal e "chefona" do grupo de teatro, para pôr ordem em tudo. "The show must go on!" (o espectáculo tem que continuar!), exclama a "grande actriz" em extâse devoto.

O público, primeiro surpreendido pela volta dada ao texto de Júlio Dinis, deixa-se seduzir muito rapidamente, adere, ri e aplaude. A prova de que o público português no Luxemburgo também gosta de teatro se souber ser seduzido por este.

A ideia de promover este serão cultural nasceu de Orlando Pinto, proprietário da Sopinor, empresa de construção criada no ano de 2002, em Bettembourg. O empresário conta que cada vez que vai de férias a Portugal, a irmã, Elisabete Pinto, o convida sempre para ir ver as suas peças. "A vontade de trazer ao Luxemburgo o grupo de teatro em que ela trabalha existia há muito, mas só agora foi possível concretizá-la!", diz. Um investimento de seis mil euros que "valeu a pena", já que a sala, com capacidade para 280 pessoas, estava praticamente cheia. "Considerando que no dia da peça muitos portugueses ainda não tinham regressado de Portugal e tendo em conta que era um serão de futebol" (n.d.R.: o jogo Portugal-Polónia para as eliminatórias do Europeu de 2008 teve lugar nessa noite), "estou muito contente pela afluência do público", confiou Orlando Pinto, que não exclui a eventualidade de voltar a trazer a companhia ao Grão-Ducado (ver também o artigo em caixa).

José Luís Correia, in Contacto ,12.09.07

Ana Moura & The Rolling Stones

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

fora de tempo

é cedo? é tarde?
quem estabeleceu regras?
isso não? isso sim?
é inteligente? é alarve?
vens cá? não vens?
ai de nós! ai de mim!
estamos a tomar as decisões certas?
não somos vítimas, apenas reféns
da nossa utopia.
és minha? não queres ser minha?
pouco tempo, pouco tempo...
hoje não, outro dia!
hã, ... outro dia?
não tenho sede, estou sedento...

pouco tempo, pouco tempo...
e o passado a perseguir-nos,
tens de libertar-te dos farrapos,
velhos são os trapos
ainda há tempo
para conseguirmos tudo
os fantasmas estão em ti
acredita em mim
não quero mais ser mudo!
o que foi já não volta a ser
se tu também quiseres ver.

Vem, vamos começar algo de inteiramente novo,
inteiramente bom, inteiramente nós,
pego nos pincéis de cordel,
pegas na pauta de lós,
canta comigo, dança comigo,
olhos meus, lábios de mel,
vamos desenhar uma aurora luminosa,
com cores de ti e de mim,
iguais às manhãs de ouro e de cetim,
queres esquissar comigo a linha recta,
o destino, o futuro, o horizonte e o lume,
em que os outros não quiseram acreditar?
vamos tranformar,
todo este estrume,
em qualquer coisa de concreta,
em qualquer coisa de nós.

é agora? ou nunca?
temos tempo, temos tempo...
esperarei por ti, meu amor!
pensas que já não sei usar este músculo
chamado coração? sabes, fiz musculação ;-)
não morreu, não parou
mirrou, ficou minúsculo,
mas depois cresceu
com os teus olhos, os teus beijos, no teu céu
tomou fôlego, ruborizou
dá-me a tua mão,
devagar, um passo depois do outro,
não queremos que isto nasça torto!

Não tenhas medo
olha em frente
acordámos na aurora nova que resplandece
deixou de ser segredo
se quiseres acreditar
na tua estrela daqui em diante
na flor frágil que luta e cresce
que se agarra serôdia à terra
fora de tempo
como uma bela quimera
que nem a traição nem o vento
hã-de conseguir arrancar.
A nossa alma. O nosso Amor.


JLC310807

domingo, 26 de agosto de 2007

Fado cismado

Eu pensava que o fado
era uma sina torta
na mão de um desgraçado
que um dia te bate à porta
e que tu tens de aceitar calado.
[e que tu tens de receber calado]

Eu pensava que o fado
era apenas um xaile e uma canção
triste sobre a saudade e o passado
mas é o porão da minha alma apagada
e todo o novelo da minha vida magoada.

Eu pensava que o fado
era uma guitarra e uma nau que partem de um cais
[era uma guitarra numa nau que nunca mais regressa ao cais]
mas não o teu coração transviado
de já não me amares mais
de já não seres meu
como as estrelas pertencem ao céu.

Eu pensava que o fado
era sempre escrito pela mão de Deus.
Mas olha como corre no meu sangue,
na minha vida e na minha voz.
Eu cismava, mas agora canto
porque o fado fala-me de nós
do sopro que o teu coração deixou no meu.
[do rasto que a tua mão
deixou no meu coração]

JLC 260807 / Lago de Echternach
Vem comigo

A banda original sonora da minha vida está riscada
passo como um fantasma por ela
como se apenas a assombrasse
como se apenas tivesse dela
o ténue e translúcido retrato
que deixam os dedos suados
numa vidraça entre dois mundos indistintos.

Turista de universos paralelos
passageiro da vida
como se observasse tudo de outro lugar.

Devolveram-me o rascunho.
Desenha outro!, ordenaram-me.
Mas eu fiz birra, disse que já não queria, era o que faltava!
Desatei aos pontapés com a vida
e com um revés de mão violento
varri do estirador a minha dor
e todos os meus papéis certinhos
misturei o passado ao futuro
porque já não tenho, não estou nem sou presente.

Tinha saudades do que podia ser
procurava incansavelmente o círculo que não existe.
Tudo é apenas alucinação, vertigem
e eu caí na espiral, na miragem.

Preciso escapar de mim mesmo
para sair ileso daqui.
A vida é um caminho
que não vai dar a lugar nenhum,
mas tu gostas de pensar que sim,
porque é isso que te faz correr, pular, dançar, amar,
dar cambalhotas no lençol.

O nosso encontro não foi por acaso.
Acredito que tens de me dar a tua mão.
Eu também estou perdido,
mas juntos vamos conseguir sair daqui,
ou pelo menos não nos vamos perder em nós.

Não olhes para trás, já lá nos fizeram demasiado mal.
Eu sei que tens medo, agarra-te bem a mim.
O nosso encontro não foi por acaso.
Há um caminho que conduz a qualquer lado
não sei bem onde, mas não podemos ficar aqui.

Despe-te!, ouve o que eu te digo.
Retira os trapos que os outros te vestiram
e apontaram e disseram que eras tu.
Eu quero-te só a ti e tu não és assim!
Diante dos teus espelhos tens de estar nua.
Olha para mim, pensas que acredito na perfeição?
Procuro apenas a sinceridade do coração,
uma alma sem anemia, um peito que não teme entregar-se.

Quanto menos sentido o mundo faz
mais procuro um sentido a tudo isto
um caminho que explique o princípio e não o fim.

Não fiques para trás, já nada te espera aqui,
apenas cinzas do passado,
vestígios baços dos dias em que acreditámos,
estrume do que podia ter sido.
De que vale um futuro que não foi,
os sonhos prometidos, arrancados como espinhos
ao coração, um beijo de amor, que já não significa nada?

Vem comigo! Descalça e nua, comigo, até ao fim deste trilho.
Não é um castigo, é uma oportunidade, tens de acreditar!
Não em mim! Em ti!

Este não é o teu fado, o teu destino escolhes tu!
Amor é ferida que não se sente e que arde sem se ver?
Olha as minhas veias abertas, achas que já não sangro?
Repara nas pontas queimadas dos meus dedos,
já brinquei demasiado com o fogo.

Eu sei que estamos perdidos, mas para escaparmos daqui,
temos apenas de seguir em frente,
chega de bifurcações, de desvios,
não olhar mais para trás, mas para diante.

Vais passar quanto tempo aqui,
a contemplar as lágrimas e o sangue do nosso desengano?
Não esperes a noite, que é escura e fria.
Se quiseres o meu abraço, não peço nada em troca,
apenas que venhas comigo.

Não sei por onde vou, mas sigo o instinto da luz,
a fragrância da manhã que há-de nascer,
com a promessa de um novo dia.

Caminha só um pouco comigo,
não me deixes sozinho neste caminho,
eu também tenho medo do desconhecido.

JLC 260807 / Lago de Echternach

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

O que são os Cadernos do Gaspar?

Na minha curta e cometaica carreira literária, assumo-me com o pseudónimo Alexandre Gaspar Weytjens, ou só A. Weytjens ou apenas Gaspar (aka AGW). Foi uma personagem que me nasceu entre as entranhas e o cerebelo (e acreditem que doeu!) por volta de 1994, em pleno 2° ano de faculdade, em Estrasburgo, quando me foi solicitado para participar no jornal literário da Residência Universitária Paul Appel. Ao contrário de outras esquizofrenias benignas (Daniela A. ou F.F. Júnior), esta vingou.

Durante muito tempo, A. Weytjens escreveu para a gaveta ou para um público mais ou menos escolhido a dedo, que sempre o reconfortou com elogios qualitativos que careciam obviamente, como espectadores próximos do objecto que eram, de rigor e objectividade.

Quando começou a ser lido por um público maior do que o seu círculo de amizades, sem quase dar por isso, muito graças ou por causa do sucesso crescente do blog Os Cadernos do Gaspar, passou a responder naturalmente ao nome de... Gaspar.

O primeiro volume dos meus cadernos está disponível online em www.cadernosgaspar.blogspot.com e foi escrito num dia-a-dia fictício e extrapolado das minhas próprias vivências e no fim de contas desembocou num pequeno romance "pulp" erótico-romântico-policial. A sua leitura deve ser efectuada seguindo as datas em que foram escritos os cadernos de modo a entender-se o enredo da história.

O segundo volume, inteiramente independente do primeiro, está disponível em www.cadernosgaspar2.blogspot.com , e é, para já, uma sebenta de anotações esparsas, pensamentos ociosos, reflexões cadentes, poemas difusos, introspecções de uma filosofia mais ou menos opaca dos meus dias.

Por vezes, acrescento um clip youtubano ou excertos de livros que estou a ler para proporcionar aos meus leitores férias da minha torpe literatura e da minha não menos ilustre rotina. A sebenta dos cadernos pode ser lida aleatoriamente.

JLC (The Real McCoy)

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

hoje decidi que...

Punkt. Period. Ponto final, parágrafo. Aliás, virar a página. Tourner la page. No more drama. No more pain.

terça-feira, 21 de agosto de 2007

"And what can I tell you my brother, my killer, what can I possibly say?"

(Aaron, "Famous blue raincoat")

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

God zooming on me?


"Todos dizem que Deus é mudo, mas ninguém pensa na surdez dos homens!" / "Tout le monde dit que Dieu est muet, mais personne ne pense que les hommes sont sourds!"

Michel Boujenah (humorista francês/humoriste français)

domingo, 19 de agosto de 2007

domingo inane


Ai que prazer
não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal
como tem tempo, não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto melhor é quando há bruma.
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças,
Nem consta que tivesse biblioteca...

Fernando Pessoa, "Liberdade"

rainy sunday, sleepy afternoon

walk away!

It was cool but it was all pretend
wasn't long till I called you mine
I even fell for that stupid love song
how come i'd never hear you say
I just wanna be with you
guess you never felt that way
but since you been gone
I can breathe for the first time
i'm so moving on
you had your chance, you blew it
I’m looking for attention
not another question
should you stay or should you go
well if you don’t have the answer
why you still standing here?
just walk away!

What you see's not what you get
With you there's just no measurement
No way to tell what's real from what isn't there
Your eyes they sparkled
that 's all changed into lies that drop like acid rain
you washed away the best of me
you don't care
you know you did it
I'm gone
to find someone to live for in this world
there's no light at the end of the tunnel tonight
just a bridge that I gotta burn
you are wrong
if you think you can walk right through my door
that is just so you
coming back when I've finally moved on
Sometimes shattered
Never open
Nothing matters
When you're broken
That was me whenever I was with you
Always ending
Always over
Back and forth, up and down like a rollercoaster
I am breaking
That habit
Today
I'm already gone
there is nothing you can say
sorry doesn't cut it babe
take the hit and walk away
'Cause I'm gone
Doesn't matter what you do
It's what you did that's hurting you
All I needed was the truth
Now I'm gone

I want a love
I want a fire
To feel the burn, my desires
I want a woman by my side
Not a child who runs and hides

(Kelly Clarkson Random Listening - adapté des chansons de Kelly Clarkson, "since you been gone", "gone" et "walk away")

ride the snake

"Preferir o saber dos caminhos à frivolidade do pensamento das sobrancerias, cavalgar a linha branca da estrada. (...) Para um escritor, a única forma de viajar é improvisando, flanando..."

Bernard-Henri Lévy, "American Vertigo"

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

échafaud II

quand l’épée te traverse aussi soudainement, tu la sens toujours?

quand la dague s’est plantée tellement profondément que tu ne sais plus si c’est de la douleur , ressens-tu toujours le coup porté?

quand le sang te coule encore chaud des mains, le reconnais-tu comme tien?

quand tu n’entends plus le vaccarme du coup de feu e que tu constates le trou noir sur ta poitrine fumante, est-ce le moment opportun pour savoir que tu dois mourir?

quand le brûlis dévaste une nouvelle fois la terre est qu’elle n’est plus combustible, que reste-t-il à brûler?

quand tu perds pied e que tu sais que la mer va te remplir la gueule et les narines et les orbites des yeux, es-tu encore en vie pour penser à tout celá?

quand le désert te brûle les poumons avec sa poussière, as-tu encore soif?

quand tu passes en vol plané par le dixième étage en fonçant droit sur le sol, sens-tu encore tes veines qui pulsent à l’envers?

quand tu te désintègres en un seul souffle d’explosion, que deviens-tu?

quand le soleil se noircit e il ne fait plus jour ni nuit, où es-tu?

quand tous te disent que tu es un monstre, dois-tu continuer à vivre?

Docilement, tu t’agenouilles devant tes bourreaux,

les yeux bien ouverts tu aperçois la vérité dans les leurs,

tu couches ta tête sur le bout de poutre

tu remets ta nuque à la justice

la foule en délire se taît haletante

le ciel respire une, deux fois,

pendant quelques brefs instants tu as la sensation que tu arrives a entendre le soleil qui brûle.

Soudain, tu n’entends ni ne sens plus rien.

La main de l’ange est-elle intervenue pour toi, stoppant net le dernier instant?

Tu peux lever les yeux?

Si ton sang ne coule pas autour de toi, est-ce bon signe?

S’il n’y a plus de foule, ni de lame, ni de ciel,

et que le soleil est noir e qu’il ne fait plus jour ni nuit, où es-tu?



AGW

cadafalso II

quando a espada te atravessa tão repentinamente, ainda a sentes?
quando o punhal foi tão fundo que tu já não sabes se é dor que desatina sem doer, ainda é golpe?
quando o sangue te escorre das mãos e ainda está quente, ainda é teu?
quando já não ouves o estrondo do tiro e vês o buraco negro no teu peito fumegante, é a altura certa para saberes que deves morrer?
quando a queimada devasta mais uma vez a terra e ela já não é combustível, o que mais há para arder?
quando perdes pé e sabes que o mar te vai encher as goelas e as narinas e as órbitas dos olhos, ainda estás vivo para pensar nisso tudo?
quando o deserto te queima os pulmões com pó, ainda tens sede?
quando passas a voar pelo 10° andar a caminho do solo, ainda sentes as tuas veias a pulsar arrepiadas?
quando te desintegras num só sopro de explosão, para onde vais?
quando o sol fica negro e já não é dia nem é noite, onde estás?
quando todos te dizem que és um monstro, deves continuar a viver?
...
Docilmente, ajoelhas-te perante os teus carrascos,
de olhos bem abertos vês a verdade nos seus,
deitas a cabeça no madeiro,
entregas a nuca nua à justiça,
a multidão em delírio cala-se ofegante,
o céu respira uma, duas vezes,
durante uns breves instantes tens a sensação que consegues ouvir o sol a arder.
De repente já não ouves, não sentes nada.
A mão do anjo veio intervir por ti e paralisou o derradeiro momento?
Já podes levantar os olhos?
Se o teu sangue não escorre à tua volta, é bom sinal?
Quando já não há multidâo, nem gume, nem céu,
e o sol ficou como bréu e já não é dia nem é noite, onde estás?

AGW